Águas turvas e a privatização da Corsan: quando a conta chega para quem sempre paga
Por Walter Azevedo

O noticiário recente do Rio Grande do Sul nos oferece uma imagem poderosa para compreender as engrenagens do capitalismo dependente brasileiro. As chuvas torrenciais que castigaram o estado em 2024, deixando um rastro de destruição e luto, revelaram a face mais grotesca de um processo que muitos insistem em tratar como mera "modernização administrativa". A privatização da Corsan, a companhia estadual de saneamento, não foi um acidente de percurso — foi um ato político planejado para entregar um bem essencial ao capital privado. E agora, com as águas turvas da crise climática e da gestão privada, quem paga a conta?
A aparência da "eficiência" e o desastre anunciado
Quando o governo do Rio Grande do Sul, sob a batuta de Eduardo Leite, vendeu a Corsan para o grupo equatoriano Aegea em 2022, o discurso era o de sempre: a iniciativa privada traria eficiência, investimentos e, finalmente, o fim dos esgotos a céu aberto. A promessa era de R$ 15 bilhões em investimentos até 2033. Um cheque para o futuro, sacado contra a esperança de uma população que há décadas convive com a falta de saneamento básico. No entanto, a realidade concreta, como sempre, se encarrega de desmentir a propaganda.
As enchentes de 2024 não foram uma catástrofe natural pura e simples. Foram um evento climático extremo potencializado pela crônica falta de planejamento e pela lógica do lucro que orienta a gestão privada. Bairros inteiros de Porto Alegre e do interior ficaram submersos por dias, e a Corsan, agora privada, se viu impotente para retomar o serviço. Faltaram bombas, faltaram geradores, faltou capacidade de resposta. A empresa, que havia prometido modernização, mostrou que sua prioridade não era a resiliência do sistema para a população, mas o retorno financeiro para seus acionistas. O desastre natural virou um desastre político e social, expondo a fragilidade de um serviço público entregue à lógica do mercado.
A essência da contradição: lucro privado, risco público
A análise dialética nos obriga a ir além da superfície. O que a privatização da Corsan revela não é uma "falha de gestão", mas uma contradição estrutural do capitalismo. A água, como o ar, é um bem comum, indispensável à vida e à reprodução social. Entregá-la à iniciativa privada significa subordinar a sua distribuição e tratamento à lei do valor: o que não dá lucro não é feito.
Os contratos de concessão, em geral, estabelecem metas de universalização (levar água e coleta de esgoto a 99% da população), mas deixam brechas para que as empresas priorizem as áreas mais rentáveis, os centros urbanos consolidados. As periferias, as áreas rurais e as zonas de risco (como as margens de arroios e encostas) ficam para depois. A crise climática, com seus eventos extremos cada vez mais frequentes, torna esse modelo criminoso. Quando a enchente veio, a empresa privada não tinha estoques de emergência, não tinha planos de contingência robustos e, o mais grave, não tinha interesse em investir em infraestrutura que só seria usada em situações de exceção. O custo do desastre? Socializado. O lucro da operação? Privado. Essa é a equação perversa que precisa ser desnudada.
"A água não é um produto qualquer. É a base da vida. E, numa sociedade de classes, transformar a água em mercadoria é um ato de violência contra a classe trabalhadora, que sempre pagará, com sua saúde e seu bolso, pela ganância do capital."
Quem ganha, quem perde e o que fazer?
O movimento de privatização do saneamento não é um caso isolado. Ele se insere em um processo mais amplo de espoliação dos serviços públicos, que já discutimos aqui ao falar sobre a privatização da água e da energia. É a mesma lógica que transforma a educação, a saúde e a previdência em mercadorias. O capital financeirizado, em sua fase atual, busca novos setores para se valorizar, e o saneamento, com seus fluxos de caixa estáveis e garantidos por contratos de longo prazo, é um prato cheio.
- Quem ganha: O grupo Aegea, seus acionistas (incluindo fundos de investimento internacionais), os bancos que estruturam a operação e a parcela da classe do capital que se beneficia da drenagem do fundo público.
- Quem perde: A classe trabalhadora gaúcha, que paga tarifas mais altas (o reajuste anual da Corsan após a privatização foi de 6,5% acima da inflação) por um serviço pior, e ainda arca com os danos sociais e ambientais das crises que o modelo privado agrava. Perde também a soberania do estado sobre um recurso estratégico.
Diante desse cenário, a saída não é clamar por uma "privatização bem feita" ou por uma "regulação estatal forte". A história demonstra que a regulação é capturada pelo capital. A única alternativa coerente com os interesses da nossa classe é a reestatização do serviço. Não se trata de um saudosismo estatizante, mas da retomada do controle público sobre um bem essencial, submetendo-o à gestão democrática, com controle social dos trabalhadores e das comunidades. Precisamos articular a luta em defesa da água como um direito humano e um bem comum com a luta contra o projeto neoliberal que tem destruído o Brasil.
Referências e dados para aprofundamento:
- Relatório "Crise Hídrica e Saneamento no RS" – Observatório das Metrópoles (2024).
- Dados de reajuste tarifário da Corsan após privatização – AGERGS (Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS), 2023.
- As promessas de investimento versus a execução real nos primeiros 18 meses de gestão da Aegea no RS – Reportagem do Sul21 (março/2024).












