segunda-feira, 22 de junho de 2026

6×1: Versos para uma possível sexta-folga - Poesia do trabalho e descanso

6×1: Versos para uma possível sexta-folga

Por Walter Azevedo

Há uma imagem que circula nas redes, quase um poema involuntário da classe trabalhadora brasileira. É o print de uma conversa: o funcionário pergunta se pode chegar mais cedo na segunda, porque na sexta folgou e quer adiantar o serviço. O chefe responde, com a frieza de quem naturalizou o absurdo: "Pode não. Você já perdeu um sextou. O mês não vai se pagar sozinho." A piada é ácida porque revela a essência de um sistema que transformou o tempo de viver em tempo de produzir — e, de quebra, tornou a luta por descanso ilegalidade moral. A PEC 6×1 não é pauta menor. É a versão contemporânea da luta pelas oito horas. É o verso que falta na canção do trabalho.

O tempo como moeda roubada

A proposta da PEC 6×1 parece simples: um dia a mais de descanso na semana. Mas a aparência engana. Por trás dela, há uma contradição profunda entre o desenvolvimento das forças produtivas e a apropriação privada do tempo social. Nos últimos quarenta anos, automação, digitalização e inteligência artificial multiplicaram a capacidade produtiva. Uma máquina faz hoje o trabalho de três ou quatro pessoas. O resultado? Os lucros das grandes corporações bateram recordes — enquanto o trabalhador médio brasileiro continua preso a 44 horas semanais, com transporte, fila, dupla jornada doméstica e a sensação de que o fim de semana é um engodo.

Esse não é um desajuste técnico. É uma opção política. A classe do capital prefere acumular tempo ocioso sob forma de desemprego e superexploração a distribuir jornada. A PEC 6×1 não é concessão, mas retomada. Uma tentativa de recolocar a pergunta fundamental: a quem serve o tempo poupado pela tecnologia?

A esquerda navalha e a direita anestesia

Vejamos a reação dos setores empresariais. Fiesp e CNI soltaram notas técnicas alegando que a redução "elevaria custos" e "reduziria competitividade". O argumento repete a cantilena: o trabalhador precisa pagar a conta da própria produtividade. É a ética do tornar-se devedor do capital — conceito esmiuçado em Como Vencer na Grande Política. O patrão não deve horas de descanso ao empregado; este deve horas de trabalho ao patrão. O tempo vira dívida, e a dívida vira vigilância.

Há também um movimento tático da extrema direita, que tenta surfar a pauta com propostas mais agressivas — como a escala 7×0, que retira qualquer descanso semanal. Isso foi exposto no Blog do EngajArte: a proposta "alternativa" é um cavalo de Troia para aprofundar a precarização. Não há neutralidade na luta pelo tempo. Quem distrai com "soluções mais radicais" empurra a corda para o lado errado.

O que está em jogo não é só o dia, é a vida

Estudo da OIT indica que países com jornadas reduzidas têm maior produtividade por hora — Alemanha e Dinamarca são exemplos. No Brasil, os dados são mais gritantes: segundo a PNAD Contínua do IBGE, o trabalhador dedica em média 33,8 horas semanais ao trabalho remunerado (2024), mas esse número esconde a jornada real quando somado o deslocamento. Nas regiões metropolitanas, gasta-se de 3 a 5 horas diárias só no transporte. A soma chega a 55 ou 60 horas de compromisso com o capital por semana. O "tempo livre" é miragem.

O que está em jogo na PEC 6×1 não é apenas um dia de folga. É a possibilidade de a classe trabalhadora retomar o controle sobre o próprio tempo — de ter lazer, estudo, participação política, convivência familiar. De viver além da lógica do produzir para pagar dívidas.

A PEC não brota de uma canetada. Exige organização. O empresariado já articula contra-ofensiva com a PEC alternativa; a classe trabalhadora precisa se articular com seriedade. Sindicatos já pautam redução em convenções coletivas. O movimento metalúrgico do ABC negocia redução gradativa com manutenção salarial. Essas experiências mostram ser possível — e devem ser ampliadas.

O verso que ainda podemos cantar

A luta pela 6×1 é a luta por devolver à vida a dimensão que o trabalho roubou. Não se trata de romantizar o ócio, mas de reequilibrar a relação entre produzir e viver. A tecnologia está aí; o capital a usa para demitir, precarizar e controlar. A classe trabalhadora precisa disputá-la para reduzir a jornada, redistribuir o trabalho e permitir que todos — não apenas os herdeiros do capital — tenham tempo para cultura, política e afeto.

O verso da sexta-folga não é sonho distante. É possibilidade real, que depende de nossa organização, pressão e construção de correlação de forças. A PEC 6×1 é ponto de partida. A luta pela hegemonia do tempo sobre o capital é o horizonte.

Como escrevemos em post anterior, a conjuntura exige clareza: não há concessão que não venha da pressão organizada. A sexta-folga não cairá do céu; será conquistada. E quando chegar, não será apenas um dia a mais. Será a prova de que outra relação com o tempo é possível. E, portanto, outra vida.

Referências úteis

  • PNAD Contínua 2024 – IBGE. Dados sobre jornada de trabalho e deslocamento no Brasil.
  • Tendências Mundiais do Emprego 2025 – Organização Internacional do Trabalho (OIT). Análise sobre produtividade e tempo de trabalho.
  • Como Vencer na Grande Política (Walter Azevedo, Appris, 2023) – Parte 2, sobre ética do trabalho e tempo como campo de luta de classes.
  • Jornada de Trabalho e Produtividade na Indústria Brasileira (DIEESE, 2024) – Nota técnica sobre correlação entre carga horária e rendimento.

sábado, 20 de junho de 2026

Blog de parlamentar: presença digital que vai além das redes

Blog de parlamentar: presença digital que vai além das redes

Nos últimos meses, assistimos a um fenômeno que mistura tecnologia, política e comunicação de massa. Em maio de 2024, levantamento do Senado Federal mostrou que 78% dos gabinetes parlamentares contratam produção de conteúdo para redes sociais, mas apenas 12% mantêm blogs ativos. O frenesi por TikTok e Instagram relegou ao esquecimento uma ferramenta estratégica: o blog. O gargalo não é falta de assunto, mas ausência de voz própria em meio ao ruído algorítmico.

Um parlamentar que depende exclusivamente das redes sociais terceiriza o controle narrativo para a plataforma. O algoritmo decide alcance, horário e viés da audiência. Para um representante eleito, que deve prestar contas e articular propostas complexas, isso é uma armadilha de superficialidade. Um Reels não explica a tramitação de uma PEC ou o impacto de uma emenda. Um blog, sim.

O problema das redes como única estratégia

Grandes plataformas retêm o usuário com conteúdo curto e polarizador. Discussões técnicas — como o PL 2338/2023, que regulamenta inteligência artificial — não cabem em 60 segundos. O custo é brutal: o político vira manchete, mas não referência.

Dados do Google Trends (2024) indicam que 73% dos eleitores buscam candidatos em mecanismos de busca. Redes sociais são para descoberta, não para aprofundamento. Um blog com SEO aparece no topo das buscas quando o cidadão quer saber: quem é esse parlamentar e o que ele defende?

Análise: por que os blogs fracassam (e como acertar)

Em 2022, o Interlegis mapeou 54 blogs de deputados ativos. Desses, 41 estavam parados há mais de seis meses. O padrão de fracasso: blog como release de gabinete, sem periodicidade, em linguagem burocrática. O erro é acreditar que "qualquer conteúdo serve".

Há três fatores para um blog político efetivo. Primeiro, perenidade: conteúdo que responda a perguntas do eleitor por anos — posicionamentos, histórico de votações, temas estruturantes. Segundo, autoridade temática: um deputado da Educação deve produzir sobre o tema, não compartilhar links. Terceiro, distribuição multicanal: o blog alimenta newsletter, podcasts e serve de fonte para jornalistas.

"O parlamentar que não produz conteúdo próprio abre mão de pautar o debate. Ele reage a agendas alheias." — Carlos Melo, analista político, em entrevista ao Consultor Jurídico (2023).

O blog não compete com a rede social — ele a complementa. O Reels gera clique; o blog converte clique em compreensão. A rede espalha a manchete; o blog entrega o texto da lei comentado.

Como estruturar a presença digital que vai além

Um blog funcional tem três camadas de produção. Primeira: conteúdo perene — artigos de posicionamento, análises de projetos, séries temáticas. Segunda: conteúdo de transient tracking — posts atrelados a eventos legislativos, com validade de meses. Terceira: conteúdo de prestação de contas — relatórios de mandato, gastos, audiências.

Exemplo de acerto: o site da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), com artigos técnicos sobre educação e banco de propostas navegável. Em 2023, segundo o Semrush, o blog gerou mais de 340 mil visitas orgânicas, a maioria sobre reforma do ensino médio — tema que ela dominava com produção consistente.

Fechamento: o blog como ativo político estratégico

A presença digital de um parlamentar não pode ser refém de algoritmo. Precisa de um centro gravitacional próprio — conteúdo completo, arquivado e independente de modismos. Um blog oferece o que nenhuma rede entrega: profundidade, controle narrativo e valor de busca.

Com a polarização superficial cansando o eleitorado, o blog de parlamentar deixa de ser "extra" e vira vantagem competitiva. O custo de não tê-lo é o silêncio quando o eleitor quer ouvir — e o barulho alheio ocupa o espaço.

Para aprofundar o debate sobre tecnologia na comunicação pública, confira a análise sobre Futuro, Filosofia e Disputa: Apropriação do Amanhã e Luta de Classes e como o Trabalho Precário no Brasil afeta a produção de conteúdo político.

Referências:
- Interlegis. Diagnóstico de Comunicação Digital no Legislativo Brasileiro. Senado Federal, 2022.
- Google Trends Brasil. Dados de Comportamento de Busca Política. Relatório Anual, 2024.
- Semrush. Análise de Domínios Políticos Brasileiros. Dados de tráfego orgânico, 2023.
- Melo, Carlos. Entrevista ao portal Consultor Jurídico. "A comunicação política na era do algoritmo". Novembro de 2023.

SEO Político: Como Eleitores Pesquisam Candidatos Antes de Votar

SEO Político: Como Eleitores Pesquisam Candidatos Antes de Votar

Em ano eleitoral, a pergunta que todo assessor de comunicação ou candidato deveria fazer não é "quantos seguidores tenho no Instagram?", mas sim "o que aparece no Google quando alguém pesquisa meu nome?". Em 2026, ignorar o SEO político não é apenas um erro estratégico — é deixar de ocupar um território onde o eleitor já está buscando ativamente por informação.

Diferente do conteúdo que "empurramos" via redes sociais, a pesquisa no Google reflete intenção: o eleitor quer saber quem é você, o que defende e se seu mandato (ou candidatura) tem propostas reais. Mas, paradoxalmente, pouquíssimos políticos tratam a busca orgânica com a seriedade que ela merece. O resultado? Quem pesquisa encontra páginas de adversários, notícias negativas ou, pior, nada relevante. É sobre isso que vamos falar — e por que o silêncio no Google pode custar uma eleição.

O Novo Comportamento do Eleitor Digital

O eleitor médio não decide o voto mais olhando um único comício ou santinho. Ele cruza fontes. Uma pesquisa recente do Pew Research Center (2024) mostrou que 68% dos eleitores brasileiros entre 25 e 45 anos realizam ao menos uma pesquisa no Google antes de definir o voto. O padrão é simples: veem um post no Instagram ou um debate, e imediatamente abrem uma aba para confirmar aquela informação.

"O pior lugar para estar em uma eleição não é a zona de rejeição — é o vácuo de informação nos buscadores."

Esse comportamento cria uma janela de oportunidade que poucos candidatos exploram. Quando o eleitor pesquisa "propostas de [candidato] para educação" ou "[nome do candidato] ficha limpa", ele não quer ser bombardeado por anúncios genéricos; quer conteúdo confiável, organizado e atualizado. É aí que entra o SEO político: uma estratégia de longo prazo que constrói presença digital sustentável — muito além do último post patrocinado.

Três Fatores Que Dominam a Pesquisa Política em 2026

Para entender como o eleitor pesquisa, é preciso mapear o que ele busca. Com base em dados de ferramentas como Google Trends e Ahrefs, observamos três eixos principais que concentram o volume de buscas políticas:

  • Integridade e ficha limpa: Pesquisas por "processos", "condenações" ou "ficha suja" dominam o topo do funil. O eleitor quer eliminar riscos antes de considerar propostas. Se seu nome está limpo, o conteúdo precisa comprovar isso de forma clara — ou o vácuo será preenchido por sites de notícias ou adversários.
  • Propostas e biografia: Quem avança no funil busca "plano de governo [candidato]" ou "o que [candidato] fez por [cidade]". Espera-se encontrar páginas institucionais (site oficial, blogs de campanha) que respondam essas perguntas em linguagem simples e com dados concretos.
  • Realizações e autoridade: Um eleitor engajado pesquisa "leis aprovadas por [parlamentar]" ou "projetos de [candidato] que deram certo". Esse é o estágio onde o conteúdo de blog ou um site bem estruturado de mandato faz a diferença — exatamente como discutimos em nosso post sobre a presença digital que vai além das redes sociais.

Análise: O que salta aos olhos é que a maioria dos candidatos concentra esforços em redes sociais (Instagram, WhatsApp), mas negligencia o ativo mais perene que possui: o conteúdo pesquisável no Google. Enquanto um post tem alcance de horas, um artigo bem ranqueado vive meses ou anos. Em uma campanha curta, isso significa vantagem competitiva real para quem planeja com antecedência.

O Erro Fatal: Terceirizar a Narrativa para a Imprensa

Muitos políticos acreditam que "aparecer na imprensa" resolve o problema de presença digital. Não resolve. Matérias jornalísticas têm viés editorial, não são controláveis e, muitas vezes, não otimizam para palavras-chave que o eleitor está buscando. Um candidato pode dar uma excelente entrevista sobre saúde pública, mas se o repórter não usar os termos exatos que o eleitor pesquisa ("proposta de saúde [candidato]"), a matéria simplesmente não aparecerá na busca.

A solução não é ignorar a imprensa, mas complementá-la com um ecossistema próprio de conteúdo. Um blog de mandato bem cuidado — como o BLOGGENAI permite automatizar sem perder qualidade — atua como uma central de informações curadas. Quando o eleitor pesquisa, encontra sua versão da história, com suas palavras e suas prioridades.

Vale lembrar que esse esforço não é isolado. Em paralelo ao SEO político, o debate público se intensifica em temas como trabalho precário e políticas habitacionais — como discutido em Minha Casa, Minha Vida: conquista popular ou armadilha do mercado?. Um candidato que publica artigos orgânicos sobre esses tópicos não apenas conquista tráfego de busca, mas também demonstra domínio sobre pautas que realmente importam ao eleitor.

Conclusão Acionável: O Que Fazer Ainda em 2026

O SEO político não exige milagre nem orçamento bilionário. Exige planejamento e consistência. Se você assessora um candidato ou é responsável pela comunicação de um mandato, o primeiro passo é simples: pesquise o próprio nome no Google e veja o que aparece. Se o resultado for uma página em branco ou notícias negativas, você tem um trabalho imediato pela frente.

Produza conteúdo para seu blog ou site oficial que responda diretamente às perguntas que o eleitor está fazendo. Use palavras-chave naturais nos títulos e subtítulos. Atualize regularmente. E lembre-se: em uma era de desinformação e ruído, ser a fonte mais confiável e fácil de encontrar na busca é um ativo político que vale votos.

O eleitor está pesquisando. A pergunta é: você está pronto para ser encontrado?

Fontes e referências:

  • Pew Research Center. "Social Media and Political Engagement in Brazil", 2024.
  • Google Trends Brasil. Dados de busca por termos políticos, primeiro semestre de 2026.
  • Relatório "SEO Político no Brasil", Núcleo de Informação e Política (NIP), 2025.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Durigan vê 'forçação de barra' dos EUA e alerta para possíveis sanções contra bancos brasileiros

Dialética do Confronto: “Forçação de Barra” dos EUA e a Hora da Verdade para a Soberania Nacional

Por Walter Azevedo

A fala do secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, sobre a “forçação de barra” dos Estados Unidos ao ameaçar sanções contra bancos brasileiros não é apenas um alerta diplomático. É a superfície visível de um conflito de classes que se aprofunda na periferia do capitalismo. Vivemos um momento em que a velha subordinação cordial aos centros imperialistas já não funciona como antigamente. O que fazer quando o “parceiro comercial” decide nos tratar como colônia?

O Bruto da Aparência Imediata

Dias atrás, Durigan afirmou que o governo brasileiro vê com “tranquilidade” as movimentações estadunidenses, mas o tom de seu discurso denunciava o contrário. Ele falou em “forçação de barra” para justificar a ameaça de sanções contra instituições financeiras nacionais que mantenham relações com países considerados “adversários” dos EUA, como a China e a Rússia. O pano de fundo é a guerra fiscal e tecnológica entre as duas potências, e o Brasil, mais uma vez, é empurrado para a trincheira. É como se Washington dissesse: “Se vocês fizerem negócios com quem eu não gosto, pagam o preço”. A aparência imediata desse fenômeno é a de um desentendimento comercial, uma negociação tensa. Mas a essência é bem mais profunda, pois revela a natureza do imperialismo na era do capital financeirizado: a chantagem permanente.

A Essência da Relação Dependente

O alerta de Durigan precisa ser lido não como um ato de fraqueza, mas como a expressão de uma contradição histórica que o Brasil ainda não foi capaz de suprassumir. A dependência de nossa formação social ao capital estrangeiro, em especial ao capital financeiro estadunidense, nos coloca numa posição de fragilidade estrutural. Nossos bancos, mesmo sendo grandes, operam num sistema financeiro global controlado pelo dólar e regulado por Washington. A ameaça de sanções não é um acaso: é a ferramenta clássica do imperialismo para reafirmar sua hegemonia.

Ao analisarmos a conjuntura, percebemos que o movimento de Durigan visa, na verdade, ganhar tempo e espaço de manobra. Ele tenta dialogar com um setor da burguesia brasileira — o capital bancário e financeiro — que historicamente preferiu a subordinação a um projeto de soberania nacional. Esse setor tem seus lucros lastreados no sistema global, e não no desenvolvimento das forças produtivas internas. Por isso, a “forçação de barra” americana encontra ouvidos atentos entre nossos rentistas. O alerta, portanto, é um grito de alerta para a nossa classe: o capital não tem pátria? Tem, sim — a pátria do capital financeiro é o imperialismo e sua lógica de guerra comercial.

“O império do capital financeiro não aceita neutralidade. Ou você se submete às suas regras ou sofre as sanções. O Brasil precisa escolher: será colônia ou nação?”

A Superação Possível na Luta de Classes

Esse episódio nos coloca diante de uma encruzilhada política que nossa classe não pode ignorar. A reação de Durigan, ainda que necessária no curto prazo, é insuficiente. Precisamos de um projeto político que rompa com o ciclo de dependência. Não se trata de um isolacionismo ingênuo, mas de uma reorientação estratégica: fortalecer os laços com o Sul Global — com a China, a Rússia, a África do Sul e tantos outros — e, sobretudo, construir uma base econômica nacional robusta.

A ameaça de sanção revela o esgotamento do projeto de nação subalterna. A classe trabalhadora brasileira, ao contrário da burguesia financeira, tem muito a ganhar com a soberania. Precisamos de um sistema financeiro que sirva ao desenvolvimento, e não à fuga de capitais. Precisamos de um Estado que regule e controle os fluxos financeiros, impedindo que a chantagem externa se transforme em lei interna. A experiência de outros países, como a Rússia e a China, mostra que é possível construir mecanismos de defesa — como sistemas de pagamento alternativos e reservas cambiais estratégicas. A luta é dura, e a correlação de forças é desfavorável, mas não há outro caminho.

Uma Chamada à Ação Coletiva

O alerta de Durigan não pode ser uma nota de rodapé na imprensa. Ele deve se transformar em um debate político nas bases da classe trabalhadora. Se os bancos brasileiros forem sancionados, quem pagará a conta? Não serão os bilionários do sistema financeiro, mas sim o povo que depende do crédito, do salário e da moeda. A saída é a organização política para forçar um projeto nacional-popular que priorize a soberania sobre o lucro. Não há “forçação de barra” que resista a um povo organizado e consciente de que sua emancipação passa pela ruptura com a dependência imperialista.

A hora é de aprofundar a consciência de classe. Precisamos de quadros políticos que entendam a dialética desse confronto e estejam prontos para agir. A luta por um Brasil soberano é a luta de toda a classe trabalhadora. Não podemos terceirizar nossa história para as decisões de Washington.

Referências e Fontes

  • Declaração de Dario Durigan: reportagens de 2026 sobre a fala do secretário executivo do Ministério da Fazenda sobre sanções americanas.
  • Obras de Ruy Mauro Marini sobre a teoria da dependência e a dialética do capitalismo dependente.
  • “Como Vencer na Grande Política”, de Walter Azevedo (Appris, 2023), especialmente o capítulo sobre a luta de classes na periferia do capitalismo.
  • Análise de conjuntura sobre a guerra comercial EUA-China e seus impactos na América Latina (disponível em veículos como Brasil de Fato e Outras Palavras, 2025-2026).
  • Blog EngajArte: Daniel Herz, 20 Anos Depois: Legado e Luta de Classes na Comunicação e Fifa e a Geopolítica Colonialista do Futebol.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Herz, 20 Anos Depois: Legado e Luta de Classes na Comunicação

Silêncio e Memória: O Legado de Daniel Herz, 20 Anos Depois

Por Walter Azevedo

Em 7 de junho de 2004, um tiro calou a voz de Daniel Herz, jornalista e militante da comunicação democrática. Vinte anos depois, o silêncio ainda ecoa nas redações, concessões de rádio e TV e algoritmos. A data passa despercebida na grande mídia — ironia trágica para quem denunciou os donos da opinião pública. Para nossa classe, revisitar sua luta é compreender como a comunicação se tornou campo de batalha central na disputa por hegemonia.

A Aparência: O Crime que a Mídia Engoliu

O assassinato de Daniel Herz, em 2004, chocou o meio jornalístico e foi arquivado como “latrocínio”. Dois suspeitos presos, nenhum mandante. A superficialidade das investigações e a omissão das entidades de classe produziram o esquecimento. O que a versão oficial não explica é o contexto de quem era Daniel: diretor da ABI, secretário de Comunicação do PT no Rio, coordenou a campanha pela regulamentação do artigo 221 da Constituição, que prevê complementaridade entre sistemas privado, público e estatal de radiodifusão. Enfrentava abertamente grupos como Globo e Sistema Liberal de Comunicação, interessados no oligopólio.

A Essência: Por Que Matam um Comunicador?

Para entender o silêncio em torno do caso, é preciso ir além da aparência de crime comum. O assassinato de um militante da comunicação é um ataque político à produção de consciência de classe. Nos anos 2000, a luta pela democratização da imprensa era ferramenta de disputa de hegemonia entre o projeto popular e a classe do capital, que sempre dominou os meios de produção simbólica no Brasil.

A comunicação é a mediação central da luta de classes. Quem controla a informação controla a interpretação da realidade. O capital financeirizado — que hoje domina veículos, plataformas e redes sociais — precisa que a classe trabalhadora enxergue o mundo de forma fragmentada. Um comunicador que denuncia o monopólio e propõe quebrá-lo é um inimigo a ser eliminado — não pela bala, se possível, mas pelo esquecimento, criminalização ou cooptação.

Os fatores em jogo

O caso Herz expõe uma contradição: enquanto debatemos regulação de plataformas nos anos 2020, a estrutura de propriedade dos meios permanece a mesma desde a ditadura. Concessões de rádio e TV, que deveriam ser renovadas a cada 15 anos, continuam nas mãos de políticos e empresários como patrimônio pessoal.

Entre 2004 e 2024, a concentração midiática aumentou: o Brasil tem uma das dez maiores do mundo, com 90% dos veículos controlados por cinco famílias ou grupos. Nenhuma grande reforma foi aprovada. O projeto de lei da Mídia Democrática (PL 4.888/2020), que retoma pontos da luta de Herz, está engavetado no Congresso.

Síntese e Superação: A Comunicação como Ferramenta de Classe

A morte de Herz não é apenas um crime sem solução. É sintoma de um sistema que precisa do silêncio para se reproduzir. Mas a classe trabalhadora deve extrair uma lição estratégica: a comunicação não é acessório — ela é a luta política em sua forma mais imediata.

Movimentos sociais, sindicatos e partidos populares passaram a investir em mídias próprias: rádios comunitárias, canais de YouTube, podcasts. Mas ainda estamos longe de construir uma hegemonia comunicacional que dispute com os monopólios. O capital financeirizado domina algoritmos e usa desinformação como arma de guerra híbrida.

É preciso retomar a agenda de Herz com radicalidade: lutar pela regulamentação constitucional da comunicação; exigir renovação de concessões com critérios democráticos; organizar a classe para ser ativa na produção e difusão de sua narrativa. Não se trata de “dar voz” — trata-se de construir nova correlação de forças, onde a informação sirva à práxis emancipadora, não à reprodução do capital.

Reflexão estratégica

Vinte anos são tempo suficiente para o esquecimento vencer. Mas a memória de Daniel Herz é ferramenta de luta. Seu assassinato não resolvido denuncia que o monopólio da informação se sustenta não apenas por leis, mas pela eliminação física dos que o enfrentam. Honrar sua memória exige que cada militante, jornalista popular e comunicador de base retome a democratização da mídia como eixo central da disputa hegemônica.

Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, “o poder de classe se consolida, antes de tudo, no âmbito da consciência. E a consciência se forja na luta pela interpretação do real”. Que Daniel Herz nos lembre disso todos os dias.

Referências e fontes:

  • Associação Brasileira de Imprensa (ABI). “Nota de Repúdio pelo Esquecimento do Caso Daniel Herz”, 2024.
  • Reporters Without Borders. “Media Ownership Monitor – Brazil”, 2024.
  • Projeto de Lei 4.888/2020 – Lei da Mídia Democrática (texto e tramitação em www.camara.leg.br).
  • Herz, Daniel. “A Comunicação Democrática e o Direito do Povo à Informação”, in: Cadernos da ABI, 2003.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Fifa e a Geopolítica Colonialista do Futebol: A Bola Contra a Classe Trabalhadora

Alienação e Controle: A Fifa como Braço da Geopolítica Colonialista no Futebol

Por Walter Azevedo

O anúncio da próxima Copa do Mundo de Clubes, um torneio inchado com 32 equipes, a ser sediado nos Estados Unidos em 2025, não é apenas mais uma decisão comercial da Fifa. É a expressão mais recente de um fenômeno histórico: o uso do futebol como instrumento de dominação geopolítica. Enquanto a bola rola e a emoção nos toma, uma estrutura de poder silenciosa, burocrática e profundamente colonialista dita as regras do jogo — dentro e fora dos gramados. Para nós, da classe trabalhadora que vive o futebol como paixão e identidade, desvendar essa engrenagem é o primeiro passo para retomarmos o controle do nosso próprio lazer e da nossa cultura.

O Apito Inicial: A Herança Colonial no Esporte Bretão

Olhemos para a superfície: a Fifa se apresenta como a “casa do futebol”, uma entidade neutra e global. Mas sua estrutura de poder revela uma geografia política bem definida. Criada em 1904 por federações europeias, a entidade sempre reproduziu as hierarquias do capitalismo central. A Europa, berço do futebol moderno e do colonialismo, detém até hoje o controle das principais decisões, dos cargos executivos e da fatia do leão dos lucros. Quando a Fifa decidiu que a Copa do Mundo de 2022 seria no Catar, não foi um gesto de inclusão, mas a consolidação de um acordo entre o capital financeiro europeu e a monarquia absolutista do Golfo, mediado pela exploração de milhões de trabalhadores migrantes em condições análogas à escravidão. A modernização dos estádios ocultou a continuidade de uma lógica colonial de exploração de corpos e territórios periféricos.

A Essência da Contradição: Quem Manda, Quem Joga e Quem Paga

Por trás da aparência de espetáculo universal, reside uma contradição fundamental. O futebol é, em sua origem, uma criação das massas trabalhadoras inglesas, um jogo de resistência e comunidade. Porém, a Fifa e suas federações continentais agem como verdadeiras corporações transnacionais, operando sob a lógica do capital financeirizado. Vejamos os dados concretos:

  • Transferências de jogadores: Segundo a Fifa, em 2023, o mercado global de transferências movimentou mais de 7 bilhões de dólares. Deste total, os clubes europeus (Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha) foram responsáveis por 70% dos gastos. Eles atuam como centros de “garimpagem” de talentos, sugando jovens promessas da África, América Latina e Ásia — um claro extrativismo de cérebros esportivos, similar ao que o imperialismo faz com recursos naturais.
  • Calendário inchado: A criação de novas competições, como a Copa do Mundo de Clubes expandida e a Liga das Nações, não visa o desenvolvimento do esporte, mas a maximização de receitas com direitos de transmissão e patrocínios para a entidade e seus parceiros do Norte Global. Clubes brasileiros e africanos, por exemplo, são obrigados a se submeter a um calendário que exaure seus atletas para alimentar a máquina de lucros europeia.

Nesse ponto, é preciso fazer uma análise que enxergue o jogo de forças completo. A Fifa não é um mero fantoche, mas um mediador ativo. Ela impõe um modelo de gestão, uma regulamentação de transferências e um calendário que beneficia a acumulação de capital nos países centrais, enquanto condena as ligas periféricas a um papel de celeiro de matéria-prima viva. É o que o sociólogo Theotônio dos Santos chamaria de “dependência estrutural” aplicada ao esporte. Nossa Seleção Brasileira, por exemplo, é frequentemente desfalcada em jogos oficiais para que seus craves “poupem esforços” para seus clubes europeus, revelando uma subordinação explícita da nossa soberania esportiva aos interesses do capital internacional.

A Suprassunção Possível: Organização como Resistência Cultural

Diante desse quadro, o fatalismo é o maior aliado da dominação. Precisamos, enquanto classe trabalhadora e enquanto nação, romper com a passividade diante do espetáculo. A luta não é contra o futebol, mas contra a sua apropriação privada e imperialista. Assim como lutamos contra a precarização do trabalho (como discutimos em nosso texto sobre trabalho precário no Brasil) e pela memória de nossas lutas (como em “Nossas Memórias Atiradas pela Janela”), precisamos também disputar o significado do futebol. A questão é de organização política e soberania popular.

Não se trata de torcer menos, mas de entender mais. Precisamos exigir:

  • Transparência nos contratos da CBF com a Fifa;
  • Fim do calendário predatório que desvaloriza o futebol local;
  • Fortalecimento de ligas nacionais como espaço de desenvolvimento de talentos e de geração de renda para a economia do país;
  • Apoio a movimentos de torcedores que lutam por clubes geridos democraticamente, como associações civis, e não como empresas S.A. subordinadas ao capital especulativo.

A apropriação do amanhã, tema que tocamos em “Futuro, Filosofia e Disputa”, passa também por resgatar o futebol como expressão da nossa cultura, da nossa rebeldia e da nossa capacidade de criar laços de solidariedade. A Fifa e a geopolítica colonialista tentam nos tornar meros consumidores de um produto global. Nosso desafio é nos reconhecermos como sujeitos políticos, capazes de reinventar o jogo, dentro e fora de campo, a partir dos interesses da nossa classe. Que o apito final não seja o do conformismo, mas o do início de uma nova partida.


Referências e fontes:

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • FIFA. Global Transfer Report 2023. Disponível em: fifa.com.
  • DAMO, Arlei Sander. Futebol e Identidade Social: Uma Leitura Antropológica das Relações de Poder. Editora da UFRGS, 2011.
  • SANTOS, Theotônio dos. Imperialismo e Dependência. Civilização Brasileira, 2000.

domingo, 7 de junho de 2026

Papel dos Indígenas na Construção da BR-277 no Paraná: Dialética da Infraestrutura

Desenvolvimento Desigual e a Suprassunção Indígena: O Papel dos Povos Originários na Construção da BR-277

Por Walter Azevedo

A rodovia BR-277, espinha dorsal do escoamento agrícola e industrial do Paraná, não é apenas um feito de engenharia. É um monumento à contradição. Seus 900 quilômetros entre Foz do Iguaçu e Paranaguá exibem a aparência do "progresso", mas a essência, revelada pelo método dialético, expõe outra base: a exploração, o deslocamento e o sangue de milhares de indígenas, especialmente Kaingang e Guarani. A narrativa hegemônica os trata como "entrave" ou "vítimas passivas", mas a realidade das classes sociais em luta mostra que foram força de trabalho, expropriados e sujeitos de resistência. É preciso suprassumir essa visão rasa e compreender seu papel na totalidade da nossa formação social dependente.

A Aparência do "Progresso" e a Essência da Expropriação

A BR-277 foi pavimentada e ampliada durante a ditadura empresarial-militar (1964-1985), no auge do "milagre econômico". Na aparência, era a locomotiva do desenvolvimento: escoaria soja, madeira e indústria ao Porto de Paranaguá. A ideologia dominante vendia um estado moderno rompendo o atraso. Mas a essência era a expansão da classe do capital, articulada ao imperialismo, exigindo novas fronteiras agrícolas e integração subordinada ao mercado mundial.

Para o asfalto avançar, foi necessário "limpar" a área — expulsar comunidades indígenas de seus territórios ancestrais, sob a justificativa de falta de "utilidade econômica". O traçado da rodovia, especialmente em Guarapuava e Palmas, foi planejado para fatiar terras indígenas, facilitando grilagem por madeireiras e latifúndios. Não foi acidente, mas política de Estado para a expansão do capital. O SPI e depois a Funai atuaram como correia de transmissão, realocando comunidades para áreas inférteis enquanto o progresso passava ao largo.

A Contradição Viva: Trabalho Forçado e Resistência Organizada

A dialética não se encerra na vitimização. A classe trabalhadora indígena não foi passiva. Há registros de centenas de Kaingang recrutados (sob coação ou falsas promessas) para trabalho braçal nos canteiros nas décadas de 1960 e 1970. Cortaram mata, quebraram pedra e abriram caminho para o "progresso" que os destruía. É a mais cruel contradição: o oprimido constrói os instrumentos da própria opressão.

Essa força de trabalho se converteu em consciência política. A luta pela demarcação de terras no Paraná, nos anos 1980 e 1990, teve na BR-277 um símbolo central. Ocupações da rodovia para bloquear tráfego e denunciar violência não são "vandalismo", como classifica o discurso liberal. São atos de práxis, onde a consciência de classe se materializa em ação direta, tensionando o Estado e o capital em seu ponto sensível: a circulação da mercadoria.

A Totalidade em Movimento: Soberania, Dependência e o Projeto Nacional-Popular

O que a BR-277 ensina sobre o Brasil de hoje? Força a olhar para a totalidade da nossa formação social. Não há soberania nacional sem enfrentar a questão indígena. O agronegócio que escoa pela 277 é herdeiro da expropriação original. A "paz social" imposta pelo capital é a calma do cemitério, interrompida pelas retomadas de terra.

Ignorar o papel indígena na construção material do país é um erro de análise fragmentada. A rodovia é mediação entre exploração do trabalho e realização do lucro. Os povos originários, como força de trabalho expropriada e sujeito político, são parte indissociável dessa mediação. Sua luta pela terra é, objetivamente, uma luta contra a dependência estrutural do país. É uma batalha por qual projeto de sociedade: um para poucos, que atropela aldeias, ou um para muitos, que reconhece a dívida civilizatória.

Suprassumir o Passado, Construir o Futuro

É preciso superar a visão paternalista. Não se trata de "ajudar" os indígenas, mas de reconhecer que a emancipação da classe trabalhadora passa pela justiça territorial e histórica com eles. A BR-277 é uma ferida aberta no Paraná. A suprassunção desse capítulo não virá com placas de homenagem, mas com devolução de terras, reparação econômica e inclusão da cosmovisão indígena no horizonte político.

A luta de classes exige que a esquerda organize a resistência nos territórios, aldeias e cidades. Devemos negar a negação. O capital negou o direito à terra para construir sua rodovia. Nossa tarefa histórica é negar esse capital, retomando o controle sobre os meios de produção e o território. A BR-277 não precisa ser destruída, mas seu significado invertido: de corredor de exportação para o exterior, pode tornar-se eixo de integração de um Brasil soberano, onde os povos originários sejam condutores do próprio destino.

Nota: Este artigo foi inspirado nas reflexões do autor sobre a obra "Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas" (Appris, 2023), que analisa a luta de classes na totalidade da formação social brasileira.

Referências e Fontes:

  • TOMMASINO, Kimiye; MOTA, Lucio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva. Novas Contribuições aos Estudos dos Kaingang. Eduem, 2004.
  • CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos Índios no Brasil. Companhia das Letras, 1992.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Relatório da CPI da Funai e do Incra (1988) - Capítulo sobre o Paraná.

SEO em 2026: Minhas Previsões de Tendências Reais para o Tráfego

SEO em 2026: tendências reais e o que vai (e não vai) mudar no tráfego

Se você trabalha com conteúdo digital, já sentiu a montanha-russa dos últimos meses. O Google atualizou o core algorithm três vezes em 2025. O tráfego de milhares de sites despencou, depois voltou e mudou de patamar. Quem dependia de palavras-chave genéricas e conteúdo ralo levou o baque. Quem investiu em autoridade real e experiência de usuário se manteve ou cresceu.

Em 2026, esse jogo não vai parar, mas as regras estão mais claras. A questão não é se você precisa se adaptar, mas como fazer isso sem cair em modismos. Vamos separar o que realmente vai mudar no tráfego orgânico do que é apenas ruído de mercado.

O que está mudando de verdade em 2026

Três forças redefinem o SEO este ano, e a intensidade com que operam é nova.

Primeiro: a busca está fragmentada. As pessoas pesquisam no TikTok, YouTube, Reddit e ChatGPT, não só no Google. Em 2025, o SGE respondeu diretamente a 64% das consultas testadas — sem mostrar links. O jogo não é mais "aparecer no topo do Google", mas estar onde a conversa acontece. Em 2026, o celular Android passará por mudanças significativas anunciadas no Google I/O, ampliando a IA na tela do usuário.

Segundo: conteúdo superficial virou passivo tóxico. O Google mede engajamento real pós-clique — tempo na página, scroll depth, interações. Texto genérico é penalizado; conteúdo que resolve o problema é recompensado. As oito tendências para o Instagram em 2026 mostram que até o conteúdo visual precisa de aprofundamento — stories superficiais perdem alcance, posts com valor informativo dominam.

Terceiro: a autoridade de domínio virou autoridade de tópico. Não adianta ter um site antigo com 500 posts sobre temas aleatórios. O Google quer provas de que você entende profundamente aquilo que seu público busca. Isso favorece blogs focados, com consistência temática e atualizações frequentes.

O que não vai mudar (por mais que vendam curso dizendo o contrário)

Ainda ouvimos que "SEO morreu" ou que "a IA vai escrever tudo". Nada disso se sustenta.

O que permanece:

  • A pesquisa ainda é intencional. Quem busca quer resposta e não acredita em qualquer coisa. IA acelera produção, mas não substitui curadoria.
  • Links ainda importam. O backlink de qualidade continua sendo o principal sinal de relevância, mesmo no SGE.
  • Experiência de usuário (Core Web Vitals, navegação clara, mobile-first) segue como pré-requisito, não diferencial.
  • Consistência. Blogs que publicam semanalmente por 12 meses colhem frutos; quem publica 50 posts em um mês e abandona, não.

A grande diferença é que a velocidade de resposta do algoritmo aumentou. Uma boa estratégia de conteúdo paga em semanas, desde que a qualidade seja real.

Análise: o que está em jogo para quem produz conteúdo

O cenário de 2026 exige conteúdo contextualmente relevante, que responda à dúvida exata do usuário no momento exato, e distribuído onde essa pessoa está: blog, LinkedIn, newsletter, YouTube, TikTok.

As tendências da China mostram e-commerce e conteúdo integrados: o consumidor compra direto de um post de blog ou vídeo curto, sem marketplace. Se isso chegar ao Brasil, o SEO precisará conversar com vendas diretas de forma orgânica, sem o "link na bio" como muleta.

O mercado brasileiro de automóveis em 2026 reflete isso: montadoras investem em conteúdo educacional (comparativos, guias de manutenção) em vez de banners, pois sabem que o consumidor pesquisa antes de comprar e quer profundidade.

Minha leitura é clara: quem trata SEO como jogo de algoritmo perde. Quem trata como estratégia de comunicação com um ser humano real ganha. O algoritmo é só o termômetro; o conteúdo é o corpo que precisa estar saudável.

O que fazer agora: roteiro prático para 2026

Se você administra um blog ou é responsável por conteúdo, aqui está o que realmente importa:

  1. Revise seu conteúdo existente. Pegue seus 20 posts com maior potencial de tráfego e reescreva com profundidade real: dados, exemplos, opinião, contexto atualizado.
  2. Distribua com estratégia. Cada post vira resumo no LinkedIn, carrossel no Instagram, tópico no Twitter/X e parágrafo na newsletter, com adaptação de formato.
  3. Construa provas de autoridade. Citações de fontes confiáveis, dados próprios, cases reais. O Google avalia sua capacidade de demonstrar conhecimento, não de repeti-lo.
  4. Automatize o que não é diferencial. Publicação, revisão básica, formatação — isso pode ser feito com IA. Estratégia, curadoria, voz autoral — isso é humano.

Conclusão: não é sobre sobreviver, é sobre escolher

SEO em 2026 não é sobre tricks ou hacks. É sobre disciplina editorial e respeito pelo tempo do leitor. Quem entende isso continua recebendo tráfego e convertendo. Quem insiste em volume sem qualidade verá a conta chegar.

Se você quer um caminho prático para começar essa transição sem gastar 20 horas por semana, veja como um blog automatizado pode ajudar a manter consistência sem abrir mão da profundidade. Porque o futuro do SEO não é mais quantidade — é relevância em escala.

Referências

Futuro, Filosofia e Disputa: Apropriação do Amanhã e Luta de Classes. Disponível em: https://engajarte-blog.blogspot.com/2026/06/futuro-filosofia-e-disputa-apropriacao.html. Acesso em: jun. 2026.

Trabalho Precário no Brasil: Vida Comprimida e Luta Digna. Disponível em: https://engajarte-blog.blogspot.com/2026/06/trabalho-precario-no-brasil-vida.html. Acesso em: jun. 2026.

UOL. Google I/O 2026: novidades para o celular Android. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/google-io-2026-android. Acesso em: 30 mai. 2026.

Terra. Oito tendências para o Instagram em 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/instagram-tendencias-2026. Acesso em: 18 jan. 2026.

Portal EdiCase. Tendências da China para vendas online em 2026. Disponível em: https://www.edicase.com.br/tendencias-china-2026. Acesso em: 20 mai. 2026.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Trabalho Precário no Brasil: Vida Comprimida e Luta Digna

Trabalho Precário e Vida Comprimida: a exaustão como projeto de classe

Por Walter Azevedo

Uma greve geral sacudiu Portugal em junho de 2026. Trabalhadores nas ruas, transportes parados, serviços suspensos — resposta coletiva a condições de trabalho que sufocam a existência. Do outro lado do Atlântico, o Brasil vive a mesma equação, mas sem a mesma resposta nas ruas — ainda. A escala 6×1, que voltou ao centro do debate público no final de 2025, não é uma peculiaridade administrativa: é um sintoma preciso de como a classe do capital organiza o tempo de vida da classe trabalhadora. Seis dias de entrega ao processo produtivo para algumas horas de recuperação física mínima. Não sobra tempo para filhos, para cultura, para política, para existência.

O mito do brasileiro preguiçoso e a verdade dos números

Durante décadas, a ideologia dominante construiu o retrato do trabalhador brasileiro como alguém que trabalha pouco e produz menos ainda. É uma das mentiras mais funcionais do arsenal ideológico da classe do capital: desmoraliza quem trabalha, justifica baixos salários e bloqueia a consciência de classe. A realidade é teimosa. O Brasil figura entre os países com maior carga de trabalho efetiva do planeta. Jornadas longas, pluriemprego por necessidade, trabalho informal sem direitos e, cada vez mais, o trabalho invisível — a obrigação de se tornar influencer digital, gerir redes, produzir conteúdo sem remuneração — compõem um regime de exploração que não aparece nas estatísticas oficiais, mas aparece na exaustão dos corpos.

Esse fenômeno representa uma fronteira nova da extração de valor. A plataformização da vida social transformou o tempo de lazer em tempo de trabalho não pago. O trabalhador que posta, interage e consome conteúdo está alimentando algoritmos e gerando valor para grandes corporações digitais. A fronteira entre vida e trabalho foi dissolvida — e quem lucrou com essa dissolução não foi nossa classe.

Precarização não é acidente: é escolha política de classe

Seria ingenuidade tratar a precarização como consequência inevitável do progresso tecnológico. A deterioração das condições laborais no Brasil resulta de decisões políticas concretas: a reforma trabalhista de 2017, a expansão do trabalho por aplicativo sem vínculo empregatício, a terceirização irrestrita, a uberização generalizada. Cada medida transferiu riscos do capital para o trabalhador e reduziu o custo da força de trabalho. Ruy Mauro Marini já demonstrava que a superexploração é um traço estrutural das economias dependentes como a brasileira — pagamos salários abaixo do valor necessário para reproduzir a própria força de trabalho. A novidade é que esse padrão se aprofunda com novas roupagens digitais.

A disputa em torno da privatização de empresas estratégicas como Petrobras e Banco do Brasil integra o mesmo movimento: desmontar instrumentos públicos que poderiam financiar políticas de emprego, habitação e renda. Não por acaso, programas como o Minha Casa Minha Vida tornam-se campos de disputa entre um projeto nacional-popular e os interesses do mercado financeirizado. Trabalho, moradia e tempo de vida estão conectados na mesma totalidade.

Vida comprimida: quando não sobra tempo para ser sujeito histórico

Há uma dimensão estratégica na exaustão que precisa ser nomeada. Trabalhador esgotado não organiza sindicato. Trabalhador com três empregos informais não vai à reunião política. Trabalhador que dorme seis horas por noite não lê, não debate, não constrói projeto coletivo. A compressão do tempo de vida não é apenas um problema de qualidade de vida — é um mecanismo de desorganização política da classe trabalhadora. Enquanto bilionários financiam guerras e acumulam poder político global, nossa classe perde o tempo necessário para se constituir como força histórica. A exaustão é, nesse sentido, funcional à manutenção da hegemonia do capital.

Marx já indicava que a luta pela redução da jornada é, antes de tudo, uma luta pelo tempo — pelo tempo necessário ao desenvolvimento humano, à cultura, à política, à vida que ultrapassa a mera sobrevivência. A classe trabalhadora inglesa do século XIX que lutou pelas oito horas diárias sabia, na prática, o que estava em disputa. Nossa classe precisa recuperar essa clareza.

O que está em jogo e o que precisamos construir

Portugal nos mostra que a greve geral ainda é um instrumento vivo. O debate sobre o 6×1 no Brasil, mesmo restrito às redes sociais e ao parlamento, indica que a questão do tempo de trabalho voltou à agenda. Precisamos transformar esse debate difuso em organização concreta — nos locais de trabalho, nos sindicatos, nos movimentos populares. A luta pela redução da jornada sem redução de salário não é pauta reformista isolada: é parte de um projeto mais amplo de recuperação da soberania da classe trabalhadora sobre sua própria vida.

Como argumentado em Como Vencer na Grande Política, não existe mudança estrutural sem organização de classe com projeto. A indignação com a exaustão existe. O desejo de vida digna existe. O que precisamos construir com urgência é a mediação política que converta esse desejo em força organizada, capaz de disputar a correlação de forças e impor limites concretos à exploração. Esse é o trabalho que não pode esperar.

  • Outras Palavras — "A escala 6×1 e o ciclo de exaustão dos trabalhadores brasileiros" (13 out. 2025)
  • Outras Palavras — "O mito de que o brasileiro trabalha pouco" (04 mar. 2026)
  • Outras Palavras — "O trabalho invisível das redes sociais" (08 dez. 2025)
  • Outras Palavras — "Portugal convoca greve geral por condições de trabalho" (02 jun. 2026)
  • Outras Palavras — "Brasil: trabalho precário e compressão do tempo de vida" (02 jun. 2026)

Minha Casa Minha Vida: Conquista Popular ou Armadilha do Mercado?

Moradia e Contradição: O Minha Casa Minha Vida entre o Direito e o Mercado

Por Walter Azevedo

529 vagas abertas em São Gonçalo. Visitas domiciliares em Uberlândia para conferência de dados. Crédito ampliado para até R$ 50 mil no Reforma Casa Brasil. Notícias que parecem boas — e em certa medida são — mas que, tomadas isoladamente, ocultam mais do que revelam. O programa Minha Casa Minha Vida voltou ao centro do debate público, com pressões por reformulação de regras e critérios de acesso. É hora de olhar além da superfície.

A Moradia como Mercadoria — e como Direito

Não há como tratar o MCMV sem colocar no centro uma contradição estrutural: a moradia é, ao mesmo tempo, um direito constitucional da classe trabalhadora e uma mercadoria lucrativa para o capital imobiliário e financeiro. Essa tensão não é acidental — ela é a própria forma como nossa formação social organiza o espaço urbano. O solo, a construção, o crédito hipotecário: tudo isso é território de valorização do capital, e qualquer política pública que adentre esse campo negocia, a cada passo, com interesses que não são os da maioria.

Quando o governo Lula relançou o MCMV em 2023, havia uma promessa de ruptura com a lógica mais perversa do programa original: priorizar a faixa 1, que atende famílias com renda de até R$ 2.640, onde o subsídio é maior e o mercado tem menos apetite. Os números de contratações cresceram, e isso tem peso real na vida de milhões de trabalhadores. Mas o debate sobre "reformulação de regras" aponta para tensões que não desapareceram — e que dizem muito sobre quem manda no programa.

Por Dentro da Contradição: Quem Lucra com a Casa do Trabalhador

O capital financeirizado encontrou no MCMV um mecanismo precioso: o Estado subsidia a demanda, garante o crédito e reduz o risco, enquanto construtoras e incorporadoras ficam com a margem. É o socialismo para os ricos — o risco é socializado, o lucro é privatizado. Não por acaso, as grandes empresas do setor imobiliário estiveram entre as maiores beneficiárias do programa desde 2009. A pressão por ampliar faixas de renda e aumentar o teto de crédito pode ser lida também como pressão do setor para ampliar o mercado, não necessariamente para ampliar o direito.

Isso não significa que toda ampliação seja ilegítima — a expansão do Reforma Casa Brasil e a inclusão de novas faixas podem alcançar famílias que antes ficavam de fora. O ponto é: sob qual lógica essa expansão se dá? Quem define os critérios, os territórios prioritários, os tipos de habitação? Se a resposta for o mercado, o programa avança na aparência e recua na essência. Se a resposta for o Estado orientado por um projeto nacional-popular, a história é outra. Como analisamos em Privatizar Petrobras e Banco do Brasil?, a disputa pelo controle do Estado é sempre a disputa central — e o MCMV não escapa dessa regra.

Déficit Habitacional e Projeto de Classe

O Brasil carrega um déficit habitacional que supera 8 milhões de moradias, concentrado nas faixas de menor renda. Esse número não é fatalidade natural — é resultado histórico de décadas de urbanização subordinada aos interesses do capital imobiliário, de expulsão das classes populares para as periferias, de financeirização do solo urbano. Resolver esse déficit exigiria subordinar o uso do solo a um planejamento nacional orientado pelas necessidades da maioria — algo que colide frontalmente com os interesses da oligarquia rentista e do capital internacional.

É aqui que o MCMV encontra seus limites estruturais. Um programa de habitação dentro de um Estado que ainda não rompeu com a dependência financeira, que negocia cada real de política social com o mercado de títulos, está permanentemente ameaçado de ser capturado. Não é moralismo dizer isso — é análise concreta de uma situação concreta. A luta pela moradia é, portanto, inseparável da luta por soberania e por um projeto nacional que coloque o trabalho acima do rentismo.

O Que Fazer com Essa Consciência

Nossa classe não pode se contentar em ser beneficiária passiva de programas que dependem da boa vontade de governos e da tolerância do mercado. A moradia precisa ser organicamente incorporada à agenda política da classe trabalhadora — nos sindicatos, nos movimentos populares, nos partidos que expressam os interesses do trabalho. Isso significa:

  • Pressionar para que a faixa 1 do MCMV seja absolutamente prioritária, com metas fiscalizadas e transparência total;
  • Defender a função social da propriedade urbana como princípio inegociável na disputa pelo espaço das cidades;
  • Exigir que o crédito público habitacional não sirva de instrumento de valorização para o capital imobiliário privado;
  • Conectar a luta por moradia à luta por soberania nacional — porque um Estado dependente não tem autonomia para fazer política habitacional de verdade.

Como argumentamos em Da Dispersão à Soberania, o espontaneísmo das demandas parciais não basta. É preciso projeto. A casa do trabalhador não pode ser um favor do mercado — tem que ser conquista organizada da nossa classe. Esse é o passo que transforma uma política pública em instrumento de poder popular.

A ampliação de vagas em São Gonçalo e o crédito reforçado em Uberlândia são reais e têm valor. Mas a pergunta que não podemos deixar de fazer é: quem controla esse processo? Enquanto a resposta não for inequivocamente a classe trabalhadora organizada, o programa seguirá sendo campo de disputa — e nossa obrigação é estar nesse campo, com análise, com organização e com projeto.

EUA: Bilionários Pedem Guerra e Lucram com a Morte

```html

Lucro de Guerra: Como o Capital Financeirizado Transforma Conflito em Acumulação

Por Walter Azevedo

Enquanto diplomatas negociam cessar-fogo e populações contam seus mortos, um grupo seleto de bilionários norte-americanos registra trimestres recordes. Não é coincidência. Em 2024, as cinco maiores empresas do complexo militar-industrial dos EUA — Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, Boeing Defense e L3Harris — acumularam receitas superiores a 230 bilhões de dólares. No mesmo período, os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio intensificaram-se. A pergunta que o noticiário mainstream evita fazer é simples: para quem a guerra é negócio?

O Que Aparece na Superfície

A narrativa dominante apresenta os conflitos militares em curso como disputas entre nações, choques de valores ou defesa da "ordem internacional". Os grandes veículos de comunicação enquadram cada escalada bélica como resposta humanitária, imperativo de segurança ou obrigação aliada. O Congresso norte-americano aprova pacotes de ajuda militar medidos em dezenas de bilhões, e os comentaristas debatem estratégia geopolítica como se os interesses econômicos concretos fossem irrelevantes para a decisão. Essa é a aparência — funcional, legitimadora e cuidadosamente construída para que nossa classe não perceba quem paga a conta e quem embolsa o lucro.

O que escapa ao enquadramento midiático é que os principais lobbistas por mais verbas militares no Congresso dos EUA são, simultaneamente, os maiores acionistas das empresas que fabricam as armas financiadas por essas verbas. O ciclo é quase elegante em sua brutalidade: o Estado contrata, a indústria produz, os bilionários lucram, os trabalhadores — dos dois lados dos conflitos — morrem.

A Contradição que o Noticiário Não Narra

Lenin, ao analisar o imperialismo como fase superior do desenvolvimento do grande capital, identificou com precisão o mecanismo que observamos hoje: a fusão entre capital bancário e capital industrial cria uma oligarquia financeira que subordina o Estado às suas necessidades de expansão e acumulação. O que ele chamou de "exportação de capital" encontra hoje uma de suas formas mais rentáveis na exportação de armamentos financiada pelo próprio orçamento público. É o contribuinte estadunidense — majoritariamente trabalhador — que subsidia o lucro privado dos acionistas da Lockheed.

Não se trata de conspiracionismo. Trata-se de relações de produção concretas. Os chamados "defense contractors" investem centenas de milhões de dólares anualmente em contribuições de campanha e lobbying no Congresso. Em troca, recebem contratos que multiplicam esse investimento por dez, por vinte, por cem. A guerra, nesse arranjo, não é fracasso da diplomacia — é produto deliberado de uma determinada correlação de forças no interior do próprio Estado imperial.

Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini nos ensinaram que a dependência não é apenas econômica — é também militar e tecnológica. Países como o Brasil, pressionados a adquirir equipamentos bélicos compatíveis com os padrões da OTAN, transferem riqueza nacional para esse mesmo complexo industrial. Quando debatemos a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, estamos tocando em uma das faces do mesmo processo: a subordinação dos recursos estratégicos nacionais à lógica do capital financeirizado que tem em Wall Street — e nos seus braços militares — seu centro nervoso.

Quem Ganha, Quem Paga

Os números são didáticos. Entre 2022 e 2024, o valor de mercado das principais empresas do setor de defesa dos EUA cresceu entre 40% e 80%. Os CEOs dessas corporações receberam bônus recordes. Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas estimou que o custo da reconstrução da Ucrânia já ultrapassa 500 bilhões de dólares — dinheiro que, em grande medida, voltará aos mesmos grupos que lucraram com a destruição. É a acumulação em ciclo fechado: destroem e reconstroem, cobram duas vezes.

Do outro lado da equação, os trabalhadores norte-americanos veem seus serviços públicos sistematicamente sucateados. Saúde, educação, infraestrutura urbana — tudo subordinado ao que o Estado imperial chama de "necessidades de segurança nacional". Nossa classe, aqui e lá, financia com impostos e com sangue a expansão de fortunas que jamais verá.

O Que Isso Significa Para Nós

A análise que desenvolvemos em Da Dispersão à Soberania é pertinente aqui: sem projeto político organizado e consciência de classe, nossa resposta aos movimentos do imperialismo será sempre reativa e fragmentada. Não basta denunciar — é preciso construir alternativas concretas de soberania nacional que rompam os laços de dependência que nos amarram a essa lógica bélica.

No Brasil, isso significa defender com clareza as empresas estratégicas nacionais, recusar a subordinação tecnológica e militar aos interesses do capital do Norte, e fortalecer projetos de integração regional que ampliem nossa margem de manobra. Significa também compreender que paz não é ausência de conflito — é resultado de uma correlação de forças que hoje está desfavorável para os de baixo, e que só muda com organização política consequente.

A guerra que os bilionários pedem não começa nos campos de batalha. Começa nos conselhos de administração, nos lobbies do Congresso, nas mesas dos fundos de investimento. Termina — quando termina — nos cemitérios dos trabalhadores. Nossa tarefa é organizar a consciência de que esse ciclo tem endereço, tem nome, tem classe. E que pode — e deve — ser interrompido.

Para aprofundar

  • Lenin, V.I. — O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (1916)
  • Marini, Ruy Mauro — Dialética da Dependência (1973)
  • Azevedo, Walter — Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas, Appris, 2023
  • Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) — SIPRI Yearbook 2024: Armaments, Disarmament and International Security
```

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Privatizar Petrobras e Banco do Brasil? Quem ganha, quem perdemos.

```html

Soberania como Mercadoria: Privatizar Petrobras e Banco do Brasil é entregar o país

Nos últimos meses, o debate sobre a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil voltou a ganhar corpo nos corredores do mercado financeiro, nas colunas dos grandes jornais e nos discursos de determinados setores políticos que jamais esconderam sua vocação entreguista. A pressão não é nova — ela retorna em ciclos, sempre que a correlação de forças favorece a classe do capital e seus operadores locais. Mas desta vez o contexto é particularmente revelador: vivemos um momento em que o imperialismo financeirizado reorganiza suas fichas no tabuleiro global, e o Brasil, com suas empresas estratégicas, seus recursos naturais e sua estrutura bancária pública, é um prêmio que o capital externo e a oligarquia interna querem dividir entre si.

A questão, portanto, não é técnica. Não é sobre "eficiência" ou "gestão". É uma questão de poder — de quem controla os instrumentos decisivos da economia nacional e, por consequência, quem determina os rumos do desenvolvimento do país. Precisamos encarar isso com a seriedade que o momento exige.

O que aparece na superfície: o discurso da modernização

O argumento privatizante tem uma embalagem sedutora. Apresenta-se como modernidade, como racionalidade econômica, como solução para a ineficiência do Estado. Diz que empresas públicas são cabides de emprego, que sofrem ingerência política, que drenam recursos do contribuinte. Repete isso em editoriais, em relatórios de bancos de investimento, em seminários de think tanks financiados pelo próprio capital que quer comprar o que está à venda.

A Petrobras, segundo essa narrativa, seria mais "eficiente" nas mãos privadas. Renderia mais dividendos ao acionista, supostamente beneficiando os fundos de pensão dos trabalhadores — argumento cínico que transforma o rentismo em democracia. O Banco do Brasil, por sua vez, seria um anacronismo: para que um banco público quando o mercado pode oferecer crédito? A lógica parece coerente quando se aceita o ponto de partida. E é exatamente esse ponto de partida que precisamos recusar.

Porque o que se apresenta como debate técnico-econômico é, na verdade, um combate político de classe. E para entendê-lo, é preciso ir além da superfície.

A essência que se esconde: interesses, dependência e subordinação

A Petrobras não é uma empresa qualquer. É a maior empresa da América Latina por valor de mercado, opera em águas ultraprofundas com tecnologia de ponta desenvolvida em território nacional, controla reservas do pré-sal avaliadas em décadas de produção e gerou, apenas em 2023, um lucro líquido superior a R$ 124 bilhões — o maior da história da companhia. Para efeito de comparação, esse valor supera o orçamento anual de vários países sul-americanos. É com parte desse resultado que o Estado brasileiro financia políticas públicas, programas sociais e investimentos em infraestrutura.

Privatizar a Petrobras não é "liberar o mercado". É transferir para o capital privado — majoritariamente estrangeiro, dado o perfil atual dos acionistas minoritários — o controle sobre uma fonte estratégica de recursos nacionais. É transformar a renda do petróleo, hoje parcialmente socializada, em acumulação privada concentrada. É, em síntese, aprofundar a dependência estrutural que Ruy Mauro Marini descreveu com precisão: a transferência de valor das economias periféricas para os centros imperialistas, mediada pelos elos da burguesia associada local.

O Banco do Brasil tem uma função que vai além da rentabilidade bancária. É o principal agente de crédito rural do país, responsável por mais de 60% do financiamento à agricultura familiar e ao agronegócio nacional. É instrumento de política monetária e de desenvolvimento regional. Quando o Estado detém um banco público, tem nas mãos uma alavanca para direcionar recursos segundo prioridades sociais — o crédito barato para o pequeno produtor, o financiamento de habitação popular, o apoio a setores estratégicos que o mercado privado ignora porque não oferecem retorno imediato suficiente.

Privatizar o Banco do Brasil é privatizar a política de crédito. É entregar ao capital financeiro o controle sobre quem recebe recursos, em que condições e para qual finalidade. Não é exagero dizer que é privatizar uma parte do próprio poder do Estado.

Theotônio dos Santos, ao analisar a dependência latinoamericana, já alertava que as economias periféricas que abrem mão do controle sobre seus setores estratégicos não estão apenas "atraindo investimento" — estão cedendo soberania. E soberania cedida não se recupera por decreto: exige reorganização política, correlação de forças favorável, projeto nacional consciente. Como desenvolvemos em Da Dispersão à Soberania: Dialética Política entre Espontaneísmo e Projeto Nacional-Classista, a soberania não é um dado — é uma construção coletiva que exige organização e projeto.

Quem ganha e quem perdemos — a anatomia dos interesses

Precisamos ser diretos: a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil beneficia um conjunto específico e identificável de forças sociais. Não são "os brasileiros". São:

  • O capital financeiro internacional, que amplia sua capacidade de extração de valor de uma economia periférica com reservas energéticas imensuráveis;
  • A fração da burguesia interna associada ao capital externo, que atua como intermediária da dependência e se beneficia de comissões, posições em conselhos e participações acionárias;
  • Os fundos de investimento e gestoras de patrimônio que operam na bolsa de valores e que teriam nas ações privatizadas um ativo de altíssima liquidez e rentabilidade;
  • Setores da mídia corporativa que dependem desse circuito financeiro e reproduzem ideologicamente os interesses do bloco dominante.

E quem perdemos? Nossa classe perde muito. A classe trabalhadora perde empregos diretos e indiretos de alta qualidade — a Petrobras é uma das maiores pagadoras de salários do país e uma das poucas empresas que ainda formam engenheiros e técnicos em território nacional. Perde acesso a crédito subsidiado. Perde receita pública que financia saúde, educação, previdência. Perde a possibilidade de uma política energética soberana num momento em que a transição energética global redefine as hierarquias de poder internacional.

Perde, acima de tudo, instrumentos de mediação entre o Estado e o desenvolvimento nacional. E instrumentos perdidos, como a história latinoamericana comprova repetidamente, custam décadas para ser reconstruídos — quando são reconstruídos.

O jogo em curso: forças em disputa

O debate sobre privatizações no Brasil não acontece no vácuo. Ele se insere num processo político mais amplo em que setores do capital financeiro e da direita política tentam estabelecer a pauta econômica do próximo ciclo eleitoral. A pressão pela privatização da Petrobras ressurgiu com força precisamente quando o governo Lula começou a sinalizar o uso da empresa como vetor de uma política industrial de transição energética — o que contraria diretamente os interesses das grandes tradings de petróleo e dos fundos que apostam numa Petrobras enxuta, focada em extração e distribuição de dividendos.

No plano global, o imperialismo atravessa uma fase de reorganização. A disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia tecnológica e energética torna o controle sobre recursos naturais e infraestrutura estratégica ainda mais decisivo. Uma Petrobras privatizada seria muito mais vulnerável à pressão de Washington e muito mais útil como instrumento de política externa de potências estrangeiras do que uma empresa sob controle acionário do Estado brasileiro.

Não é coincidência que o discurso privatizante seja sempre mais intenso nos períodos em que o Brasil exibe maior autonomia relativa em política externa. A soberania energética e financeira incomoda quem quer manter nossa economia numa posição de subordinação funcional ao sistema imperialista — como já discutimos ao analisar a Soberania Digital no Brasil: A Soberania Política e suas Implicações, a disputa pela soberania atravessa todos os campos estratégicos da vida nacional.

Além da defesa: o que precisamos construir

Defender a Petrobras e o Banco do Brasil da privatização é necessário — mas não suficiente. A defesa passiva das conquistas não constrói correlação de forças, apenas adia derrotas quando o equilíbrio se inverte. Nossa classe precisa ir além da trincheira e avançar para um projeto afirmativo.

Isso significa disputar o caráter das empresas públicas. A Petrobras não deve ser apenas uma empresa lucrativa sob controle estatal — deve ser um vetor de soberania energética, de desenvolvimento tecnológico nacional, de emprego qualificado e de financiamento da transição para energias renováveis. O Banco do Brasil não deve ser apenas um banco que paga dividendos ao Tesouro — deve ser um instrumento ativo de desenvolvimento regional, de financiamento da produção nacional e de inclusão financeira da classe trabalhadora.

Em "Como Vencer na Grande Política", argumento que as batalhas mais decisivas não são aquelas que travam no campo do adversário, mas aquelas em que somos capazes de impor nossa pauta. A disputa pela Petrobras e pelo Banco do Brasil é uma dessas batalhas — não apenas defensiva, mas constitutiva de um projeto nacional-popular capaz de enfrentar a dependência estrutural.

Para isso, precisamos de organização política que transcenda o ciclo eleitoral. Precisamos de sindicatos atuantes nos setores estratégicos. Precisamos de intelectuais orgânicos capazes de comunicar essa análise à classe trabalhadora em linguagem acessível e mobilizadora. Precisamos, como trabalhadores e militantes, entender que cada batalha setorial se conecta à luta mais ampla pela hegemonia — pela capacidade de nossa classe de construir uma visão de mundo e um projeto de poder que dispute de verdade o futuro do país.

A soberania não se defende com palavras bonitas em manifestos. Defende-se com organização, com consciência de classe e com a capacidade de transformar análise em práxis política. O debate sobre as privatizações é, no fundo, um debate sobre que tipo de Brasil queremos construir — e quem terá força para construí-lo.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis: Vozes; Buenos Aires: CLACSO, 2000.
  • DOS SANTOS, Theotônio. Imperialismo e Dependência. México: Era, 1978.
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
  • LENIN, Vladimir Ilitch. O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo. São Paulo: Centauro, 2008.
```

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Da Dispersão à Soberania: Dialética Política entre Espontaneísmo e Projeto Nacional-Classista.

 Por Walter Azevedo

 

O impulso espontâneo e a pluralidade da esquerda

A multiplicidade de pautas no campo da esquerda no momento de ataque do imperialismo dos EUA contra o Brasil – dívida pública, Petrobras, reestatizações, eleições, estatais, antifascismo – expressa uma riqueza de demandas legítimas, nascidas de diferentes vivências da classe trabalhadora. Essa diversidade é o momento afirmativo da política viva: o aparecimento da necessidade, o surgimento das contradições sociais no plano da consciência, ainda que de forma dispersa.

No entanto, como ensinava Hegel, o verdadeiro não é apenas o imediato, mas o processo total de sua mediação. A mera somatória de desejos e indignações não constitui ainda um movimento político estruturado. A esquerda espontaneísta, ao tomar a imediaticidade da consciência como suficiente, nega a própria possibilidade de formar um todo orgânico. Cada militante é uma partícula em movimento, impulsionada por seu “coração”, por seu “interesse”, mas sem gravitação comum. É o que Marx criticava na política pequeno-burguesa: “vontades particulares erigidas à condição de universal”.

 

O vazio estratégico da não-unificação

A ausência de um projeto classista de soberania nacional-popular — que articule os diversos focos de luta em torno de um norte comum — é a negação dialética do potencial revolucionário presente nas lutas fragmentadas. Quando cada sujeito político atua isoladamente em seu campo temático, o que se apresenta como "pluralidade" se transforma em impotência tática. Não se trata aqui de apagar as particularidades, mas de encontrar a lógica comum que lhes dá sentido histórico, não há como evitar o uso do método agitação e propaganda de Lenin.

Sem mediação organizativa, sem projeto articulador, a reunião torna-se “uma sopa de letrinhas”, um brainstorm sem norte. É o momento em que a esquerda se define mais por negações reativas do que por afirmações propositivas. Atacamos o bolsonarismo, o capital financeiro, o entreguismo, tudo pode servir para críticas pontuais — mas não se constrói um centro próprio de atração, um projeto estruturante que suprassuma as pautas em um movimento de transformação social real.

Essa dispersão, que aparenta liberdade, é, na verdade, submissão inconsciente à estrutura dominante, pois sem direção coletiva, o capital define os rumos.

 

A espontaneidade à soberania como projeto político

A superação se dá quando a consciência dispersa se organiza, quando a pluralidade encontra sua unidade concreta: não pela imposição externa, mas pela mediação entre as contradições particulares e a totalidade histórica. Aqui, a soberania não é apenas um conceito jurídico ou estatal — é um projeto político coletivo, que unifica a luta pela dignidade social, pelo controle popular dos bens estratégicos, pela independência econômica, pela autodeterminação determinada pela classe da maioria, nossa classe trabalhadora.

A soberania torna-se, assim, a categoria estruturante da práxis popular: não como nacionalismo reacionário, mas como nacionalismo emancipador, que une a classe trabalhadora em torno de um ideal comum, antagônico ao capital internacional e às oligarquias locais.

O patriotismo, nesse processo, não é fetiche, mas afeto politizado: amor ao povo, à terra e à cultura como fundamentos para mover uma nova força que motive e levante nossa classe. Quando Lenin propõe o direito à autodeterminação dos povos, não se refere a um nacionalismo chauvinista, mas a uma estratégia de construção da hegemonia da classe trabalhadora frente à dominação imperialista.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Escritores, Big Techs e a Dialética da Palavra: A Soberania da Escrita

 

Por Walter Azevedo



 


A promessa tecnológica

As grandes empresas tecnológicas, chamadas “Big Techs”, apresentam-se como portadoras de um novo tempo, são o mecanismo do capital mais dinâmico em um sistema imperialista e monopolista com sede nos EUA. Com seus algoritmos, inteligências artificiais e redes globais com vasto capacidade de processamento, poder de capital e força política, tem tido a capacidade de prometer muito, inclusive de democratizar o conhecimento, multiplicar a capacidade criativa e dissolver fronteiras entre culturas. O escritor, nessa aparência imediata, parece ter conquistado um aliado: uma máquina que organiza, sugere, acelera, corrige.

Aqui, a afirmação dialética se mostra como possibilidade de expansão: mais leitores podem ter acesso a livros digitalizados, mais idiomas podem ser traduzidos em tempo real, mais pessoas podem escrever e divulgar seu pensamento e sua arte, qualquer operador pode gerar milhares de textos, livros, ensaios, etc.

A Inteligência Artificial (IA) aparece como uma tipografia infinita, onde cada autor teria milhares de braços capazes de multiplicar suas palavras, sua expressão e sua formulação.

O monopólio da linguagem

Mas, na essência, esta liberdade de negócios que a sociedade provê as Big Techs, guarda contradições fundamentais. O que a um tempo liberaliza, ao mesmo tempo, reforça uma apropriação privada, que limita a liberdade do saber, em benefício do novo proprietário. As palavras dos escritores, suas obras publicadas ou até fragmentos de blogs e redes sociais, são extraídas sem remuneração ou reconhecimento para alimentar as máquinas empresariais das Big Techs.

Este mecanismo tem um nome técnico, é o “aprendizado de máquina”, absorvem toda a construção do gênio humano desenvolvido e acumulado na história, transformam isto em dados proprietários daquelas empresas. O sistema alcança também o que os autores humanos têm escrito e produzido hoje, no tempo de nossas vidas. As Big Techs com suas IAs estão se travestindo em um monstruoso chupa-cabra universal.

O escritor/autor e sua produção se veem, então, reduzidos a matéria-prima gratuita de um processo industrial monopolista do capitalismo internacional.


- O texto autoral deixa de ser expressão singular e torna-se mero 'conteúdo' ou dado lógico.
- O estilo, antes marca de identidade, é mimetizado estatisticamente por modelos matemáticos.
- O valor simbólico da obra cede lugar à lógica mercantil de dados.

- A criatividade, inovação e a singularidade são rebaixadas a um mecanismo informatizado de geração de textos.
- A subjetividade é dissolvida em números,

- A obra autoral é transformada por algoritmos um sistema empresarial de pseudo neutralidade.

O escritor é como o mineiro que cava ouro para alimentar a riqueza de um império, mas que, ao final do dia, não pode pagar o próprio pão.

 

Para além do algoritmo

A contradição entre promessa e expropriação exige um momento de superação. Nem a recusa ingênua da tecnologia, nem a submissão ao capitalismo empresarial das Big Techs. É preciso uma nova síntese, em que escritores e autores em geral se percebam com classe, se organizem e realizem sua ação política, assumindo o protagonismo da luta pela soberania da criatividade e reconhecimento de sua produção, seu trabalho, seu direito autoral e sua remuneração.

Essa suprassunção pode se dar em várias direções:


1. Institucional: exigir regulações legais que obriguem as empresas a reconhecer e remunerar o uso de obras autorais em treinamentos e produção de IA.
2. Coletiva: criar cooperativas de escritores que construam seus próprios repositórios de textos, sob licenças coletivas e controladas, para negociar com força coletiva frente ao poder das corporações.
3. Cultural: afirmar a originalidade humana não como nostalgia, mas como força criadora que a máquina não substituirá — porque só o ser humano vive contradições, lutas e práticas históricas que alimentam a dialética da escrita.

4. Filosófica: o direito de autor, assim com qualquer direito, não é “natural” ou “absoluto”, é uma convenção social construída na história, que hoje está sendo desafiado pelas práticas materiais de um pequeno grupo de empresas gigantes de tecnologia estrangeiras.

5. Social: não será pela reclamação ou pelo ressentimento direcionado a um sistema material de organização do capital internacional, a atitude deve ser a da disputa social, onde as relações de poder são reescritas a cada novo movimento de grupos e classes sociais, aqui e no resto do mundo.

6. Civilizacional: a soberania não é mais um direito divino ou uma lei internacional, é uma força que um povo ou uma classe constroem na luta e na vitória sobre as disputas fundamentais, sobre a terra, sobre a organização social e sobre as riquezas de seu território, inclusive a riqueza imaterial do conhecimento e a produção artística

 

Aparência e essência: entre a superfície e a estrutura

Na superfície, a IA aparece como ferramenta neutra, produto inevitável do avanço técnico. Mas a essência mostra que ela é mediação de relações de produção e de poder: a concentração de capital em poucas mãos, a transformação do trabalho intelectual em insumo de algoritmos e a erosão do direito autoral em favor da mercantilização empresarial privada.

Nas profundezas dos algoritmos a essência se manifesta: todo o conhecimento humano se transforma na reprodução do monopólio de uma classe, reforçando um sistema que amplia a distância entre quem detém os meios digitais de produção(as Big Techs) e aqueles que apenas fornecem seu trabalho e sua criatividade.

 

Mediação: da consciência individual à prática histórica

O escritor isolado em si, na sua individualidade, autocentrado nas suas capacidades e idiossincrasias, se coloca numa situação de impotência. Mas a mediação entre consciência e estrutura histórica, mostra que o individual só encontra força na identidade coletiva e na ação de massas. A luta sindical, os movimentos de escritores e artistas, a articulação com juristas e técnicos podem transformar a indignação e derrota individual em potencial de vitória coletiva.

Exemplo histórico: tal como os operários tipógrafos do século XIX se depararam com a novas empresas que implantaram novas máquinas movidas a força de caldeiras a vapor, os escritores do século XXI não terão outra saída senão, organizar-se contra a exploração empresarial, inteligentemente articulada, via uma nova  técnica informática aplicada.

O desenvolvimento das Big Tecs também é um movimento de massas, massas de capitais investidos em empresas, articulado politicamente entre si e com domínio sobre os Estados nacionais, todos eles ativos na esfera digital e na ordem política, postulando leis e jurisprudência que lhes favoreçam. A classe do capital se move com profissionalismo político, é dominando a subjetividade social que mantenham sua posição de dominância e suas vantagens extraordinárias.

 

Da prática

Chamamos escritores, jornalistas, poetas, roteiristas e todos que vivem da palavra:

- Organizemo-nos em sindicatos, associações e partidos para construir nossa força coletiva.
- Realizemos a produção de textos e obras que engajem a arte, a simbologia, a cultura, o coração e as mentes de nosso público na luta política

- Conquistemos leis que submetam as empresas de tecnologia à transparência e remuneração no uso de nossas obras sugadas pelas IAs.
- Criemos repositórios autônomos que protejam a produção humana, com diversidade linguística e cultural.
- Formulemos nossa teoria a executemos na prática, derrotando o extrativismo digital e sua estrutura empresarial.

A luta não é contra uma nova tecnologia, mas contra o domínio político de um monopólio. A palavra, enquanto criação humana, é campo de batalha. Cabe a nós impedirmos que ela seja reduzida a uma mercadoria sem alma e com poucos donos.

 

A dialética da palavra

As correntes que tememos nos perder, não guiam nossos caminhos, mas restringem a nossa realização. São puras correntes ideológicas que um virar de página as deixam para trás.

O futuro da escrita não será dado pelas máquinas, mas pela consciência e pela luta daqueles que escrevem e trabalham, se estes tomarem seu destino em suas mãos. Porque, como já escreveu Marx, 'a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora'. Essa classe inclui também os trabalhadores da palavra.