O leilão de áreas ricas em terras raras no Brasil é a expressão mineral da subordinação que atravessa nossa formação social: a burguesia interna aceita exportar terra barata para importar tecnologia cara, transferindo o controle de um ativo soberano ao capital imperialista.

Principais pontos
- As terras raras são a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta.
- A burguesia brasileira, sócia menor do imperialismo, contenta-se com as migalhas dos royalties.
- O Estado brasileiro, capturado pelas frações financeirizadas, converte-se em balcão de negócios.
- A burguesia interna não tem projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas e prefere a renda fácil da mineração.
Terras raras, soberania e luta de classes: a burguesia interna entrega o subsolo ao imperialismo
Por Walter Azevedo
O recente anúncio de licitação de áreas ricas em terras raras no Brasil não é um fato administrativo qualquer. É a expressão mineral da subordinação que atravessa nossa formação social. Enquanto o discurso governamental celebra a “autonomia estratégica”, a classe do capital interno acelera a entrega do subsolo a mineradoras transnacionais, com a cumplicidade de quem lucra com a intermediação e a renda fundiária. A cena é grave: sob o pretexto da modernização, escancara-se a velha lógica dependente que nos condena a exportar terra barata para importar tecnologia cara.
As terras raras não são um detalhe técnico. São a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta. Quem detém o controle da extração e, sobretudo, do refino desses minerais decide as condições da transição energética e da segurança nacional. Por isso, o imperialismo disputa cada jazida como quem disputa um posto avançado de guerra. E a burguesia brasileira, sócia menor nesse jogo, contenta-se com as migalhas dos royalties.
O leilão do subsolo como política de classe
O leilão de áreas estratégicas, anunciado com alarde, oferece contratos de pesquisa e lavra a consórcios liderados por capitais estrangeiros. As promessas de “investimentos bilionários” e “geração de empregos” encobrem o essencial: a transferência de controle sobre um ativo soberano. O Estado brasileiro, capturado pelas frações financeirizadas, converte-se em balcão de negócios. Garante segurança jurídica ao capital externo, flexibiliza licenciamento ambiental e reprime a resistência de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas que vivem sobre esses territórios. A luta de classes aparece aí sem mediações: de um lado, a coalizão entre burguesia interna e imperialismo; de outro, a população expropriada e superexplorada.
Não se trata de um acidente. Como analisei no artigo sobre dependência tecnológica e planejamento democrático, a divisão internacional do trabalho reserva ao Brasil o papel de fornecedor de matérias-primas brutas. A burguesia interna aceita essa posição porque sua taxa de lucro não depende da industrialização, mas da exportação primária e da especulação com terras e royalties. Ela não tem projeto nacional de desenvolvimento das forças produtivas. Prefere a renda fácil da mineração à construção de uma cadeia de refino e de uma indústria de alta intensidade tecnológica. Por isso, o subsolo vira moeda de troca.
A mediação imperialista da escassez
Os dados são contundentes: a China controla cerca de 60% da produção mundial de terras raras e mais de 85% da capacidade de refino. O Brasil possui a terceira maior reserva do planeta, estimada em dezenas de milhões de toneladas, mas exporta minério bruto sem dominar a etapa de beneficiamento. Essa assimetria não nasceu ontem. É a materialização da dependência descrita por Ruy Mauro Marini: a superexploração da força de trabalho e a transferência de valor para o centro, agora sob a forma de minerais estratégicos. Quem refina, agrega valor e define preços. Quem exporta pó de terra, apenas transfere riqueza.
Ao associar-se ao capital imperialista na exploração de terras raras, a burguesia brasileira aprofunda seu próprio rebaixamento. Ela até amplia sua renda imediata — royalties, participações acionárias, contratos de logística —, mas torna estrutural a subordinação tecnológica. Perde-se a chance de construir uma cadeia produtiva soberana, com pesquisa nacional, engenharia reversa, formação de técnicos próprios e integração latino-americana para quebrar o monopólio de refino. Em vez disso, renova-se o ciclo primário-exportador que condena a classe trabalhadora ao desemprego crônico e aos baixos salários nas minas. A ironia fina da história: quanto mais terras raras o Brasil entrega, mais pobre fica em soberania.
Soberania como projeto de classe
A soberania não é um slogan para discursos de campanha. É um projeto concreto de organização das forças produtivas sob direção da classe trabalhadora. Exige:
- Controle público e social das reservas minerais estratégicas, com veto a privatizações e a contratos lesivos;
- Criação de uma empresa estatal de mineração e refino de terras raras, com tecnologia nacional e participação operária na gestão;
- Articulação latino-americana para romper o monopólio de refino, integrando cadeias produtivas regionais, como propõe a autogestão popular;
- Revogação do marco legal que facilita a exploração estrangeira e aprovação de uma lei de mineração soberana, com consulta prévia, livre e informada aos povos originários.
Essa disputa não se resolve dentro do mercado. Ela exige correlação de forças favorável ao campo popular. Significa ocupar as ruas, denunciar o entreguismo parlamentar, construir greves na mineração e organizar comitês territoriais de defesa do subsolo. A luta pelas terras raras é a luta pela soberania nacional, e a soberania nacional é uma trincheira na guerra de classes contra o imperialismo. Como escrevi em Soberania em disputa, o capital nacional jamais se separará do imperialismo por vontade própria: apenas a pressão organizada da classe trabalhadora pode impor outro rumo.
O subsolo brasileiro é um campo de batalha. Quem o controla, controla o futuro da indústria, da energia e da defesa. Deixar as terras raras nas mãos da burguesia associada é aceitar a condição de quintal mineral do império. Por isso, nossa tarefa é dupla: construir a consciência de classe sobre o que está em jogo e avançar na organização política que transforme a mineração em bem comum, sob controle operário e a serviço do projeto nacional-popular. A história não perdoa os que dormem sobre a riqueza alheia.
Referências:
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
- AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
- Serviço Geológico dos EUA. Mineral Commodity Summaries (dados de reservas e produção de terras raras, 2025).
- Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Análises sobre dependência tecnológica e divisão internacional do trabalho.
Perguntas Frequentes
Por que as terras raras são estratégicas para a soberania nacional?
Porque são a base material de turbinas eólicas, baterias de alta densidade, equipamentos de defesa e sistemas de comunicação de ponta. Quem controla extração e refino decide as condições da transição energética e da segurança nacional.
Como a burguesia brasileira participa da entrega do subsolo ao capital estrangeiro?
A burguesia interna aceita o papel de fornecedor de matérias-primas brutas porque sua taxa de lucro depende da exportação primária e da especulação com terras e royalties, contentando-se com as migalhas.
O que o leilão de áreas de terras raras representa na análise do autor?
Representa a expressão mineral da subordinação: o Estado converte-se em balcão de negócios, garante segurança jurídica ao capital externo e reprime a resistência de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas.
Qual é a posição do Brasil no mercado mundial de terras raras?
O Brasil possui a terceira maior reserva do planeta, mas a China controla cerca de 60% da produção mundial e mais de 85% da capacidade de refino, o que evidencia a disputa imperialista por cada jazida.
Qual é a consequência da falta de refino no Brasil, segundo o texto?
Sem cadeia de refino e indústria de alta intensidade tecnológica, o Brasil fica condenado a exportar terra barata e importar tecnologia cara, perpetuando a lógica dependente.






