A jornada Bora Lula é um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, expressando a capilaridade dos movimentos populares e da esquerda, contrastando com a agenda da direita de desmonte, arrocho e criminalização, e revelando os desafios da mediação para a classe trabalhadora.

Principais pontos
- A jornada Bora Lula desloca o eixo da disputa do estúdio de televisão para o território real das periferias nordestinas.
- A presença massiva nas ruas desmente a tese conservadora de que a esquerda perdeu raiz social.
- A agenda da direita segue ancorada em desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos sociais.
- O problema da esquerda nunca foi a ausência de base, mas a mediação para transformar energia militante em projeto de poder sem neutralizar o programa.
Hegemonia em marcha: a jornada Bora Lula e a disputa pela consciência de classe
Por Walter Azevedo
As estradas do semiárido nordestino voltaram a ver filas de militantes, carros de som e bandeiras vermelhas atravessando municípios onde a presença do Estado se reduz a viatura e título de eleitor. A jornada Bora Lula recolocou a esquerda em movimento, ocupando praças, ginásios e feiras livres. Não se trata de romaria eleitoral, nem de simples adesão a uma candidatura. Trata-se de um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, daquilo que a classe trabalhadora constrói quando se reconhece como sujeito político e não como massa de manobra.
O concreto da rua como termômetro da luta de classes
A jornada Bora Lula expressa algo que as pesquisas de opinião não captam: a capilaridade dos movimentos populares, dos sindicatos, das pastorais, dos núcleos de juventude e dos diretórios partidários que se lançam às estradas. Cada ato reúne não apenas militantes orgânicos, mas trabalhadores informais, aposentados, feirantes, professores da rede pública e lideranças comunitárias. Quatro em cada dez ocupados no Brasil vivem na informalidade, sem proteção trabalhista estável, e é nessa base precarizada que a direita tenta fincar seu curral. A jornada, ao percorrer as periferias de Juazeiro do Norte, Campina Grande e Caruaru, desloca o eixo da disputa do estúdio de televisão para o território real.
A presença massiva nas ruas desmente a tese conservadora de que a esquerda perdeu raiz social. Ao contrário, revela que há reserva organizativa acumulada em décadas de luta sindical, estudantil e comunitária. O problema nunca foi a ausência de base. O problema tem sido a mediação: como transformar energia militante em projeto de poder, sem dissolvê-la em alianças que neutralizam o programa.
O que a direita esconde por trás do discurso de ordem
Enquanto a esquerda ocupa as estradas, a agenda da direita segue ancorada em três vetores: desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos sociais. O discurso moralizante contra a corrupção funciona como cortina de fumaça para privatizações, teto de gastos e captura do orçamento pelo capital financeirizado. Não é acaso que as mesmas forças que promovem o curral digital sejam as que financiam campanhas de desinformação contra lideranças populares. A rede de aplicativos de mensagem reproduz o coronelismo em nova roupagem: o cabo eleitoral agora é algoritmo, e a compra de voto troca o dinheiro vivo pelo engajamento forjado.
Por trás da retórica de pátria e família, opera uma fração de classe que não hesita em entregar o patrimônio nacional ao capital estrangeiro. A burguesia compradora mantém o país subordinado à divisão internacional do trabalho, exportando commodities baratas e importando tecnologia cara. Essa agenda exige uma classe trabalhadora desorganizada, fragmentada e convencida de que não há alternativa. Por isso o ataque à organização sindical e a demonização da política de rua não são acessórios: são condição para a hegemonia do capital sobre o trabalho.
Desafios da classe trabalhadora nas eleições
A disputa eleitoral impõe mediações que não podem ser subestimadas. A classe trabalhadora precisa enfrentar pelo menos três desafios objetivos:
- Financiamento privado e tempo de propaganda: a máquina do capital compra rádio, televisão e impulsionamento digital em escala industrial. A esquerda depende de militância voluntária e de redes comunitárias.
- Fragmentação programática: partidos que se autodenominam de esquerda disputam entre si o mesmo eleitorado, sem unidade em torno de um projeto nacional-popular soberano.
- Violência política seletiva: lideranças de movimentos sociais, sindicalistas e ativistas de periferia sofrem ameaças, perseguição judicial e, em alguns estados, execução sumária com anuência de milícias.
O Bora Lula ensaia uma resposta a esses desafios: desloca a campanha do marketing para a presença física, da personalidade para a pedagogia coletiva. Mas a resposta só se completa se a jornada não terminar em comício. Precisa se converter em organização permanente, em conselhos populares, em núcleos de base capazes de disputar o orçamento municipal, a taxação dos super-ricos e a soberania energética e tecnológica.
Organização, projeto e superação
Não há eleição capaz de resolver a contradição entre capital e trabalho sem um sujeito político que a enfrente fora das urnas. A jornada Bora Lula é demonstração de força, não ainda demonstração de hegemonia. Hegemonia se constrói quando a classe trabalhadora formula, a partir de suas dores concretas, um projeto de sociedade que disputa o senso comum — nas escolas, nas igrejas, nos bairros, nos aplicativos. A poesia de Engajarte lembra que “a mão que ergue a bandeira é a mesma que planta o pão”. Essa dialética entre a rua e a roça, entre o sindicato e o território, entre a urna e a greve, é a única capaz de deslocar a correlação de forças.
A tarefa imediata é transformar a mobilização em organização, e a organização em programa. O voto é uma trincheira, não o front definitivo. A classe do capital continuará apostando na fragmentação e no desânimo. Cabe à classe trabalhadora responder com unidade de ação, consciência de classe e projeto nacional-popular. A jornada mostrou que há massa social disponível. Falta a direção política que unifique as caravanas em um só movimento histórico.
Para seguir o fio: a análise dialoga com Como Vencer na Grande Política (Appris, 2023), com os poemas de Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução e com a tradição dependentista de Theotônio dos Santos.
Perguntas Frequentes
O que a jornada Bora Lula representa para a esquerda?
A jornada representa um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, com militantes, sindicatos e comunidades ocupando ruas e feiras no semiárido nordestino, evidenciando a capilaridade dos movimentos populares que as pesquisas não captam.
Como a direita tenta se aproveitar da precarização do trabalho?
Com quatro em cada dez ocupados na informalidade, a direita tenta fincar seu curral nessa base precarizada, usando discurso moralizante e desinformação digital para ocultar desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos.
Qual é o principal desafio da esquerda segundo o texto?
O principal desafio é a mediação: como transformar a energia militante acumulada em projeto de poder, evitando alianças que neutralizem o programa e dissolvam a força organizativa em acordos sem raiz social.
O que a direita esconde por trás do discurso de ordem?
Esconde uma fração de classe que promove privatizações, teto de gastos e captura do orçamento pelo capital financeirizado, enquanto financia desinformação contra lideranças populares e entrega o patrimônio nacional ao capital estrangeiro.
Por que as pesquisas de opinião não captam a força da esquerda?
Porque não medem a capilaridade dos movimentos populares, sindicatos, pastorais e juventude que se lançam às estradas. A presença massiva nas ruas revela uma reserva organizativa real acumulada em décadas de luta social.






