terça-feira, 22 de setembro de 2026

Terras raras: como a burguesia entrega a soberania ao imperialismo

O leilão de áreas ricas em terras raras no Brasil é a expressão mineral da subordinação que atravessa nossa formação social: a burguesia interna aceita exportar terra barata para importar tecnologia cara, transferindo o controle de um ativo soberano ao capital imperialista.

Principais pontos

  • As terras raras são a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta.
  • A burguesia brasileira, sócia menor do imperialismo, contenta-se com as migalhas dos royalties.
  • O Estado brasileiro, capturado pelas frações financeirizadas, converte-se em balcão de negócios.
  • A burguesia interna não tem projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas e prefere a renda fácil da mineração.

Terras raras, soberania e luta de classes: a burguesia interna entrega o subsolo ao imperialismo

Por Walter Azevedo

O recente anúncio de licitação de áreas ricas em terras raras no Brasil não é um fato administrativo qualquer. É a expressão mineral da subordinação que atravessa nossa formação social. Enquanto o discurso governamental celebra a “autonomia estratégica”, a classe do capital interno acelera a entrega do subsolo a mineradoras transnacionais, com a cumplicidade de quem lucra com a intermediação e a renda fundiária. A cena é grave: sob o pretexto da modernização, escancara-se a velha lógica dependente que nos condena a exportar terra barata para importar tecnologia cara.

As terras raras não são um detalhe técnico. São a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta. Quem detém o controle da extração e, sobretudo, do refino desses minerais decide as condições da transição energética e da segurança nacional. Por isso, o imperialismo disputa cada jazida como quem disputa um posto avançado de guerra. E a burguesia brasileira, sócia menor nesse jogo, contenta-se com as migalhas dos royalties.

O leilão do subsolo como política de classe

O leilão de áreas estratégicas, anunciado com alarde, oferece contratos de pesquisa e lavra a consórcios liderados por capitais estrangeiros. As promessas de “investimentos bilionários” e “geração de empregos” encobrem o essencial: a transferência de controle sobre um ativo soberano. O Estado brasileiro, capturado pelas frações financeirizadas, converte-se em balcão de negócios. Garante segurança jurídica ao capital externo, flexibiliza licenciamento ambiental e reprime a resistência de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas que vivem sobre esses territórios. A luta de classes aparece aí sem mediações: de um lado, a coalizão entre burguesia interna e imperialismo; de outro, a população expropriada e superexplorada.

Não se trata de um acidente. Como analisei no artigo sobre dependência tecnológica e planejamento democrático, a divisão internacional do trabalho reserva ao Brasil o papel de fornecedor de matérias-primas brutas. A burguesia interna aceita essa posição porque sua taxa de lucro não depende da industrialização, mas da exportação primária e da especulação com terras e royalties. Ela não tem projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas. Prefere a renda fácil da mineração à construção de uma cadeia de refino e de uma indústria de alta intensidade tecnológica. Por isso, o subsolo vira moeda de troca.

A mediação imperialista da escassez

Os dados são contundentes: a China controla cerca de 60% da produção mundial de terras raras e mais de 85% da capacidade de refino. O Brasil possui a terceira maior reserva do planeta, estimada em dezenas de milhões de toneladas, mas exporta minério bruto sem dominar a etapa de beneficiamento. Essa assimetria não nasceu ontem. É a materialização da dependência descrita por Ruy Mauro Marini: a superexploração da força de trabalho e a transferência de valor para o centro, agora sob a forma de minerais estratégicos. Quem refina, agrega valor e define preços. Quem exporta pó de terra, apenas transfere riqueza.

Ao associar-se ao capital imperialista na exploração de terras raras, a burguesia brasileira aprofunda seu próprio rebaixamento. Ela até amplia sua renda imediata — royalties, participações acionárias, contratos de logística —, mas torna estrutural a subordinação tecnológica. Perde-se a chance de construir uma cadeia produtiva soberana, com pesquisa nacional, engenharia reversa, formação de técnicos próprios e integração latino-americana para quebrar o monopólio de refino. Em vez disso, renova-se o ciclo primário-exportador que condena a classe trabalhadora ao desemprego crônico e aos baixos salários nas minas. A ironia fina da história: quanto mais terras raras o Brasil entrega, mais pobre fica em soberania.

Soberania como projeto de classe

A soberania não é um slogan para discursos de campanha. É um projeto concreto de organização das forças produtivas sob direção da classe trabalhadora. Exige:

  • Controle público e social das reservas minerais estratégicas, com veto a privatizações e a contratos lesivos;
  • Criação de uma empresa estatal de mineração e refino de terras raras, com tecnologia nacional e participação operária na gestão;
  • Articulação latino-americana para romper o monopólio de refino, integrando cadeias produtivas regionais, como propõe a autogestão popular;
  • Revogação do marco legal que facilita a exploração estrangeira e aprovação de uma lei de mineração soberana, com consulta prévia, livre e informada aos povos originários.

Essa disputa não se resolve dentro do mercado. Ela exige correlação de forças favorável ao campo popular. Significa ocupar as ruas, denunciar o entreguismo parlamentar, construir greves na mineração e organizar comitês territoriais de defesa do subsolo. A luta pelas terras raras é a luta pela soberania nacional, e a soberania nacional é uma trincheira na guerra de classes contra o imperialismo. Como escrevi em Soberania em disputa, o capital nacional jamais se separará do imperialismo por vontade própria: apenas a pressão organizada da classe trabalhadora pode impor outro rumo.

O subsolo brasileiro é um campo de batalha. Quem o controla, controla o futuro da indústria, da energia e da defesa. Deixar as terras raras nas mãos da burguesia associada é aceitar a condição de quintal mineral do império. Por isso, nossa tarefa é dupla: construir a consciência de classe sobre o que está em jogo e avançar na organização política que transforme a mineração em bem comum, sob controle operário e a serviço do projeto nacional-popular. A história não perdoa os que dormem sobre a riqueza alheia.

Referências:

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
  • Serviço Geológico dos EUA. Mineral Commodity Summaries (dados de reservas e produção de terras raras, 2025).
  • Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Análises sobre dependência tecnológica e divisão internacional do trabalho.

Perguntas Frequentes

Por que as terras raras são estratégicas para a soberania nacional?

Porque são a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta. Quem controla extração e refino decide as condições da transição energética e da segurança nacional.

Como a burguesia brasileira participa da entrega do subsolo ao capital estrangeiro?

A burguesia interna aceita o papel de fornecedor de matérias-primas brutas porque sua taxa de lucro depende da exportação primária e da especulação com terras e royalties, contentando-se com as migalhas.

O que o leilão de áreas de terras raras representa na análise do autor?

Representa a expressão mineral da subordinação: o Estado converte-se em balcão de negócios, garante segurança jurídica ao capital externo e reprime a resistência de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas.

Qual é a posição do Brasil no mercado mundial de terras raras?

O Brasil possui a terceira maior reserva do planeta, mas a China controla cerca de 60% da produção mundial e mais de 85% da capacidade de refino, o que evidencia a disputa imperialista por cada jazida.

Qual é a consequência da falta de refino no Brasil, segundo o texto?

Sem cadeia de refino e indústria de alta intensidade tecnológica, o Brasil fica condenado a exportar terra barata e importar tecnologia cara, perpetuando a lógica dependente.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Dependência tecnológica e planejamento democrático no Brasil

A dependência tecnológica opera como uma fechadura cuja chave nunca esteve conosco, funcionando como o normal de uma formação social dependente inserida na divisão internacional do trabalho. O planejamento democrático surge como arma anti-imperialista ao recolocar a totalidade no centro e disputar a direção das forças produtivas.

Principais pontos

  • O estrangulamento das cadeias produtivas não é falha logística, mas o funcionamento normal de uma formação social dependente.
  • A dependência tecnológica opera como uma fechadura cuja chave nunca esteve conosco.
  • Enquanto Taiwan e Coreia do Sul destinam mais de 3% do PIB à pesquisa e desenvolvimento, o Brasil patina em torno de 1,2% — e a maior parte disso vem de estatais.
  • Falar em planejamento democrático, no contexto brasileiro, não é nostalgia desenvolvimentista, mas disputar a direção das forças produtivas.

Dependência tecnológica e planejamento democrático: a trincheira anti-imperialista no Brasil

Por Walter Azevedo

A recente crise nos preços de componentes eletrônicos, que encareceu desde tratores agrícolas até equipamentos hospitalares no Brasil, expõe uma ferida que o debate público insiste em tratar como acidente de percurso. O estrangulamento das cadeias produtivas, sentido no atraso de colheitas e na fila por respiradores, não é falha logística. É o funcionamento normal de uma formação social dependente, inserida na divisão internacional do trabalho como fornecedora de commodities e consumidora de tecnologia alheia. O Instituto Tricontinental vem sistematizando essa chave de leitura para a periferia. Cabe a nós traduzi-la para o caso brasileiro.

A fechadura que não abrimos

Quando uma montadora alemã anuncia que vai produzir carros elétricos no Brasil com baterias importadas da China, parte da imprensa celebra empregos. O que não se diz é que a decisão sobre o que produzir, com qual tecnologia e para qual mercado continua em Munique ou Xangai. A dependência tecnológica opera como uma fechadura cuja chave nunca esteve conosco. O capital local, associado ao capital financeirizado internacional, lucra com a intermediação — comissões, royalties, juros, remessas. Não tem interesse estrutural em romper a condição subordinada. Pelo contrário, alimenta-se dela.

O exemplo dos semicondutores é revelador. Enquanto Taiwan e Coreia do Sul destinam mais de 3% do PIB à pesquisa e desenvolvimento, o Brasil patina em torno de 1,2% — e a maior parte disso vem de estatais. A diferença não é acaso nem falta de “vocação”. É projeto de classe. A oligarquia que controla o Estado brasileiro optou por um modelo primário-exportador, cuja rentabilidade imediata dispensa a formação de engenheiros, a criação de parques tecnológicos próprios ou a soberania sobre dados e algoritmos.

O que o planejamento democrático desloca

Falar em planejamento democrático, no contexto brasileiro, não é nostalgia desenvolvimentista. É disputar a direção das forças produtivas. Quem define a pauta de investimentos, os critérios de financiamento e as prioridades de pesquisa define também o tipo de sociedade que se constrói. Hoje, essas decisões estão privatizadas: são tomadas em conselhos de administração, em fundos de investimento, em acordos de acionistas. A classe trabalhadora é chamada apenas para arcar com os custos — demissões em massa, precarização, desmonte das universidades.

Um plano nacional-popular, ao contrário, recoloca a totalidade no centro. Em vez de aceitar a “vocação agrícola” como destino, pergunta: que ciência e que técnica servem à soberania alimentar, à transição energética, ao complexo industrial da saúde? A resposta exige mediações concretas: fundo público destinado à inovação, compras governamentais orientadas para a produção local, controle social sobre os bancos públicos e estatais. Não se trata de substituir o mercado pela burocracia, mas de subordiná-lo a um projeto coletivo.

A arma anti-imperialista

O imperialismo contemporâneo não se sustenta apenas em bases militares e sanções. Sustenta-se no monopólio do conhecimento. As patentes farmacêuticas, os softwares proprietários, os padrões de conectividade e os serviços em nuvem funcionam como cercas invisíveis que mantêm nações inteiras reféns. Durante a pandemia, vimos a lógica com nitidez: enquanto os laboratórios centrais retinham as fórmulas das vacinas, os países periféricos imploravam por doses. A Índia e a África do Sul propuseram a quebra das patentes — a resposta foi um bloqueio coordenado pelas potências centrais.

Por isso o planejamento democrático é, simultaneamente, instrumento de desenvolvimento e arma anti-imperialista. Ele rompe a mediação que transforma a técnica em mercadoria exclusiva. Quando uma estatal brasileira desenvolve tecnologia própria para exploração em águas profundas ou para produção de imunobiológicos, ela não está apenas gerando empregos. Está reduzindo a margem de chantagem do capital transnacional. Está devolvendo à coletividade o controle sobre os meios de vida.

Essa perspectiva exige organização política. Nenhum plano se impõe pelo convencimento de técnicos esclarecidos. Ele nasce da pressão organizada de sindicatos, movimentos populares, universidades e mandatos comprometidos com a soberania. A memória da autogestão popular como resposta à omissão do poder público é, aqui, um ensaio do que pode vir a ser um planejamento enraizado nas necessidades concretas. Não se parte do escritório para o território; parte-se do território para o escritório, e o território não esquece sua história de luta.

Os que falam de soberania sem tocar na propriedade dos meios de produção, incluindo os meios de produção do conhecimento, estão declamando poesia para banqueiros.

Construir a chave

A tarefa imediata é dupla. De um lado, desmascarar o discurso da modernização subordinada — aquilo que se apresenta como “inserção competitiva” e não passa de aprofundamento da dependência. De outro, acumular força social para transformar o Estado em direção de um projeto nacional-popular. Isso significa disputar os orçamentos, os currículos, as agências reguladoras e os acordos internacionais. Significa, sobretudo, retirar a política tecnológica do gueto dos especialistas e colocá-la no centro do debate público.

A classe trabalhadora brasileira já mostrou que sabe construir alternativas quando o poder público se omite — como vimos nas experiências de luta por verdade e justiça social contra a censura e a blindagem do Estado. O próximo passo exige unificar essas lutas num programa de soberania tecnológica, que articule a reforma agrária, a reindustrialização ecológica e o controle público sobre os dados. Não por acaso, é exatamente o que os centros imperialistas mais temem: um país da periferia que ouse planejar o próprio futuro.

Referências

  • Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Dossiês sobre dependência tecnológica e soberania na periferia.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. São Paulo: Expressão Popular.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

Perguntas Frequentes

Como a dependência tecnológica afeta a economia brasileira?

A dependência tecnológica mantém o Brasil como fornecedor de commodities e consumidor de tecnologia estrangeira. Decisões sobre produção, tecnologia e mercados permanecem no exterior, enquanto o capital local lucra com intermediação, comissões e royalties, sem interesse em romper a subordinação.

Por que o Brasil investe menos em pesquisa e desenvolvimento que Taiwan ou Coreia do Sul?

A diferença não é acaso nem falta de vocação, mas projeto de classe. A oligarquia que controla o Estado brasileiro optou por um modelo primário-exportador cuja rentabilidade imediata dispensa a formação de engenheiros e a soberania sobre dados e algoritmos.

O que significa planejamento democrático no contexto brasileiro?

Não é nostalgia desenvolvimentista. É disputar a direção das forças produtivas, definindo pauta de investimentos, critérios de financiamento e prioridades de pesquisa. Hoje essas decisões estão privatizadas em conselhos de administração e fundos de investimento.

O que um plano nacional-popular pergunta em vez de aceitar a 'vocação agrícola'?

Pergunta que ciência e que técnica servem à soberania alimentar, à transição energética e ao complexo industrial da saúde. Exige mediações concretas como fundo público destinado à inovação, rompendo com o destino de exportador de commodities.

Como o Instituto Tricontinental contribui para o debate sobre dependência?

O Instituto Tricontinental vem sistematizando a chave de leitura da dependência para a periferia, permitindo traduzir essa análise para o caso brasileiro e evidenciar como o planejamento democrático atua como arma anti-imperialista.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Erosão institucional: ofensiva neoliberal deslegitima a política

A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos. Não se trata de uma crise moral, mas de uma estratégia de classe.

Principais pontos

  • A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos.
  • Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões — cerca de um quarto de todo o gasto discricionário da União.
  • A PEC 32, ao extinguir a estabilidade de servidores e abrir as portas para a terceirização total, transforma o próprio Estado em espaço de acumulação privada.
  • A deslegitimação da política não é efeito colateral da crise, mas uma mediação deliberada da classe do capital financeirizado para desarmar a resistência popular.

Erosão institucional: a ofensiva que desmoraliza a política para impor retrocessos

Por Walter Azevedo

A cena se repete nos terminais de ônibus, nas filas do posto de saúde, nos comentários das redes: a política virou sinônimo de corrupção, o Congresso um balcão de negócios, o funcionalismo um peso morto. Enquanto a classe trabalhadora sofre a carestia, o discurso de que "nenhum político presta" ganha tração — e não por acaso. A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos. Precisamos nomear essa operação com a exatidão da dialética: não se trata de uma crise moral, mas de uma estratégia de classe.

Um orçamento sequestrado pela lógica rentista

O orçamento público é o espelho mais fiel dessa guerra silenciosa. Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões — cerca de um quarto de todo o gasto discricionário da União. Os ministérios da Saúde e da Educação viram suas verbas de custeio encolher enquanto a máquina pública é tomada por indicações políticas sem critério técnico. O resultado não é invisível: concursos congelados, postos de saúde sem insumos, universidades com laboratórios sucateados. Cria-se deliberadamente a imagem de um Estado ineficiente para justificar, em seguida, a sua privatização ou o corte de direitos. Esse movimento foi exposto com precisão quando denunciamos como as isenções fiscais revelam o caráter de classe do Estado e a luta pela verdade e justiça social (leia aqui).

A PEC 32, que tramita sob o rótulo de "modernização administrativa", é o exemplo acabado dessa engenharia. Ao extinguir a estabilidade de servidores, abrir as portas para a terceirização total e submeter o funcionalismo a avaliações de desempenho definidas por critérios de mercado, ela não apenas precariza o trabalho — ela transforma o próprio Estado em espaço de acumulação privada. O discurso que a acompanha é sempre o mesmo: "o Brasil gasta muito com servidor", "o serviço público é uma fábrica de privilégios". A mentira repetida mil vezes vira senso comum.

A mediação de classe por trás da fumaça

Aqui está o nó que o senso comum não enxerga: a deslegitimação da política não é efeito colateral da crise. Trata-se de uma mediação deliberada da classe do capital financeirizado para desarmar a resistência popular. Quando o trabalhador desempregado conclui que "votar não muda nada", ele abandona a luta institucional e deixa o terreno livre para as oligarquias. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia se constrói não apenas pela força, mas pela produção de um imaginário que naturaliza a subordinação. Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, na tradição da teoria da dependência, mostraram como as burguesias periféricas se associam ao imperialismo para manter privilégios internos. A desmoralização do Estado nacional é funcional a essa associação: sem soberania, sem política pública forte, o país se torna presa fácil para o capital estrangeiro.

Os ataques à Petrobras, ao SUS, à educação pública não são obra de "maus gestores" — são o programa de uma fração de classe que lucra com a destruição do comum. O mesmo movimento se vê na ascensão de um discurso antipolítica nas redes, financiado por think tanks liberais e plataformas digitais. A cada escândalo de corrupção envolvendo um político fisiológico, o algoritmo amplifica o "são todos iguais". Mas a corrupção da velha política não é o oposto do neoliberalismo: é sua porta de entrada. O fisiologismo desmoraliza o parlamento para que as reformas do capital passem sem debate público.

Reconstruir a política como práxis coletiva

Diante desse cerco, a resposta não é o cinismo nem a apatia. É a reconstrução da política popular desde baixo, como mostram as experiências de autogestão que já retratamos neste blog (leia aqui). Quando moradores de periferias organizam cozinhas solidárias, mutirões de limpeza ou hortas comunitárias, eles não estão apenas tapando buracos do Estado ausente — estão ensaiando outra forma de poder. A práxis não é um conceito abstrato: é a ação coletiva que transforma as condições materiais.

A tarefa estratégica da classe trabalhadora é dupla: defender as instituições públicas que ainda servem à maioria (SUS, escolas, universidades) e, ao mesmo tempo, construir organismos próprios de decisão — conselhos populares, comitês de bairro, sindicatos combativos. Não se trata de eleger "bons políticos" dentro da ordem vigente, mas de mudar a correlação de forças que define quais políticas são possíveis. A mobilização do Grito dos Excluídos mostrou que é possível unificar pautas locais e conjuntura nacional (leia aqui). A erosão institucional não será revertida por apelos morais à "boa gestão". Exige um projeto nacional-popular que enfrente a dominação rentista e reconstrua a soberania sobre o orçamento, o território e o tempo da vida. O próximo ciclo eleitoral não pode ser tratado como um jogo de escolhas individuais. Precisa ser um campo de disputa programática, onde a classe trabalhadora apresente suas próprias bandeiras: tributação progressiva, fim das emendas secretas, revogação do arcabouço fiscal, soberania sobre os recursos naturais. Só assim a política deixará de ser o balcão de negócios da elite para se tornar o que sempre deveria ter sido: a ferramenta da nossa emancipação.

Para aprofundar a leitura

  • MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
  • LENIN, Vladimir. O Estado e a Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2017.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • SANTOS, Theotônio dos. Teoria da Dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Perguntas Frequentes

O que é erosão institucional?

É o processo de desmoralização da esfera pública — política, Congresso e funcionalismo — que, segundo o texto, não é uma crise moral, mas uma estratégia de classe para desarmar a resistência popular e impor ajustes neoliberais.

Como as emendas parlamentares impositivas afetam o orçamento público?

Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões, cerca de um quarto do gasto discricionário da União, reduzindo verbas de custeio de ministérios como Saúde e Educação e criando a imagem de um Estado ineficiente.

O que é a PEC 32 e quais seus impactos?

A PEC 32 é uma proposta de "modernização administrativa" que extingue a estabilidade de servidores, abre espaço para a terceirização total e submete o funcionalismo a critérios de mercado, precarizando o trabalho e transformando o Estado em espaço de acumulação privada.

Por que a deslegitimação da política favorece o neoliberalismo?

Quando o trabalhador conclui que "votar não muda nada", ele abandona a luta institucional e deixa o terreno livre para as oligarquias, permitindo que a classe do capital financeirizado imponha ajustes e retrocessos sem resistência.

Qual o papel da mídia na desmoralização do serviço público?

O discurso que repete frases como "o Brasil gasta muito com servidor" e "o serviço público é uma fábrica de privilégios" cria o senso comum necessário para justificar privatizações e cortes de direitos, segundo a análise do autor.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Autogestão popular como resposta à omissão do poder público

Quando o poder público se omite estruturalmente, a classe trabalhadora se vê obrigada a produzir, com as próprias mãos, aquilo que deveria ser direito garantido — a autogestão popular é essa resposta objetiva a uma política deliberada de abandono.

Principais pontos

  • A geografia da desigualdade se desenha a partir de escolhas políticas mediadas por interesses de classe.
  • O Censo 2022 do IBGE contou 16,6 milhões de brasileiros morando em favelas e comunidades urbanas.
  • As filas por cestas básicas, os mutirões de limpeza após enchentes e os coletivos de construção de casas não são iniciativas pontuais de solidariedade.
  • A autogestão deixa de ser mera assistência e se transforma em práxis política.

Autogestão popular e a geografia da desigualdade: o abandono como projeto de classe

Por Walter Azevedo

A frase que abre este texto não saiu de um relatório de política pública. Saiu de uma cozinha comunitária na zona sul de São Paulo, entre panelas quentes e marmitas organizadas em fila: “o apoio aqui é nós entre nós mesmos”. Quem a pronunciou, uma trabalhadora que há meses coordena um mutirão de alimentação no seu bairro, não estava fazendo poesia. Estava descrevendo, com a precisão de quem vive a contradição na pele, a única rede de proteção que restou onde o Estado escolheu não chegar.

O Censo 2022 do IBGE contou 16,6 milhões de brasileiros morando em favelas e comunidades urbanas. Esse número não é acidente. Ele é o retrato de um processo histórico de expropriação territorial e segregação planejada. Nas periferias, a ausência de saneamento, transporte, creche e segurança não é uma falha de gestão — é um método. A frase da cozinha comunitária, portanto, condensa uma verdade dura: quando o poder público se omite estruturalmente, a classe trabalhadora se vê obrigada a produzir, com as próprias mãos, aquilo que deveria ser direito garantido.

A omissão não é falha: é método de gestão territorial

Partir do concreto exige enxergar a totalidade. Não há “descaso” neutro quando se decide, ano após ano, destinar trilhões de reais ao pagamento de juros da dívida pública e congelar o gasto social. A geografia da desigualdade se desenha a partir de escolhas políticas mediadas por interesses de classe. O Estado brasileiro, historicamente capturado pelo capital financeirizado e por suas frações rentistas, trata o território popular como ralo por onde escorre a sobra do orçamento. O restante vira emenda, obra parada, promessa eleitoral.

Essa lógica aparece com nitidez no arcabouço fiscal aprovado em 2023. Ao limitar o investimento público, ele garante superávit primário para os credores da dívida e empurra para os bairros periféricos a conta do ajuste. As filas por cestas básicas, os mutirões de limpeza após enchentes e os coletivos de construção de casas não são iniciativas pontuais de solidariedade. São respostas objetivas a uma política deliberada de abandono, que joga sobre os ombros dos mais pobres o custo da reprodução do capital.

Autogestão popular: da necessidade imediata à práxis de classe

A frase “o apoio aqui é nós entre nós mesmos” tem uma dimensão dialética pouco percebida. No primeiro momento, ela expressa a urgência de sobreviver: a fome não espera reunião ministerial. No segundo, porém, revela uma tomada de consciência. Quem organiza uma cozinha comunitária percebe que o poder público não falhará sozinho — ele falha porque prioriza outro projeto de sociedade. A autogestão, assim, deixa de ser mera assistência e se transforma em práxis política.

Lenin, em seus estudos sobre a organização do trabalho, já apontava que a cooperação é a escola onde a classe aprende a dirigir a produção e a vida social. Não se trata de romantizar o mutirão. A autogestão popular carrega uma potência teimosa: ela desloca o eixo da subordinação para a autonomia. Ao decidir coletivamente quantas marmitas produzir, quem cozinhar, onde comprar e como distribuir, trabalhadores sem vínculo empregatício exercitam o que o capital chama de “ineficiência” e a luta popular chama de embrião do poder.

A geografia da desigualdade é um projeto de classe

Há um interesse de classe na manutenção da segregação territorial. A valorização imobiliária nas áreas centrais depende da expulsão sistemática de moradores das periferias. O racismo ambiental não é discurso: é tecnologia de gestão do espaço. Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, ao analisarem a dependência latino-americana, mostraram que a superexploração da força de trabalho se sustenta também pela precarização do território. Quando o trabalhador gasta quatro horas diárias no transporte, mora em área de risco e não tem creche pública, ele aceita salários menores e jornadas mais longas. A geografia da desigualdade, portanto, barateia a mão de obra e encarece a vida — em favor de uma minoria que lucra com aluguel, transporte privado e serviços caros.

“O apoio aqui é nós entre nós mesmos” é, ao mesmo tempo, grito de socorro e declaração de guerra.

O livro Como Vencer na Grande Política, que escrevi para sistematizar essas mediações, insiste num ponto simples: a luta pelo poder começa na vida cotidiana. Cada cozinha comunitária, cada biblioteca popular, cada ocupação cultural é uma trincheira onde se disputa consciência de classe. Mas a autogestão, sozinha, não destrói a estrutura que a tornou necessária. Ela precisa se articular a um projeto nacional-popular que confronte a hegemonia do capital financeiro e devolva ao povo o controle do fundo público.

Do apoio entre nós ao poder de decidir: tarefas organizativas

O desafio estratégico é garantir que o “nós entre nós mesmos” não se torne apenas uma solução pobre para um problema rico. A autogestão popular deve se conectar às lutas por Tarifa Zero, por moradia digna, pelo fim da escala 6x1 e por um novo modelo de financiamento do Estado. Como mostramos na análise do Grito dos Excluídos, as pautas locais só ganham força quando articuladas a uma leitura de totalidade da conjuntura. A luta das cuidadoras, examinada em outro post recente, revela exatamente essa costura entre trabalho invisível, território e ausência de política pública.

Não há atalhos. A classe trabalhadora precisa ocupar os espaços de decisão — conselhos, assembleias, sindicatos, comitês de bairro — e disputar o orçamento público. Onde o Estado não chega, a autogestão mostra o caminho; mas é preciso transformar esse caminho em pressão organizada para mudar as prioridades do Estado. A consciência de que “somos nós por nós mesmos” deve se converter em projeto de soberania popular, em mobilização permanente, em construção de hegemonia.

Perguntas Frequentes

O que significa autogestão popular?

Autogestão popular é a organização coletiva da própria classe trabalhadora para suprir necessidades básicas não atendidas pelo Estado. No contexto do texto, nasce da urgência de sobreviver, mas evolui para uma tomada de consciência política sobre o abandono estrutural do poder público.

Como a omissão do poder público se relaciona com a geografia da desigualdade?

A omissão não é neutra: é método de gestão territorial. O Estado prioriza interesses de classe específicos ao limitar investimentos sociais e destinar recursos a credores da dívida, desenhando uma geografia onde favelas e periferias concentram ausência de serviços e infraestrutura.

Qual o papel das cozinhas comunitárias nesse contexto?

Cozinhas comunitárias são respostas objetivas à fome e à ausência de políticas públicas. A frase 'o apoio aqui é nós entre nós mesmos' expressa a única rede de proteção que restou onde o Estado escolheu não chegar, funcionando como escola de práxis política e organização popular.

Sobre o que fala o texto sobre o arcabouço fiscal de 2023?

O texto aponta que o arcabouço fiscal aprovado em 2023 limita o investimento público, garante superávit primário para credores da dívida e empurra para os bairros periféricos a conta do ajuste, reforçando a lógica de abandono deliberado das áreas populares.

Qual a relação entre autogestão e práxis política?

A autogestão inicialmente atende a necessidades imediatas de sobrevivência, mas quem organiza mutirões e cozinhas comunitárias percebe que o poder público falha porque prioriza outro projeto de sociedade. Assim, a autogestão se transforma em práxis política consciente de classe.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Denunciar como a censura a denúncias de isenções fiscais revela o caráter de classe do Estado e a luta pela verdade e justiça social

A censura a denúncias de isenções fiscais revela o caráter de classe do Estado: enquanto a classe trabalhadora tem o imposto retido na fonte, grandes grupos econômicos negociam benesses, e a tentativa de ocultar a verdade é um ato político de classe.

Principais pontos

  • A renúncia fiscal federal projetada para 2026 ultrapassa meio trilhão de reais, valor superior ao orçamento de saúde e educação somados.
  • Os maiores beneficiários das isenções fiscais são empresas com faturamento bilionário, transferindo renda da maioria para conglomerados do agronegócio, indústria automotiva e setor financeiro.
  • O Estado não é um árbitro neutro: ele organiza a dominação de uma classe sobre a outra, e a censura à reportagem sobre isenções fiscais é uma operação ideológica.
  • A censura se articula a outras ofensivas contra a transparência, como restrições à Lei de Acesso à Informação e investidas contra jornalistas que investigam o poder econômico.

Censura e luta de classes: o silêncio sobre isenções fiscais como trincheira do capital

Por Walter Azevedo

Uma decisão liminar caiu como um balde de água fria numa terça-feira. Um veículo independente foi obrigado a retirar do ar a investigação que revelava os nomes por trás das maiores isenções fiscais do país. A justificativa, repetida com solenidade, foi o sigilo. O efeito prático: o silêncio sobre meio trilhão de reais que deixam de financiar hospitais, escolas e transporte público. Quem tem medo da verdade tributária? A resposta não é um mistério: a classe do capital tem.

O episódio não é um acidente jurídico. Ele expressa, com nitidez, a anatomia de um Estado que administra a desigualdade em favor de poucos. Enquanto a classe trabalhadora tem o imposto de renda retido na fonte, os grandes grupos econômicos negociam benesses sob o argumento de empregos que nunca chegam. A censura que tenta esconder essa sangria é, ela mesma, um ato político de classe.

Isenção fiscal: a arquitetura jurídica da desigualdade

A renúncia fiscal federal projetada para 2026 ultrapassa a marca de meio trilhão de reais — valor superior ao orçamento de saúde e educação somados. São incentivos, desonerações e regimes especiais que, na prática, transferem renda da maioria para conglomerados do agronegócio, da indústria automotiva e do setor financeiro. A lógica é regressiva: o trabalhador paga proporcionalmente mais, o capital paga menos.

Os dados oficiais da Receita Federal demonstram que os maiores beneficiários são empresas com faturamento bilionário. A justificativa de estimular a economia raramente se materializa em postos de trabalho decentes. O que existe é uma transferência silenciosa de fundo público para a acumulação privada. A censura a quem denuncia esse mecanismo não protege o interesse nacional; protege a propriedade e o lucro.

O Estado como comitê executivo da classe do capital

Quando um juiz determina a retirada de uma reportagem sobre isenções fiscais, a mediação revela seu verdadeiro caráter. O Estado não é um árbitro neutro entre interesses opostos. Ele organiza a dominação de uma classe sobre a outra. A tentativa de ocultar a verdade sobre a renúncia fiscal é uma operação ideológica: manter a sociedade ignorante sobre quem realmente se apropria da riqueza social.

Esse movimento não é isolado. Ele se articula a outras ofensivas contra a transparência, como as tentativas de restringir a Lei de Acesso à Informação e as investidas contra jornalistas que investigam o poder econômico. A mesma lógica que blindou o arcabouço fiscal para garantir a sangria rentista, que subordina a soberania nacional aos interesses do capital financeirizado, agora tenta calar quem denuncia os números. É a luta de classes operando também no campo da informação.

Verdade e justiça social como trincheiras da classe trabalhadora

A luta pela transparência das isenções fiscais não é uma bandeira moralista. É uma exigência concreta de justiça tributária. Quando ocultam os beneficiários das renúncias, retiram da classe trabalhadora a capacidade de compreender a totalidade das relações de poder. Sem saber quem paga e quem sonega, não há consciência de classe possível.

As mobilizações do Grito dos Excluídos mostram que a indignação popular começa a se transformar em projeto. Mas falta o passo seguinte: transformar a denúncia da censura em programa de auditoria cidadã. Exigir que toda renúncia fiscal seja nominal, pública e submetida a controle social. Pressionar o Congresso Nacional para revogar os regimes especiais que transferem bilhões ao andar de cima.

Construir a verdade como trincheira de organização

A superação possível passa pela organização política da classe trabalhadora. Sindicatos, associações de bairro, coletivos de comunicação independente e quadros partidários comprometidos com as maiorias precisam assumir a tarefa de disputar a narrativa. A informação é um campo de batalha. Cada notícia censurada deve ser reproduzida, compartilhada e analisada criticamente.

Não basta lamentar a decisão judicial. É preciso construir observatórios locais de transparência, pressionar os parlamentos por leis de auditoria fiscal e eleger representantes que rompam com a subordinação ao capital. A luta pela verdade sobre as isenções é, no fim, a luta pelo fundo público a serviço das necessidades sociais. É a luta pela possibilidade de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a oligarquia.

A caneta do juiz pode calar uma reportagem. Mas não calará uma classe que aprende a ler os números e a fazer deles uma arma. O silêncio imposto é apenas o prenúncio do grito que virá. E virá organizado.

Perguntas Frequentes

Por que a censura às denúncias de isenções fiscais revela o caráter de classe do Estado?

Porque o Estado administra a desigualdade em favor de poucos: o trabalhador tem imposto retido na fonte, enquanto grandes grupos negociam isenções bilionárias. A censura que tenta esconder essa sangria é um ato político de classe.

Qual é o valor da renúncia fiscal federal projetada para 2026?

A renúncia fiscal federal projetada para 2026 ultrapassa a marca de meio trilhão de reais, valor superior ao orçamento de saúde e educação somados.

Quem são os maiores beneficiários das isenções fiscais no Brasil?

Os maiores beneficiários são empresas com faturamento bilionário, incluindo conglomerados do agronegócio, da indústria automotiva e do setor financeiro, que recebem incentivos, desonerações e regimes especiais.

O que a censura à reportagem sobre isenções fiscais protege?

A censura não protege o interesse nacional; protege a propriedade e o lucro. Ela mantém a sociedade ignorante sobre quem realmente se apropria da riqueza social, defendendo os interesses da classe do capital.

Como a lógica das isenções fiscais é classificada no texto?

A lógica é regressiva: o trabalhador paga proporcionalmente mais, o capital paga menos. Trata-se de uma transferência silenciosa de fundo público para a acumulação privada.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Soberania em disputa: capital nacional, imperialismo e a luta de classes em 2026

A soberania não é um dado fixo, mas um campo de disputa entre o capital nacional e o imperialismo em 2026, expressa por indicadores como a taxa Selic de 14,25% ao ano e a dívida pública bruta acima de R$ 8 trilhões.

Principais pontos

  • A soberania é disputada por projetos antagônicos: capital financeirizado internacional e capital nacional, e não apenas defendida contra um inimigo externo.
  • A taxa Selic de 14,25% ao ano materializa um pacto que beneficia bancos e fundos, transferindo renda da classe trabalhadora para o topo da pirâmide.
  • Em 2026, a disputa se intensifica com acordos de livre comércio e pressão por desnacionalização de setores estratégicos como energia, comunicação e transportes.
  • O imperialismo se internaliza por frações do capital nacional associadas ao rentismo, não chegando apenas como invasor estrangeiro.

Soberania em disputa: capital nacional, imperialismo e a luta de classes em 2026

Por Walter Azevedo

Uma cientista política chamou a atenção para um ponto que escapa ao senso comum: a soberania não é um dado fixo, mas um campo de disputa. A frase ganha corpo quando olhamos para os números que sustentam a política econômica. A taxa Selic permanece em 14,25% ao ano. A dívida pública bruta ultrapassa R$ 8 trilhões. Esses não são indicadores neutros. Expressam uma relação de forças entre classes e nações, onde a soberania se decide todos os dias.

A superfície da soberania e o jogo de forças

No discurso oficial, soberania aparece como defesa do território, das leis, das riquezas naturais. Mas por trás dessa casca jurídica opera uma luta de classes. O capital financeirizado internacional exige abertura comercial, juros altos e garantias jurídicas para extrair renda. O capital nacional, em suas frações produtivas, reivindica proteção cambial e crédito subsidiado, mas raramente rompe com a subordinação estrutural. A cientista política percebeu que a soberania é disputada por esses projetos antagônicos, e não apenas defendida contra um inimigo externo.

Em 2026, essa disputa se intensifica. Acordos de livre comércio voltam à mesa. A pressão por desnacionalização de setores estratégicos — energia, comunicação, transportes — cresce sob o argumento da eficiência. O exemplo do bloqueio econômico contra Cuba, que já analisamos aqui, mostra como o imperialismo combina sanções, coerção financeira e desestabilização política para impor sua vontade. Nada disso é acidente. É método.

As mediações: capital financeirizado e frações nacionais

A soberania não se joga apenas entre países. Ela se desdobra dentro da formação social brasileira. O imperialismo não chega de fora como um invasor estrangeiro; ele se internaliza por meio de frações do capital nacional associadas ao rentismo. Os juros de 14,25% ao ano não são uma fatalidade técnica. São a materialização de um pacto que beneficia bancos, fundos de investimento e grandes proprietários de títulos públicos, enquanto transfere renda da classe trabalhadora para o topo da pirâmide.

Essa disputa se trava em pelo menos três planos:

  • O plano monetário: a taxa de juros como mecanismo de transferência de renda da classe trabalhadora para o capital financeiro.
  • O plano comercial: a pressão por acordos que eliminam salvaguardas à indústria nacional e à agricultura familiar.
  • O plano jurídico-institucional: a blindagem de tratados de proteção a investimentos que limitam a capacidade do Estado de implementar políticas públicas.

A declaração da cientista política abre caminho para essa leitura quando aponta que soberania nacional não coincide com soberania popular. O capital nacional, em sua fração industrial, pode defender a bandeira da soberania para negociar proteção tarifária, mas não hesita em associar-se ao capital estrangeiro quando isso aumenta seus lucros. A classe trabalhadora, por sua vez, só tem a ganhar com uma soberania que subordine o capital financeirizado ao controle social.

Dependência, imperialismo e a prática da classe trabalhadora

A leitura de Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini permanece atual: a economia brasileira se integra ao mercado mundial de forma subordinada, exportando commodities e importando tecnologia, capital e bens de alto valor agregado. A dependência não é uma herança do passado. É uma relação social reproduzida cotidianamente pela política econômica. Nesse quadro, a soberania que interessa à classe trabalhadora é aquela que garante soberania alimentar, energética, tecnológica e monetária. Não se trata de nacionalismo burguês, que troca de mãos sem alterar a estrutura de classes.

As lutas populares de 2025 e 2026 — das cuidadoras que enfrentam a superexploração, como mostramos aqui, aos movimentos que se levantam no Grito dos Excluídos — ensinam que a soberania se constrói na prática. Greves, ocupações de terra, luta por tarifa zero, resistência à privatização: são trincheiras onde a classe trabalhadora disputa o conteúdo da soberania. Cada vitória parcial fortalece a correlação de forças contra o imperialismo e o rentismo.

A tarefa de 2026 não é escolher entre frações do capital que disputam a bandeira da soberania. É construir um projeto nacional-popular que expresse os interesses da maioria. Esse projeto exige organização independente, consciência de classe e uma estratégia de hegemonia que articule as lutas imediatas à transformação estrutural. Sem isso, a soberania seguirá sendo a retórica com que o capital veste seus próprios interesses.

Para aprofundar

  • Banco Central do Brasil — Série histórica da taxa Selic.
  • Theotônio dos Santos — Teoria da Dependência: balanço e perspectivas.
  • Ruy Mauro Marini — Dialética da Dependência.

Perguntas Frequentes

O que significa dizer que a soberania é um campo de disputa?

Significa que a soberania não é um dado fixo ou apenas uma defesa contra inimigos externos, mas sim um espaço de confronto entre projetos antagônicos, como o capital financeirizado internacional e frações do capital nacional, disputado cotidianamente por meio de políticas econômicas e institucionais.

Como a taxa Selic de 14,25% ao ano se relaciona com a soberania?

A Selic elevada não é uma fatalidade técnica, mas a materialização de um pacto que beneficia bancos, fundos de investimento e grandes proprietários de títulos públicos, transferindo renda da classe trabalhadora para o topo da pirâmide e limitando a autonomia do Estado.

Quais são os principais planos em que a disputa pela soberania se trava?

A disputa se trava em três planos: o monetário, com a taxa de juros como mecanismo de transferência de renda; o comercial, com pressão por acordos que eliminam salvaguardas à indústria nacional; e o jurídico-institucional, com a blindagem de tratados de proteção a investimentos.

Como o imperialismo se internaliza na formação social brasileira?

O imperialismo não chega apenas como invasor estrangeiro; ele se internaliza por meio de frações do capital nacional associadas ao rentismo, que defendem juros altos, garantias jurídicas para extração de renda e abertura comercial, subordinando o país estruturalmente.

Por que a disputa pela soberania se intensifica em 2026?

Em 2026, a disputa se intensifica porque acordos de livre comércio voltam à mesa e cresce a pressão por desnacionalização de setores estratégicos, sob o argumento da eficiência, enquanto o imperialismo combina sanções, coerção financeira e desestabilização política.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Grito dos Excluídos: luta de classes e conjuntura nacional no Brasil

O Grito dos Excluídos é a exposição aberta de uma contradição que o cotidiano tenta esconder: a voz que grita nas ruas é a classe trabalhadora, cansada de esperar. Suas pautas locais expressam uma única estrutura de classe, nacional e internacional.

Principais pontos

  • Cada demanda do Grito não é um fragmento isolado de sofrimento; é mediação de um processo contínuo de expropriação.
  • A falta de saneamento básico expressa a prioridade orçamentária dada ao serviço da dívida, não à vida.
  • A diversidade de rostos no Grito não dissolve a unidade de posição na produção da riqueza: explorados por quem vive da renda, do juro e da terra.
  • O Estado brasileiro foi arquitetado para transferir renda dos trabalhadores para o capital financeirizado.

Grito dos Excluídos: mediação da luta de classes e a disputa pela soberania popular

Por Walter Azevedo

Nas ruas de centenas de periferias brasileiras, o Grito dos Excluídos voltou a ecoar neste setembro. Não se trata de um ritual anual de denúncia; trata-se da exposição aberta de uma contradição que o cotidiano tenta esconder sob carpetes de avenidas e promessas de retomada econômica. Enquanto o noticiário celebra números de crescimento, ainda há quem não tenha água tratada, moradia digna ou creche para os filhos. A voz que grita nas ruas é a nossa classe, cansada de esperar.

Nascido em 1995, o Grito articula, há três décadas, a fala de quem a ordem do capital insiste em silenciar. As pautas são locais — a reintegração de posse ameaçada, o ônibus que não passa, o posto de saúde fechado, o território quilombola invadido. Porém, a estrutura que as produz é nacional e internacional. Nossa tarefa é desvelar essa totalidade, sem a qual o grito se transforma em lamento sem direção.

A superfície e a raiz: a pauta local como expressão da totalidade

Cada demanda apresentada no Grito não é um fragmento isolado de sofrimento; é mediação de um processo contínuo de expropriação. A falta de saneamento básico no bairro da periferia expressa a prioridade orçamentária dada ao serviço da dívida, não à vida. O despejo de famílias de um edifício ocupado no centro revela a especulação imobiliária que transforma moradia em ativo financeiro, não em direito. A precarização do transporte público escancara a lógica rentista que sangra o fundo público para engordar contratos de concessão.

Como já analisamos na superexploração das cuidadoras, o capital trata necessidades humanas como custo a ser cortado. Cada creche fechada é um subsídio a mais para o rentista. Cada moradia precarizada é um terreno valorizado para a especulação. O Grito dos Excluídos, ao reunir essas pautas dispersas, cumpre uma função teórica essencial: mostra que a soma das dores locais aponta para uma única estrutura de classe.

"A história de todas as sociedades até os nossos dias é a história da luta de classes."

A frase de Marx, citada à exaustão, ganha concretude quando vemos a diversidade de rostos no Grito: sem-teto, sem-terra, quilombolas, trabalhadores informais, mulheres chefes de família. A diversidade aparente não dissolve a unidade de posição na produção da riqueza — explorados por quem vive da renda, do juro e da terra.

A asfixia do fundo público e o papel do Estado

Algumas análises tratam a escassez de recursos para políticas públicas como erro de gestão. Nada mais distante da verdade. O Estado brasileiro, em sua formação social dependente, foi arquitetado para transferir renda dos trabalhadores para o capital financeirizado. O arcabouço fiscal é a blindagem jurídica dessa sangria: congela despesas primárias enquanto os juros da dívida pública não conhecem teto. A cada ano, centenas de bilhões de reais saem dos hospitais, escolas e creches para engordar aplicações de uma minoria rentista.

As pautas do Grito confrontam essa lógica de subordinação que articula o orçamento nacional aos interesses do capital internacional. A prioridade dada ao agronegócio exportador, à mineração e à especulação fundiária responde às exigências de uma economia dependente, subordinada ao imperialismo. A mesma lógica que empurra migrantes para a morte em Ceuta mantém cortadores de cana em condições análogas à escravidão no interior do Brasil. Não há separação entre o sofrimento local e a gestão imperialista das fronteiras e dos mercados.

O Estado não é neutro nem benevolente. Ele opera como mediador da luta de classes, ora reprimindo, ora ofertando migalhas para desmobilizar. O Grito dos Excluídos, ao ocupar as ruas em setembro, tensiona essa mediação e expõe a natureza de classe do aparelho estatal.

Organização como mediação: do grito à hegemonia

A indignação nas ruas é necessária, mas insuficiente. A consciência de classe não nasce apenas da dor; nasce da capacidade de enxergar, em cada derrota local, a estrutura que a produz, e de transformar essa leitura em ação coordenada. O Grito dos Excluídos precisa superar a espontaneidade e se converter em força política articulada nos territórios. Sem organização, o grito vira catarse; com organização, vira projeto.

O caminho passa pela construção de um projeto nacional-popular que dispute hegemonia, que aponte para a soberania nacional e para a desvinculação do orçamento público do rentismo. Isso exige comitês de base nos bairros, núcleos sindicais reorganizados, articulação entre movimentos urbanos e rurais. Exige, sobretudo, a compreensão de que a disputa não se resolve apenas em setembro, mas no cotidiano da luta por creche, ônibus e moradia.

Que o Grito deste setembro não termine na avenida. Que ele desdobre em organização permanente nos territórios, em mutirões de solidariedade, em assembleias populares. A classe do capital tem medo do silêncio tanto quanto do grito; teme mais ainda o grito que vira programa, o programa que vira poder popular.

Leituras que iluminam este percurso: O Capital, de Marx; Dialética da dependência, de Ruy Mauro Marini; e Como Vencer na Grande Política, de Walter Azevedo (Appris, 2023).

Perguntas Frequentes

O que é o Grito dos Excluídos?

É uma articulação nascida em 1995 que reúne, há três décadas, a fala de quem a ordem do capital insiste em silenciar: sem-teto, sem-terra, quilombolas, trabalhadores informais e mulheres chefes de família.

Como as pautas locais se conectam à conjuntura nacional?

Cada demanda local é mediação de um processo contínuo de expropriação. A falta de saneamento expressa a prioridade dada à dívida; o despejo revela a especulação imobiliária; a precarização do transporte escancara a lógica rentista.

Qual o papel do Estado na escassez de recursos para políticas públicas?

A escassez não é erro de gestão. O Estado brasileiro, em sua formação social dependente, foi arquitetado para transferir renda dos trabalhadores para o capital financeirizado.

Como o Grito dos Excluídos expressa a luta de classes?

Ao reunir pautas dispersas, o Grito mostra que a soma das dores locais aponta para uma única estrutura de classe: explorados por quem vive da renda, do juro e da terra.

Qual a frase de Marx citada no contexto do Grito?

“A história de todas as sociedades até os nossos dias é a história da luta de classes.” A frase ganha concretude na diversidade de rostos presentes no Grito, unidos pela posição de explorados.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Superexploração e cuidado: luta das cuidadoras revela capital

A superexploração do trabalho de cuidado, historicamente feminilizado e racializado, sustenta a reprodução da força de trabalho, mas é tratada como resíduo pela ordem do capital, revelando a face dependente da acumulação no Brasil.

Principais pontos

  • O gesto cotidiano de cuidar sustenta silenciosamente a reprodução de toda forma de trabalho.
  • Menos de um terço das trabalhadoras domésticas no Brasil possui carteira assinada.
  • As cuidadoras que atuam sob vínculos informais continuam submetidas a jornadas que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias, sem adicional noturno, sem descanso semanal, sem proteção previdenciária.
  • Na formação social dependente, a superexploração da força de trabalho não é exceção, mas regra estrutural.

Superexploração e cuidado: a luta das cuidadoras revela a dependência estrutural do capital brasileiro

Por Walter Azevedo

As recentes mobilizações de cuidadoras de pessoas idosas, que paralisaram serviços em municípios de São Paulo e do Rio de Janeiro, trouxeram às ruas uma pergunta incômoda: por que o trabalho que sustenta a vida é tratado como resíduo da ordem do capital? A regulamentação da profissão, sancionada em 2024 pela Lei 14.990, não encerrou a disputa. Ao contrário, abriu novo capítulo de uma luta cujo núcleo é a superexploração do trabalho feminino e racializado. O gesto cotidiano de cuidar — alimentar, higienizar, acompanhar, medicar — sustenta silenciosamente a reprodução de toda forma de trabalho. Mas o reconhecimento formal dessa essencialidade esbarra na resistência patronal e na omissão do Estado, revelando a face dependente da acumulação no Brasil.

A regulamentação que não encerra a luta

A Lei 14.990/2024, que regulamenta a profissão de cuidador, foi recebida como vitória. De fato, o diploma legal é resultado de anos de pressão de sindicatos e coletivos. No entanto, a luta não se reduz à letra da lei. Menos de um terço das trabalhadoras domésticas no Brasil possui carteira assinada — um dado que atravessa gerações e não se altera por decreto. As cuidadoras que atuam sob vínculos informais continuam submetidas a jornadas que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias, sem adicional noturno, sem descanso semanal, sem proteção previdenciária. A remuneração média raramente se afasta de um salário mínimo. A regulamentação não enfrenta, portanto, a estrutura que produz essa precarização. Ela apenas a nomeia.

A contradição se aguça quando a classe do capital, que sempre apostou na invisibilidade do cuidado, agora se vê obrigada a disputar o sentido público dessa profissão. Projetos de lei que tentam excluir as cuidadoras do direito ao piso salarial da enfermagem, ou que fragmentam a categoria em subgrupos sem proteção, mostram que a burguesia compreende melhor a função estratégica do cuidado do que muitos discursos jurídicos.

O cuidado como trabalho essencial e a superexploração estrutural

O cuidado é condição de possibilidade de qualquer produção. Sem a reposição diária da força de trabalho — alimentação, repouso, saúde, afeto — não há extração de valor. Mas a economia política burguesa trata esse pressuposto como se fosse externo ao circuito produtivo. O trabalho de cuidado, historicamente feminilizado e racializado, aparece como dom natural, vocação, dever moral. Não por acaso: ao naturalizar o cuidado, a ordem do capital desobriga-se de remunerá-lo adequadamente.

Na formação social dependente, essa desvalorização assume forma extrema. Ruy Mauro Marini já demonstrou que a superexploração da força de trabalho — pela extensão da jornada, pela intensificação do ritmo e pela redução do valor pago abaixo do necessário — não é exceção, mas regra estrutural nos países subordinados. A transferência de excedente para os centros imperialistas impõe à burguesia interna a compensação pela compressão dos custos de reprodução da classe trabalhadora. As cuidadoras encarnam essa lógica com nitidez: seu trabalho não gera mais-valia diretamente, mas reduz o custo de reprodução da força de trabalho no conjunto da economia. Ao pagar salários aviltantes às cuidadoras, a classe do capital barateia o cuidado e, com isso, pode pagar menos a todos os demais trabalhadores. A precarização do cuidado não é disfunção. É mediação necessária da acumulação subordinada.

Dependência e a divisão racial e sexual do trabalho

A superexploração do cuidado tem cor e gênero. As trabalhadoras domésticas e cuidadoras no Brasil são, na amplíssima maioria, mulheres negras e periféricas. A herança escravista — que não é passado, mas relação social viva — organiza a hierarquia dos trabalhos: quem cuida de quem, em que condições e por qual preço. A informalidade que atinge menos de um terço das trabalhadoras domésticas com carteira assinada não é resquício de atraso; é a forma contemporânea de manter uma reserva de mão de obra dócil, sem direitos, disponível para o serviço das classes proprietárias e médias urbanas.

Essa divisão sexual e racial do trabalho é funcional ao capital financeirizado. A dependência brasileira se reproduz também dentro do lar: o cuidado barato permite que as famílias de renda média transfiram renda para o pagamento de juros, aluguéis e serviços privatizados — como mostramos ao tratar da especulação imobiliária e da transferência de renda do trabalho ao capital financeiro. O essencial é sacrificado para sustentar o supérfluo especulativo.

Da consciência espontânea à organização de classe

As mobilizações de cuidadoras expressam, no terreno imediato, a recusa à naturalização do sacrifício feminino. Quando uma cuidadora cruza os braços e reivindica piso salarial, ela desloca o cuidado do âmbito privado, afetivo, para o campo da luta de classes. Ela evidencia que a ternura tem custo, que a atenção tem jornada, que a vida tem preço. O patronato reage com desdém e repressão — e essa reação tem imenso valor pedagógico. Ela desmascara os interesses que se escondem por trás do discurso da "vocação". Ela mostra que a classe do capital nunca teve interesse em reconhecer o essencial; apenas em barateá-lo.

Referências

  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Lei nº 14.990, de 2024 — Regulamenta a profissão de cuidador.
  • Dados da Pnad Contínua sobre trabalho doméstico remunerado no Brasil.

Perguntas Frequentes

Por que o trabalho de cuidado é tratado como resíduo da ordem do capital?

Porque a economia política burguesa trata o cuidado como externo ao circuito produtivo, naturalizando-o como dom feminino e racializado, desobrigando o capital de remunerá-lo adequadamente.

A regulamentação da profissão de cuidador encerrou a luta por direitos?

Não. A Lei 14.990/2024 foi uma vitória formal, mas não enfrenta a estrutura que produz a precarização. Menos de um terço das trabalhadoras domésticas possui carteira assinada e a informalidade persiste com jornadas extenuantes e baixa remuneração.

Qual a relação entre superexploração e capitalismo dependente no Brasil?

Na formação social dependente, a superexploração da força de trabalho — por extensão da jornada, intensificação do ritmo e redução do valor pago abaixo do necessário — é regra estrutural, e o trabalho de cuidado desvalorizado é uma de suas formas extremas.

Como a classe do capital tenta disputar o sentido público da profissão de cuidador?

Por meio de projetos de lei que excluem as cuidadoras do direito ao piso salarial da enfermagem ou que fragmentam a categoria em subgrupos sem proteção, demonstrando compreensão estratégica da função do cuidado.

Quais são as condições reais de trabalho das cuidadoras informais no Brasil?

As cuidadoras informais enfrentam jornadas frequentemente superiores a 12 horas diárias, sem adicional noturno, sem descanso semanal, sem proteção previdenciária e com remuneração média próxima a um salário mínimo.