segunda-feira, 18 de maio de 2026

Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da IA

Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da Inteligência Artificial

Em agosto de 2025, a CNN Brasil divulgou um dado que pareceu, à primeira vista, confirmar o senso comum dominante: a inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros. A notícia foi saudada nos círculos empresariais e midiáticos como a confirmação de que a "revolução tecnológica" está finalmente consolidada no país. Escolas de programação lotam, cursos de prompt engineering pipocam nas redes sociais, e editoras apressam-se em lançar guias para "sobreviver à era das máquinas inteligentes". O discurso dominante é claro: ou você se adapta, ou será substituído.

Mas a mesma pesquisa que revela a penetração massiva da IA também trouxe à tona um fato incômodo, quase um ruído no concerto celebratório: apenas 54% dos brasileiros entendem o que é a tecnologia. Quase metade da população convive com algo cujo funcionamento, lógica e implicações ignora profundamente. Não se trata, evidentemente, de uma falha individual de compreensão, mas de um fenômeno estrutural que revela como o desenvolvimento tecnológico, na ordem social capitalista, tende a se dar de forma desigual e combinada — beneficiando uns, excluindo outros, mistificando a todos.

Diante desse cenário, uma pergunta se impõe com urgência: se as máquinas podem gerar texto, imagem, música e até estratégias de marketing, qual o sentido de continuar produzindo conteúdo? A resposta, insisto, não é técnica — é política.

A aparência: a máquina que "escreve sozinha"

No primeiro momento da análise — a aparência fenomênica —, a inteligência artificial generativa parece realizar o sonho antigo da automação completa do trabalho intelectual. Ferramentas como ChatGPT, Claude, Midjourney e suas congêneres brasileiras são apresentadas como substitutas do redator, do designer, do estrategista de conteúdo. Basta digitar um prompt e, em segundos, um artigo de blog de 1.500 palavras, completo e gramaticalmente impecável, é gerado.

Publicações especializadas, como aponta a Serasa Experian em dezembro de 2025, já destacam as "habilidades essenciais na era da IA" como diferenciais competitivos no mercado de trabalho. A mensagem é clara: o profissional que não souber operar essas ferramentas estará fora do jogo. O trabalhador intelectual é convocado a se requalificar — sob pena de exclusão laboral — para dominar a mesma tecnologia que ameaça seu posto.

Nessa superfície, a conclusão parece simples: criar conteúdo é uma atividade obsoleta. Se a IA pode gerar textos sob demanda, por que uma empresa ou um profissional autônomo perderia tempo escrevendo? O marketing turístico, por exemplo, já incorpora ferramentas de IA para produzir descrições de destinos, roteiros personalizados e respostas automatizadas a clientes, conforme relata o Portal Panrotas em outubro de 2025. A automação avança em todas as frentes.

A essência: o conteúdo como mercadoria e a lógica da produção capitalista

Mas é preciso ir além da aparência. Se a IA gera textos, ela não gera sentido. Ela não interpreta o mundo — ela reorganiza probabilisticamente fragmentos de linguagem pré-existentes. O que chamamos de "criação" na inteligência artificial é, rigorosamente, um processo de recombinação estatística de informações já disponíveis. Não há ali sujeito, nem experiência, nem posicionamento político, nem contradição — apenas a mediana do que já foi dito.

O conteúdo gerado por IA, portanto, é a expressão mais acabada da lógica capitalista de produção: ele uniformiza, padroniza e elimina o que há de singular em nome da eficiência. Se 100 pessoas usarem o mesmo prompt para escrever sobre um tema, obterão variações mínimas de um mesmo texto médio. É a produção em série aplicada à palavra — a subsunção real do trabalho intelectual ao capital, como Marx já entrevia no "Fragmento sobre as máquinas" dos Grundrisse.

O problema é que, na era da IA, a abundância de conteúdo não significa diversidade de ideias. Ao contrário: quanto mais máquinas geram textos, maior a homogeneidade do discurso público. O debate sobre educação midiática e literária, apontado pelo Nexo Jornal em outubro de 2025 como componente essencial da formação contemporânea, ganha aqui uma urgência concreta: formar sujeitos críticos diante da avalanche informacional significa, antes de tudo, ensinar a distinguir o que é pensamento genuíno do que é simulação probabilística.

Esse é o nó da questão: na era da IA, criar conteúdo não é mais apenas escrever — é resistir à uniformização do discurso. É afirmar que existe um lugar para a experiência subjetiva, para a análise que não se repete, para o ponto de vista que não deriva do consenso estatístico.

A suprassunção: o conteúdo como ato político na era das máquinas

Não se trata, evidentemente, de rejeitar a tecnologia. O pensamento dialético não é a defesa ingênua do artesanal contra o moderno — isso seria romantismo reacionário, como bem apontou Walter Benjamin em seus escritos sobre a reprodutibilidade técnica. Trata-se, antes, de compreender que a IA, como toda ferramenta, carrega em si as marcas das relações sociais que a produziram e que ela reproduz.

O uso da inteligência artificial na produção de conteúdo pode ser submetido a dois caminhos opostos: o da subsunção — no qual a ferramenta dita o conteúdo, padroniza a forma e elimina a singularidade — ou o da apropriação crítica — no qual o produtor de conteúdo utiliza a tecnologia como meio, não como fim, mantendo o controle sobre o para quê e o para quem se escreve.

É precisamente aqui que o conceito de soberania digital ganha corpo. Em artigo publicado em maio de 2025, abordamos como a soberania política brasileira passa, necessariamente, pela capacidade de decidir sobre a infraestrutura tecnológica que nos atravessa. Se a produção de conteúdo for inteiramente delegada a modelos de linguagem treinados majoritariamente em inglês e a partir de bases de dados estadunidenses, o que restará da nossa capacidade de narrar o Brasil para nós mesmos?

A dialética da palavra, explorada no artigo sobre "Escritores, Big Techs e a Dialética da Palavra", mostra como o ato de escrever — longe de ser uma atividade meramente técnica — é um campo de disputa política. As Big Techs não vendem apenas ferramentas; elas vendem um modelo de mundo, uma forma de organizar o conhecimento, uma hierarquia de valores. Resistir a isso é, em última instância, um ato de afirmação da soberania cultural.

Forças em disputa na conjuntura atual

Para compreender o cenário, é preciso mapear as forças sociais em disputa. De um lado, temos o bloco das Big Techs e do capital financeiro global, que empurra a adoção acrítica da IA como solução universal para todos os problemas. Para esse bloco, o conteúdo é uma mercadoria como outra qualquer — e, como tal, deve ser produzido com o menor custo possível. A substituição do trabalho humano pela máquina não é um efeito colateral; é o objetivo.

De outro lado, temos o bloco dos trabalhadores intelectuais e da classe trabalhadora em geral, que enfrenta a desvalorização do seu trabalho, a precarização das condições laborais e a perda de controle sobre o processo produtivo. A publicação da Serasa Experian, ao listar "habilidades essenciais na era da IA", revela menos um convite à qualificação do que uma ameaça: adapte-se ou seja descartado.

Há ainda um terceiro ator: o Estado brasileiro, que oscila entre a submissão aos interesses das Big Techs e a tentativa de construir uma política de soberania digital. A ausência de um marco regulatório robusto para inteligência artificial no Brasil — a despeito dos debates no Congresso — é sintoma dessa ambiguidade. Privatizar empresas estratégicas como a Petrobras e o Banco do Brasil, como discutimos em artigo recente, não é apenas uma questão econômica: é entregar instrumentos essenciais de planejamento nacional exatamente no momento em que o país mais precisa deles para enfrentar os desafios tecnológicos.

O que está em jogo na disputa pelo conteúdo não é apenas quem escreve, mas quem define o que pode ser dito. Em uma sociedade onde 93% das pessoas têm acesso à IA, mas menos da metade a compreende, o fosso de letramento digital não é um acidente — é uma condição para que o capital mantenha o controle sobre a produção simbólica.

Da dispersão à organização: o conteúdo como prática coletiva

Se o diagnóstico é crítico, a resposta não pode ser individual. A tendência predominante no discurso dominante é responsabilizar cada trabalhador por sua própria "adaptação" — como se o problema fosse a falta de cursos, e não a estrutura social que precariza o trabalho e concentra a tecnologia. É a velha lógica liberal: o fracasso é sempre individual; o sucesso, também.

É necessário, ao contrário, compreender que a produção de conteúdo na era da IA é uma prática política coletiva. Se as máquinas homogeneízam, cabe aos produtores de conteúdo — jornalistas, blogueiros, escritores, professores, comunicadores populares — reafirmar a pluralidade, o dissenso, a contradição. Não se trata de competir com a máquina em velocidade de produção (batalha perdida de antemão), mas de ocupar o espaço que a máquina não pode preencher: o da experiência vivida, da análise situada, do compromisso ético com a verdade.

A dialética entre espontaneísmo e projeto nacional-classista, discutida no artigo sobre organização política, ilumina aqui uma questão central: a produção de conteúdo não pode ser espontânea, descentrada, despolitizada. Ela precisa de direção estratégica. Saber o que dizer, para quem dizer e com que objetivo dizer — eis o que a IA não pode responder.

Conclusão: criar conteúdo como afirmação de humanidade

A inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros — mas esse dado, por si só, não diz nada sobre quem somos e o que queremos nos tornar. A máquina pode gerar textos, mas não pode gerar compromisso político. Pode simular empatia, mas não pode sentir a dor do outro. Pode replicar padrões, mas não pode inventar um mundo novo.

Criar conteúdo na era da IA é, paradoxalmente, um ato de afirmação daquilo que nos torna humanos: a capacidade de interpretar o real, de tomar posição, de narrar a própria história. Não se trata de um saudosismo tecnofóbico, mas de uma exigência política posta pela própria conjuntura. Em um país onde a penetração da IA é massiva, mas o entendimento é raso, quem produz conteúdo de forma crítica e situada está fazendo mais do que escrever — está disputando a narrativa sobre o Brasil que queremos construir.

A tarefa de criar conteúdo não é apenas possível; é necessária. E quanto mais as máquinas se aperfeiçoam na simulação do discurso, mais o conteúdo autêntico, situado e politicamente orientado se torna um diferencial não apenas competitivo, mas civilizatório. O desafio é coletivo: construir as condições — materiais, políticas, educacionais — para que o maior número possível de pessoas possa narrar o mundo a partir de sua própria experiência, e não a partir do prompt médio de uma inteligência artificial treinada nos data centers do Vale do Silício.

A palavra é, ainda, território de disputa. E é nesse território que precisamos lutar.


Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM, 2018.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

BRASIL. CNN Brasil. Inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros, aponta pesquisa. 25 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.

SERASA EXPERIAN. Habilidades essenciais na era da IA para profissionais de marketing. 09 dez. 2025. Disponível em: https://www.serasaexperian.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.

NEXO JORNAL. Educação midiática e literária na era da inteligência artificial. 30 out. 2025. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Privatizar Petrobras e Banco do Brasil? Quem ganha, quem perdemos.

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Soberania como Mercadoria: Privatizar Petrobras e Banco do Brasil é entregar o país

Nos últimos meses, o debate sobre a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil voltou a ganhar corpo nos corredores do mercado financeiro, nas colunas dos grandes jornais e nos discursos de determinados setores políticos que jamais esconderam sua vocação entreguista. A pressão não é nova — ela retorna em ciclos, sempre que a correlação de forças favorece a classe do capital e seus operadores locais. Mas desta vez o contexto é particularmente revelador: vivemos um momento em que o imperialismo financeirizado reorganiza suas fichas no tabuleiro global, e o Brasil, com suas empresas estratégicas, seus recursos naturais e sua estrutura bancária pública, é um prêmio que o capital externo e a oligarquia interna querem dividir entre si.

A questão, portanto, não é técnica. Não é sobre "eficiência" ou "gestão". É uma questão de poder — de quem controla os instrumentos decisivos da economia nacional e, por consequência, quem determina os rumos do desenvolvimento do país. Precisamos encarar isso com a seriedade que o momento exige.

O que aparece na superfície: o discurso da modernização

O argumento privatizante tem uma embalagem sedutora. Apresenta-se como modernidade, como racionalidade econômica, como solução para a ineficiência do Estado. Diz que empresas públicas são cabides de emprego, que sofrem ingerência política, que drenam recursos do contribuinte. Repete isso em editoriais, em relatórios de bancos de investimento, em seminários de think tanks financiados pelo próprio capital que quer comprar o que está à venda.

A Petrobras, segundo essa narrativa, seria mais "eficiente" nas mãos privadas. Renderia mais dividendos ao acionista, supostamente beneficiando os fundos de pensão dos trabalhadores — argumento cínico que transforma o rentismo em democracia. O Banco do Brasil, por sua vez, seria um anacronismo: para que um banco público quando o mercado pode oferecer crédito? A lógica parece coerente quando se aceita o ponto de partida. E é exatamente esse ponto de partida que precisamos recusar.

Porque o que se apresenta como debate técnico-econômico é, na verdade, um combate político de classe. E para entendê-lo, é preciso ir além da superfície.

A essência que se esconde: interesses, dependência e subordinação

A Petrobras não é uma empresa qualquer. É a maior empresa da América Latina por valor de mercado, opera em águas ultraprofundas com tecnologia de ponta desenvolvida em território nacional, controla reservas do pré-sal avaliadas em décadas de produção e gerou, apenas em 2023, um lucro líquido superior a R$ 124 bilhões — o maior da história da companhia. Para efeito de comparação, esse valor supera o orçamento anual de vários países sul-americanos. É com parte desse resultado que o Estado brasileiro financia políticas públicas, programas sociais e investimentos em infraestrutura.

Privatizar a Petrobras não é "liberar o mercado". É transferir para o capital privado — majoritariamente estrangeiro, dado o perfil atual dos acionistas minoritários — o controle sobre uma fonte estratégica de recursos nacionais. É transformar a renda do petróleo, hoje parcialmente socializada, em acumulação privada concentrada. É, em síntese, aprofundar a dependência estrutural que Ruy Mauro Marini descreveu com precisão: a transferência de valor das economias periféricas para os centros imperialistas, mediada pelos elos da burguesia associada local.

O Banco do Brasil tem uma função que vai além da rentabilidade bancária. É o principal agente de crédito rural do país, responsável por mais de 60% do financiamento à agricultura familiar e ao agronegócio nacional. É instrumento de política monetária e de desenvolvimento regional. Quando o Estado detém um banco público, tem nas mãos uma alavanca para direcionar recursos segundo prioridades sociais — o crédito barato para o pequeno produtor, o financiamento de habitação popular, o apoio a setores estratégicos que o mercado privado ignora porque não oferecem retorno imediato suficiente.

Privatizar o Banco do Brasil é privatizar a política de crédito. É entregar ao capital financeiro o controle sobre quem recebe recursos, em que condições e para qual finalidade. Não é exagero dizer que é privatizar uma parte do próprio poder do Estado.

Theotônio dos Santos, ao analisar a dependência latinoamericana, já alertava que as economias periféricas que abrem mão do controle sobre seus setores estratégicos não estão apenas "atraindo investimento" — estão cedendo soberania. E soberania cedida não se recupera por decreto: exige reorganização política, correlação de forças favorável, projeto nacional consciente. Como desenvolvemos em Da Dispersão à Soberania: Dialética Política entre Espontaneísmo e Projeto Nacional-Classista, a soberania não é um dado — é uma construção coletiva que exige organização e projeto.

Quem ganha e quem perdemos — a anatomia dos interesses

Precisamos ser diretos: a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil beneficia um conjunto específico e identificável de forças sociais. Não são "os brasileiros". São:

  • O capital financeiro internacional, que amplia sua capacidade de extração de valor de uma economia periférica com reservas energéticas imensuráveis;
  • A fração da burguesia interna associada ao capital externo, que atua como intermediária da dependência e se beneficia de comissões, posições em conselhos e participações acionárias;
  • Os fundos de investimento e gestoras de patrimônio que operam na bolsa de valores e que teriam nas ações privatizadas um ativo de altíssima liquidez e rentabilidade;
  • Setores da mídia corporativa que dependem desse circuito financeiro e reproduzem ideologicamente os interesses do bloco dominante.

E quem perdemos? Nossa classe perde muito. A classe trabalhadora perde empregos diretos e indiretos de alta qualidade — a Petrobras é uma das maiores pagadoras de salários do país e uma das poucas empresas que ainda formam engenheiros e técnicos em território nacional. Perde acesso a crédito subsidiado. Perde receita pública que financia saúde, educação, previdência. Perde a possibilidade de uma política energética soberana num momento em que a transição energética global redefine as hierarquias de poder internacional.

Perde, acima de tudo, instrumentos de mediação entre o Estado e o desenvolvimento nacional. E instrumentos perdidos, como a história latinoamericana comprova repetidamente, custam décadas para ser reconstruídos — quando são reconstruídos.

O jogo em curso: forças em disputa

O debate sobre privatizações no Brasil não acontece no vácuo. Ele se insere num processo político mais amplo em que setores do capital financeiro e da direita política tentam estabelecer a pauta econômica do próximo ciclo eleitoral. A pressão pela privatização da Petrobras ressurgiu com força precisamente quando o governo Lula começou a sinalizar o uso da empresa como vetor de uma política industrial de transição energética — o que contraria diretamente os interesses das grandes tradings de petróleo e dos fundos que apostam numa Petrobras enxuta, focada em extração e distribuição de dividendos.

No plano global, o imperialismo atravessa uma fase de reorganização. A disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia tecnológica e energética torna o controle sobre recursos naturais e infraestrutura estratégica ainda mais decisivo. Uma Petrobras privatizada seria muito mais vulnerável à pressão de Washington e muito mais útil como instrumento de política externa de potências estrangeiras do que uma empresa sob controle acionário do Estado brasileiro.

Não é coincidência que o discurso privatizante seja sempre mais intenso nos períodos em que o Brasil exibe maior autonomia relativa em política externa. A soberania energética e financeira incomoda quem quer manter nossa economia numa posição de subordinação funcional ao sistema imperialista — como já discutimos ao analisar a Soberania Digital no Brasil: A Soberania Política e suas Implicações, a disputa pela soberania atravessa todos os campos estratégicos da vida nacional.

Além da defesa: o que precisamos construir

Defender a Petrobras e o Banco do Brasil da privatização é necessário — mas não suficiente. A defesa passiva das conquistas não constrói correlação de forças, apenas adia derrotas quando o equilíbrio se inverte. Nossa classe precisa ir além da trincheira e avançar para um projeto afirmativo.

Isso significa disputar o caráter das empresas públicas. A Petrobras não deve ser apenas uma empresa lucrativa sob controle estatal — deve ser um vetor de soberania energética, de desenvolvimento tecnológico nacional, de emprego qualificado e de financiamento da transição para energias renováveis. O Banco do Brasil não deve ser apenas um banco que paga dividendos ao Tesouro — deve ser um instrumento ativo de desenvolvimento regional, de financiamento da produção nacional e de inclusão financeira da classe trabalhadora.

Em "Como Vencer na Grande Política", argumento que as batalhas mais decisivas não são aquelas que travam no campo do adversário, mas aquelas em que somos capazes de impor nossa pauta. A disputa pela Petrobras e pelo Banco do Brasil é uma dessas batalhas — não apenas defensiva, mas constitutiva de um projeto nacional-popular capaz de enfrentar a dependência estrutural.

Para isso, precisamos de organização política que transcenda o ciclo eleitoral. Precisamos de sindicatos atuantes nos setores estratégicos. Precisamos de intelectuais orgânicos capazes de comunicar essa análise à classe trabalhadora em linguagem acessível e mobilizadora. Precisamos, como trabalhadores e militantes, entender que cada batalha setorial se conecta à luta mais ampla pela hegemonia — pela capacidade de nossa classe de construir uma visão de mundo e um projeto de poder que dispute de verdade o futuro do país.

A soberania não se defende com palavras bonitas em manifestos. Defende-se com organização, com consciência de classe e com a capacidade de transformar análise em práxis política. O debate sobre as privatizações é, no fundo, um debate sobre que tipo de Brasil queremos construir — e quem terá força para construí-lo.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis: Vozes; Buenos Aires: CLACSO, 2000.
  • DOS SANTOS, Theotônio. Imperialismo e Dependência. México: Era, 1978.
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
  • LENIN, Vladimir Ilitch. O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo. São Paulo: Centauro, 2008.
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terça-feira, 30 de setembro de 2025

Da Dispersão à Soberania: Dialética Política entre Espontaneísmo e Projeto Nacional-Classista.

 Por Walter Azevedo

 

O impulso espontâneo e a pluralidade da esquerda

A multiplicidade de pautas no campo da esquerda no momento de ataque do imperialismo dos EUA contra o Brasil – dívida pública, Petrobras, reestatizações, eleições, estatais, antifascismo – expressa uma riqueza de demandas legítimas, nascidas de diferentes vivências da classe trabalhadora. Essa diversidade é o momento afirmativo da política viva: o aparecimento da necessidade, o surgimento das contradições sociais no plano da consciência, ainda que de forma dispersa.

No entanto, como ensinava Hegel, o verdadeiro não é apenas o imediato, mas o processo total de sua mediação. A mera somatória de desejos e indignações não constitui ainda um movimento político estruturado. A esquerda espontaneísta, ao tomar a imediaticidade da consciência como suficiente, nega a própria possibilidade de formar um todo orgânico. Cada militante é uma partícula em movimento, impulsionada por seu “coração”, por seu “interesse”, mas sem gravitação comum. É o que Marx criticava na política pequeno-burguesa: “vontades particulares erigidas à condição de universal”.

 

O vazio estratégico da não-unificação

A ausência de um projeto classista de soberania nacional-popular — que articule os diversos focos de luta em torno de um norte comum — é a negação dialética do potencial revolucionário presente nas lutas fragmentadas. Quando cada sujeito político atua isoladamente em seu campo temático, o que se apresenta como "pluralidade" se transforma em impotência tática. Não se trata aqui de apagar as particularidades, mas de encontrar a lógica comum que lhes dá sentido histórico, não há como evitar o uso do método agitação e propaganda de Lenin.

Sem mediação organizativa, sem projeto articulador, a reunião torna-se “uma sopa de letrinhas”, um brainstorm sem norte. É o momento em que a esquerda se define mais por negações reativas do que por afirmações propositivas. Atacamos o bolsonarismo, o capital financeiro, o entreguismo, tudo pode servir para críticas pontuais — mas não se constrói um centro próprio de atração, um projeto estruturante que suprassuma as pautas em um movimento de transformação social real.

Essa dispersão, que aparenta liberdade, é, na verdade, submissão inconsciente à estrutura dominante, pois sem direção coletiva, o capital define os rumos.

 

A espontaneidade à soberania como projeto político

A superação se dá quando a consciência dispersa se organiza, quando a pluralidade encontra sua unidade concreta: não pela imposição externa, mas pela mediação entre as contradições particulares e a totalidade histórica. Aqui, a soberania não é apenas um conceito jurídico ou estatal — é um projeto político coletivo, que unifica a luta pela dignidade social, pelo controle popular dos bens estratégicos, pela independência econômica, pela autodeterminação determinada pela classe da maioria, nossa classe trabalhadora.

A soberania torna-se, assim, a categoria estruturante da práxis popular: não como nacionalismo reacionário, mas como nacionalismo emancipador, que une a classe trabalhadora em torno de um ideal comum, antagônico ao capital internacional e às oligarquias locais.

O patriotismo, nesse processo, não é fetiche, mas afeto politizado: amor ao povo, à terra e à cultura como fundamentos para mover uma nova força que motive e levante nossa classe. Quando Lenin propõe o direito à autodeterminação dos povos, não se refere a um nacionalismo chauvinista, mas a uma estratégia de construção da hegemonia da classe trabalhadora frente à dominação imperialista.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Escritores, Big Techs e a Dialética da Palavra: A Soberania da Escrita

 

Por Walter Azevedo



 


A promessa tecnológica

As grandes empresas tecnológicas, chamadas “Big Techs”, apresentam-se como portadoras de um novo tempo, são o mecanismo do capital mais dinâmico em um sistema imperialista e monopolista com sede nos EUA. Com seus algoritmos, inteligências artificiais e redes globais com vasto capacidade de processamento, poder de capital e força política, tem tido a capacidade de prometer muito, inclusive de democratizar o conhecimento, multiplicar a capacidade criativa e dissolver fronteiras entre culturas. O escritor, nessa aparência imediata, parece ter conquistado um aliado: uma máquina que organiza, sugere, acelera, corrige.

Aqui, a afirmação dialética se mostra como possibilidade de expansão: mais leitores podem ter acesso a livros digitalizados, mais idiomas podem ser traduzidos em tempo real, mais pessoas podem escrever e divulgar seu pensamento e sua arte, qualquer operador pode gerar milhares de textos, livros, ensaios, etc.

A Inteligência Artificial (IA) aparece como uma tipografia infinita, onde cada autor teria milhares de braços capazes de multiplicar suas palavras, sua expressão e sua formulação.

O monopólio da linguagem

Mas, na essência, esta liberdade de negócios que a sociedade provê as Big Techs, guarda contradições fundamentais. O que a um tempo liberaliza, ao mesmo tempo, reforça uma apropriação privada, que limita a liberdade do saber, em benefício do novo proprietário. As palavras dos escritores, suas obras publicadas ou até fragmentos de blogs e redes sociais, são extraídas sem remuneração ou reconhecimento para alimentar as máquinas empresariais das Big Techs.

Este mecanismo tem um nome técnico, é o “aprendizado de máquina”, absorvem toda a construção do gênio humano desenvolvido e acumulado na história, transformam isto em dados proprietários daquelas empresas. O sistema alcança também o que os autores humanos têm escrito e produzido hoje, no tempo de nossas vidas. As Big Techs com suas IAs estão se travestindo em um monstruoso chupa-cabra universal.

O escritor/autor e sua produção se veem, então, reduzidos a matéria-prima gratuita de um processo industrial monopolista do capitalismo internacional.


- O texto autoral deixa de ser expressão singular e torna-se mero 'conteúdo' ou dado lógico.
- O estilo, antes marca de identidade, é mimetizado estatisticamente por modelos matemáticos.
- O valor simbólico da obra cede lugar à lógica mercantil de dados.

- A criatividade, inovação e a singularidade são rebaixadas a um mecanismo informatizado de geração de textos.
- A subjetividade é dissolvida em números,

- A obra autoral é transformada por algoritmos um sistema empresarial de pseudo neutralidade.

O escritor é como o mineiro que cava ouro para alimentar a riqueza de um império, mas que, ao final do dia, não pode pagar o próprio pão.

 

Para além do algoritmo

A contradição entre promessa e expropriação exige um momento de superação. Nem a recusa ingênua da tecnologia, nem a submissão ao capitalismo empresarial das Big Techs. É preciso uma nova síntese, em que escritores e autores em geral se percebam com classe, se organizem e realizem sua ação política, assumindo o protagonismo da luta pela soberania da criatividade e reconhecimento de sua produção, seu trabalho, seu direito autoral e sua remuneração.

Essa suprassunção pode se dar em várias direções:


1. Institucional: exigir regulações legais que obriguem as empresas a reconhecer e remunerar o uso de obras autorais em treinamentos e produção de IA.
2. Coletiva: criar cooperativas de escritores que construam seus próprios repositórios de textos, sob licenças coletivas e controladas, para negociar com força coletiva frente ao poder das corporações.
3. Cultural: afirmar a originalidade humana não como nostalgia, mas como força criadora que a máquina não substituirá — porque só o ser humano vive contradições, lutas e práticas históricas que alimentam a dialética da escrita.

4. Filosófica: o direito de autor, assim com qualquer direito, não é “natural” ou “absoluto”, é uma convenção social construída na história, que hoje está sendo desafiado pelas práticas materiais de um pequeno grupo de empresas gigantes de tecnologia estrangeiras.

5. Social: não será pela reclamação ou pelo ressentimento direcionado a um sistema material de organização do capital internacional, a atitude deve ser a da disputa social, onde as relações de poder são reescritas a cada novo movimento de grupos e classes sociais, aqui e no resto do mundo.

6. Civilizacional: a soberania não é mais um direito divino ou uma lei internacional, é uma força que um povo ou uma classe constroem na luta e na vitória sobre as disputas fundamentais, sobre a terra, sobre a organização social e sobre as riquezas de seu território, inclusive a riqueza imaterial do conhecimento e a produção artística

 

Aparência e essência: entre a superfície e a estrutura

Na superfície, a IA aparece como ferramenta neutra, produto inevitável do avanço técnico. Mas a essência mostra que ela é mediação de relações de produção e de poder: a concentração de capital em poucas mãos, a transformação do trabalho intelectual em insumo de algoritmos e a erosão do direito autoral em favor da mercantilização empresarial privada.

Nas profundezas dos algoritmos a essência se manifesta: todo o conhecimento humano se transforma na reprodução do monopólio de uma classe, reforçando um sistema que amplia a distância entre quem detém os meios digitais de produção(as Big Techs) e aqueles que apenas fornecem seu trabalho e sua criatividade.

 

Mediação: da consciência individual à prática histórica

O escritor isolado em si, na sua individualidade, autocentrado nas suas capacidades e idiossincrasias, se coloca numa situação de impotência. Mas a mediação entre consciência e estrutura histórica, mostra que o individual só encontra força na identidade coletiva e na ação de massas. A luta sindical, os movimentos de escritores e artistas, a articulação com juristas e técnicos podem transformar a indignação e derrota individual em potencial de vitória coletiva.

Exemplo histórico: tal como os operários tipógrafos do século XIX se depararam com a novas empresas que implantaram novas máquinas movidas a força de caldeiras a vapor, os escritores do século XXI não terão outra saída senão, organizar-se contra a exploração empresarial, inteligentemente articulada, via uma nova  técnica informática aplicada.

O desenvolvimento das Big Tecs também é um movimento de massas, massas de capitais investidos em empresas, articulado politicamente entre si e com domínio sobre os Estados nacionais, todos eles ativos na esfera digital e na ordem política, postulando leis e jurisprudência que lhes favoreçam. A classe do capital se move com profissionalismo político, é dominando a subjetividade social que mantenham sua posição de dominância e suas vantagens extraordinárias.

 

Da prática

Chamamos escritores, jornalistas, poetas, roteiristas e todos que vivem da palavra:

- Organizemo-nos em sindicatos, associações e partidos para construir nossa força coletiva.
- Realizemos a produção de textos e obras que engajem a arte, a simbologia, a cultura, o coração e as mentes de nosso público na luta política

- Conquistemos leis que submetam as empresas de tecnologia à transparência e remuneração no uso de nossas obras sugadas pelas IAs.
- Criemos repositórios autônomos que protejam a produção humana, com diversidade linguística e cultural.
- Formulemos nossa teoria a executemos na prática, derrotando o extrativismo digital e sua estrutura empresarial.

A luta não é contra uma nova tecnologia, mas contra o domínio político de um monopólio. A palavra, enquanto criação humana, é campo de batalha. Cabe a nós impedirmos que ela seja reduzida a uma mercadoria sem alma e com poucos donos.

 

A dialética da palavra

As correntes que tememos nos perder, não guiam nossos caminhos, mas restringem a nossa realização. São puras correntes ideológicas que um virar de página as deixam para trás.

O futuro da escrita não será dado pelas máquinas, mas pela consciência e pela luta daqueles que escrevem e trabalham, se estes tomarem seu destino em suas mãos. Porque, como já escreveu Marx, 'a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora'. Essa classe inclui também os trabalhadores da palavra.

domingo, 25 de maio de 2025

Soberania Digital no Brasil: A Soberania Política e suas Implicações

 Por: Walter Azevedo

A soberania digital é uma prática emergente, originada pela crescente importância dos dados, tecnologia e infraestruturas digitais, que são essenciais para o desenvolvimento econômico, a segurança e soberania nacional. No caso do Brasil, a soberania digital é moldada pela força dominante da classe capitalista, representada pelos grandes proprietários de empresas nacionais e multinacionais, que exercem poder sobre o Estado e a sociedade. Essa dominância define as políticas estatais sobre o tema, fazendo com que os interesses dessa classe sejam tratados como se fossem os interesses de toda a população. Este artigo analisa como a lógica do capital molda as normativas brasileiras sobre soberania digital, especialmente em relação à proteção de infraestruturas críticas, e conclui que o Estado não regulamenta a obrigatoriedade de utilização de data centers localizados no Brasil, evidenciando o interesse particular de uma pequena classe capitalista completamente subordinada ao centro do capitalismo global.





 

Parâmetros da Soberania Digital:

a) Controle sobre Dados: Proteção de dados pessoais e públicos, com a exigência de que a localização, o armazenamento e o processamento de dados sejam realizados em território nacional, sujeitos à soberania e às leis brasileiras.
b) Infraestrutura Digital: Propriedade e controle nacional sobre redes de comunicação e data centers, garantindo resiliência e segurança contra ataques cibernéticos e falhas técnicas.
c) Regulação e Legislação: Estabelecimento de leis de cibersegurança robustas, focadas em crimes cibernéticos e privacidade, e normas técnicas para o desenvolvimento, operação e segurança das tecnologias digitais.
d) Desenvolvimento Tecnológico: Fomento à inovação e pesquisa para o desenvolvimento de tecnologias nacionais e capacitação da força de trabalho.
e) Atuação Internacional: Diplomacia digital voltada para a definição de normas e padrões globais em acordos multilaterais sobre TI.

Dentro da lógica das sociedades capitalistas, o Estado brasileiro atua sob a dominância da classe capitalista. Isso se reflete na formulação de políticas públicas, na regulamentação de setores estratégicos e na priorização dos interesses empresariais sobre os da classe trabalhadora. No contexto da soberania digital, as ações estatais são moldadas para atender às demandas de grandes empresas, especialmente multinacionais, em detrimento da proteção de dados, segurança cibernética e do desenvolvimento tecnológico nacional. Isso evidencia o abandono de um projeto de desenvolvimento nacionalista por parte da classe empresarial.


Exemplos dessa dinâmica incluem:

  • Flexibilização de Normas: Tendência política para flexibilizar as regras de localização de dados e segurança cibernética.
  • Privatizações: Transferência de infraestruturas críticas, como telecomunicações e processamento de dados (vide caso CELEPAR), para o setor privado, destruindo a propriedade pública desses recursos.
  • Influência Corporativa: Lobby de grandes empresas de tecnologia, incluindo multinacionais, para moldar legislações, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), de forma a minimizar os impactos sobre seus negócios.

Normativas Brasileiras e a Soberania Digital

Embora o Brasil tenha um conjunto de leis e regulamentações que buscam garantir a soberania digital, essas normativas refletem a influência da classe capitalista e, em muitos casos, deixam lacunas que favorecem empresas em detrimento do interesse geral da população. Abaixo estão as principais normativas e suas limitações:

a) Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014):

  • Estabelece princípios como neutralidade da rede e privacidade de forma genérica, mas não definiu mecanismos de fiscalização nem sanções, também não impõe restrições às operações de empresas multinacionais.
  • Exige que “dados pessoais” e registros de conexão sejam armazenados no Brasil, mas permite exceções que beneficiam grandes corporações e não detalha a questão de forma eficaz.

b) Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) - Lei nº 13.709/2018:

  • Regula o tratamento de dados pessoais, mas é de caráter recomendativo, com forte influência da classe empresarial para evitar restrições mais rigorosas.
  • Permite a transferência internacional de dados sob condições flexibilizadas em benefício das empresas.
  • Exige apenas o “consentimento” do usuário, que frequentemente só tem acesso ao serviço se consentir integralmente.

c) Política Nacional de Segurança da Informação (PNSI) - Decreto nº 9.637/2018:

  • Define diretrizes para a proteção de infraestruturas críticas no âmbito da administração pública federal, mas não estabelece obrigações sobre a localização de data centers ou controle de serviços de TI por empresas estrangeiras, focando mais na segurança de dados do que na infraestrutura de TI.

d) Estratégia Nacional de Segurança Cibernética “e-Ciber” - Decreto nº 10.222/2020:

  • Promove a proteção de infraestruturas críticas, mas não aborda de forma contundente os riscos associados à dependência de tecnologias e serviços estrangeiros.
  • Não estabelece mecanismos robustos de monitoramento e avaliação da eficácia das ações estratégicas.
  • Não define claramente as responsabilidades dos órgãos reguladores nem a coordenação entre órgãos públicos.

Infraestruturas Críticas no Brasil: Definição e Normativa

As infraestruturas críticas são sistemas e ativos essenciais para o funcionamento do país, cuja interrupção ou destruição causaria impactos significativos na segurança nacional, economia, saúde ou bem-estar social. No Brasil, essas infraestruturas são regulamentadas pelo Decreto nº 9.637/2018, que estabelece diretrizes para sua proteção.

Setores considerados críticos:

  • Energia: Sistemas de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, petróleo e gás.
  • Transportes: Redes aéreas, marítimas, ferroviárias e rodoviárias.
  • Telecomunicações: Redes de telefonia, internet e comunicação de dados.
  • Água e Saneamento: Sistemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto.
  • Saúde: Hospitais, laboratórios e sistemas de informação em saúde.
  • Finanças: Sistema bancário, bolsas de valores e instituições financeiras.
  • Alimentação e Agricultura: Cadeias de produção e distribuição de alimentos.
  • Defesa e Segurança Pública: Sistemas de defesa nacional, polícia e inteligência.
  • Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC): Data centers, redes de comunicação e serviços de TI.

Apesar dessa definição clara, o Decreto nº 9.637/2018 não obriga que os serviços de TI utilizados por essas infraestruturas sejam providos por data centers localizados no Brasil, o que representa uma lacuna significativa na proteção da soberania digital, expondo o país a riscos de segurança, já que, caso os sistemas operem em data centers no exterior, eles podem ser desconectados ou “tomados” por uma simples decisão de governos estrangeiros em uma situação de conflito.

4. Imperialismo e Soberania Digital

Os Estados Unidos exercem sua força no âmbito digital da mesma forma que exercem sua hegemonia global. Internamente, os EUA têm uma forte normatização para proteger suas infraestruturas críticas e seu ambiente de TI, enquanto pressionam outros países a não implementarem medidas semelhantes, especialmente no que diz respeito ao controle do processamento e fluxo de dados.


 

Normatização interna nos EUA:

  • Cybersecurity Information Sharing Act (CISA): Regula o compartilhamento de informações sobre ameaças cibernéticas entre o governo e o setor privado.
  • Executive Order 13636: Promove a adoção de práticas de segurança cibernética no setor de infraestrutura crítica.
  • Federal Information Security Management Act (FISMA): Estabelece requisitos para agências federais protegerem suas informações e sistemas.

Pressão internacional – liberdade de fluxos de dados é liberdade comercial:

  • Cloud Act: Permite que autoridades americanas acessem dados armazenados por empresas de tecnologia, mesmo que estejam em servidores no exterior, pressionando outros países a não adotarem regras rígidas sobre a localização de dados.
  • Lobby contra restrições: Empresas americanas, como Amazon, Microsoft e Google, pressionam governos estrangeiros a não adotarem normas que exijam a localização de data centers ou o controle do fluxo de dados, alegando que isso prejudica o livre comércio.

Esse duplo padrão dos EUA reflete sua posição de potência global: enquanto protegem suas próprias infraestruturas críticas e dados nacionais, tentam impedir que outros países adotem medidas semelhantes, mantendo sua dominância tecnológica e econômica.

A Experiência Chinesa e o Desenvolvimento de TI

Desde a Revolução de 1949, a China tem promovido o fortalecimento da pesquisa e do desenvolvimento internos, inclusive na área de TI, desenvolvendo recursos e capacidades nacionais. O controle estatal sobre infraestruturas críticas, especialmente nas áreas de telecomunicações e TI, garante que os interesses dessas áreas estejam alinhados com os objetivos nacionais.

A China consolidou-se como uma potência digital ao implementar políticas estatais de proteção e incentivo à indústria nacional de tecnologia, refletindo a decisão e o esforço nacional voltados ao seu projeto de desenvolvimento. Esse modelo contrasta com o cenário brasileiro atual, no qual a classe capitalista abandonou qualquer projeto de desenvolvimento nacionalista.

Exemplos práticos do modelo chinês:

  • Firewall chinês: Impede que plataformas estrangeiras dominem o mercado digital interno, promovendo o crescimento de empresas nacionais como Alibaba, Tencent e Huawei.
  • Lei de Segurança Cibernética (2017): Exige que dados críticos sejam armazenados em servidores localizados na China, sob a soberania do país.
  • Investimentos em inovação: O governo chinês subsidia e fomenta empresas de TI nacionais, sejam estatais ou privadas, como Baidu e Xiaomi.

É possível que um país em desenvolvimento construa sua soberania e seu desenvolvimento no setor de TI, mas isso requer uma base social que sustente essa política.

A Lacuna Crítica: Data Centers e Infraestruturas Críticas

Algo que por fim caracteriza a soberania digital no Brasil é a ausência de normativas que obriguem o uso de data centers localizados no território nacional para prover serviços de TI a infraestruturas críticas. Essa lacuna expõe o país a riscos significativos, como:

  • Dependência tecnológica: A maioria dos serviços de TI utilizados por infraestruturas críticas é controlada por empresas estrangeiras, como Amazon Web Services (AWS), Microsoft Azure e Google Cloud.
  • Riscos à segurança nacional: A localização de dados e serviços em data centers no exterior torna o país vulnerável a espionagem, ataques cibernéticos e pressões geopolíticas.
  • Desnacionalização: Reduz os incentivos para o desenvolvimento de data centers nacionais, enfraquece a indústria local e aumenta a dependência de tecnologias estrangeiras.

Razões para essa lacuna persistir:

  • Pressão empresarial: Grandes empresas de tecnologia exercem influência sobre o Estado para evitar regulamentações que possam limitar seus negócios.
  • Falta de prioridade política: A proteção de infraestruturas críticas e a soberania digital não são tratadas como prioridades estratégicas pelo Estado.
  • Fragilidade institucional: Órgãos reguladores, como a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), demonstram omissões e fragilidades, reflexo do contexto político em que estão inseridos.

Conclusão: Soberania Digital e Poder Político

A soberania digital no Brasil está marcada pela dominação da classe capitalista, que define as ações estatais e as normativas de forma a priorizar os interesses de grandes empresas nacionais e multinacionais. A ausência de regras claras sobre a localização de data centers e o controle de serviços de TI para infraestruturas críticas expõe o país a riscos de segurança e dependência tecnológica.

A falta de normatização sobre data centers nacionais é um exemplo claro de como o Estado brasileiro atua sob a lógica do capital, rebaixando qualquer programa de soberania nacional. A soberania digital não é apenas um conceito a ser entendido e adotado, mas sim uma política determinada pela disputa de classe e pela hegemonia no campo político e econômico.

Uma política voltada para a soberania nacional se orienta pelos seguintes princípios:

  • Regular rigorosamente: Estabelecer obrigações claras para o uso de data centers localizados no Brasil para serviços de TI em infraestruturas críticas.
  • Fortalecer o controle público nacionalista: Garantir que infraestruturas críticas sejam geridas com transparência e no interesse coletivo.
  • Promover a autonomia tecnológica: Investir no desenvolvimento de tecnologias nacionais e na formação de profissionais qualificados.

Enquanto o Estado brasileiro continuar sob a dominância da classe capitalista, a soberania digital permanecerá subordinada aos interesses desta pequena classe. A luta pela soberania digital é, portanto, uma luta pela transformação revolucionária do país no interesse da classe trabalhadora. Somente uma nova formação social poderá adotar novos parâmetros de desenvolvimento e soberania.

 

Referências:

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