A eleição de quadros do MST desloca a luta de classes para dentro do parlamento, mas a representação institucional é uma mediação, nunca um substituto da luta de massas.

Principais pontos
- A ocupação de uma vaga legislativa segue outra gramática, submetida a regimentos, alianças e prazos que não foram desenhados pelo campo popular.
- Segundo o Censo Agropecuário de 2017, menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentram quase metade da área agrícola do país, e essa estrutura não se desfaz por voto.
- Quando um quadro do MST assume um mandato, não toma o poder, passa a operar dentro de uma correlação de forças que já é desfavorável.
- O programa do MST — reforma agrária integral, soberania alimentar, agroecologia, territórios livres de agrotóxicos — não cabe no regimento interno das casas legislativas.
- A classe trabalhadora não se emancipa por delegação; suas conquistas históricas vieram de greves, ocupações, bloqueios e assembleias.
Mandato não é terra: a eleição de quadros do MST e os limites da arena eleitoral
Por Walter Azevedo
No último ciclo eleitoral, lideranças do MST conquistaram assentos em câmaras municipais de regiões marcadas pela concentração fundiária. Não foi um movimento de adaptação à ordem. Foi a expressão de uma tática que, bem ou mal executada, desloca a luta de classes para dentro do parlamento. O problema começa quando a cadeira se transforma em ponto de chegada.
A ocupação da terra ensinou à classe trabalhadora que direitos não se pedem, se conquistam. A ocupação de uma vaga legislativa, porém, segue outra gramática. No plenário, o mandato está submetido a regimentos, alianças e prazos que não foram desenhados pelo campo popular. De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentram quase metade da área agrícola do país. Essa estrutura não se desfaz por voto.
O Estado como condensação de forças
O Estado não é uma arena neutra. Sua ossatura jurídica e administrativa foi moldada pela classe do capital, em especial pelo agronegócio financeirizado e pela burguesia compradora que articula a dependência externa. Quando um quadro do MST assume um mandato, não toma o poder. Passa a operar dentro de uma correlação de forças que já é desfavorável. A bancada ruralista reúne cerca de 300 deputados na Câmara. As forças do campo popular cabem em uma fração minúscula dessa matemática.
Isso não invalida a tática eleitoral. Ela serve para denunciar, obstruir, dar visibilidade, proteger militantes. Mas a representação institucional é uma mediação, nunca um substituto da luta de massas. Como analisei em PT e PL como frações da classe dominante, a hegemonia dividida no parlamento reflete a reconfiguração das classes dominantes, não uma disputa entre projetos antagônicos de poder. O mesmo vale para o mandato de um trabalhador rural: ele ingressa numa casa que já tem dono.
Há um limite estrutural: o programa do MST — reforma agrária integral, soberania alimentar, agroecologia, territórios livres de agrotóxicos — não cabe no regimento interno das casas legislativas. O que se aprova ali é sempre uma versão mutilada, quando não o contrário. O exemplo da Sigma Lithium no Jequitinhonha mostrou como o Estado se coloca a serviço do extrativismo mesmo com parlamentares de esquerda no palco. A dívida pública, discutida em outro texto, também impõe que o orçamento seja capturado antes de qualquer emenda popular.
A centralidade da luta de massas
A classe trabalhadora não se emancipa por delegação. Suas conquistas históricas vieram de greves, ocupações, bloqueios, assembleias, marchas. O parlamento pode referendar ou negar, mas não cria a força social. Quem acredita que um mandato é capaz de substituir a mobilização popular repete a ilusão liberal de que a política se resolve no interior das instituições.
"A mão que escreve é a mesma que empunha a foice." — Engajarte, poesia do autor.
Essa sentença poética resume a questão: a caneta do parlamentar só tem eficácia se a foice continuar empunhada fora do plenário. A eleição de quadros do MST só adquire significado tático quando amplia a capacidade de organização, não quando substitui a base por gabinetes. Se a militância abandona os acampamentos para administrar emendas, a derrota está decretada antes da próxima legislatura.
Tática eleitoral subordinada à organização popular
Não se trata de recusar a disputa eleitoral. Trata-se de subordiná-la a uma estratégia de acumulação de forças. O mandato deve funcionar como caixa de ressonância das ocupações, como instrumento de pressão sobre o Executivo, como trincheira jurídica contra a criminalização. Nada mais.
Os próximos passos não são escolher entre parlamento e rua. São articular as duas frentes, com a rua comandando. Isso exige fortalecer os núcleos de base, as brigadas de solidariedade, as escolas de formação política, os comitês de luta nos territórios. Também exige disputar a consciência de classe para que a eleição de um companheiro não vire espetáculo de inclusão subordinada.
A arena eleitoral é uma trincheira útil. Mas a guerra se decide nas terras ocupadas, nas fábricas paralisadas, nas periferias organizadas. O mandato pode ser uma ferramenta valiosa — desde que a classe trabalhadora não troque a foice pela caneta. Afinal, quem apenas vota já foi votado antes pela história das classes dominantes.
Fontes consultadas:
- MST — Balanço das candidaturas e mandatos ligados ao movimento. Site oficial.
- IBGE — Censo Agropecuário 2017.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: classes sociais e suas lutas. Appris, 2023.
- Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
Perguntas Frequentes
A eleição de quadros do MST significa adaptação à ordem institucional?
Não. Segundo o texto, trata-se de uma tática que desloca a luta de classes para dentro do parlamento, mas o problema começa quando a cadeira se transforma em ponto de chegada, substituindo a luta de massas.
Por que a arena eleitoral tem limites estruturais para o programa do MST?
Porque o Estado não é uma arena neutra. Sua ossatura jurídica e administrativa foi moldada pelo capital, especialmente pelo agronegócio financeirizado, e a bancada ruralista reúne cerca de 300 deputados, tornando a correlação de forças desfavorável.
O que o Censo Agropecuário de 2017 revela sobre a estrutura fundiária brasileira?
Revela que menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentram quase metade da área agrícola do país, uma estrutura que, conforme o autor, não se desfaz por voto, apenas por luta direta.
Qual é o papel da representação institucional segundo o texto?
A representação institucional serve para denunciar, obstruir, dar visibilidade e proteger militantes, mas é uma mediação, nunca um substituto da luta de massas, como greves, ocupações e bloqueios.
Como o autor compara a ocupação da terra com a ocupação de uma vaga legislativa?
A ocupação da terra ensinou que direitos se conquistam, não se pedem. A ocupação de uma vaga legislativa, porém, segue outra gramática, submetida a regimentos, alianças e prazos que não foram desenhados pelo campo popular.






