Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da Inteligência Artificial
Em agosto de 2025, a CNN Brasil divulgou um dado que pareceu, à primeira vista, confirmar o senso comum dominante: a inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros. A notícia foi saudada nos círculos empresariais e midiáticos como a confirmação de que a "revolução tecnológica" está finalmente consolidada no país. Escolas de programação lotam, cursos de prompt engineering pipocam nas redes sociais, e editoras apressam-se em lançar guias para "sobreviver à era das máquinas inteligentes". O discurso dominante é claro: ou você se adapta, ou será substituído.
Mas a mesma pesquisa que revela a penetração massiva da IA também trouxe à tona um fato incômodo, quase um ruído no concerto celebratório: apenas 54% dos brasileiros entendem o que é a tecnologia. Quase metade da população convive com algo cujo funcionamento, lógica e implicações ignora profundamente. Não se trata, evidentemente, de uma falha individual de compreensão, mas de um fenômeno estrutural que revela como o desenvolvimento tecnológico, na ordem social capitalista, tende a se dar de forma desigual e combinada — beneficiando uns, excluindo outros, mistificando a todos.
Diante desse cenário, uma pergunta se impõe com urgência: se as máquinas podem gerar texto, imagem, música e até estratégias de marketing, qual o sentido de continuar produzindo conteúdo? A resposta, insisto, não é técnica — é política.
A aparência: a máquina que "escreve sozinha"
No primeiro momento da análise — a aparência fenomênica —, a inteligência artificial generativa parece realizar o sonho antigo da automação completa do trabalho intelectual. Ferramentas como ChatGPT, Claude, Midjourney e suas congêneres brasileiras são apresentadas como substitutas do redator, do designer, do estrategista de conteúdo. Basta digitar um prompt e, em segundos, um artigo de blog de 1.500 palavras, completo e gramaticalmente impecável, é gerado.
Publicações especializadas, como aponta a Serasa Experian em dezembro de 2025, já destacam as "habilidades essenciais na era da IA" como diferenciais competitivos no mercado de trabalho. A mensagem é clara: o profissional que não souber operar essas ferramentas estará fora do jogo. O trabalhador intelectual é convocado a se requalificar — sob pena de exclusão laboral — para dominar a mesma tecnologia que ameaça seu posto.
Nessa superfície, a conclusão parece simples: criar conteúdo é uma atividade obsoleta. Se a IA pode gerar textos sob demanda, por que uma empresa ou um profissional autônomo perderia tempo escrevendo? O marketing turístico, por exemplo, já incorpora ferramentas de IA para produzir descrições de destinos, roteiros personalizados e respostas automatizadas a clientes, conforme relata o Portal Panrotas em outubro de 2025. A automação avança em todas as frentes.
A essência: o conteúdo como mercadoria e a lógica da produção capitalista
Mas é preciso ir além da aparência. Se a IA gera textos, ela não gera sentido. Ela não interpreta o mundo — ela reorganiza probabilisticamente fragmentos de linguagem pré-existentes. O que chamamos de "criação" na inteligência artificial é, rigorosamente, um processo de recombinação estatística de informações já disponíveis. Não há ali sujeito, nem experiência, nem posicionamento político, nem contradição — apenas a mediana do que já foi dito.
O conteúdo gerado por IA, portanto, é a expressão mais acabada da lógica capitalista de produção: ele uniformiza, padroniza e elimina o que há de singular em nome da eficiência. Se 100 pessoas usarem o mesmo prompt para escrever sobre um tema, obterão variações mínimas de um mesmo texto médio. É a produção em série aplicada à palavra — a subsunção real do trabalho intelectual ao capital, como Marx já entrevia no "Fragmento sobre as máquinas" dos Grundrisse.
O problema é que, na era da IA, a abundância de conteúdo não significa diversidade de ideias. Ao contrário: quanto mais máquinas geram textos, maior a homogeneidade do discurso público. O debate sobre educação midiática e literária, apontado pelo Nexo Jornal em outubro de 2025 como componente essencial da formação contemporânea, ganha aqui uma urgência concreta: formar sujeitos críticos diante da avalanche informacional significa, antes de tudo, ensinar a distinguir o que é pensamento genuíno do que é simulação probabilística.
Esse é o nó da questão: na era da IA, criar conteúdo não é mais apenas escrever — é resistir à uniformização do discurso. É afirmar que existe um lugar para a experiência subjetiva, para a análise que não se repete, para o ponto de vista que não deriva do consenso estatístico.
A suprassunção: o conteúdo como ato político na era das máquinas
Não se trata, evidentemente, de rejeitar a tecnologia. O pensamento dialético não é a defesa ingênua do artesanal contra o moderno — isso seria romantismo reacionário, como bem apontou Walter Benjamin em seus escritos sobre a reprodutibilidade técnica. Trata-se, antes, de compreender que a IA, como toda ferramenta, carrega em si as marcas das relações sociais que a produziram e que ela reproduz.
O uso da inteligência artificial na produção de conteúdo pode ser submetido a dois caminhos opostos: o da subsunção — no qual a ferramenta dita o conteúdo, padroniza a forma e elimina a singularidade — ou o da apropriação crítica — no qual o produtor de conteúdo utiliza a tecnologia como meio, não como fim, mantendo o controle sobre o para quê e o para quem se escreve.
É precisamente aqui que o conceito de soberania digital ganha corpo. Em artigo publicado em maio de 2025, abordamos como a soberania política brasileira passa, necessariamente, pela capacidade de decidir sobre a infraestrutura tecnológica que nos atravessa. Se a produção de conteúdo for inteiramente delegada a modelos de linguagem treinados majoritariamente em inglês e a partir de bases de dados estadunidenses, o que restará da nossa capacidade de narrar o Brasil para nós mesmos?
A dialética da palavra, explorada no artigo sobre "Escritores, Big Techs e a Dialética da Palavra", mostra como o ato de escrever — longe de ser uma atividade meramente técnica — é um campo de disputa política. As Big Techs não vendem apenas ferramentas; elas vendem um modelo de mundo, uma forma de organizar o conhecimento, uma hierarquia de valores. Resistir a isso é, em última instância, um ato de afirmação da soberania cultural.
Forças em disputa na conjuntura atual
Para compreender o cenário, é preciso mapear as forças sociais em disputa. De um lado, temos o bloco das Big Techs e do capital financeiro global, que empurra a adoção acrítica da IA como solução universal para todos os problemas. Para esse bloco, o conteúdo é uma mercadoria como outra qualquer — e, como tal, deve ser produzido com o menor custo possível. A substituição do trabalho humano pela máquina não é um efeito colateral; é o objetivo.
De outro lado, temos o bloco dos trabalhadores intelectuais e da classe trabalhadora em geral, que enfrenta a desvalorização do seu trabalho, a precarização das condições laborais e a perda de controle sobre o processo produtivo. A publicação da Serasa Experian, ao listar "habilidades essenciais na era da IA", revela menos um convite à qualificação do que uma ameaça: adapte-se ou seja descartado.
Há ainda um terceiro ator: o Estado brasileiro, que oscila entre a submissão aos interesses das Big Techs e a tentativa de construir uma política de soberania digital. A ausência de um marco regulatório robusto para inteligência artificial no Brasil — a despeito dos debates no Congresso — é sintoma dessa ambiguidade. Privatizar empresas estratégicas como a Petrobras e o Banco do Brasil, como discutimos em artigo recente, não é apenas uma questão econômica: é entregar instrumentos essenciais de planejamento nacional exatamente no momento em que o país mais precisa deles para enfrentar os desafios tecnológicos.
O que está em jogo na disputa pelo conteúdo não é apenas quem escreve, mas quem define o que pode ser dito. Em uma sociedade onde 93% das pessoas têm acesso à IA, mas menos da metade a compreende, o fosso de letramento digital não é um acidente — é uma condição para que o capital mantenha o controle sobre a produção simbólica.
Da dispersão à organização: o conteúdo como prática coletiva
Se o diagnóstico é crítico, a resposta não pode ser individual. A tendência predominante no discurso dominante é responsabilizar cada trabalhador por sua própria "adaptação" — como se o problema fosse a falta de cursos, e não a estrutura social que precariza o trabalho e concentra a tecnologia. É a velha lógica liberal: o fracasso é sempre individual; o sucesso, também.
É necessário, ao contrário, compreender que a produção de conteúdo na era da IA é uma prática política coletiva. Se as máquinas homogeneízam, cabe aos produtores de conteúdo — jornalistas, blogueiros, escritores, professores, comunicadores populares — reafirmar a pluralidade, o dissenso, a contradição. Não se trata de competir com a máquina em velocidade de produção (batalha perdida de antemão), mas de ocupar o espaço que a máquina não pode preencher: o da experiência vivida, da análise situada, do compromisso ético com a verdade.
A dialética entre espontaneísmo e projeto nacional-classista, discutida no artigo sobre organização política, ilumina aqui uma questão central: a produção de conteúdo não pode ser espontânea, descentrada, despolitizada. Ela precisa de direção estratégica. Saber o que dizer, para quem dizer e com que objetivo dizer — eis o que a IA não pode responder.
Conclusão: criar conteúdo como afirmação de humanidade
A inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros — mas esse dado, por si só, não diz nada sobre quem somos e o que queremos nos tornar. A máquina pode gerar textos, mas não pode gerar compromisso político. Pode simular empatia, mas não pode sentir a dor do outro. Pode replicar padrões, mas não pode inventar um mundo novo.
Criar conteúdo na era da IA é, paradoxalmente, um ato de afirmação daquilo que nos torna humanos: a capacidade de interpretar o real, de tomar posição, de narrar a própria história. Não se trata de um saudosismo tecnofóbico, mas de uma exigência política posta pela própria conjuntura. Em um país onde a penetração da IA é massiva, mas o entendimento é raso, quem produz conteúdo de forma crítica e situada está fazendo mais do que escrever — está disputando a narrativa sobre o Brasil que queremos construir.
A tarefa de criar conteúdo não é apenas possível; é necessária. E quanto mais as máquinas se aperfeiçoam na simulação do discurso, mais o conteúdo autêntico, situado e politicamente orientado se torna um diferencial não apenas competitivo, mas civilizatório. O desafio é coletivo: construir as condições — materiais, políticas, educacionais — para que o maior número possível de pessoas possa narrar o mundo a partir de sua própria experiência, e não a partir do prompt médio de uma inteligência artificial treinada nos data centers do Vale do Silício.
A palavra é, ainda, território de disputa. E é nesse território que precisamos lutar.
Referências bibliográficas
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM, 2018.
MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.
BRASIL. CNN Brasil. Inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros, aponta pesquisa. 25 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.
SERASA EXPERIAN. Habilidades essenciais na era da IA para profissionais de marketing. 09 dez. 2025. Disponível em: https://www.serasaexperian.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.
NEXO JORNAL. Educação midiática e literária na era da inteligência artificial. 30 out. 2025. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.
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