A mentira industrializada, distribuída por aplicativos de mensagens e financiada por empresários, funciona como uma mediação necessária para uma fração da classe do capital que perdeu a capacidade de dirigir politicamente a nação pelo convencimento.

Principais pontos
- A desinformação é a expressão de um projeto de dominação sem hegemonia.
- A mentira eleitoral é financiada por empresários ligados ao agronegócio, ao rentismo e ao capital financeirizado.
- O objetivo da fake news não é convencer — é confundir, desmobilizar, semear o cansaço.
- A resolução do TSE de 2024 foi resposta ao uso de inteligência artificial para fabricar conteúdo falso nas eleições de 2022.
Fake news e hegemonia: a tática bolsonarista de desinformação como arma da classe do capital
Por Walter Azevedo
Quando o Tribunal Superior Eleitoral aprovou, em fevereiro de 2024, a resolução que prevê a cassação de candidaturas por uso de inteligência artificial para fabricar conteúdo falso, a extrema-direita gritou censura. O grito não nasceu do amor à liberdade de expressão. Nasceu da defesa de um instrumento central da sua engenharia política: a mentira industrializada, distribuída pelos aplicativos de mensagens, financiada por empresários e dirigida contra a consciência da classe trabalhadora.
O fenômeno não é novo, mas ganhou escala com as plataformas digitais. Áudios que imitam a voz de lideranças sindicais, vídeos com legendas invertidas, pesquisas falsas circulando em grupos de bairro. A velocidade da difusão supera a checagem. A cada ciclo eleitoral, a máquina se sofistica: contrata robôs, compra bases de dados, usa inteligência artificial para personalizar a mentira conforme o perfil do destinatário. O objetivo não é convencer — é confundir, desmobilizar, semear o cansaço.
O fenômeno concreto: a mentira como mercadoria política
A resolução do TSE, aprovada em 27 de fevereiro de 2024, estabeleceu regras duras para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral: obrigação de rotular conteúdo sintético, remoção imediata de desinformação e cassação de mandatos em caso de uso fraudulento. A medida não veio do nada. Foi resposta a um histórico recente — nas eleições de 2022, esquemas de disparo em massa inundaram o país com montagens e alegações falsas sobre o sistema eleitoral, culminando em atos contra as instituições. A cada fraude, aprofunda-se a desconfiança popular na política. E essa desconfiança tem endereço de classe.
Não se trata de um acidente de percurso nem de obra de indivíduos desajustados. A mentira eleitoral funciona como uma mediação necessária para uma fração da classe do capital que perdeu a capacidade de dirigir politicamente a nação pelo convencimento. Como não pode apresentar um programa de soberania nacional, emprego e proteção social — porque isso confrontaria diretamente seus próprios lucros —, resta-lhe a produção industrial de falsidades. A desinformação é, assim, a expressão de um projeto de dominação sem hegemonia.
Os interesses de classe por trás da desinformação
Quem financia a indústria da mentira? As investigações apontam para empresários ligados ao agronegócio, a setores do rentismo e a estruturas que operam como pontas de lança do capital financeirizado. Esses setores compõem uma burguesia que obteve ganhos extraordinários com a subordinação do país aos mercados externos. Para eles, a verdade é um risco: ela expõe a transferência de riqueza, a devastação ambiental, o arrocho dos salários. Por isso, investem em narrativas que deslocam a responsabilidade para falsos culpados — o funcionário público, o imigrante, o movimento social, a política climática.
Essa tática também disputa a consciência de classe. Ao inundar os grupos de mensagens com mentiras sobre programas sociais, direitos trabalhistas e candidaturas populares, o campo da classe do capital busca isolar as frações mais combativas da classe trabalhadora. Como mostramos na análise sobre PT e PL como frações da classe dominante, a luta de classes não se resume ao confronto entre partidos. Ela atravessa cada tela, cada áudio, cada montagem. A desinformação é uma arma de guerra cultural contra projetos de soberania e justiça social.
Há também uma dimensão externa. As mesmas plataformas que lucram com a desinformação são as que concentram o fluxo de dados do Sul global. A subordinação digital é parte da dependência tecnológica que mantém o Brasil periférico na divisão internacional do trabalho. O controle sobre a informação não é neutro: serve à burguesia compradora, que intermedia os interesses do capital financeirizado e teme qualquer projeto nacional-popular que ameace essa arquitetura de dependência.
A contradição, porém, está inscrita no próprio método. Para mentir tanto, a classe do capital precisa admitir que não tem maioria real. Precisa recorrer à fraude porque seu programa é impopular: privatizações, corte de direitos, submissão ao imperialismo. A mentira é o sintoma de uma hegemonia que já não se sustenta pelo consenso. E é exatamente nessa fresta que a práxis popular pode se inserir.
Organização popular e soberania digital
Não basta desmentir cada fake news. A checagem pontual, embora necessária, chega atrasada diante da velocidade das redes. É preciso disputar a infraestrutura da comunicação: construir redes populares de informação, ligadas a sindicatos, movimentos de base, coletivos de bairro e universidades. A consciência de classe não se forma apenas na leitura de livros; forma-se na prática cotidiana de organizar, verificar e compartilhar informação comprometida com a verdade dos trabalhadores.
Também é tarefa do campo popular pressionar por regulação das plataformas digitais. A soberania nacional passa, hoje, pela capacidade de decidir sobre nossos dados, nossos algoritmos e nossa comunicação. Enquanto as big techs tratarem o Brasil como território livre para a mentira, a disputa eleitoral estará permanentemente contaminada pelos interesses da burguesia compradora. A disputa por visibilidade nos mecanismos de busca também é parte dessa guerra, como discutimos no texto sobre visibilidade no topo como luta de classes. A luta pela verdade é, no limite, uma luta de classes. E ela se vence com organização política, não com indignação moral.
Perguntas Frequentes
O que caracteriza a tática bolsonarista de fake news como arma eleitoral?
A tática se caracteriza pela produção industrial de mentiras distribuídas em massa por aplicativos de mensagens, com uso de robôs, compra de bases de dados e inteligência artificial para personalizar a desinformação conforme o perfil do destinatário, visando confundir e desmobilizar a classe trabalhadora.
Quais interesses de classe estão por trás da desinformação eleitoral?
Os interesses são de uma burguesia ligada ao agronegócio, ao rentismo e ao capital financeirizado, que obteve ganhos com a subordinação do país aos mercados externos e teme a verdade, pois ela expõe a transferência de riqueza, a devastação ambiental e o arrocho salarial.
Por que a extrema-direita criticou a resolução do TSE sobre inteligência artificial?
A extrema-direita gritou censura não por amor à liberdade de expressão, mas para defender um instrumento central de sua engenharia política: a mentira industrializada, financiada por empresários e dirigida contra a consciência da classe trabalhadora.
Qual é o objetivo real das fake news bolsonaristas segundo o texto?
O objetivo não é convencer, mas confundir, desmobilizar e semear o cansaço na população, aprofundando a desconfiança popular na política e deslocando a responsabilidade para falsos culpados, como o funcionário público, o imigrante e o movimento social.
Como a desinformação se relaciona com a hegemonia da classe do capital?
A desinformação é a expressão de um projeto de dominação sem hegemonia: uma fração da classe do capital, incapaz de dirigir politicamente a nação pelo convencimento, recorre à produção industrial de falsidades porque um programa de soberania nacional confrontaria seus próprios lucros.






