quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Arcabouço fiscal: blindagem jurídica garante sangria rentista

O arcabouço fiscal não é apenas uma regra contábil, mas uma arquitetura jurídica que entrega o orçamento público aos credores financeiros, sob o pretexto de organizar as contas.

Principais pontos

  • O arcabouço fiscal limita despesas primárias a 70% da variação real da receita, mas deixa os juros da dívida fora de qualquer limite.
  • Com força de lei complementar, o regime fiscal só pode ser alterado por outra lei complementar, funcionando como camisa de força para governos que priorizem os de baixo.
  • A blindagem jurídica esconde um projeto de classe que sequestra o orçamento público sob o disfarce de 'responsabilidade fiscal'.
  • O mecanismo aumenta a parcela destinada aos credores, fazendo a classe trabalhadora pagar duas vezes: com arrocho dos serviços públicos e tributos sobre o consumo.

A jaula fiscal e o direito do rentista: o arcabouço como blindagem jurídica da sangria

Por Walter Azevedo

No plenário do Congresso, a aprovação do novo arcabouço fiscal transcorreu com a pressa de quem silencia o alarme de incêndio. Enquanto a Faria Lima comemorava e o noticiário econômico repetia o mantra da "responsabilidade", o Tesouro Nacional já programava novos leilões de títulos para honrar compromissos que não passam por nenhuma votação popular. O arcabouço não é apenas uma regra contábil. É uma arquitetura jurídica que entrega o orçamento público aos credores financeiros, sob o pretexto de organizar as contas. Nossa classe precisa enxergar o que se esconde por trás dessa fachada de neutralidade técnica.

O novo regime fiscal: uma armadilha com aparência de racionalidade

O arcabouço aprovado estabelece que as despesas primárias só podem crescer 70% da variação real da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% ao ano. Os investimentos públicos ficam engessados, mas os juros da dívida seguem fora de qualquer limite. Essa assimetria não nasceu por acaso. Ela reproduz a lógica de uma formação social dependente, na qual a prioridade do Estado é remunerar a classe rentista antes de financiar escola, hospital ou transporte. A conta é simples: menos recursos para o povo, mais sobra para o andar de cima. Quem acompanha a história do teto de gastos, aprovado em 2016, reconhece o mesmo roteiro: primeiro congelam-se os direitos, depois abre-se a porteira para o rentismo. A diferença é que agora a blindagem ficou ainda mais sofisticada.

A blindagem jurídica como mediação de classe

O regime fiscal tem força de lei complementar. Só outra lei complementar pode alterá-lo. Em um parlamento dominado pela bancada do agronegócio, das armas e do mercado financeiro, essa blindagem funciona como uma camisa de força para qualquer governo que ouse priorizar os de baixo. A constituição, que deveria ser um escudo, vira uma gaiola que protege os de cima. A mediação jurídica é a forma que a classe do capital encontrou para naturalizar a extração de riqueza: o texto legal parece neutro, mas carrega uma correlação de forças brutalmente desigual. Discutimos lógica parecida no Acordo tarifário Brasil-EUA, quando a subordinação veio disfarçada de negociação. Aqui, o disfarce é outro: a "responsabilidade fiscal" esconde um projeto de classe que sequestra o orçamento público.

A sangria rentista: o coração do mecanismo

Quando o Estado limita os gastos sociais, mas libera os juros, ele organiza uma transferência sistemática do trabalho para o capital financeirizado. O arcabouço, assim como o antigo teto de gastos, não reduz a dívida: aumenta a parcela destinada aos credores. A classe trabalhadora paga duas vezes — com o arrocho dos serviços públicos e com os tributos que incidem sobre o consumo. O orçamento federal vira um duto que conecta a senzala à casa-grande, para lembrar a metáfora de nossa formação social. Nenhuma assembleia popular delibera sobre essa sangria; ela é decidida nos gabinetes do Banco Central e nos contratos de dívida. Para entender a mecânica dessa transferência, vale reler nossa análise sobre Dívida pública e juros altos. Enquanto o salário mínimo é debatido em centavos, os juros reais brasileiros seguem entre os mais altos do mundo — uma escolha política, não uma fatalidade econômica.

Soberania popular: a vítima silenciosa

A soberania não é abstração. Ela se materializa na capacidade de a população decidir onde alocar os recursos que produz. Cada cidadão que depende do SUS, da escola pública ou da aposentadoria sente a asfixia quando o orçamento é capturado pelo rentismo. O arcabouço fecha as portas para um projeto nacional-popular, ao impedir investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia, e ao dificultar a ampliação de direitos. A luta pela soberania exige desmontar essa blindagem jurídica e realizar uma auditoria popular da dívida. Como alertamos no post sobre Esquerda na América Latina: limites da via eleitoral, as instituições não bastam quando os interesses do povo ficam de fora da sala de decisão. A soberania, aqui, significa retomar o controle sobre o orçamento, não apenas sobre o voto.

Organizar para romper a jaula

Não há saída individual. A correlação de forças que aprovou o arcabouço só será revertida com organização política da classe trabalhadora. Exigir uma auditoria cidadã da dívida, lutar por uma lei de responsabilidade fiscal que priorize os direitos sociais e construir um projeto nacional-popular com soberania real são tarefas urgentes. Em Como Vencer na Grande Política, sustento que a consciência de classe não nasce da indignação moral, mas da compreensão de que a exploração tem nome, endereço e instrumentos jurídicos. O arcabouço é um desses instrumentos. Rompê-lo não é gesto contábil: é ato de soberania. A classe trabalhadora já demonstrou, em outras batalhas, que não aceita ser tratada como variável de ajuste. Esta luta é também uma luta pela memória: a cada geração, a oligarquia tenta reescrever as regras do jogo a seu favor. Cabe a nós não aceitar o jogo.

Referências:

  • Lei Complementar nº 200/2023 — institui o regime fiscal sustentável.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Auditoria Cidadã da Dívida — análises sobre o gasto com juros e a blindagem constitucional.

Perguntas Frequentes

O que é o novo arcabouço fiscal?

É um regime aprovado pelo Congresso que limita o crescimento das despesas primárias a 70% da variação real da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% ao ano, deixando os juros da dívida fora de qualquer limite.

Como o arcabouço fiscal representa uma blindagem jurídica?

Por ter força de lei complementar, o arcabouço só pode ser alterado por outra lei complementar, o que, em um parlamento dominado por bancadas do agronegócio, armas e mercado financeiro, funciona como uma camisa de força para governos que priorizem os de baixo.

Por que o texto chama a sangria de 'rentista'?

Porque o Estado limita gastos sociais mas libera os juros, organizando uma transferência sistemática do trabalho para o capital financeirizado, sem reduzir a dívida e aumentando a parcela destinada aos credores.

Qual é a relação entre o arcabouço fiscal e a soberania popular?

O arcabouço asfixia a soberania popular ao retirar do debate democrático as prioridades orçamentárias, entregando o orçamento público aos credores financeiros sem nenhuma votação popular sobre esses compromissos.

O arcabouço fiscal reduz a dívida pública?

Segundo o texto, não. Assim como o antigo teto de gastos, o arcabouço não reduz a dívida, mas aumenta a parcela destinada aos credores, fazendo a classe trabalhadora pagar duas vezes pelo arrocho e pelos tributos.

Judicialização da política: contradições do Estado e estratégia da esquerda

A judicialização da política é uma solução ilusória que esvazia o debate público, desmobiliza a participação popular e mascara as verdadeiras correlações de forças, revelando as profundas contradições de um Estado que opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.

Principais pontos

  • A transferência de decisões políticas para o Judiciário esvazia o debate público e desmobiliza a participação popular.
  • O Judiciário, sob aparência de neutralidade, opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.
  • A forma jurídica não é neutra, mas mediação das relações materiais de produção, sujeita a pressões de classe e interesses econômicos dominantes.
  • Há uma sobrerrepresentação de grandes corporações e do setor financeiro nos tribunais superiores, em contraste com a sub-representação das pautas populares.

Formalismo Legal e Contradições do Estado: A Urgência de uma Estratégia para Nossa Classe

Por Walter Azevedo

Recentemente, assistimos a uma série de impasses políticos que, invariavelmente, encontram seu desfecho ou paralisia nas instâncias judiciais. A disputa em torno do chamado “Marco Temporal” para demarcação de terras indígenas é um exemplo eloquente. O que deveria ser um debate fundamentalmente político, expressão da soberania nacional e da reparação histórica de povos originários, é remetido à última palavra do Supremo Tribunal Federal. Esse fenômeno não é um desvio pontual; revela uma das mais profundas contradições de nossa formação social: a crescente judicialização da política e o caráter estrutural de um Estado que, sob aparência de neutralidade, opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.

A Miragem da Imparcialidade e a Paralisia Democrática

A judicialização da política manifesta-se como uma espécie de "solução" para impasses que a via legislativa ou executiva não consegue resolver, ou não tem interesse em enfrentar. No entanto, essa "solução" é uma miragem. Ao transferir decisões de alto teor político para o Judiciário, esvaziamos o debate público, desmobilizamos a participação popular e mascaramos as verdadeiras correlações de forças por trás de cada processo. Vemos uma oligarquia política e econômica que, ao invés de construir consenso ou enfrentar o confronto democrático, prefere buscar a chancela judicial para legitimar seus projetos, muitas vezes antinacionais e antipopulares. Este mecanismo tem sido um entrave à concretização de um projeto nacional-popular, subordinando as demandas de nossa classe trabalhadora a interpretações jurídicas que raramente questionam a ordem estabelecida.

Este não é um problema novo. Desde a redemocratização, observamos uma tendência de empoderamento do Judiciário, que se apresenta como guardião da Constituição e da ordem. Contudo, como nos ensina a dialética, a forma jurídica, longe de ser neutra, é mediação das relações materiais de produção. O Judiciário, com sua estrutura e seus membros, não está imune às pressões de classe, aos interesses de grupos econômicos e às influências ideológicas dominantes. Não podemos esquecer que a maior parte das ações que chegam ao STF com relevância política têm, em suas origens, disputas envolvendo grandes corporações, latifúndios, ou a defesa de privilégios que beneficiam diretamente a classe dominante. Dados da Fundação Getúlio Vargas mostram que empresas de grande porte e o setor financeiro estão sobrerrepresentados como partes em processos que ascendem aos tribunais superiores, em contraste com a sub-representação das pautas populares.

O Judiciário como Arena da Luta de Classes

Para compreendermos o que está por trás da superfície, é crucial desvelar o caráter do Estado brasileiro e sua relação com a judicialização. Nosso Estado, inserido em uma formação social de dependência estrutural, como analisado por Ruy Mauro Marini e Theotônio dos Santos, é um Estado que serve aos interesses do capital financeirizado e do imperialismo, mesmo quando ostenta discursos de soberania. A pauta do "Marco Temporal" ilustra isso perfeitamente: ela opõe a garantia dos direitos originários dos povos indígenas — que significa a manutenção de vastas áreas de terras para preservação ambiental e reprodução de modos de vida comunitários — aos interesses do agronegócio exportador e da mineração, pilares da nossa subordinação econômica. O Judiciário, ao arbitrar essa disputa, não atua em um vácuo, mas dentro de uma institucionalidade moldada historicamente para proteger a propriedade privada e a acumulação de capital.

Essa dinâmica não se restringe a grandes temas. Ela se manifesta no cotidiano, na criminalização dos movimentos sociais, na repressão a greves e ocupações, na morosidade em julgar crimes de colarinho branco e na agilidade em punir a pobreza. A luta de classes não se dá apenas nas fábricas ou nas ruas, mas também nos gabinetes dos tribunais, onde se decidem os limites da ação popular e se valida a expropriação de direitos. Em "Como Vencer na Grande Política", argumentamos que a teoria é ferramenta de luta e que a compreensão da natureza do Estado é o primeiro passo para a formulação de uma estratégia eficaz. Ignorar o caráter de classe do Judiciário é armar o inimigo com nossa própria ingenuidade.

Construindo a Hegemonia Popular: Para Além da Judicialização

Diante desse cenário, a esquerda precisa urgentemente de uma estratégia que vá além da mera contestação jurídica ou da esperança em decisões favoráveis. É preciso reconhecer que a via judicial, embora por vezes necessária como tática de contenção, não é o caminho para a construção de um projeto nacional-popular e anticapitalista. A verdadeira superação reside na organização, na politização e na mobilização da classe trabalhadora e de seus aliados. Nossa luta deve ser por construir uma nova correlação de forças na sociedade, capaz de impor seus interesses no legislativo, no executivo e, por extensão, influenciar o próprio caráter do Estado.

Perguntas Frequentes

O que é a judicialização da política?

É a transferência de decisões de alto teor político para as instâncias judiciais, funcionando como uma aparente solução para impasses que o Legislativo e o Executivo não resolvem. Na prática, esvazia o debate democrático e desmobiliza a participação popular.

Por que a judicialização da política é um problema para a esquerda?

Porque mascarar as correlações de forças e subordinar demandas populares a interpretações jurídicas que raramente questionam a ordem estabelecida impede a construção de um projeto nacional-popular e a efetiva concretização dos interesses da classe trabalhadora.

O Judiciário brasileiro é neutro nas disputas políticas?

Não. O texto argumenta que o Judiciário não está imune às pressões de classe, aos interesses de grupos econômicos e às influências ideológicas dominantes, sendo a forma jurídica uma mediação das relações materiais de produção.

Quais são as contradições do Estado brasileiro destacadas no texto?

O Estado brasileiro opera sob aparência de neutralidade, mas funciona como arena privilegiada dos interesses da classe do capital. Dados citados mostram sobrerrepresentação de grandes corporações e do setor financeiro em processos nos tribunais superiores.

Qual é a urgência de uma estratégia para a esquerda diante da judicialização?

A esquerda precisa denunciar a miragem da imparcialidade judicial e reverter a paralisia democrática, resgatando o debate público e a participação popular para que demandas da classe trabalhadora não fiquem subordinadas a interpretações jurídicas que preservam privilégios.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Caça ao PCC: autorização da Casa Branca é luta interimperialista e criminaliza a esquerda

A autorização da Casa Branca para atuar contra supostas redes do PCC esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

Principais pontos

  • A caça ao PCC serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente.
  • A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta.
  • O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.
  • A anatomia é a mesma da Operação Condor, apenas o rótulo muda: agora, em vez de 'subversivos', são 'membros do PCC'.

Interimperialismo e criminalização: a caça ao PCC como arma contra a esquerda e a resposta soberana

Por Walter Azevedo

A Casa Branca autorizou, nos últimos dias, a atuação direta de agências norte-americanas contra supostas redes do Primeiro Comando da Capital em território brasileiro. O pretexto oficial é o combate ao tráfico internacional. A máscara é fina: esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

A máscara da “caça ao PCC” e a disputa interimperialista

Não é a primeira vez que o combate ao crime organizado serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente. A Doutrina Monroe, a Aliança para o Progresso e a Operação Condor ensinam que a política de segurança hemisférica sempre buscou subordinar os Estados latino-americanos ao comando de Washington. Com o aprofundamento da crise do modo de produção e a ascensão de novos polos de acumulação, a disputa entre frações do capital transnacional se acirra. A China amplia investimentos em infraestrutura e tecnologia na região; o capital financeirizado sediado nos EUA responde com militarização e sanções seletivas.

Ao transformar o PCC em alvo prioritário, a Casa Branca cria precedentes para intervenções unilaterais e constrange o Estado brasileiro a adotar protocolos que ferem a soberania nacional. A lógica é a mesma descrita por Lênin em Imperialismo, fase superior do capital: a exportação de capitais e a partilha do mundo entre trustes exigem instrumentos políticos e militares de contenção. Aqui, a classe dominante interna — dependente e associada — aplaude a chegada das agências estrangeiras, pois vê nelas um aliado para reprimir as camadas populares que ameaçam a ordem.

Criminalização dos movimentos populares e constrangimento eleitoral

A categoria “organização criminosa” perdeu seus contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores, coletivos de luta por moradia e até centros de formação política. Quando a lista de sanções da Casa Branca inclui nomes de lideranças comunitárias, pastores de rua e advogados populares, não estamos diante de um erro de alvo, mas de uma tática deliberada. O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.

Lembremos que a Operação Condor, nas décadas de 1970 e 1980, utilizou a cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda, acusados de “subversão”. A anatomia é a mesma, apenas o rótulo muda: agora, em vez de “subversivos”, são “membros do PCC”. A imprensa concentrada, controlada por meia dúzia de famílias rentistas, reproduz a narrativa do “narcoterrorismo” sem questionar a origem dos dados nem os interesses por trás. Enquanto entidades comunitárias recebem a pecha de “narcoterroristas”, grupos paramilitares de extrema direita e milícias que controlam territórios no Rio de Janeiro jamais receberam a mesma classificação por Washington. A seletividade revela a função política da lista.

Para a nossa classe, o recado é claro: qualquer organização que ouse questionar a financeirização, a especulação imobiliária ou a superexploração será marcada como cúmplice do crime. Não é por acaso que as sanções atingem territórios periféricos onde a esquerda constrói bases. A mensagem subliminar é a de que quem defende reforma agrária, teto de juros ou redução da jornada é aliado do tráfico. Essa associação espúria constrange dirigentes partidários e sindicais, empurrando a esquerda institucional para a defensiva e esvaziando a autonomia das bases.

Soberania como trincheira: tática de resistência

Diante dessa ofensiva, a defesa da soberania nacional deixa de ser um bordão abstrato e se torna condição material para a luta de classes. Precisamos rejeitar qualquer acordo que autorize a atuação direta de agências estrangeiras em nosso território, exigir que toda cooperação passe pelo crivo do Congresso e pelos tratados internacionais, e denunciar o uso político das listas de sanções. A subordinação financeira que drena nossa riqueza para o capital rentista se expressa também na esfera policial: quem aceita a ingerência econômica aceita a ingerência repressiva.

Nossa tática de resistência soberana passa por três eixos:

  • Desmascarar a narrativa: mostrar que a “caça ao PCC” é uma cortina de fumaça para a militarização da América do Sul e para o constrangimento da esquerda. Cada sanção deve ser exposta como ato de agressão econômica e política.
  • Fortalecer a organização de base: multiplicar comitês de defesa da soberania nos bairros, sindicatos e universidades, articulando as lutas por moradia, trabalho e educação com a denúncia da ingerência imperialista.
  • Pressionar o Estado brasileiro: a classe trabalhadora deve exigir que o governo não se curve a Washington, rejeitando a inclusão de entidades populares em listas estrangeiras e cobrando reciprocidade diplomática.

Como já insisti em Como Vencer na Grande Política, a soberania não é um valor abstrato: ela é a capacidade de um povo definir os rumos da sua formação social. Sem soberania, não há projeto nacional-popular. E sem organização de classe, não há soberania. A luta contra a criminalização dos movimentos populares é a mesma luta contra o capital financeirizado e sua face bélica.

“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” — Karl Marx, Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores

A autorização da Casa Branca não é um episódio isolado. Ela se insere na ofensiva interimperialista para recolonizar a América Latina e esmagar qualquer experiência de resistência. Nossa resposta não pode ser apenas jurídica ou eleitoral: tem que ser política, de massas e internacionalista. Que as eleições de 2026 não nos distraiam da trincheira principal: a defesa intransigente da soberania, hoje ameaçada pela Casa Branca e por seus capatazes locais. Sigamos em luta. A história não espera.

Perguntas Frequentes

O que a autorização da Casa Branca contra o PCC realmente esconde?

Esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026, conforme aponta o texto.

Como a caça ao PCC pode criminalizar movimentos populares?

A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e passou a incluir cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta, transformando lideranças comunitárias e advogados populares em alvos deliberados.

Qual é o paralelo histórico citado no texto?

O texto compara a atual ofensiva à Operação Condor, que nas décadas de 1970 e 1980 usou cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda acusados de 'subversão'.

Por que a esquerda é alvo dessa ofensiva?

O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.

Qual tática de resistência soberana o texto aponta?

O texto não detalha uma tática explícita no trecho analisado, mas aponta a necessidade de reconhecer a máscara da caça ao PCC como instrumento de subordinação e de responder com resistência à intervenção unilateral que fere a soberania nacional.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Luta de classes na campanha de Lula: passado esconde rendição

O contraste entre a evocação do passado de lutas e as alianças atuais de Lula com o capital financeiro e o agronegócio não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

Principais pontos

  • A memória das lutas históricas, isolada da prática presente, torna-se fetiche e instrumento de desmobilização.
  • A campanha sela acordos com o alto comando do capital, incluindo partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade.
  • A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros acima de 13% ao ano e orçamento sequestrado pelo serviço da dívida.
  • A soberania nacional é trocada por acordos comerciais como o tarifário com os EUA, que aprofundam a subordinação estrutural ao imperialismo.

O passado como escudo e a rendição presente: a disputa de classes na campanha de Lula

Por Walter Azevedo

Nos comícios de 2026, as telas exibem metalúrgicos em greve no ABC, assembleias lotadas, embates contra a repressão. Lula sobe ao palco e evoca a coragem daqueles tempos, arrancando aplausos. Poucos metros abaixo, sentam-se representantes do sistema financeiro, do agronegócio e de grupos que ontem apoiaram o esfacelamento da CLT. Esse contraste não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

O espetáculo da memória

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das lutas históricas. Documentários, vídeos com imagens das greves de 1978-1980, discursos que remetem à criação do PT. Essa evocação tem função mobilizadora: reacender a identidade de classe dos trabalhadores. Mas a memória, isolada da prática presente, torna-se fetiche. Não basta lembrar que já fomos explorados e lutamos; é preciso ver o que se faz hoje com as mãos que antes empunhavam bandeiras.

A nostalgia é um véu poderoso. Ela oferece um passado heroico como consolo diante de um presente de derrotas simbólicas e materiais. Enquanto as telas mostram operários de macacão, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem a manutenção do arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos. A memória vira instrumento de desmobilização: se já lutamos, por que lutar de novo?

A rendição ao capital financeiro

O contraste é brutal. Enquanto os comícios exaltam o passado de combatividade, a campanha sela acordos com o alto comando do capital. A composição de alianças inclui partidos que apoiaram o golpe e hoje barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros que ultrapassam 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida — como analisamos em nossa crítica à dívida pública — e a manutenção das metas fiscais impostas pelo mercado. Quase metade dos trabalhadores brasileiros permanece na informalidade, sem proteção social, enquanto o capital financeiro drena recursos do Estado.

Isso não é apenas realismo eleitoral; é capitulação diante da classe do capital e do imperialismo. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que reforçam a dependência, como o acordo tarifário com os EUA, que aprofunda a subordinação estrutural. A campanha opera dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece, sem ousar desafiá-los.

A disputa de classes desnudada

A evocação do passado serve, nesse contexto, como escudo ideológico. Ela oculta o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio. Há um cálculo político: mobilizar a base para garantir votos, mas também sinalizar previsibilidade ao mercado para garantir financiamento e espaço na mídia. Resultado: um discurso duplo que desarma a classe trabalhadora, fazendo-a crer que a luta pelo passado garante o futuro, enquanto as estruturas de exploração permanecem intactas.

Os fatores em jogo são claros. De um lado, a pressão do capital financeirizado por juros altos e cortes em direitos sociais. De outro, a aliança com setores que jamais aceitaram a participação popular no orçamento. A correlação de forças pende para o capital, e a campanha se adapta a essa geometria. A contradição é totalizante: a mesma figura que evoca greves históricas negocia com quem as combateu. A mediação necessária — a organização autônoma dos trabalhadores — é empurrada para segundo plano.

Organizar para superar

A saída não está em rejeitar a memória, mas em submetê-la à crítica da práxis. O passado de lutas só tem sentido se orientar a ação presente rumo à superação da ordem vigente. Isso exige organização política independente, construção de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a sangria financeira, e não se contente com gestos simbólicos. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, as classes sociais se enfrentam no terreno da política concreta; a consciência de classe se forja na luta, não na contemplação do passado.

Precisamos retomar as bandeiras históricas sem aceitar a capitulação: reforma agrária, auditoria da dívida, soberania tecnológica e redução da jornada de trabalho, como apontamos em nossa análise sobre a jornada. A classe trabalhadora não pode se contentar com a memória como fetiche; é preciso transformar a lembrança em programa de luta.

Referências

Perguntas Frequentes

Como a evocação do passado de lutas esconde a capitulação presente?

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das greves e da criação do PT para reacender a identidade de classe, mas essa memória isolada da prática presente torna-se fetiche. Enquanto as telas mostram operários em luta, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem o arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos.

Quais alianças revelam a rendição de Lula ao capital financeiro?

A campanha sela acordos com partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida mantém juros acima de 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida e metas fiscais impostas pelo mercado, sem romper com a lógica rentista.

Qual é o papel da memória na campanha de Lula?

A memória das greves de 1978-1980 e da criação do PT tem função mobilizadora, mas isolada da prática presente torna-se fetiche. A nostalgia oferece um passado heroico como consolo diante de derrotas simbólicas e materiais, transformando a memória em instrumento de desmobilização da classe trabalhadora.

Como o acordo tarifário com os EUA aprofunda a subordinação?

O acordo tarifário com os EUA reforça a dependência estrutural do Brasil. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que aprofundam a subordinação ao imperialismo, operando dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece.

O que a disputa de classes na campanha de Lula evidencia?

A disputa de classes fica evidente no contraste entre os comícios que exaltam o passado de combatividade e as alianças com o sistema financeiro e o agronegócio. A evocação do passado serve como escudo ideológico para ocultar o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio.

Democracia mais antiga dos EUA e a punição imperialista ao Haiti

A punição ao Haiti nasce de uma necessidade estrutural: disciplinar o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder, expondo a contradição entre a retórica da democracia mais antiga dos EUA e a prática imperialista.

Principais pontos

  • O Haiti, primeiro país a abolir a escravidão e a conquistar independência por meio de uma revolução social vitoriosa, segue pagando pelo crime de ter virado a mesa no jogo colonial.
  • Em 1825, a França impôs à jovem república uma indenização de 150 milhões de francos-ouro apenas para reconhecer a soberania que os canaviais queimados já haviam imposto.
  • A ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934 reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro.
  • Castigar o Haiti não é vingança de senhores saudosos; é expressão da luta de classes em escala internacional.
  • O capital financeirizado precisa de periferias disciplinadas, e o Haiti — nascido de uma revolução social — é a negação viva da ordem que o Norte pretende impor.

Dialética da punição: a “democracia mais antiga” contra a memória da revolução haitiana

Por Walter Azevedo

Enquanto Washington celebra o rótulo de democracia mais antiga do mundo, aviões fretados decolam de aeroportos da Flórida levando haitianos algemados de volta ao caos que o próprio poder imperial ajudou a criar. Não se trata de exceção, mas de método. O Haiti, primeiro país a abolir a escravidão e a conquistar independência por meio de uma revolução social vitoriosa, segue pagando pelo crime de ter virado a mesa no jogo colonial. A punição não nasce de rancor moral, e sim de uma necessidade estrutural: disciplinar o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder.

Em 1825, a França impôs à jovem república uma indenização de 150 milhões de francos-ouro apenas para reconhecer a soberania que os canaviais queimados já haviam imposto. Convertida aos valores atuais, a cifra se aproxima de 21 bilhões de dólares. Esse foi o preço cobrado pela liberdade, pago em suor, fome e dependência por gerações. A retórica da democracia exportada encontra aqui seu limite exato: liberdade para o capital circular, punição para quem ousa romper a ordem do trabalho subordinado.

A farsa democrática e o castigo à insubordinação

Washington insiste que espalha instituições livres pelo mundo. Basta mirar o Haiti para medir o fosso entre o discurso e a prática. Após 1804, nenhuma potência colonial estendeu a mão. Ao contrário: isolaram o país, impuseram embargos e ameaçaram recolonização. A ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934 reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro. O golpe de 2004 contra Jean-Bertrand Aristide, articulado com fundações do establishment ianque, repetiu o ciclo de asfixia e recolonização branda.

Os mecanismos de castigo mudam de roupa, jamais de essência:

  • Endividamento público induzido para submeter o erário à banca privada;
  • Ocupações militares que desorganizam as forças populares e criminalizam a resistência;
  • Deportações em massa que criminalizam a migração e lançam trabalhadores de volta à miséria;
  • Ajuda externa condicionada à desregulamentação, à abertura comercial e à privatização de serviços.

Cada item esconde uma transferência de riqueza do trabalho haitiano para o capital financeirizado. A dívida pública e os juros altos não são abstrações contábeis; são o instrumento cotidiano dessa sangria.

A luta de classes como chave de leitura

Castigar o Haiti não é vingança de senhores saudosos. É expressão da luta de classes em escala internacional. O capital financeirizado precisa de periferias disciplinadas, e o Haiti — nascido de uma revolução social — é a negação viva da ordem que o Norte global impõe. Ruy Mauro Marini, ao analisar a superexploração da força de trabalho na periferia, mostrou como as burguesias dependentes compensam a perda de mais-valia transferindo-a para o centro. No Haiti, essa superexploração atinge níveis extremos: remessas de migrantes sustentam o que o Estado não entrega, enquanto a elite local, associada ao capital externo, lucra com a desgraça e atua como testa de ferro do imperialismo.

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

Marx descreve com precisão o terreno em que as massas haitianas resistem hoje. Não lutam apenas contra gangues armadas, mas contra uma arquitetura de dívida, despossessão e criminalização. Cada deportação é um ato de guerra social contra a memória de 1804. A subordinação estrutural que se negocia em acordos tarifários segue a mesma lógica: manter a periferia de joelhos para que o centro respire.

Memória como trincheira estratégica

A memória da revolução haitiana é a chave de leitura que a “democracia mais antiga” tenta apagar. C.L.R. James, em Os Jacobinos Negros, demonstrou que a luta em São Domingos foi o laboratório da revolução atlântica, antecipando a abolição em quase um século. Ex-escravizados derrotaram três impérios — o francês, o inglês e o espanhol. Essa experiência foi deliberadamente banida dos currículos e da mídia porque ensina que emancipação real exige ruptura com a propriedade privada dos meios de produção. Não por acaso, Washington prefere celebrar fundadores escravistas a lembrar Toussaint L’Ouverture.

A síntese dialética é esta: a hipocrisia democrática dos EUA é funcional à dominação de classe. A retórica de liberdade esconde transferências de valor e violência imperial. No Haiti, o passado revolucionário é um espelho que a burguesia do Norte não quer encarar. Nossa tarefa, como classe trabalhadora, é romper o silêncio. Incorporar a experiência haitiana ao programa nacional-popular latino-americano, conectar as lutas contra deportação e endividamento e construir solidariedade concreta com as organizações de base haitianas que mantêm viva a chama de 1804. A esquerda latino-americana só avança quando assume o fardo dessa memória.

A luta de classes não é um jogo de palavras. É disputa pelo sentido da história. O Haiti prova que a liberdade não se negocia; conquista-se. E que a punição imperialista só termina quando os trabalhadores dos países dominantes se recusam a ser cúmplices e os trabalhadores da periferia tomam o poder. A memória é uma trincheira. Leiamos James, estudemos Marini, relembremos Dessalines. E avancemos.

Perguntas Frequentes

Por que os EUA punem o Haiti apesar da retórica democrática?

A punição nasce de necessidade estrutural: o Haiti é o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder, e disciplinar esse exemplo expõe a contradição entre a democracia exportada e a ordem imperial.

Qual foi o preço cobrado pela independência do Haiti?

Em 1825, a França impôs indenização de 150 milhões de francos-ouro só para reconhecer a soberania haitiana. Convertida, a cifra se aproxima de 21 bilhões de dólares, paga com suor, fome e dependência por gerações.

Como a ocupação militar dos EUA afetou o Haiti?

De 1915 a 1934, a ocupação reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro, desorganizando forças populares e criminalizando a resistência.

O que o Haiti representa para a luta de classes internacional?

O Haiti é a negação viva da ordem que o capital financeirizado precisa impor. Castigá-lo é expressão da luta de classes em escala internacional, buscando periferias disciplinadas.

Quais mecanismos de castigo são usados contra o Haiti?

Endividamento público induzido, ocupações militares, deportações em massa e ajuda externa condicionada à desregulamentação e privatização, cada item transferindo riqueza do trabalho haitiano ao capital financeirizado.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Esquerda na América Latina: limites da via eleitoral e resistência das elites

Esquerda na América Latina: os limites da via eleitoral e a resistência das elites

Por Walter Azevedo

Há poucos anos, a América Latina viveu uma primavera progressista. Governos de esquerda e centro-esquerda chegaram ao poder no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia e México prometendo enfrentar a desigualdade histórica e retomar a soberania nacional. O balanço, no entanto, é amargo. A onda azul varreu o continente e, onde a esquerda se manteve, governa sob constante cerco. O que explica essa fragilidade das maiorias eleitas? A resposta não está na qualidade dos programas ou na virtude dos líderes, mas na natureza da correlação de forças que o jogo eleitoral não altera sozinho.

O palco e os bastidores

As eleições são o momento de maior visibilidade da luta de classes, mas também a arena onde as elites econômicas aceitam perder uma batalha para não perder a guerra. A via eleitoral não transfere o poder real: decisões sobre investimento, preços, juros e câmbio continuam nas mãos de quem detém os meios de produção e o sistema financeiro. O Congresso é palco, mas os roteiros são escritos nos conselhos de administração e nas salas fechadas dos bancos.

Tomemos o Chile. Em 2021, Gabriel Boric venceu com discurso de transformação radical. Dois anos depois, enfrenta rejeição maior que a da direita. As classes dominantes chilenas, articuladas com o capital internacional, impuseram derrota no plebiscito constitucional e inviabilizaram reformas estruturais. A mesma dinâmica se repetiu no Brasil: Lula venceu em 2022, mas governa sob fogo cerrado de um Congresso hegemonizado pelo centrão e pelo agronegócio, que impõem austeridade fiscal e transferência de renda ao capital financeiro. A via eleitoral é necessária, mas insuficiente.

A resistência das elites: recuo tático, ofensiva estratégica

A burguesia latino-americana aprendeu a lição de 2003-2015. Durante aquele ciclo, a esquerda governou com preços das commodities nas alturas, distribuindo renda sem confrontar o capital. Quando a crise global de 2008 e a queda dos preços das matérias-primas apertaram o cerco, as elites reagiram não com golpe militar clássico, mas com estrangulamento fiscal, judicialização da política e ofensiva ideológica. O impeachment de Dilma Rousseff em 2016 é o exemplo mais acabado: a burguesia não precisou de tanques, apenas de interpretação criativa da lei e parlamento dócil.

Esse processo revela uma verdade dura: a via eleitoral, sem organização popular permanente e controle sobre meios de produção e comunicação, é uma prisão dourada. A esquerda ganha o governo, mas não o poder. As elites mantêm controle sobre a economia real e a narrativa midiática, criando governos que administram a crise do capitalismo dependente, incapazes de romper com a subordinação estrutural aos EUA e ao sistema financeiro internacional.

O gargalo da estratégia: institucionalismo sem poder popular

O problema central não é a disputa eleitoral, mas o abandono da construção de poder popular como eixo estratégico. Partidos de esquerda se profissionalizaram a ponto de confundir conquista de cargos com transformação social. Sem organização nos bairros, locais de trabalho e movimentos sociais, a práxis transformadora reduz-se a administrar o capitalismo com rosto humano. Quando a crise aperta, a máquina estatal, capturada pelas oligarquias, engole o governante de esquerda.

Segundo a CEPAL, a taxa de pobreza na América Latina recuou durante o boom das commodities, mas voltou a subir depois de 2015, atingindo 32% da população em 2023. A concentração de renda do 1% mais rico continua entre as mais altas do mundo. A reforma agrária não avançou em nenhum país na última década. A dependência tecnológica e financeira se aprofundou. A esquerda mitiga a miséria com programas de transferência de renda, mas não enfrenta causas estruturais por confrontar o capital financeirizado e o imperialismo.

Para além do Estado: rearticular o poder da classe trabalhadora

A saída não é abandonar a disputa eleitoral, mas rebaixá-la a uma tática dentro de estratégia maior. O centro da luta deve ser a reorganização da classe trabalhadora como sujeito político autônomo, capaz de impor demandas independentemente de quem ocupa o palácio. Isso implica retomar a construção de sindicatos combativos, movimentos populares de base, conselhos populares e formas de democracia direta que existam antes, durante e depois dos governos de esquerda.

O exemplo do MST no Brasil é paradigmático: quando o governo Lula recuou na reforma agrária, o movimento pressionou e manteve viva a pauta. A Venezuela bolivariana ensina que a ruptura só é possível quando o povo está organizado em conselhos. O limite da via eleitoral não é convite ao derrotismo, mas chamado à radicalização da democracia. Precisamos de menos institucionalismo e mais poder popular, menos foco no palácio e mais organização nas bases, menos ilusão no Estado burguês e mais construção de contra-poder.

A resistência das elites é feroz, mas a história não está escrita. As contradições do capitalismo dependente se aprofundam, e a crise climática, a financeirização e o aumento da desigualdade criam condições objetivas para nova onda de lutas. Cabe à esquerda aprender com erros do passado e construir a organização necessária para transformar a correlação de forças não apenas nas urnas, mas nas ruas, nos campos e nas fábricas. A próxima primavera, se vier, será construída com mais consciência e menos ilusão.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Habitação e especulação: por que o déficit habitacional é estrutural no Brasil

Da casa ao ativo financeiro: como a especulação imobiliária fabrica o déficit habitacional

Por Walter Azevedo

Em qualquer cidade brasileira, uma contradição salta aos olhos: prédios vazios e terrenos baldios convivem com famílias em cortiços, aluguéis que consomem metade do salário e falta de moradia. O déficit habitacional não é um acidente de percurso, corrigível com algumas unidades do Minha Casa, Minha Vida. Ele é estrutural, orgânico ao modo como nossa sociedade organiza o espaço urbano. Para compreendê-lo, é preciso abandonar a lente da "falta de planejamento" e adotar a da luta de classes no chão da cidade.

O fenômeno concreto: o drama cotidiano da moradia

Milhões de brasileiros vivem em condições precárias, dividindo cortiços, construindo barracos em áreas de risco ou empilhando-se em periferias distantes. O aluguel, nas capitais, supera frequentemente o gasto com alimentação. Enquanto isso, o mercado imobiliário ostenta lançamentos de luxo e estúdios vendidos como "investimento". A máquina de produzir miséria habitacional funciona em marcha lenta para os pobres e em velocidade máxima para o capital.

Este não é um problema técnico. O Brasil não é pobre: somos uma das maiores economias do mundo. Falta não são tijolos ou cimento, mas uma organização social que coloque a moradia como direito, e não como mercadoria subordinada ao lucro. Aqui reside o nó da questão.

Por trás da superfície: os interesses que comandam o solo urbano

O que explica estoques imensos de imóveis vazios e terrenos ociosos em áreas centrais, apesar do déficit de milhões de moradias? A resposta não está na "ineficiência do mercado", mas na sua lógica íntima. A terra urbana é um monopólio natural. Quem a detém decide seu uso e preço. No capitalismo financeirizado, a terra tornou-se ativo financeiro, reserva de valor, objeto de especulação.

É mais lucrativo manter um terreno vazio no centro, aguardando valorização futura com obras públicas, do que construir habitação popular. É mais rentável erguer um prédio de luxo com 20 unidades do que 200 moradias populares. Onde o lucro é menor, o capital não vai. A moradia para a classe trabalhadora, sem subsídio estatal ou organização popular, oferece margens inferiores à especulação e ao mercado de alto padrão.

Este mecanismo não é natural. O capital imobiliário e financeiro capturou o Estado, moldando legislação, zoneamento e política fiscal. O solo urbano virou um cassino. A mesma lógica que vimos na dívida pública transferindo renda do trabalho ao capital se reproduz: o direito à cidade é leiloado ao maior lance.

Mediações históricas e o padrão de dependência

A financeirização da moradia não é exclusiva do Brasil, mas ganha contornos de nossa formação dependente. Em países centrais, o Estado de bem-estar construiu parques habitacionais públicos. Aqui, a urbanização acelerada expulsou pobres para periferias desassistidas, combinando especulação privada com omissão estatal. Programas habitacionais serviram mais para aquecer o setor da construção civil do que para resolver o problema.

O Minha Casa, Minha Vida é exemplo clássico dessa contradição. Criou milhões de unidades, mas muitas vezes em locais distantes, repetindo a periferização. Sua lógica de mercado engordou lucros de construtoras e bancos, sem atacar o monopólio fundiário. Hoje, fundos imobiliários e aluguéis de curta temporada (como Airbnb) retiram unidades do mercado permanente, transformando lares em mercadorias financeiras. Este padrão é funcional ao capital financeirizado: a drenagem de recursos para o rentismo encontra no solo urbano mais um canal fértil, assim como a privatização da Corsan no Rio Grande do Sul transferiu a água para o controle privado.

A superação possível: reforma urbana e ação coletiva

A saída não está em "mais mercado" ou políticas paliativas. Superar o déficit exige enfrentar o monopólio da terra urbana. Isso significa reforma urbana que submeta a propriedade à função social, conforme prevê nossa Constituição. Implica taxar terra ociosa, desapropriar imóveis abandonados, fortalecer a construção pública direta, regular o aluguel e criar financiamento não capturado pelo capital financeiro.

Não é utopia, mas projetos na ordem do dia de lutas urbanas mundiais. A chave é política. A reforma não será dada pelo Estado burguês; ele é parte do problema. Ela avançará se imposta pela organização e luta da classe trabalhadora e dos movimentos populares. Precisamos quebrar o poder dos monopólios imobiliários e colocar o direito à cidade no centro do projeto nacional.

A moradia é síntese de contradições entre capital e trabalho, necessidade humana e lógica do lucro. Resolvê-la aponta para a superação do sistema. Cada ocupação organizada, cada lei de função social aprovada, cada debate sobre aluguel e direito ao centro é uma batalha nessa guerra de posição. A casa não é mercadoria. É chão para a vida, para os filhos, para o descanso. E esse chão precisa ser conquistado.

Referências e fontes para aprofundamento

  • Fundação João Pinheiro. Déficit Habitacional no Brasil (séries históricas).
  • MARICATO, Ermínia. O impasse da política urbana no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2011.
  • ROLNIK, Raquel. Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.
  • O debate sobre a captura do Minha Casa, Minha Vida pelo capital imobiliário (diversos artigos acadêmicos e reportagens investigativas sobre o tema).

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Dívida pública e juros altos: transferência de renda do trabalho ao capital financeiro

Dívida pública e juros altos: a transferência do suor da classe trabalhadora para o rentista improdutivo

Por Walter Azevedo

Enquanto o governo discute se corta verba da saúde, da educação ou das universidades federais, uma lógica silenciosa drena os recursos do fundo público para o bolso de quem já tem muito. O debate sobre o novo arcabouço fiscal e a meta de inflação esconde a raiz do problema: o orçamento público brasileiro é uma máquina de transferir renda do trabalho para o capital financeirizado. E o instrumento central dessa engrenagem é a dívida pública. Quer entender por que falta dinheiro para o SUS e sobra para pagar juros estratosféricos? É preciso virar a lupa para a superfície e enxergar as contradições reais da nossa formação social dependente.

O cofre que sangra para os rentistas

O fenômeno é concreto e brutal. Todo ano, o governo federal gasta centenas de bilhões de reais com o pagamento de juros e serviços da dívida pública. Esse valor supera, de longe, os investimentos em educação, saúde e infraestrutura somados. A sobra para o trabalhador é migalha, enquanto a fatia do bolo reservada aos bancos, fundos de investimento e grandes rentistas é generosa e garantida por lei. Essa não é uma falha técnica de gestão. É uma escolha política que reflete a correlação de forças na sociedade brasileira: o capital financeiro, na sua forma mais parasitária, capturou o Estado e o transformou no seu principal cliente e fiador.

O Banco Central, com sua autonomia formal, atua como o zelador desse pacto. Ao determinar a taxa básica de juros (Selic) em patamares reais entre os mais altos do planeta, ele não apenas encarece o crédito para todos — empresas e famílias — como também engorda artificialmente a dívida pública. Afinal, uma parte significativa dos títulos do Tesouro está indexada à Selic: quanto maior o juro, maior o custo mensal da dívida, maior o superávit primário necessário para pagá-la. E quem cobre a conta? A classe trabalhadora, com seus impostos regressivos, e o povo, com a deterioração dos serviços públicos.

“A dívida pública não é um problema econômico; é uma ferramenta de dominação de classe que, sob a capa da técnica orçamentária, mantém a subordinação do Brasil ao sistema financeiro global.”

Os bastidores: lógica da financeirização e entrega da soberania

Aprofundando a análise, o que está por trás desse mecanismo é a própria natureza do capital financeirizado em uma economia periférica. O sistema da dívida pública se articula com a superexploração da força de trabalho e com a dependência estrutural do Brasil. Para atrair capitais estrangeiros e segurar a inflação do consumo, o governo premia o capital portátil com juros altos. O resultado é um círculo vicioso: a dívida cresce, o serviço da dívida engole o orçamento, e o ajuste fiscal recai sobre o gasto social.

Os defensores dessa política repetem o mantra da “austeridade”: é preciso pagar a dívida para manter a “credibilidade”. Mas essa credibilidade interessa a quem? Aos mesmos grupos que, através do sistema financeiro, drenam o excedente econômico produzido pelo trabalho no Brasil. Enquanto isso, a classe do capital nacional, em grande parte associada ao capital internacional, não pressiona por uma ruptura. Prefere lucrar com a ciranda financeira a investir na produção real e na geração de emprego digno. A soberania nacional é trocada por uma âncora cambial dependente e por um status de colônia financeira moderna.

Para onde ir: luta política e controle do fundo público

Há saída, mas ela não virá da tecnocracia do mercado. A superação dessa armadilha fiscal exige uma ofensiva política da classe trabalhadora e das forças populares em três frentes inseparáveis. Primeiro, é preciso aprofundar a desindexação da economia, retirando a âncora dos juros altos e do superávit primário como dogma. A taxa Selic precisa cair, e o Banco Central precisa servir a um projeto de desenvolvimento, e não aos interesses dos rentistas.

  • Mudança na política de juros: Reduzir a Selic de forma significativa e imediata, desmontando o mecanismo que transfere renda ao capital financeirizado.
  • Reestruturação da dívida pública: Alongar prazos e reduzir juros, com forte controle do Estado sobre o sistema financeiro. Os bancos públicos devem liderar essa agenda.
  • Tributação dos super-ricos e do capital: Impostos sobre grandes fortunas, dividendos e lucros do setor financeiro para financiar o Estado social e não o Estado rentista.

Não se trata de uma visão moralista contra os bancos, mas de uma análise sobre quem paga a conta e quem embolsa o lucro. A luta contra a dívida pública predatória é, no fundo, a luta por um projeto nacional-popular que coloque a vida acima da rentabilidade. É a disputa pelo fundo público: ele servirá para garantir saúde, educação e salário, ou para alimentar a ciranda financeira? A resposta está nas ruas, na organização sindical e na consciência de classe.

Como escrevi em “Como Vencer na Grande Política”: “A política não se faz com boa vontade, mas com correlação de forças”. Se a classe trabalhadora não pautar o debate, os juros continuarão altos e o orçamento será sempre o fiador da miséria.

Referências e fontes:

O post se baseia em dados públicos do Banco Central, do Tesouro Nacional e do Orçamento Geral da União. Para um aprofundamento teórico sobre o tema, recomenda-se a leitura de:

  • Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado — para entender a subordinação histórica do capital nacional.
  • A Crise do Estado Desenvolvimentista, de Theotônio dos Santos — para pensar a dependência financeira.
  • Como Vencer na Grande Política, de Walter Azevedo (Appris, 2023) — para a análise de classes aplicada ao orçamento e ao fundo público.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Redução da jornada de trabalho: do fim da escala 6x1 à disputa pelo tempo de vida

Redução da jornada de trabalho: do fim da escala 6x1 à disputa pelo tempo de vida

Por Walter Azevedo

Um projeto de emenda constitucional que propõe o fim da escala 6x1 dorme nas gavetas do Congresso, enquanto milhões de brasileiros vendem seis dias de sua vida por semana para um único dia de descanso. Discutir a redução da jornada é entrar no centro da luta de classes no século XXI: a disputa pelo tempo da vida.

Esse debate não é novo. A classe trabalhadora sempre lutou contra a voracidade do capital. Conquistas como as oito horas diárias e o descanso semanal foram arrancadas a ferro e fogo. Hoje, com automação, inteligência artificial e plataformas digitais, a contradição se aprofunda: produz-se mais em menos tempo, mas o trabalhador não se liberta; apenas se desemprega ou se superexplora.

A escala 6x1 como expressão da superexploração

A escala 6x1 é regra em setores como comércio, serviços, telemarketing e logística. Ela materializa a lógica do capital financeirizado: extrair o máximo de mais-valor comprimindo a existência humana a um ciclo de trabalho, deslocamento e adoecimento.

Segundo o Dieese, mais de 30% dos trabalhadores formais no Brasil ultrapassam 44 horas semanais. No trabalho informal e nas plataformas digitais, a realidade é mais selvagem: o entregador trabalha 12 ou 14 horas para uma renda que mal cobre despesas. O capital não quer tempo livre; quer disponibilidade total, disfarçada de "autonomia".

A redução da jornada não é apenas pauta reformista. É necessidade estrutural diante da superexploração da força de trabalho, conceito de Ruy Mauro Marini que define o pagamento abaixo do valor da força de trabalho para compensar perdas do capital.

Tempo de vida versus tempo de lucro

A burguesia alega que reduzir a jornada inviabiliza a produção e gera desemprego. Mas a história mostra o contrário: quando a jornada caiu de 12 para 8 horas diárias no início do século XX, a produtividade aumentou, os acidentes diminuíram e o capitalista continuou lucrando.

O que está em jogo não é se a economia "aguenta" trabalhar menos. A pergunta é: quem controlará o tempo socialmente disponível? Hoje, o capital controla o tempo de 90% dos trabalhadores. A redução da jornada, com fortalecimento sindical e regulação das plataformas, aponta para a soberania do trabalhador sobre sua própria vida.

Não se trata de mendigar uma emenda ao Congresso, hegemonizado pelo capital. Trata-se de construir correlação de forças para impor essa prioridade. Uma greve geral pelo fim da escala 6x1 teria mais força que mil projetos engavetados. Essa pauta unifica o metalúrgico, o entregador, a atendente e o professor.

Avançar na organização, não na espera

Portugal viveu recentemente uma greve geral com foco na redução da jornada e regulação de plataformas — fruto de anos de organização. No Brasil, a PEC que propõe o fim da escala 6x1 é um passo, mas não será o Congresso que nos concederá direitos. Cada conquista foi fruto de luta, não de boa vontade patronal.

O tempo de vida não é mercadoria. É a matéria-prima da existência, do lazer, do afeto e da luta política. Reduzir a jornada é liberar essa matéria-prima para além da mera reprodução do capital. Essa disputa nos prepara para enfrentar questões maiores: o controle dos meios de produção e o sentido social do trabalho.

O fim da escala 6x1 não é utopia. É uma exigência concreta. Organizemo-nos para arrancá-lo.

Referências e fontes:

  • Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) — Pesquisa sobre jornada de trabalho e condições de emprego no Brasil.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência — Para o conceito de superexploração da força de trabalho.
  • Walter Azevedo. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023) — Para a análise de correlação de forças e disputa de hegemonia.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Acordo tarifário Brasil-EUA: subordinação estrutural ou brecha para soberania?

Acordo tarifário com EUA: mais subordinação ou brecha para soberania nacional?

Por Walter Azevedo

Nos últimos dias, ecoou a possibilidade de um novo acordo tarifário entre Brasil e Estados Unidos. O governo brasileiro sinaliza disposição para negociar — alívios de um lado, concessões do outro. Para o olhar imediato, parece apenas mais uma pauta técnica de comércio exterior. Mas nada na relação entre um país periférico dependente e o centro do capitalismo mundial é mera burocracia. Por trás das planilhas de alíquotas, há um jogo de forças que decide o futuro do nosso desenvolvimento.

A pergunta é direta: esse acordo representa mais um passo na subordinação histórica do Brasil ou pode se transformar em instrumento da nossa soberania nacional?

O que está sobre a mesa (e o que fica debaixo dela)

Na aparência, negocia-se redução de tarifas de importação para produtos industriais americanos em troca de acesso privilegiado de itens brasileiros ao mercado estadunidense. O discurso oficial fala em "modernização" e "competitividade". Mas o Brasil tem parque industrial fragilizado por décadas de abertura indiscriminada e juros altos. Os EUA protegem ferozmente setores estratégicos — agricultura com subsídios bilionários, indústria de defesa, tecnologia sensível. Qualquer "reciprocidade" tarifária neste terreno desigual é armadilha.

O historiador Theotônio dos Santos ensinou que a dependência não é mero "atraso" a ser superado pelo comércio, mas relação estrutural de subordinação reproduzida nas trocas desiguais. Quando abrimos nosso mercado para bens de alto valor agregado em troca de commodities e semimanufaturados, a conta nunca fecha a nosso favor. Entre 2000 e 2020, a corrente de comércio Brasil-EUA cresceu, mas o déficit brasileiro se aprofundou. Exportamos soja, minério de ferro, petróleo bruto; importamos máquinas, produtos químicos, equipamentos eletrônicos.

A dialética da brecha: onde pode haver espaço

Dito isso, seria simplismo afirmar que todo acordo é automaticamente entrega. A realidade, como ensina a dialética, é cheia de contradições. Se o governo negociar com proteção da indústria nacional e exigência de contrapartidas tecnológicas, pode extrair concessões reais. Não se trata de "abrir mão", mas de barganhar com a correlação de forças.

É aqui que entra o que Lenin chamava de "compromisso tático": usar a necessidade do imperialismo — que também precisa de mercados na região — para criar espaço de manobra. Se o acordo vier atrelado a investimentos em infraestrutura industrial, transferência de tecnologia e garantias de que setores sensíveis (saúde, defesa, energia) ficarão de fora, aí teríamos uma brecha para soberania. Do contrário, será a versão diplomática do entreguismo — o mesmo que Eduardo Bolsonaro tentou com o sistema Zelle (Eduardo Bolsonaro e o Zelle: entreguismo digital e subordinação financeira do Brasil).

O que separa uma negociação soberana de uma submissão travestida de acordo é a capacidade de impor condições e de ter uma estratégia nacional de desenvolvimento — não apenas uma pauta de exportação para agradar o agronegócio.

Quem ganha, quem perde e o papel da nossa classe

Na correlação de forças atual, os maiores interessados no acordo são setores do capital associado — agroexportadores, montadoras estrangeiras instaladas no Brasil, grandes varejistas importadores de tecnologia. Para eles, redução tarifária significa aumento de margem e acesso a insumos mais baratos. Para a classe trabalhadora, o resultado é ambíguo: se mal feito, fecha fábricas e elimina postos qualificados; se bem desenhado, pode gerar emprego. A diferença está na mobilização política.

O que o movimento sindical e popular precisa exigir está em três pontos, condições de classe:

  • Nada de redução de tarifas sem contrapartida de investimento produtivo e compromisso de manutenção de empregos;
  • Cláusulas que impeçam importação de bens que já produzimos internamente com capacidade ociosa;
  • Mecanismos de compensação para setores afetados — com fundo de desenvolvimento industrial e qualificação profissional pública.

O maior erro da esquerda brasileira tem sido reagir a cada negociação comercial com "não" automático, sem alternativas. Em 2023, viramos as costas à Aliança do Pacífico e deixamos a direita ocupar o debate sobre integração regional. Precisamos de mais que denúncia — precisamos de práxis que combine análise de classes com proposição concreta, como aprofundo em "Como Vencer na Grande Política" (Appris, 2023).

O que está em jogo não é só a tarifa — é o projeto de país

Não se trata de demonizar o comércio internacional. A soberania não é autarquia. Mas sem um projeto nacional-popular que fortaleça mercado interno, indústria e ciência e tecnologia, qualquer acordo será assimétrico. É a lição de Ruy Mauro Marini: a superexploração do trabalho na periferia não é acidente, é base do desenvolvimento capitalista central.

O governo tem oportunidade objetiva. A disputa interimperialista entre EUA e China abre janelas de negociação que não existiam há dez anos. O Brasil pode jogar com os dois lados — mas precisa ter carta própria e vontade política de não ser mero trunfo alheio.

A classe trabalhadora precisa se apropriar desse debate. Não como assunto de especialistas, mas como questão central do nosso projeto de nação. De que serve um "acordo" que aprofunda a dependência, desindustrializa o país e condena nossa juventude à uberização — como vimos no post sobre pejotização (Pejotização e uberização do trabalho: superexploração travestida de liberdade)?

O acordo tarifário com os EUA pode ser brecha para a soberania ou mais um elo da corrente. A resposta virá da nossa capacidade de pressionar, organizar e apresentar uma alternativa de classe. Isso é política. Isso é luta.

Fontes consultadas: Theotônio dos Santos, "Dependência e mudança social" (1970); Ruy Mauro Marini, "Dialética da dependência" (1973); dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC) sobre balança comercial Brasil-EUA (2000-2025); Walter Azevedo, "Como Vencer na Grande Política" (Appris, 2023).

terça-feira, 7 de julho de 2026

Eduardo Bolsonaro e o Zelle: entreguismo digital e subordinação financeira do Brasil

Entreguismo digital: a proposta de Eduardo Bolsonaro e o Zelle como servidão financeira consentida

Por Walter Azevedo

O que está por trás da defesa de um sistema de pagamentos estrangeiro?

Não é segredo que setores da nossa elite política sempre olharam para fora em busca de modelos prontos, como se a realidade brasileira precisasse ser ajustada a receitas externas. A recente sugestão de Eduardo Bolsonaro para que o Brasil adote o sistema Zelle, em detrimento do Pix, não é apenas uma opinião técnica — é a expressão de um projeto político. Por trás de um argumento que se pretende modernizador, escondem-se as velhas engrenagens da subordinação financeira. O que pareceria uma mera troca de plataforma revela, na superfície do debate, uma profunda disputa sobre quem controla o dinheiro do povo, para onde vão os dados das transações e a quem interessa ver nossa soberania financeira solapada.

O imediato e a farsa da eficiência estrangeira

O argumento imediato dos defensores do Zelle é sedutor, mas enganador: a suposta modernidade, a facilidade de uso e a integração com o sistema financeiro estadunidense. Contudo, precisamos ir além da aparência. O Pix não é um mero aplicativo; ele foi concebido como ferramenta de inclusão financeira, resultado de decisão soberana do Banco Central e do sistema financeiro nacional. Sua implementação, desde 2020, democratizou o acesso a pagamentos instantâneos, gratuitos para pessoas físicas, barateou custos e reduziu o poder dos bancos tradicionais que cobravam tarifas abusivas por cada TED ou DOC. Substituir essa estrutura por um sistema privado, estrangeiro e controlado por um consórcio de grandes bancos norte-americanos como o Zelle é, na prática, um retrocesso que entrega a chave do cofre para quem não tem compromisso nenhum com o desenvolvimento do Brasil.

A essência da proposta: quem perde, quem ganha e o que está em jogo

É aqui que a análise precisa se aprofundar. A defesa do Zelle não é um acaso nem uma opinião isolada. Ela se insere num movimento mais amplo da classe do capital financeirizado, que sempre viu no Estado brasileiro e em suas capacidades de inovação um obstáculo aos seus lucros extorsivos. Ao propor a substituição, o que se busca não é meramente a troca de uma tecnologia por outra, mas a reconfiguração das relações de poder dentro do sistema financeiro nacional. Ganham as big techs e os bancos estrangeiros, que passariam a ter acesso direto a dados sensíveis de milhões de brasileiros — dados que alimentariam seus algoritmos de crédito, suas estratégias de consumo e, não duvidemos, suas práticas de vigilância de mercado. Perde a classe trabalhadora, que veria o serviço gratuito, rápido e acessível do Pix ser gradualmente substituído por um sistema privado, sujeito a tarifas e a lógicas de lucro externas. Perde também nossa soberania nacional, ao delegar a um país imperialista o controle de parte essencial da infraestrutura financeira do país.

Não é por acaso que setores do capital financeiro e seus representantes políticos, como o próprio Eduardo Bolsonaro e seu entorno, defendem essa pauta. Eles sabem que a briga não é sobre conveniência, mas sobre hegemonia. Querem transformar o Brasil numa extensão do mercado financeiro global, onde as decisões não são tomadas pelo povo ou por suas instituições, mas pelos acionistas de Wall Street. Esse é o verdadeiro entreguismo digital: a cessão de um ativo estratégico — a plataforma de pagamentos — em troca de promessas de modernização que, na prática, aprofundam nossa dependência e subordinação.

Consequências concretas e a geopolítica dos pagamentos

Olhemos para os números: o Pix movimenta centenas de bilhões de reais todos os meses, de forma instantânea, gratuita e aberta. O Zelle, nos Estados Unidos, é operado por um consórcio de bancos e tem limitações de valores e tarifas para os usuários. Defender a adoção de um modelo mais caro e controlado por bancos é, no mínimo, ignorar os interesses da maioria da população. Além disso, há a questão geopolítica. Enquanto o Brasil construiu com o Pix um mecanismo que fortalece sua autonomia financeira, a proposta de migração para um sistema norte-americano significa alinhar nossa infraestrutura digital aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, especialmente num momento de disputas comerciais e monetárias globais. A contradição é clara: enquanto o Brasil tenta, com esforço, reduzir sua dependência tecnológica, há quem lute para atar os cabos da servidão de forma ainda mais firme.

A superação possível: soberania, organização e luta de classes

Diante desse cenário, qual deve ser a posição da classe trabalhadora? A superação não virá de palanques ou de discursos moralistas. Ela exige que entendamos o embate como parte da luta de classes na era digital. Precisamos construir um projeto político que defenda a soberania nacional sobre a infraestrutura digital, que amplie o controle público sobre os meios de pagamento e que rejeite, com firmeza, qualquer tentativa de entrega dos nossos sistemas estratégicos ao capital estrangeiro. A defesa do Pix, com suas potencialidades e seus desafios, é uma bandeira concreta de resistência à subordinação financeira. Mas não basta defender o que já temos. É preciso ir além: lutar por um sistema financeiro público, democrático, a serviço do desenvolvimento e da vida, e não do lucro dos monopólios digitais e dos bancos.

A luta contra o entreguismo financeiro de Eduardo Bolsonaro e de sua turma não é uma briga de nicho. É a briga pelo controle do nosso futuro coletivo. Cada vez que um defensor do Zelle abre a boca, revela não apenas seu projeto, mas a urgência de nos organizarmos para vencê-lo. A história não nos convida a assistir passivamente — ela nos chama a agir, com o rigor da análise e a força da unidade de classe.