A autorização da Casa Branca para atuar contra supostas redes do PCC esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

Principais pontos
- A caça ao PCC serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente.
- A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta.
- O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.
- A anatomia é a mesma da Operação Condor, apenas o rótulo muda: agora, em vez de 'subversivos', são 'membros do PCC'.
Interimperialismo e criminalização: a caça ao PCC como arma contra a esquerda e a resposta soberana
Por Walter Azevedo
A Casa Branca autorizou, nos últimos dias, a atuação direta de agências norte-americanas contra supostas redes do Primeiro Comando da Capital em território brasileiro. O pretexto oficial é o combate ao tráfico internacional. A máscara é fina: esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.
A máscara da “caça ao PCC” e a disputa interimperialista
Não é a primeira vez que o combate ao crime organizado serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente. A Doutrina Monroe, a Aliança para o Progresso e a Operação Condor ensinam que a política de segurança hemisférica sempre buscou subordinar os Estados latino-americanos ao comando de Washington. Com o aprofundamento da crise do modo de produção e a ascensão de novos polos de acumulação, a disputa entre frações do capital transnacional se acirra. A China amplia investimentos em infraestrutura e tecnologia na região; o capital financeirizado sediado nos EUA responde com militarização e sanções seletivas.
Ao transformar o PCC em alvo prioritário, a Casa Branca cria precedentes para intervenções unilaterais e constrange o Estado brasileiro a adotar protocolos que ferem a soberania nacional. A lógica é a mesma descrita por Lênin em Imperialismo, fase superior do capital: a exportação de capitais e a partilha do mundo entre trustes exigem instrumentos políticos e militares de contenção. Aqui, a classe dominante interna — dependente e associada — aplaude a chegada das agências estrangeiras, pois vê nelas um aliado para reprimir as camadas populares que ameaçam a ordem.
Criminalização dos movimentos populares e constrangimento eleitoral
A categoria “organização criminosa” perdeu seus contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores, coletivos de luta por moradia e até centros de formação política. Quando a lista de sanções da Casa Branca inclui nomes de lideranças comunitárias, pastores de rua e advogados populares, não estamos diante de um erro de alvo, mas de uma tática deliberada. O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.
Lembremos que a Operação Condor, nas décadas de 1970 e 1980, utilizou a cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda, acusados de “subversão”. A anatomia é a mesma, apenas o rótulo muda: agora, em vez de “subversivos”, são “membros do PCC”. A imprensa concentrada, controlada por meia dúzia de famílias rentistas, reproduz a narrativa do “narcoterrorismo” sem questionar a origem dos dados nem os interesses por trás. Enquanto entidades comunitárias recebem a pecha de “narcoterroristas”, grupos paramilitares de extrema direita e milícias que controlam territórios no Rio de Janeiro jamais receberam a mesma classificação por Washington. A seletividade revela a função política da lista.
Para a nossa classe, o recado é claro: qualquer organização que ouse questionar a financeirização, a especulação imobiliária ou a superexploração será marcada como cúmplice do crime. Não é por acaso que as sanções atingem territórios periféricos onde a esquerda constrói bases. A mensagem subliminar é a de que quem defende reforma agrária, teto de juros ou redução da jornada é aliado do tráfico. Essa associação espúria constrange dirigentes partidários e sindicais, empurrando a esquerda institucional para a defensiva e esvaziando a autonomia das bases.
Soberania como trincheira: tática de resistência
Diante dessa ofensiva, a defesa da soberania nacional deixa de ser um bordão abstrato e se torna condição material para a luta de classes. Precisamos rejeitar qualquer acordo que autorize a atuação direta de agências estrangeiras em nosso território, exigir que toda cooperação passe pelo crivo do Congresso e pelos tratados internacionais, e denunciar o uso político das listas de sanções. A subordinação financeira que drena nossa riqueza para o capital rentista se expressa também na esfera policial: quem aceita a ingerência econômica aceita a ingerência repressiva.
Nossa tática de resistência soberana passa por três eixos:
- Desmascarar a narrativa: mostrar que a “caça ao PCC” é uma cortina de fumaça para a militarização da América do Sul e para o constrangimento da esquerda. Cada sanção deve ser exposta como ato de agressão econômica e política.
- Fortalecer a organização de base: multiplicar comitês de defesa da soberania nos bairros, sindicatos e universidades, articulando as lutas por moradia, trabalho e educação com a denúncia da ingerência imperialista.
- Pressionar o Estado brasileiro: a classe trabalhadora deve exigir que o governo não se curve a Washington, rejeitando a inclusão de entidades populares em listas estrangeiras e cobrando reciprocidade diplomática.
Como já insisti em Como Vencer na Grande Política, a soberania não é um valor abstrato: ela é a capacidade de um povo definir os rumos da sua formação social. Sem soberania, não há projeto nacional-popular. E sem organização de classe, não há soberania. A luta contra a criminalização dos movimentos populares é a mesma luta contra o capital financeirizado e sua face bélica.
“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” — Karl Marx, Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores
A autorização da Casa Branca não é um episódio isolado. Ela se insere na ofensiva interimperialista para recolonizar a América Latina e esmagar qualquer experiência de resistência. Nossa resposta não pode ser apenas jurídica ou eleitoral: tem que ser política, de massas e internacionalista. Que as eleições de 2026 não nos distraiam da trincheira principal: a defesa intransigente da soberania, hoje ameaçada pela Casa Branca e por seus capatazes locais. Sigamos em luta. A história não espera.
Perguntas Frequentes
O que a autorização da Casa Branca contra o PCC realmente esconde?
Esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026, conforme aponta o texto.
Como a caça ao PCC pode criminalizar movimentos populares?
A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e passou a incluir cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta, transformando lideranças comunitárias e advogados populares em alvos deliberados.
Qual é o paralelo histórico citado no texto?
O texto compara a atual ofensiva à Operação Condor, que nas décadas de 1970 e 1980 usou cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda acusados de 'subversão'.
Por que a esquerda é alvo dessa ofensiva?
O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.
Qual tática de resistência soberana o texto aponta?
O texto não detalha uma tática explícita no trecho analisado, mas aponta a necessidade de reconhecer a máscara da caça ao PCC como instrumento de subordinação e de responder com resistência à intervenção unilateral que fere a soberania nacional.











