sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Superexploração e cuidado: luta das cuidadoras revela capital

A superexploração do trabalho de cuidado, historicamente feminilizado e racializado, sustenta a reprodução da força de trabalho, mas é tratada como resíduo pela ordem do capital, revelando a face dependente da acumulação no Brasil.

Principais pontos

  • O gesto cotidiano de cuidar sustenta silenciosamente a reprodução de toda forma de trabalho.
  • Menos de um terço das trabalhadoras domésticas no Brasil possui carteira assinada.
  • As cuidadoras que atuam sob vínculos informais continuam submetidas a jornadas que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias, sem adicional noturno, sem descanso semanal, sem proteção previdenciária.
  • Na formação social dependente, a superexploração da força de trabalho não é exceção, mas regra estrutural.

Superexploração e cuidado: a luta das cuidadoras revela a dependência estrutural do capital brasileiro

Por Walter Azevedo

As recentes mobilizações de cuidadoras de pessoas idosas, que paralisaram serviços em municípios de São Paulo e do Rio de Janeiro, trouxeram às ruas uma pergunta incômoda: por que o trabalho que sustenta a vida é tratado como resíduo da ordem do capital? A regulamentação da profissão, sancionada em 2024 pela Lei 14.990, não encerrou a disputa. Ao contrário, abriu novo capítulo de uma luta cujo núcleo é a superexploração do trabalho feminino e racializado. O gesto cotidiano de cuidar — alimentar, higienizar, acompanhar, medicar — sustenta silenciosamente a reprodução de toda forma de trabalho. Mas o reconhecimento formal dessa essencialidade esbarra na resistência patronal e na omissão do Estado, revelando a face dependente da acumulação no Brasil.

A regulamentação que não encerra a luta

A Lei 14.990/2024, que regulamenta a profissão de cuidador, foi recebida como vitória. De fato, o diploma legal é resultado de anos de pressão de sindicatos e coletivos. No entanto, a luta não se reduz à letra da lei. Menos de um terço das trabalhadoras domésticas no Brasil possui carteira assinada — um dado que atravessa gerações e não se altera por decreto. As cuidadoras que atuam sob vínculos informais continuam submetidas a jornadas que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias, sem adicional noturno, sem descanso semanal, sem proteção previdenciária. A remuneração média raramente se afasta de um salário mínimo. A regulamentação não enfrenta, portanto, a estrutura que produz essa precarização. Ela apenas a nomeia.

A contradição se aguça quando a classe do capital, que sempre apostou na invisibilidade do cuidado, agora se vê obrigada a disputar o sentido público dessa profissão. Projetos de lei que tentam excluir as cuidadoras do direito ao piso salarial da enfermagem, ou que fragmentam a categoria em subgrupos sem proteção, mostram que a burguesia compreende melhor a função estratégica do cuidado do que muitos discursos jurídicos.

O cuidado como trabalho essencial e a superexploração estrutural

O cuidado é condição de possibilidade de qualquer produção. Sem a reposição diária da força de trabalho — alimentação, repouso, saúde, afeto — não há extração de valor. Mas a economia política burguesa trata esse pressuposto como se fosse externo ao circuito produtivo. O trabalho de cuidado, historicamente feminilizado e racializado, aparece como dom natural, vocação, dever moral. Não por acaso: ao naturalizar o cuidado, a ordem do capital desobriga-se de remunerá-lo adequadamente.

Na formação social dependente, essa desvalorização assume forma extrema. Ruy Mauro Marini já demonstrou que a superexploração da força de trabalho — pela extensão da jornada, pela intensificação do ritmo e pela redução do valor pago abaixo do necessário — não é exceção, mas regra estrutural nos países subordinados. A transferência de excedente para os centros imperialistas impõe à burguesia interna a compensação pela compressão dos custos de reprodução da classe trabalhadora. As cuidadoras encarnam essa lógica com nitidez: seu trabalho não gera mais-valia diretamente, mas reduz o custo de reprodução da força de trabalho no conjunto da economia. Ao pagar salários aviltantes às cuidadoras, a classe do capital barateia o cuidado e, com isso, pode pagar menos a todos os demais trabalhadores. A precarização do cuidado não é disfunção. É mediação necessária da acumulação subordinada.

Dependência e a divisão racial e sexual do trabalho

A superexploração do cuidado tem cor e gênero. As trabalhadoras domésticas e cuidadoras no Brasil são, na amplíssima maioria, mulheres negras e periféricas. A herança escravista — que não é passado, mas relação social viva — organiza a hierarquia dos trabalhos: quem cuida de quem, em que condições e por qual preço. A informalidade que atinge menos de um terço das trabalhadoras domésticas com carteira assinada não é resquício de atraso; é a forma contemporânea de manter uma reserva de mão de obra dócil, sem direitos, disponível para o serviço das classes proprietárias e médias urbanas.

Essa divisão sexual e racial do trabalho é funcional ao capital financeirizado. A dependência brasileira se reproduz também dentro do lar: o cuidado barato permite que as famílias de renda média transfiram renda para o pagamento de juros, aluguéis e serviços privatizados — como mostramos ao tratar da especulação imobiliária e da transferência de renda do trabalho ao capital financeiro. O essencial é sacrificado para sustentar o supérfluo especulativo.

Da consciência espontânea à organização de classe

As mobilizações de cuidadoras expressam, no terreno imediato, a recusa à naturalização do sacrifício feminino. Quando uma cuidadora cruza os braços e reivindica piso salarial, ela desloca o cuidado do âmbito privado, afetivo, para o campo da luta de classes. Ela evidencia que a ternura tem custo, que a atenção tem jornada, que a vida tem preço. O patronato reage com desdém e repressão — e essa reação tem imenso valor pedagógico. Ela desmascara os interesses que se escondem por trás do discurso da "vocação". Ela mostra que a classe do capital nunca teve interesse em reconhecer o essencial; apenas em barateá-lo.

Referências

  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Lei nº 14.990, de 2024 — Regulamenta a profissão de cuidador.
  • Dados da Pnad Contínua sobre trabalho doméstico remunerado no Brasil.

Perguntas Frequentes

Por que o trabalho de cuidado é tratado como resíduo da ordem do capital?

Porque a economia política burguesa trata o cuidado como externo ao circuito produtivo, naturalizando-o como dom feminino e racializado, desobrigando o capital de remunerá-lo adequadamente.

A regulamentação da profissão de cuidador encerrou a luta por direitos?

Não. A Lei 14.990/2024 foi uma vitória formal, mas não enfrenta a estrutura que produz a precarização. Menos de um terço das trabalhadoras domésticas possui carteira assinada e a informalidade persiste com jornadas extenuantes e baixa remuneração.

Qual a relação entre superexploração e capitalismo dependente no Brasil?

Na formação social dependente, a superexploração da força de trabalho — por extensão da jornada, intensificação do ritmo e redução do valor pago abaixo do necessário — é regra estrutural, e o trabalho de cuidado desvalorizado é uma de suas formas extremas.

Como a classe do capital tenta disputar o sentido público da profissão de cuidador?

Por meio de projetos de lei que excluem as cuidadoras do direito ao piso salarial da enfermagem ou que fragmentam a categoria em subgrupos sem proteção, demonstrando compreensão estratégica da função do cuidado.

Quais são as condições reais de trabalho das cuidadoras informais no Brasil?

As cuidadoras informais enfrentam jornadas frequentemente superiores a 12 horas diárias, sem adicional noturno, sem descanso semanal, sem proteção previdenciária e com remuneração média próxima a um salário mínimo.

Bloqueio e soberania: US$ 8 bilhões em perdas e a resistência cubana

O relatório econômico detalha a sangria: US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano, expressão cifrada de um cerco que dura décadas, desenhado para asfixiar uma experiência de soberania que o imperialismo nunca tolerou.

Principais pontos

  • O bloqueio econômico, comercial e financeiro não é retaliação pontual; é estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações.
  • A dominação imperialista se desdobra em três frentes articuladas: financeira, comercial e tecnológica.
  • A resistência cubana não é apenas resposta defensiva; é práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva.
  • Cada dólar que deixa de circular em Cuba é um dólar que reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.

Bloqueio e soberania: os US$ 8 bilhões de perdas e a resistência cubana como trincheira da classe trabalhadora

Por Walter Azevedo

A mais recente votação na Assembleia Geral das Nações Unidas voltou a expor o isolamento da Casa Branca diante da rejeição mundial ao bloqueio contra Cuba. Enquanto a diplomacia contabiliza votos, um relatório econômico detalha a sangria: US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano. O número não é abstração contábil; é a expressão cifrada de um cerco que dura décadas, desenhado para asfixiar uma experiência de soberania que o imperialismo nunca tolerou. Precisamos desmontar os mecanismos por trás dessa cifra, porque a dominação imperialista é pedagógica: ensina, no corpo de um povo, o custo de romper com a subordinação.

Ao mesmo tempo, a resistência cubana não é apenas resposta defensiva; é práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva. Nosso olhar deve captar a dialética entre o bloqueio e a construção de um projeto nacional-popular que, mesmo sob cerco, mantém viva a possibilidade de alternativa à ordem do capital. Quem se recusa a enxergar essa totalidade repete o erro de tratar a economia cubana como caso isolado, quando ela é laboratório de lutas que envolvem a classe trabalhadora de todo o continente.

O bloqueio como mecanismo de dominação imperialista

O bloqueio econômico, comercial e financeiro não é retaliação pontual; é estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações, cada uma adicionando novas camadas de punição extraterritorial. O relatório dos US$ 8 bilhões anuais revela como o capital financeirizado utiliza sua posição dominante no sistema monetário internacional para estrangular qualquer formação social que tente escapar da dependência. Cada dólar que deixa de circular em Cuba é um dólar que reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.

Essa dominação se desdobra em três frentes articuladas. A financeira: bancos e instituições que negociam com Cuba são ameaçados de sanções, o que corta linhas de crédito, encarece importações e impede investimentos produtivos. A comercial: a proibição de exportar para o mercado estadunidense fecha um dos maiores mercados consumidores do mundo, enquanto a perseguição a navios e seguradoras eleva custos logísticos. A tecnológica: o embargo impede acesso a equipamentos médicos, componentes industriais e softwares essenciais, condenando a ilha a uma obsolescência planejada. Essas frentes formam uma mediação completa da dependência, similar à lógica que o arcabouço fiscal brasileiro aplica internamente, blindando a sangria rentista contra as necessidades populares.

“O imperialismo é a fase monopolista do capital, na qual a partilha do mundo entre as grandes potências assume a forma de luta pela redivisão do globo.” — V. I. Lênin, Imperialismo, fase superior do capitalismo

O dado de US$ 8 bilhões, lido isoladamente, parece apenas prejuízo econômico. Mas o prejuízo é instrumento: produz escassez de alimentos, medicamentos e combustível, que alimenta a insatisfação interna, instrumentalizada por setores da extrema direita para pressionar por restauração da ordem subordinada. A crise gerada pelo bloqueio não é efeito colateral indesejado; é o objetivo estratégico de derrubar a experiência cubana por dentro, sem invasão militar direta.

Superexploração e soberania: a dialética da resistência

Diante desse cerco, Cuba não é apenas vítima. A ilha responde com organização social que prioriza a universalidade de direitos, mesmo sob penúria artificial. A cada obstáculo imposto pelo imperialismo, o povo cubano reinventa formas de produção, distribuição e solidariedade que mantêm a soberania como princípio inegociável. A consciência de classe ali não é abstração teórica; é o cotidiano da luta por sobreviver sem aceitar a recolonização. Essa resistência é a negação prática da tese imperialista de que a subordinação é inevitável.

Mas essa resistência tem custos elevados, pagos diariamente pela classe trabalhadora cubana. O racionamento, as filas, a migração forçada de jovens em busca de trabalho: tudo isso é resultado direto do bloqueio, não de alegada ineficiência interna, como insiste a propaganda do capital. Aqui a dialética se torna dura: a soberania exige sacrifícios que, sem solidariedade internacional ativa, podem corroer as bases políticas do projeto. É nesse ponto que a esquerda do continente tem tarefa concreta: romper o isolamento imposto a Cuba e transformar a denúncia em ação material.

A superexploração da força de trabalho cubana, sob o cerco, funciona como espelho invertido da superexploração que o capital impõe nas periferias. Enquanto no Brasil e na América Latina os trabalhadores sofrem arrocho salarial e perda de direitos para alimentar a remessa de lucros ao centro, em Cuba o povo sustenta uma economia de resistência que compensa, com trabalho coletivo, a ausência de divisas bloqueadas. São duas faces da mesma luta de classes global: de um lado, a dependência como sangria; de outro, a dependência combatida com organização popular.

Solidariedade, única via de superação

Os US$ 8 bilhões de perdas não serão recuperados por apelos morais à Casa Branca. Nenhum governo estadunidense, de qualquer partido, abrirá mão do bloqueio enquanto Cuba representar ameaça simbólica e material ao domínio imperialista. A superação exige ação coletiva organizada: pressão diplomática dos países do Sul, comércio em moedas próprias, transferência de tecnologia médica e agroecológica, brigadas de solidariedade, denúncia ativa nos sindicatos e movimentos sociais. A esquerda brasileira, em particular, tem dívida histórica com a resistência cubana e precisa atuar para que o Estado brasileiro condene o bloqueio com consequências práticas, não apenas votos na ONU.

Referências para aprofundar a luta

  • MARX, Karl. O capital. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • LÊNIN, V. I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

Perguntas Frequentes

Quanto Cuba perde anualmente com o bloqueio econômico?

Segundo o relatório citado no texto, Cuba sofre US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano. Esse valor expressa o custo do cerco econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos desde 1962.

Quais são as principais frentes do bloqueio contra Cuba?

O texto identifica três frentes articuladas: a financeira, com ameaças de sanções a bancos e corte de crédito; a comercial, com proibição de exportar para o mercado estadunidense; e a tecnológica, com embargo a equipamentos médicos e softwares essenciais.

O bloqueio a Cuba é uma retaliação pontual?

Não. O autor afirma que o bloqueio é uma estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações dos Estados Unidos, cada uma adicionando novas camadas de punição extraterritorial.

Como o bloqueio se relaciona com a dominação imperialista?

O bloqueio utiliza a posição dominante no sistema monetário internacional para estrangular qualquer formação social que tente escapar da dependência. Cada dólar que deixa de circular em Cuba reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.

Qual é o papel da resistência cubana diante do bloqueio?

A resistência cubana é apresentada como práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva, mantendo viva a possibilidade de alternativa à ordem do capital mesmo sob cerco permanente.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Mortes em Ceuta revelam gestão imperialista das fronteiras

Os corpos na cerca de Ceuta são o resultado calculado de uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca entre Estados e em mão de obra descartável para o capital.

Principais pontos

  • A condição de ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos.
  • As mortes em Ceuta e Melilla são o custo contabilizado dessa logística de exploração.
  • A extrema direita converte a ansiedade social em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais.
  • Essa retórica fragmenta a classe trabalhadora, impedindo a solidariedade entre nativos e migrantes.

A gestão imperialista das fronteiras e a superexploração migrante: o que Ceuta ensina à classe trabalhadora

Por Walter Azevedo

Os corpos na cerca de Ceuta não são acidente. São o resultado calculado de uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca entre Estados e em mão de obra descartável para o capital. Em junho de 2022, ao menos 23 migrantes morreram tentando cruzar a fronteira de Melilla, enclave espanhol irmão de Ceuta no norte da África. Meses antes, em maio de 2021, cerca de 8 mil pessoas forçaram passagem em Ceuta num único dia. A resposta europeia foi dupla: repressão violenta e devolução sumária. A imagem desses corpos ecoa a repressão contra migrantes venezuelanos na fronteira norte do Brasil, onde a mesma lógica de gestão se repete. A contradição, porém, é mais profunda do que a brutalidade das imagens.

A cerca não é só arame: a fronteira como dispositivo de gestão da força de trabalho

A barreira física que separa Marrocos dos enclaves espanhóis opera como instrumento de mediação de interesses de classe. O capital europeu precisa de trabalho barato, mas também de segmentação e precarização. A condição de ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos. Nos campos de cultivo intensivo, na construção civil e nos serviços de cuidado, a presença de migrantes sem status legal funciona como rebaixador salarial. A Espanha, porta de entrada da União Europeia, tornou-se guardiã dessa ordenação. As mortes em Ceuta e Melilla são o custo contabilizado dessa logística de exploração.

Como escreveu Ruy Mauro Marini, a superexploração compensa a transferência de valor; no caso migrante, ela se manifesta na negação de direitos e na exposição à morte. Essa arquitetura de subordinação não é exclusiva das fronteiras externas. No Brasil, o acordo tarifário recente com os EUA repõe a mesma lógica de dependência, como analisamos aqui. A gestão imperialista das fronteiras articula-se com a gestão financeira da dívida e com a política de juros altos, que transferem renda do trabalho ao capital financeiro. A totalidade não admite fragmentação.

O medo como matéria-prima da extrema direita

A extrema direita não é um desvio moral; é uma força política que instrumenta o medo do migrante para consolidar projetos de classe. Ela converte a ansiedade social gerada pela crise do emprego e da moradia em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais: a financeirização, a especulação imobiliária, a precarização. O medo da “invasão” legitima políticas de exceção, o fortalecimento do aparato repressivo, a privatização de serviços e a redução de direitos trabalhistas. Essa retórica fragmenta a classe trabalhadora, impedindo a solidariedade entre nativos e migrantes. Enquanto isso, o capital se beneficia da divisão. O espetáculo de sofrimento na fronteira serve para justificar a repressão interna contra trabalhadores organizados.

O que está em disputa na fronteira não é apenas a circulação de pessoas, mas a correlação de forças entre trabalho e capital. A classe do capital opera em duas frentes: no Norte, precisa de mão de obra barata para setores intensivos; no Sul, precisa manter reservas de força de trabalho que pressionem os salários para baixo. A gestão imperialista das fronteiras garante ambos os movimentos: permite a entrada seletiva de trabalhadores vulneráveis e criminaliza a migração irregular para manter a ameaça permanente de deportação. As mortes em Ceuta são o sintoma brutal dessa mediação. A extrema direita amplia esse mecanismo ao transformar a morte em propaganda, o corpo migrante em ameaça existencial. No Brasil, a mesma tática aparece nas eleições, com o medo do “outro” mobilizado para vencer disputas, como discutimos nos limites da via eleitoral aqui.

Da gestão imperialista à práxis da classe trabalhadora

A superação dessa lógica não virá de apelos humanitários abstratos, mas de organização política. A classe trabalhadora precisa reconhecer no migrante um igual, parte da mesma classe global. A solidariedade internacional não é gesto moral; é necessidade estratégica para romper a chantagem da fronteira. Os sindicatos devem organizar migrantes, independentemente de status legal. Os movimentos populares precisam denunciar a cumplicidade dos Estados com a lógica do capital. A luta pela liberdade de circulação integra a luta contra a superexploração. Do mesmo modo que a dívida pública transfere renda do trabalho ao capital financeiro, como analisamos aqui, a gestão das fronteiras transfere a vida dos trabalhadores migrantes aos interesses das grandes corporações.

Que os corpos em Ceuta não sejam apenas contabilizados. Que se tornem ponto de partida para a organização. A classe trabalhadora brasileira, inserida na periferia do sistema, tem um papel: recusar a lógica da escassez e da fronteira. Construir, desde já, redes de solidariedade com trabalhadores migrantes que chegam ao país — venezuelanos, haitianos, bolivianos. Exigir políticas que garantam direitos, não muros. E compreender que a luta contra a gestão imperialista das fronteiras é a mesma luta contra o acordo tarifário subordinado, contra a dívida pública, contra a jornada exaustiva. A totalidade exige práxis.

Fontes citadas

  • Caminando Fronteras. Monitoramento do direito à vida na fronteira ocidental euro-africana (2022).
  • El País. Cobertura da tragédia na cerca de Melilla, junho de 2022.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: Subdesenvolvimento e revolução.

Perguntas Frequentes

O que as mortes em Ceuta revelam sobre a gestão de fronteiras?

Revelam uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca e mão de obra descartável, operando como dispositivo de mediação de interesses de classe do capital europeu.

Como a condição de ilegalidade afeta o trabalhador migrante?

A ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos, atuando como rebaixador salarial em setores como cultivo intensivo, construção civil e serviços de cuidado.

Qual é o papel da extrema direita na instrumentalização do medo?

A extrema direita converte a ansiedade social gerada pela crise do emprego e da moradia em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais como financeirização e especulação imobiliária.

Por que a retórica anti-imigrante fragmenta a classe trabalhadora?

Ela impede a solidariedade entre nativos e migrantes, direcionando o medo para o trabalhador migrante em vez das causas estruturais, enquanto o capital se beneficia da divisão.

Qual é a relação entre a superexploração migrante e a teoria de Ruy Mauro Marini?

Como escreveu Marini, a superexploração compensa a transferência de valor; no caso migrante, ela se manifesta na negação de direitos e na exposição à morte.

Punitivismo seletivo: classes populares, movimentos sociais e voto feminino

O encarceramento em massa é vendido como solução técnica para uma crise que é, antes de tudo, social; o voto feminino, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro, permanece subutilizado como força de transformação do sistema de justiça criminal.

Principais pontos

  • O Brasil abriga a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas privadas de liberdade; a maioria é negra, jovem e trabalhadora.
  • O número de mulheres presas cresceu mais de 600% em duas décadas — um retrato da seletividade que pune a pobreza e protege os rentistas da violência estatal.
  • A seletividade penal não é acidente: prende-se o pequeno varejista do tráfico, o furto famélico, o porte de droga para consumo; os crimes de colarinho branco seguem impunes.
  • O punitivismo não é um erro moral de legisladores desavisados; é uma política de classe que extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios e terceirização de serviços penitenciários.

Punitivismo seletivo: a guerra não declarada às classes populares e o voto feminino como trincheira

Por Walter Azevedo

As campanhas eleitorais se acercam e, com elas, a velha cantilena da segurança pública como moeda de troca. A bancada da bala cresce, o discurso do medo se espalha e o encarceramento em massa é vendido como solução técnica para uma crise que é, antes de tudo, social. O dado que escancara essa lógica: o Brasil abriga a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas privadas de liberdade. A maioria é negra, jovem e trabalhadora. O número de mulheres presas cresceu mais de 600% em duas décadas — um retrato da seletividade que pune a pobreza e protege os rentistas da violência estatal.

Enquanto isso, o voto feminino, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro, permanece subutilizado como força de transformação do sistema de justiça criminal. A contradição é flagrante: as mulheres são as principais vítimas indiretas do punitivismo — mães de presos, chefes de família abandonadas pelo Estado, alvos da criminalização do aborto —, mas as forças que disputam seu voto raramente enfrentam a raiz de classe dessa engrenagem.

O cárcere como gestão da miséria: o fenômeno por trás da cortina

A guerra às drogas, importada dos manuais repressivos do Norte, serve como pretexto para a ocupação militarizada das periferias. A seletividade penal não é acidente: prende-se o pequeno varejista do tráfico, o furto famélico, o porte de droga para consumo. Os crimes de colarinho branco, a sonegação bilionária e os desvios do fundo público seguem impunes ou resolvidos em acordos que devolvem migalhas. A judicialização da política, que já analisamos neste espaço, não é o único braço desse projeto. A prisão funciona como uma fábrica de condutas subalternas: disciplina a força de trabalho excedente, remove os indesejáveis do território urbano e alimenta a narrativa do medo que legitima a expansão do aparato repressivo.

Quem lucra com a vingança estatal? A anatomia de classe do punitivismo

O punitivismo não é um erro moral de legisladores desavisados; é uma política de classe. O capital financeirizado extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios, terceirização de serviços penitenciários e venda de equipamentos de segurança. A lógica da dependência impõe que o Brasil replique as políticas penais racistas do império. Os gerentes locais dessa ordem — a fração rentista da burguesia e seus operadores no Judiciário e no Congresso — lucram com a atmosfera de caos permanente, que justifica cortes de direitos e o desvio do orçamento público das políticas sociais para a repressão. A caça ao PCC patrocinada pela Casa Branca, que expusemos recentemente, é a expressão mais acabada dessa articulação interimperialista que criminaliza movimentos sociais e constrange a esquerda.

Alternativas que brotam do chão: a práxis dos movimentos sociais

Mas a história não termina na engrenagem. Os territórios periféricos vêm construindo, na contramão do Estado punitivo, outras formas de responsabilização e cuidado. A justiça restaurativa, aplicada por coletivos e núcleos comunitários, devolve o conflito à comunidade, em vez de entregá-lo à máquina do encarceramento. As audiências de custódia, quando efetivas, impedem a prisão provisória arbitrária e a tortura. A descriminalização do porte de drogas, defendida por movimentos como a Frente pelo Desencarceramento, reduz o principal vetor do hiperencarceramento. Redes de mães, como as Mães de Maio, transformam a dor em organização política, exigindo verdade e justiça fora da lógica da vingança estatal. Essas experiências permanecem marginais enquanto a correlação de forças não for alterada.

O voto feminino como trincheira de ruptura

Nesse cenário, o voto feminino emerge como força estratégica da classe trabalhadora. As mulheres compõem a maioria do eleitorado e são as mais atingidas pela crise do encarceramento: sustentam famílias de presos, percorrem longas distâncias para visitas vexatórias, sofrem com a violência doméstica que o Estado não combate e com a criminalização do aborto que as condena à clandestinidade. Ao eleger candidaturas comprometidas com a desmilitarização das polícias, com a descriminalização das drogas e com a justiça restaurativa, o voto feminino pressiona a superfície da política para que as alternativas dos movimentos sociais entrem na agenda institucional. Não se trata de esperar que o parlamento salve a classe trabalhadora, mas de usar todas as trincheiras — a rua, o sindicato, o voto — para deslocar a hegemonia do punitivismo, como já apontamos na luta de classes na campanha de Lula.

A tarefa histórica é clara: avançar da denúncia à construção de um projeto nacional-popular que inverta a lógica do encarceramento. O voto feminino, articulado à organização comunitária, é um passo nessa direção. Não há neutralidade possível: ou se fortalece o aparato repressivo que gerencia a pobreza, ou se constrói uma sociabilidade baseada no cuidado e na responsabilização coletiva. A classe trabalhadora, em sua maioria feminina, tem a palavra — e as mãos.

Referências

  • Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), dados de 2023.
  • Rede de Justiça Criminal. Alternativas ao encarceramento: experiências e desafios. 2023.
  • Tribunal Superior Eleitoral. Eleitorado feminino nas eleições de 2022: 52% do total.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Vozes, 1973.
  • Documento do movimento Mães de Maio. Disponível em: [link].

Perguntas Frequentes

O que é punitivismo seletivo e como ele afeta as classes populares no Brasil?

É a lógica que criminaliza preferencialmente a pobreza, prendendo pequenos varejistas do tráfico, furtos famélicos e porte de drogas para consumo, enquanto crimes de colarinho branco permanecem impunes. A maioria da população carcerária brasileira é negra, jovem e trabalhadora.

Quais são as alternativas construídas por movimentos sociais ao punitivismo?

O texto aponta que o voto feminino, representando mais da metade do eleitorado, é uma força subutilizada para transformar o sistema de justiça criminal. Os movimentos sociais enfrentam a raiz de classe da engrenagem punitiva, em vez de aceitar a narrativa do medo e a expansão do aparato repressivo.

Por que o voto feminino é importante no combate ao punitivismo?

As mulheres são as principais vítimas indiretas do punitivismo — mães de presos, chefes de família abandonadas pelo Estado, alvos da criminalização do aborto. Seu voto, porém, raramente é disputado por forças que enfrentam a raiz de classe dessa engrenagem.

Quem lucra economicamente com o encarceramento em massa?

O capital financeirizado extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios, terceirização de serviços penitenciários e venda de equipamentos de segurança. A fração rentista da burguesia e seus operadores no Judiciário e Congresso lucram com a atmosfera de caos permanente.

Qual é a relação entre a guerra às drogas e a seletividade penal?

A guerra às drogas serve como pretexto para a ocupação militarizada das periferias. A prisão funciona como fábrica de condutas subalternas: disciplina a força de trabalho excedente, remove os indesejáveis do território urbano e legitima a expansão do aparato repressivo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Arcabouço fiscal: blindagem jurídica garante sangria rentista

O arcabouço fiscal não é apenas uma regra contábil, mas uma arquitetura jurídica que entrega o orçamento público aos credores financeiros, sob o pretexto de organizar as contas.

Principais pontos

  • O arcabouço fiscal limita despesas primárias a 70% da variação real da receita, mas deixa os juros da dívida fora de qualquer limite.
  • Com força de lei complementar, o regime fiscal só pode ser alterado por outra lei complementar, funcionando como camisa de força para governos que priorizem os de baixo.
  • A blindagem jurídica esconde um projeto de classe que sequestra o orçamento público sob o disfarce de 'responsabilidade fiscal'.
  • O mecanismo aumenta a parcela destinada aos credores, fazendo a classe trabalhadora pagar duas vezes: com arrocho dos serviços públicos e tributos sobre o consumo.

A jaula fiscal e o direito do rentista: o arcabouço como blindagem jurídica da sangria

Por Walter Azevedo

No plenário do Congresso, a aprovação do novo arcabouço fiscal transcorreu com a pressa de quem silencia o alarme de incêndio. Enquanto a Faria Lima comemorava e o noticiário econômico repetia o mantra da "responsabilidade", o Tesouro Nacional já programava novos leilões de títulos para honrar compromissos que não passam por nenhuma votação popular. O arcabouço não é apenas uma regra contábil. É uma arquitetura jurídica que entrega o orçamento público aos credores financeiros, sob o pretexto de organizar as contas. Nossa classe precisa enxergar o que se esconde por trás dessa fachada de neutralidade técnica.

O novo regime fiscal: uma armadilha com aparência de racionalidade

O arcabouço aprovado estabelece que as despesas primárias só podem crescer 70% da variação real da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% ao ano. Os investimentos públicos ficam engessados, mas os juros da dívida seguem fora de qualquer limite. Essa assimetria não nasceu por acaso. Ela reproduz a lógica de uma formação social dependente, na qual a prioridade do Estado é remunerar a classe rentista antes de financiar escola, hospital ou transporte. A conta é simples: menos recursos para o povo, mais sobra para o andar de cima. Quem acompanha a história do teto de gastos, aprovado em 2016, reconhece o mesmo roteiro: primeiro congelam-se os direitos, depois abre-se a porteira para o rentismo. A diferença é que agora a blindagem ficou ainda mais sofisticada.

A blindagem jurídica como mediação de classe

O regime fiscal tem força de lei complementar. Só outra lei complementar pode alterá-lo. Em um parlamento dominado pela bancada do agronegócio, das armas e do mercado financeiro, essa blindagem funciona como uma camisa de força para qualquer governo que ouse priorizar os de baixo. A constituição, que deveria ser um escudo, vira uma gaiola que protege os de cima. A mediação jurídica é a forma que a classe do capital encontrou para naturalizar a extração de riqueza: o texto legal parece neutro, mas carrega uma correlação de forças brutalmente desigual. Discutimos lógica parecida no Acordo tarifário Brasil-EUA, quando a subordinação veio disfarçada de negociação. Aqui, o disfarce é outro: a "responsabilidade fiscal" esconde um projeto de classe que sequestra o orçamento público.

A sangria rentista: o coração do mecanismo

Quando o Estado limita os gastos sociais, mas libera os juros, ele organiza uma transferência sistemática do trabalho para o capital financeirizado. O arcabouço, assim como o antigo teto de gastos, não reduz a dívida: aumenta a parcela destinada aos credores. A classe trabalhadora paga duas vezes — com o arrocho dos serviços públicos e com os tributos que incidem sobre o consumo. O orçamento federal vira um duto que conecta a senzala à casa-grande, para lembrar a metáfora de nossa formação social. Nenhuma assembleia popular delibera sobre essa sangria; ela é decidida nos gabinetes do Banco Central e nos contratos de dívida. Para entender a mecânica dessa transferência, vale reler nossa análise sobre Dívida pública e juros altos. Enquanto o salário mínimo é debatido em centavos, os juros reais brasileiros seguem entre os mais altos do mundo — uma escolha política, não uma fatalidade econômica.

Soberania popular: a vítima silenciosa

A soberania não é abstração. Ela se materializa na capacidade de a população decidir onde alocar os recursos que produz. Cada cidadão que depende do SUS, da escola pública ou da aposentadoria sente a asfixia quando o orçamento é capturado pelo rentismo. O arcabouço fecha as portas para um projeto nacional-popular, ao impedir investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia, e ao dificultar a ampliação de direitos. A luta pela soberania exige desmontar essa blindagem jurídica e realizar uma auditoria popular da dívida. Como alertamos no post sobre Esquerda na América Latina: limites da via eleitoral, as instituições não bastam quando os interesses do povo ficam de fora da sala de decisão. A soberania, aqui, significa retomar o controle sobre o orçamento, não apenas sobre o voto.

Organizar para romper a jaula

Não há saída individual. A correlação de forças que aprovou o arcabouço só será revertida com organização política da classe trabalhadora. Exigir uma auditoria cidadã da dívida, lutar por uma lei de responsabilidade fiscal que priorize os direitos sociais e construir um projeto nacional-popular com soberania real são tarefas urgentes. Em Como Vencer na Grande Política, sustento que a consciência de classe não nasce da indignação moral, mas da compreensão de que a exploração tem nome, endereço e instrumentos jurídicos. O arcabouço é um desses instrumentos. Rompê-lo não é gesto contábil: é ato de soberania. A classe trabalhadora já demonstrou, em outras batalhas, que não aceita ser tratada como variável de ajuste. Esta luta é também uma luta pela memória: a cada geração, a oligarquia tenta reescrever as regras do jogo a seu favor. Cabe a nós não aceitar o jogo.

Referências:

  • Lei Complementar nº 200/2023 — institui o regime fiscal sustentável.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Auditoria Cidadã da Dívida — análises sobre o gasto com juros e a blindagem constitucional.

Perguntas Frequentes

O que é o novo arcabouço fiscal?

É um regime aprovado pelo Congresso que limita o crescimento das despesas primárias a 70% da variação real da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% ao ano, deixando os juros da dívida fora de qualquer limite.

Como o arcabouço fiscal representa uma blindagem jurídica?

Por ter força de lei complementar, o arcabouço só pode ser alterado por outra lei complementar, o que, em um parlamento dominado por bancadas do agronegócio, armas e mercado financeiro, funciona como uma camisa de força para governos que priorizem os de baixo.

Por que o texto chama a sangria de 'rentista'?

Porque o Estado limita gastos sociais mas libera os juros, organizando uma transferência sistemática do trabalho para o capital financeirizado, sem reduzir a dívida e aumentando a parcela destinada aos credores.

Qual é a relação entre o arcabouço fiscal e a soberania popular?

O arcabouço asfixia a soberania popular ao retirar do debate democrático as prioridades orçamentárias, entregando o orçamento público aos credores financeiros sem nenhuma votação popular sobre esses compromissos.

O arcabouço fiscal reduz a dívida pública?

Segundo o texto, não. Assim como o antigo teto de gastos, o arcabouço não reduz a dívida, mas aumenta a parcela destinada aos credores, fazendo a classe trabalhadora pagar duas vezes pelo arrocho e pelos tributos.

Judicialização da política: contradições do Estado e estratégia da esquerda

A judicialização da política é uma solução ilusória que esvazia o debate público, desmobiliza a participação popular e mascara as verdadeiras correlações de forças, revelando as profundas contradições de um Estado que opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.

Principais pontos

  • A transferência de decisões políticas para o Judiciário esvazia o debate público e desmobiliza a participação popular.
  • O Judiciário, sob aparência de neutralidade, opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.
  • A forma jurídica não é neutra, mas mediação das relações materiais de produção, sujeita a pressões de classe e interesses econômicos dominantes.
  • Há uma sobrerrepresentação de grandes corporações e do setor financeiro nos tribunais superiores, em contraste com a sub-representação das pautas populares.

Formalismo Legal e Contradições do Estado: A Urgência de uma Estratégia para Nossa Classe

Por Walter Azevedo

Recentemente, assistimos a uma série de impasses políticos que, invariavelmente, encontram seu desfecho ou paralisia nas instâncias judiciais. A disputa em torno do chamado “Marco Temporal” para demarcação de terras indígenas é um exemplo eloquente. O que deveria ser um debate fundamentalmente político, expressão da soberania nacional e da reparação histórica de povos originários, é remetido à última palavra do Supremo Tribunal Federal. Esse fenômeno não é um desvio pontual; revela uma das mais profundas contradições de nossa formação social: a crescente judicialização da política e o caráter estrutural de um Estado que, sob aparência de neutralidade, opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.

A Miragem da Imparcialidade e a Paralisia Democrática

A judicialização da política manifesta-se como uma espécie de "solução" para impasses que a via legislativa ou executiva não consegue resolver, ou não tem interesse em enfrentar. No entanto, essa "solução" é uma miragem. Ao transferir decisões de alto teor político para o Judiciário, esvaziamos o debate público, desmobilizamos a participação popular e mascaramos as verdadeiras correlações de forças por trás de cada processo. Vemos uma oligarquia política e econômica que, ao invés de construir consenso ou enfrentar o confronto democrático, prefere buscar a chancela judicial para legitimar seus projetos, muitas vezes antinacionais e antipopulares. Este mecanismo tem sido um entrave à concretização de um projeto nacional-popular, subordinando as demandas de nossa classe trabalhadora a interpretações jurídicas que raramente questionam a ordem estabelecida.

Este não é um problema novo. Desde a redemocratização, observamos uma tendência de empoderamento do Judiciário, que se apresenta como guardião da Constituição e da ordem. Contudo, como nos ensina a dialética, a forma jurídica, longe de ser neutra, é mediação das relações materiais de produção. O Judiciário, com sua estrutura e seus membros, não está imune às pressões de classe, aos interesses de grupos econômicos e às influências ideológicas dominantes. Não podemos esquecer que a maior parte das ações que chegam ao STF com relevância política têm, em suas origens, disputas envolvendo grandes corporações, latifúndios, ou a defesa de privilégios que beneficiam diretamente a classe dominante. Dados da Fundação Getúlio Vargas mostram que empresas de grande porte e o setor financeiro estão sobrerrepresentados como partes em processos que ascendem aos tribunais superiores, em contraste com a sub-representação das pautas populares.

O Judiciário como Arena da Luta de Classes

Para compreendermos o que está por trás da superfície, é crucial desvelar o caráter do Estado brasileiro e sua relação com a judicialização. Nosso Estado, inserido em uma formação social de dependência estrutural, como analisado por Ruy Mauro Marini e Theotônio dos Santos, é um Estado que serve aos interesses do capital financeirizado e do imperialismo, mesmo quando ostenta discursos de soberania. A pauta do "Marco Temporal" ilustra isso perfeitamente: ela opõe a garantia dos direitos originários dos povos indígenas — que significa a manutenção de vastas áreas de terras para preservação ambiental e reprodução de modos de vida comunitários — aos interesses do agronegócio exportador e da mineração, pilares da nossa subordinação econômica. O Judiciário, ao arbitrar essa disputa, não atua em um vácuo, mas dentro de uma institucionalidade moldada historicamente para proteger a propriedade privada e a acumulação de capital.

Essa dinâmica não se restringe a grandes temas. Ela se manifesta no cotidiano, na criminalização dos movimentos sociais, na repressão a greves e ocupações, na morosidade em julgar crimes de colarinho branco e na agilidade em punir a pobreza. A luta de classes não se dá apenas nas fábricas ou nas ruas, mas também nos gabinetes dos tribunais, onde se decidem os limites da ação popular e se valida a expropriação de direitos. Em "Como Vencer na Grande Política", argumentamos que a teoria é ferramenta de luta e que a compreensão da natureza do Estado é o primeiro passo para a formulação de uma estratégia eficaz. Ignorar o caráter de classe do Judiciário é armar o inimigo com nossa própria ingenuidade.

Construindo a Hegemonia Popular: Para Além da Judicialização

Diante desse cenário, a esquerda precisa urgentemente de uma estratégia que vá além da mera contestação jurídica ou da esperança em decisões favoráveis. É preciso reconhecer que a via judicial, embora por vezes necessária como tática de contenção, não é o caminho para a construção de um projeto nacional-popular e anticapitalista. A verdadeira superação reside na organização, na politização e na mobilização da classe trabalhadora e de seus aliados. Nossa luta deve ser por construir uma nova correlação de forças na sociedade, capaz de impor seus interesses no legislativo, no executivo e, por extensão, influenciar o próprio caráter do Estado.

Perguntas Frequentes

O que é a judicialização da política?

É a transferência de decisões de alto teor político para as instâncias judiciais, funcionando como uma aparente solução para impasses que o Legislativo e o Executivo não resolvem. Na prática, esvazia o debate democrático e desmobiliza a participação popular.

Por que a judicialização da política é um problema para a esquerda?

Porque mascarar as correlações de forças e subordinar demandas populares a interpretações jurídicas que raramente questionam a ordem estabelecida impede a construção de um projeto nacional-popular e a efetiva concretização dos interesses da classe trabalhadora.

O Judiciário brasileiro é neutro nas disputas políticas?

Não. O texto argumenta que o Judiciário não está imune às pressões de classe, aos interesses de grupos econômicos e às influências ideológicas dominantes, sendo a forma jurídica uma mediação das relações materiais de produção.

Quais são as contradições do Estado brasileiro destacadas no texto?

O Estado brasileiro opera sob aparência de neutralidade, mas funciona como arena privilegiada dos interesses da classe do capital. Dados citados mostram sobrerrepresentação de grandes corporações e do setor financeiro em processos nos tribunais superiores.

Qual é a urgência de uma estratégia para a esquerda diante da judicialização?

A esquerda precisa denunciar a miragem da imparcialidade judicial e reverter a paralisia democrática, resgatando o debate público e a participação popular para que demandas da classe trabalhadora não fiquem subordinadas a interpretações jurídicas que preservam privilégios.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Caça ao PCC: autorização da Casa Branca é luta interimperialista e criminaliza a esquerda

A autorização da Casa Branca para atuar contra supostas redes do PCC esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

Principais pontos

  • A caça ao PCC serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente.
  • A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta.
  • O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.
  • A anatomia é a mesma da Operação Condor, apenas o rótulo muda: agora, em vez de 'subversivos', são 'membros do PCC'.

Interimperialismo e criminalização: a caça ao PCC como arma contra a esquerda e a resposta soberana

Por Walter Azevedo

A Casa Branca autorizou, nos últimos dias, a atuação direta de agências norte-americanas contra supostas redes do Primeiro Comando da Capital em território brasileiro. O pretexto oficial é o combate ao tráfico internacional. A máscara é fina: esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

A máscara da “caça ao PCC” e a disputa interimperialista

Não é a primeira vez que o combate ao crime organizado serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente. A Doutrina Monroe, a Aliança para o Progresso e a Operação Condor ensinam que a política de segurança hemisférica sempre buscou subordinar os Estados latino-americanos ao comando de Washington. Com o aprofundamento da crise do modo de produção e a ascensão de novos polos de acumulação, a disputa entre frações do capital transnacional se acirra. A China amplia investimentos em infraestrutura e tecnologia na região; o capital financeirizado sediado nos EUA responde com militarização e sanções seletivas.

Ao transformar o PCC em alvo prioritário, a Casa Branca cria precedentes para intervenções unilaterais e constrange o Estado brasileiro a adotar protocolos que ferem a soberania nacional. A lógica é a mesma descrita por Lênin em Imperialismo, fase superior do capital: a exportação de capitais e a partilha do mundo entre trustes exigem instrumentos políticos e militares de contenção. Aqui, a classe dominante interna — dependente e associada — aplaude a chegada das agências estrangeiras, pois vê nelas um aliado para reprimir as camadas populares que ameaçam a ordem.

Criminalização dos movimentos populares e constrangimento eleitoral

A categoria “organização criminosa” perdeu seus contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores, coletivos de luta por moradia e até centros de formação política. Quando a lista de sanções da Casa Branca inclui nomes de lideranças comunitárias, pastores de rua e advogados populares, não estamos diante de um erro de alvo, mas de uma tática deliberada. O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.

Lembremos que a Operação Condor, nas décadas de 1970 e 1980, utilizou a cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda, acusados de “subversão”. A anatomia é a mesma, apenas o rótulo muda: agora, em vez de “subversivos”, são “membros do PCC”. A imprensa concentrada, controlada por meia dúzia de famílias rentistas, reproduz a narrativa do “narcoterrorismo” sem questionar a origem dos dados nem os interesses por trás. Enquanto entidades comunitárias recebem a pecha de “narcoterroristas”, grupos paramilitares de extrema direita e milícias que controlam territórios no Rio de Janeiro jamais receberam a mesma classificação por Washington. A seletividade revela a função política da lista.

Para a nossa classe, o recado é claro: qualquer organização que ouse questionar a financeirização, a especulação imobiliária ou a superexploração será marcada como cúmplice do crime. Não é por acaso que as sanções atingem territórios periféricos onde a esquerda constrói bases. A mensagem subliminar é a de que quem defende reforma agrária, teto de juros ou redução da jornada é aliado do tráfico. Essa associação espúria constrange dirigentes partidários e sindicais, empurrando a esquerda institucional para a defensiva e esvaziando a autonomia das bases.

Soberania como trincheira: tática de resistência

Diante dessa ofensiva, a defesa da soberania nacional deixa de ser um bordão abstrato e se torna condição material para a luta de classes. Precisamos rejeitar qualquer acordo que autorize a atuação direta de agências estrangeiras em nosso território, exigir que toda cooperação passe pelo crivo do Congresso e pelos tratados internacionais, e denunciar o uso político das listas de sanções. A subordinação financeira que drena nossa riqueza para o capital rentista se expressa também na esfera policial: quem aceita a ingerência econômica aceita a ingerência repressiva.

Nossa tática de resistência soberana passa por três eixos:

  • Desmascarar a narrativa: mostrar que a “caça ao PCC” é uma cortina de fumaça para a militarização da América do Sul e para o constrangimento da esquerda. Cada sanção deve ser exposta como ato de agressão econômica e política.
  • Fortalecer a organização de base: multiplicar comitês de defesa da soberania nos bairros, sindicatos e universidades, articulando as lutas por moradia, trabalho e educação com a denúncia da ingerência imperialista.
  • Pressionar o Estado brasileiro: a classe trabalhadora deve exigir que o governo não se curve a Washington, rejeitando a inclusão de entidades populares em listas estrangeiras e cobrando reciprocidade diplomática.

Como já insisti em Como Vencer na Grande Política, a soberania não é um valor abstrato: ela é a capacidade de um povo definir os rumos da sua formação social. Sem soberania, não há projeto nacional-popular. E sem organização de classe, não há soberania. A luta contra a criminalização dos movimentos populares é a mesma luta contra o capital financeirizado e sua face bélica.

“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” — Karl Marx, Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores

A autorização da Casa Branca não é um episódio isolado. Ela se insere na ofensiva interimperialista para recolonizar a América Latina e esmagar qualquer experiência de resistência. Nossa resposta não pode ser apenas jurídica ou eleitoral: tem que ser política, de massas e internacionalista. Que as eleições de 2026 não nos distraiam da trincheira principal: a defesa intransigente da soberania, hoje ameaçada pela Casa Branca e por seus capatazes locais. Sigamos em luta. A história não espera.

Perguntas Frequentes

O que a autorização da Casa Branca contra o PCC realmente esconde?

Esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026, conforme aponta o texto.

Como a caça ao PCC pode criminalizar movimentos populares?

A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e passou a incluir cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta, transformando lideranças comunitárias e advogados populares em alvos deliberados.

Qual é o paralelo histórico citado no texto?

O texto compara a atual ofensiva à Operação Condor, que nas décadas de 1970 e 1980 usou cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda acusados de 'subversão'.

Por que a esquerda é alvo dessa ofensiva?

O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.

Qual tática de resistência soberana o texto aponta?

O texto não detalha uma tática explícita no trecho analisado, mas aponta a necessidade de reconhecer a máscara da caça ao PCC como instrumento de subordinação e de responder com resistência à intervenção unilateral que fere a soberania nacional.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Luta de classes na campanha de Lula: passado esconde rendição

O contraste entre a evocação do passado de lutas e as alianças atuais de Lula com o capital financeiro e o agronegócio não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

Principais pontos

  • A memória das lutas históricas, isolada da prática presente, torna-se fetiche e instrumento de desmobilização.
  • A campanha sela acordos com o alto comando do capital, incluindo partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade.
  • A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros acima de 13% ao ano e orçamento sequestrado pelo serviço da dívida.
  • A soberania nacional é trocada por acordos comerciais como o tarifário com os EUA, que aprofundam a subordinação estrutural ao imperialismo.

O passado como escudo e a rendição presente: a disputa de classes na campanha de Lula

Por Walter Azevedo

Nos comícios de 2026, as telas exibem metalúrgicos em greve no ABC, assembleias lotadas, embates contra a repressão. Lula sobe ao palco e evoca a coragem daqueles tempos, arrancando aplausos. Poucos metros abaixo, sentam-se representantes do sistema financeiro, do agronegócio e de grupos que ontem apoiaram o esfacelamento da CLT. Esse contraste não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

O espetáculo da memória

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das lutas históricas. Documentários, vídeos com imagens das greves de 1978-1980, discursos que remetem à criação do PT. Essa evocação tem função mobilizadora: reacender a identidade de classe dos trabalhadores. Mas a memória, isolada da prática presente, torna-se fetiche. Não basta lembrar que já fomos explorados e lutamos; é preciso ver o que se faz hoje com as mãos que antes empunhavam bandeiras.

A nostalgia é um véu poderoso. Ela oferece um passado heroico como consolo diante de um presente de derrotas simbólicas e materiais. Enquanto as telas mostram operários de macacão, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem a manutenção do arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos. A memória vira instrumento de desmobilização: se já lutamos, por que lutar de novo?

A rendição ao capital financeiro

O contraste é brutal. Enquanto os comícios exaltam o passado de combatividade, a campanha sela acordos com o alto comando do capital. A composição de alianças inclui partidos que apoiaram o golpe e hoje barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros que ultrapassam 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida — como analisamos em nossa crítica à dívida pública — e a manutenção das metas fiscais impostas pelo mercado. Quase metade dos trabalhadores brasileiros permanece na informalidade, sem proteção social, enquanto o capital financeiro drena recursos do Estado.

Isso não é apenas realismo eleitoral; é capitulação diante da classe do capital e do imperialismo. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que reforçam a dependência, como o acordo tarifário com os EUA, que aprofunda a subordinação estrutural. A campanha opera dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece, sem ousar desafiá-los.

A disputa de classes desnudada

A evocação do passado serve, nesse contexto, como escudo ideológico. Ela oculta o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio. Há um cálculo político: mobilizar a base para garantir votos, mas também sinalizar previsibilidade ao mercado para garantir financiamento e espaço na mídia. Resultado: um discurso duplo que desarma a classe trabalhadora, fazendo-a crer que a luta pelo passado garante o futuro, enquanto as estruturas de exploração permanecem intactas.

Os fatores em jogo são claros. De um lado, a pressão do capital financeirizado por juros altos e cortes em direitos sociais. De outro, a aliança com setores que jamais aceitaram a participação popular no orçamento. A correlação de forças pende para o capital, e a campanha se adapta a essa geometria. A contradição é totalizante: a mesma figura que evoca greves históricas negocia com quem as combateu. A mediação necessária — a organização autônoma dos trabalhadores — é empurrada para segundo plano.

Organizar para superar

A saída não está em rejeitar a memória, mas em submetê-la à crítica da práxis. O passado de lutas só tem sentido se orientar a ação presente rumo à superação da ordem vigente. Isso exige organização política independente, construção de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a sangria financeira, e não se contente com gestos simbólicos. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, as classes sociais se enfrentam no terreno da política concreta; a consciência de classe se forja na luta, não na contemplação do passado.

Precisamos retomar as bandeiras históricas sem aceitar a capitulação: reforma agrária, auditoria da dívida, soberania tecnológica e redução da jornada de trabalho, como apontamos em nossa análise sobre a jornada. A classe trabalhadora não pode se contentar com a memória como fetiche; é preciso transformar a lembrança em programa de luta.

Referências

Perguntas Frequentes

Como a evocação do passado de lutas esconde a capitulação presente?

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das greves e da criação do PT para reacender a identidade de classe, mas essa memória isolada da prática presente torna-se fetiche. Enquanto as telas mostram operários em luta, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem o arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos.

Quais alianças revelam a rendição de Lula ao capital financeiro?

A campanha sela acordos com partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida mantém juros acima de 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida e metas fiscais impostas pelo mercado, sem romper com a lógica rentista.

Qual é o papel da memória na campanha de Lula?

A memória das greves de 1978-1980 e da criação do PT tem função mobilizadora, mas isolada da prática presente torna-se fetiche. A nostalgia oferece um passado heroico como consolo diante de derrotas simbólicas e materiais, transformando a memória em instrumento de desmobilização da classe trabalhadora.

Como o acordo tarifário com os EUA aprofunda a subordinação?

O acordo tarifário com os EUA reforça a dependência estrutural do Brasil. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que aprofundam a subordinação ao imperialismo, operando dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece.

O que a disputa de classes na campanha de Lula evidencia?

A disputa de classes fica evidente no contraste entre os comícios que exaltam o passado de combatividade e as alianças com o sistema financeiro e o agronegócio. A evocação do passado serve como escudo ideológico para ocultar o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio.