A vitória eleitoral não transfere hegemonia; quem confunde maioria eleitoral com hegemonia ignora que o poder real se exerce diariamente nos aparelhos do Estado, na grade midiática e na pressão organizada das frações da classe do capital. A desmobilização popular, nesse contexto, não é neutralidade: é consentimento.

Principais pontos
- O voto é um momento da luta política, não o seu desfecho.
- A desmobilização popular não é neutralidade: é consentimento.
- Esse Congresso hostil não cederá por bom senso; ele recua apenas quando sente a força material da classe trabalhadora nas ruas, nas greves e nos territórios.
- A luta eleitoral, se não for acompanhada de organização popular, vira insumo para o marketing político e para a conciliação.
Organizar a classe para não entregar o mandato: vitória eleitoral e correlação de forças
Por Walter Azevedo
Nos últimos dias, a reforma ministerial cedeu pastas estratégicas ao chamado centrão para assegurar votos no Congresso. Não se tratou de uma decisão administrativa, mas de um recuo tático diante da correlação de forças que se formou desde a posse. A base social que elegeu a chapa vitoriosa em 2022 permanece difusa, desarmada politicamente e ausente das ruas. Enquanto isso, os agentes do ajuste fiscal avançam com a chantagem de sempre: mais juros, menos direitos, metas de superávit. É nesse terreno movediço que a desmobilização se transforma em entrega.
Vitória eleitoral não transfere hegemonia
O voto é um momento da luta política, não o seu desfecho. Quem confunde maioria eleitoral com hegemonia ignora que o poder real se exerce diariamente nos aparelhos do Estado, na grade midiática e na pressão organizada das frações da classe do capital. A vitória de outubro de 2022 freou a extrema direita, mas não reverteu a dependência estrutural nem deslocou os interesses dominantes que comandam o fluxo da riqueza. Como já alertamos ao desmontar o tesouraço como projeto de classe, aceitar o ajuste fiscal é sabotar as maiorias trabalhadoras.
O Orçamento Geral da União executou em 2024 cerca de R$ 1,9 trilhão em juros e amortizações da dívida pública. Enquanto o Tesouro transfere essa montanha de valor para os detentores de títulos, o Congresso impõe contrapartidas: corte de investimento, congelamento de salários e desidratação do SUS. Essa arquitetura não é técnica; é a forma concreta de subordinação do Estado aos interesses do capital financeirizado. A desmobilização popular, nesse contexto, não é neutralidade: é consentimento.
O Congresso hostil é a expressão da luta de classes
O parlamento brasileiro expressa, em sua composição majoritária, os interesses do agronegócio, do mercado financeiro e das antigas oligarquias regionais. A bancada ruralista, a bancada evangélica reacionária e o centrão fisiológico não são acidentes conjunturais: são a tradução política da hegemonia que a classe do capital ainda detém na sociedade civil. Quando aprovam o orçamento impositivo com mais de 50 bilhões de reais em emendas, transformam o orçamento público em moeda de troca para perpetuar sua dominação.
Esse Congresso hostil não cederá por bom senso. Ele recua apenas quando sente a força material da classe trabalhadora nas ruas, nas greves e nos territórios. A experiência histórica mostra que toda grande conquista de direitos nasceu de um ciclo de mobilização, não de acordos de gabinete. A luta eleitoral, se não for acompanhada de organização popular, vira insumo para o marketing político e para a conciliação.
Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.
Organizar para disputar a totalidade
A tarefa central é transformar a vitória eleitoral em força social organizada. Isso exige retomar os sindicatos, as associações de bairro, os comitês territoriais, os movimentos estudantis e as frentes populares. A classe trabalhadora precisa de instrumentos próprios de luta, capazes de pautar a agenda legislativa e impor limites ao Congresso. Não se trata de pedir licença para governar: trata-se de acumular poder popular para que o mandato não seja refém do chantagista de plantão.
Também exige disputar a batalha cultural, como nos ensina a ressignificação da camisa verde-amarela no algoritmo. Quem controla o senso comum controla parte decisiva da correlação de forças. O discurso do sacrifício fiscal, por exemplo, precisa ser enfrentado com pedagogia política: explicar por que a dívida não é do povo, por que o SUS definha e por que os juros altos financiam o rentismo.
Por fim, a desmobilização é entrega. Cada corte, cada isenção fiscal para os ricos, cada política de arrocho sem reação popular é mais um tijolo no muro que separa o governo eleito da sua base. A saída não é o voluntarismo moral nem a aposta em milagres institucionais. É a práxis concreta: organizar a classe trabalhadora, romper com a chantagem e construir um projeto nacional-popular que enfrente a dependência.
A vitória de 2022 abriu uma janela. A janela só se transforma em porta se a classe trabalhadora ocupar as ruas, os locais de trabalho e os espaços de decisão. O Congresso hostil não é um obstáculo intransponível; é a expressão de uma correlação de forças que se altera na luta. A tarefa imediata é reativar a mobilização popular, fortalecer os instrumentos da classe e dizer em alto e bom som: sem organização, a vitória eleitoral vira derrota programada.
Referências
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
- AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
- MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte.
- LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução.
- SANTOS, Theotônio dos. Dependência e mudança social.
- MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência.
Perguntas Frequentes
Por que a vitória eleitoral não garante hegemonia?
Porque o voto é um momento da luta política, não o seu desfecho. O poder real se exerce diariamente nos aparelhos do Estado, na mídia e na pressão organizada das frações da classe do capital, que continuam dominando o fluxo da riqueza.
O que significa desmobilização popular diante do Congresso hostil?
Significa consentimento com a arquitetura de subordinação do Estado aos interesses do capital financeirizado. Sem mobilização nas ruas, greves e territórios, o Congresso hostil impõe cortes, congelamentos e desidratação de direitos.
Como o Congresso hostil expressa a luta de classes?
A bancada ruralista, a bancada evangélica reacionária e o centrão fisiológico são a tradução política da hegemonia que a classe do capital detém na sociedade civil. Eles transformam o orçamento público em moeda de troca para perpetuar sua dominação.
Qual é o papel da organização da classe trabalhadora nesse cenário?
A organização popular é o único instrumento capaz de fazer o Congresso hostil recuar. Toda grande conquista de direitos nasceu de um ciclo de mobilização, não de acordos de gabinete, portanto a luta eleitoral deve ser acompanhada de organização popular.
Quais são os efeitos concretos da desmobilização apontados no texto?
A desmobilização se transforma em entrega: mais juros, menos direitos, metas de superávit. O Congresso impõe corte de investimento, congelamento de salários e desidratação do SUS, enquanto o Tesouro transfere cerca de R$ 1,9 trilhão para detentores de títulos.



