Existem eventos que marcam o processo histórico, por que são pontos culminantes de grandes fluxos de poder, de idéias e de movimentos de países na ordem internacional.
Recentemente acompanhamos acontecimentos que tiveram forte significado histórico global, são paradigmáticos e estão concatenados:
- Em 2008 a quebra do sistema financeiro americano, foi um marco, significou o declino do poder e dinâmica dos EUA.
- Também em 2008 a impressionante olimpíada em Pequim trouxe em si a emergência de uma nova potência global.
- Em 2010 tivemos a crise financeira grega, que trouxe no bojo o ocaso do Euro, a idéia e a força da União Européia ficaram comprometidas.
- Agora presenciamos a vitoriosa mediação brasileira com participação da Turquia para alcançar um acordo com o Irã sobre uma parte de seu programa nuclear.
Hoje o mundo está sujeito a uma hegemonia dos EUA+OTAN, com amplo predomínio dos EUA, mas este jogo sempre será de confrontações de forças relativas, e o resto do mundo migra lá e cá entre sucumbir, confrontar, esgueirar-se ou construir novas alternativas.
Este processo é rico, diverso e não linear, e nenhum país tem obrigação ou vai seguir um ou outro caminho, e a história é pródiga em apresentar movimentos inusitados.
O caso do Irã é marcante, é um caso direto de ação imperial dos EUA+OTAN, tratam de tentar levar o Irã ao colapso, maquinam uma troca de regime (similar ao que os EUA fizeram nos anos 50, derrubando o governo eleito do Irã e instalando o Xá).
É muita coisa em jogo, o domínio do Irã é um objetivo consolidado dos EUA, que tem como diretriz estratégica desde 1930, controlar as fontes de petróleo, para suprir as demandas de sua economia e forças armadas, assim como viabilizar o controle estratégico global.
Já está se tornando consenso que o mundo está entrando no pico petrolífero, em alguns anos a produção de petróleo entrará em um descenso inexorável, com seríssimos impactos na economia e poder mundiais.
Vem daí o movimento incisivo dos EUA+OTAN para o controle das reservas existentes, e o Irã é chave nesta questão pelo tamanho de suas reservas de petróleo e gás.
Não devemos esquecer que a força dos EUA também reside na força de sua moeda, hoje sendo sistematicamente substituída nas trocas internacionais, o Irã por sua vez trata de vender seu petróleo em outras moedas que não o dólar, no seu próprio interesse nacional.
Lembremos um evento de poucos anos atrás, o caso do Iraque, também possuidor de grandes reservas de petróleo, que também decidiu parar de vender em dólares, da mesma forma foi montada uma coalizão político midiática similar a atual contra o Irã, também baseada em um monte de mentiras sobre armas de destruição em massa.
Assim, demonstra-se que pouco importa o que o Irã faça, diga ou tenha, o objetivo do jogo é quebrar o país e substituir seu governo por outro submisso aos países do norte.
Após meses de forte pressão dos EUA para que o Irã acedesse a troca de material nuclear fora do seu território, no mesmo instante que foi anunciado o acordo pelo Brasil, Turquia e Irã, os EUA+OTAN apressaram-se a dizer que isto não importa, que os motivos e necessidades de novas sanções ao Irã permanecem.
Aí está o ponto nevrálgico da questão, tamanha a força dos interesses calcados nos projetos estratégicos dos EUA+OTAN, o que não é pouco, nosso país, na ação de nosso hábil e carismático presidente, realiza um acordo que destrói grande parte da retórica belicista contra o Irã.
Esta realidade pesadíssima do jogo de poder mundial é sintetizada no semblante fechado do Lula nos dias desta vitória diplomática espetacular de seu governo.
Este é grande significado histórico deste evento, o Brasil, um país com uma história de 500 anos de prática submissão à hegemonia de europeus e americanos, da um passo ousado e altamente independente, rasgando parte da estratégia das grandes potências, construindo um consenso de entendimento na direção da paz e da independência dos países periféricos.
Dá para apostar que de quebra o homem ainda vai ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
Não nos esqueçamos o que é ser força hegemônica – EUA -, mais que poder militar, vale o poder político de influenciar o resto do mundo, calcado entre outra coisa num arsenal de armas midiáticas de destruição em massa, onde a grande mídia nacional é apenas mais um de seus cães de guerra.
O consenso contra o Irã foi artificialmente fabricado pelo arsenal americano de mídia, é de sentir vergonha ver as empresas de comunicação do Brasil repetirem incansavelmente os argumentos e estratégias americanas, contra até os interesses do nosso próprio país.
Neste evento o Lula provou-se um estadista, contrário a fácil opção política de acomodação interna e externa, nosso presidente deu um passo inusitado e arriscadíssimo, e ganhou, provou suas qualidades políticas, seu brio, o que vai reverberar por longo tempo, foi um acontecimento de perfil histórico mundial.
Waltinho,
ResponderExcluirLula foi muito bem nesta questão,demonstrou mais uma vez toda sua habilidade politica,devo reconhecer.
Se tudo correr como o esperado,é licito afirmar que será forte concorrente ao Nobel!
grande abraço