sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Jornada Bora Lula: força popular, esquerda e desafios trabalhistas

A jornada Bora Lula é um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, expressando a capilaridade dos movimentos populares e da esquerda, contrastando com a agenda da direita de desmonte, arrocho e criminalização, e revelando os desafios da mediação para a classe trabalhadora.

Principais pontos

  • A jornada Bora Lula desloca o eixo da disputa do estúdio de televisão para o território real das periferias nordestinas.
  • A presença massiva nas ruas desmente a tese conservadora de que a esquerda perdeu raiz social.
  • A agenda da direita segue ancorada em desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos sociais.
  • O problema da esquerda nunca foi a ausência de base, mas a mediação para transformar energia militante em projeto de poder sem neutralizar o programa.

Hegemonia em marcha: a jornada Bora Lula e a disputa pela consciência de classe

Por Walter Azevedo

As estradas do semiárido nordestino voltaram a ver filas de militantes, carros de som e bandeiras vermelhas atravessando municípios onde a presença do Estado se reduz a viatura e título de eleitor. A jornada Bora Lula recolocou a esquerda em movimento, ocupando praças, ginásios e feiras livres. Não se trata de romaria eleitoral, nem de simples adesão a uma candidatura. Trata-se de um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, daquilo que a classe trabalhadora constrói quando se reconhece como sujeito político e não como massa de manobra.

O concreto da rua como termômetro da luta de classes

A jornada Bora Lula expressa algo que as pesquisas de opinião não captam: a capilaridade dos movimentos populares, dos sindicatos, das pastorais, dos núcleos de juventude e dos diretórios partidários que se lançam às estradas. Cada ato reúne não apenas militantes orgânicos, mas trabalhadores informais, aposentados, feirantes, professores da rede pública e lideranças comunitárias. Quatro em cada dez ocupados no Brasil vivem na informalidade, sem proteção trabalhista estável, e é nessa base precarizada que a direita tenta fincar seu curral. A jornada, ao percorrer as periferias de Juazeiro do Norte, Campina Grande e Caruaru, desloca o eixo da disputa do estúdio de televisão para o território real.

A presença massiva nas ruas desmente a tese conservadora de que a esquerda perdeu raiz social. Ao contrário, revela que há reserva organizativa acumulada em décadas de luta sindical, estudantil e comunitária. O problema nunca foi a ausência de base. O problema tem sido a mediação: como transformar energia militante em projeto de poder, sem dissolvê-la em alianças que neutralizam o programa.

O que a direita esconde por trás do discurso de ordem

Enquanto a esquerda ocupa as estradas, a agenda da direita segue ancorada em três vetores: desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos sociais. O discurso moralizante contra a corrupção funciona como cortina de fumaça para privatizações, teto de gastos e captura do orçamento pelo capital financeirizado. Não é acaso que as mesmas forças que promovem o curral digital sejam as que financiam campanhas de desinformação contra lideranças populares. A rede de aplicativos de mensagem reproduz o coronelismo em nova roupagem: o cabo eleitoral agora é algoritmo, e a compra de voto troca o dinheiro vivo pelo engajamento forjado.

Por trás da retórica de pátria e família, opera uma fração de classe que não hesita em entregar o patrimônio nacional ao capital estrangeiro. A burguesia compradora mantém o país subordinado à divisão internacional do trabalho, exportando commodities baratas e importando tecnologia cara. Essa agenda exige uma classe trabalhadora desorganizada, fragmentada e convencida de que não há alternativa. Por isso o ataque à organização sindical e a demonização da política de rua não são acessórios: são condição para a hegemonia do capital sobre o trabalho.

Desafios da classe trabalhadora nas eleições

A disputa eleitoral impõe mediações que não podem ser subestimadas. A classe trabalhadora precisa enfrentar pelo menos três desafios objetivos:

  • Financiamento privado e tempo de propaganda: a máquina do capital compra rádio, televisão e impulsionamento digital em escala industrial. A esquerda depende de militância voluntária e de redes comunitárias.
  • Fragmentação programática: partidos que se autodenominam de esquerda disputam entre si o mesmo eleitorado, sem unidade em torno de um projeto nacional-popular soberano.
  • Violência política seletiva: lideranças de movimentos sociais, sindicalistas e ativistas de periferia sofrem ameaças, perseguição judicial e, em alguns estados, execução sumária com anuência de milícias.

O Bora Lula ensaia uma resposta a esses desafios: desloca a campanha do marketing para a presença física, da personalidade para a pedagogia coletiva. Mas a resposta só se completa se a jornada não terminar em comício. Precisa se converter em organização permanente, em conselhos populares, em núcleos de base capazes de disputar o orçamento municipal, a taxação dos super-ricos e a soberania energética e tecnológica.

Organização, projeto e superação

Não há eleição capaz de resolver a contradição entre capital e trabalho sem um sujeito político que a enfrente fora das urnas. A jornada Bora Lula é demonstração de força, não ainda demonstração de hegemonia. Hegemonia se constrói quando a classe trabalhadora formula, a partir de suas dores concretas, um projeto de sociedade que disputa o senso comum — nas escolas, nas igrejas, nos bairros, nos aplicativos. A poesia de Engajarte lembra que “a mão que ergue a bandeira é a mesma que planta o pão”. Essa dialética entre a rua e a roça, entre o sindicato e o território, entre a urna e a greve, é a única capaz de deslocar a correlação de forças.

A tarefa imediata é transformar a mobilização em organização, e a organização em programa. O voto é uma trincheira, não o front definitivo. A classe do capital continuará apostando na fragmentação e no desânimo. Cabe à classe trabalhadora responder com unidade de ação, consciência de classe e projeto nacional-popular. A jornada mostrou que há massa social disponível. Falta a direção política que unifique as caravanas em um só movimento histórico.

Para seguir o fio: a análise dialoga com Como Vencer na Grande Política (Appris, 2023), com os poemas de Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução e com a tradição dependentista de Theotônio dos Santos.

Perguntas Frequentes

O que a jornada Bora Lula representa para a esquerda?

A jornada representa um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, com militantes, sindicatos e comunidades ocupando ruas e feiras no semiárido nordestino, evidenciando a capilaridade dos movimentos populares que as pesquisas não captam.

Como a direita tenta se aproveitar da precarização do trabalho?

Com quatro em cada dez ocupados na informalidade, a direita tenta fincar seu curral nessa base precarizada, usando discurso moralizante e desinformação digital para ocultar desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos.

Qual é o principal desafio da esquerda segundo o texto?

O principal desafio é a mediação: como transformar a energia militante acumulada em projeto de poder, evitando alianças que neutralizem o programa e dissolvam a força organizativa em acordos sem raiz social.

O que a direita esconde por trás do discurso de ordem?

Esconde uma fração de classe que promove privatizações, teto de gastos e captura do orçamento pelo capital financeirizado, enquanto financia desinformação contra lideranças populares e entrega o patrimônio nacional ao capital estrangeiro.

Por que as pesquisas de opinião não captam a força da esquerda?

Porque não medem a capilaridade dos movimentos populares, sindicatos, pastorais e juventude que se lançam às estradas. A presença massiva nas ruas revela uma reserva organizativa real acumulada em décadas de luta social.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Gaza sob os escombros do imperialismo: limpeza étnica e crise do capital

Gaza é a radiografia brutal de uma barbárie em curso que revela a podridão mais profunda do sistema; não se trata de um conflito local, mas de uma implacável estratégia de limpeza étnica perpetrada sob o olhar complacente das grandes potências globais.

Principais pontos

  • As imagens que chegam de Gaza são a radiografia brutal de uma barbárie em curso, uma ferida aberta no corpo da humanidade.
  • Estamos diante de uma implacável estratégia de limpeza étnica, perpetrada sob o olhar complacente, e muitas vezes ativo, das grandes potências globais.
  • A destruição sistemática de vidas e infraestrutura em Gaza é o resultado de um projeto político consciente que visa a reorganização compulsória de uma região estratégica para o capital financeirizado global.
  • O escandaloso silêncio das potências ocidentais é uma arma, um atestado de impunidade que permite a escalada da violência.

Gaza e a Anatomia do Imperialismo: Limpeza Étnica, Crise do Capital e a Urgência da Solidariedade

Por Walter Azevedo

As imagens que chegam de Gaza não são meras notícias; são a radiografia brutal de uma barbárie em curso, uma ferida aberta no corpo da humanidade que revela a podridão mais profunda do sistema. Vemos famílias inteiras aniquiladas, hospitais transformados em ruínas, centenas de milhares de pessoas deslocadas, sem lar, sem esperança aparente. Não se trata de um conflito local, de uma disputa territorial banal. Estamos diante de uma implacável estratégia de limpeza étnica, perpetrada sob o olhar complacente, e muitas vezes ativo, das grandes potências globais. Este não é um evento isolado, mas uma expressão cabal das contradições insolúveis da classe do capital em sua fase imperialista.

A Necropolítica do Capital Financeirizado

O que testemunhamos em Gaza é a manifestação mais cruel da necropolítica em ação. A destruição sistemática de vidas e infraestrutura, a negação de direitos básicos e a asfixia econômica não são acidentes de percurso. São o resultado de um projeto político consciente que visa a reorganização compulsória de uma região estratégica para os interesses do capital financeirizado global e seus satélites regionais. O chamado "conflito" é, na verdade, uma operação de extermínio que serve para manter a hegemonia de determinadas frações da classe do capital, realocando forças e recursos em meio à crescente disputa interimperialista que sacode o Oriente Médio, como já apontamos ao discutir o petrodólar em colapso e as disputas por lá.

A superfície do evento nos mostra tanques e bombas, mas a análise dialética nos obriga a ir além. Por trás dos escombros, pulsam interesses bilionários na reconfiguração geopolítica da região, no controle de rotas energéticas e comerciais, e na perpetuação de um modelo de dependência que subordina nações e povos aos ditames dos centros imperialistas. A violência em Gaza é um lembrete vívido da tese de Ruy Mauro Marini sobre a superexploração: o valor da vida humana é rebaixado ao limite, tornando-se descartável em nome da acumulação e do lucro. A classe trabalhadora palestina, em sua condição de povo colonizado e superexplorado, é o alvo final dessa lógica predatória.

O Silêncio Cúmplice e a Fratura da Consciência

É impossível ignorar o escandaloso silêncio, quando não o apoio explícito, de diversas potências ocidentais. Enquanto o massacre se desenrola, os discursos sobre "democracia" e "direitos humanos" soam vazios, revelando a hipocrisia de um sistema que só reconhece a humanidade de quem lhe convém. Esse silêncio é uma arma, um atestado de impunidade que permite a escalada da violência. As resoluções da ONU são ignoradas, os apelos humanitários, sufocados. Estamos falando de um cenário onde, em pouco mais de seis meses, mais de 35 mil vidas foram ceifadas, incluindo mais de 15 mil crianças, segundo dados de agências internacionais, além da destruição de 70% das casas e infraestruturas em Gaza. A brutalidade dos números expõe a verdadeira face de uma oligarquia global que pauta a "ordem" a seu bel-prazer.

Este cenário de barbárie nos força a refletir sobre a formação social brasileira e o papel da nossa própria burguesia. Como podemos lutar pela soberania nacional e contra a burguesia compradora se somos indiferentes à negação da soberania e da vida de um povo em outro continente? A mediação entre o global e o local é inegável: a mesma lógica que esmaga Gaza é a que tenta sufocar nossos projetos nacionais-populares, a que privatiza nossos bens e explora nossa força de trabalho. Nietzsche nos alertou para o perigo da anestesia moral, e é justamente essa anestesia que o capital tenta impor para que não enxerguemos a totalidade da luta.

O grito de Gaza não é estrangeiro. Ele reverbera nas ruas de nossas periferias, nas terras roubadas dos povos originários, nos salários achatados dos trabalhadores. A poesia que engaja não se cala diante da desumanidade; ela denuncia, ela inspira a práxis, ela convoca à ação para que a revolução não seja apenas um verso, mas a vida que se faz em coletivo.

A Tarefa da Solidariedade Internacionalista e a Consciência de Classe

A superação desta crise exige uma profunda e organizada solidariedade internacionalista da classe trabalhadora. Não se trata de uma caridade vazia, mas do reconhecimento de que a luta em Gaza é um front na batalha global contra a exploração e o imperialismo. Nossas ações, por menores que pareçam, somam-se à correlação de forças global. Precisamos denunciar incansavelmente, pressionar nossos governos e empresas cúmplices, organizar boicotes, manifestações e debates que elevem a consciência de classe sobre a real natureza do que ocorre. A questão palestina não é um problema religioso ou étnico; é um problema de classes sociais, de exploração, de domínio imperialista.

A lição de Lenin sobre a importância da teoria como guia para a ação é mais atual do que nunca. Não podemos nos contentar com a indignação passageira; precisamos de análise profunda, de um projeto político que aponte para a construção de um mundo onde a dignidade humana esteja acima do lucro. A organização política da classe trabalhadora, em escala local e global, é a única força capaz de romper com essa lógica de barbárie. É hora de transformar a dor em luta, e a solidariedade em ação concreta. A vitória em Gaza, e em todas as frentes de batalha contra a opressão, é a vitória da nossa classe, a vitória da humanidade que se recusa a morrer sob os escombros do imperialismo.

Perguntas Frequentes

O que está acontecendo em Gaza segundo o texto?

O texto afirma que Gaza vive uma implacável estratégia de limpeza étnica, com destruição sistemática de vidas e infraestrutura, famílias aniquiladas, hospitais em ruínas e centenas de milhares de deslocados, sob o olhar complacente das grandes potências globais.

Como o texto relaciona a violência em Gaza à crise do capital?

A violência é apresentada como expressão das contradições insolúveis do capital em fase imperialista. Trata-se de um projeto político que serve para manter a hegemonia de frações da classe do capital, realocando forças e recursos na disputa interimperialista pelo Oriente Médio.

Por que o silêncio das potências ocidentais é considerado cúmplice?

O silêncio, quando não o apoio explícito, das potências ocidentais é descrito como uma arma e um atestado de impunidade que permite a escalada da violência. Os discursos sobre democracia e direitos humanos soam vazios diante do massacre.

O que é necropolítica no contexto do texto?

Necropolítica é a manifestação mais cruel do poder que decide quem pode viver e quem deve morrer. Em Gaza, ela se expressa na destruição sistemática de vidas, na negação de direitos básicos e na asfixia econômica como projeto político consciente.

Qual é a tarefa da solidariedade internacionalista apontada pelo autor?

O autor aponta a necessidade de romper com o silêncio cúmplice e reconhecer a violência em Gaza como uma ferida aberta no corpo da humanidade, exigindo solidariedade ativa diante da limpeza étnica e da barbárie perpetrada pelo capital imperialista.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Burguesia compradora e defesa nacional: soberania na luta de classes

Soberania não é conceito abstrato de manual geopolítico: é a linha que separa quem decide o destino da nação — a classe trabalhadora organizada ou a burguesia compradora associada ao capital estrangeiro.

Principais pontos

  • A burguesia compradora lucra na importação, na intermediação, na revenda de produtos e serviços controlados pelo centro do sistema, mantendo o país como consumidor cativo.
  • A tentativa de vender a Embraer à Boeing por US$ 4,2 bilhões expôs a lógica de entregar o coração tecnológico da defesa para virar sócio menor de um conglomerado estrangeiro.
  • A dependência não é externa à formação social, ela organiza a dominação por dentro: a burguesia associada ao capital estrangeiro não trai a nação por acidente.
  • O imperialismo opera pelo consentimento ativo de frações locais, que defendem a abertura, a privatização e a desnacionalização em nome da 'modernização' ou da 'eficiência'.

Burguesia compradora e defesa nacional: a trincheira da soberania na luta de classes

Por Walter Azevedo

A Quarta Frota dos Estados Unidos voltou a patrulhar o Atlântico Sul enquanto o Congresso brasileiro ensaia ratificar o acordo que entrega a Base de Alcântara ao Pentágono. Dois movimentos aparentemente técnicos que traduzem uma disputa de classes em escala internacional. Soberania não é conceito abstrato de manual geopolítico: é a linha que separa quem decide o destino da nação — a classe trabalhadora organizada ou a burguesia compradora associada ao capital estrangeiro.

Cada contrato de armas, cada base cedida, cada tecnologia comprada sem transferência representa escolhas que beneficiam frações específicas da classe dominante e condenam as maiorias a pagar a conta sem decidir nada. A tentativa de vender a Embraer à Boeing por US$ 4,2 bilhões expôs essa lógica: entregar o coração tecnológico da defesa para virar sócio menor de um conglomerado estrangeiro. A operação fracassou, mas a intenção permanece como sintoma.

A defesa como mercadoria: o papel da burguesia compradora

A classe do capital no Brasil prefere a subordinação. A burguesia compradora lucra na importação, na intermediação, na revenda de produtos e serviços controlados pelo centro do sistema. Sua acumulação depende de manter o país como consumidor cativo, nunca como produtor autônomo. Por isso a defesa nacional é tratada como despesa, não como projeto. Enquanto a indústria de defesa brasileira definha, os orçamentos militares compram equipamento pronto no exterior, financiando empregos e tecnologia em outros territórios. O país importa caças, radares e satélites ao mesmo tempo que fecha laboratórios públicos e reduz bolsas de pesquisa.

Marini e Theotônio dos Santos já apontavam: a dependência não é externa à formação social, ela organiza a dominação por dentro. A burguesia que se associa ao capital estrangeiro não trai a nação por acidente. Defender a soberania significaria romper com contratos, financiamentos e alianças que sustentam seu lugar no topo.

A dependência como chave de leitura: o que está por trás

O imperialismo opera pelo consentimento ativo de frações locais. A cada ciclo, setores da elite econômica brasileira defendem a abertura, a privatização, a desnacionalização — em nome da "modernização" ou da "eficiência". O resultado é a perda progressiva de capacidade de decisão. Lenin demonstrou que a fase do capital financeiro se caracteriza pela fusão do capital bancário com o industrial e pela partilha do mundo entre monopólios. O Brasil entra nessa partilha como território a ser disputado, não como jogador.

A dependência é uma situação em que a economia de certos países está condicionada pelo desenvolvimento e expansão de outra economia, à qual está subordinada.

Os Estados Unidos reativaram sua Quarta Frota justamente quando as reservas do pré-sal se confirmaram e a China ampliou investimentos na América do Sul. A disputa interimperialista pelos recursos estratégicos se aprofunda, e a burguesia compradora brasileira se oferece como sócia preferencial da potência em declínio. Ela aposta na proteção militar estadunidense para conservar seus privilégios, ainda que isso custe a submissão nacional. Leia também: Petrodólar em colapso e Oriente Médio: disputa interimperialista.

O Acordo de Alcântara permite que os Estados Unidos lancem foguetes a partir do território brasileiro sem transferência plena de tecnologia e com cláusulas de confidencialidade que limitam o acesso de engenheiros locais. A soberania sobre o centro de lançamento mais próximo da linha do Equador fica comprometida. Quem ganha? As empreiteiras e intermediárias que orbitam o Pentágono. Quem perde? O programa espacial brasileiro e a capacidade científica nacional.

Projeto nacional-popular: a soberania como trincheira de classe

A defesa nacional não pode ser bandeira de quartéis. Precisa ser tarefa da classe trabalhadora, dos movimentos sociais, dos cientistas, dos camponeses, das periferias. Só um projeto nacional-popular articula soberania com justiça social, porque entende que não há desenvolvimento autônomo sem distribuição de renda, sem reforma agrária, sem controle público dos recursos estratégicos. As terras raras, o pré-sal, a biodiversidade, os aquíferos: tudo isso compõe a base material de um novo padrão de inserção internacional.

A correlação de forças é desfavorável. O capital estrangeiro e seus sócios locais controlam o financiamento, a mídia e parcelas do aparato estatal. Mas a organização popular pode alterar o terreno da luta. Sindicatos, centrais, movimentos de moradia, comunidades tradicionais, juventude: são forças capazes de impor que a soberania deixe de ser discurso e vire prática.

  • Exigir a não ratificação do Acordo de Alcântara;
  • Cobrar transferência plena de tecnologia em cada compra militar;
  • Defender a reaproximação com os países latino-americanos;
  • Lutar contra a privatização dos recursos naturais.

Cada luta local se conecta à totalidade da disputa interimperialista. Cada vitória parcial reorganiza a correlação de forças. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a classe trabalhadora precisa atravessar o caminho da própria burguesia nacional para avançar. A soberania popular não é capítulo da política externa. É uma trincheira na luta de classes.

Aprofunde a relação entre terras raras, dependência e luta de classes.

Perguntas Frequentes

O que é burguesia compradora e qual seu papel na submissão do Brasil?

É a fração da classe dominante que lucra com a importação, intermediação e revenda de produtos controlados pelo capital estrangeiro. Sua acumulação depende de manter o país como consumidor cativo, nunca como produtor autônomo, por isso trata a defesa nacional como despesa, não como projeto.

Como a defesa nacional se relaciona com a luta de classes internacional?

Cada contrato de armas, base cedida ou tecnologia comprada sem transferência representa escolhas que beneficiam frações específicas da classe dominante e condenam as maiorias a pagar a conta sem decidir nada, revelando a disputa entre trabalhadores organizados e burguesia associada ao capital estrangeiro.

Por que a venda da Embraer à Boeing é um exemplo de submissão?

A operação de US$ 4,2 bilhões expôs a lógica de entregar o coração tecnológico da defesa brasileira para virar sócio menor de um conglomerado estrangeiro. Embora tenha fracassado, a intenção permanece como sintoma da preferência da burguesia compradora pela subordinação.

O que a reativação da Quarta Frota dos EUA representa para o Brasil?

A Quarta Frota voltou a patrulhar o Atlântico Sul enquanto o Congresso ensaia ratificar o acordo que entrega a Base de Alcântara ao Pentágono. São movimentos aparentemente técnicos que traduzem uma disputa de classes em escala internacional sobre quem decide o destino da nação.

Qual a relação entre dependência econômica e soberania nacional?

A dependência é uma situação em que a economia de certos países está condicionada pelo desenvolvimento e expansão de outra economia, à qual está subordinada. Defender a soberania significaria romper com contratos, financiamentos e alianças que sustentam o lugar da burguesia compradora no topo.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ideb como fetiche da gestão: interesses de classe e mercantilização do ensino

O Ideb tornou-se um fetiche da gestão que oculta interesses de classe e a mercantilização do ensino, intensificando a cobrança sobre os trabalhadores da educação sem medir aprendizado real.

Principais pontos

  • O Ideb não mede aprendizado real, e sim a capacidade de adaptação dos estudantes a testes padronizados.
  • A gestão por resultados transforma a educação pública em mercado, com grandes grupos educacionais disputando contratos e extraindo renda.
  • A lógica das metas escolares espelha a do chão de fábrica: mensuração constante, responsabilização individual e intensificação do ritmo.
  • A mercantilização do ensino se faz também pela colonização do cotidiano escolar por uma racionalidade empresarial que disputa hegemonia.

O Ideb como fetiche da gestão: interesses de classe e a mercantilização do trabalho docente

Por Walter Azevedo

Nas últimas semanas, redes municipais e estaduais amanheceram com um mesmo ritual: bônus condicionado à nota do Ideb, cartazes de metas, reuniões pedagógicas transformadas em análise de planilhas. Em 2023, o índice dos anos finais do ensino fundamental ficou em 5,0 — meio ponto abaixo da meta estipulada para 2021. A resposta dos gestores não foi ampliar investimento ou reduzir turmas, mas intensificar a cobrança sobre quem está no chão da escola. A classe trabalhadora da educação sente o peso dessa régua no corpo e no cotidiano.

O índice e o chão da escola

O Ideb, criado como instrumento de monitoramento, tornou-se uma espécie de fetiche: um número que parece falar por si, ocultando as relações sociais que o produzem. Professoras e professores são avaliados por um indicador que não mede aprendizado real, e sim a capacidade de adaptação dos estudantes a testes padronizados. O currículo vai sendo esvaziado, a filosofia e a arte perdem espaço, e a aula vira treinamento de múltipla escolha. A novidade aparece como neutralidade técnica, mas carrega uma decisão de classe: decidir o que vale como saber e para quem.

Os trabalhadores da educação percebem a contradição quando veem suas escolas sem biblioteca, sem laboratório e sem condições de trabalho, enquanto a secretaria exige “melhoria de indicadores”. O dado concreto do Ideb não explica o abandono das periferias, a superlotação das salas ou a insegurança alimentar de milhares de estudantes. Apenas a classifica, como se o fracasso fosse individual, da escola ou do docente, nunca do sistema que define o financiamento e a finalidade do ensino.

A gestão por resultados como cinto de transmissão do capital

Por trás da busca pela nota existe um movimento concreto de classe: a transformação da educação pública em mercado. Grandes grupos educacionais, fundos de investimento e plataformas digitais disputam contratos para “corrigir” o desempenho, oferecendo apostilas, sistemas de ensino e pacotes de gestão. O fundo público flui para esses operadores, enquanto a autonomia pedagógica é reduzida. A classe do capital financeirizado encontra no Ideb a porta de entrada para a padronização do currículo e a extração de renda sobre o trabalho alheio.

Não por acaso, a lógica das metas escolares espelha a do chão de fábrica: mensuração constante, responsabilização individual e intensificação do ritmo. A coordenação pedagógica vira supervisão de resultados; o planejamento docente vira preenchimento de formulários; o grêmio estudantil vira agente de cobrança. A mercantilização do ensino não se faz apenas pela privatização direta, mas pela colonização do cotidiano escolar por uma racionalidade empresarial que disputa hegemonia. O que está em jogo é quem define o sentido da educação: a soberania popular ou a subordinação à lógica do capital.

Impactos na classe trabalhadora da educação

O adoecimento docente é a expressão mais visível dessa ofensiva. A cobrança por resultados sem condições objetivas gera ansiedade, depressão e esgotamento entre professoras, professores, merendeiras e funcionários. A categoria assume a culpa por um fracasso que é estrutural, e o Estado se desresponsabiliza ao transferir a meta para o indivíduo. A perda de autonomia rouba o sentido do trabalho: quem ensina deixa de criar, de escolher, de pensar junto com a comunidade.

A plataformização da educação aprofunda esse controle. Sistemas de ensino a distância, avaliações online e aplicativos de gestão monitoram o trabalho pedagógico, esvaziam a relação viva entre professor e estudante e padronizam o conhecimento conforme o interesse dos grupos que vendem as licenças. Assim como o curral digital despolitiza a pauta popular, a pedagogia da planilha despolitiza a escola. A cada rodada de avaliação, a categoria se vê mais pressionada a aceitar a intensificação e a precarização como destino inevitável.

Superar a pedagogia do capital é tarefa histórica

A disputa educacional é luta de classes. Enquanto o capital tenta moldar a escola à sua imagem e semelhança, os trabalhadores da educação precisam construir um projeto próprio, ligado à soberania nacional e ao protagonismo da classe trabalhadora. Os sindicatos têm um papel decisivo: greves, assembleias e plenárias unificadas podem romper o isolamento das unidades escolares e transformar a revolta silenciosa em ação coletiva. A luta por melhores salários se conecta à luta contra a padronização, contra as plataformas, contra a privatização disfarçada de parceria.

Não se trata de negar toda avaliação, mas de subordiná-la a uma concepção de educação que forme sujeitos críticos, capazes de compreender a totalidade social e intervir nela. Uma escola que acolha o povo, valorize seus saberes e dispute a direção do desenvolvimento do país. Essa frente não se faz sozinha: dialoga com a luta pela terra, pela soberania tecnológica e pela defesa dos territórios populares, como expressa a frente única anticapitalista que articula diferentes trincheiras contra o mesmo bloco dominante.

Que cada assembleia de escola se converta em núcleo de resistência contra a métrica do capital. A nota do Ideb não pode valer mais que a vida de quem ensina e de quem aprende. Recolocar o trabalho pedagógico sob controle coletivo dos trabalhadores da educação é um passo concreto para que o chão da escola deixe de ser linha de montagem e volte a ser território de formação humana.

Fontes que sustentam a análise

  • INEP — Resultados do Ideb 2023 (dados oficiais).
  • CNTE — Levantamentos sobre condições de trabalho e adoecimento docente.
  • UNESCO — Relatório de monitoramento global da educação (privatização e mercantilização).

Perguntas Frequentes

O que o Ideb realmente mede?

O texto afirma que o Ideb não mede aprendizado real, mas a capacidade de adaptação dos estudantes a testes padronizados. O currículo é esvaziado e a aula vira treinamento de múltipla escolha, ocultando relações sociais e decisões de classe.

Como a busca por Ideb afeta os trabalhadores da educação?

Professores são avaliados por um indicador que não reflete condições reais de trabalho. A cobrança por metas intensifica o ritmo, transforma coordenação em supervisão de resultados e planejamento em preenchimento de formulários, sem ampliar investimento ou reduzir turmas.

Quem lucra com a gestão por resultados na educação?

Grandes grupos educacionais, fundos de investimento e plataformas digitais disputam contratos para 'corrigir' o desempenho, oferecendo apostilas, sistemas de ensino e pacotes de gestão. O fundo público flui para esses operadores, reduzindo a autonomia pedagógica.

O Ideb é uma ferramenta neutra de avaliação?

Não. O texto argumenta que o índice carrega uma decisão de classe: decidir o que vale como saber e para quem. A aparente neutralidade técnica oculta a subordinação da educação à lógica do capital e à padronização do currículo.

Como a mercantilização do ensino se manifesta no cotidiano escolar?

Pela colonização do cotidiano por racionalidade empresarial: metas escolares espelham o chão de fábrica, o grêmio estudantil vira agente de cobrança e a coordenação pedagógica vira supervisão de resultados. Disputa-se o sentido da educação entre soberania popular e capital.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Reforma agrária e demarcação indígena: frente única anticapitalista contra o agronegócio

A luta de classes se desenrola sob os holofotes: de um lado, a aliança entre latifúndio, bancos e fundos internacionais; do outro, a resistência organizada de trabalhadores rurais e povos originários.

Principais pontos

  • A lei do marco temporal é um movimento calculado da classe do capital agrário e financeirizado para reabrir a fronteira de acumulação sobre terras indígenas e territórios camponeses.
  • Menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentra mais de 30% da área agrícola, segundo o Censo Agropecuário de 2017.
  • O agronegócio brasileiro é um braço da cadeia global de commodities, subordinado aos interesses de trading companies, fundos de pensão e bancos de investimento estrangeiros.
  • Para o latifúndio e seus sócios internacionais, o estoque de natureza das terras indígenas é um custo de oportunidade; floresta de pé não gera dividendos no curto prazo.

Reforma agrária e demarcação indígena: a frente única da terra contra o capital financeirizado

Por Walter Azevedo

A lei do marco temporal, aprovada pelo Congresso e ainda em disputa no Supremo, não é um acidente legislativo. É um movimento calculado da classe do capital agrário e financeirizado para reabrir a fronteira de acumulação sobre terras indígenas e territórios camponeses. Enquanto o noticiário trata o tema como embate entre ruralistas e ambientalistas, a luta de classes se desenrola sob os holofotes: de um lado, a aliança entre latifúndio, bancos e fundos internacionais; do outro, a resistência organizada de trabalhadores rurais e povos originários.

A lei do marco temporal e a ofensiva do capital agrário

A investida do agronegócio contra direitos territoriais exige leitura dialética. O fenômeno concreto não é apenas uma lei; é a expressão jurídica de uma correlação de forças que se deslocou para o parlamento. A tese do marco temporal — só teria direito à terra quem a ocupasse até outubro de 1988 — ignora que a expropriação dos povos indígenas foi o motor da formação social brasileira. Menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentra mais de 30% da área agrícola, segundo o Censo Agropecuário de 2017. A mesma lógica que expulsa camponeses e indígenas alimenta a especulação fundiária e a expansão da fronteira da soja, da pecuária e da mineração.

Não se trata de atraso, mas de modernização do atraso. Como já observamos no caso das terras raras, a burguesia interna associa-se ao capital imperialista para converter patrimônio territorial em ativo financeiro. O agronegócio brasileiro não é um setor nacional-popular; é um braço da cadeia global de commodities, subordinado aos interesses de trading companies, fundos de pensão e bancos de investimento estrangeiros.

A renda da terra e a sanha do capital financeirizado

O que está por trás da pressão por legalização da grilagem e revisão de demarcações é a disputa pela renda da terra. No campo, a lei do valor opera mediada pela propriedade fundiária: quem controla o chão controla o excedente gerado pelo trabalho e pela fertilidade natural. O capital financeiro, hoje dominante, não produz; extrai lucro da circulação e da antecipação de rendas futuras. A terra vira ativo especulativo, lastro para emissão de títulos, garantia de empréstimos.

Terras indígenas homologadas correspondem a cerca de 14% do território nacional, mas abrigam a maior parte da biodiversidade preservada. Para o latifúndio e seus sócios internacionais, esse estoque de natureza é um custo de oportunidade. Floresta de pé não gera dividendos no curto prazo. Por isso, a bancada ruralista atua para desconstituir direitos originários, flexibilizar licenciamentos e liberar agrotóxicos, enquanto o capital internacional financia campanhas políticas e captura agências do Estado. A dependência tecnológica agrava o quadro: máquinas, sementes e insumos vêm de fora, e o excedente da terra escoa para matrizes estrangeiras.

Frente única de classe: camponeses e indígenas contra a expropriação

A superação possível está na unidade entre aqueles que vivem do trabalho na terra. A reforma agrária popular e a demarcação indígena não são pautas paralelas; são frentes da mesma guerra contra a expropriação. O camponês sem terra e o povo originário enfrentam o mesmo inimigo de classe: o latifúndio rentista e o capital financeirizado que querem transformar o território em mercadoria. O quilombo Santa Rita do Bracuí, que sofre com obras que intensificam o racismo ambiental, exemplifica como a pressão urbana e rural se articula contra comunidades tradicionais.

Sem uma aliança concreta — comitês de luta, assembleias territoriais, mutirões de solidariedade e enfrentamento comum no parlamento e nas ruas —, a classe trabalhadora rural continuará fragmentada. Precisamos construir um programa que una soberania alimentar, proteção dos biomas e geração de empregos no campo, rompendo com a chantagem do agronegócio de que “sem ele o Brasil não come”. Nossa classe planta, colhe e alimenta o país; o latifúndio apenas cerca, especula e exporta lucro.

Fontes consultadas: Censo Agropecuário 2017 (IBGE); Relatório Violência no Campo 2024 (Comissão Pastoral da Terra); Nota técnica do Conselho Indigenista Missionário sobre o avanço do marco temporal.

A tarefa imediata é organizar a convergência entre movimentos camponeses e indígenas em cada território. Não haverá soberania nacional sem soberania alimentar, e não haverá soberania alimentar sem terra para quem trabalha. A disputa pela terra é a disputa pelo futuro da classe trabalhadora brasileira.

Perguntas Frequentes

O que é a lei do marco temporal e qual seu objetivo?

A lei do marco temporal, aprovada pelo Congresso, é um movimento calculado do capital agrário e financeirizado para reabrir a fronteira de acumulação sobre terras indígenas e territórios camponeses.

Como o agronegócio se relaciona com o capital internacional?

O agronegócio brasileiro não é um setor nacional-popular; é um braço da cadeia global de commodities, subordinado aos interesses de trading companies, fundos de pensão e bancos de investimento estrangeiros.

Qual a ligação entre reforma agrária e demarcação indígena?

Ambas são frentes de resistência organizada de trabalhadores rurais e povos originários contra a mesma lógica que expulsa camponeses e indígenas para alimentar a especulação fundiária e a expansão da fronteira agrícola.

Por que a terra interessa tanto ao capital financeiro?

O capital financeiro não produz; extrai lucro da circulação e da antecipação de rendas futuras. A terra vira ativo especulativo, lastro para emissão de títulos e garantia de empréstimos.

O que representa a preservação ambiental para o latifúndio e seus sócios?

Para o latifúndio e seus sócios internacionais, terras indígenas homologadas são um custo de oportunidade: floresta de pé não gera dividendos no curto prazo, por isso pressionam pela desconstituição de direitos originários.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Curral digital: como o WhatsApp reproduz o coronelismo e despolitiza a pauta

O curral digital é a velha prática coronelista reencarnada nas plataformas: controla o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum, mantendo a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.

Principais pontos

  • O curral digital controla o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum.
  • A classe do capital constrói ferramentas para manter a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.
  • A despolitização é a forma que a classe do capital encontra para esvaziar o conteúdo de classe das reivindicações populares.
  • No curral digital, a mercadoria é a atenção, e o preço é a consciência.

Curral digital e coronelismo de algoritmo: a cooptação pelo WhatsApp e a despolitização da pauta popular

Por Walter Azevedo

A disputa eleitoral brasileira trocou a carroça pelo chip. Nas periferias, candidatos montam redes de grupos no WhatsApp com nomes como “Amigos do bairro” ou “Moradores unidos”. O administrador não é mais o cabo eleitoral que oferecia dentaduras e remédios. É um operador de listas de transmissão, dono de um curral digital onde a fala é controlada e as pautas populares se dissolvem em memes, áudios de pânico e promessas de asfalto.

Esse fenômeno não é novidade tecnológica. É a velha prática coronelista reencarnada nas plataformas. No passado, o coronel mandava nos votos porque controlava terra, água e favores. Hoje, o curral digital controla o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum. A estrutura de dominação permanece: a classe do capital constrói ferramentas para manter a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.

O curral digital não é menos curral que o curral eleitoral

O Brasil ultrapassa 140 milhões de contas ativas no WhatsApp. A maioria acessa diariamente por meio de celulares pré-pagos e planos que priorizam o aplicativo em detrimento de outros serviços de internet. Essa arquitetura cria dependência concreta: a classe trabalhadora está conectada, mas restrita a um ecossistema controlado por uma única empresa. O coronelismo digital se apropria exatamente dessa restrição.

Nos grupos de bairro, quem detém a chave de administrador define o que circula. Fazendas de bots, listas de transmissão compradas e agências clandestinas operam com anuência de candidatos financiados pelo capital. Mensagens sobre “aumento de impostos” ou “ameaça de invasão” circulam sem lastro com a realidade, enquanto as contradições reais — precarização do trabalho, desmonte do SUS, abandono das escolas — desaparecem da tela. Como já discutimos na análise da erosão institucional neoliberal, a política é transformada em mercadoria. No curral digital, a mercadoria é a atenção, e o preço é a consciência.

Despolitização da pauta e a mediação do algoritmo

A despolitização não é acidente. É a forma que a classe do capital encontra para esvaziar o conteúdo de classe das reivindicações populares. Quando a demanda por moradia vira sorteio de cesta básica, quando a luta por creche vira mutirão de reforma, quando a crítica ao preço do gás é substituída por vídeos de humor, a pauta popular perde sua dimensão estrutural. O algoritmo do WhatsApp, que privilegia o encaminhamento rápido e o conteúdo apelativo, faz esse trabalho silenciosamente.

Marx, no 18 de Brumário, explicou como uma classe sem organização política precisa de um representante externo para falar por ela. O curral digital aprofunda essa fragmentação: cada usuário é um átomo isolado, recebendo mensagens prontas, sem arena coletiva para formular sua própria pauta. Aí está a mediação: o capital financeirizado oferece a ferramenta, a oligarquia local a administra, e o trabalhador consome o que lhe é entregue.

O escândalo das fake news em 2018, com disparos em massa financiados por empresários, mostrou a face mais visível dessa prática. Em 2022 e 2024, a mesma engenharia se sofisticou com listas de transmissão pagas. O curral digital é o principal palanque, e a despolitização é o seu programa. A plataforma não é neutra: o WhatsApp pertence à Meta, empresa do capital financeirizado que monetiza dados e atenção. Essa exploração se articula à dependência tecnológica que tratamos em outro artigo sobre dependência e planejamento democrático. A soberania dos dados não existe.

Organizar a consciência diante da tela

Não se trata de abandonar o WhatsApp. Seria ingenuidade pedir que a classe trabalhadora prescinda da ferramenta que usa para sobreviver. A tarefa é outra: ocupar o espaço digital com organização real, não com consumo passivo. Comitês de bairro, sindicatos e movimentos populares precisam construir suas próprias redes, com modelos de comunicação que eduquem, apresentem contradições e não se limitem ao repasse de conteúdo pasteurizado.

A superação do curral digital exige a retomada da mediação política como construção coletiva. A classe trabalhadora não precisa de um coronel digital que fale por ela. Precisa de instrumentos próprios, assembleias presenciais, formação política, redes autônomas que disputem a narrativa. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia se disputa onde a classe vive, trabalha e se informa. Hoje, ela vive e se informa no WhatsApp. A luta começa aí.

Ao final, o curral digital só se quebra com práxis coletiva: transformar o grupo de bairro em espaço de mobilização, o encaminhamento de denúncia em instrumento de pressão, a pauta popular em programa político. Fora disso, resta a ilusão de que a tecnologia emancipa — quando, na verdade, apenas reorganiza a dominação.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. In: Escritos de Sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2005.
  • MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

Perguntas Frequentes

O que é o curral digital?

O curral digital é a prática coronelista reencarnada nas plataformas digitais, especialmente no WhatsApp, onde administradores de grupos controlam o fluxo de informação, o enquadramento das demandas e o senso comum nas periferias, mantendo a classe trabalhadora fragmentada e despolitizada.

Como o WhatsApp contribui para a despolitização da pauta popular?

O algoritmo do WhatsApp privilegia o encaminhamento rápido e o conteúdo apelativo, substituindo demandas estruturais por memes, áudios de pânico e promessas imediatas. Assim, a pauta popular perde sua dimensão estrutural e o conteúdo de classe é esvaziado.

Qual a relação entre o curral digital e o coronelismo tradicional?

No passado, o coronel controlava votos por meio de terra, água e favores. Hoje, o curral digital controla o fluxo de informação e o senso comum. A estrutura de dominação permanece: a classe do capital mantém a classe trabalhadora fragmentada.

Quem opera o curral digital nas eleições?

Candidatos financiados pelo capital montam redes de grupos no WhatsApp, operados por administradores que usam fazendas de bots, listas de transmissão compradas e agências clandestinas para controlar o que circula e definir a pauta dos grupos de bairro.

Por que a despolitização não é acidental?

A despolitização é a forma que a classe do capital encontra para esvaziar o conteúdo de classe das reivindicações populares. Quando demandas como moradia e creche viram sorteios e mutirões, a crítica estrutural desaparece e a política é transformada em mercadoria.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Petrodólar em colapso e Oriente Médio: disputa interimperialista

A crise do petrodólar e os conflitos no Oriente Médio expressam a luta de classes em escala planetária, mediada por Estados que disputam controle das rotas, da energia e do trabalho alheio.

Principais pontos

  • O petrodólar nasceu em 1974 quando Washington selou com a Arábia Saudita um acordo que transformou o dólar na moeda obrigatória para o comércio de petróleo.
  • A fatia do dólar nas reservas cambiais globais caiu de cerca de 70% para perto de 58% nas últimas duas décadas.
  • Os conflitos no Oriente Médio são a expressão geopolítica da disputa interimperialista, não irracionalidade religiosa ou ódio ancestral.
  • Enquanto a potência declinante recorre à força bruta, a potência ascendente aposta na integração econômica.

Petrodólar em colapso e o Oriente Médio em chamas: a disputa interimperialista e as frestas da revolução

Por Walter Azevedo

Um petroleiro incendiado no Mar Vermelho. A cotação do barril disparando nas bolsas de Londres e Nova York. Enquanto isso, em Moscou, Pequim e Riade, assinam-se acordos para liquidar petróleo em moedas locais. Esses não são fenômenos isolados. São batidas de um coração em descompasso: o sistema monetário que sustentou a hegemonia do dólar desde os anos 1970 começa a rachar. Nossa classe precisa ler essas fissuras com método. A crise do petrodólar não é uma abstração financeira; é luta de classes em escala planetária, mediada por Estados e frações do capital que disputam o controle das rotas, da energia e do trabalho alheio.

O petrodólar sob cerco

Em 1974, Washington selou com a Arábia Saudita um acordo que transformou o dólar na moeda obrigatória para o comércio de petróleo. Ali nasceu o petrodólar. A partir desse momento, qualquer país que quisesse importar energia precisava acumular reservas em dólar. Esse mecanismo garantiu aos Estados Unidos o privilégio de emitir moeda sem lastro, financiar déficits e impor sanções com o simples toque de uma tecla. O que era um arranjo de conveniência virou a espinha dorsal da dominação imperialista. Hoje, porém, a base desse edifício treme. A China, maior importadora de petróleo do mundo, passou a negociar contratos de longo prazo em renminbi. A Rússia, sob sanções, redirecionou metade de seu comércio energético para o Oriente, liquidado em moedas próprias. A Arábia Saudita, aliada histórica de Washington, sinaliza abertura para o yuan. Conforme dados do FMI, a fatia do dólar nas reservas cambiais globais caiu de cerca de 70% para perto de 58% nas últimas duas décadas. Cada ponto percentual perdido representa menos espaço para a chantagem imperial e mais margem para a formação de um mundo multipolar.

Oriente Médio: território da disputa

Os conflitos no Oriente Médio não são irracionalidade religiosa ou ódio ancestral. São a expressão geopolítica dessa disputa interimperialista. Cada míssil disparado no Golfo Pérsico, cada drone abatido no Estreito de Ormuz, cada bloqueio naval no Mar Vermelho carrega uma determinação material: controlar o fluxo de petróleo e gás que alimenta as forças produtivas do planeta. Os Estados Unidos mantêm bases militares do Catar ao Bahrein, não por vocação civilizatória, mas para assegurar a subordinação da região ao dólar e aos interesses do capital financeirizado. A China, por sua vez, desloca investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia para os países do Golfo, oferecendo uma alternativa de financiamento sem as condicionalidades draconianas do Fundo Monetário. A contradição é clara: enquanto a potência declinante recorre à força bruta, a potência ascendente aposta na integração econômica. Nós, da classe trabalhadora, não temos motivo para aplaudir nenhum dos projetos de dominação. Mas temos obrigação de compreender que a crise do petrodólar enfraquece exatamente o polo que historicamente lidera o saque à periferia.

China, dependência e as mediações brasileiras

No Brasil, essa disputa atravessa diretamente nossa formação social. A burguesia associada ao imperialismo não hesita em transferir para os trabalhadores o custo da instabilidade cambial. A cada oscilação do dólar, o preço do botijão de gás e da gasolina sobe, enquanto a oligarquia financeira lucra com a especulação. A dependência tecnológica se aprofunda quando a mesma burguesia entrega terras raras ao capital estrangeiro, como abordamos em outra análise deste blog. A disputa entre Estados Unidos e China não nos redime; ela nos recoloca na condição de objeto. Mas também nos ensina que a construção de um projeto nacional-popular exige planejamento democrático e controle soberano sobre nossas riquezas, como discutimos sobre dependência tecnológica. Sem essa mediação, continuaremos sendo moeda de troca no xadrez das potências.

Frestas para a práxis revolucionária

Toda crise do bloco dominante abre possibilidades históricas. A pergunta que não cala: o que faremos com as frestas abertas pela crise do petrodólar? A resposta não está na contemplação. Está na organização. O capital financeirizado não desmonta seu império por decreto. Ele se recompõe, se rearticula, busca novos instrumentos. Nossa tarefa é construir consciência de classe e hegemonia a partir das contradições reais. Isso exige compreender a totalidade, identificar os elos mais fracos da cadeia imperialista e investir na formação política do povo trabalhador. Como desenvolvi em Como Vencer na Grande Política, a correlação de forças não é um dado estático; é uma construção cotidiana. A crise do dólar, a guerra no Oriente Médio e a ascensão chinesa criam um cenário de transição mundial. Que ele não seja apenas assistido, mas disputado por nós. A classe que produz a riqueza não pode assistir passivamente à disputa pelo comando de sua exploração.

O caminho passa pela base

As lutas imediatas da classe trabalhadora brasileira — contra os juros altos, pela tarifa zero, pela soberania sobre terras raras — não estão separadas dessa disputa global. Elas são, na verdade, expressões locais da mesma contradição. Por isso, a organização nos territórios, nas fábricas, nos sindicatos e nos movimentos populares é o ponto de partida insubstituível. A autogestão popular demonstra que a classe trabalhadora sabe se organizar quando o Estado a abandona. Agora precisamos dar a esse acúmulo um salto de qualidade: articular as lutas locais a um projeto nacional-popular soberano, capaz de disputar a riqueza produzida pelo nosso trabalho e de romper com a subordinação ao imperialismo. A história não espera. A crise do petrodólar é uma janela. Cabe a nós empurrar a porta.

Conforme dados do FMI sobre reservas cambiais, do Banco de Compensações Internacionais (BIS) sobre comércio em moedas locais e dos relatórios da UNCTAD sobre fluxos comerciais China-países do Golfo, o processo de desdolarização é real e mensurável. A disputa interimperialista já não é teoria. É o chão que pisamos.

Perguntas Frequentes

O que é o petrodólar?

É o sistema criado em 1974, quando os EUA e a Arábia Saudita firmaram acordo que tornou o dólar a moeda obrigatória no comércio de petróleo. Esse mecanismo garante aos Estados Unidos emitir moeda sem lastro, financiar déficits e impor sanções, sendo a espinha dorsal da dominação imperialista.

Por que a crise do petrodólar representa uma fissura no domínio americano?

Porque a China passou a negociar petróleo em renminbi, a Rússia redirecionou seu comércio energético em moedas próprias e a Arábia Saudita sinaliza abertura ao yuan. A queda da fatia do dólar nas reservas globais reduz o espaço para chantagem imperial e amplia a margem para um mundo multipolar.

Qual é a relação entre conflitos no Oriente Médio e a disputa interimperialista?

Os conflitos não são irracionalidade religiosa ou ódio ancestral, mas a expressão geopolítica da disputa pelo controle do fluxo de petróleo e gás que alimenta as forças produtivas do planeta. Cada míssil, drone ou bloqueio naval carrega a determinação material de controlar rotas e energia.

Como EUA e China diferem na atuação sobre o Oriente Médio?

Os Estados Unidos mantêm bases militares do Catar ao Bahrein para assegurar a subordinação da região ao dólar e ao capital financeirizado. A China desloca investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia aos países do Golfo, oferecendo financiamento sem as condicionalidades do FMI.

O que a crise do petrodólar abre para a classe trabalhadora?

Abre frestas para a ação revolucionária ao expor as fissuras no sistema monetário que sustenta a hegemonia do dólar. A classe trabalhadora não deve aplaudir nenhum dos projetos de dominação, mas ler essas fissuras com método para intervir na luta de classes em escala planetária.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Milícia e parlamento: o braço armado da acumulação urbana e a impunidade

A milícia é um poder territorial que articula violência privada, controle de serviços e proteção eleitoral — um braço armado das frações locais da classe do capital; no parlamento encontra a blindagem que a perpetua.

Principais pontos

  • A milícia ocupa o lugar que o Estado abandona, e no parlamento encontra a blindagem que a perpetua.
  • Enquanto jovens pretos das favelas são abatidos sem direito a defesa, chefes milicianos se entregam a advogados caros. A diferença não é jurídica: é de classe.
  • Se a milícia administra o chão, o parlamento administra a impunidade. Não é corrupção episódica: é articulação estrutural entre mandatos e poder armado.
  • A CPI das Milícias de 2008 indiciou 226 pessoas, entre vereadores, policiais e ex-policiais. Poucos foram condenados.

Milícia e parlamento: o braço armado da acumulação urbana e a engenharia da impunidade

Por Walter Azevedo

A entrega de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, à Polícia Federal em dezembro de 2023, com direito a negociação cuidadosa e preservação de parte de sua estrutura, escancarou o que as manchetes insistem em tratar como crime organizado comum. Não se trata de uma quadrilha fora do sistema. Trata-se de um poder territorial que articula violência privada, controle de serviços e proteção eleitoral — um braço armado das frações locais da classe do capital. Enquanto jovens pretos das favelas são abatidos sem direito a defesa, chefes milicianos se entregam a advogados caros. A diferença não é jurídica: é de classe. A milícia ocupa o lugar que o Estado abandona, e no parlamento encontra a blindagem que a perpetua.

Milícia: gestão armada da escassez

Para quem enxerga apenas a superfície, a milícia parece uma anomalia da segurança pública. A análise histórica revela outra coisa. Sua gênese remonta à decomposição do aparato repressivo herdado da ditadura: policiais, bombeiros e agentes penitenciários que privatizaram a coerção aprendida nos quartéis. Não por acaso, a Zona Oeste do Rio, fronteira de expansão do capital imobiliário, virou seu território privilegiado. Ali, a milícia se antecipa ao Estado na delimitação de ruas, na oferta de água clandestina, na mediação de conflitos de posse. Ela cobra taxas, vende gás, internet, transporte alternativo e, acima de tudo, controla o mercado da terra.

O fenômeno é uma expressão concreta da luta de classes. O tráfico se organiza em torno da mercadoria ilícita; a milícia se assenta na forma lícita de extração de renda fundiária. A cada loteamento irregular, a cada ritual de "regularização" imposto a famílias expulsas de suas casas, o capital imobiliário reduz custos de urbanização usando a arma como mediadora. A CPI das Milícias de 2008, realizada pela Assembleia Legislativa do Rio, indiciou 226 pessoas, entre vereadores, policiais e ex-policiais. Poucos foram condenados. O relatório final mostrou como as milícias controlavam bairros inteiros, mas o sistema político tratou de arquivar suas conclusões.

O parlamento como blindagem jurídica

Se a milícia administra o chão, o parlamento administra a impunidade. Não é corrupção episódica: é articulação estrutural entre mandatos e poder armado. As investigações sobre as "rachadinhas" no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro expuseram a ligação entre o miliciano Adriano da Nóbrega e o ex-assessor Fabrício Queiroz. Documentos, depoimentos e movimentações bancárias mostraram como parte dos salários desviados alimentava a estrutura paralela. O assassinato de Marielle Franco completa o quadro. Os irmãos Brazão, apontados como mandantes, construíram carreiras no TCE-RJ e na política local à sombra de alianças com milícias. Seis anos de impunidade não foram incompetência. Foram engenharia política.

"O poder político é o poder organizado de uma classe para oprimir outra." — Karl Marx e Friedrich Engels

A cada crise, a bancada da bala reage como o que é: uma fração do poder que usa o parlamento para vetar CPIs, aprovar leis que dificultam a cassação de mandatos e pressionar o judiciário. A denúncia sobre isenções fiscais que favorecem os mesmos grupos que financiam campanhas já revelou o caráter de classe do Estado — e o silêncio diante das milícias é a face armada desse mesmo projeto. A erosão institucional não é acidente. Ela é condição para que a violência privada floresça sem punição, enquanto o discurso oficial criminaliza apenas o varejo do tráfico.

Organizar o território para romper a impunidade

A resposta a essa dupla violência não pode ser moralista nem puramente policial. A repressão seletiva não desmonta a milícia: ela a criminaliza, mas não toca nas relações fundiárias e parlamentares que a sustentam. Onde o povo se organiza em conselhos de moradores, associações de bairro e comitês de luta, o poder miliciano perde terreno. A autogestão popular não é paliativo assistencialista. É a construção de um poder popular que disputa o território e os serviços com o braço armado do capital.

A esquerda precisa combinar três frentes. Primeiro, denunciar sem trégua a articulação entre mandato e miliciano, expondo nomes, contratos e votações. Segundo, construir redes comunitárias de proteção e informação que quebrem o monopólio da milícia sobre a vida cotidiana. Terceiro, exigir políticas públicas que garantam água, transporte e moradia fora da lógica da violência. A luta pela verdade e pela justiça social, como mostrado na discussão sobre censura e isenções fiscais, é indissociável da luta pelo território. Sem organização de base, a denúncia parlamentar vira espetáculo e a milícia se reproduz.

Quebrar a blindagem exige força coletiva

Zinho se entregou porque a prisão apareceu como opção segura diante da correlação de forças. A rendição negociada não foi derrota do braço armado; foi reorganização. Enquanto o parlamento continuar blindando seus pares, a milícia continuará renascendo sob novos nomes. Cabe à classe trabalhadora não esperar que o Estado faça o que ele jamais fará: desmontar o poder que o sustenta.

Que cada bairro, cada associação, cada sindicato construa comitês de defesa popular e de memória política. Não basta denunciar. É preciso retomar o território, conquistar os serviços essenciais e deslegitimar os mandatos que vivem da violência. A impunidade não é só jurídica: é uma trincheira da acumulação. E trincheira se rompe com organização, não com aplausos a operações espetaculares.

Para conhecer os dados citados: Relatório Final da CPI das Milícias (ALERJ, 2008); Mapa dos Grupos Armados do Rio (Fogo Cruzado/UFF, 2022); documentos da investigação do caso Marielle Franco (Polícia Federal/MPF); e reportagens sobre as rachadinhas de Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz (Coaf/MP-RJ).

Perguntas Frequentes

O que a entrega de Zinho à Polícia Federal revelou sobre a natureza das milícias?

A negociação cuidadosa e a preservação de parte de sua estrutura mostraram que não se trata de crime organizado comum, mas de um poder territorial que articula violência privada, controle de serviços e proteção eleitoral.

Qual é a diferença de tratamento entre jovens pretos das favelas e chefes milicianos?

Jovens pretos das favelas são abatidos sem direito a defesa, enquanto chefes milicianos se entregam a advogados caros. A diferença não é jurídica: é de classe.

Como a milícia se diferencia do tráfico de drogas na análise apresentada?

O tráfico se organiza em torno da mercadoria ilícita; a milícia se assenta na forma lícita de extração de renda fundiária, reduzindo custos de urbanização do capital imobiliário usando a arma como mediadora.

Qual foi o resultado prático da CPI das Milícias de 2008?

A CPI indiciou 226 pessoas, entre vereadores, policiais e ex-policiais, mas poucos foram condenados. O sistema político tratou de arquivar as conclusões do relatório.

Como o parlamento atua na perpetuação da impunidade das milícias?

O parlamento administra a impunidade por meio de articulação estrutural entre mandatos e poder armado, como evidenciado pelas ligações entre o miliciano Adriano da Nóbrega e o esquema de 'rachadinhas' no gabinete de Flávio Bolsonaro.