sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Curral digital: como o WhatsApp reproduz o coronelismo e despolitiza a pauta

O curral digital é a velha prática coronelista reencarnada nas plataformas: controla o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum, mantendo a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.

Principais pontos

  • O curral digital controla o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum.
  • A classe do capital constrói ferramentas para manter a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.
  • A despolitização é a forma que a classe do capital encontra para esvaziar o conteúdo de classe das reivindicações populares.
  • No curral digital, a mercadoria é a atenção, e o preço é a consciência.

Curral digital e coronelismo de algoritmo: a cooptação pelo WhatsApp e a despolitização da pauta popular

Por Walter Azevedo

A disputa eleitoral brasileira trocou a carroça pelo chip. Nas periferias, candidatos montam redes de grupos no WhatsApp com nomes como “Amigos do bairro” ou “Moradores unidos”. O administrador não é mais o cabo eleitoral que oferecia dentaduras e remédios. É um operador de listas de transmissão, dono de um curral digital onde a fala é controlada e as pautas populares se dissolvem em memes, áudios de pânico e promessas de asfalto.

Esse fenômeno não é novidade tecnológica. É a velha prática coronelista reencarnada nas plataformas. No passado, o coronel mandava nos votos porque controlava terra, água e favores. Hoje, o curral digital controla o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum. A estrutura de dominação permanece: a classe do capital constrói ferramentas para manter a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.

O curral digital não é menos curral que o curral eleitoral

O Brasil ultrapassa 140 milhões de contas ativas no WhatsApp. A maioria acessa diariamente por meio de celulares pré-pagos e planos que priorizam o aplicativo em detrimento de outros serviços de internet. Essa arquitetura cria dependência concreta: a classe trabalhadora está conectada, mas restrita a um ecossistema controlado por uma única empresa. O coronelismo digital se apropria exatamente dessa restrição.

Nos grupos de bairro, quem detém a chave de administrador define o que circula. Fazendas de bots, listas de transmissão compradas e agências clandestinas operam com anuência de candidatos financiados pelo capital. Mensagens sobre “aumento de impostos” ou “ameaça de invasão” circulam sem lastro com a realidade, enquanto as contradições reais — precarização do trabalho, desmonte do SUS, abandono das escolas — desaparecem da tela. Como já discutimos na análise da erosão institucional neoliberal, a política é transformada em mercadoria. No curral digital, a mercadoria é a atenção, e o preço é a consciência.

Despolitização da pauta e a mediação do algoritmo

A despolitização não é acidente. É a forma que a classe do capital encontra para esvaziar o conteúdo de classe das reivindicações populares. Quando a demanda por moradia vira sorteio de cesta básica, quando a luta por creche vira mutirão de reforma, quando a crítica ao preço do gás é substituída por vídeos de humor, a pauta popular perde sua dimensão estrutural. O algoritmo do WhatsApp, que privilegia o encaminhamento rápido e o conteúdo apelativo, faz esse trabalho silenciosamente.

Marx, no 18 de Brumário, explicou como uma classe sem organização política precisa de um representante externo para falar por ela. O curral digital aprofunda essa fragmentação: cada usuário é um átomo isolado, recebendo mensagens prontas, sem arena coletiva para formular sua própria pauta. Aí está a mediação: o capital financeirizado oferece a ferramenta, a oligarquia local a administra, e o trabalhador consome o que lhe é entregue.

O escândalo das fake news em 2018, com disparos em massa financiados por empresários, mostrou a face mais visível dessa prática. Em 2022 e 2024, a mesma engenharia se sofisticou com listas de transmissão pagas. O curral digital é o principal palanque, e a despolitização é o seu programa. A plataforma não é neutra: o WhatsApp pertence à Meta, empresa do capital financeirizado que monetiza dados e atenção. Essa exploração se articula à dependência tecnológica que tratamos em outro artigo sobre dependência e planejamento democrático. A soberania dos dados não existe.

Organizar a consciência diante da tela

Não se trata de abandonar o WhatsApp. Seria ingenuidade pedir que a classe trabalhadora prescinda da ferramenta que usa para sobreviver. A tarefa é outra: ocupar o espaço digital com organização real, não com consumo passivo. Comitês de bairro, sindicatos e movimentos populares precisam construir suas próprias redes, com modelos de comunicação que eduquem, apresentem contradições e não se limitem ao repasse de conteúdo pasteurizado.

A superação do curral digital exige a retomada da mediação política como construção coletiva. A classe trabalhadora não precisa de um coronel digital que fale por ela. Precisa de instrumentos próprios, assembleias presenciais, formação política, redes autônomas que disputem a narrativa. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia se disputa onde a classe vive, trabalha e se informa. Hoje, ela vive e se informa no WhatsApp. A luta começa aí.

Ao final, o curral digital só se quebra com práxis coletiva: transformar o grupo de bairro em espaço de mobilização, o encaminhamento de denúncia em instrumento de pressão, a pauta popular em programa político. Fora disso, resta a ilusão de que a tecnologia emancipa — quando, na verdade, apenas reorganiza a dominação.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. In: Escritos de Sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2005.
  • MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

Perguntas Frequentes

O que é o curral digital?

O curral digital é a prática coronelista reencarnada nas plataformas digitais, especialmente no WhatsApp, onde administradores de grupos controlam o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum nas periferias, mantendo a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.

Como o WhatsApp contribui para a despolitização da pauta popular?

O algoritmo do WhatsApp privilegia o encaminhamento rápido e o conteúdo apelativo, substituindo demandas estruturais por memes, áudios de pânico e promessas imediatas. Assim, a pauta popular perde sua dimensão estrutural e o conteúdo de classe é esvaziado.

Qual a relação entre o curral digital e o coronelismo tradicional?

No passado, o coronel controlava votos por meio de terra, água e favores. Hoje, o curral digital controla o fluxo de informação e o senso comum. A estrutura de dominação permanece: a classe do capital mantém a classe trabalhadora fragmentada.

Quem opera o curral digital nas eleições?

Candidatos financiados pelo capital montam redes de grupos no WhatsApp, operados por administradores que usam fazendas de bots, listas de transmissão compradas e agências clandestinas para controlar o que circula e definir a pauta dos grupos de bairro.

Por que a despolitização não é acidental?

A despolitização é a forma que a classe do capital encontra para esvaziar o conteúdo de classe das reivindicações populares. Quando demandas como moradia e creche viram sorteios e mutirões, a crítica estrutural desaparece e a política é transformada em mercadoria.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Petrodólar em colapso e Oriente Médio: disputa interimperialista

A crise do petrodólar e os conflitos no Oriente Médio expressam a luta de classes em escala planetária, mediada por Estados que disputam controle das rotas, da energia e do trabalho alheio.

Principais pontos

  • O petrodólar nasceu em 1974 quando Washington selou com a Arábia Saudita um acordo que transformou o dólar na moeda obrigatória para o comércio de petróleo.
  • A fatia do dólar nas reservas cambiais globais caiu de cerca de 70% para perto de 58% nas últimas duas décadas.
  • Os conflitos no Oriente Médio são a expressão geopolítica da disputa interimperialista, não irracionalidade religiosa ou ódio ancestral.
  • Enquanto a potência declinante recorre à força bruta, a potência ascendente aposta na integração econômica.

Petrodólar em colapso e o Oriente Médio em chamas: a disputa interimperialista e as frestas da revolução

Por Walter Azevedo

Um petroleiro incendiado no Mar Vermelho. A cotação do barril disparando nas bolsas de Londres e Nova York. Enquanto isso, em Moscou, Pequim e Riade, assinam-se acordos para liquidar petróleo em moedas locais. Esses não são fenômenos isolados. São batidas de um coração em descompasso: o sistema monetário que sustentou a hegemonia do dólar desde os anos 1970 começa a rachar. Nossa classe precisa ler essas fissuras com método. A crise do petrodólar não é uma abstração financeira; é luta de classes em escala planetária, mediada por Estados e frações do capital que disputam o controle das rotas, da energia e do trabalho alheio.

O petrodólar sob cerco

Em 1974, Washington selou com a Arábia Saudita um acordo que transformou o dólar na moeda obrigatória para o comércio de petróleo. Ali nasceu o petrodólar. A partir desse momento, qualquer país que quisesse importar energia precisava acumular reservas em dólar. Esse mecanismo garantiu aos Estados Unidos o privilégio de emitir moeda sem lastro, financiar déficits e impor sanções com o simples toque de uma tecla. O que era um arranjo de conveniência virou a espinha dorsal da dominação imperialista. Hoje, porém, a base desse edifício treme. A China, maior importadora de petróleo do mundo, passou a negociar contratos de longo prazo em renminbi. A Rússia, sob sanções, redirecionou metade de seu comércio energético para o Oriente, liquidado em moedas próprias. A Arábia Saudita, aliada histórica de Washington, sinaliza abertura para o yuan. Conforme dados do FMI, a fatia do dólar nas reservas cambiais globais caiu de cerca de 70% para perto de 58% nas últimas duas décadas. Cada ponto percentual perdido representa menos espaço para a chantagem imperial e mais margem para a formação de um mundo multipolar.

Oriente Médio: território da disputa

Os conflitos no Oriente Médio não são irracionalidade religiosa ou ódio ancestral. São a expressão geopolítica dessa disputa interimperialista. Cada míssil disparado no Golfo Pérsico, cada drone abatido no Estreito de Ormuz, cada bloqueio naval no Mar Vermelho carrega uma determinação material: controlar o fluxo de petróleo e gás que alimenta as forças produtivas do planeta. Os Estados Unidos mantêm bases militares do Catar ao Bahrein, não por vocação civilizatória, mas para assegurar a subordinação da região ao dólar e aos interesses do capital financeirizado. A China, por sua vez, desloca investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia para os países do Golfo, oferecendo uma alternativa de financiamento sem as condicionalidades draconianas do Fundo Monetário. A contradição é clara: enquanto a potência declinante recorre à força bruta, a potência ascendente aposta na integração econômica. Nós, da classe trabalhadora, não temos motivo para aplaudir nenhum dos projetos de dominação. Mas temos obrigação de compreender que a crise do petrodólar enfraquece exatamente o polo que historicamente lidera o saque à periferia.

China, dependência e as mediações brasileiras

No Brasil, essa disputa atravessa diretamente nossa formação social. A burguesia associada ao imperialismo não hesita em transferir para os trabalhadores o custo da instabilidade cambial. A cada oscilação do dólar, o preço do botijão de gás e da gasolina sobe, enquanto a oligarquia financeira lucra com a especulação. A dependência tecnológica se aprofunda quando a mesma burguesia entrega terras raras ao capital estrangeiro, como abordamos em outra análise deste blog. A disputa entre Estados Unidos e China não nos redime; ela nos recoloca na condição de objeto. Mas também nos ensina que a construção de um projeto nacional-popular exige planejamento democrático e controle soberano sobre nossas riquezas, como discutimos sobre dependência tecnológica. Sem essa mediação, continuaremos sendo moeda de troca no xadrez das potências.

Frestas para a práxis revolucionária

Toda crise do bloco dominante abre possibilidades históricas. A pergunta que não cala: o que faremos com as frestas abertas pela crise do petrodólar? A resposta não está na contemplação. Está na organização. O capital financeirizado não desmonta seu império por decreto. Ele se recompõe, se rearticula, busca novos instrumentos. Nossa tarefa é construir consciência de classe e hegemonia a partir das contradições reais. Isso exige compreender a totalidade, identificar os elos mais fracos da cadeia imperialista e investir na formação política do povo trabalhador. Como desenvolvi em Como Vencer na Grande Política, a correlação de forças não é um dado estático; é uma construção cotidiana. A crise do dólar, a guerra no Oriente Médio e a ascensão chinesa criam um cenário de transição mundial. Que ele não seja apenas assistido, mas disputado por nós. A classe que produz a riqueza não pode assistir passivamente à disputa pelo comando de sua exploração.

O caminho passa pela base

As lutas imediatas da classe trabalhadora brasileira — contra os juros altos, pela tarifa zero, pela soberania sobre terras raras — não estão separadas dessa disputa global. Elas são, na verdade, expressões locais da mesma contradição. Por isso, a organização nos territórios, nas fábricas, nos sindicatos e nos movimentos populares é o ponto de partida insubstituível. A autogestão popular demonstra que a classe trabalhadora sabe se organizar quando o Estado a abandona. Agora precisamos dar a esse acúmulo um salto de qualidade: articular as lutas locais a um projeto nacional-popular soberano, capaz de disputar a riqueza produzida pelo nosso trabalho e de romper com a subordinação ao imperialismo. A história não espera. A crise do petrodólar é uma janela. Cabe a nós empurrar a porta.

Conforme dados do FMI sobre reservas cambiais, do Banco de Compensações Internacionais (BIS) sobre comércio em moedas locais e dos relatórios da UNCTAD sobre fluxos comerciais China-países do Golfo, o processo de desdolarização é real e mensurável. A disputa interimperialista já não é teoria. É o chão que pisamos.

Perguntas Frequentes

O que é o petrodólar?

É o sistema criado em 1974, quando os EUA e a Arábia Saudita firmaram acordo que tornou o dólar a moeda obrigatória no comércio de petróleo. Esse mecanismo garante aos Estados Unidos emitir moeda sem lastro, financiar déficits e impor sanções, sendo a espinha dorsal da dominação imperialista.

Por que a crise do petrodólar representa uma fissura no domínio americano?

Porque a China passou a negociar petróleo em renminbi, a Rússia redirecionou seu comércio energético em moedas próprias e a Arábia Saudita sinaliza abertura ao yuan. A queda da fatia do dólar nas reservas globais reduz o espaço para chantagem imperial e amplia a margem para um mundo multipolar.

Qual é a relação entre conflitos no Oriente Médio e a disputa interimperialista?

Os conflitos não são irracionalidade religiosa ou ódio ancestral, mas a expressão geopolítica da disputa pelo controle do fluxo de petróleo e gás que alimenta as forças produtivas do planeta. Cada míssil, drone ou bloqueio naval carrega a determinação material de controlar rotas e energia.

Como EUA e China diferem na atuação sobre o Oriente Médio?

Os Estados Unidos mantêm bases militares do Catar ao Bahrein para assegurar a subordinação da região ao dólar e ao capital financeirizado. A China desloca investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia aos países do Golfo, oferecendo financiamento sem as condicionalidades do FMI.

O que a crise do petrodólar abre para a classe trabalhadora?

Abre frestas para a ação revolucionária ao expor as fissuras no sistema monetário que sustenta a hegemonia do dólar. A classe trabalhadora não deve aplaudir nenhum dos projetos de dominação, mas ler essas fissuras com método para intervir na luta de classes em escala planetária.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Milícia e parlamento: o braço armado da acumulação urbana e a impunidade

A milícia é um poder territorial que articula violência privada, controle de serviços e proteção eleitoral — um braço armado das frações locais da classe do capital; no parlamento encontra a blindagem que a perpetua.

Principais pontos

  • A milícia ocupa o lugar que o Estado abandona, e no parlamento encontra a blindagem que a perpetua.
  • Enquanto jovens pretos das favelas são abatidos sem direito a defesa, chefes milicianos se entregam a advogados caros. A diferença não é jurídica: é de classe.
  • Se a milícia administra o chão, o parlamento administra a impunidade. Não é corrupção episódica: é articulação estrutural entre mandatos e poder armado.
  • A CPI das Milícias de 2008 indiciou 226 pessoas, entre vereadores, policiais e ex-policiais. Poucos foram condenados.

Milícia e parlamento: o braço armado da acumulação urbana e a engenharia da impunidade

Por Walter Azevedo

A entrega de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, à Polícia Federal em dezembro de 2023, com direito a negociação cuidadosa e preservação de parte de sua estrutura, escancarou o que as manchetes insistem em tratar como crime organizado comum. Não se trata de uma quadrilha fora do sistema. Trata-se de um poder territorial que articula violência privada, controle de serviços e proteção eleitoral — um braço armado das frações locais da classe do capital. Enquanto jovens pretos das favelas são abatidos sem direito a defesa, chefes milicianos se entregam a advogados caros. A diferença não é jurídica: é de classe. A milícia ocupa o lugar que o Estado abandona, e no parlamento encontra a blindagem que a perpetua.

Milícia: gestão armada da escassez

Para quem enxerga apenas a superfície, a milícia parece uma anomalia da segurança pública. A análise histórica revela outra coisa. Sua gênese remonta à decomposição do aparato repressivo herdado da ditadura: policiais, bombeiros e agentes penitenciários que privatizaram a coerção aprendida nos quartéis. Não por acaso, a Zona Oeste do Rio, fronteira de expansão do capital imobiliário, virou seu território privilegiado. Ali, a milícia se antecipa ao Estado na delimitação de ruas, na oferta de água clandestina, na mediação de conflitos de posse. Ela cobra taxas, vende gás, internet, transporte alternativo e, acima de tudo, controla o mercado da terra.

O fenômeno é uma expressão concreta da luta de classes. O tráfico se organiza em torno da mercadoria ilícita; a milícia se assenta na forma lícita de extração de renda fundiária. A cada loteamento irregular, a cada ritual de "regularização" imposto a famílias expulsas de suas casas, o capital imobiliário reduz custos de urbanização usando a arma como mediadora. A CPI das Milícias de 2008, realizada pela Assembleia Legislativa do Rio, indiciou 226 pessoas, entre vereadores, policiais e ex-policiais. Poucos foram condenados. O relatório final mostrou como as milícias controlavam bairros inteiros, mas o sistema político tratou de arquivar suas conclusões.

O parlamento como blindagem jurídica

Se a milícia administra o chão, o parlamento administra a impunidade. Não é corrupção episódica: é articulação estrutural entre mandatos e poder armado. As investigações sobre as "rachadinhas" no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro expuseram a ligação entre o miliciano Adriano da Nóbrega e o ex-assessor Fabrício Queiroz. Documentos, depoimentos e movimentações bancárias mostraram como parte dos salários desviados alimentava a estrutura paralela. O assassinato de Marielle Franco completa o quadro. Os irmãos Brazão, apontados como mandantes, construíram carreiras no TCE-RJ e na política local à sombra de alianças com milícias. Seis anos de impunidade não foram incompetência. Foram engenharia política.

"O poder político é o poder organizado de uma classe para oprimir outra." — Karl Marx e Friedrich Engels

A cada crise, a bancada da bala reage como o que é: uma fração do poder que usa o parlamento para vetar CPIs, aprovar leis que dificultam a cassação de mandatos e pressionar o judiciário. A denúncia sobre isenções fiscais que favorecem os mesmos grupos que financiam campanhas já revelou o caráter de classe do Estado — e o silêncio diante das milícias é a face armada desse mesmo projeto. A erosão institucional não é acidente. Ela é condição para que a violência privada floresça sem punição, enquanto o discurso oficial criminaliza apenas o varejo do tráfico.

Organizar o território para romper a impunidade

A resposta a essa dupla violência não pode ser moralista nem puramente policial. A repressão seletiva não desmonta a milícia: ela a criminaliza, mas não toca nas relações fundiárias e parlamentares que a sustentam. Onde o povo se organiza em conselhos de moradores, associações de bairro e comitês de luta, o poder miliciano perde terreno. A autogestão popular não é paliativo assistencialista. É a construção de um poder popular que disputa o território e os serviços com o braço armado do capital.

A esquerda precisa combinar três frentes. Primeiro, denunciar sem trégua a articulação entre mandato e miliciano, expondo nomes, contratos e votações. Segundo, construir redes comunitárias de proteção e informação que quebrem o monopólio da milícia sobre a vida cotidiana. Terceiro, exigir políticas públicas que garantam água, transporte e moradia fora da lógica da violência. A luta pela verdade e pela justiça social, como mostrado na discussão sobre censura e isenções fiscais, é indissociável da luta pelo território. Sem organização de base, a denúncia parlamentar vira espetáculo e a milícia se reproduz.

Quebrar a blindagem exige força coletiva

Zinho se entregou porque a prisão apareceu como opção segura diante da correlação de forças. A rendição negociada não foi derrota do braço armado; foi reorganização. Enquanto o parlamento continuar blindando seus pares, a milícia continuará renascendo sob novos nomes. Cabe à classe trabalhadora não esperar que o Estado faça o que ele jamais fará: desmontar o poder que o sustenta.

Que cada bairro, cada associação, cada sindicato construa comitês de defesa popular e de memória política. Não basta denunciar. É preciso retomar o território, conquistar os serviços essenciais e deslegitimar os mandatos que vivem da violência. A impunidade não é só jurídica: é uma trincheira da acumulação. E trincheira se rompe com organização, não com aplausos a operações espetaculares.

Para conhecer os dados citados: Relatório Final da CPI das Milícias (ALERJ, 2008); Mapa dos Grupos Armados do Rio (Fogo Cruzado/UFF, 2022); documentos da investigação do caso Marielle Franco (Polícia Federal/MPF); e reportagens sobre as rachadinhas de Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz (Coaf/MP-RJ).

Perguntas Frequentes

O que a entrega de Zinho à Polícia Federal revelou sobre a natureza das milícias?

A negociação cuidadosa e a preservação de parte de sua estrutura mostraram que não se trata de crime organizado comum, mas de um poder territorial que articula violência privada, controle de serviços e proteção eleitoral.

Qual é a diferença de tratamento entre jovens pretos das favelas e chefes milicianos?

Jovens pretos das favelas são abatidos sem direito a defesa, enquanto chefes milicianos se entregam a advogados caros. A diferença não é jurídica: é de classe.

Como a milícia se diferencia do tráfico de drogas na análise apresentada?

O tráfico se organiza em torno da mercadoria ilícita; a milícia se assenta na forma lícita de extração de renda fundiária, reduzindo custos de urbanização do capital imobiliário usando a arma como mediadora.

Qual foi o resultado prático da CPI das Milícias de 2008?

A CPI indiciou 226 pessoas, entre vereadores, policiais e ex-policiais, mas poucos foram condenados. O sistema político tratou de arquivar as conclusões do relatório.

Como o parlamento atua na perpetuação da impunidade das milícias?

O parlamento administra a impunidade por meio de articulação estrutural entre mandatos e poder armado, como evidenciado pelas ligações entre o miliciano Adriano da Nóbrega e o esquema de 'rachadinhas' no gabinete de Flávio Bolsonaro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Terras raras: como a burguesia entrega a soberania ao imperialismo

O leilão de áreas ricas em terras raras no Brasil é a expressão mineral da subordinação que atravessa nossa formação social: a burguesia interna aceita exportar terra barata para importar tecnologia cara, transferindo o controle de um ativo soberano ao capital imperialista.

Principais pontos

  • As terras raras são a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta.
  • A burguesia brasileira, sócia menor do imperialismo, contenta-se com as migalhas dos royalties.
  • O Estado brasileiro, capturado pelas frações financeirizadas, converte-se em balcão de negócios.
  • A burguesia interna não tem projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas e prefere a renda fácil da mineração.

Terras raras, soberania e luta de classes: a burguesia interna entrega o subsolo ao imperialismo

Por Walter Azevedo

O recente anúncio de licitação de áreas ricas em terras raras no Brasil não é um fato administrativo qualquer. É a expressão mineral da subordinação que atravessa nossa formação social. Enquanto o discurso governamental celebra a “autonomia estratégica”, a classe do capital interno acelera a entrega do subsolo a mineradoras transnacionais, com a cumplicidade de quem lucra com a intermediação e a renda fundiária. A cena é grave: sob o pretexto da modernização, escancara-se a velha lógica dependente que nos condena a exportar terra barata para importar tecnologia cara.

As terras raras não são um detalhe técnico. São a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta. Quem detém o controle da extração e, sobretudo, do refino desses minerais decide as condições da transição energética e da segurança nacional. Por isso, o imperialismo disputa cada jazida como quem disputa um posto avançado de guerra. E a burguesia brasileira, sócia menor nesse jogo, contenta-se com as migalhas dos royalties.

O leilão do subsolo como política de classe

O leilão de áreas estratégicas, anunciado com alarde, oferece contratos de pesquisa e lavra a consórcios liderados por capitais estrangeiros. As promessas de “investimentos bilionários” e “geração de empregos” encobrem o essencial: a transferência de controle sobre um ativo soberano. O Estado brasileiro, capturado pelas frações financeirizadas, converte-se em balcão de negócios. Garante segurança jurídica ao capital externo, flexibiliza licenciamento ambiental e reprime a resistência de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas que vivem sobre esses territórios. A luta de classes aparece aí sem mediações: de um lado, a coalizão entre burguesia interna e imperialismo; de outro, a população expropriada e superexplorada.

Não se trata de um acidente. Como analisei no artigo sobre dependência tecnológica e planejamento democrático, a divisão internacional do trabalho reserva ao Brasil o papel de fornecedor de matérias-primas brutas. A burguesia interna aceita essa posição porque sua taxa de lucro não depende da industrialização, mas da exportação primária e da especulação com terras e royalties. Ela não tem projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas. Prefere a renda fácil da mineração à construção de uma cadeia de refino e de uma indústria de alta intensidade tecnológica. Por isso, o subsolo vira moeda de troca.

A mediação imperialista da escassez

Os dados são contundentes: a China controla cerca de 60% da produção mundial de terras raras e mais de 85% da capacidade de refino. O Brasil possui a terceira maior reserva do planeta, estimada em dezenas de milhões de toneladas, mas exporta minério bruto sem dominar a etapa de beneficiamento. Essa assimetria não nasceu ontem. É a materialização da dependência descrita por Ruy Mauro Marini: a superexploração da força de trabalho e a transferência de valor para o centro, agora sob a forma de minerais estratégicos. Quem refina, agrega valor e define preços. Quem exporta pó de terra, apenas transfere riqueza.

Ao associar-se ao capital imperialista na exploração de terras raras, a burguesia brasileira aprofunda seu próprio rebaixamento. Ela até amplia sua renda imediata — royalties, participações acionárias, contratos de logística —, mas torna estrutural a subordinação tecnológica. Perde-se a chance de construir uma cadeia produtiva soberana, com pesquisa nacional, engenharia reversa, formação de técnicos próprios e integração latino-americana para quebrar o monopólio de refino. Em vez disso, renova-se o ciclo primário-exportador que condena a classe trabalhadora ao desemprego crônico e aos baixos salários nas minas. A ironia fina da história: quanto mais terras raras o Brasil entrega, mais pobre fica em soberania.

Soberania como projeto de classe

A soberania não é um slogan para discursos de campanha. É um projeto concreto de organização das forças produtivas sob direção da classe trabalhadora. Exige:

  • Controle público e social das reservas minerais estratégicas, com veto a privatizações e a contratos lesivos;
  • Criação de uma empresa estatal de mineração e refino de terras raras, com tecnologia nacional e participação operária na gestão;
  • Articulação latino-americana para romper o monopólio de refino, integrando cadeias produtivas regionais, como propõe a autogestão popular;
  • Revogação do marco legal que facilita a exploração estrangeira e aprovação de uma lei de mineração soberana, com consulta prévia, livre e informada aos povos originários.

Essa disputa não se resolve dentro do mercado. Ela exige correlação de forças favorável ao campo popular. Significa ocupar as ruas, denunciar o entreguismo parlamentar, construir greves na mineração e organizar comitês territoriais de defesa do subsolo. A luta pelas terras raras é a luta pela soberania nacional, e a soberania nacional é uma trincheira na guerra de classes contra o imperialismo. Como escrevi em Soberania em disputa, o capital nacional jamais se separará do imperialismo por vontade própria: apenas a pressão organizada da classe trabalhadora pode impor outro rumo.

O subsolo brasileiro é um campo de batalha. Quem o controla, controla o futuro da indústria, da energia e da defesa. Deixar as terras raras nas mãos da burguesia associada é aceitar a condição de quintal mineral do império. Por isso, nossa tarefa é dupla: construir a consciência de classe sobre o que está em jogo e avançar na organização política que transforme a mineração em bem comum, sob controle operário e a serviço do projeto nacional-popular. A história não perdoa os que dormem sobre a riqueza alheia.

Referências:

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
  • Serviço Geológico dos EUA. Mineral Commodity Summaries (dados de reservas e produção de terras raras, 2025).
  • Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Análises sobre dependência tecnológica e divisão internacional do trabalho.

Perguntas Frequentes

Por que as terras raras são estratégicas para a soberania nacional?

Porque são a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta. Quem controla extração e refino decide as condições da transição energética e da segurança nacional.

Como a burguesia brasileira participa da entrega do subsolo ao capital estrangeiro?

A burguesia interna aceita o papel de fornecedor de matérias-primas brutas porque sua taxa de lucro depende da exportação primária e da especulação com terras e royalties, contentando-se com as migalhas.

O que o leilão de áreas de terras raras representa na análise do autor?

Representa a expressão mineral da subordinação: o Estado converte-se em balcão de negócios, garante segurança jurídica ao capital externo e reprime a resistência de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas.

Qual é a posição do Brasil no mercado mundial de terras raras?

O Brasil possui a terceira maior reserva do planeta, mas a China controla cerca de 60% da produção mundial e mais de 85% da capacidade de refino, o que evidencia a disputa imperialista por cada jazida.

Qual é a consequência da falta de refino no Brasil, segundo o texto?

Sem cadeia de refino e indústria de alta intensidade tecnológica, o Brasil fica condenado a exportar terra barata e importar tecnologia cara, perpetuando a lógica dependente.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Dependência tecnológica e planejamento democrático no Brasil

A dependência tecnológica opera como uma fechadura cuja chave nunca esteve conosco, funcionando como o normal de uma formação social dependente inserida na divisão internacional do trabalho. O planejamento democrático surge como arma anti-imperialista ao recolocar a totalidade no centro e disputar a direção das forças produtivas.

Principais pontos

  • O estrangulamento das cadeias produtivas não é falha logística, mas o funcionamento normal de uma formação social dependente.
  • A dependência tecnológica opera como uma fechadura cuja chave nunca esteve conosco.
  • Enquanto Taiwan e Coreia do Sul destinam mais de 3% do PIB à pesquisa e desenvolvimento, o Brasil patina em torno de 1,2% — e a maior parte disso vem de estatais.
  • Falar em planejamento democrático, no contexto brasileiro, não é nostalgia desenvolvimentista, mas disputar a direção das forças produtivas.

Dependência tecnológica e planejamento democrático: a trincheira anti-imperialista no Brasil

Por Walter Azevedo

A recente crise nos preços de componentes eletrônicos, que encareceu desde tratores agrícolas até equipamentos hospitalares no Brasil, expõe uma ferida que o debate público insiste em tratar como acidente de percurso. O estrangulamento das cadeias produtivas, sentido no atraso de colheitas e na fila por respiradores, não é falha logística. É o funcionamento normal de uma formação social dependente, inserida na divisão internacional do trabalho como fornecedora de commodities e consumidora de tecnologia alheia. O Instituto Tricontinental vem sistematizando essa chave de leitura para a periferia. Cabe a nós traduzi-la para o caso brasileiro.

A fechadura que não abrimos

Quando uma montadora alemã anuncia que vai produzir carros elétricos no Brasil com baterias importadas da China, parte da imprensa celebra empregos. O que não se diz é que a decisão sobre o que produzir, com qual tecnologia e para qual mercado continua em Munique ou Xangai. A dependência tecnológica opera como uma fechadura cuja chave nunca esteve conosco. O capital local, associado ao capital financeirizado internacional, lucra com a intermediação — comissões, royalties, juros, remessas. Não tem interesse estrutural em romper a condição subordinada. Pelo contrário, alimenta-se dela.

O exemplo dos semicondutores é revelador. Enquanto Taiwan e Coreia do Sul destinam mais de 3% do PIB à pesquisa e desenvolvimento, o Brasil patina em torno de 1,2% — e a maior parte disso vem de estatais. A diferença não é acaso nem falta de “vocação”. É projeto de classe. A oligarquia que controla o Estado brasileiro optou por um modelo primário-exportador, cuja rentabilidade imediata dispensa a formação de engenheiros, a criação de parques tecnológicos próprios ou a soberania sobre dados e algoritmos.

O que o planejamento democrático desloca

Falar em planejamento democrático, no contexto brasileiro, não é nostalgia desenvolvimentista. É disputar a direção das forças produtivas. Quem define a pauta de investimentos, os critérios de financiamento e as prioridades de pesquisa define também o tipo de sociedade que se constrói. Hoje, essas decisões estão privatizadas: são tomadas em conselhos de administração, em fundos de investimento, em acordos de acionistas. A classe trabalhadora é chamada apenas para arcar com os custos — demissões em massa, precarização, desmonte das universidades.

Um plano nacional-popular, ao contrário, recoloca a totalidade no centro. Em vez de aceitar a “vocação agrícola” como destino, pergunta: que ciência e que técnica servem à soberania alimentar, à transição energética, ao complexo industrial da saúde? A resposta exige mediações concretas: fundo público destinado à inovação, compras governamentais orientadas para a produção local, controle social sobre os bancos públicos e estatais. Não se trata de substituir o mercado pela burocracia, mas de subordiná-lo a um projeto coletivo.

A arma anti-imperialista

O imperialismo contemporâneo não se sustenta apenas em bases militares e sanções. Sustenta-se no monopólio do conhecimento. As patentes farmacêuticas, os softwares proprietários, os padrões de conectividade e os serviços em nuvem funcionam como cercas invisíveis que mantêm nações inteiras reféns. Durante a pandemia, vimos a lógica com nitidez: enquanto os laboratórios centrais retinham as fórmulas das vacinas, os países periféricos imploravam por doses. A Índia e a África do Sul propuseram a quebra das patentes — a resposta foi um bloqueio coordenado pelas potências centrais.

Por isso o planejamento democrático é, simultaneamente, instrumento de desenvolvimento e arma anti-imperialista. Ele rompe a mediação que transforma a técnica em mercadoria exclusiva. Quando uma estatal brasileira desenvolve tecnologia própria para exploração em águas profundas ou para produção de imunobiológicos, ela não está apenas gerando empregos. Está reduzindo a margem de chantagem do capital transnacional. Está devolvendo à coletividade o controle sobre os meios de vida.

Essa perspectiva exige organização política. Nenhum plano se impõe pelo convencimento de técnicos esclarecidos. Ele nasce da pressão organizada de sindicatos, movimentos populares, universidades e mandatos comprometidos com a soberania. A memória da autogestão popular como resposta à omissão do poder público é, aqui, um ensaio do que pode vir a ser um planejamento enraizado nas necessidades concretas. Não se parte do escritório para o território; parte-se do território para o escritório, e o território não esquece sua história de luta.

Os que falam de soberania sem tocar na propriedade dos meios de produção, incluindo os meios de produção do conhecimento, estão declamando poesia para banqueiros.

Construir a chave

A tarefa imediata é dupla. De um lado, desmascarar o discurso da modernização subordinada — aquilo que se apresenta como “inserção competitiva” e não passa de aprofundamento da dependência. De outro, acumular força social para transformar o Estado em direção de um projeto nacional-popular. Isso significa disputar os orçamentos, os currículos, as agências reguladoras e os acordos internacionais. Significa, sobretudo, retirar a política tecnológica do gueto dos especialistas e colocá-la no centro do debate público.

A classe trabalhadora brasileira já mostrou que sabe construir alternativas quando o poder público se omite — como vimos nas experiências de luta por verdade e justiça social contra a censura e a blindagem do Estado. O próximo passo exige unificar essas lutas num programa de soberania tecnológica, que articule a reforma agrária, a reindustrialização ecológica e o controle público sobre os dados. Não por acaso, é exatamente o que os centros imperialistas mais temem: um país da periferia que ouse planejar o próprio futuro.

Referências

  • Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Dossiês sobre dependência tecnológica e soberania na periferia.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. São Paulo: Expressão Popular.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

Perguntas Frequentes

Como a dependência tecnológica afeta a economia brasileira?

A dependência tecnológica mantém o Brasil como fornecedor de commodities e consumidor de tecnologia estrangeira. Decisões sobre produção, tecnologia e mercados permanecem no exterior, enquanto o capital local lucra com intermediação, comissões e royalties, sem interesse em romper a subordinação.

Por que o Brasil investe menos em pesquisa e desenvolvimento que Taiwan ou Coreia do Sul?

A diferença não é acaso nem falta de vocação, mas projeto de classe. A oligarquia que controla o Estado brasileiro optou por um modelo primário-exportador cuja rentabilidade imediata dispensa a formação de engenheiros e a soberania sobre dados e algoritmos.

O que significa planejamento democrático no contexto brasileiro?

Não é nostalgia desenvolvimentista. É disputar a direção das forças produtivas, definindo pauta de investimentos, critérios de financiamento e prioridades de pesquisa. Hoje essas decisões estão privatizadas em conselhos de administração e fundos de investimento.

O que um plano nacional-popular pergunta em vez de aceitar a 'vocação agrícola'?

Pergunta que ciência e que técnica servem à soberania alimentar, à transição energética e ao complexo industrial da saúde. Exige mediações concretas como fundo público destinado à inovação, rompendo com o destino de exportador de commodities.

Como o Instituto Tricontinental contribui para o debate sobre dependência?

O Instituto Tricontinental vem sistematizando a chave de leitura da dependência para a periferia, permitindo traduzir essa análise para o caso brasileiro e evidenciar como o planejamento democrático atua como arma anti-imperialista.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Erosão institucional: ofensiva neoliberal deslegitima a política

A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos. Não se trata de uma crise moral, mas de uma estratégia de classe.

Principais pontos

  • A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos.
  • Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões — cerca de um quarto de todo o gasto discricionário da União.
  • A PEC 32, ao extinguir a estabilidade de servidores e abrir as portas para a terceirização total, transforma o próprio Estado em espaço de acumulação privada.
  • A deslegitimação da política não é efeito colateral da crise, mas uma mediação deliberada da classe do capital financeirizado para desarmar a resistência popular.

Erosão institucional: a ofensiva que desmoraliza a política para impor retrocessos

Por Walter Azevedo

A cena se repete nos terminais de ônibus, nas filas do posto de saúde, nos comentários das redes: a política virou sinônimo de corrupção, o Congresso um balcão de negócios, o funcionalismo um peso morto. Enquanto a classe trabalhadora sofre a carestia, o discurso de que "nenhum político presta" ganha tração — e não por acaso. A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos. Precisamos nomear essa operação com a exatidão da dialética: não se trata de uma crise moral, mas de uma estratégia de classe.

Um orçamento sequestrado pela lógica rentista

O orçamento público é o espelho mais fiel dessa guerra silenciosa. Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões — cerca de um quarto de todo o gasto discricionário da União. Os ministérios da Saúde e da Educação viram suas verbas de custeio encolher enquanto a máquina pública é tomada por indicações políticas sem critério técnico. O resultado não é invisível: concursos congelados, postos de saúde sem insumos, universidades com laboratórios sucateados. Cria-se deliberadamente a imagem de um Estado ineficiente para justificar, em seguida, a sua privatização ou o corte de direitos. Esse movimento foi exposto com precisão quando denunciamos como as isenções fiscais revelam o caráter de classe do Estado e a luta pela verdade e justiça social (leia aqui).

A PEC 32, que tramita sob o rótulo de "modernização administrativa", é o exemplo acabado dessa engenharia. Ao extinguir a estabilidade de servidores, abrir as portas para a terceirização total e submeter o funcionalismo a avaliações de desempenho definidas por critérios de mercado, ela não apenas precariza o trabalho — ela transforma o próprio Estado em espaço de acumulação privada. O discurso que a acompanha é sempre o mesmo: "o Brasil gasta muito com servidor", "o serviço público é uma fábrica de privilégios". A mentira repetida mil vezes vira senso comum.

A mediação de classe por trás da fumaça

Aqui está o nó que o senso comum não enxerga: a deslegitimação da política não é efeito colateral da crise. Trata-se de uma mediação deliberada da classe do capital financeirizado para desarmar a resistência popular. Quando o trabalhador desempregado conclui que "votar não muda nada", ele abandona a luta institucional e deixa o terreno livre para as oligarquias. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia se constrói não apenas pela força, mas pela produção de um imaginário que naturaliza a subordinação. Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, na tradição da teoria da dependência, mostraram como as burguesias periféricas se associam ao imperialismo para manter privilégios internos. A desmoralização do Estado nacional é funcional a essa associação: sem soberania, sem política pública forte, o país se torna presa fácil para o capital estrangeiro.

Os ataques à Petrobras, ao SUS, à educação pública não são obra de "maus gestores" — são o programa de uma fração de classe que lucra com a destruição do comum. O mesmo movimento se vê na ascensão de um discurso antipolítica nas redes, financiado por think tanks liberais e plataformas digitais. A cada escândalo de corrupção envolvendo um político fisiológico, o algoritmo amplifica o "são todos iguais". Mas a corrupção da velha política não é o oposto do neoliberalismo: é sua porta de entrada. O fisiologismo desmoraliza o parlamento para que as reformas do capital passem sem debate público.

Reconstruir a política como práxis coletiva

Diante desse cerco, a resposta não é o cinismo nem a apatia. É a reconstrução da política popular desde baixo, como mostram as experiências de autogestão que já retratamos neste blog (leia aqui). Quando moradores de periferias organizam cozinhas solidárias, mutirões de limpeza ou hortas comunitárias, eles não estão apenas tapando buracos do Estado ausente — estão ensaiando outra forma de poder. A práxis não é um conceito abstrato: é a ação coletiva que transforma as condições materiais.

A tarefa estratégica da classe trabalhadora é dupla: defender as instituições públicas que ainda servem à maioria (SUS, escolas, universidades) e, ao mesmo tempo, construir organismos próprios de decisão — conselhos populares, comitês de bairro, sindicatos combativos. Não se trata de eleger "bons políticos" dentro da ordem vigente, mas de mudar a correlação de forças que define quais políticas são possíveis. A mobilização do Grito dos Excluídos mostrou que é possível unificar pautas locais e conjuntura nacional (leia aqui). A erosão institucional não será revertida por apelos morais à "boa gestão". Exige um projeto nacional-popular que enfrente a dominação rentista e reconstrua a soberania sobre o orçamento, o território e o tempo da vida. O próximo ciclo eleitoral não pode ser tratado como um jogo de escolhas individuais. Precisa ser um campo de disputa programática, onde a classe trabalhadora apresente suas próprias bandeiras: tributação progressiva, fim das emendas secretas, revogação do arcabouço fiscal, soberania sobre os recursos naturais. Só assim a política deixará de ser o balcão de negócios da elite para se tornar o que sempre deveria ter sido: a ferramenta da nossa emancipação.

Para aprofundar a leitura

  • MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
  • LENIN, Vladimir. O Estado e a Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2017.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • SANTOS, Theotônio dos. Teoria da Dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Perguntas Frequentes

O que é erosão institucional?

É o processo de desmoralização da esfera pública — política, Congresso e funcionalismo — que, segundo o texto, não é uma crise moral, mas uma estratégia de classe para desarmar a resistência popular e impor ajustes neoliberais.

Como as emendas parlamentares impositivas afetam o orçamento público?

Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões, cerca de um quarto do gasto discricionário da União, reduzindo verbas de custeio de ministérios como Saúde e Educação e criando a imagem de um Estado ineficiente.

O que é a PEC 32 e quais seus impactos?

A PEC 32 é uma proposta de "modernização administrativa" que extingue a estabilidade de servidores, abre espaço para a terceirização total e submete o funcionalismo a critérios de mercado, precarizando o trabalho e transformando o Estado em espaço de acumulação privada.

Por que a deslegitimação da política favorece o neoliberalismo?

Quando o trabalhador conclui que "votar não muda nada", ele abandona a luta institucional e deixa o terreno livre para as oligarquias, permitindo que a classe do capital financeirizado imponha ajustes e retrocessos sem resistência.

Qual o papel da mídia na desmoralização do serviço público?

O discurso que repete frases como "o Brasil gasta muito com servidor" e "o serviço público é uma fábrica de privilégios" cria o senso comum necessário para justificar privatizações e cortes de direitos, segundo a análise do autor.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Autogestão popular como resposta à omissão do poder público

Quando o poder público se omite estruturalmente, a classe trabalhadora se vê obrigada a produzir, com as próprias mãos, aquilo que deveria ser direito garantido — a autogestão popular é essa resposta objetiva a uma política deliberada de abandono.

Principais pontos

  • A geografia da desigualdade se desenha a partir de escolhas políticas mediadas por interesses de classe.
  • O Censo 2022 do IBGE contou 16,6 milhões de brasileiros morando em favelas e comunidades urbanas.
  • As filas por cestas básicas, os mutirões de limpeza após enchentes e os coletivos de construção de casas não são iniciativas pontuais de solidariedade.
  • A autogestão deixa de ser mera assistência e se transforma em práxis política.

Autogestão popular e a geografia da desigualdade: o abandono como projeto de classe

Por Walter Azevedo

A frase que abre este texto não saiu de um relatório de política pública. Saiu de uma cozinha comunitária na zona sul de São Paulo, entre panelas quentes e marmitas organizadas em fila: “o apoio aqui é nós entre nós mesmos”. Quem a pronunciou, uma trabalhadora que há meses coordena um mutirão de alimentação no seu bairro, não estava fazendo poesia. Estava descrevendo, com a precisão de quem vive a contradição na pele, a única rede de proteção que restou onde o Estado escolheu não chegar.

O Censo 2022 do IBGE contou 16,6 milhões de brasileiros morando em favelas e comunidades urbanas. Esse número não é acidente. Ele é o retrato de um processo histórico de expropriação territorial e segregação planejada. Nas periferias, a ausência de saneamento, transporte, creche e segurança não é uma falha de gestão — é um método. A frase da cozinha comunitária, portanto, condensa uma verdade dura: quando o poder público se omite estruturalmente, a classe trabalhadora se vê obrigada a produzir, com as próprias mãos, aquilo que deveria ser direito garantido.

A omissão não é falha: é método de gestão territorial

Partir do concreto exige enxergar a totalidade. Não há “descaso” neutro quando se decide, ano após ano, destinar trilhões de reais ao pagamento de juros da dívida pública e congelar o gasto social. A geografia da desigualdade se desenha a partir de escolhas políticas mediadas por interesses de classe. O Estado brasileiro, historicamente capturado pelo capital financeirizado e por suas frações rentistas, trata o território popular como ralo por onde escorre a sobra do orçamento. O restante vira emenda, obra parada, promessa eleitoral.

Essa lógica aparece com nitidez no arcabouço fiscal aprovado em 2023. Ao limitar o investimento público, ele garante superávit primário para os credores da dívida e empurra para os bairros periféricos a conta do ajuste. As filas por cestas básicas, os mutirões de limpeza após enchentes e os coletivos de construção de casas não são iniciativas pontuais de solidariedade. São respostas objetivas a uma política deliberada de abandono, que joga sobre os ombros dos mais pobres o custo da reprodução do capital.

Autogestão popular: da necessidade imediata à práxis de classe

A frase “o apoio aqui é nós entre nós mesmos” tem uma dimensão dialética pouco percebida. No primeiro momento, ela expressa a urgência de sobreviver: a fome não espera reunião ministerial. No segundo, porém, revela uma tomada de consciência. Quem organiza uma cozinha comunitária percebe que o poder público não falhará sozinho — ele falha porque prioriza outro projeto de sociedade. A autogestão, assim, deixa de ser mera assistência e se transforma em práxis política.

Lenin, em seus estudos sobre a organização do trabalho, já apontava que a cooperação é a escola onde a classe aprende a dirigir a produção e a vida social. Não se trata de romantizar o mutirão. A autogestão popular carrega uma potência teimosa: ela desloca o eixo da subordinação para a autonomia. Ao decidir coletivamente quantas marmitas produzir, quem cozinhar, onde comprar e como distribuir, trabalhadores sem vínculo empregatício exercitam o que o capital chama de “ineficiência” e a luta popular chama de embrião do poder.

A geografia da desigualdade é um projeto de classe

Há um interesse de classe na manutenção da segregação territorial. A valorização imobiliária nas áreas centrais depende da expulsão sistemática de moradores das periferias. O racismo ambiental não é discurso: é tecnologia de gestão do espaço. Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, ao analisarem a dependência latino-americana, mostraram que a superexploração da força de trabalho se sustenta também pela precarização do território. Quando o trabalhador gasta quatro horas diárias no transporte, mora em área de risco e não tem creche pública, ele aceita salários menores e jornadas mais longas. A geografia da desigualdade, portanto, barateia a mão de obra e encarece a vida — em favor de uma minoria que lucra com aluguel, transporte privado e serviços caros.

“O apoio aqui é nós entre nós mesmos” é, ao mesmo tempo, grito de socorro e declaração de guerra.

O livro Como Vencer na Grande Política, que escrevi para sistematizar essas mediações, insiste num ponto simples: a luta pelo poder começa na vida cotidiana. Cada cozinha comunitária, cada biblioteca popular, cada ocupação cultural é uma trincheira onde se disputa consciência de classe. Mas a autogestão, sozinha, não destrói a estrutura que a tornou necessária. Ela precisa se articular a um projeto nacional-popular que confronte a hegemonia do capital financeiro e devolva ao povo o controle do fundo público.

Do apoio entre nós ao poder de decidir: tarefas organizativas

O desafio estratégico é garantir que o “nós entre nós mesmos” não se torne apenas uma solução pobre para um problema rico. A autogestão popular deve se conectar às lutas por Tarifa Zero, por moradia digna, pelo fim da escala 6x1 e por um novo modelo de financiamento do Estado. Como mostramos na análise do Grito dos Excluídos, as pautas locais só ganham força quando articuladas a uma leitura de totalidade da conjuntura. A luta das cuidadoras, examinada em outro post recente, revela exatamente essa costura entre trabalho invisível, território e ausência de política pública.

Não há atalhos. A classe trabalhadora precisa ocupar os espaços de decisão — conselhos, assembleias, sindicatos, comitês de bairro — e disputar o orçamento público. Onde o Estado não chega, a autogestão mostra o caminho; mas é preciso transformar esse caminho em pressão organizada para mudar as prioridades do Estado. A consciência de que “somos nós por nós mesmos” deve se converter em projeto de soberania popular, em mobilização permanente, em construção de hegemonia.

Perguntas Frequentes

O que significa autogestão popular?

Autogestão popular é a organização coletiva da própria classe trabalhadora para suprir necessidades básicas não atendidas pelo Estado. No contexto do texto, nasce da urgência de sobreviver, mas evolui para uma tomada de consciência política sobre o abandono estrutural do poder público.

Como a omissão do poder público se relaciona com a geografia da desigualdade?

A omissão não é neutra: é método de gestão territorial. O Estado prioriza interesses de classe específicos ao limitar investimentos sociais e destinar recursos a credores da dívida, desenhando uma geografia onde favelas e periferias concentram ausência de serviços e infraestrutura.

Qual o papel das cozinhas comunitárias nesse contexto?

Cozinhas comunitárias são respostas objetivas à fome e à ausência de políticas públicas. A frase 'o apoio aqui é nós entre nós mesmos' expressa a única rede de proteção que restou onde o Estado escolheu não chegar, funcionando como escola de práxis política e organização popular.

Sobre o que fala o texto sobre o arcabouço fiscal de 2023?

O texto aponta que o arcabouço fiscal aprovado em 2023 limita o investimento público, garante superávit primário para credores da dívida e empurra para os bairros periféricos a conta do ajuste, reforçando a lógica de abandono deliberado das áreas populares.

Qual a relação entre autogestão e práxis política?

A autogestão inicialmente atende a necessidades imediatas de sobrevivência, mas quem organiza mutirões e cozinhas comunitárias percebe que o poder público falha porque prioriza outro projeto de sociedade. Assim, a autogestão se transforma em práxis política consciente de classe.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Denunciar como a censura a denúncias de isenções fiscais revela o caráter de classe do Estado e a luta pela verdade e justiça social

A censura a denúncias de isenções fiscais revela o caráter de classe do Estado: enquanto a classe trabalhadora tem o imposto retido na fonte, grandes grupos econômicos negociam benesses, e a tentativa de ocultar a verdade é um ato político de classe.

Principais pontos

  • A renúncia fiscal federal projetada para 2026 ultrapassa meio trilhão de reais, valor superior ao orçamento de saúde e educação somados.
  • Os maiores beneficiários das isenções fiscais são empresas com faturamento bilionário, transferindo renda da maioria para conglomerados do agronegócio, indústria automotiva e setor financeiro.
  • O Estado não é um árbitro neutro: ele organiza a dominação de uma classe sobre a outra, e a censura à reportagem sobre isenções fiscais é uma operação ideológica.
  • A censura se articula a outras ofensivas contra a transparência, como restrições à Lei de Acesso à Informação e investidas contra jornalistas que investigam o poder econômico.

Censura e luta de classes: o silêncio sobre isenções fiscais como trincheira do capital

Por Walter Azevedo

Uma decisão liminar caiu como um balde de água fria numa terça-feira. Um veículo independente foi obrigado a retirar do ar a investigação que revelava os nomes por trás das maiores isenções fiscais do país. A justificativa, repetida com solenidade, foi o sigilo. O efeito prático: o silêncio sobre meio trilhão de reais que deixam de financiar hospitais, escolas e transporte público. Quem tem medo da verdade tributária? A resposta não é um mistério: a classe do capital tem.

O episódio não é um acidente jurídico. Ele expressa, com nitidez, a anatomia de um Estado que administra a desigualdade em favor de poucos. Enquanto a classe trabalhadora tem o imposto de renda retido na fonte, os grandes grupos econômicos negociam benesses sob o argumento de empregos que nunca chegam. A censura que tenta esconder essa sangria é, ela mesma, um ato político de classe.

Isenção fiscal: a arquitetura jurídica da desigualdade

A renúncia fiscal federal projetada para 2026 ultrapassa a marca de meio trilhão de reais — valor superior ao orçamento de saúde e educação somados. São incentivos, desonerações e regimes especiais que, na prática, transferem renda da maioria para conglomerados do agronegócio, da indústria automotiva e do setor financeiro. A lógica é regressiva: o trabalhador paga proporcionalmente mais, o capital paga menos.

Os dados oficiais da Receita Federal demonstram que os maiores beneficiários são empresas com faturamento bilionário. A justificativa de estimular a economia raramente se materializa em postos de trabalho decentes. O que existe é uma transferência silenciosa de fundo público para a acumulação privada. A censura a quem denuncia esse mecanismo não protege o interesse nacional; protege a propriedade e o lucro.

O Estado como comitê executivo da classe do capital

Quando um juiz determina a retirada de uma reportagem sobre isenções fiscais, a mediação revela seu verdadeiro caráter. O Estado não é um árbitro neutro entre interesses opostos. Ele organiza a dominação de uma classe sobre a outra. A tentativa de ocultar a verdade sobre a renúncia fiscal é uma operação ideológica: manter a sociedade ignorante sobre quem realmente se apropria da riqueza social.

Esse movimento não é isolado. Ele se articula a outras ofensivas contra a transparência, como as tentativas de restringir a Lei de Acesso à Informação e as investidas contra jornalistas que investigam o poder econômico. A mesma lógica que blindou o arcabouço fiscal para garantir a sangria rentista, que subordina a soberania nacional aos interesses do capital financeirizado, agora tenta calar quem denuncia os números. É a luta de classes operando também no campo da informação.

Verdade e justiça social como trincheiras da classe trabalhadora

A luta pela transparência das isenções fiscais não é uma bandeira moralista. É uma exigência concreta de justiça tributária. Quando ocultam os beneficiários das renúncias, retiram da classe trabalhadora a capacidade de compreender a totalidade das relações de poder. Sem saber quem paga e quem sonega, não há consciência de classe possível.

As mobilizações do Grito dos Excluídos mostram que a indignação popular começa a se transformar em projeto. Mas falta o passo seguinte: transformar a denúncia da censura em programa de auditoria cidadã. Exigir que toda renúncia fiscal seja nominal, pública e submetida a controle social. Pressionar o Congresso Nacional para revogar os regimes especiais que transferem bilhões ao andar de cima.

Construir a verdade como trincheira de organização

A superação possível passa pela organização política da classe trabalhadora. Sindicatos, associações de bairro, coletivos de comunicação independente e quadros partidários comprometidos com as maiorias precisam assumir a tarefa de disputar a narrativa. A informação é um campo de batalha. Cada notícia censurada deve ser reproduzida, compartilhada e analisada criticamente.

Não basta lamentar a decisão judicial. É preciso construir observatórios locais de transparência, pressionar os parlamentos por leis de auditoria fiscal e eleger representantes que rompam com a subordinação ao capital. A luta pela verdade sobre as isenções é, no fim, a luta pelo fundo público a serviço das necessidades sociais. É a luta pela possibilidade de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a oligarquia.

A caneta do juiz pode calar uma reportagem. Mas não calará uma classe que aprende a ler os números e a fazer deles uma arma. O silêncio imposto é apenas o prenúncio do grito que virá. E virá organizado.

Perguntas Frequentes

Por que a censura às denúncias de isenções fiscais revela o caráter de classe do Estado?

Porque o Estado administra a desigualdade em favor de poucos: o trabalhador tem imposto retido na fonte, enquanto grandes grupos negociam isenções bilionárias. A censura que tenta esconder essa sangria é um ato político de classe.

Qual é o valor da renúncia fiscal federal projetada para 2026?

A renúncia fiscal federal projetada para 2026 ultrapassa a marca de meio trilhão de reais, valor superior ao orçamento de saúde e educação somados.

Quem são os maiores beneficiários das isenções fiscais no Brasil?

Os maiores beneficiários são empresas com faturamento bilionário, incluindo conglomerados do agronegócio, da indústria automotiva e do setor financeiro, que recebem incentivos, desonerações e regimes especiais.

O que a censura à reportagem sobre isenções fiscais protege?

A censura não protege o interesse nacional; protege a propriedade e o lucro. Ela mantém a sociedade ignorante sobre quem realmente se apropria da riqueza social, defendendo os interesses da classe do capital.

Como a lógica das isenções fiscais é classificada no texto?

A lógica é regressiva: o trabalhador paga proporcionalmente mais, o capital paga menos. Trata-se de uma transferência silenciosa de fundo público para a acumulação privada.