terça-feira, 3 de novembro de 2026

Analisar a vitória de Lula não como fato isolado, mas como resultado

A vitória de outubro de 2022 não brotou de um acaso, tampouco de um carisma restaurado. Ela expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta.

Principais pontos

  • A vitória de outubro de 2022 não brotou de um acaso, tampouco de um carisma restaurado; expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta.
  • A derrocada da extrema direita, longe de ser uma simples derrota de nomes, revela o grau de instabilidade em que o próprio capital se encontra.
  • Lula obteve 60.345.999 votos no segundo turno — mais de 60 milhões de brasileiras e brasileiros apostaram numa alternativa ao desmonte.
  • A crise do capital manifesta-se como incapacidade do bloco dominante de impor um projeto único, duradouro e aceito pelas massas.

Crise do capital e correlação de forças: a derrocada da extrema direita não é acidente

Por Walter Azevedo

Quando Lula subiu a rampa do Planalto, a extrema direita ainda arranhava as portas dos quartéis. A posse não encerrou a disputa, como lembram os acampamentos golpistas que se arrastaram por semanas. Mas o fato de a ultradireita ter perdido o controle do Executivo — depois de quatro anos de ofensiva brutal contra os direitos sociais — exige uma leitura que vá além do registro eleitoral. A vitória de outubro de 2022 não brotou de um acaso, tampouco de um carisma restaurado. Ela expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta. E a derrocada da extrema direita, longe de ser uma simples derrota de nomes, revela o grau de instabilidade em que o próprio capital se encontra.

A derrota eleitoral da extrema direita como sintoma da crise orgânica

O bolsonarismo governou para uma fração ávida do capital: o agronegócio exportador, a finança rentista, as milícias evangélicas e o lumpesinato de farda. Esse bloco, porém, não conseguiu sustentar a coesão quando a crise econômica bateu na vida concreta da classe trabalhadora. A inflação de alimentos corroeu o salário de quem vive do trabalho. O desemprego e a informalidade mantiveram-se elevados. A gestão da pandemia escancarou a indiferença do governo diante da morte precoce. O que parecia base fiel foi se desfazendo na medida em que o medo da miséria superava o medo do outro.

Lula obteve 60.345.999 votos no segundo turno — mais de 60 milhões de brasileiras e brasileiros apostaram numa alternativa ao desmonte. Uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos separou dois projetos de sociedade. Essa margem estreita é a fotografia da correlação de forças: equilibrada, tensa, disputada palmo a palmo. O recuo da extrema direita não significou sua aniquilação, mas a perda temporária da iniciativa política. A crise do capital, nesse quadro, manifesta-se como incapacidade do bloco dominante de impor um projeto único, duradouro e aceito pelas massas.

Aqui vale a mediação da totalidade. A ultradireita não é um corpo estranho à ordem; é a válvula de escape do próprio capital quando as promessas de conciliação se esgotam. Sua ascensão em 2018 e sua posterior derrocada não são eventos isolados. São momentos da mesma crise orgânica, na qual as classes dominantes recorrem a formas autoritárias para garantir a extração de riqueza, mas encontram resistência real no território, nas periferias, nos sindicatos e nas igrejas de base. A derrota eleitoral do bolsonarismo expôs a fratura entre as frações burguesas: o capital financeirizado desconfia da aventura golpista, enquanto o agronegócio ainda aposta na intimidação.

Correlação de forças: o que pesou na virada

Não devemos reduzir a vitória de Lula a uma escolha racional de eleitores esclarecidos. A virada do segundo turno resultou do deslocamento de setores da classe média empobrecida, da juventude precarizada e de parcelas do campesinato que haviam flertado com o bolsonarismo em 2018. Esses grupos não migraram por amor ideológico a um programa socialista. Migraram porque a materialidade da crise — o preço do botijão de gás, a gasolina, o aluguel — impôs uma ruptura prática com a propaganda anticorrupção da extrema direita. Tal movimento não é espontâneo: é produto de anos de trabalho de base, de greves, de ocupações, de comunidades eclesiais que mantiveram vivo o tecido da solidariedade.

Três fatores estruturais explicam essa virada:

  • O fracasso da política econômica bolsonarista em conter a carestia sem sacrificar a renda do capital, o que corroeu o apoio popular do governo.
  • O crescimento das organizações populares — movimentos de luta por moradia, centrais sindicais, quilombolas, indígenas — que disputaram o senso comum nas redes e nas ruas.
  • A fissura no bloco dominante, com frações burguesas pragmáticas aceitando a derrota eleitoral para conter o risco de instabilidade institucional que ameaçava seus próprios negócios.

Como escrevi em Como Vencer na Grande Política:

A luta de classes não cabe integralmente nas urnas, mas as urnas expressam, com todas as limitações do sistema representativo, a correlação de forças acumulada nos embates que as massas travaram fora delas.

A virada de outubro não nasceu no horário eleitoral; nasceu da greve dos garis, da ocupação de terras improdutivas, da resistência das cozinhas solidárias, da mobilização que impediu o golpe em gestação. O voto foi o momento terminal de um processo de acumulação de forças.

O que a crise do capital reserva para a classe trabalhadora

Se a extrema direita recuou, isso não devolveu ao capital a estabilidade perdida. Pelo contrário. A derrota bolsonarista abriu uma frente de chantagem permanente: a Faria Lima, os fundos de investimento e o rentismo passaram a exigir que o novo governo pague a conta da crise com arrocho fiscal, cortes no SUS, na Previdência e na educação. O terceiro turno é a ofensiva do capital sobre o resultado das urnas. A cada dia, a mídia econômica cobra uma “responsabilidade” que na prática significa transferir renda dos salários para os juros da dívida pública.

Referências

  • MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • LENIN, Vladimir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capital. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: TRASPADINI, Roberta; STEDILE, João Pedro (orgs.). Ruy Mauro Marini: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
  • SANTOS, Theotônio dos. Teoria da dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.

Perguntas Frequentes

Por que a vitória de Lula não deve ser analisada como fato isolado?

A vitória de Lula expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta. Ela não brotou de acaso nem de carisma restaurado, mas da correlação de forças entre classes em um momento de crise orgânica do capital.

O que a derrocada da extrema direita revela sobre a crise do capital?

A derrocada da extrema direita revela o grau de instabilidade em que o próprio capital se encontra. A crise se manifesta como incapacidade do bloco dominante de impor um projeto único, duradouro e aceito pelas massas.

Qual foi a margem de votos que separou Lula da extrema direita?

Lula obteve 60.345.999 votos no segundo turno. Uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos separou dois projetos de sociedade, o que é a fotografia da correlação de forças: equilibrada, tensa, disputada palmo a palmo.

A derrota eleitoral da extrema direita significou sua aniquilação?

Não. O recuo da extrema direita não significou sua aniquilação, mas a perda temporária da iniciativa política. A correlação de forças permanece equilibrada e tensa, com frações burguesas divididas entre a desconfiança da aventura golpista e a aposta na intimidação.

Quais frações do capital sustentaram o bolsonarismo no governo?

O bolsonarismo governou para uma fração ávida do capital: o agronegócio exportador, a finança rentista, as milícias evangélicas e o lumpesinato de farda. Esse bloco não conseguiu sustentar a coesão quando a crise econômica bateu na vida concreta da classe trabalhadora.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Terceiro turno: ofensiva rentista e taxação dos super-ricos

O chamado terceiro turno é uma disputa que não está nas urnas, mas nos gabinetes, nas mesas de operação e nas capas de jornal; a classe do capital não aceita o resultado e prefere reescrevê-lo por outros meios.

Principais pontos

  • Antes mesmo de o último voto ser totalizado, os terminais da Faria Lima já cravavam a pauta de cortes em salários, saúde, previdência e investimento público.
  • A chantagem é explícita: ou o governo eleito adota o programa derrotado, ou o dólar sobe, os juros disparam e a crise se aprofunda.
  • Enquanto um trabalhador com salário acima de R$ 4.664,68 paga alíquota de 27,5% de Imposto de Renda, quem recebe lucros e dividendos paga alíquota zero desde 1995.
  • O 'ajuste fiscal' exigido pela Faria Lima tem nome e sobrenome: preservar a isenção dos super-ricos e garantir que a dívida pública continue sendo um ralo por onde escoa a riqueza produzida pela classe trabalhadora.

Terceiro turno: ofensiva rentista e a saída pela taxação dos super-ricos

Por Walter Azevedo

Antes mesmo de o último voto ser totalizado, os terminais da Faria Lima já cravavam a pauta. O noticiário econômico e as agências de risco falam em "expectativa de responsabilidade fiscal". Tradução: cortes em salários, saúde, previdência e investimento público. Esse roteiro virou o chamado terceiro turno — uma disputa que não está nas urnas, mas nos gabinetes, nas mesas de operação e nas capas de jornal. A classe do capital não aceita o resultado. Prefere reescrevê-lo por outros meios.

O terceiro turno como continuação da luta de classes por outros meios

A expressão "terceiro turno" ganhou força nos círculos financeiros. Revela algo mais profundo do que cobrança de "equilíbrio fiscal". A direita derrotada não abandonou a disputa. Deslocou-se para a trincheira econômica, onde detém poder real: controle sobre crédito, dívida pública, câmbio e fluxo de capitais. A cada manhã, manchetes cobram "confiança do mercado". A cada tarde, economistas anunciam "fuga de investidores" caso não haja ajuste. A chantagem é explícita: ou o governo eleito adota o programa derrotado, ou o dólar sobe, os juros disparam e a crise se aprofunda.

Trata-se de uma correlação de forças na qual o capital financeirizado impõe sua agenda sem o custo político de governar. A vitória eleitoral da classe trabalhadora não encerrou a luta de classes; apenas mudou seu terreno. No segundo turno, a mobilização popular demonstrou capacidade de reverter tendências. Agora, o desafio é impedir que essa energia se dissipe. Como advertimos em "Organizar a classe para não entregar o mandato", a desmobilização é a porta de entrada para o sequestro do mandato popular.

O que a Faria Lima esconde: a máquina de transferir renda para o topo

A chantagem do "mercado" não é técnica, é política. Por trás do discurso da "responsabilidade fiscal" opera uma máquina concreta de transferência de renda da base para o topo. O Estado brasileiro paga, todos os anos, centenas de bilhões em juros da dívida pública. Para garantir esse fluxo, os juros reais estão entre os mais altos do planeta. Cada ponto percentual de elevação da Selic engorda bancos, fundos e rentistas — e sangra o orçamento de escolas, hospitais e salários.

Um dado expõe a farsa: enquanto um trabalhador com salário acima de R$ 4.664,68 paga alíquota de 27,5% de Imposto de Renda, quem recebe lucros e dividendos paga alíquota zero desde 1995. A classe que mais chantageia por cortes é exatamente a que menos contribui. O "ajuste fiscal" exigido pela Faria Lima tem nome e sobrenome: preservar a isenção dos super-ricos e garantir que a dívida pública continue sendo um ralo por onde escoa a riqueza produzida pela classe trabalhadora. A independência do Banco Central virou dogma, blindando essa estrutura contra a vontade popular. Sobre o caráter de classe do fiscalismo, remetemos ao post "Desmontar o 'tesouraço' como projeto de classe".

A única saída é política: mobilização e taxação dos super-ricos

Diante da chantagem, a resposta não pode ser técnica nem administrativa. É preciso deslocar o eixo do debate. A saída apontada pela luta de classes é reorganizar as forças populares para impor uma agenda inversa: taxar os super-ricos, auditar a dívida pública e reorientar o orçamento para a maioria. Não se trata de "gasto irresponsável", mas de reverter a lógica que faz o Estado funcionar como caixa automático do capital financeiro.

Taxação progressiva sobre grandes fortunas, lucros e dividendos, grandes heranças e patrimônio imobiliário especulativo. Controle de capitais para impedir a chantagem da fuga. Redução dos juros e auditoria cidadã da dívida. Essas medidas não são apenas justiça fiscal; são condição de soberania nacional. Sem elas, qualquer governo popular fica refém da Faria Lima. A correlação de forças necessária não surge de reuniões ministeriais, mas da organização de base, da pressão sindical, dos movimentos de moradia e da juventude. Como mostramos em "Interpretar a virada do segundo turno", a mobilização popular alterou a balança. Agora é preciso manter essa chama acesa.

Da resistência à ofensiva: construir hegemonia popular

O terceiro turno é a tentativa do capital de converter derrota eleitoral em vitória programática. A cada manchete alarmista, a cada ameaça de fuga de dólares, a cada editorial cobrando "reformas", está em jogo o controle do orçamento e do sentido do Estado. A classe trabalhadora já demonstrou, nas ruas e nas urnas, que tem força. Falta transformar essa força em projeto de hegemonia: disputar o senso comum, explicar por que os juros sobem, por que o salário é corroído, por que a escola falta verba. A consciência de classe não nasce pronta; é construída na luta cotidiana.

A taxação dos super-ricos como bandeira unificadora pode ser o ponto de inflexão. Ela une demandas imediatas — mais leitos, mais merenda, mais salário — a uma perspectiva estratégica: subordinar o sistema financeiro ao desenvolvimento nacional-popular. Não há fatalidade. A chantagem só funciona se o povo aceitar a chantagem. Organizar-se é recusar o jogo. É construir, desde já, a força social capaz de dizer: a dívida é vossa, a soberania é nossa.

A resposta ao terceiro turno não virá dos gabinetes. Virá das ruas, das assembleias, dos sindicatos, das cozinhas comunitárias e das filas de emprego. O capital não descansa; nossa classe também não pode descansar. Cada trabalhador consciente é um elo na corrente que pode arrebentar a jaula da Faria Lima. A história nos julgará pela ousadia com que respondemos a esta chantagem.

Referências

  • MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte.
  • LENIN, Vladimir. O Imperialismo, fase superior do capitalismo.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.

Perguntas Frequentes

O que é o 'terceiro turno' mencionado no texto?

É uma disputa que não ocorre nas urnas, mas nos gabinetes, mesas de operação e capas de jornal, na qual a classe do capital tenta impor sua agenda econômica após a derrota eleitoral, reescrevendo o resultado por outros meios.

O que está por trás da chantagem da Faria Lima?

Uma máquina concreta de transferência de renda da base para o topo: o Estado paga centenas de bilhões em juros da dívida pública com juros reais entre os mais altos do planeta, engordando bancos, fundos e rentistas enquanto sangra o orçamento social.

Como a isenção de impostos dos super-ricos se relaciona com o ajuste fiscal?

Quem recebe lucros e dividendos paga alíquota zero de Imposto de Renda desde 1995, enquanto trabalhadores assalariados pagam até 27,5%. O ajuste fiscal exigido pelo mercado visa preservar essa isenção e manter a dívida pública como ralo da riqueza produzida pelos trabalhadores.

Qual é a saída proposta no texto para enfrentar essa ofensiva?

A saída passa pela mobilização popular para impedir que a energia demonstrada no segundo turno se dissipe, aliada à taxação dos super-ricos, revertendo a transferência de renda da base para o topo e garantindo que o mandato popular não seja sequestrado.

Por que a desmobilização é apontada como a porta de entrada para o sequestro do mandato?

Porque a vitória eleitoral da classe trabalhadora não encerrou a luta de classes; apenas mudou seu terreno. A desmobilização permite que a agenda derrotada nas urnas seja imposta por meio da chantagem econômica, do controle do crédito, da dívida pública e do câmbio.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Interpretar a virada do segundo turno: correlação de forças e lições organizativas

A virada do segundo turno se explica pela correlação de forças entre classes e pelo esforço paciente de militantes que transformaram a reta final numa batalha de consciência — foi essa mobilização que deslocou os números.

Principais pontos

  • A virada do segundo turno é a expressão visível de uma disputa desigual entre a classe do capital e a classe trabalhadora, decidida pela organização territorial e presença cotidiana.
  • Em 2022, a candidatura da classe trabalhadora saltou de 57,2 milhões para 60,3 milhões de votos entre os turnos, puxando setores abandonados pelo voto útil da esquerda liberal.
  • A superfície eleitoral esconde o poder de veto do rentista sobre o orçamento, garantido pelo Congresso eleito, que exige organizar a classe para não entregar o mandato.
  • A política de massas só existe quando os milhões se movem; a abstenção e o voto envergonhado são instrumentos silenciosos do capital para esvaziar a soberania popular.
  • As lições organizativas da virada não podem ser arquivadas até a próxima eleição — exigem organização territorial, escuta real e disputa do senso comum das massas.

Correlação de forças e a virada do segundo turno: quando a rua se torna método

Por Walter Azevedo

A eleição se encerra, mas a política continua. O segundo turno que acaba de fazer tremer as certezas dos institutos de pesquisa não se explica por erros de cálculo nem por reviravoltas de última hora. Explica-se pela correlação de forças entre classes — e pelo esforço paciente de milhares de militantes que transformaram a reta final numa batalha de consciência. Foi essa mobilização que deslocou os números: em 2022, a candidatura da classe trabalhadora saltou de 57,2 milhões para 60,3 milhões de votos entre os dois turnos, puxando para as urnas setores que o voto útil da esquerda liberal abandonara. Não foi milagre. Foi método.

A virada como síntese da luta de classes

A virada não nasce do acaso. Ela é a expressão visível de uma disputa desigual que se trava no subterrâneo da formação social. De um lado, a classe do capital dispõe de igrejas, aplicativos, latifúndios e a máquina do Estado. De outro, a classe trabalhadora dispõe de sua própria organização: comitês, sindicatos, movimentos, coletivos. Quando essa organização decide disputar o senso comum das massas — e não apenas administrar a campanha — a correlação de forças se altera. Como mostramos na análise sobre a ressignificação da camisa verde-amarela, a disputa pela hegemonia passa pelo símbolo, pelo afeto e pela rua.

O que se esconde atrás da superfície eleitoral

A superfície eleitoral esconde uma luta muito mais dura. O Congresso eleito segue expressando a aliança do capital financeirizado com o agronegócio e a bancada da violência. O mesmo processo que garantiu a vitória no Executivo manteve intacto o poder de veto do rentista sobre o orçamento público. Por isso, interpretar a virada como um cheque em branco seria entregar a vitória de bandeja. A tarefa imediata não é “dialogar” com os golpistas de sempre nem agradar o mercado: é organizar a classe para não entregar o mandato. Como alertamos em outro momento, a desmobilização seria a rendição.

“A política começa onde existem milhões de homens.” — Lênin

Essa frase não é um enfeite retórico. A virada do segundo turno foi a demonstração prática de que a política de massas só existe quando os milhões se movem. A abstenção, o voto envergonhado e a indiferença são os instrumentos silenciosos do capital para esvaziar a soberania popular. Reverter esse cenário exige mais do que propaganda: exige organização territorial, presença cotidiana e escuta real das dores da classe trabalhadora.

Lições organizativas para não repetir o ciclo

A virada deixa lições que não podem ser arquivadas até a próxima eleição. Elas precisam se converter em tática permanente.

  • O voto útil não é dado; é construído por mediações concretas: porta em porta, ato de rua, mutirão, cultura popular.
  • A periferia decide quando enxerga sua vida material na disputa — não quando recebe santinhos, mas quando o comitê oferece escuta e projeto.
  • A disputa de hegemonia se vence no algoritmo, mas se sustenta no território: o trabalho de base é a vacina contra a mentira organizada da ultradireita.
  • A vitória eleitoral sem organização popular vira refém do parlamento; o mandato só se mantém de pé se houver movimento nas ruas.

Essas lições dialogam diretamente com a crítica que fazemos ao fiscalismo e ao ‘tesouraço’. Não adianta vencer a eleição se a cidade — primeiro território onde a classe trabalhadora sente o corte — continuar entregue aos interesses do capital. A virada precisa ser traduzida em poder popular nos bairros, nas filas do SUS, nos terminais de ônibus, nas ocupações.

Construir hegemonia para além da urna

A classe do capital já entendeu: perdeu a eleição, mas não perdeu o poder. Por isso avança no Congresso, nos tribunais e na imprensa para estrangular o mandato popular. A classe trabalhadora precisa responder com a única força que tem: a sua organização. Isso significa transformar os comitês eleitorais em núcleos de formação política, espaços de acompanhamento das políticas públicas e trincheiras contra o ajuste fiscal que ameaça salários, SUS e Previdência.

A virada do segundo turno mostrou que é possível reverter a correlação de forças quando a mobilização deixa de ser sazonal e se torna método. O próximo capítulo será escrito nas ruas, nos territórios e nas disputas cotidianas — não nos gabinetes. Nossa classe não pode se furtar a essa tarefa. A história não absolve os que se omitem, mas ensina os que se organizam.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • LÊNIN, Vladimir. Que fazer? Problemas de organização do movimento social-democrata russo.
  • MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo.
  • SANTOS, Theotônio dos. Teoria da Dependência: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Perguntas Frequentes

O que explica a virada do segundo turno segundo o texto?

A virada é resultado da correlação de forças entre classes: a mobilização de comitês, sindicatos e coletivos que disputou o senso comum das massas e deslocou os números eleitorais, não de erros de pesquisa.

Quantos votos a candidatura da classe trabalhadora ganhou entre os turnos em 2022?

Em 2022, a candidatura da classe trabalhadora saltou de 57,2 milhões para 60,3 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno, incorporando setores abandonados pelo voto útil da esquerda liberal.

Qual é o principal instrumento do capital para esvaziar a soberania popular?

A abstenção, o voto envergonhado e a indiferença são os instrumentos silenciosos do capital, que esvaziam a soberania popular e precisam ser revertidos com organização territorial e presença cotidiana.

O que o texto alerta sobre o Congresso eleito?

O Congresso eleito segue expressando a aliança do capital financeirizado com o agronegócio e a bancada da violência, mantendo intacto o poder de veto do rentista sobre o orçamento público.

Quais lições organizativas a virada deixa para a esquerda?

A virada ensina que é preciso organizar a classe para não entregar o mandato, com organização territorial, escuta real das dores da classe trabalhadora e disputa da hegemonia por símbolos, afetos e rua.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Organizar a classe para não entregar o mandato: vitória e forças

A vitória eleitoral não transfere hegemonia; quem confunde maioria eleitoral com hegemonia ignora que o poder real se exerce diariamente nos aparelhos do Estado, na grade midiática e na pressão organizada das frações da classe do capital. A desmobilização popular, nesse contexto, não é neutralidade: é consentimento.

Principais pontos

  • O voto é um momento da luta política, não o seu desfecho.
  • A desmobilização popular não é neutralidade: é consentimento.
  • Esse Congresso hostil não cederá por bom senso; ele recua apenas quando sente a força material da classe trabalhadora nas ruas, nas greves e nos territórios.
  • A luta eleitoral, se não for acompanhada de organização popular, vira insumo para o marketing político e para a conciliação.

Organizar a classe para não entregar o mandato: vitória eleitoral e correlação de forças

Por Walter Azevedo

Nos últimos dias, a reforma ministerial cedeu pastas estratégicas ao chamado centrão para assegurar votos no Congresso. Não se tratou de uma decisão administrativa, mas de um recuo tático diante da correlação de forças que se formou desde a posse. A base social que elegeu a chapa vitoriosa em 2022 permanece difusa, desarmada politicamente e ausente das ruas. Enquanto isso, os agentes do ajuste fiscal avançam com a chantagem de sempre: mais juros, menos direitos, metas de superávit. É nesse terreno movediço que a desmobilização se transforma em entrega.

Vitória eleitoral não transfere hegemonia

O voto é um momento da luta política, não o seu desfecho. Quem confunde maioria eleitoral com hegemonia ignora que o poder real se exerce diariamente nos aparelhos do Estado, na grade midiática e na pressão organizada das frações da classe do capital. A vitória de outubro de 2022 freou a extrema direita, mas não reverteu a dependência estrutural nem deslocou os interesses dominantes que comandam o fluxo da riqueza. Como já alertamos ao desmontar o tesouraço como projeto de classe, aceitar o ajuste fiscal é sabotar as maiorias trabalhadoras.

O Orçamento Geral da União executou em 2024 cerca de R$ 1,9 trilhão em juros e amortizações da dívida pública. Enquanto o Tesouro transfere essa montanha de valor para os detentores de títulos, o Congresso impõe contrapartidas: corte de investimento, congelamento de salários e desidratação do SUS. Essa arquitetura não é técnica; é a forma concreta de subordinação do Estado aos interesses do capital financeirizado. A desmobilização popular, nesse contexto, não é neutralidade: é consentimento.

O Congresso hostil é a expressão da luta de classes

O parlamento brasileiro expressa, em sua composição majoritária, os interesses do agronegócio, do mercado financeiro e das antigas oligarquias regionais. A bancada ruralista, a bancada evangélica reacionária e o centrão fisiológico não são acidentes conjunturais: são a tradução política da hegemonia que a classe do capital ainda detém na sociedade civil. Quando aprovam o orçamento impositivo com mais de 50 bilhões de reais em emendas, transformam o orçamento público em moeda de troca para perpetuar sua dominação.

Esse Congresso hostil não cederá por bom senso. Ele recua apenas quando sente a força material da classe trabalhadora nas ruas, nas greves e nos territórios. A experiência histórica mostra que toda grande conquista de direitos nasceu de um ciclo de mobilização, não de acordos de gabinete. A luta eleitoral, se não for acompanhada de organização popular, vira insumo para o marketing político e para a conciliação.

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

Organizar para disputar a totalidade

A tarefa central é transformar a vitória eleitoral em força social organizada. Isso exige retomar os sindicatos, as associações de bairro, os comitês territoriais, os movimentos estudantis e as frentes populares. A classe trabalhadora precisa de instrumentos próprios de luta, capazes de pautar a agenda legislativa e impor limites ao Congresso. Não se trata de pedir licença para governar: trata-se de acumular poder popular para que o mandato não seja refém do chantagista de plantão.

Também exige disputar a batalha cultural, como nos ensina a ressignificação da camisa verde-amarela no algoritmo. Quem controla o senso comum controla parte decisiva da correlação de forças. O discurso do sacrifício fiscal, por exemplo, precisa ser enfrentado com pedagogia política: explicar por que a dívida não é do povo, por que o SUS definha e por que os juros altos financiam o rentismo.

Por fim, a desmobilização é entrega. Cada corte, cada isenção fiscal para os ricos, cada política de arrocho sem reação popular é mais um tijolo no muro que separa o governo eleito da sua base. A saída não é o voluntarismo moral nem a aposta em milagres institucionais. É a práxis concreta: organizar a classe trabalhadora, romper com a chantagem e construir um projeto nacional-popular que enfrente a dependência.

A vitória de 2022 abriu uma janela. A janela só se transforma em porta se a classe trabalhadora ocupar as ruas, os locais de trabalho e os espaços de decisão. O Congresso hostil não é um obstáculo intransponível; é a expressão de uma correlação de forças que se altera na luta. A tarefa imediata é reativar a mobilização popular, fortalecer os instrumentos da classe e dizer em alto e bom som: sem organização, a vitória eleitoral vira derrota programada.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
  • MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte.
  • LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução.
  • SANTOS, Theotônio dos. Dependência e mudança social.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência.

Perguntas Frequentes

Por que a vitória eleitoral não garante hegemonia?

Porque o voto é um momento da luta política, não o seu desfecho. O poder real se exerce diariamente nos aparelhos do Estado, na mídia e na pressão organizada das frações da classe do capital, que continuam dominando o fluxo da riqueza.

O que significa desmobilização popular diante do Congresso hostil?

Significa consentimento com a arquitetura de subordinação do Estado aos interesses do capital financeirizado. Sem mobilização nas ruas, greves e territórios, o Congresso hostil impõe cortes, congelamentos e desidratação de direitos.

Como o Congresso hostil expressa a luta de classes?

A bancada ruralista, a bancada evangélica reacionária e o centrão fisiológico são a tradução política da hegemonia que a classe do capital detém na sociedade civil. Eles transformam o orçamento público em moeda de troca para perpetuar sua dominação.

Qual é o papel da organização da classe trabalhadora nesse cenário?

A organização popular é o único instrumento capaz de fazer o Congresso hostil recuar. Toda grande conquista de direitos nasceu de um ciclo de mobilização, não de acordos de gabinete, portanto a luta eleitoral deve ser acompanhada de organização popular.

Quais são os efeitos concretos da desmobilização apontados no texto?

A desmobilização se transforma em entrega: mais juros, menos direitos, metas de superávit. O Congresso impõe corte de investimento, congelamento de salários e desidratação do SUS, enquanto o Tesouro transfere cerca de R$ 1,9 trilhão para detentores de títulos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ressignificar a camisa verde-amarela: hegemonia e algoritmo

A disputa pela camisa verde-amarela é disputa de hegemonia no terreno mais capilar do mundo contemporâneo — o algoritmo. Recuperá-la é devolver ao povo um símbolo que sempre foi seu.

Principais pontos

  • A extrema direita operou uma captura simbólica da camisa da seleção entre 2013 e 2018, transformando o verde-amarelo em uniforme de vandalismo autoritário.
  • O senso comum é a cidadela onde se decide, silenciosamente, quem manda; a camisa verde-amarela é um significante em disputa que condensa o nacional-popular.
  • O algoritmo não é neutro: ele privilegia conteúdos que geram engajamento rápido, como raiva, medo e espetáculo.
  • A luta de classes não se trava apenas nos salários e nas greves, mas também na produção de sentido que orienta as massas.
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Ressignificar a camisa verde-amarela: hegemonia, algoritmo e a luta pelo senso comum das massas

Por Walter Azevedo

Desde que a camisa amarela da seleção virou uniforme de milícia digital, a classe trabalhadora brasileira carrega um incômodo simbólico. Há poucas semanas, a cena se repetiu nas arquibancadas virtuais: de um lado, perfis bolsonaristas tentando reivindicar a camisa como propriedade do ódio; de outro, militantes, artistas e torcedores comuns postando a mesma peça com mensagens de soberania, democracia e justiça social. O embate ultrapassou o território do futebol e invadiu o feed de cada trabalhador. Não se trata de vaidade ou nostalgia: é disputa de hegemonia no terreno mais capilar do mundo contemporâneo — o algoritmo.

O símbolo sequestrado

A extrema direita, com método e financiamento, operou uma captura simbólica da camisa da seleção. Entre 2013 e 2018, aproveitou a frustração popular com a crise econômica para transformar o verde-amarelo em uniforme de vandalismo autoritário. Ferramentas digitais foram essenciais: grupos de WhatsApp, perfis falsos e impulsionamento pago difundiram a associação entre a camisa e um nacionalismo excludente, xenófobo e antipopular. A mídia hegemônica, por conivência ou estupidez, amplificou o enquadramento. Assim, um patrimônio afetivo de mais de um século foi reduzido a bandeira de uma fração da classe dominante — aquela que explora, rouba e mantém privilégios. Essa operação não é diferente da que a extrema direita tenta com a fé católica, como já analisamos em outro texto sobre a cooptação religiosa para fins eleitorais. O que está em jogo é o sequestro de símbolos profundamente enraizados no povo.

Hegemonia e senso comum

Antonio Gramsci ensinou que a dominação de uma classe se sustenta não apenas pela força, mas pela direção moral e intelectual da sociedade. O senso comum — esse amálgama de noções herdadas, crenças e afetos — é a cidadela onde se decide, silenciosamente, quem manda. A camisa verde-amarela, nesse sentido, é um significante em disputa: ela condensa o nacional-popular, a ideia de povo e pátria. Quando a extrema direita a sequestra, ela não apenas veste seus seguidores; ela coloniza um pedaço da alma popular. Recuperá-la é devolver ao povo um símbolo que sempre foi seu. A luta de classes não se trava apenas nos salários e nas greves, mas também na produção de sentido que orienta as massas. Sem essa dimensão, a transformação estrutural torna-se impossível, pois o consentimento ativo das maiorias é condição para qualquer projeto emancipatório.

O algoritmo como arena da luta de classes

A disputa pela camisa não acontece em praças abstratas, mas nas plataformas. O algoritmo não é neutro: ele privilegia conteúdos que geram engajamento rápido, como raiva, medo e espetáculo. A direita entendeu isso e produziu toneladas de memes, vídeos curtos e discursos de ódio. A esquerda, por muito tempo, respondeu com argumentos longos e teóricos — ineficazes nesse ambiente. Entretanto, nos últimos anos, movimentos e coletivos lançaram campanhas criativas para ressignificar a camisa: vídeos de trabalhadores vestindo o uniforme enquanto falam de salário digno, imagens de atletas apoiando causas sociais, e a hashtag #CamisaParaTodos. Um exemplo concreto: após a posse de Lula em 2023, milhares de apoiadores usaram a camisa da seleção com a faixa presidencial, rompendo o monopólio bolsonarista. Essas ações mostram que é possível disputar o senso comum dentro do algoritmo, desde que se fale a língua da plataforma sem abrir mão do conteúdo de classe. Esse esforço se conecta com a crítica ao fiscalismo e ao ajuste que ataca os trabalhadores, pois a defesa da soberania nacional é inseparável da luta contra a subordinação rentista.

O que aprendemos com essa disputa

A batalha pela camisa ensina três lições estratégicas. Primeiro, não abandonar símbolos ao adversário: a esquerda historicamente perdeu terreno ao rejeitar a pátria como valor, deixando-a para a extrema direita. Segundo, ocupar as plataformas não é futilidade — é necessidade, pois é onde a classe trabalhadora consome informação e forma opinião. Terceiro, a disputa simbólica só tem eficácia se estiver ligada a lutas concretas: a ressignificação da camisa ganha corpo quando acompanhada da luta por emprego, comida e soberania. O símbolo não substitui a organização, mas a potencializa. A hegemonia, como categoria gramsciana, nunca se constrói no vazio: ela exige mediação com a vida real das massas, com suas dores e esperanças. Por isso, cada post, cada vídeo, cada gesto de vestir a camisa deve ser um ato político consciente, não mera reação estética.

Conclusão: da ressignificação à organização

A camisa verde-amarela pode voltar a ser o que sempre foi: um manto popular, carregado de história e de futuro. Para isso, é necessário que cada ato nas redes esteja conectado a um projeto político de emancipação. A classe trabalhadora precisa disputar cada espaço simbólico com a mesma seriedade com que disputa salários e direitos. Convidamos cada leitor a vestir a camisa e, junto com ela, a consciência de classe. Não é sobre torcer, é sobre transformar. O caminho passa pela organização nos territórios, nos sindicatos e nas plataformas, unificando a luta cultural com a luta material. A disputa pelo senso comum é longa, mas cada símbolo reconquistado é um passo na construção de uma nova hegemonia popular.

Referências

  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • Relato sobre a campanha #CamisaParaTodos, em portais independentes de mídia alternativa.
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Perguntas Frequentes

Como a extrema direita sequestrou a camisa da seleção brasileira?

Aproveitou a frustração popular com a crise econômica entre 2013 e 2018 e usou grupos de WhatsApp, perfis falsos e impulsionamento pago para associar a camisa a um nacionalismo excludente, xenófobo e antipopular.

O que Gramsci explica sobre a disputa de símbolos populares?

Gramsci ensina que a dominação de uma classe se sustenta pela direção moral e intelectual da sociedade. O senso comum é a cidadela onde se decide silenciosamente quem manda, e símbolos como a camisa condensam o nacional-popular.

Por que o algoritmo é central nessa disputa de hegemonia?

O algoritmo não é neutro: ele privilegia conteúdos que geram engajamento rápido, como raiva, medo e espetáculo. A direita entendeu isso e produziu toneladas de memes, vídeos curtos e discursos de ódio.

O que significa ressignificar a camisa verde-amarela?

Significa devolver ao povo um símbolo que sempre foi seu, desfazendo a associação com o ódio e reivindicando a camisa com mensagens de soberania, democracia e justiça social.

Qual a relação entre luta de classes e produção de sentido?

A luta de classes não se trava apenas nos salários e nas greves, mas também na produção de sentido que orienta as massas. Sem essa dimensão, a transformação estrutural torna-se impossível.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Fiscalismo e 'tesouraço' implodem a solidariedade territorial

O fiscalismo, sob o 'tesouraço', implode a solidariedade territorial e a ética urbana, revelando a cidade como território de luta de classes. Cada corte em mobilidade, saneamento ou habitação é uma barricada para conter a insurgência popular.

Principais pontos

  • A tarifa saltou de R$ 4,40 para R$ 5,00 na capital paulista em janeiro de 2024, marcando o primeiro reajuste após anos de congelamento sustentado por subsídios públicos que viraram 'gasto excessivo'.
  • O fiscalismo fornece a cobertura ideológica 'não há dinheiro' e 'é preciso cortar gastos', escondendo a recusa permanente em taxar grandes fortunas e a blindagem dos lucros do setor financeiro.
  • O transporte público é estrangulado, as tarifas sobem, a malha de ônibus encolhe, as periferias ficam isoladas; quem pode paga pelo conforto, quem não pode espera horas no ponto.
  • O 'tesouraço' é a ferramenta do capital para impedir que o fundo público financie a integração dos trabalhadores, expressando a luta de classes na escala urbana.

Fiscalismo e a cidade dilacerada: o 'tesouraço' implode a solidariedade territorial

Por Walter Azevedo

A tarifa saltou de R$ 4,40 para R$ 5,00 na capital paulista em janeiro de 2024. Foi o primeiro reajuste após anos de congelamento sustentado por subsídios públicos que, na lógica do ajuste, viraram "gasto excessivo". O trabalhador que cruza a cidade em ônibus lotados não vê apenas a inflação na catraca. Vê o Estado recuando dos territórios periféricos, o serviço público definhando e a solidariedade entre bairros sendo cortada a cada planilha de custo. A cidade, palco cotidiano da reprodução da vida, tornou-se laboratório do fiscalismo.

O mesmo ocorre com unidades de saúde que fecham à noite, com escolas que perdem professores temporários, com obras de drenagem paralisadas. É o "tesouraço" descendo do ajuste macroeconômico ao chão da periferia. A racionalidade que celebra superávit primário e confiança do mercado opera, na escala urbana, como dispositivo de implosão da vida coletiva. Não se trata de má gestão isolada: é um projeto de classe que reorganiza o território para a extração de valor.

A cidade como fronteira de acumulação

O capital imobiliário e financeirizado precisa de cidades funcionais aos seus circuitos de valorização. Isso exige desidratar o orçamento público, fragilizar serviços essenciais e transformar direitos em mercadorias. O fiscalismo fornece a cobertura ideológica: "não há dinheiro", "é preciso cortar gastos". O que se esconde é a recusa permanente em taxar grandes fortunas, a rolagem da dívida pública que consome mais de 40% do orçamento federal e a blindagem dos lucros do setor financeiro.

No território, a consequência é brutal. Sem repasses adequados, as prefeituras entram em colapso. O transporte público é estrangulado, as tarifas sobem, a malha de ônibus encolhe, as periferias ficam isoladas. A ética urbana — o reconhecimento de que a cidade é um bem comum — cede lugar à lógica do pedágio. Quem pode paga pelo conforto do transporte por aplicativo ou pelo condomínio fechado; quem não pode espera horas no ponto.

Essa cisão territorial não é acidente. É a expressão espacial da luta de classes. A cidade, como escreveu Ermínia Maricato, é a materialização das contradições sociais. O 'tesouraço' é a ferramenta do capital para impedir que o fundo público financie a integração dos trabalhadores. Cada corte em mobilidade, saneamento ou habitação é uma barricada para conter a insurgência popular.

O rentismo contra o território

O fiscalismo também opera por meio da dívida dos municípios. Muitas cidades comprometem parcela significativa de suas receitas com encargos financeiros herdados de gestões passadas. Em vez de auditoria e renegociação soberana, o que se vê é a exigência de mais cortes. O resultado é o esvaziamento do investimento público: a proporção de recursos destinados a obras e equipamentos urbanos despenca. A cidade se degrada fisicamente enquanto os credores lucram.

O fiscalismo urbano é uma mediação do capital financeiro para desorganizar a classe trabalhadora. Ao fragmentar o território, ele ataca as redes de solidariedade que sustentam mobilizações. Bairros sem transporte não se encontram; famílias sem creche não se organizam; jovens sem praça não se reconhecem como sujeitos coletivos. A chamada "austeridade urbana" tem função estratégica: despolitizar a vida cotidiana, transformar a escassez em culpa individual e convencer o trabalhador de que a luta por direitos é inviável.

Ao mesmo tempo, o mesmo Estado que corta o transporte público concede incentivos fiscais a incorporadoras e grandes redes de comércio. O orçamento público vira garantia para operações de renovação urbana que expulsam moradores. Gentrificação e tesouraço são faces da mesma moeda: a cidade como campo de extração, não como espaço de direitos.

Superar a catraca: organização territorial e projeto popular

Não reverteremos o desmonte urbano aceitando a chantagem do ajuste. O caminho passa por disputar o orçamento público e reconstruir a solidariedade desde os territórios. Isso exige:

  • Auditoria da dívida pública de estados e municípios, com responsabilização dos credores;
  • Tarifa zero no transporte, financiada pela taxação da riqueza e dos lucros do capital;
  • Orçamento participativo com poder deliberativo das periferias;
  • Retomada da política nacional de mobilidade, saneamento e habitação popular;
  • Fortalecimento de comitês territoriais de luta, que articulem demandas locais ao projeto nacional-popular.

A cidade não é um cenário neutro onde as classes coexistem. É um espaço em disputa. O fiscalismo tentou transformar a crise fiscal em paralisia política. Mas a resposta do trabalhador na rua, nas redes e nos territórios mostra que a luta de classes também se expressa no cotidiano urbano. A solidariedade territorial não é um resquício romântico: é a base material para a constituição de um bloco popular capaz de enfrentar a ofensiva do capital.

O "tesouraço" pode cortar verbas, mas não corta a consciência. Cabe a nós transformar a indignação na catraca em organização. Cada bairro que se levanta contra o sucateamento do serviço público é uma célula do projeto que precisamos construir. A cidade que queremos exige derrotar o fiscalismo na raiz: na correlação de forças, na hegemonia e no controle do fundo público.

Leituras para a luta:

  • MARICATO, Ermínia. Para entender a crise urbana. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
  • HARVEY, David. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política. Curitiba: Appris, 2023.
  • PAULANI, Leda. Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico. São Paulo: Boitempo, 2008.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza o fiscalismo na gestão urbana?

O fiscalismo é a racionalidade que celebra superávit primário e confiança do mercado, operando na escala urbana como dispositivo de implosão da vida coletiva. Ele desidrata o orçamento público e fragiliza serviços essenciais, transformando direitos em mercadorias.

Como o ajuste fiscal afeta o transporte público nas periferias?

Sem repasses adequados, o transporte público é estrangulado, as tarifas sobem e a malha de ônibus encolhe. As periferias ficam isoladas, e quem não pode pagar por alternativas privadas espera horas no ponto.

Por que a cidade é considerada um território de luta de classes?

A cidade materializa as contradições sociais. O fiscalismo impede que o fundo público financie a integração dos trabalhadores, fazendo de cada corte em mobilidade, saneamento ou habitação uma barricada contra a insurgência popular.

Qual é o papel do 'tesouraço' na financeirização das cidades?

O 'tesouraço' desidrata o orçamento público e fragiliza serviços essenciais, criando as condições para o capital imobiliário e financeirizado transformar direitos em mercadorias e orientar a cidade para seus circuitos de valorização.

Como o rentismo contribui para o esvaziamento do fundo público urbano?

Muitos municípios comprometem parte significativa de suas receitas com encargos financeiros. Em vez de auditoria e renegociação soberana, exige-se mais cortes, resultando no esvaziamento do fundo público e na fragilização dos serviços urbanos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Desmontar o 'tesouraço' como projeto de classe: quem paga a conta

O tesouraço não corta papel; corta salário, consulta médica e aposentadoria. Enquanto o Congresso negocia um novo pacote fiscal, o Banco Central mantém a taxa de juros acima de 14% ao ano — a imprensa chama de responsabilidade, nós chamamos de projeto de classe.

Principais pontos

  • O pacote em discussão prevê congelar o salário mínimo real, comprimir os pisos constitucionais de saúde e educação, rever o BPC e endurecer regras de aposentadoria.
  • Os juros nominais do setor público somaram cerca de R$ 720 bilhões em 2023 — quase o dobro do orçamento do SUS.
  • Cada corte em saúde ou Previdência é uma garantia de que o Estado manterá o fluxo de pagamento ao capital financeirizado.
  • O fiscalismo não é um erro técnico; é uma escolha política que beneficia a fração rentista e entreguista da oligarquia brasileira.

O tesouraço como mediação da expropriação: por que o corte de gastos sangra a classe trabalhadora e protege a ciranda do capital

Por Walter Azevedo

A tesoura não corta papel. Corta salário, consulta médica, aposentadoria. Enquanto o Congresso negocia um novo pacote fiscal para “estancar o sangue” das contas públicas, o Banco Central mantém a taxa de juros acima de 14% ao ano. A imprensa econômica chama de responsabilidade. Nós chamamos de projeto de classe.

O corte visível e a ciranda invisível

O pacote em discussão prevê congelar o salário mínimo real, comprimir os pisos constitucionais de saúde e educação, rever o Benefício de Prestação Continuada e endurecer as regras de aposentadoria. O discurso oficial fala em “equilíbrio fiscal”. A prática repete a lógica de sempre: a classe trabalhadora paga a conta.

Um dado concreto: a dívida bruta do governo geral ultrapassa 75% do PIB, e o serviço da dívida consome mais de um terço do Orçamento federal. Em 2023, os juros nominais do setor público somaram cerca de R$ 720 bilhões — quase o dobro do orçamento do SUS. Enquanto a tesoura corta R$ 30 bilhões em políticas sociais, o mesmo orçamento transfere para os detentores de títulos públicos uma montanha de juros. A ciranda não para.

Quem lucra com isso? O capital financeirizado. Fundos de investimento, bancos, seguradoras e grandes fortunas que carregam títulos do Tesouro e vivem de renda. Cada corte em saúde ou Previdência é uma garantia de que o Estado manterá o fluxo de pagamento a essa fração da classe do capital.

A dialética da expropriação

Não se trata de uma técnica de gestão orçamentária. Trata-se de uma mediação concreta da luta de classes. Quando o governo reduz o piso da saúde, ele retira da classe trabalhadora o acesso ao SUS — e empurra a população para os planos privados, que se alimentam do desmonte do público. Quando endurece a Previdência, amplia a massa de trabalhadores que precisará vender sua força de trabalho por mais anos, em condições mais precárias, até a exaustão. Quando congela o salário mínimo, reduz o poder de barganha de milhões de assalariados e rebaixa o consumo popular.

O ajuste é, em essência, uma expropriação indireta de direitos. A Constituição de 1988 consagrou um pacto social mínimo: saúde universal, educação pública, proteção na velhice, salário digno. Esse pacto está sendo fatiado em nome da dívida. A dívida, por sua vez, é o instrumento por excelência de transferência de renda da classe trabalhadora para a classe do capital.

Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a classe que controla o Estado não abre mão de seus instrumentos sem luta. O fiscalismo não é um erro técnico; é uma escolha política que beneficia a fração rentista e entreguista da oligarquia brasileira.

“O capital tem horror à ausência de lucro, como a natureza tem horror ao vácuo.” — T. J. Dunning, citado por Marx em O Capital

Quem paga a conta?

Os cortes atingem exatamente quem mais depende do Estado para sobreviver:

  • Famílias que usam o SUS para tratar hipertensão, diabetes, câncer;
  • Aposentados que recebem um salário mínimo e sustentam a economia local de pequenos municípios;
  • Jovens que dependem da escola pública e do transporte escolar;
  • Servidores públicos das áreas essenciais, congelados há anos;
  • Beneficiários do BPC, idosos e pessoas com deficiência em situação de pobreza.

Do outro lado, os detentores de títulos públicos seguem recebendo juros reais acima de 6% ao ano, sem qualquer questionamento. O mercado quer mais: exige o aprofundamento da tesoura, a privatização do que restou, a redução da proteção social. É a chantagem do rentista, que já analisamos em “Fiscalismo sabota maiorias trabalhadoras: a chantagem do rentista”.

A alternativa da classe trabalhadora

Enquanto na Europa a juventude sai às ruas contra a austeridade — como mostramos em “Crise europeia: juventude entre antiausteridade e ultradireita” —, no Brasil ainda predomina a resignação. Mas a correlação de forças pode mudar. Depende da organização popular, dos sindicatos, dos movimentos de saúde, dos conselhos de direitos, dos partidos que se reivindicam da classe trabalhadora.

O caminho passa por:

  • Revogar o teto de gastos e o arcabouço fiscal que o substituiu;
  • Auditar a dívida pública e suspender o pagamento de juros ilegítimos;
  • Taxar as grandes fortunas, os lucros e dividendos e as transações financeiras;
  • Recompor os pisos constitucionais de saúde e educação;
  • Ampliar a proteção previdenciária e assegurar o salário mínimo com ganho real.

Essas medidas não são utópicas. São necessárias para garantir a soberania nacional e a sobrevivência digna da nossa classe. O projeto nacional-popular exige que o Estado esteja a serviço de quem produz, não de quem especula.

A tesoura só corta se permitirmos

O ajuste fiscal é uma escolha de classe. Se aceitarmos a narrativa de que “não há alternativa”, estaremos entregando a chave do caixa para a oligarquia financeira. A tesoura só corta porque há quem a segure. A luta pela revogação dos cortes é a luta pela própria ideia de bem público — pela saúde, pela previdência, pela escola, pelo salário.

Se não nos organizarmos, a tesoura continuará afiada. Se nos organizarmos, arrancaremos a tesoura das mãos de quem a usa contra nós. É uma questão de consciência de classe e de projeto político. O futuro não está decidido; está em disputa.

Fontes:

  • Tesouro Nacional — Estatísticas da Dívida Pública Federal
  • Banco Central do Brasil — Relatório de Inflação e estatísticas fiscais
  • Lei Complementar nº 200/2023 — Regime Fiscal Sustentável
  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, arts. 198 e 212

Perguntas Frequentes

O que é o 'tesouraço' no contexto do ajuste fiscal?

O 'tesouraço' é o pacote de cortes que congelará o salário mínimo real, comprimirá pisos de saúde e educação, revisará o BPC e endurecerá aposentadorias, transferindo o custo do ajuste para a classe trabalhadora.

Quem paga a conta do ajuste fiscal?

A classe trabalhadora paga a conta. Os cortes recaem sobre salários, SUS e Previdência, enquanto o Estado mantém o fluxo de juros — quase R$ 720 bilhões em 2023 — para fundos, bancos e grandes fortunas que vivem de renda.

Por que o corte de gastos ataca o SUS?

Ao reduzir o piso da saúde, o governo retira da classe trabalhadora o acesso ao SUS e empurra a população para planos privados, que se alimentam do desmonte do público — uma expropriação indireta de direitos.

Qual é o papel da dívida pública nesse processo?

A dívida é o instrumento por excelência de transferência de renda da classe trabalhadora para a classe do capital. A dívida bruta ultrapassa 75% do PIB, e seu serviço consome mais de um terço do Orçamento federal.

O ajuste fiscal é apenas uma questão técnica?

Não. O fiscalismo não é um erro técnico; é uma escolha política que beneficia a fração rentista e entreguista da oligarquia brasileira, como aponta o autor Walter Azevedo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Crise europeia: juventude entre antiausteridade e ultradireita

A crise que atravessa o continente europeu expõe a falência de um modelo de acumulação que já não oferece horizonte para as maiorias, e é exatamente nesse vazio que a reação encontra solo fértil.

Principais pontos

  • A austeridade é uma decisão de classe: socializar os prejuízos dos bancos e dos rentistas, enquanto se privatizam os lucros.
  • A juventude europeia viu o futuro ser confiscado por políticas de arrocho, aluguéis impagáveis e contratos precários.
  • A ultradireita oferece uma saída falsa: transformar a indignação em bode expiatório, sem tocar na raiz do problema.
  • A democracia liberal não passa de uma casca vazia quando o capital financeirizado se sente ameaçado.

Crise de hegemonia europeia: a juventude entre a revolta antiausteridade e a armadilha da ultradireita

Por Walter Azevedo

As ruas de Paris, Atenas e Lisboa voltaram a ser palco de uma juventude que bloqueia universidades, ocupa prédios vazios e enfrenta a polícia. Não se trata de um surto passageiro: é a resposta concreta de uma geração que viu o futuro ser confiscado por políticas de arrocho, aluguéis impagáveis e contratos precários. Enquanto isso, a mesma juventude observa, perplexa, o crescimento de partidos da ultradireita — da França à Alemanha — que prometem devolver a dignidade perdida. O paradoxo é apenas aparente. A crise que atravessa o continente europeu expõe a falência de um modelo de acumulação que já não oferece horizonte para as maiorias, e é exatamente nesse vazio que a reação encontra solo fértil.

Na França, a candidatura de Marine Le Pen alcançou 41,5% dos votos no segundo turno presidencial de 2022, a maior marca da ultradireita na Quinta República. Na Espanha, o desemprego entre jovens segue acima de 27%. Na Alemanha, a AfD elegeu prefeitos pela primeira vez e se tornou a segunda força em várias regiões. Esses números não são abstrações estatísticas: são o retrato de uma juventude sem perspectiva, espremida entre o desemprego estrutural e a chantagem permanente do capital financeirizado.

A austeridade como política de classe

Ao contrário do que repete a imprensa do establishment, a austeridade não é um remédio amargo, mas necessário. É uma decisão de classe: socializar os prejuízos dos bancos e dos rentistas, enquanto se privatizam os lucros. A dívida pública europeia — resgatada com trilhões de euros após a crise de 2008 — serviu para blindar o sistema financeiro, e a conta foi repassada aos trabalhadores sob a forma de cortes na saúde, na educação e nas aposentadorias. A juventude sente isso na pele: o diploma não garante emprego, o aluguel consome metade do salário, a aposentadoria vira miragem. Aqui no Brasil, a mesma lógica opera quando aceitamos o fiscalismo como freio aos investimentos sociais. O ajuste fiscal é a chantagem do rentista contra as maiorias trabalhadoras, e a juventude europeia compreendeu essa equação.

O capital financeirizado não tolera qualquer projeto de soberania popular. Quando a Grécia, em 2015, ousou votar contra o memorando de austeridade, a troica respondeu com um golpe branco: fechou bancos, impôs controle de capitais e humilhou um governo eleito. A lição foi didática: ou vocês aceitam o arrocho, ou inviabilizamos seu país. A juventude que saiu às ruas carrega essa memória — sabe que a democracia liberal não passa de uma casca vazia quando o capital financeirizado se sente ameaçado.

O canto de sereia da ultradireita

Diante da revolta que não encontra direção, a ultradireita oferece uma saída falsa: transformar a indignação em ódio contra imigrantes, minorias e sindicatos, enquanto mantém intactos os interesses do grande capital. É uma operação clássica de desvio de consciência de classe. Em vez de apontar para os bancos e os fundos de investimento, a ultradireita aponta para o estrangeiro, para a mulher, para o jovem negro ou muçulmano. A desinformação é a arma eleitoral da classe do capital, e ela se replica em cada pleito europeu com a mesma eficiência com que opera no Brasil.

Não é coincidência que os partidos da ultradireita europeia recebam financiamento de setores do empresariado e da banca. Eles servem como válvula de escape: canalizam a revolta para bodes expiatórios e, no poder, aplicam as mesmas políticas de arrocho que prometiam combater. A retórica antissistema esconde uma submissão total ao sistema do capital. O autoritarismo que criminaliza imigrantes é a face repressiva do neoliberalismo, e a juventude precisa reconhecer essa armadilha antes que seja tarde.

A esquerda precisa reconstruir a ponte com a juventude

Condenar a ultradireita não basta. A juventude europeia não se tornou conservadora por convicção: tornou-se ressentida porque a esquerda institucional aceitou, durante décadas, o receituário do arrocho como inevitável. O vazio de projeto é o terreno onde cresce o ódio. A tarefa da classe trabalhadora organizada é oferecer uma alternativa concreta: taxação progressiva dos rentistas, controle social dos bancos, moradia digna, trabalho com direitos e soberania popular sobre o orçamento. Isso exige organização política para além dos parlamentos.

Ao contrário do que pregam os gestores do possível, a crise europeia não é um problema de falta de recursos. É uma crise de hegemonia: o bloco dominante já não consegue governar como antes, e as massas recusam-se a continuar pagando a conta. Esse é o momento de disputar consciência. A revolta que incendeia as ruas de Paris e Atenas carrega um potencial revolucionário — mas só se transforma em força política se encontrar direção de classe. Sem organização, a revolta vira ressentimento; com organização, vira projeto.

O socialismo não é uma utopia remota. É a resposta material à pergunta que a juventude europeia faz todos os dias: quem paga pela crise? O capital financeirizado ou as maiorias trabalhadoras? A história já deu essa resposta mais de uma vez. Cabe a nós, na Europa e na periferia do sistema, construir a unidade internacionalista que transforme a revolta em poder popular.

Fontes consultadas

  • Resultado do segundo turno das eleições presidenciais francesas de 2022 — Ministério do Interior da França.
  • Dados de desemprego juvenil na zona do euro — Eurostat, 2023.
  • Cobertura jornalística sobre protestos juvenis e crise habitacional em Lisboa, Paris e Atenas — imprensa europeia, 2023–2025.

Perguntas Frequentes

Por que a juventude europeia está protestando contra a austeridade?

Porque viu o futuro confiscado por políticas de arrocho, aluguéis impagáveis e contratos precários, com desemprego estrutural e cortes na saúde, educação e aposentadorias.

Qual é a relação entre a crise do capitalismo e o avanço da ultradireita?

A falência do modelo de acumulação não oferece horizonte para as maiorias, criando um vazio em que a ultradireita encontra solo fértil ao prometer devolver dignidade perdida com saídas falsas.

O que a crise europeia revela sobre a democracia liberal?

Revela que a democracia liberal não passa de uma casca vazia quando o capital financeirizado se sente ameaçado, como no golpe branco imposto à Grécia em 2015.

Como a experiência europeia se conecta com o Brasil?

A mesma lógica de fiscalismo e ajuste fiscal como chantagem do rentista contra as maiorias trabalhadoras impede investimentos sociais e sabota a soberania popular.

Qual é a alternativa apontada pelo texto para a juventude?

A necessidade de uma alternativa socialista que enfrente a chantagem do capital financeirizado e devolva horizonte concreto para as maiorias trabalhadoras.