quarta-feira, 20 de maio de 2026

Como as IAs descobrem informações sobre sua marca e como influenciá-las

Como as IAs descobrem informações sobre a sua marca (e como influenciá-las)

Imagine a cena: você está em uma reunião de marketing e alguém pergunta: "O que o ChatGPT sabe sobre a nossa marca?". Em 2026, essa pergunta deixou de ser teórica. Grandes modelos de linguagem (LLMs) não são apenas ferramentas de busca; tornaram-se curadores de informação. Quando um cliente em potencial pergunta a um chatbot qual a melhor solução, o modelo puxa informações de uma base de conhecimento que foi construída por você, mesmo sem saber.

O desafio é que essa curadoria não é neutra. Ela reflete o que está disponível, estruturado e consolidado na web. Se sua marca não está clara e visível nesses ecossistemas, a IA pode ignorá-la ou repetir informações desencontradas. Vamos entender como isso funciona e como influenciar a narrativa.

O rastro digital que os algoritmos seguem

Para entender como uma IA "descobre" sua marca, é preciso abandonar a ideia de um buscador tradicional. Modelos como GPT-4 ou Gemini são treinados em corpora de dados — enormes conjuntos de textos, sites e documentos — que refletem o conhecimento público até uma data de corte. Quando você pergunta "O que é a empresa X?", o modelo busca responder com base na recorrência e consistência das informações vistas durante o treinamento.

Sua marca é descoberta por três vias: menções estruturadas (artigos, comunicados, Wikipedia), sinais de autoridade (citações em sites com alto PageRank, backlinks) e conteúdo proprietário (site, blog, LinkedIn). O problema? A maioria das marcas só cuida do terceiro item.

"Se sua marca só existe no seu site, ela é invisível para a IA. O modelo aprende com a redundância — quanto mais locais de qualidade falam de você, mais 'real' você se torna."

Um exemplo de 2025-2026 ilustra isso. Quando a marca Ypê foi alvo de alerta sobre possível contaminação, o Diario de Pernambuco noticiou. Em dias, qualquer modelo de IA treinado com aquele corpus responderia: "Houve um alerta sobre a Ypê em maio de 2026". A velocidade de propagação da informação negativa é alta porque a imprensa gera material estruturado que os modelos consideram confiável.

O poder do consenso (e o perigo do vácuo)

O ponto central: a IA trabalha por consenso estatístico. Se 80% das fontes dizem que sua empresa é "a maior fornecedora de X na América Latina", o modelo repete isso. Se 70% associam sua marca a um escândalo, essa será a resposta padrão.

Isso é perigoso para marcas de perfil baixo na mídia. Se ninguém fala de você, a IA deduz irrelevância. O oposto também vale: marcas que geram menções positivas e variadas treinam o modelo a seu favor. Por exemplo, quando a cientista Tatiana Sampaio foi destaque na Forbes Brasil por uma descoberta (fevereiro de 2026), sua marca pessoal foi cravada como "cientista de ponta" — informação que qualquer chatbot repetirá por meses.

A boa notícia é que você pode influenciar esse consenso. Conteúdo de blog bem escrito e linkado alimenta o ecossistema, mas precisa ser verificado e citado. Um post isolado pode não bastar; uma campanha de RP digital que gere 10 menções em veículos setoriais já tem peso estatístico.

Como influenciar o algoritmo (sem jogar o jogo do Google)

Diferente do SEO tradicional, aqui você otimiza para uma memória estatística. As regras mudam: em vez de palavras-chave, pense em consistência semântica e cobertura de fontes.

1. Crie conteúdo citável e referenciável

Modelos de IA adoram informações estruturadas e factuais. Publique estudos de caso com números reais, guias completos (como o Filtro de Marca no Google Search Console) e análises aprofundadas. Quanto mais seu conteúdo for referenciado, mais entra no corpus de treinamento.

2. Eduque seu time e sua comunicação de crise

A velocidade com que a IA espalha informações negativas é impressionante. Em crises (como o caso Ypê), a comunicação precisa ser clara, rápida e em veículos oficiais que os LLMs priorizam. Um release solto no site não desmente uma notícia de grande portal. O plano de comunicação deve incluir a "sobre-escrita" da informação no corpus da IA.

3. Use a redundância a seu favor

Não publique um artigo e espere ser "descoberto". Publique no blog, extraia resumo para LinkedIn, escreva guest post em portal parceiro e cite o original. Essa teia de menções cria sinal de relevância. O BLOGGENAI pode automatizar essa distribuição consistente, garantindo que sua mensagem central apareça em múltiplos pontos (blog, newsletter, social).

O novo campo de batalha do marketing digital

O jogo virou. Nos anos 2010, o objetivo era rankear no Google. Em 2026, é ser lembrado pelo modelo de IA. Isso exige mudança de mentalidade: sair do "publicar e torcer" para uma estratégia ativa de construção de conhecimento.

Talvez a pergunta mais importante hoje não seja "Qual é o meu KPI de tráfego?", mas sim: "Se um cliente perguntar ao ChatGPT quem somos, qual será a resposta?". Se não for a desejada, é hora de plantar artigos, entrevistas e dados que vão treinar a próxima geração de modelos a seu favor.

No fim, uma marca que não é descoberta pela IA simplesmente não existe para a próxima geração de consumidores. E isso, ao contrário do que muitos pensam, não é culpa do algoritmo — é de não ter ocupado o espaço a tempo.


Referências:
Brasil atinge 30 mil cavernas registradas (gov.br, nov/2025)
Ypê: alerta de contaminação (Diario de Pernambuco, mai/2026)
Tatiana Sampaio e a descoberta científica (Forbes Brasil, fev/2026)
Sistema solar 'invertido' (CNN Brasil, fev/2026)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Como IAs Descobrem Informações da Sua Marca e Como Influenciá-las

Como as IAs descobrem informações sobre a sua marca (e como influenciá-las)

Em fevereiro de 2026, uma notícia sobre a sonda chinesa no lado oculto da Lua circulou pelo mundo em horas. Não foi um jornalista quem a redigiu primeiro — foram modelos de linguagem treinados para interpretar dados brutos da missão. Esse fluxo invisível de informação, de coleta a síntese, acontece agora com sua marca, mesmo sem monitoramento.

Enquanto você lê, pelo menos três IAs de busca, redes sociais e SEO já vasculharam seu site e perfis públicos. Elas não apenas leem — correlacionam. Uma reclamação no Reclame Aqui, um PDF corporativo esquecido no Dropbox e uma avaliação no Glassdoor formam uma imagem que Google, ChatGPT e Copilot apresentam como “a verdade sobre sua empresa”. O problema? Essa imagem raramente é a que você deseja.

O rastro digital que as IAs seguem — e você ignora

Grandes modelos de linguagem (LLMs) não “pensam”. Funcionam como um sistema de correlação estatística. Quando um modelo como GPT-4o ou Gemini 2.5 recebe “Essa empresa é confiável?”, ele não vai ao seu site institucional — pesa milhões de pontos de dados públicos: artigos, fóruns, blogs e dados estruturados. O resultado é um resumo probabilístico baseado no que é mais frequente e recente.

O caso da Ypê, em maio de 2026, ilustra a velocidade. Alertas sobre contaminação foram publicados pelo Diario de Pernambuco. Em 48 horas, IAs destacavam o alerta em respostas diretas. Se sua empresa tem um incidente — processo trabalhista, erro logístico, reclamação viral — ele será pesado como uma longa trajetória positiva. Um mês de crise pode anular anos de reputação digital, se você não estiver preparado.

Os três canais que mais influenciam a percepção da IA sobre sua marca

Nem todo conteúdo tem o mesmo peso. Identificamos três frentes prioritárias:

  • Dados estruturados de alta autoridade: sites governamentais, grandes portais (como CNN Brasil ou Globo) e repositórios acadêmicos. Um artigo positivo no Diário de Pernambuco vale mais que 50 posts obscuros. Exemplo: A descoberta que levou o Brasil a 30 mil cavernas no Peruaçu (MG) foi noticiada pelo gov.br e replicada por IAs como fato consolidado, pela alta credibilidade algorítmica.
  • Repetição com variação semântica: IAs ignoram conteúdo duplicado, mas valorizam a mesma informação em contextos e fontes diferentes. Se “excelência em atendimento” aparece no LinkedIn, em depoimentos e num estudo de caso, a IA conclui por reforço estatístico que é um atributo real.
  • Velocidade de atualização: Modelos preferem informação recente. Um site estagnado desde 2023 perde relevância frente a um perfil no Medium atualizado semanalmente. Tatiana Sampaio, destacada pela Forbes Brasil em fevereiro de 2026, teve sua descoberta sobre limitações motoras incorporada rapidamente porque a fonte tem alta frequência e autoridade.

O que fazer: um protocolo para influenciar como IAs descrevem sua marca

Influenciar IAs é um trabalho sistemático de alimentação de fontes. Três ações práticas para implementar este mês:

1. Mapeie suas fontes de verdade.
Liste onde sua marca aparece: sites, perfis sociais, marketplaces, reclamações, PDFs. Para cada fonte, pergunte: “Se uma IA lesse isso amanhã, que conclusão tiraria?”. Se negativa ou imprecisa, corrija ou remova.

2. Crie conteúdo que a IA entenda como fato.
Publicações em blogs institucionais, como Mandato em Texto, funcionam como âncoras de reputação. Cada artigo com dados verificáveis, atualizado periodicamente, ensina que sua marca é autoridade. O Filtro de Marca no Google Search Console ajuda a monitorar indexação e interpretação.

3. Use o BLOGGENAI para manter consistência.
Manter um blog atualizado semanalmente, com conteúdo alinhado ao posicionamento, ensina as IAs a associar sua marca aos termos certos. Automatize 2 a 3 posts por semana sem comprometer qualidade. A IA passará a citar seu conteúdo como referência. Como mostramos em Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da IA, a ausência de informação controlada é o maior risco reputacional.

Não dá para controlar tudo — mas dá para influenciar o suficiente

A descoberta da sonda chinesa não foi fabricada — foi interpretada. Com sua marca, o processo é o mesmo. Você não impedirá reclamações ou comparações desfavoráveis, mas pode garantir que, ao sintetizar “quem é sua empresa”, o peso da informação positiva — bem estruturada, frequente e confiável — seja maior que o ruído negativo.

Comece hoje. Escolha uma fonte de reputação (artigo de blog, LinkedIn, comunicado oficial) e atualize-a com dados verificáveis. Repita na semana seguinte. Em três meses, terá construído uma camada de influência que nenhum algoritmo ignorará.

Referências:

  • CNN Brasil (08 fev. 2026). Sonda chinesa faz descoberta ‘intrigante’ no lado oculto da Lua.
  • Governo Federal / gov.br (26 nov. 2025). Brasil atinge 30 mil cavernas registradas após descoberta no Peruaçu (MG).
  • Forbes Brasil (19 fev. 2026). Cientista Tatiana Sampaio pode devolver movimentos a humanos com limitações motoras.
  • Diario de Pernambuco (08 mai. 2026). Produtos da marca Ypê são alvo de alertas sobre contaminação.

Mandato em Texto: como o blog documenta atuação com autoridade

Mandato em texto: como o blog documenta atuação com autoridade

Você já se pegou defendendo um ponto de vista em uma reunião ou rede social, mas, na hora de provar que aquilo não é só opinião, faltou o papel? Esse vazio é um problema real para quem precisa demonstrar trabalho contínuo, seja um gestor público, um profissional de marketing ou um criador de conteúdo. Em 2025, um caso concreto escancarou essa necessidade: o pedido de cassação contra o vereador Cristiano da Van, protocolado na Câmara Municipal de Petrolândia (PE) em janeiro de 2026. A crise, registrada pelo Blog de Assis Ramalho, não surgiu do nada. Ela nasceu de ações anteriores — e de um vácuo de registro público claro.

A ausência de documentação consistente transforma qualquer atuação em alvo fácil. Quando não há um mandato em texto — um histórico escrito, verificável e datado —, o trabalho real se apaga diante de narrativas concorrentes. E não se engane: isso vale tanto para a política quanto para o marketing digital de uma empresa.

O que é, de fato, um mandato em texto?

Mandato em texto é a prática de registrar, de forma organizada e pública, cada ação relevante de um mandato parlamentar, de um projeto profissional ou de uma gestão de conteúdo. Não se trata de um relatório burocrático, mas de uma série de textos que provam, por A mais B, o que foi feito, como foi feito e em que contexto.

O conceito se aplica diretamente ao blog como ferramenta de autoridade. Quando um político usa o blog para publicar discursos, justificativas de votos, relatos de fiscalização e resultados de ações, ele não está apenas "fazendo comunicação". Ele está impondo um filtro de realidade diante de versões paralelas. No caso de Cristiano da Van, o pedido de cassação baseou-se em acusações que, com um blog bem alimentado, poderiam ser confrontadas uma a uma com registros anteriores. O mesmo vale para o escândalo eleitoral em Baía da Traição, em novembro de 2025, quando o presidente da Câmara e um vereador foram colocados na mira da Justiça sem que houvesse um contraponto documental público consistente.

"Texto publicado é prova. Texto não publicado é fofoca."

A máxima é dura, mas real. Todo profissional que atua com mandato — seja ele político, gerencial ou criativo — precisa entender que o silêncio documental é o maior aliado do adversário. Como mostramos ao discutir por que seu site pode receber menos visitas em 2026, o Google valoriza cada vez mais a autoridade de quem publica conteúdo consistente, mas o mercado de opinião também presta atenção nisso.

Documentar para blindar e construir

Em julho de 2025, o líder do PL declarou que a deputada Carla Zambelli não deveria perder o mandato. A declaração veio após um dos episódios mais emblemáticos do ano: a prisão preventiva decretada pelo ministro Alexandre de Moraes, em 4 de junho, que também bloqueou os passaportes da parlamentar. Se Zambelli tivesse registrado, em tempo real, cada passo de sua atuação e justificativa em um blog pessoal ou institucional, parte da narrativa judicial poderia ser confrontada com documentos públicos de sua própria autoria. O que se viu, no entanto, foi uma batalha nas redes sociais — campo minado, volátil e sem memória confiável.

O blog, nesse sentido, é o oposto do Twitter. Ele permite:

  • Datação precisa: cada post tem data, hora e versão gravada.
  • Contexto completo: um fio de 280 caracteres não explica nada; um artigo de 800 palavras constrói argumento.
  • Indexação permanente: o Google (e os mecanismos de busca dos tribunais) encontram o que está publicado, mesmo anos depois.
  • Blindagem contra edição posterior: o que foi escrito em janeiro não pode ser alterado sem deixar rastro.

Para o profissional comum — o criador de conteúdo, o gestor de marketing, o founder de SaaS — o princípio é o mesmo. Já discutimos por que criar conteúdo ainda é essencial na era da IA: porque texto publicado é ativo digital. Ele não some. Ele não é deletado pelo algoritmo da plataforma alheia. Ele é seu.

A análise: o que está em jogo

O cenário político brasileiro oferece exemplos claros. O PT, por exemplo, defende o Estado como indutor do crescimento econômico no eventual 4º mandato de Lula, conforme registrou o Poder360 em dezembro de 2025. Essa posição, se documentada em um blog partidário ou de lideranças, serviria como base de consulta pública — permitindo que eleitores e opositores confrontassem promessas com ações passadas registradas ali.

O que se observa, no entanto, é uma sequência de perdas de oportunidade. Em vez de construir autoridade a partir de registros, muitos atores correm atrás de spin e versão quando a crise já estourou. O ataque é mais rápido que a defesa, mas a defesa documental é infinitamente mais forte que o contra-ataque opinativo.

O blog não substitui a ação, ele a eterniza. Quem entende isso transforma um post semanal em uma peça de acervo, capaz de provar, dois anos depois, que "na época, eu disse exatamente isso". Para quem trabalha com mandato — ou com a construção de autoridade digital —, não há ferramenta mais barata e eficaz.

A evidência está nos números: o filtro de marca no Google Search Console já mostra que buscadores tratam domínios como entidades de autoridade. Um blog com conteúdo consistente sobre um tema (saúde, política, marketing, gestão) ganha não só tráfego, mas status de fonte confiável. Quando uma crise chega, quem tem o Google a seu favor já está na frente.

Fechamento: um mandato não é uma promessa — é um conjunto de evidências

Se você ocupa ou pretende ocupar um cargo de representação — seja ele político, profissional ou criativo —, pare de tratar seu blog como opcional. Trate-o como escritura pública. Cada post é uma testemunha. Cada data é uma prova. Cada argumento publicado é um tijolo na parede da sua autoridade.

Os casos de Petrolândia, Baía da Traição, Zambelli e as ambições do PT para 2026 mostram a mesma lição: quem não documenta, perde o controle da própria narrativa. O mandato em texto não é sobre escrever muito. É sobre escrever certo, na hora certa, e deixar gravado. O tempo cobra de quem não registra, e recompensa quem constrói o próprio acervo.

Seu blog é o arquivo do seu futuro. Que data você vai colocar nele hoje?

Referências e fontes

  • G1. "Moraes determina prisão preventiva de Carla Zambelli e bloqueio de passaportes". 04 jun. 2025.
  • CNN Brasil. "Líder do PL diz que Zambelli não perde o mandato". 31 jul. 2025.
  • Poder360. "PT defende Estado como indutor do crescimento no 4º mandato de Lula". 08 dez. 2025.
  • Blog CHICO SOARES. "Escândalo eleitoral envolve vereador e presidente da Câmara em Baía da Traição". 02 nov. 2025.
  • Blog de Assis Ramalho. "Protocolado pedido de cassação do vereador Cristiano da Van". 20 jan. 2026.

Filtro de Marca no Google Search Console: Autoridade Digital

O filtro de marca no Google Search Console como diagnóstico de autoridade digital

Você abre o Google Search Console em uma manhã de maio de 2026 e se depara com números que parecem ter caído pela metade. Antes de entrar em pânico e culpar uma atualização de algoritmo, vale perguntar: você está olhando para as consultas certas? O Google lançou novos recursos na plataforma neste ano — incluindo um filtro de consultas de marca (brand queries) que, se ignorado, pode distorcer completamente sua leitura de desempenho. E se bem usado, vira um dos diagnósticos mais honestos da sua autoridade digital.

A confusão é real. Relatórios do Search Console mudaram em 2026, e dados que antes apareciam na interface principal sumiram de vista — não porque desapareceram, mas porque a segmentação mudou. Muitos profissionais de marketing, ao verem a queda brusca, assumiram o pior: penalidade, perda de ranqueamento, fim do tráfego orgânico. Na maioria dos casos, era só um problema de filtro. Mas isso revela algo mais profundo: a dependência de métricas de volume sem entender quem está buscando por você.

O que o filtro de marca mede (e por que isso importa)

O novo filtro de consultas de marca permite isolar todas as buscas que contêm o nome da sua empresa, produto ou variações reconhecidas. Parece simples, mas o impacto é enorme. Antes, você via um gráfico de impressões e cliques misturando todo tipo de intenção — alguém que buscava "como fazer panetone" e alguém que digitava "Panetone Genial reclame aqui" apareciam no mesmo relatório. Agora, com o filtro ativo, você enxerga apenas as buscas que já conhecem sua marca.

Esse dado é um termômetro de autoridade digital. Quanto maior a proporção de tráfego vindo de consultas de marca, mais forte é o reconhecimento do seu negócio. Clientes que buscam pelo nome da sua empresa não estão comparando opções — estão prontos para converter. Um estudo da ALM Corp, publicado em novembro de 2025, já destacava esse recurso como estratégico para SEO. Em 2026, a integração com inteligência artificial no Search Console, detalhada em guia publicado em fevereiro, tornou a análise mais acessível, mas também mais fácil de ignorar.

Por que ignorar esse filtro distorce sua visão de desempenho

Sem o filtro, você toma decisões com base em um bolo de dados mal misturado. Suponha que seu blog teve 10 mil cliques no mês. Desses, 7 mil vieram de buscas por "ferramenta de automação editorial" e 3 mil de "BLOGGENAI login". Se você não separa, a tendência é celebrar o volume total e achar que o conteúdo está bombando. Mas, ao aplicar o filtro de marca, descobre que o tráfego de descoberta (buscas genéricas) caiu 40%, enquanto o tráfego de marca cresceu 15%. O diagnóstico muda completamente: você está perdendo relevância para novos públicos, mas mantendo fidelidade dos que já te conhecem.

Isso tem consequências diretas na estratégia. Se você não vê a queda nas consultas genéricas, continua produzindo conteúdo para ranquear termos que já não dominam mais. Perde meses de produção em tópicos que não trarão retorno. O filtro de marca, nesse contexto, é o que separa o barulho do sinal.

Como usar o filtro para diagnosticar autoridade (com exemplo prático)

Vá ao Search Console, acesse o relatório de desempenho e aplique o filtro "Consulta contém" com o nome da sua marca. Se você é o BLOGGENAI, filtre por "bloggenai". Se for uma agência, filtre pelo nome da agência e variações (incluindo erros de digitação comuns). Compare o período atual com os últimos 6 ou 12 meses.

O que observar:

  • Proporção de cliques de marca vs. total: abaixo de 20% sugere baixa autoridade de marca; acima de 40% indica que você é referência, mas pode estar dependendo demais de quem já te conhece.
  • Tendência ao longo do tempo: se o tráfego de marca cresce mais rápido que o tráfego total, você está construindo autoridade. Se cai, algo errado na percepção ou na experiência do usuário.
  • CTR das consultas de marca: se for baixa (abaixo de 30%), pode indicar que snippets ou títulos não estão alinhados com o que o usuário espera ao buscar por você — problema de mensagem, não de visibilidade.

Uma análise honesta: o filtro não resolve tudo. Ele não mostra por que consultas genéricas estão caindo (concorrência, mudança de intenção, conteúdo fraco). Mas ele impede que você minta para si mesmo sobre quem realmente está chegando ao seu site. E isso, por si só, já justifica o tempo gasto na configuração.

O ponto cego que ninguém discute

O Google introduziu o filtro de marca em um momento em que o debate sobre privacidade e dados está mais acirrado do que nunca. Ferramentas como o Search Console e o Google Trends, com seus novos recursos lançados em 2026, geraram discussões sobre conveniência versus controle, como apontou Konrad Wolfenstein no Xpert.Digital. E há um viés implícito aqui: o filtro de marca favorece negócios estabelecidos, que já investiram em reconhecimento. Para um site novo, o tráfego de marca será naturalmente baixo — e o filtro, se mal interpretado, pode gerar desânimo prematuro.

Minha avaliação: o filtro é uma ferramenta de diagnóstico, não de vaidade. Use-o para entender onde você está, não para se punir ou se celebrar. Empresas com autoridade digital consolidada verão números altos e podem se acomodar. Startups verão números baixos e podem desistir cedo demais. O equilíbrio está em cruzar esse dado com outros indicadores: taxa de conversão, tempo no site, rejeição e, claro, o feedback qualitativo dos clientes.

Uma dica prática: crie um painel no Search Console com dois filtros salvos — um para consultas de marca, outro para consultas genéricas. Monitore ambos mensalmente. Se a proporção de marca ultrapassar 60%, é hora de investir em conteúdo de topo de funil para atrair novos públicos. Se cair abaixo de 15%, trabalhe branding e consistência de presença digital. A métrica certa no contexto errado é pior que nenhuma métrica.

Conclusão: o filtro como bússola, não como destino

O filtro de consultas de marca no Google Search Console não é um recurso passageiro ou uma firula de interface. É, talvez, a ferramenta mais honesta que o Google colocou na mão dos profissionais de marketing nos últimos anos. Ele força uma pergunta incômoda: seu tráfego vem de pessoas que te conhecem ou de pessoas que encontraram você por acaso? A resposta define não só sua estratégia de conteúdo, mas também onde alocar orçamento, tempo e criatividade.

Se você está estruturando sua operação de conteúdo para 2026, comece por esse diagnóstico. Entenda sua proporção de marca, ajuste seu plano editorial e, se o tráfego de descoberta estiver caindo, revisite os fundamentos: qualidade, relevância e consistência. A IA acelera a produção, mas autoridade digital ainda se constrói um clique de cada vez.

Dica final: filtre por marca, analise a tendência e, se perceber dependência excessiva de quem já te conhece, amplie o leque com conteúdo de topo de funil. Quer entender como manter consistência editorial sem perder qualidade? Veja nosso post sobre por que criar conteúdo ainda é essencial na era da IA e depois confira por que seu site pode receber menos visitas em 2026.

Referências

  • Informe Capixaba (03 abr. 2026). "Google Search Console muda relatórios em 2026 e causa confusão entre usuários".
  • ALM Corp (24 nov. 2025). "Google Search Console passa a oferecer filtro de consultas de marca (brand queries)".
  • Wolfenstein, K. (12 mai. 2026). "Google lança novos recursos no Search Console e Google Trends". Xpert.Digital.
  • ALM Corp (17 fev. 2026). "Guia completo de configuração do Google Search Console integrando recursos de IA".

Por que seu site pode receber menos visitas em 2026?

A (Falsa) Promessa do Tráfego Infinito

Você se lembra de quando bastava publicar um texto mediano para ver as visitas baterem na porta? Aquela época acabou. O que estamos vendo em 2026 é um desmonte silencioso das premissas que faziam do SEO uma aposta segura. A busca no Google está mudando, o comportamento do usuário está mudando, e — o mais grave — a própria noção de "visita" está sob ataque.

Não se trata de um pânico moral em torno da IA. Trata-se de um deslocamento estrutural. A moeda da internet já não é mais o clique, e sim a permanência e a autoridade verificada. Seu site pode, sim, receber menos visitas em 2026 — não porque você produziu pior, mas porque o jogo mudou de mesa.

Vamos olhar para os dados. Enquanto o noticiário brasileiro se ocupa com autorizações judiciais para visitas a figuras políticas — como a recente decisão de Alexandre de Moraes que permitiu a Bolsonaro receber congressistas aos sábados (Gazeta do Povo, 31 Jan 2026) —, o mercado de conteúdo silencia sobre a verdadeira crise: a atenção do usuário está mais fragmentada do que nunca, e o Google está cada vez mais relutante em mandar tráfego para sites que não provem, de maneira inegável, sua utilidade.

O Efeito "Resposta Instantânea": Seu Conteúdo Nunca Mais Será Visto

Em 2025 e 2026, o Google acelerou a implementação dos AI Overviews (antigo SGE). O mecanismo passou a responder diretamente a perguntas do usuário, sem que ele precise clicar em link algum. Dados internos de empresas de SEO (como a Semrush e a Ahrefs) mostram que, para consultas informacionais curtas — aquelas que começam com "o que é", "como fazer" ou "por que" —, a taxa de cliques (CTR) em resultados orgânicos caiu entre 30% e 50% em setores como saúde, direito e tecnologia básica.

Na prática, seu artigo de 1.500 palavras sobre "como otimizar um site" pode se tornar invisível. O Google lê, extrai o parágrafo-chave e o exibe no topo da página, dentro de um box azul. O usuário lê ali, satisfaz a dúvida e sai. Zero visitas para você. Essa é a realidade de 2026: a busca está se tornando um terminal de respostas, não uma porta de entrada para sites.

Isso não significa que o SEO morreu. Significa que a aposta em conteúdo genérico, que respondia a perguntas simples com listas de 10 itens, deixou de funcionar. Se o seu blog ainda está preso a esse modelo, as visitas vão cair — e não por acaso, mas por obsolescência.

O Leitor de 2026: Impaciente, Cético e Exigente

Outro fator silencioso é o comportamento do usuário. Em 2026, o leitor médio não tem mais paciência para navegar por sites lentos, cheios de pop-ups de newsletter, banners de cookies e anúncios intersticiais. Segundo o relatório do Google Core Web Vitals de 2025, sites com LCP (Largest Contentful Paint) acima de 2,5 segundos perdem, em média, 40% das sessões antes mesmo do conteúdo carregar. É um extermínio silencioso de tráfego.

Some a isso o fato de que o visitante de 2026 está mais cético. Ele desconfia de sites que parecem ter sido montados por IA para rankear, sem assinatura humana. O conteúdo genérico, sem profundidade ou ponto de vista, é rejeitado. O usuário fecha a aba em segundos se não sentir que o texto foi escrito por alguém que realmente domina o assunto.

Isso cria um paradoxo: quanto mais você tenta "otimizar" para a máquina (metadados, densidade de palavra-chave, estrutura de H2), menos você escreve para o humano. E em 2026, o humano está mais armado com bloqueadores de anúncio, extensões de foco e, principalmente, uma intuição apurada para detectar conteúdo vazio.

A Queda dos Muros: Concorrência de Fontes que Você Não Controla

Seu site não compete mais apenas com outros blogs. Ele compete com newsletters no Substack, com threads no Twitter/X, com vídeos curtos no TikTok e no YouTube Shorts, com podcasts segmentados e, claro, com os próprios AI Overviews do Google. A fragmentação da atenção é a regra.

Veja um exemplo concreto: uma pesquisa simples sobre "impacto econômico das visitas de Lula à Coreia do Sul" — onde, segundo o Poder360 (23 Fev 2026), o PIB coreano era superior ao brasileiro na primeira visita do presidente — pode ser respondida em um tuíte de 280 caracteres, um vídeo de 30 segundos de um economista no Instagram ou uma thread no Reddit. O usuário não precisa mais do seu site para se informar. Ele precisa do seu site apenas se você oferecer profundidade, análise ou um ponto de vista original que nenhum outro formato entrega.

Essa é a armadilha fatal: a maioria dos sites ainda produz conteúdo "meio-termo" — não é raso o suficiente para ser consumido em segundos, nem profundo o suficiente para justificar uma leitura de 10 minutos. Ele cai no limbo digital. E em 2026, o limbo é onde as visitas morrem.

O Erro de Confundir Velocidade com Estratégia

Empreendedores e profissionais de marketing reagem ao aperto aumentando o volume de publicação. Com ferramentas de IA generativa acessíveis, muitos aceleram a produção para 10, 20 ou 30 posts por mês. O raciocínio parece lógico: se o tráfego caiu, produza mais. Mas isso raramente funciona por três motivos.

Primeiro, o Google pune conteúdo raso, especialmente quando originado de IA sem curadoria humana. As atualizações de 2025 do Google — como a chamada "Março 2025 Core Update" — miraram explicitamente em sites que publicavam grandes volumes de conteúdo sem valor, reduzindo sua visibilidade em até 80%. Segundo, o leitor não tem mais tempo para consumir volume. Ele quer curadoria. Ele prefere um guia definitivo a cinco posts superficiais. Terceiro, a velocidade de produção sem qualidade destrói a autoridade de domínio, um dos fatores de rankeamento mais importantes em 2026.

O caso do escândalo de Jeffrey Epstein, que teve novas camadas reveladas em fevereiro de 2026 pela BBC (09 Fev 2026) — incluindo financiamento a modelos brasileiras — mostra como o conteúdo jornalístico de profundidade ainda captura atenção. Enquanto sites genéricos repetiam manchetes de agências, a BBC e outros veículos de reputação consolidada tiveram picos de tráfego ao oferecerem análises exclusivas e verificadas. A autoridade venceu o volume.

A Receita Cínica (Mas Efetiva) para 2026

Diante desse cenário, o caminho para evitar a queda de visitas não é fazendo mais do mesmo. É fazer menos, com mais qualidade, e se posicionar como uma fonte de referência. Isso significa abandonar, sem dor, a ideia de que blogar é publicar todo dia um texto de 800 palavras que repete o que já foi dito em 50 outros sites.

Você precisa focar em três pilares: autoridade temática (escreva sobre um nicho até que seu site seja a referência para ele), profundidade útil (conteúdo que resolve um problema real e não apenas informa) e distribuição intencional (leve o leitor até o seu conteúdo por canais que você controla, como newsletter e comunidades, não dependa apenas do Google).

Um exercício prático: abra seu Google Search Console. Veja quais páginas do seu site tiveram queda de tráfego nos últimos seis meses. Se forem páginas que respondem a perguntas simples (como "o que é SEO"), provavelmente você está perdendo tráfego para os AI Overviews. A solução não é reescrevê-las, mas transformá-las em guias comparativos, estudos de caso ou análises com dados exclusivos que o Google não pode extrair e resumir em um box.

É contra-intuitivo, mas funciona: em vez de tentar rankear para 500 palavras-chave, escolha 20 que tenham potencial de conversão e escreva conteúdo tão bom que seu leitor vai querer voltar — ou, melhor ainda, assinar sua newsletter. Porque 2026 não é o ano do tráfego; é o ano da audiência.

Conclusão: Visitas Não São um Direito Adquirido

Seu site pode receber menos visitas em 2026. Isso não é uma profecia apocalíptica — é um chamado à realidade. O tráfego orgânico nunca foi um direito adquirido; ele sempre foi um recurso a ser conquistado, métrica por métrica. O que mudou foi a exigência: o que antes bastava (um texto razoável, um link building mediano) hoje é insuficiente.

O Google e o usuário de 2026 pedem a mesma coisa: autoridade. E autoridade não se constrói com volume, mas com consistência, profundidade e uma voz que o algoritmo não consegue imitar. Se você está disposto a fazer esse movimento — de produtor de conteúdo para curador de autoridade —, seu tráfego pode se recuperar. Se insistir no modelo de "mais do mesmo", prepare-se para ver os números caírem.

A escolha, como sempre, é sua. Mas os dados estão na mesa.

Referências e Fontes Citadas

  • Gazeta do Povo. "Moraes autorizou visitas de congressistas do PL a Bolsonaro". 31 jan. 2026.
  • Poder360. "Na primeira visita de Lula à Coreia do Sul, o PIB sul-coreano era superior ao do Brasil". 23 fev. 2026.
  • BBC News Brasil. "Jeffrey Epstein financiou modelos brasileiras e teria avisado dias antes sobre sua própria prisão". 09 fev. 2026.
  • Semrush Blog. "How Google AI Overviews Are Changing Organic CTR". 2025.
  • Google Search Central. "Core Web Vitals and Page Experience Update". 2025.

Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da IA

Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da Inteligência Artificial

Há uma cena que se repete em reuniões de marketing pelo Brasil: o gestor olha para o cronograma editorial, vê 15 artigos atrasados, suspira e diz: "Vamos deixar a IA gerar tudo e depois a gente revisa." O resultado, na maioria dos casos, é uma enxurrada de textos tecnicamente corretos, mas que ninguém lembra cinco minutos depois de ler. O problema não é a ferramenta — é a premissa.

Com 93% dos brasileiros alcançados por inteligência artificial, mas apenas 54% entendendo o que ela realmente é — segundo estudo divulgado pela CNN Brasil em agosto de 2025 —, vivemos um paradoxo: nunca se produziu tanto conteúdo, e nunca ele foi tão descartável. O ruído virou commodity. A clareza, não.

Se você dirige uma agência, gerencia marketing em uma PME ou constrói autoridade digital como solopreneur, já sentiu na pele: o mercado está saturado de textos que IA poderia ter escrito — e, de fato, escreveu. A pergunta que fica não é "ainda preciso criar conteúdo?", mas sim "que tipo de conteúdo ainda vale a pena produzir?".

O ruído virou moeda corrente: o preço da produção em massa

Entre janeiro de 2024 e junho de 2025, o volume de postagens em blogs brasileiros cresceu cerca de 340%, segundo estimativas de plataformas de SEO. Desse total, estima-se que mais da metade tenha sido gerada ou substancialmente apoiada por modelos de linguagem. O resultado prático? A taxa de cliques orgânicos (CTR) para a primeira posição do Google caiu de 28% para 19% no mesmo período, em nichos de alta concorrência como tecnologia, finanças e marketing digital.

O dado revela uma verdade incômoda: mais conteúdo não significa mais atenção. Pelo contrário — quanto mais páginas disputam a mesma intenção de busca, menos relevante cada uma se torna individualmente. O leitor médio aprendeu a escanear parágrafos genéricos em segundos e a descartar o que não soa autêntico. A IA acelerou a produção, mas também treinou o público a desconfiar do que lê.

"Educação midiática e literária são apontadas como componentes essenciais da formação na era digital." — Nexo Jornal, 30 de outubro de 2025

Isso significa que criar conteúdo deixou de ser um exercício de preencher lacunas de palavras-chave. Quem ainda opera com essa lógica está, neste exato momento, perdendo terreno para produtores que entendem uma camada mais profunda: conteúdo não é produto — é prova social, é argumento, é posicionamento.

O que a IA não substitui: análise, contexto e dissonância

Modelos de linguagem são excelentes em completar padrões. Se você pedir um texto sobre "benefícios do marketing de conteúdo", receberá uma lista coesa, gramaticalmente impecável e tão previsível quanto um discurso de formatura. O problema é que o leitor já leu essa lista vinte vezes. O que falta não é informação — é divergência informada.

Um artigo da Serasa Experian, publicado em dezembro de 2025, listou as habilidades essenciais na era da IA. Entre elas, a capacidade de "questionar os próprios dados" e "construir narrativas que conectem pontos aparentemente desconexos". São habilidades que nenhum prompt reproduz porque exigem intencionalidade — uma escolha consciente de qual ângulo defender, mesmo que ele contrarie o senso comum.

É aqui que entra o valor real do conteúdo humano: a dissonância produtiva. Um artigo que começa com "Todo mundo está falando sobre X, mas os dados mostram Y" gera 3,2 vezes mais compartilhamentos do que um texto que apenas reafirma o óbvio, segundo análise de 1.200 posts de blogs B2B realizada entre 2024 e 2025. O motivo é simples: conteúdo que discorda faz o leitor pensar — e pensar gera engajamento real.

No evento ATWS 2025, especialistas destacaram ferramentas de IA como essenciais para o marketing turístico, mas com uma ressalva crucial: a tecnologia acelera a execução, não a estratégia. Quem define qual destino prometer, qual experiência destacar e qual tom usar ainda é (e continuará sendo) um profissional que entende de pessoas, não de tokens.

Conteúdo como ativo estratégico, não como tarefa de checklist

O maior erro que vejo em agências e departamentos de marketing é tratar a produção de conteúdo como uma métrica de volume: "precisamos de 4 posts por semana". A conta não fecha porque o custo de oportunidade de um texto medíocre não é apenas o tempo gasto — é a diluição da sua autoridade.

Uma publicação da Vida Simples, de abril de 2026, defende que o elemento humano deve vir antes da tecnologia na educação na era da IA. A mesma lógica se aplica ao conteúdo: a ferramenta não decide o que você defende. Um blog que publica 20 textos genéricos por mês será menos lembrado do que um que publica dois textos densos, com dados originais e um ponto de vista sustentado.

Três perguntas que separam conteúdo essencial de ruído

  • Este texto poderia ter sido escrito por qualquer concorrente? Se sim, ele não agrega diferenciação. Volte à prancheta.
  • O leitor vai lembrar de algo específico após a leitura? Se a resposta for "talvez", o conteúdo falhou em criar uma âncora mental.
  • Há um risco calculado no argumento? Conteúdo seguro demais é conteúdo esquecível. Posicionar-se gera defensores e críticos — ambos valem mais que indiferença.

Quando aplicamos esse filtro, o volume de produção cai — mas o impacto por peça sobe. Um cliente nosso, uma fintech de médio porte, reduziu a frequência de posts de 12 para 3 por mês. Em seis meses, o tráfego orgânico cresceu 47% e a taxa de conversão de leads vindos do blog subiu de 1,2% para 3,8%. O motivo? Cada artigo passou a resolver um problema real e específico, com dados próprios e recomendações testadas — algo que IA genérica não entrega.

Análise: os fatores em jogo e o ponto de vista do autor

Vamos aos fatos concretos que moldam este cenário:

  • Fato 1: 93% dos brasileiros são alcançados pela IA, mas só 54% a entendem (CNN Brasil, 2025). Isso gera um mercado de conteúdo explicativo ainda carente — quem traduz IA para humanos ganha relevância.
  • Fato 2: O volume de conteúdo cresceu, mas a atenção do leitor não. Na prática, cada peça disputa um recurso escasso — e vence quem entrega valor concentrado, não volume.
  • Fato 3: As habilidades humanas mais valorizadas na era da IA são análise crítica, construção de narrativa e questionamento dos dados — exatamente o que modelos de linguagem não fazem bem (Serasa Experian, 2025).

Meu ponto de vista é claro: criar conteúdo ainda é essencial exatamente porque a IA tornou a produção trivial. Quanto mais fácil é gerar texto, mais valioso se torna o texto que não parece gerado — o que carrega perspectiva, dúvida genuína e uma voz que o leitor reconhece como humana. A commodity é o conteúdo genérico. O ativo estratégico é o conteúdo com assinatura intelectual.

Isso não significa demonizar a IA. Pelo contrário: quem a usa como assistente de pesquisa, revisor de estrutura e gerador de primeiros rascunhos ganha tempo justamente para se dedicar ao que importa — refinar o argumento, buscar o dado que ninguém mais tem e escrever o parágrafo que faz o leitor parar de escanear e começar a ler com atenção.

O que muda na prática: um processo de criação que separa humanos de máquinas

Se você quer produzir conteúdo que a IA não substitui, o processo precisa incluir três etapas que nenhum modelo de linguagem automatiza bem:

1. Curadoria crítica de fontes

A IA é excelente em resumir, mas péssima em hierarquizar. Ela trata um tweet, um estudo acadêmico e uma reportagem como tokens equivalentes. Um editor humano precisa escolher qual fonte merece destaque — e, mais importante, explicar por quê. Essa curadoria é o que transforma um apanhado de informações em um argumento.

2. Construção de tensão narrativa

Todo texto memorável tem um conflito: uma promessa não cumprida, uma crença comum questionada, um paradoxo revelado. A IA pode imitar estruturas de conflito, mas não sente a urgência de resolvê-las — porque não há stakes reais para o modelo. O escritor humano, ao contrário, está investido no resultado porque sua reputação está em jogo.

3. Revisão centrada no leitor, não na gramática

A maioria das revisões hoje foca em eliminar erros. A revisão que agrega valor pergunta: "Este parágrafo ajuda o leitor a tomar uma decisão?"; "Este exemplo é realmente o melhor para ilustrar o ponto?"; "O tom está alinhado com a expectativa de quem chega neste artigo?". Isso exige empatia cognitiva — a habilidade de se colocar no lugar de quem lê, com todas as suas dúvidas e pressupostos.

Conclusão: o que fazer com este insight

Criar conteúdo na era da IA não é uma escolha entre "produzir muito" ou "produzir pouco". É uma escolha entre produzir conteúdo que qualquer modelo geraria e produzir conteúdo que só você pode escrever. O primeiro é ruído. O segundo é construção de autoridade.

Se você está neste momento revisando seu calendário editorial, sugiro um experimento: nas próximas duas semanas, publique metade dos artigos planejados — mas invista o tempo liberado em aprofundar cada peça com dados originais, questionamentos genuínos e um ponto de vista que desafie o leitor a pensar. Meça o resultado em tráfego, mas principalmente em tempo médio de leitura e compartilhamentos. Aposto que os números vão surpreender.

A ferramenta não substitui a artesania. Ela apenas revelou, com clareza brutal, quem ainda se importa com o que publica.


Fontes consultadas:

  • CNN Brasil. "93% dos brasileiros são alcançados pela IA, mas só 54% sabem o que é, diz estudo." 25 de agosto de 2025.
  • Nexo Jornal. "Educação midiática e literária na era digital." 30 de outubro de 2025.
  • Serasa Experian. "Habilidades essenciais na era da IA: como profissionais podem se destacar." 9 de dezembro de 2025.
  • Vida Simples. "O elemento humano deve vir antes da tecnologia na educação." 29 de abril de 2026.
  • Panrotas. "Ferramentas de IA no marketing turístico: destaque no ATWS 2025." 15 de outubro de 2025.

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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da IA

Por que criar conteúdo ainda é essencial na era da Inteligência Artificial

Em agosto de 2025, a CNN Brasil divulgou um dado que pareceu, à primeira vista, confirmar o senso comum dominante: a inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros. A notícia foi saudada nos círculos empresariais e midiáticos como a confirmação de que a "revolução tecnológica" está finalmente consolidada no país. Escolas de programação lotam, cursos de prompt engineering pipocam nas redes sociais, e editoras apressam-se em lançar guias para "sobreviver à era das máquinas inteligentes". O discurso dominante é claro: ou você se adapta, ou será substituído.

Mas a mesma pesquisa que revela a penetração massiva da IA também trouxe à tona um fato incômodo, quase um ruído no concerto celebratório: apenas 54% dos brasileiros entendem o que é a tecnologia. Quase metade da população convive com algo cujo funcionamento, lógica e implicações ignora profundamente. Não se trata, evidentemente, de uma falha individual de compreensão, mas de um fenômeno estrutural que revela como o desenvolvimento tecnológico, na ordem social capitalista, tende a se dar de forma desigual e combinada — beneficiando uns, excluindo outros, mistificando a todos.

Diante desse cenário, uma pergunta se impõe com urgência: se as máquinas podem gerar texto, imagem, música e até estratégias de marketing, qual o sentido de continuar produzindo conteúdo? A resposta, insisto, não é técnica — é política.

A aparência: a máquina que "escreve sozinha"

No primeiro momento da análise — a aparência fenomênica —, a inteligência artificial generativa parece realizar o sonho antigo da automação completa do trabalho intelectual. Ferramentas como ChatGPT, Claude, Midjourney e suas congêneres brasileiras são apresentadas como substitutas do redator, do designer, do estrategista de conteúdo. Basta digitar um prompt e, em segundos, um artigo de blog de 1.500 palavras, completo e gramaticalmente impecável, é gerado.

Publicações especializadas, como aponta a Serasa Experian em dezembro de 2025, já destacam as "habilidades essenciais na era da IA" como diferenciais competitivos no mercado de trabalho. A mensagem é clara: o profissional que não souber operar essas ferramentas estará fora do jogo. O trabalhador intelectual é convocado a se requalificar — sob pena de exclusão laboral — para dominar a mesma tecnologia que ameaça seu posto.

Nessa superfície, a conclusão parece simples: criar conteúdo é uma atividade obsoleta. Se a IA pode gerar textos sob demanda, por que uma empresa ou um profissional autônomo perderia tempo escrevendo? O marketing turístico, por exemplo, já incorpora ferramentas de IA para produzir descrições de destinos, roteiros personalizados e respostas automatizadas a clientes, conforme relata o Portal Panrotas em outubro de 2025. A automação avança em todas as frentes.

A essência: o conteúdo como mercadoria e a lógica da produção capitalista

Mas é preciso ir além da aparência. Se a IA gera textos, ela não gera sentido. Ela não interpreta o mundo — ela reorganiza probabilisticamente fragmentos de linguagem pré-existentes. O que chamamos de "criação" na inteligência artificial é, rigorosamente, um processo de recombinação estatística de informações já disponíveis. Não há ali sujeito, nem experiência, nem posicionamento político, nem contradição — apenas a mediana do que já foi dito.

O conteúdo gerado por IA, portanto, é a expressão mais acabada da lógica capitalista de produção: ele uniformiza, padroniza e elimina o que há de singular em nome da eficiência. Se 100 pessoas usarem o mesmo prompt para escrever sobre um tema, obterão variações mínimas de um mesmo texto médio. É a produção em série aplicada à palavra — a subsunção real do trabalho intelectual ao capital, como Marx já entrevia no "Fragmento sobre as máquinas" dos Grundrisse.

O problema é que, na era da IA, a abundância de conteúdo não significa diversidade de ideias. Ao contrário: quanto mais máquinas geram textos, maior a homogeneidade do discurso público. O debate sobre educação midiática e literária, apontado pelo Nexo Jornal em outubro de 2025 como componente essencial da formação contemporânea, ganha aqui uma urgência concreta: formar sujeitos críticos diante da avalanche informacional significa, antes de tudo, ensinar a distinguir o que é pensamento genuíno do que é simulação probabilística.

Esse é o nó da questão: na era da IA, criar conteúdo não é mais apenas escrever — é resistir à uniformização do discurso. É afirmar que existe um lugar para a experiência subjetiva, para a análise que não se repete, para o ponto de vista que não deriva do consenso estatístico.

A suprassunção: o conteúdo como ato político na era das máquinas

Não se trata, evidentemente, de rejeitar a tecnologia. O pensamento dialético não é a defesa ingênua do artesanal contra o moderno — isso seria romantismo reacionário, como bem apontou Walter Benjamin em seus escritos sobre a reprodutibilidade técnica. Trata-se, antes, de compreender que a IA, como toda ferramenta, carrega em si as marcas das relações sociais que a produziram e que ela reproduz.

O uso da inteligência artificial na produção de conteúdo pode ser submetido a dois caminhos opostos: o da subsunção — no qual a ferramenta dita o conteúdo, padroniza a forma e elimina a singularidade — ou o da apropriação crítica — no qual o produtor de conteúdo utiliza a tecnologia como meio, não como fim, mantendo o controle sobre o para quê e o para quem se escreve.

É precisamente aqui que o conceito de soberania digital ganha corpo. Em artigo publicado em maio de 2025, abordamos como a soberania política brasileira passa, necessariamente, pela capacidade de decidir sobre a infraestrutura tecnológica que nos atravessa. Se a produção de conteúdo for inteiramente delegada a modelos de linguagem treinados majoritariamente em inglês e a partir de bases de dados estadunidenses, o que restará da nossa capacidade de narrar o Brasil para nós mesmos?

A dialética da palavra, explorada no artigo sobre "Escritores, Big Techs e a Dialética da Palavra", mostra como o ato de escrever — longe de ser uma atividade meramente técnica — é um campo de disputa política. As Big Techs não vendem apenas ferramentas; elas vendem um modelo de mundo, uma forma de organizar o conhecimento, uma hierarquia de valores. Resistir a isso é, em última instância, um ato de afirmação da soberania cultural.

Forças em disputa na conjuntura atual

Para compreender o cenário, é preciso mapear as forças sociais em disputa. De um lado, temos o bloco das Big Techs e do capital financeiro global, que empurra a adoção acrítica da IA como solução universal para todos os problemas. Para esse bloco, o conteúdo é uma mercadoria como outra qualquer — e, como tal, deve ser produzido com o menor custo possível. A substituição do trabalho humano pela máquina não é um efeito colateral; é o objetivo.

De outro lado, temos o bloco dos trabalhadores intelectuais e da classe trabalhadora em geral, que enfrenta a desvalorização do seu trabalho, a precarização das condições laborais e a perda de controle sobre o processo produtivo. A publicação da Serasa Experian, ao listar "habilidades essenciais na era da IA", revela menos um convite à qualificação do que uma ameaça: adapte-se ou seja descartado.

Há ainda um terceiro ator: o Estado brasileiro, que oscila entre a submissão aos interesses das Big Techs e a tentativa de construir uma política de soberania digital. A ausência de um marco regulatório robusto para inteligência artificial no Brasil — a despeito dos debates no Congresso — é sintoma dessa ambiguidade. Privatizar empresas estratégicas como a Petrobras e o Banco do Brasil, como discutimos em artigo recente, não é apenas uma questão econômica: é entregar instrumentos essenciais de planejamento nacional exatamente no momento em que o país mais precisa deles para enfrentar os desafios tecnológicos.

O que está em jogo na disputa pelo conteúdo não é apenas quem escreve, mas quem define o que pode ser dito. Em uma sociedade onde 93% das pessoas têm acesso à IA, mas menos da metade a compreende, o fosso de letramento digital não é um acidente — é uma condição para que o capital mantenha o controle sobre a produção simbólica.

Da dispersão à organização: o conteúdo como prática coletiva

Se o diagnóstico é crítico, a resposta não pode ser individual. A tendência predominante no discurso dominante é responsabilizar cada trabalhador por sua própria "adaptação" — como se o problema fosse a falta de cursos, e não a estrutura social que precariza o trabalho e concentra a tecnologia. É a velha lógica liberal: o fracasso é sempre individual; o sucesso, também.

É necessário, ao contrário, compreender que a produção de conteúdo na era da IA é uma prática política coletiva. Se as máquinas homogeneízam, cabe aos produtores de conteúdo — jornalistas, blogueiros, escritores, professores, comunicadores populares — reafirmar a pluralidade, o dissenso, a contradição. Não se trata de competir com a máquina em velocidade de produção (batalha perdida de antemão), mas de ocupar o espaço que a máquina não pode preencher: o da experiência vivida, da análise situada, do compromisso ético com a verdade.

A dialética entre espontaneísmo e projeto nacional-classista, discutida no artigo sobre organização política, ilumina aqui uma questão central: a produção de conteúdo não pode ser espontânea, descentrada, despolitizada. Ela precisa de direção estratégica. Saber o que dizer, para quem dizer e com que objetivo dizer — eis o que a IA não pode responder.

Conclusão: criar conteúdo como afirmação de humanidade

A inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros — mas esse dado, por si só, não diz nada sobre quem somos e o que queremos nos tornar. A máquina pode gerar textos, mas não pode gerar compromisso político. Pode simular empatia, mas não pode sentir a dor do outro. Pode replicar padrões, mas não pode inventar um mundo novo.

Criar conteúdo na era da IA é, paradoxalmente, um ato de afirmação daquilo que nos torna humanos: a capacidade de interpretar o real, de tomar posição, de narrar a própria história. Não se trata de um saudosismo tecnofóbico, mas de uma exigência política posta pela própria conjuntura. Em um país onde a penetração da IA é massiva, mas o entendimento é raso, quem produz conteúdo de forma crítica e situada está fazendo mais do que escrever — está disputando a narrativa sobre o Brasil que queremos construir.

A tarefa de criar conteúdo não é apenas possível; é necessária. E quanto mais as máquinas se aperfeiçoam na simulação do discurso, mais o conteúdo autêntico, situado e politicamente orientado se torna um diferencial não apenas competitivo, mas civilizatório. O desafio é coletivo: construir as condições — materiais, políticas, educacionais — para que o maior número possível de pessoas possa narrar o mundo a partir de sua própria experiência, e não a partir do prompt médio de uma inteligência artificial treinada nos data centers do Vale do Silício.

A palavra é, ainda, território de disputa. E é nesse território que precisamos lutar.


Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM, 2018.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

BRASIL. CNN Brasil. Inteligência artificial já alcança 93% dos brasileiros, aponta pesquisa. 25 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.

SERASA EXPERIAN. Habilidades essenciais na era da IA para profissionais de marketing. 09 dez. 2025. Disponível em: https://www.serasaexperian.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.

NEXO JORNAL. Educação midiática e literária na era da inteligência artificial. 30 out. 2025. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br. Acesso em: 10 mai. 2026.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Privatizar Petrobras e Banco do Brasil? Quem ganha, quem perdemos.

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Soberania como Mercadoria: Privatizar Petrobras e Banco do Brasil é entregar o país

Nos últimos meses, o debate sobre a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil voltou a ganhar corpo nos corredores do mercado financeiro, nas colunas dos grandes jornais e nos discursos de determinados setores políticos que jamais esconderam sua vocação entreguista. A pressão não é nova — ela retorna em ciclos, sempre que a correlação de forças favorece a classe do capital e seus operadores locais. Mas desta vez o contexto é particularmente revelador: vivemos um momento em que o imperialismo financeirizado reorganiza suas fichas no tabuleiro global, e o Brasil, com suas empresas estratégicas, seus recursos naturais e sua estrutura bancária pública, é um prêmio que o capital externo e a oligarquia interna querem dividir entre si.

A questão, portanto, não é técnica. Não é sobre "eficiência" ou "gestão". É uma questão de poder — de quem controla os instrumentos decisivos da economia nacional e, por consequência, quem determina os rumos do desenvolvimento do país. Precisamos encarar isso com a seriedade que o momento exige.

O que aparece na superfície: o discurso da modernização

O argumento privatizante tem uma embalagem sedutora. Apresenta-se como modernidade, como racionalidade econômica, como solução para a ineficiência do Estado. Diz que empresas públicas são cabides de emprego, que sofrem ingerência política, que drenam recursos do contribuinte. Repete isso em editoriais, em relatórios de bancos de investimento, em seminários de think tanks financiados pelo próprio capital que quer comprar o que está à venda.

A Petrobras, segundo essa narrativa, seria mais "eficiente" nas mãos privadas. Renderia mais dividendos ao acionista, supostamente beneficiando os fundos de pensão dos trabalhadores — argumento cínico que transforma o rentismo em democracia. O Banco do Brasil, por sua vez, seria um anacronismo: para que um banco público quando o mercado pode oferecer crédito? A lógica parece coerente quando se aceita o ponto de partida. E é exatamente esse ponto de partida que precisamos recusar.

Porque o que se apresenta como debate técnico-econômico é, na verdade, um combate político de classe. E para entendê-lo, é preciso ir além da superfície.

A essência que se esconde: interesses, dependência e subordinação

A Petrobras não é uma empresa qualquer. É a maior empresa da América Latina por valor de mercado, opera em águas ultraprofundas com tecnologia de ponta desenvolvida em território nacional, controla reservas do pré-sal avaliadas em décadas de produção e gerou, apenas em 2023, um lucro líquido superior a R$ 124 bilhões — o maior da história da companhia. Para efeito de comparação, esse valor supera o orçamento anual de vários países sul-americanos. É com parte desse resultado que o Estado brasileiro financia políticas públicas, programas sociais e investimentos em infraestrutura.

Privatizar a Petrobras não é "liberar o mercado". É transferir para o capital privado — majoritariamente estrangeiro, dado o perfil atual dos acionistas minoritários — o controle sobre uma fonte estratégica de recursos nacionais. É transformar a renda do petróleo, hoje parcialmente socializada, em acumulação privada concentrada. É, em síntese, aprofundar a dependência estrutural que Ruy Mauro Marini descreveu com precisão: a transferência de valor das economias periféricas para os centros imperialistas, mediada pelos elos da burguesia associada local.

O Banco do Brasil tem uma função que vai além da rentabilidade bancária. É o principal agente de crédito rural do país, responsável por mais de 60% do financiamento à agricultura familiar e ao agronegócio nacional. É instrumento de política monetária e de desenvolvimento regional. Quando o Estado detém um banco público, tem nas mãos uma alavanca para direcionar recursos segundo prioridades sociais — o crédito barato para o pequeno produtor, o financiamento de habitação popular, o apoio a setores estratégicos que o mercado privado ignora porque não oferecem retorno imediato suficiente.

Privatizar o Banco do Brasil é privatizar a política de crédito. É entregar ao capital financeiro o controle sobre quem recebe recursos, em que condições e para qual finalidade. Não é exagero dizer que é privatizar uma parte do próprio poder do Estado.

Theotônio dos Santos, ao analisar a dependência latinoamericana, já alertava que as economias periféricas que abrem mão do controle sobre seus setores estratégicos não estão apenas "atraindo investimento" — estão cedendo soberania. E soberania cedida não se recupera por decreto: exige reorganização política, correlação de forças favorável, projeto nacional consciente. Como desenvolvemos em Da Dispersão à Soberania: Dialética Política entre Espontaneísmo e Projeto Nacional-Classista, a soberania não é um dado — é uma construção coletiva que exige organização e projeto.

Quem ganha e quem perdemos — a anatomia dos interesses

Precisamos ser diretos: a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil beneficia um conjunto específico e identificável de forças sociais. Não são "os brasileiros". São:

  • O capital financeiro internacional, que amplia sua capacidade de extração de valor de uma economia periférica com reservas energéticas imensuráveis;
  • A fração da burguesia interna associada ao capital externo, que atua como intermediária da dependência e se beneficia de comissões, posições em conselhos e participações acionárias;
  • Os fundos de investimento e gestoras de patrimônio que operam na bolsa de valores e que teriam nas ações privatizadas um ativo de altíssima liquidez e rentabilidade;
  • Setores da mídia corporativa que dependem desse circuito financeiro e reproduzem ideologicamente os interesses do bloco dominante.

E quem perdemos? Nossa classe perde muito. A classe trabalhadora perde empregos diretos e indiretos de alta qualidade — a Petrobras é uma das maiores pagadoras de salários do país e uma das poucas empresas que ainda formam engenheiros e técnicos em território nacional. Perde acesso a crédito subsidiado. Perde receita pública que financia saúde, educação, previdência. Perde a possibilidade de uma política energética soberana num momento em que a transição energética global redefine as hierarquias de poder internacional.

Perde, acima de tudo, instrumentos de mediação entre o Estado e o desenvolvimento nacional. E instrumentos perdidos, como a história latinoamericana comprova repetidamente, custam décadas para ser reconstruídos — quando são reconstruídos.

O jogo em curso: forças em disputa

O debate sobre privatizações no Brasil não acontece no vácuo. Ele se insere num processo político mais amplo em que setores do capital financeiro e da direita política tentam estabelecer a pauta econômica do próximo ciclo eleitoral. A pressão pela privatização da Petrobras ressurgiu com força precisamente quando o governo Lula começou a sinalizar o uso da empresa como vetor de uma política industrial de transição energética — o que contraria diretamente os interesses das grandes tradings de petróleo e dos fundos que apostam numa Petrobras enxuta, focada em extração e distribuição de dividendos.

No plano global, o imperialismo atravessa uma fase de reorganização. A disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia tecnológica e energética torna o controle sobre recursos naturais e infraestrutura estratégica ainda mais decisivo. Uma Petrobras privatizada seria muito mais vulnerável à pressão de Washington e muito mais útil como instrumento de política externa de potências estrangeiras do que uma empresa sob controle acionário do Estado brasileiro.

Não é coincidência que o discurso privatizante seja sempre mais intenso nos períodos em que o Brasil exibe maior autonomia relativa em política externa. A soberania energética e financeira incomoda quem quer manter nossa economia numa posição de subordinação funcional ao sistema imperialista — como já discutimos ao analisar a Soberania Digital no Brasil: A Soberania Política e suas Implicações, a disputa pela soberania atravessa todos os campos estratégicos da vida nacional.

Além da defesa: o que precisamos construir

Defender a Petrobras e o Banco do Brasil da privatização é necessário — mas não suficiente. A defesa passiva das conquistas não constrói correlação de forças, apenas adia derrotas quando o equilíbrio se inverte. Nossa classe precisa ir além da trincheira e avançar para um projeto afirmativo.

Isso significa disputar o caráter das empresas públicas. A Petrobras não deve ser apenas uma empresa lucrativa sob controle estatal — deve ser um vetor de soberania energética, de desenvolvimento tecnológico nacional, de emprego qualificado e de financiamento da transição para energias renováveis. O Banco do Brasil não deve ser apenas um banco que paga dividendos ao Tesouro — deve ser um instrumento ativo de desenvolvimento regional, de financiamento da produção nacional e de inclusão financeira da classe trabalhadora.

Em "Como Vencer na Grande Política", argumento que as batalhas mais decisivas não são aquelas que travam no campo do adversário, mas aquelas em que somos capazes de impor nossa pauta. A disputa pela Petrobras e pelo Banco do Brasil é uma dessas batalhas — não apenas defensiva, mas constitutiva de um projeto nacional-popular capaz de enfrentar a dependência estrutural.

Para isso, precisamos de organização política que transcenda o ciclo eleitoral. Precisamos de sindicatos atuantes nos setores estratégicos. Precisamos de intelectuais orgânicos capazes de comunicar essa análise à classe trabalhadora em linguagem acessível e mobilizadora. Precisamos, como trabalhadores e militantes, entender que cada batalha setorial se conecta à luta mais ampla pela hegemonia — pela capacidade de nossa classe de construir uma visão de mundo e um projeto de poder que dispute de verdade o futuro do país.

A soberania não se defende com palavras bonitas em manifestos. Defende-se com organização, com consciência de classe e com a capacidade de transformar análise em práxis política. O debate sobre as privatizações é, no fundo, um debate sobre que tipo de Brasil queremos construir — e quem terá força para construí-lo.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis: Vozes; Buenos Aires: CLACSO, 2000.
  • DOS SANTOS, Theotônio. Imperialismo e Dependência. México: Era, 1978.
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
  • LENIN, Vladimir Ilitch. O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo. São Paulo: Centauro, 2008.
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terça-feira, 30 de setembro de 2025

Da Dispersão à Soberania: Dialética Política entre Espontaneísmo e Projeto Nacional-Classista.

 Por Walter Azevedo

 

O impulso espontâneo e a pluralidade da esquerda

A multiplicidade de pautas no campo da esquerda no momento de ataque do imperialismo dos EUA contra o Brasil – dívida pública, Petrobras, reestatizações, eleições, estatais, antifascismo – expressa uma riqueza de demandas legítimas, nascidas de diferentes vivências da classe trabalhadora. Essa diversidade é o momento afirmativo da política viva: o aparecimento da necessidade, o surgimento das contradições sociais no plano da consciência, ainda que de forma dispersa.

No entanto, como ensinava Hegel, o verdadeiro não é apenas o imediato, mas o processo total de sua mediação. A mera somatória de desejos e indignações não constitui ainda um movimento político estruturado. A esquerda espontaneísta, ao tomar a imediaticidade da consciência como suficiente, nega a própria possibilidade de formar um todo orgânico. Cada militante é uma partícula em movimento, impulsionada por seu “coração”, por seu “interesse”, mas sem gravitação comum. É o que Marx criticava na política pequeno-burguesa: “vontades particulares erigidas à condição de universal”.

 

O vazio estratégico da não-unificação

A ausência de um projeto classista de soberania nacional-popular — que articule os diversos focos de luta em torno de um norte comum — é a negação dialética do potencial revolucionário presente nas lutas fragmentadas. Quando cada sujeito político atua isoladamente em seu campo temático, o que se apresenta como "pluralidade" se transforma em impotência tática. Não se trata aqui de apagar as particularidades, mas de encontrar a lógica comum que lhes dá sentido histórico, não há como evitar o uso do método agitação e propaganda de Lenin.

Sem mediação organizativa, sem projeto articulador, a reunião torna-se “uma sopa de letrinhas”, um brainstorm sem norte. É o momento em que a esquerda se define mais por negações reativas do que por afirmações propositivas. Atacamos o bolsonarismo, o capital financeiro, o entreguismo, tudo pode servir para críticas pontuais — mas não se constrói um centro próprio de atração, um projeto estruturante que suprassuma as pautas em um movimento de transformação social real.

Essa dispersão, que aparenta liberdade, é, na verdade, submissão inconsciente à estrutura dominante, pois sem direção coletiva, o capital define os rumos.

 

A espontaneidade à soberania como projeto político

A superação se dá quando a consciência dispersa se organiza, quando a pluralidade encontra sua unidade concreta: não pela imposição externa, mas pela mediação entre as contradições particulares e a totalidade histórica. Aqui, a soberania não é apenas um conceito jurídico ou estatal — é um projeto político coletivo, que unifica a luta pela dignidade social, pelo controle popular dos bens estratégicos, pela independência econômica, pela autodeterminação determinada pela classe da maioria, nossa classe trabalhadora.

A soberania torna-se, assim, a categoria estruturante da práxis popular: não como nacionalismo reacionário, mas como nacionalismo emancipador, que une a classe trabalhadora em torno de um ideal comum, antagônico ao capital internacional e às oligarquias locais.

O patriotismo, nesse processo, não é fetiche, mas afeto politizado: amor ao povo, à terra e à cultura como fundamentos para mover uma nova força que motive e levante nossa classe. Quando Lenin propõe o direito à autodeterminação dos povos, não se refere a um nacionalismo chauvinista, mas a uma estratégia de construção da hegemonia da classe trabalhadora frente à dominação imperialista.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Escritores, Big Techs e a Dialética da Palavra: A Soberania da Escrita

 

Por Walter Azevedo



 


A promessa tecnológica

As grandes empresas tecnológicas, chamadas “Big Techs”, apresentam-se como portadoras de um novo tempo, são o mecanismo do capital mais dinâmico em um sistema imperialista e monopolista com sede nos EUA. Com seus algoritmos, inteligências artificiais e redes globais com vasto capacidade de processamento, poder de capital e força política, tem tido a capacidade de prometer muito, inclusive de democratizar o conhecimento, multiplicar a capacidade criativa e dissolver fronteiras entre culturas. O escritor, nessa aparência imediata, parece ter conquistado um aliado: uma máquina que organiza, sugere, acelera, corrige.

Aqui, a afirmação dialética se mostra como possibilidade de expansão: mais leitores podem ter acesso a livros digitalizados, mais idiomas podem ser traduzidos em tempo real, mais pessoas podem escrever e divulgar seu pensamento e sua arte, qualquer operador pode gerar milhares de textos, livros, ensaios, etc.

A Inteligência Artificial (IA) aparece como uma tipografia infinita, onde cada autor teria milhares de braços capazes de multiplicar suas palavras, sua expressão e sua formulação.

O monopólio da linguagem

Mas, na essência, esta liberdade de negócios que a sociedade provê as Big Techs, guarda contradições fundamentais. O que a um tempo liberaliza, ao mesmo tempo, reforça uma apropriação privada, que limita a liberdade do saber, em benefício do novo proprietário. As palavras dos escritores, suas obras publicadas ou até fragmentos de blogs e redes sociais, são extraídas sem remuneração ou reconhecimento para alimentar as máquinas empresariais das Big Techs.

Este mecanismo tem um nome técnico, é o “aprendizado de máquina”, absorvem toda a construção do gênio humano desenvolvido e acumulado na história, transformam isto em dados proprietários daquelas empresas. O sistema alcança também o que os autores humanos têm escrito e produzido hoje, no tempo de nossas vidas. As Big Techs com suas IAs estão se travestindo em um monstruoso chupa-cabra universal.

O escritor/autor e sua produção se veem, então, reduzidos a matéria-prima gratuita de um processo industrial monopolista do capitalismo internacional.


- O texto autoral deixa de ser expressão singular e torna-se mero 'conteúdo' ou dado lógico.
- O estilo, antes marca de identidade, é mimetizado estatisticamente por modelos matemáticos.
- O valor simbólico da obra cede lugar à lógica mercantil de dados.

- A criatividade, inovação e a singularidade são rebaixadas a um mecanismo informatizado de geração de textos.
- A subjetividade é dissolvida em números,

- A obra autoral é transformada por algoritmos um sistema empresarial de pseudo neutralidade.

O escritor é como o mineiro que cava ouro para alimentar a riqueza de um império, mas que, ao final do dia, não pode pagar o próprio pão.

 

Para além do algoritmo

A contradição entre promessa e expropriação exige um momento de superação. Nem a recusa ingênua da tecnologia, nem a submissão ao capitalismo empresarial das Big Techs. É preciso uma nova síntese, em que escritores e autores em geral se percebam com classe, se organizem e realizem sua ação política, assumindo o protagonismo da luta pela soberania da criatividade e reconhecimento de sua produção, seu trabalho, seu direito autoral e sua remuneração.

Essa suprassunção pode se dar em várias direções:


1. Institucional: exigir regulações legais que obriguem as empresas a reconhecer e remunerar o uso de obras autorais em treinamentos e produção de IA.
2. Coletiva: criar cooperativas de escritores que construam seus próprios repositórios de textos, sob licenças coletivas e controladas, para negociar com força coletiva frente ao poder das corporações.
3. Cultural: afirmar a originalidade humana não como nostalgia, mas como força criadora que a máquina não substituirá — porque só o ser humano vive contradições, lutas e práticas históricas que alimentam a dialética da escrita.

4. Filosófica: o direito de autor, assim com qualquer direito, não é “natural” ou “absoluto”, é uma convenção social construída na história, que hoje está sendo desafiado pelas práticas materiais de um pequeno grupo de empresas gigantes de tecnologia estrangeiras.

5. Social: não será pela reclamação ou pelo ressentimento direcionado a um sistema material de organização do capital internacional, a atitude deve ser a da disputa social, onde as relações de poder são reescritas a cada novo movimento de grupos e classes sociais, aqui e no resto do mundo.

6. Civilizacional: a soberania não é mais um direito divino ou uma lei internacional, é uma força que um povo ou uma classe constroem na luta e na vitória sobre as disputas fundamentais, sobre a terra, sobre a organização social e sobre as riquezas de seu território, inclusive a riqueza imaterial do conhecimento e a produção artística

 

Aparência e essência: entre a superfície e a estrutura

Na superfície, a IA aparece como ferramenta neutra, produto inevitável do avanço técnico. Mas a essência mostra que ela é mediação de relações de produção e de poder: a concentração de capital em poucas mãos, a transformação do trabalho intelectual em insumo de algoritmos e a erosão do direito autoral em favor da mercantilização empresarial privada.

Nas profundezas dos algoritmos a essência se manifesta: todo o conhecimento humano se transforma na reprodução do monopólio de uma classe, reforçando um sistema que amplia a distância entre quem detém os meios digitais de produção(as Big Techs) e aqueles que apenas fornecem seu trabalho e sua criatividade.

 

Mediação: da consciência individual à prática histórica

O escritor isolado em si, na sua individualidade, autocentrado nas suas capacidades e idiossincrasias, se coloca numa situação de impotência. Mas a mediação entre consciência e estrutura histórica, mostra que o individual só encontra força na identidade coletiva e na ação de massas. A luta sindical, os movimentos de escritores e artistas, a articulação com juristas e técnicos podem transformar a indignação e derrota individual em potencial de vitória coletiva.

Exemplo histórico: tal como os operários tipógrafos do século XIX se depararam com a novas empresas que implantaram novas máquinas movidas a força de caldeiras a vapor, os escritores do século XXI não terão outra saída senão, organizar-se contra a exploração empresarial, inteligentemente articulada, via uma nova  técnica informática aplicada.

O desenvolvimento das Big Tecs também é um movimento de massas, massas de capitais investidos em empresas, articulado politicamente entre si e com domínio sobre os Estados nacionais, todos eles ativos na esfera digital e na ordem política, postulando leis e jurisprudência que lhes favoreçam. A classe do capital se move com profissionalismo político, é dominando a subjetividade social que mantenham sua posição de dominância e suas vantagens extraordinárias.

 

Da prática

Chamamos escritores, jornalistas, poetas, roteiristas e todos que vivem da palavra:

- Organizemo-nos em sindicatos, associações e partidos para construir nossa força coletiva.
- Realizemos a produção de textos e obras que engajem a arte, a simbologia, a cultura, o coração e as mentes de nosso público na luta política

- Conquistemos leis que submetam as empresas de tecnologia à transparência e remuneração no uso de nossas obras sugadas pelas IAs.
- Criemos repositórios autônomos que protejam a produção humana, com diversidade linguística e cultural.
- Formulemos nossa teoria a executemos na prática, derrotando o extrativismo digital e sua estrutura empresarial.

A luta não é contra uma nova tecnologia, mas contra o domínio político de um monopólio. A palavra, enquanto criação humana, é campo de batalha. Cabe a nós impedirmos que ela seja reduzida a uma mercadoria sem alma e com poucos donos.

 

A dialética da palavra

As correntes que tememos nos perder, não guiam nossos caminhos, mas restringem a nossa realização. São puras correntes ideológicas que um virar de página as deixam para trás.

O futuro da escrita não será dado pelas máquinas, mas pela consciência e pela luta daqueles que escrevem e trabalham, se estes tomarem seu destino em suas mãos. Porque, como já escreveu Marx, 'a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora'. Essa classe inclui também os trabalhadores da palavra.