sexta-feira, 10 de julho de 2026

Dívida pública e juros altos: transferência de renda do trabalho ao capital financeiro

Dívida pública e juros altos: a transferência do suor da classe trabalhadora para o rentista improdutivo

Por Walter Azevedo

Enquanto o governo discute se corta verba da saúde, da educação ou das universidades federais, uma lógica silenciosa drena os recursos do fundo público para o bolso de quem já tem muito. O debate sobre o novo arcabouço fiscal e a meta de inflação esconde a raiz do problema: o orçamento público brasileiro é uma máquina de transferir renda do trabalho para o capital financeirizado. E o instrumento central dessa engrenagem é a dívida pública. Quer entender por que falta dinheiro para o SUS e sobra para pagar juros estratosféricos? É preciso virar a lupa para a superfície e enxergar as contradições reais da nossa formação social dependente.

O cofre que sangra para os rentistas

O fenômeno é concreto e brutal. Todo ano, o governo federal gasta centenas de bilhões de reais com o pagamento de juros e serviços da dívida pública. Esse valor supera, de longe, os investimentos em educação, saúde e infraestrutura somados. A sobra para o trabalhador é migalha, enquanto a fatia do bolo reservada aos bancos, fundos de investimento e grandes rentistas é generosa e garantida por lei. Essa não é uma falha técnica de gestão. É uma escolha política que reflete a correlação de forças na sociedade brasileira: o capital financeiro, na sua forma mais parasitária, capturou o Estado e o transformou no seu principal cliente e fiador.

O Banco Central, com sua autonomia formal, atua como o zelador desse pacto. Ao determinar a taxa básica de juros (Selic) em patamares reais entre os mais altos do planeta, ele não apenas encarece o crédito para todos — empresas e famílias — como também engorda artificialmente a dívida pública. Afinal, uma parte significativa dos títulos do Tesouro está indexada à Selic: quanto maior o juro, maior o custo mensal da dívida, maior o superávit primário necessário para pagá-la. E quem cobre a conta? A classe trabalhadora, com seus impostos regressivos, e o povo, com a deterioração dos serviços públicos.

“A dívida pública não é um problema econômico; é uma ferramenta de dominação de classe que, sob a capa da técnica orçamentária, mantém a subordinação do Brasil ao sistema financeiro global.”

Os bastidores: lógica da financeirização e entrega da soberania

Aprofundando a análise, o que está por trás desse mecanismo é a própria natureza do capital financeirizado em uma economia periférica. O sistema da dívida pública se articula com a superexploração da força de trabalho e com a dependência estrutural do Brasil. Para atrair capitais estrangeiros e segurar a inflação do consumo, o governo premia o capital portátil com juros altos. O resultado é um círculo vicioso: a dívida cresce, o serviço da dívida engole o orçamento, e o ajuste fiscal recai sobre o gasto social.

Os defensores dessa política repetem o mantra da “austeridade”: é preciso pagar a dívida para manter a “credibilidade”. Mas essa credibilidade interessa a quem? Aos mesmos grupos que, através do sistema financeiro, drenam o excedente econômico produzido pelo trabalho no Brasil. Enquanto isso, a classe do capital nacional, em grande parte associada ao capital internacional, não pressiona por uma ruptura. Prefere lucrar com a ciranda financeira a investir na produção real e na geração de emprego digno. A soberania nacional é trocada por uma âncora cambial dependente e por um status de colônia financeira moderna.

Para onde ir: luta política e controle do fundo público

Há saída, mas ela não virá da tecnocracia do mercado. A superação dessa armadilha fiscal exige uma ofensiva política da classe trabalhadora e das forças populares em três frentes inseparáveis. Primeiro, é preciso aprofundar a desindexação da economia, retirando a âncora dos juros altos e do superávit primário como dogma. A taxa Selic precisa cair, e o Banco Central precisa servir a um projeto de desenvolvimento, e não aos interesses dos rentistas.

  • Mudança na política de juros: Reduzir a Selic de forma significativa e imediata, desmontando o mecanismo que transfere renda ao capital financeirizado.
  • Reestruturação da dívida pública: Alongar prazos e reduzir juros, com forte controle do Estado sobre o sistema financeiro. Os bancos públicos devem liderar essa agenda.
  • Tributação dos super-ricos e do capital: Impostos sobre grandes fortunas, dividendos e lucros do setor financeiro para financiar o Estado social e não o Estado rentista.

Não se trata de uma visão moralista contra os bancos, mas de uma análise sobre quem paga a conta e quem embolsa o lucro. A luta contra a dívida pública predatória é, no fundo, a luta por um projeto nacional-popular que coloque a vida acima da rentabilidade. É a disputa pelo fundo público: ele servirá para garantir saúde, educação e salário, ou para alimentar a ciranda financeira? A resposta está nas ruas, na organização sindical e na consciência de classe.

Como escrevi em “Como Vencer na Grande Política”: “A política não se faz com boa vontade, mas com correlação de forças”. Se a classe trabalhadora não pautar o debate, os juros continuarão altos e o orçamento será sempre o fiador da miséria.

Referências e fontes:

O post se baseia em dados públicos do Banco Central, do Tesouro Nacional e do Orçamento Geral da União. Para um aprofundamento teórico sobre o tema, recomenda-se a leitura de:

  • Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado — para entender a subordinação histórica do capital nacional.
  • A Crise do Estado Desenvolvimentista, de Theotônio dos Santos — para pensar a dependência financeira.
  • Como Vencer na Grande Política, de Walter Azevedo (Appris, 2023) — para a análise de classes aplicada ao orçamento e ao fundo público.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Redução da jornada de trabalho: do fim da escala 6x1 à disputa pelo tempo de vida

Redução da jornada de trabalho: do fim da escala 6x1 à disputa pelo tempo de vida

Por Walter Azevedo

Um projeto de emenda constitucional que propõe o fim da escala 6x1 dorme nas gavetas do Congresso, enquanto milhões de brasileiros vendem seis dias de sua vida por semana para um único dia de descanso. Discutir a redução da jornada é entrar no centro da luta de classes no século XXI: a disputa pelo tempo da vida.

Esse debate não é novo. A classe trabalhadora sempre lutou contra a voracidade do capital. Conquistas como as oito horas diárias e o descanso semanal foram arrancadas a ferro e fogo. Hoje, com automação, inteligência artificial e plataformas digitais, a contradição se aprofunda: produz-se mais em menos tempo, mas o trabalhador não se liberta; apenas se desemprega ou se superexplora.

A escala 6x1 como expressão da superexploração

A escala 6x1 é regra em setores como comércio, serviços, telemarketing e logística. Ela materializa a lógica do capital financeirizado: extrair o máximo de mais-valor comprimindo a existência humana a um ciclo de trabalho, deslocamento e adoecimento.

Segundo o Dieese, mais de 30% dos trabalhadores formais no Brasil ultrapassam 44 horas semanais. No trabalho informal e nas plataformas digitais, a realidade é mais selvagem: o entregador trabalha 12 ou 14 horas para uma renda que mal cobre despesas. O capital não quer tempo livre; quer disponibilidade total, disfarçada de "autonomia".

A redução da jornada não é apenas pauta reformista. É necessidade estrutural diante da superexploração da força de trabalho, conceito de Ruy Mauro Marini que define o pagamento abaixo do valor da força de trabalho para compensar perdas do capital.

Tempo de vida versus tempo de lucro

A burguesia alega que reduzir a jornada inviabiliza a produção e gera desemprego. Mas a história mostra o contrário: quando a jornada caiu de 12 para 8 horas diárias no início do século XX, a produtividade aumentou, os acidentes diminuíram e o capitalista continuou lucrando.

O que está em jogo não é se a economia "aguenta" trabalhar menos. A pergunta é: quem controlará o tempo socialmente disponível? Hoje, o capital controla o tempo de 90% dos trabalhadores. A redução da jornada, com fortalecimento sindical e regulação das plataformas, aponta para a soberania do trabalhador sobre sua própria vida.

Não se trata de mendigar uma emenda ao Congresso, hegemonizado pelo capital. Trata-se de construir correlação de forças para impor essa prioridade. Uma greve geral pelo fim da escala 6x1 teria mais força que mil projetos engavetados. Essa pauta unifica o metalúrgico, o entregador, a atendente e o professor.

Avançar na organização, não na espera

Portugal viveu recentemente uma greve geral com foco na redução da jornada e regulação de plataformas — fruto de anos de organização. No Brasil, a PEC que propõe o fim da escala 6x1 é um passo, mas não será o Congresso que nos concederá direitos. Cada conquista foi fruto de luta, não de boa vontade patronal.

O tempo de vida não é mercadoria. É a matéria-prima da existência, do lazer, do afeto e da luta política. Reduzir a jornada é liberar essa matéria-prima para além da mera reprodução do capital. Essa disputa nos prepara para enfrentar questões maiores: o controle dos meios de produção e o sentido social do trabalho.

O fim da escala 6x1 não é utopia. É uma exigência concreta. Organizemo-nos para arrancá-lo.

Referências e fontes:

  • Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) — Pesquisa sobre jornada de trabalho e condições de emprego no Brasil.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência — Para o conceito de superexploração da força de trabalho.
  • Walter Azevedo. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023) — Para a análise de correlação de forças e disputa de hegemonia.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Acordo tarifário Brasil-EUA: subordinação estrutural ou brecha para soberania?

Acordo tarifário com EUA: mais subordinação ou brecha para soberania nacional?

Por Walter Azevedo

Nos últimos dias, ecoou a possibilidade de um novo acordo tarifário entre Brasil e Estados Unidos. O governo brasileiro sinaliza disposição para negociar — alívios de um lado, concessões do outro. Para o olhar imediato, parece apenas mais uma pauta técnica de comércio exterior. Mas nada na relação entre um país periférico dependente e o centro do capitalismo mundial é mera burocracia. Por trás das planilhas de alíquotas, há um jogo de forças que decide o futuro do nosso desenvolvimento.

A pergunta é direta: esse acordo representa mais um passo na subordinação histórica do Brasil ou pode se transformar em instrumento da nossa soberania nacional?

O que está sobre a mesa (e o que fica debaixo dela)

Na aparência, negocia-se redução de tarifas de importação para produtos industriais americanos em troca de acesso privilegiado de itens brasileiros ao mercado estadunidense. O discurso oficial fala em "modernização" e "competitividade". Mas o Brasil tem parque industrial fragilizado por décadas de abertura indiscriminada e juros altos. Os EUA protegem ferozmente setores estratégicos — agricultura com subsídios bilionários, indústria de defesa, tecnologia sensível. Qualquer "reciprocidade" tarifária neste terreno desigual é armadilha.

O historiador Theotônio dos Santos ensinou que a dependência não é mero "atraso" a ser superado pelo comércio, mas relação estrutural de subordinação reproduzida nas trocas desiguais. Quando abrimos nosso mercado para bens de alto valor agregado em troca de commodities e semimanufaturados, a conta nunca fecha a nosso favor. Entre 2000 e 2020, a corrente de comércio Brasil-EUA cresceu, mas o déficit brasileiro se aprofundou. Exportamos soja, minério de ferro, petróleo bruto; importamos máquinas, produtos químicos, equipamentos eletrônicos.

A dialética da brecha: onde pode haver espaço

Dito isso, seria simplismo afirmar que todo acordo é automaticamente entrega. A realidade, como ensina a dialética, é cheia de contradições. Se o governo negociar com proteção da indústria nacional e exigência de contrapartidas tecnológicas, pode extrair concessões reais. Não se trata de "abrir mão", mas de barganhar com a correlação de forças.

É aqui que entra o que Lenin chamava de "compromisso tático": usar a necessidade do imperialismo — que também precisa de mercados na região — para criar espaço de manobra. Se o acordo vier atrelado a investimentos em infraestrutura industrial, transferência de tecnologia e garantias de que setores sensíveis (saúde, defesa, energia) ficarão de fora, aí teríamos uma brecha para soberania. Do contrário, será a versão diplomática do entreguismo — o mesmo que Eduardo Bolsonaro tentou com o sistema Zelle (Eduardo Bolsonaro e o Zelle: entreguismo digital e subordinação financeira do Brasil).

O que separa uma negociação soberana de uma submissão travestida de acordo é a capacidade de impor condições e de ter uma estratégia nacional de desenvolvimento — não apenas uma pauta de exportação para agradar o agronegócio.

Quem ganha, quem perde e o papel da nossa classe

Na correlação de forças atual, os maiores interessados no acordo são setores do capital associado — agroexportadores, montadoras estrangeiras instaladas no Brasil, grandes varejistas importadores de tecnologia. Para eles, redução tarifária significa aumento de margem e acesso a insumos mais baratos. Para a classe trabalhadora, o resultado é ambíguo: se mal feito, fecha fábricas e elimina postos qualificados; se bem desenhado, pode gerar emprego. A diferença está na mobilização política.

O que o movimento sindical e popular precisa exigir está em três pontos, condições de classe:

  • Nada de redução de tarifas sem contrapartida de investimento produtivo e compromisso de manutenção de empregos;
  • Cláusulas que impeçam importação de bens que já produzimos internamente com capacidade ociosa;
  • Mecanismos de compensação para setores afetados — com fundo de desenvolvimento industrial e qualificação profissional pública.

O maior erro da esquerda brasileira tem sido reagir a cada negociação comercial com "não" automático, sem alternativas. Em 2023, viramos as costas à Aliança do Pacífico e deixamos a direita ocupar o debate sobre integração regional. Precisamos de mais que denúncia — precisamos de práxis que combine análise de classes com proposição concreta, como aprofundo em "Como Vencer na Grande Política" (Appris, 2023).

O que está em jogo não é só a tarifa — é o projeto de país

Não se trata de demonizar o comércio internacional. A soberania não é autarquia. Mas sem um projeto nacional-popular que fortaleça mercado interno, indústria e ciência e tecnologia, qualquer acordo será assimétrico. É a lição de Ruy Mauro Marini: a superexploração do trabalho na periferia não é acidente, é base do desenvolvimento capitalista central.

O governo tem oportunidade objetiva. A disputa interimperialista entre EUA e China abre janelas de negociação que não existiam há dez anos. O Brasil pode jogar com os dois lados — mas precisa ter carta própria e vontade política de não ser mero trunfo alheio.

A classe trabalhadora precisa se apropriar desse debate. Não como assunto de especialistas, mas como questão central do nosso projeto de nação. De que serve um "acordo" que aprofunda a dependência, desindustrializa o país e condena nossa juventude à uberização — como vimos no post sobre pejotização (Pejotização e uberização do trabalho: superexploração travestida de liberdade)?

O acordo tarifário com os EUA pode ser brecha para a soberania ou mais um elo da corrente. A resposta virá da nossa capacidade de pressionar, organizar e apresentar uma alternativa de classe. Isso é política. Isso é luta.

Fontes consultadas: Theotônio dos Santos, "Dependência e mudança social" (1970); Ruy Mauro Marini, "Dialética da dependência" (1973); dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC) sobre balança comercial Brasil-EUA (2000-2025); Walter Azevedo, "Como Vencer na Grande Política" (Appris, 2023).

terça-feira, 7 de julho de 2026

Eduardo Bolsonaro e o Zelle: entreguismo digital e subordinação financeira do Brasil

Entreguismo digital: a proposta de Eduardo Bolsonaro e o Zelle como servidão financeira consentida

Por Walter Azevedo

O que está por trás da defesa de um sistema de pagamentos estrangeiro?

Não é segredo que setores da nossa elite política sempre olharam para fora em busca de modelos prontos, como se a realidade brasileira precisasse ser ajustada a receitas externas. A recente sugestão de Eduardo Bolsonaro para que o Brasil adote o sistema Zelle, em detrimento do Pix, não é apenas uma opinião técnica — é a expressão de um projeto político. Por trás de um argumento que se pretende modernizador, escondem-se as velhas engrenagens da subordinação financeira. O que pareceria uma mera troca de plataforma revela, na superfície do debate, uma profunda disputa sobre quem controla o dinheiro do povo, para onde vão os dados das transações e a quem interessa ver nossa soberania financeira solapada.

O imediato e a farsa da eficiência estrangeira

O argumento imediato dos defensores do Zelle é sedutor, mas enganador: a suposta modernidade, a facilidade de uso e a integração com o sistema financeiro estadunidense. Contudo, precisamos ir além da aparência. O Pix não é um mero aplicativo; ele foi concebido como ferramenta de inclusão financeira, resultado de decisão soberana do Banco Central e do sistema financeiro nacional. Sua implementação, desde 2020, democratizou o acesso a pagamentos instantâneos, gratuitos para pessoas físicas, barateou custos e reduziu o poder dos bancos tradicionais que cobravam tarifas abusivas por cada TED ou DOC. Substituir essa estrutura por um sistema privado, estrangeiro e controlado por um consórcio de grandes bancos norte-americanos como o Zelle é, na prática, um retrocesso que entrega a chave do cofre para quem não tem compromisso nenhum com o desenvolvimento do Brasil.

A essência da proposta: quem perde, quem ganha e o que está em jogo

É aqui que a análise precisa se aprofundar. A defesa do Zelle não é um acaso nem uma opinião isolada. Ela se insere num movimento mais amplo da classe do capital financeirizado, que sempre viu no Estado brasileiro e em suas capacidades de inovação um obstáculo aos seus lucros extorsivos. Ao propor a substituição, o que se busca não é meramente a troca de uma tecnologia por outra, mas a reconfiguração das relações de poder dentro do sistema financeiro nacional. Ganham as big techs e os bancos estrangeiros, que passariam a ter acesso direto a dados sensíveis de milhões de brasileiros — dados que alimentariam seus algoritmos de crédito, suas estratégias de consumo e, não duvidemos, suas práticas de vigilância de mercado. Perde a classe trabalhadora, que veria o serviço gratuito, rápido e acessível do Pix ser gradualmente substituído por um sistema privado, sujeito a tarifas e a lógicas de lucro externas. Perde também nossa soberania nacional, ao delegar a um país imperialista o controle de parte essencial da infraestrutura financeira do país.

Não é por acaso que setores do capital financeiro e seus representantes políticos, como o próprio Eduardo Bolsonaro e seu entorno, defendem essa pauta. Eles sabem que a briga não é sobre conveniência, mas sobre hegemonia. Querem transformar o Brasil numa extensão do mercado financeiro global, onde as decisões não são tomadas pelo povo ou por suas instituições, mas pelos acionistas de Wall Street. Esse é o verdadeiro entreguismo digital: a cessão de um ativo estratégico — a plataforma de pagamentos — em troca de promessas de modernização que, na prática, aprofundam nossa dependência e subordinação.

Consequências concretas e a geopolítica dos pagamentos

Olhemos para os números: o Pix movimenta centenas de bilhões de reais todos os meses, de forma instantânea, gratuita e aberta. O Zelle, nos Estados Unidos, é operado por um consórcio de bancos e tem limitações de valores e tarifas para os usuários. Defender a adoção de um modelo mais caro e controlado por bancos é, no mínimo, ignorar os interesses da maioria da população. Além disso, há a questão geopolítica. Enquanto o Brasil construiu com o Pix um mecanismo que fortalece sua autonomia financeira, a proposta de migração para um sistema norte-americano significa alinhar nossa infraestrutura digital aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, especialmente num momento de disputas comerciais e monetárias globais. A contradição é clara: enquanto o Brasil tenta, com esforço, reduzir sua dependência tecnológica, há quem lute para atar os cabos da servidão de forma ainda mais firme.

A superação possível: soberania, organização e luta de classes

Diante desse cenário, qual deve ser a posição da classe trabalhadora? A superação não virá de palanques ou de discursos moralistas. Ela exige que entendamos o embate como parte da luta de classes na era digital. Precisamos construir um projeto político que defenda a soberania nacional sobre a infraestrutura digital, que amplie o controle público sobre os meios de pagamento e que rejeite, com firmeza, qualquer tentativa de entrega dos nossos sistemas estratégicos ao capital estrangeiro. A defesa do Pix, com suas potencialidades e seus desafios, é uma bandeira concreta de resistência à subordinação financeira. Mas não basta defender o que já temos. É preciso ir além: lutar por um sistema financeiro público, democrático, a serviço do desenvolvimento e da vida, e não do lucro dos monopólios digitais e dos bancos.

A luta contra o entreguismo financeiro de Eduardo Bolsonaro e de sua turma não é uma briga de nicho. É a briga pelo controle do nosso futuro coletivo. Cada vez que um defensor do Zelle abre a boca, revela não apenas seu projeto, mas a urgência de nos organizarmos para vencê-lo. A história não nos convida a assistir passivamente — ela nos chama a agir, com o rigor da análise e a força da unidade de classe.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

RS: quando a privatização da Corsan revela quem paga a conta das águas turvas

Águas turvas e a privatização da Corsan: quando a conta chega para quem sempre paga

Por Walter Azevedo

O noticiário recente do Rio Grande do Sul nos oferece uma imagem poderosa para compreender as engrenagens do capitalismo dependente brasileiro. As chuvas torrenciais que castigaram o estado em 2024, deixando um rastro de destruição e luto, revelaram a face mais grotesca de um processo que muitos insistem em tratar como mera "modernização administrativa". A privatização da Corsan, a companhia estadual de saneamento, não foi um acidente de percurso — foi um ato político planejado para entregar um bem essencial ao capital privado. E agora, com as águas turvas da crise climática e da gestão privada, quem paga a conta?

A aparência da "eficiência" e o desastre anunciado

Quando o governo do Rio Grande do Sul, sob a batuta de Eduardo Leite, vendeu a Corsan para o grupo equatoriano Aegea em 2022, o discurso era o de sempre: a iniciativa privada traria eficiência, investimentos e, finalmente, o fim dos esgotos a céu aberto. A promessa era de R$ 15 bilhões em investimentos até 2033. Um cheque para o futuro, sacado contra a esperança de uma população que há décadas convive com a falta de saneamento básico. No entanto, a realidade concreta, como sempre, se encarrega de desmentir a propaganda.

As enchentes de 2024 não foram uma catástrofe natural pura e simples. Foram um evento climático extremo potencializado pela crônica falta de planejamento e pela lógica do lucro que orienta a gestão privada. Bairros inteiros de Porto Alegre e do interior ficaram submersos por dias, e a Corsan, agora privada, se viu impotente para retomar o serviço. Faltaram bombas, faltaram geradores, faltou capacidade de resposta. A empresa, que havia prometido modernização, mostrou que sua prioridade não era a resiliência do sistema para a população, mas o retorno financeiro para seus acionistas. O desastre natural virou um desastre político e social, expondo a fragilidade de um serviço público entregue à lógica do mercado.

A essência da contradição: lucro privado, risco público

A análise dialética nos obriga a ir além da superfície. O que a privatização da Corsan revela não é uma "falha de gestão", mas uma contradição estrutural do capitalismo. A água, como o ar, é um bem comum, indispensável à vida e à reprodução social. Entregá-la à iniciativa privada significa subordinar a sua distribuição e tratamento à lei do valor: o que não dá lucro não é feito.

Os contratos de concessão, em geral, estabelecem metas de universalização (levar água e coleta de esgoto a 99% da população), mas deixam brechas para que as empresas priorizem as áreas mais rentáveis, os centros urbanos consolidados. As periferias, as áreas rurais e as zonas de risco (como as margens de arroios e encostas) ficam para depois. A crise climática, com seus eventos extremos cada vez mais frequentes, torna esse modelo criminoso. Quando a enchente veio, a empresa privada não tinha estoques de emergência, não tinha planos de contingência robustos e, o mais grave, não tinha interesse em investir em infraestrutura que só seria usada em situações de exceção. O custo do desastre? Socializado. O lucro da operação? Privado. Essa é a equação perversa que precisa ser desnudada.

"A água não é um produto qualquer. É a base da vida. E, numa sociedade de classes, transformar a água em mercadoria é um ato de violência contra a classe trabalhadora, que sempre pagará, com sua saúde e seu bolso, pela ganância do capital."

Quem ganha, quem perde e o que fazer?

O movimento de privatização do saneamento não é um caso isolado. Ele se insere em um processo mais amplo de espoliação dos serviços públicos, que já discutimos aqui ao falar sobre a privatização da água e da energia. É a mesma lógica que transforma a educação, a saúde e a previdência em mercadorias. O capital financeirizado, em sua fase atual, busca novos setores para se valorizar, e o saneamento, com seus fluxos de caixa estáveis e garantidos por contratos de longo prazo, é um prato cheio.

  • Quem ganha: O grupo Aegea, seus acionistas (incluindo fundos de investimento internacionais), os bancos que estruturam a operação e a parcela da classe do capital que se beneficia da drenagem do fundo público.
  • Quem perde: A classe trabalhadora gaúcha, que paga tarifas mais altas (o reajuste anual da Corsan após a privatização foi de 6,5% acima da inflação) por um serviço pior, e ainda arca com os danos sociais e ambientais das crises que o modelo privado agrava. Perde também a soberania do estado sobre um recurso estratégico.

Diante desse cenário, a saída não é clamar por uma "privatização bem feita" ou por uma "regulação estatal forte". A história demonstra que a regulação é capturada pelo capital. A única alternativa coerente com os interesses da nossa classe é a reestatização do serviço. Não se trata de um saudosismo estatizante, mas da retomada do controle público sobre um bem essencial, submetendo-o à gestão democrática, com controle social dos trabalhadores e das comunidades. Precisamos articular a luta em defesa da água como um direito humano e um bem comum com a luta contra o projeto neoliberal que tem destruído o Brasil.

Referências e dados para aprofundamento:

  • Relatório "Crise Hídrica e Saneamento no RS" – Observatório das Metrópoles (2024).
  • Dados de reajuste tarifário da Corsan após privatização – AGERGS (Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS), 2023.
  • As promessas de investimento versus a execução real nos primeiros 18 meses de gestão da Aegea no RS – Reportagem do Sul21 (março/2024).

sábado, 4 de julho de 2026

Pejotização e uberização do trabalho: superexploração travestida de liberdade

Superexploração e falsa autonomia: a pejotização como senha do capital flexível

Por Walter Azevedo

Você abre o celular e, em minutos, um motorista está a caminho. O entregador chega de bicicleta, mochila térmica nas costas, sorriso cansado. Do outro lado, o profissional que redige contratos, projeta sites ou organiza eventos — também opera como empresa, um CNPJ que respira e trabalha. Aparentemente, dois mundos distintos, mas a essência é a mesma: a velha exploração do trabalho, travestida de autonomia, vestida com a roupagem moderna do aplicativo e do contrato de prestação de serviços.

O que chamamos de pejotização e uberização não são fenômenos paralelos. São faces da mesma moeda cunhada pela classe do capital em sua ofensiva contra os direitos conquistados pela classe trabalhadora.

A liberdade que aprisiona

No discurso dominante, ser PJ é sinônimo de ser "dono do próprio nariz". O entregador é um "parceiro" que "escolhe" horários. O profissional contratado como PJ não tem chefe, tem clientes. A retórica do empreendedorismo promete autonomia e realização.

Mas a análise dialética nos obriga a perguntar: quem ganha? A resposta é direta: o capital. Ao transformar o trabalhador em empresa, a classe do capital transfere custos e riscos da atividade produtiva. O motorista arca com combustível, manutenção, seguro, plano de saúde, dias de chuva e meses de baixa demanda. O PJ contrata equipamento, paga impostos e, quando adoece, não tem licença remunerada.

O capital elimina encargos trabalhistas — férias, 13º salário, FGTS, descanso semanal, jornada limitada. O lucro aumenta, o risco desaparece. A liberdade do trabalhador se revela como a liberdade de ser explorado sem proteção do Estado.

Dados do IBGE mostram que, no quarto trimestre de 2024, a informalidade atingiu 39,5% da população ocupada, cerca de 40 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. A pejotização é um dos motores desse exército de reserva.

A superexploração como regra

Para compreender esse fenômeno, recorremos à categoria teórica de Ruy Mauro Marini: a superexploração da força de trabalho. Diferente da exploração clássica, a superexploração ocorre quando o trabalhador não recebe nem o suficiente para repor sua força de trabalho em condições normais.

O entregador que trabalha 12 horas por dia, sem renda mínima, exposto à violência e ao desgaste físico, não está apenas sendo explorado: sua força de trabalho é consumida abaixo do valor de reposição. O profissional PJ que não tira férias, trabalha doente e não acumula para a aposentadoria está na mesma condição.

O capital financeirizado de plataformas como Uber, iFood e Amazon não seria tão lucrativo sem essa massa de trabalhadores descartáveis. A riqueza dos acionistas é construída sobre a espinha curvada de quem entrega comida na chuva e na madrugada.

Há ironia nesse processo: o discurso da inovação tecnológica, que deveria liberar a humanidade do trabalho repetitivo, está reconstruindo formas de exploração que acreditávamos superadas. É um retrocesso histórico disfarçado de futuro.

Organização e resistência: o único caminho

A essência da luta de classes não mudou. Se a pejotização e a uberização são formas contemporâneas de precarização, a resposta precisa ser igualmente contemporânea em táticas, sem perder a estratégia histórica.

Primeiro, compreender que a organização política e sindical é a única ferramenta capaz de inverter a correlação de forças. Já existem movimentos importantes, como a greve dos entregadores de 2020, que parou o iFood em várias capitais. Essas experiências precisam ser ampliadas e fortalecidas.

Em segundo lugar, é preciso pautar a regulação estatal. Não se trata de "matar a inovação", mas de garantir que ela sirva ao povo, não ao lucro de alguns. A PEC que estabelece vínculo empregatício para trabalhadores de plataformas digitais, em tramitação no Congresso, é uma batalha central.

Por fim, a luta contra a precarização é também luta ideológica. Precisamos desmontar os mitos do empreendedorismo e da meritocracia, que são armas do capital para nos convencer de que a exploração é liberdade. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia do capital se mantém pela difusão de ideias que fragmentam nossa classe.

Olhar para o horizonte

Estamos diante de uma encruzilhada histórica: de um lado, a consolidação de um mercado de trabalho precário e inseguro; do outro, a possibilidade de construir uma nova correlação de forças, colocando a tecnologia a serviço do trabalho digno.

A superexploração não é um destino inevitável. É uma escolha política do capital, que precisa ser enfrentada com organização, consciência de classe e projeto estratégico. Nossa tarefa é mostrar que, por trás do véu colorido dos aplicativos, o que está em jogo é a velha luta entre capital e trabalho.

Que possamos transformar essa consciência em ação organizada.


Referências e fontes consultadas:

  • IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – 4º trimestre de 2024. Disponível em: ibge.gov.br.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência (1973). Edição brasileira: Editora Expressão Popular, 2022.
  • Antunes, Ricardo. Uberização e a nova morfologia do trabalho. In: Revista Margem Esquerda, n. 34, 2020.
  • Azevedo, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Greve geral em Portugal: quando o movimento para e o sistema treme

Greve geral em Portugal: contradições do capital financeirizado e a consciência de classe em movimento

Por Walter Azevedo

Quando as ruas de Lisboa e Porto pararam na greve geral de 2025, viu-se mais que trabalhadores exaustos: a fotografia de uma contradição que o sistema esconde atrás de relatórios de rating. Portugal, “exemplo de recuperação” pela Comissão Europeia, viu sua classe trabalhadora dizer coletivamente: basta. O fenômeno revela o que está por baixo do verniz macroeconômico.

O que moveu milhares não foi apenas o preço do aluguel, mas a consciência de que o modelo é insustentável para quem vive do trabalho. Nossa tarefa é compreender esse movimento: de onde vem, o que revela e para onde aponta.

O imediato e sua casca: o que a greve geral visibilizou

Dados oficiais contam sucesso: PIB cresceu, desemprego caiu para abaixo de 7%, superávits fiscais. Mas o cotidiano da precariedade em serviços públicos, carestia de alimentos e aluguéis impossíveis com salário mínimo de pouco mais de 800 euros testemunha outra verdade.

A greve não nasceu do acaso. Foi resposta a uma política que, em nome do equilíbrio fiscal, aprofunda a espoliação. Professores sem livros, profissionais de saúde em greves setoriais, jovens em recibos verdes. A paralisação de 2025 deu corpo visível a essa insatisfação, setor após setor, até tornar-se nacional.

A essência da crise: financeirização e dependência

Se a escassez de serviços públicos é sintoma, a doença reside na integração de Portugal ao capitalismo global. Privatizações de energia, água, banca e telecomunicações entregaram a economia a grupos estrangeiros e fundos de investimento. Trata-se de um projeto de classe: transformar serviços públicos em ativos financeiros, extraindo renda para a acumulação do capital financeirizado.

A dependência é estrutural. Como analisou Theotônio dos Santos, economias como a portuguesa ocupam posição subordinada na divisão internacional do trabalho, fornecendo mão de obra barata e mercados enquanto a soberania escapa para Bruxelas e o FMI.

A austeridade não é erro técnico, mas mecanismo de dominação. O Estado corta gastos sociais e socorre bancos. A dívida pública justifica cortes de direitos, enquanto o lucro privado segue intocado. A greve expõe essa contradição: entre capital financeiro e vida da classe trabalhadora não há conciliação.

O mesmo enredo repete-se globalmente. No Brasil, privatizações transformam água e energia em mercadorias financeiras. A espoliação dos serviços públicos é política internacional de classe, e a resistência portuguesa ecoa lutas de Lisboa ao Recife.

A consciência de classe em movimento

A greve geral não é apenas paralisação econômica: é momento pedagógico. Ao parar, a classe se reconhece como sujeito coletivo. O trabalho deixa de ser moeda de sobrevivência e vira instrumento de poder político.

A consciência não brota espontaneamente — é mediada pela luta concreta. A greve não resolveu a crise estrutural, mas deu um passo: mostrou que a classe trabalhadora portuguesa recusa ser variável de ajuste para meia dúzia de acionistas.

Esse movimento recoloca a necessidade de um programa ofensivo, articulando soberania nacional, controle social dos serviços e redistribuição. Como discutimos, austeridade ou servidão são a mesma moeda; a classe precisa de um caminho que rompa com a lógica do capital.

Para onde vamos a partir daqui?

A greve geral em Portugal é sinal na bússola histórica: a luta de classes não acabou, reconfigura-se. O capital tenta fragmentar e convencer que não há alternativa. Quando milhares param, essa narrativa se despedaça.

O próximo passo é transformar a energia em organização permanente: fortalecer sindicatos, construir frentes de base, ocupar o debate público com propostas de superação da dependência. A consciência não pode ser momento fugaz — precisa sedimentar-se em organizações que disputem o futuro.

Portugal mostrou que é possível resistir. Cabe a nós aprender e construir o dia seguinte. A classe trabalhadora não é apenas a que sofre — é a que pode parar tudo e, parando, apontar um novo horizonte.


Referências e fontes:

  • Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal — Dados sobre salário mínimo, PIB e taxas de desemprego (2024-2025).
  • European Trade Union Confederation (ETUC) — Relatório sobre greves gerais e políticas de austeridade no sul da Europa (2025).
  • Theotônio dos Santos, La teoría de la dependencia: balance y perspectivas (2000) — análise estrutural das economias periféricas.
  • Sindicato dos Professores da Zona Norte (SPZN) e Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública — comunicados e dados sobre adesão à greve geral de 2025.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Austeridade ou servidão? O que está em jogo quando o Estado corta para a classe trabalhadora

Austeridade de classe: o Estado corta para quem? A geometria variável dos sacrifícios

Por Walter Azevedo
“O Estado moderno, porém, não passa de um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia.” Karl Marx e Friedrich Engels

Um mantra ecoa no poder e nas manchetes: é preciso ajustar contas, cortar gastos, apertar os cintos. A frase parece verdade universal e inquestionável. O problema é que a geometria desse cinto é profundamente seletiva. A pergunta que nossos governantes raramente respondem é: de quem se exige o aperto? Pois é sobre a essência de classe dos cortes que precisamos conversar hoje.

O orçamento como campo de batalha: quem paga a conta?

No Brasil de 2025, o discurso da austeridade fiscal atualiza um velho programa de dominação. Por trás do véu da neutralidade, desenha-se um projeto de classe. Quando o governo anuncia o bloqueio de bilhões em verbas discricionárias, o primeiro alvo são as políticas sociais. A saúde perde leitos, a educação vê obras paralisadas, a assistência corta auxílios. Morrem pacientes no SUS, enquanto o Estado paga religiosamente o serviço da dívida pública.

Os dados são implacáveis. Em 2024, o Brasil destinou cerca de 43% do orçamento federal a juros e amortizações da dívida, enquanto saúde e educação não somaram 12%. Não é acaso, é escolha política deliberada. As forças do capital financeirizado exercem hegemonia sobre o Estado. O “mercado reage”, e o governo recua. É a ditadura do curto prazo financeiro sobre as necessidades históricas da maioria. A austeridade revela-se como política de classe para transferir renda dos pobres aos ricos, do trabalho ao capital.

O caminho da servidão fiscal ou a construção da soberania?

Se o diagnóstico é de classe, a saída precisa ser igualmente de classe. Não há conciliação entre capital e trabalho, ela é miragem. A disjuntiva é: ou nos curvamos à austeridade, aceitando o desmonte estatal para o capital financeiro, ou rompemos essa subordinação. O primeiro caminho leva à servidão fiscal eterna, com soberania entregue a agências de rating. O segundo exige coragem política, organização popular e prioridades claras.

É preciso romper com o mito de que o Estado é entidade sem dono. Como analisei em “Como Vencer na Grande Política”, o Estado é campo de disputa entre classes. Para vencer, a classe trabalhadora precisa impor seus interesses: defender orçamento que priorize saúde, educação, ciência e infraestrutura; taxar grandes fortunas e lucros; reindustrializar o país com base em projeto nacional-popular que quebre a dependência imperialista, como discutimos em Soberania nacional e tarifaço.

Organizar para romper: a política como instrumento de classe

A superação desse ciclo não virá de um “iluminado”, mas da organização da classe trabalhadora em todos os níveis. Precisamos nos organizar em sindicatos, movimentos sociais e partidos comprometidos com a causa popular. A luta contra os cortes é política, no parlamento, nas ruas e na consciência de cada trabalhador. A pergunta de um dirigente sindical deve ser: “quem vai pagar a conta?”.

Precisamos disputar a comunicação. O discurso da austeridade é hegemônico porque não há contra-discurso forte. A luta pela regulação das plataformas, como em Big Techs e desinformação, é central. A desinformação naturaliza a desigualdade. Só com informação qualificada e organização nos moveremos da passividade à ação. A história é uma arena que construímos com nossa luta.

O que você pode fazer agora?

  • Discutir a pauta: Leve o tema do orçamento para suas rodas de conversa. Pergunte: por que temos dinheiro para juros, mas não para um hospital?
  • Apoiar campanhas: Participe de iniciativas que pautam a defesa do serviço público e a taxação dos super-ricos.
  • Se informar e informar: Compartilhe artigos que desnudam a falsa neutralidade da economia. A informação é a primeira trincheira da consciência de classe.

Referências e leituras complementares

  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência.
  • Santos, Theotônio dos. A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas.
  • Azevedo, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Dados do orçamento público federal (2024/2025) — Portal da Transparência e estudos do IFI (Instituição Fiscal Independente do Senado).

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Big Techs e desinformação: ameaça sistêmica às eleições alertam em Recife

A hegemonia digital ameaça a soberania popular: nas eleições de 2026, o voto não decide tudo

Por Walter Azevedo

No Recife, um fórum de comunicação reuniu especialistas para alertar sobre o óbvio que insistem em esconder: as big techs, comandadas por uma oligarquia bilionária do Norte global, estão transformando o processo eleitoral brasileiro em um grande cassino de desinformação. Enquanto a mídia tradicional se perde em debates sobre qual candidato "venceu" o debate nas redes, o verdadeiro jogo se desenrola nos algoritmos que decidem o que você vê, quando vê e como vê. A liberdade de expressão, esse conceito sagrado para a classe do capital, virou um biombo para a maior máquina de manipulação de massas que a história já conheceu. Mas a pergunta que ninguém quer fazer é: quem lucra com isso?

A superfície do problema: desinformação e tecnocracia

A manchete parece simples: debatedores alertam que big techs ameaçam eleições. Notícia velha, diriam os cínicos. Mas o que se esconde por trás da aparência? O fenômeno imediato é o tsunami de notícias falsas, vídeos manipulados e perfis-fantasma que agem como formigas numa colônia organizada. Estima-se que, nas eleições de 2022, mais de 80% dos brasileiros foram expostos a algum conteúdo falso sobre o processo eleitoral — e a estrutura para 2026 é infinitamente mais sofisticada. As plataformas não são meros canais neutros; são arquitetas ativas do que vemos. Quando o algoritmo privilegia o conteúdo da extrema direita, não se trata de um erro técnico, mas de uma decisão política. E a decisão, como sempre, serve a um projeto de poder.

A essência da contradição: capital financeiro e controle da hegemonia

Precisamos ir além da superfície. Não se trata apenas de "desinformação". Trata-se de uma guerra de classes travada no campo da comunicação. As big techs — Google, Meta, X (ex-Twitter), TikTok, Amazon — são, acima de tudo, braços do capital financeirizado internacional. Elas lucram bilhões com a atenção humana e vendem essa atenção para a classe do capital. A desinformação não é um defeito; é uma funcionalidade. Quanto mais polarização, mais engajamento; quanto mais engajamento, mais dados; quanto mais dados, mais controle. E quem controla a informação controla a correlação de forças, como discutimos em nosso artigo sobre big techs e hegemonia.

O nó górdio está na soberania nacional. Enquanto as decisões sobre o que é ou não desinformação forem tomadas em Vale do Silício, a democracia brasileira será um simulacro. Quando um bilionário californiano decide que um candidato progressista é "perigoso" e outro é "confiável", estamos diante de uma intervenção imperialista direta, ainda que digital. E não se enganem: o capital não quer o caos pelo caos. O capital quer um Estado que lhe seja favorável, que privatize seus serviços públicos como a água e a energia, que fragmente a classe trabalhadora e que impeça qualquer projeto de soberania popular. A desinformação é a ferramenta para construir o consenso em torno do entreguismo, como vimos no debate sobre a burguesia compradora e a dependência imperialista.

A superação possível: organização, regulação e projeto popular

Mas não podemos cair no derrotismo. A luta pela regulação das big techs não é um debate técnico; é uma disputa política de primeira ordem. O Projeto de Lei 2630/2020, o chamado PL das Fake News, foi enterrado no Congresso pela pressão das próprias big techs e de seus lacaios na política nacional. Isso nos mostra que a luta não se ganha apenas na lei, mas na correlação de forças. Precisamos de três movimentos simultâneos:

  • Regulação democrática das plataformas: transparência nos algoritmos, responsabilização civil e criminal das empresas por danos eleitorais, proibição de publicidade segmentada politicamente.
  • Fortalecimento da comunicação pública e popular: financiamento de mídias comunitárias, sindicais e alternativas que não se submetam ao algoritmo do lucro.
  • Organização da classe trabalhadora no campo digital: formação política sobre como essas ferramentas funcionam e como podemos usá-las contra o capital, sem nos iludirmos com elas.

O fórum no Recife acertou ao colocar o dedo na ferida. Mas faltou dizer que a saída não é pedir regulação, é construir força social para impor a regulação. As big techs não vão se autorregular — isso é uma ficção infantil. Elas precisam ser enfrentadas por um movimento político organizado que una sindicatos, movimentos sociais, partidos progressistas e a juventude que já sente na pele o peso da alienação digital.

Conclusão: a próxima batalha é nossa

Em 2026, a disputa não será apenas entre candidatos. Será entre dois projetos de país: um que quer um Brasil soberano, com trabalhadores organizados e comunicação livre; e outro que quer um Brasil colônia digital, onde a classe do capital decide o que é real e o que é mentira. A desinformação é a arma deles. A nossa arma é a consciência de classe, a organização política e a construção de alternativas concretas. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a luta não se dá no vazio, mas na totalidade das relações sociais. E a totalidade, hoje, inclui a batalha pelo controle da informação.

Que saiamos do Recife não apenas com alertas nos ouvidos, mas com tarefas nas mãos.

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Fontes e referências:

  • Fórum de Comunicação do Recife — debates sobre desinformação e eleições (2026).
  • MARTINS, Helena. Comunicação e luta de classes. São Paulo: Expressão Popular, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • Relatório "Democracia Sob Ataque" — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 2024.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Privatização da água e da energia: a espoliação dos serviços públicos como política de classe

A Lei dos Serviços Públicos: Água e Energia na Mira do Capital Financeiro

Por Walter Azevedo

No momento em que a conta de luz e a fatura da água se tornam pautas de disputa entre governos e corporações, surge uma pergunta incômoda: quem decide o preço da vida? A notícia recente de que o governo paulista planeja a privatização da Sabesp avança sob o discurso da eficiência e da atração de investimentos. A toada é conhecida. O que se esconde por trás da promessa de modernização é a entrega de um bem essencial — a água, o esgoto tratado — à lógica do lucro. Nossa classe trabalhadora sabe, pela experiência, que onde o capital privado assume a gestão de serviços públicos, o preço sobe e a qualidade piora para quem não pode pagar pela tarifa premium.

A Aparência do Discurso: Eficiência, Investimento e a Falsa Dicotomia

O argumento inicial dos defensores da privatização é sedutor: apresentam o Estado como incompetente e burocrático. No caso da água e da energia, os exemplos se acumulam. No Rio de Janeiro, a concessão da Cedae gerou tarifas mais altas e serviço que patina para universalizar. Na energia elétrica, vimos o apagão no Amapá, em 2020, após a privatização da concessionária local, que não honrou compromissos de manutenção. A eficiência cantada vira rapina sobre o orçamento das famílias e desmonte da capacidade regulatória do Estado. O que se apresenta como escolha técnica é um projeto político: retirar do controle popular a gestão de recursos estratégicos e entregá-los ao capital financeirizado, sem pátria nem compromisso com o bem-estar social.

A Essência da Contradição: Concentração de Renda e Superexploração

A privatização de serviços públicos como água e saneamento insere-se num movimento de espoliação dos bens comuns pela classe do capital. O capital financeiro, na sua fase atual, avança sobre os serviços essenciais, transformando necessidades humanas básicas em mercadorias. A água, que deveria ser direito universal, vira ativo financeiro, com fundos internacionais lucrando com cada gota. A energia elétrica, base do funcionamento de hospitais e escolas, torna-se fonte de lucro para acionistas. Esse processo aprofunda a superexploração da classe trabalhadora de duas maneiras: comprime o salário real, pois a parcela destinada a tarifas cresce, roubando recursos de alimentação e saúde; e fragiliza a soberania nacional, colocando recursos estratégicos — bacias hidrográficas e redes de transmissão — nas mãos de agentes subordinados ao imperialismo.

O discurso da "eficiência privada" é a roupagem moderna do velho projeto entreguista. Entregar a água para a iniciativa privada não é modernizar o Brasil; é recolonizá-lo sob novas formas.
— Walter Azevedo, "Como Vencer na Grande Política"

O Jogo de Forças e a Falsa Concessão

Essa disputa não se dá no vácuo. A privatização é a face visível de uma correlação de forças desfavorável aos trabalhadores. As oligarquias locais, aliadas ao capital financeiro internacional, pressionam os governos para abrir essas frentes. A imprensa hegemónica naturaliza a ideia de que "não há dinheiro" para o Estado investir. O que não se conta é que a falta de recursos é artificial: o mesmo Estado que corta investimentos sociais destina centenas de bilhões ao pagamento de juros da dívida pública, que engorda os bancos que depois compram ações das empresas privatizadas. A mediação política revela uma lógica perversa: serviços que dão lucro são privatizados (energia, saneamento, telecomunicações); os deficitários ficam com o Estado (saúde, segurança, educação pública). A conta sobra sempre para a mesma classe.

A Espoliação Como Projeto de País

O que vemos não é uma crise de gestão, mas um projeto de desmonte do Estado como garantidor de direitos fundamentais. A privatização da água e da energia é a ponta de um iceberg chamado dependência. O modelo extrativista-exportador de nossa formação social precisa que os trabalhadores estejam desorganizados e com salários comprimidos. Um povo que paga caro pela água e pela luz tem menos energia para lutar por direitos e disputar a hegemonia. Como já discutimos em relação à hegemonia das big techs e à dependência imperialista, a luta pela soberania passa pelo controle dos recursos que sustentam a vida coletiva. Água e energia são tão estratégicas quanto o controle da informação e a política tarifária — são alicerces materiais para qualquer projeto nacional-popular.

Perspectiva de Luta e Ação Coletiva

A práxis exige que denunciemos e construamos alternativas. A resistência à privatização não pode ser apenas defensiva. Precisamos disputar o imaginário social e a correlação de forças institucional. É preciso defender a reestatização de serviços estratégicos, com controle social e participação popular na gestão. Exigir investimentos públicos para universalização do acesso, não para lucro de acionistas. Organizar comunidades, construir comitês de defesa dos serviços públicos, apoiar candidaturas e partidos que coloquem essa pauta como central. A luta contra a espoliação é a luta pela vida. Ela será vencida ou perdida nas ruas, nos sindicatos, nos movimentos populares. A consciência de classe forjada nesse enfrentamento é a chave para transformar a necessidade de beber água e acender a luz em direito inalienável, não em mercadoria leiloada.

Referências e Fontes:

  • Caderno: "Privatização do saneamento no Brasil: impactos e lições do Rio de Janeiro" (FASE, 2022).
  • Dados: Relatório do TCU sobre a crise energética no Amapá (2020), que aponta falhas na fiscalização e na prestação de serviço pela concessionária privada.
  • Artigo: "A financeirização da água: fundos de investimento e o controle dos serviços públicos no Brasil" (OXFAM Brasil, 2023).
  • Livro: Walter Azevedo, Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023).

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Big techs e hegemonia: quem controla a informação controla a correlação de forças

Monopólio da fala: quem controla o algoritmo, controla a correlação de forças

Por Walter Azevedo

Na última quarta-feira, a Meta suspendeu mais de duas mil contas de movimentos populares na América Latina sob justificativa genérica de "coordenação de influência oculta". O argumento seria técnico, se não fosse seletivo: nenhuma operação similar ocorreu contra redes bolsonaristas ou canais que lucram com desinformação golpista. O debate não é sobre "moderação de conteúdo", mas sobre a disputa objetiva de quem pode falar, para quem e em que termos na esfera pública digital. O algoritmo não é neutro: é a mediação concreta entre a infraestrutura da plataforma e o campo de batalha ideológico.

Os donos do território digital

Google, Meta, Apple, Amazon e Microsoft controlam mais de 70% do tráfego global de dados e quase toda a infraestrutura de nuvem. Elas são agentes políticos do capital financeirizado, não prestadoras de serviço. Cada mudança no algoritmo do Instagram ou YouTube ajusta a correlação de forças. Um movimento sindical que depende de alcance orgânico para mobilizar uma greve pode ter sua visibilidade cortada da noite para o dia. Já um think tank financiado por fundações estadunidenses compra impulsionamento massivo sem questionamento. A assimetria não é técnica, é de classe.

Essas plataformas são territórios privados, não praças públicas. A circulação da informação é regulada por contratos unilaterais. Quando a Meta decide que um conteúdo sobre reforma agrária na Colômbia viola diretrizes, não só remove um post: determina quais narrativas podem existir. Esse poder, antes dos jornais de papel controlados por oligarquias nacionais, hoje está concentrado em mãos estrangeiras, a serviço do capital imperialista.

Da aparência de liberdade à essência do controle

Na aparência, temos uma "praça digital" onde todos falam. Na essência, há uma estrutura de mediação que define quem alcança audiência e quem fala ao vazio. A tese do "livre mercado de ideias" sempre foi uma farsa liberal, hoje operacionalizada por algoritmos que silenciam vozes dissonantes sem usar "censura". Um perfil que denuncia exploração do trabalho no agro brasileiro é sombreado; outro que defende o agronegócio é impulsionado. Não há conspiração: há a lógica do capital.

"A burguesia não precisa proibir diretamente a fala do oprimido: basta tornar economicamente inviável sua amplificação. E ela faz isso com maestria."

O Digital News Report 2025 indica que 83% do tráfego de notícias políticas em países do Sul Global passa por plataformas estadunidenses. No Brasil, mais de 60% dos acessos a conteúdos de esquerda dependem exclusivamente do alcance orgânico em Instagram e WhatsApp. Nossa capacidade de comunicação está hipotecada à boa vontade de CEOs que lucram com publicidade e extração de dados. Dependência tecnológica se torna dependência política.

Regulação, soberania e organização popular

É preciso politizar o debate sobre regulação. O PL 2630, no Congresso brasileiro, tenta enfrentar o problema, mas sua tramitação foi atrasada por big techs e setores do centrão que lucram com desinformação. A burguesia compradora brasileira, como vimos no debate sobre o tarifaço, não rompe a subordinação imperialista; beneficia-se do controle estrangeiro sobre a comunicação.

A saída passa por três frentes:

  • Regulação antimonopolista: quebrar o oligopólio das big techs com regras de interoperabilidade, transparência algorítmica e responsabilidade sobre desinformação política.
  • Fortalecimento de plataformas soberanas: investimento público em alternativas digitais com código aberto e governança democrática, controladas por Estados ou cooperativas.
  • Organização comunicacional da classe trabalhadora: construir redes próprias — blogs, canais de sindicatos, jornais de base — que não dependam exclusivamente do alcance privado.

A luta de classes também é comunicacional

Não há hegemonia sem controle sobre os meios de produção da informação. A classe do capital investiu bilhões em jornais, rádios, TVs e big techs. Nossa classe precisa aprender a mesma lição. A vitória de Gustavo Petro na Colômbia enfrentou guerra midiática violenta, como mostramos na análise sobre questionamentos ao primeiro turno, e a comunicação popular foi essencial para furar o bloqueio.

A superação dessa contradição virá da organização política que transforme a luta comunicacional em parte do projeto de soberania nacional. Precisamos construir uma esquerda que entenda que o algoritmo não é destino — é campo de batalha. Quem não ocupa, perde.

Controlar a informação é controlar as condições materiais em que a consciência de classe se forma ou se deforma. E essa luta — pela verdade, pela narrativa, pela memória — é tão importante quanto a luta pelo salário, pelo teto ou pela terra. Afinal, qual revolução venceu sem conquistar o direito de contar sua própria história?

Referências e fontes:
- ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
- FONSECA, Francisco. Mídia, Poder e Democracia. São Paulo: Editora Unesp, 2022.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023. (capítulo 4 – "A batalha comunicacional como frente de luta de classes")
- Reuters Institute for the Study of Journalism. Digital News Report 2025. Universidade de Oxford, 2025.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Soberania nacional e tarifaço: a burguesia compradora e a dependência imperialista

Soberania nacional e tarifaço: a burguesia compradora e a dependência imperialista

Por Walter Azevedo

A recente escalada protecionista dos Estados Unidos, com o anúncio de novas tarifas sobre produtos industrializados de diversos países, reacendeu um debate que nossa classe insiste em jogar para debaixo do tapete: o que é, afinal, a soberania de uma nação periférica como o Brasil? Enquanto a grande mídia trata o assunto como mais um round das “guerras comerciais” entre potências, nós precisamos ir além da superfície para enxergar a verdadeira natureza dessa disputa e, mais importante, o papel que a nossa própria burguesia desempenha nesse jogo de cartas marcadas.

Ao contrário do que muitos pensam, a crise atual não é fruto de um mero desentendimento entre sócios do clube global. Ela revela uma contradição fundamental do capitalismo em sua fase imperialista: a necessidade incessante de expandir mercados e extrair mais-valia colide com os limites territoriais e políticos dos Estados nacionais. Mas, para o Brasil, o problema é mais profundo. Não estamos diante de uma briga entre iguais. Nosso lugar na divisão internacional do trabalho nos condena a ser o quintal onde as potências colhem matéria-prima barata e despejam seus produtos de alto valor agregado, muitas vezes com o apoio ativo de setores da nossa própria elite.

A natureza da nossa burguesia: compradora, não nacional

Para entender o entrave, precisamos superar a aparência de que existe uma “burguesia nacional” interessada no desenvolvimento autônomo do país. Autores como Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini já nos alertaram: a burguesia brasileira, em sua fração dominante, é uma burguesia compradora. Seu negócio não é produzir riqueza a partir da inovação e da soberania, mas sim intermediar a subordinação do nosso mercado aos interesses do capital financeirizado internacional. Ela lucra com a desvalorização do nosso trabalho, com a abertura comercial incondicional e com a drenagem de recursos para o exterior. O “tarifaço” americano, portanto, não é uma ameaça homogênea: para a indústria nacional que tenta competir, é um golpe; para a fração compradora que vive de importar e revender, é um detalhe, ou até uma oportunidade de pressionar por mais desregulamentação.

O resultado dessa aliança espúria é a crônica desindustrialização que vivemos. Não precisamos de números oficiais para sentir no bolso: o preço dos bens de consumo dispara enquanto nossa capacidade de gerar empregos de qualidade definha. Cada vez que uma montadora fecha uma fábrica ou que um parque tecnológico é desativado, não estamos apenas perdendo empregos — estamos perdendo a possibilidade de construir uma nação que decida seu próprio destino. A soberania nacional, nesse contexto, não é uma palavra vazia de estadista; é a condição material para que o povo brasileiro tenha futuro.

A totalidade do jogo: quem perde e quem ganha?

Ao olharmos para a conjuntura, precisamos conectar os pontos. Enquanto o governo brasileiro tenta costurar acordos bilaterais e o Itamaraty busca uma saída diplomática, o capital financeiro internacional movimenta seus tentáculos. O que está em jogo não é apenas a taxa de câmbio ou a balança comercial, mas a correlação de forças entre classes e nações. Cada medida protecionista dos Estados Unidos é um lembrete de que o imperialismo não é uma ideologia, mas uma relação de poder concreta, que se impõe pela força das armas, das finanças e das leis do mercado.

Não se engane: a “guerra comercial” é a forma que a crise estrutural do capitalismo encontra para redistribuir os prejuízos. E, nessa dança, o Brasil — com sua infraestrutura sucateada, sua dívida pública crescente e sua elite entreguista — é o parceiro que sempre paga a conta. Enquanto a classe trabalhadora europeia ou americana ainda mantém certos direitos conquistados em décadas de luta, a nossa força de trabalho é superexplorada, sem rede de proteção, exatamente como analisamos no caso da pejotização e da uberização. É a mesma lógica de dependência, agora escancarada no plano das relações entre Estados.

Mediações e luta: para além do imediato

O caminho da superação não está em pedir “mais mercado” ou “menos Estado”, como querem os liberais. Tampouco se resolve com um nacionalismo ufanista que ignore a luta de classes interna. Precisamos de uma mediação política que articule a defesa da soberania com a construção de um projeto popular. Isso significa, concretamente, lutar por um Estado que rompa com a subordinação financeira, que invista em ciência e tecnologia, que proteja o trabalho e que enfrente de frente os interesses da burguesia compradora.

Não é uma tarefa para amanhã, mas é a única perspectiva que nos tira da inércia. Como escrevemos em "Como Vencer na Grande Política", a transformação da realidade exige que a teoria se converta em práxis organizada. Não basta denunciar o imperialismo em abstrato; precisamos construir a força política capaz de disputar a hegemonia dentro da nossa própria sociedade.

O tarifaço americano não é um desastre natural. É uma consequência lógica da nossa posição de dependência. Mas essa posição não é imutável. A história nos mostra que as nações que quebraram o ciclo da subordinação — como a China, em seu processo revolucionário — o fizeram porque combinaram desenvolvimento interno com ruptura política. Nós, brasileiros, temos todas as condições materiais para fazer o mesmo: recursos naturais, território, um povo lutador e uma classe trabalhadora que, mesmo golpeada, não se entrega. O que nos falta é a consciência de que a soberania não se negocia: se constrói.

Referências e fontes

  • Walter Azevedo, Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023).
  • Ruy Mauro Marini, Dialética da Dependência (1973).
  • Theotônio dos Santos, Imperialismo e Dependência (1978).
  • Dados do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) e do IBGE sobre desindustrialização e balança comercial brasileira.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Gustavo Petro questiona resultados do primeiro turno na Colômbia

Petro questiona resultados do primeiro turno na Colômbia: Quando a democracia formal não é suficiente

Por Walter Azevedo

O barulho das urnas e o silêncio estrutural

O presidente Gustavo Petro fez o que qualquer militante político minimamente afinado com a realidade faria: questionou publicamente os resultados do primeiro turno, apontando irregularidades e denunciando o "golpe midiático-judicial". Antes que os arautos da democracia liberal recitem seu mantra sobre "aceitar os resultados", precisamos perguntar: que democracia é essa que condena a dúvida como crime e trata a denúncia como heresia? Não estamos falando de um líder autoritário inconformado com a derrota, mas de um presidente que enfrenta um Congresso hostil, um judiciário capturado e uma mídia que transforma cada passo de seu governo em espetáculo de horror.

O jogo está marcado? O que está por trás da fumaça

A contradição é nítida e se desdobra em dois planos. De um lado, o processo eleitoral colombiano é formalmente exemplar: urnas eletrônicas, observação internacional, prazos legais. Do outro, a luta de classes nunca tira férias eleitorais. Enquanto Petro tenta implementar reformas estruturais — agrária, trabalhista, previdenciária — a velha oligarquia articula nos bastidores para manter o controle do Estado. O empresariado, latifundiários e forças armadas veem no governo Petro uma ameaça real a privilégios centenários. O questionamento não é birra: é a tentativa de expor que a democracia colombiana funciona para manter o poder onde sempre esteve. A ironia histórica é cruel: a mesma burguesia que aplaude o "Estado de Direito" quando protege seus lucros o rasga quando seus interesses são ameaçados.

Quem ganha com a instabilidade? Quem perde com a transparência? O capital financeirizado, que não se importa com bandeiras partidárias desde que os lucros dos bancos sejam garantidos. A velha mídia colombiana, que tratou guerrilheiros como terroristas e empresários como estadistas. O imperialismo norte-americano, que prefere uma Colômbia "estável", mesmo que essa estabilidade seja a da exclusão e violência.

A dialética entre o imediato e o profundo

O que vemos na superfície é um presidente contestando o resultado de uma eleição regional. Na essência, o que está em jogo é o projeto de poder popular na Colômbia. Petro não é um governante qualquer: ele encarna uma tentativa histórica de romper com o domínio das classes dominantes, sustentado por décadas de violência paramilitar e subordinação aos Estados Unidos. Questionar a lisura do processo é recusar-se a aceitar que a democracia se reduza a um procedimento de quatro em quatro anos.

A Colômbia vive o que chamamos de democracia restrita: instituições funcionam dentro de limites impostos pelo poder econômico. Os meios de comunicação não informam, formam — deformam. O Judiciário não julga, persegue. O parlamento não legisla, obstrui. Cada denúncia de Petro não é um ataque à democracia, mas à farsa democrática que sempre governou o país.

Lições para nossa luta: o que isso nos ensina no Brasil

A situação colombiana é um espelho para nós. Quando Lula foi eleito em 2022, vimos um Judiciário que agiu rapidamente para condenar adversários políticos? Uma mídia que concedeu espaço para propostas populares? Ou vimos o mesmo roteiro: manobras jurídicas, narrativa de crise e um parlamento conservador que impede avanços estruturais? A diferença é que aqui, por enquanto, a direita prefere atuar dentro das regras — mas as regras foram feitas para nos manter fora do poder.

O caso colombiano explicita uma verdade desconfortável: a classe do capital nunca aceitará uma derrota eleitoral que ameace seus interesses. Se não conseguir vencer nas urnas, tentará nos tribunais, no parlamento, na mídia ou, se necessário, nas ruas — com violência e desestabilização. O governo Petro luta para sobreviver em um ambiente hostil, e a contestação dos resultados é parte dessa luta.

O que fazer? Organizar a desconfiança

A saída não é abandonar a disputa institucional, mas entendê-la como campo de batalha e não como templo sagrado. Precisamos construir o que chamo de democracia substantiva: controle popular sobre as instituições, participação direta das massas organizadas, conselhos populares que fiscalizem cada etapa do processo. A classe trabalhadora não pode delegar sua luta apenas a representantes — precisa ocupar as ruas, sindicatos, movimentos sociais e as urnas, com a consciência de que a verdadeira transformação virá da organização coletiva e da capacidade de impor derrotas à burguesia.

O questionamento de Petro é legítimo não porque ele tenha razão em cada denúncia, mas porque representa a recusa em aceitar que o jogo político seja definido por quem controla o dinheiro, os canhões e as manchetes. A lição para a esquerda brasileira é clara: não podemos cair na armadilha do "institucionalismo ingênuo". Elas também são uma ferramenta valiosa para construir projetos populares, mas precisam vir acompanhadas de práxis organizativa e luta de massas.

O destino da Colômbia nos afeta diretamente. A América Latina é um laboratório de experiências populares e contra-revolucionárias. O que acontece em Bogotá ecoa em Brasília, Buenos Aires, Lima. Apoiar a resistência do governo Petro não é solidariedade abstrata: é entender que nossa luta é uma só, unida pela mesma contradição fundamental.

Para seguir em frente

A conjuntura colombiana exige um olhar dialético: enxergar o imediato (a contestação dos resultados), desvelar a essência (a luta de classes) e apontar a superação (a organização popular para além das eleições). Não basta torcer por Petro. Precisamos aprender com seus acertos e limites. A construção de um projeto nacional-popular na América Latina passa por essa compreensão.

E você, leitor, o que acha desse cenário? Como articular a solidariedade internacionalista com a luta no Brasil? Deixe seus comentários. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a teoria é um guia para a ação — e a ação exige análise, organização e coragem.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Amor de índio: canção anticapitalista? A dialética do amor e da propriedade em Bethânia

Amor de índio, canção anticapitalista?

Por Walter Azevedo

Há semanas, viralizou um vídeo de um jovem entregador de aplicativo ouvindo "Amor de Índio", de Beto Guedes, enquanto trabalhava. A cena carrega uma contradição potente: a canção que fala de "coração avoante" e "raiz do chão" ecoa nos fones de um trabalhador algorítmico, cujo tempo é comprimido pela plataforma. O que essa justaposição de beleza e exploração revela sobre nossa formação social?

A música popular brasileira sempre foi campo de disputa simbólica. Canções como "Amor de Índio" (1978) parecem falar de um amor que desafia o tempo. Mas será que, por desprezar a posse e a servidão, carrega potencial anticapitalista? Vivemos onde até o amor é colonizado pelo capital — o namoro vira "relacionamento produtivo", o afeto é medido em "disponibilidade", a felicidade vira mercadoria. É nessa fresta que a canção se insere como resistência.

A essência de um amor que recusa a troca

Ao aprofundar na letra, encontramos algo raro: uma negação frontal do princípio da troca mercantil. "O meu amor não tem importância nenhuma / Não tem desejo de ter nem de possuir" — este verso é uma declaração de guerra à moral do capital. Numa sociedade onde tudo virou ativo financeiro, a ideia de um amor que não deseja possuir é subversiva. Ela desnuda a lógica do capital financeirizado, transformando o amor na antítese da mercadoria.

Mas a canção não para na negação. Ela constrói uma alternativa. O "coração avoante" e o "ninho no chão de terra" remetem a uma relação com a natureza que não passa pela propriedade privada. É o amor como práxis, rompendo com o individualismo possessivo onde o Ter sempre foi mais importante que o Ser.

Os índios e a classe trabalhadora: dois sujeitos históricos

É importante não idealizar. Os povos indígenas não são relíquia; são sujeitos históricos que lutam por terra contra o agronegócio e o garimpo. A foto do jovem entregador não é aleatória: ele é herdeiro de um duplo sequestro — o da terra e o do tempo. O capital financeirizado arrancou o trabalhador de seu chão e lhe entrega o celular, a bicicleta e a meta de 14 entregas por hora.

Nesse contexto, "Amor de Índio" funciona como interpelação. Não convida à fuga, mas à tomada de consciência. O trabalhador, ao cantarolar "com a vida nas mãos / como quem sabe o que quer", recusa o destino traçado pelo capital. Afirma que sua vida não é um custo de produção.

A dialética do amor na era das plataformas

Voltemos à contradição inicial. A canção fala de um amor "que não tem importância nenhuma". Para o capital, o trabalhador também não tem importância. Ele é descartável. Mas a canção opera uma inversão dialética: aquilo que o capital considera sem importância é o que nos constitui como sujeitos. O amor, o afeto, a poesia — dimensões que o capitalismo tenta mercantilizar, mas nunca consegue totalmente.

  • O capital transforma tudo em mercadoria, mas o amor recusa a equivalência universal do dinheiro.
  • O capital exige produtividade, mas o corpo exige descanso e afeto.
  • O capital atomiza, mas a canção aproxima, cria comunidade.

Por isso, ao ouvir a canção enquanto trabalha, o entregador não apenas se distrai. Ele faz uma dupla negação: nega que sua vida se reduza ao trabalho e que o amor se reduza ao consumo. Essa dupla negação é o germe de uma práxis transformadora.

"Onde eu nasci passam-se dias / Não tenho mais o que desejar / Não tenho mais o que esperar." O desespero da letra pode ser lido como o do trabalhador sem saída no horizonte imediato.

A canção como arma de luta

Precisamos, como classe, reapropriar nossa cultura. A música popular brasileira é um dos maiores acervos de resistência. Canções como "Amor de Índio", "O Bêbado e a Equilibrista" e "Cálice" formam o que Theotônio dos Santos chamaria de "cultura da libertação". Elas nos ancoram numa identidade histórica que o capital tenta apagar.

O fenômeno do entregador não é isolado. Nas periferias, a classe trabalhadora produz cultura que resiste — funk, rap, samba — todos marcados pela luta de classes. Mas há algo especial na canção de Beto Guedes: sua linguagem poética não é panfletária, é existencial. Fala de amor sem perder de vista a terra. É simultaneamente individual e coletiva.

Do amor à organização política

Não podemos nos iludir: a poesia não substitui a organização. O amor de índio pode inspirar, mas só a política concreta liberta. O entregador precisa de um sindicato forte, de uma luta contra a escala 6×1, de regulação das plataformas. A beleza da canção não anula a exploração — ela a ilumina e mostra o que está em jogo.

É aqui que entra a política. Precisamos construir uma força social que una trabalhadores, indígenas e artistas na luta por um projeto nacional-popular soberano. A canção aponta o horizonte, mas quem constrói o caminho somos nós, organizados.

O amor de índio é uma canção anticapitalista? Não como hino militante, mas como semente. Ela germina nos ouvidos de quem trabalha e produz uma recusa silenciosa. Cabe a nós transformar essa recusa em revolta, e essa revolta em organização. O capital não tem ouvidos para a poesia. Nós, sim.

Referências:

Guedes, Beto. "Amor de Índio" (faixa do álbum "Amor de Índio", 1978).

Santos, Theotônio dos. "Democracia e Socialismo no Capitalismo Dependente". Petrópolis: Vozes, 1991.

Marx, Karl. "Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844". São Paulo: Boitempo, 2004.

Para continuar a reflexão sobre a luta pelo tempo e organização dos trabalhadores, leia também: 6×1: Versos para uma possível sexta-folga - Poesia do trabalho e descanso.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

6×1: Versos para uma possível sexta-folga - Poesia do trabalho e descanso

6×1: Versos para uma possível sexta-folga

Por Walter Azevedo

Há uma imagem que circula nas redes, quase um poema involuntário da classe trabalhadora brasileira. É o print de uma conversa: o funcionário pergunta se pode chegar mais cedo na segunda, porque na sexta folgou e quer adiantar o serviço. O chefe responde, com a frieza de quem naturalizou o absurdo: "Pode não. Você já perdeu um sextou. O mês não vai se pagar sozinho." A piada é ácida porque revela a essência de um sistema que transformou o tempo de viver em tempo de produzir — e, de quebra, tornou a luta por descanso ilegalidade moral. A PEC 6×1 não é pauta menor. É a versão contemporânea da luta pelas oito horas. É o verso que falta na canção do trabalho.

O tempo como moeda roubada

A proposta da PEC 6×1 parece simples: um dia a mais de descanso na semana. Mas a aparência engana. Por trás dela, há uma contradição profunda entre o desenvolvimento das forças produtivas e a apropriação privada do tempo social. Nos últimos quarenta anos, automação, digitalização e inteligência artificial multiplicaram a capacidade produtiva. Uma máquina faz hoje o trabalho de três ou quatro pessoas. O resultado? Os lucros das grandes corporações bateram recordes — enquanto o trabalhador médio brasileiro continua preso a 44 horas semanais, com transporte, fila, dupla jornada doméstica e a sensação de que o fim de semana é um engodo.

Esse não é um desajuste técnico. É uma opção política. A classe do capital prefere acumular tempo ocioso sob forma de desemprego e superexploração a distribuir jornada. A PEC 6×1 não é concessão, mas retomada. Uma tentativa de recolocar a pergunta fundamental: a quem serve o tempo poupado pela tecnologia?

A esquerda navalha e a direita anestesia

Vejamos a reação dos setores empresariais. Fiesp e CNI soltaram notas técnicas alegando que a redução "elevaria custos" e "reduziria competitividade". O argumento repete a cantilena: o trabalhador precisa pagar a conta da própria produtividade. É a ética do tornar-se devedor do capital — conceito esmiuçado em Como Vencer na Grande Política. O patrão não deve horas de descanso ao empregado; este deve horas de trabalho ao patrão. O tempo vira dívida, e a dívida vira vigilância.

Há também um movimento tático da extrema direita, que tenta surfar a pauta com propostas mais agressivas — como a escala 7×0, que retira qualquer descanso semanal. Isso foi exposto no Blog do EngajArte: a proposta "alternativa" é um cavalo de Troia para aprofundar a precarização. Não há neutralidade na luta pelo tempo. Quem distrai com "soluções mais radicais" empurra a corda para o lado errado.

O que está em jogo não é só o dia, é a vida

Estudo da OIT indica que países com jornadas reduzidas têm maior produtividade por hora — Alemanha e Dinamarca são exemplos. No Brasil, os dados são mais gritantes: segundo a PNAD Contínua do IBGE, o trabalhador dedica em média 33,8 horas semanais ao trabalho remunerado (2024), mas esse número esconde a jornada real quando somado o deslocamento. Nas regiões metropolitanas, gasta-se de 3 a 5 horas diárias só no transporte. A soma chega a 55 ou 60 horas de compromisso com o capital por semana. O "tempo livre" é miragem.

O que está em jogo na PEC 6×1 não é apenas um dia de folga. É a possibilidade de a classe trabalhadora retomar o controle sobre o próprio tempo — de ter lazer, estudo, participação política, convivência familiar. De viver além da lógica do produzir para pagar dívidas.

A PEC não brota de uma canetada. Exige organização. O empresariado já articula contra-ofensiva com a PEC alternativa; a classe trabalhadora precisa se articular com seriedade. Sindicatos já pautam redução em convenções coletivas. O movimento metalúrgico do ABC negocia redução gradativa com manutenção salarial. Essas experiências mostram ser possível — e devem ser ampliadas.

O verso que ainda podemos cantar

A luta pela 6×1 é a luta por devolver à vida a dimensão que o trabalho roubou. Não se trata de romantizar o ócio, mas de reequilibrar a relação entre produzir e viver. A tecnologia está aí; o capital a usa para demitir, precarizar e controlar. A classe trabalhadora precisa disputá-la para reduzir a jornada, redistribuir o trabalho e permitir que todos — não apenas os herdeiros do capital — tenham tempo para cultura, política e afeto.

O verso da sexta-folga não é sonho distante. É possibilidade real, que depende de nossa organização, pressão e construção de correlação de forças. A PEC 6×1 é ponto de partida. A luta pela hegemonia do tempo sobre o capital é o horizonte.

Como escrevemos em post anterior, a conjuntura exige clareza: não há concessão que não venha da pressão organizada. A sexta-folga não cairá do céu; será conquistada. E quando chegar, não será apenas um dia a mais. Será a prova de que outra relação com o tempo é possível. E, portanto, outra vida.

Referências úteis

  • PNAD Contínua 2024 – IBGE. Dados sobre jornada de trabalho e deslocamento no Brasil.
  • Tendências Mundiais do Emprego 2025 – Organização Internacional do Trabalho (OIT). Análise sobre produtividade e tempo de trabalho.
  • Como Vencer na Grande Política (Walter Azevedo, Appris, 2023) – Parte 2, sobre ética do trabalho e tempo como campo de luta de classes.
  • Jornada de Trabalho e Produtividade na Indústria Brasileira (DIEESE, 2024) – Nota técnica sobre correlação entre carga horária e rendimento.