A extrema direita transforma missas, romarias e novenas em palanques eleitorais, apropriando-se do patrimônio simbólico da fé católica popular para converter religiosidade em voto de rebanho, em oposição à tradição progressista da Teologia da Libertação e das comunidades eclesiais de base.

Principais pontos
- A extrema direita avança sobre a fé católica popular como quem invade uma terra sem defesa, distribuindo santinhos à porta das igrejas e inserindo candidatos em celebrações.
- A fé vira verniz moral para esconder a pilhagem: o candidato que ergue o terço defende as mesmas pautas da contrarreforma trabalhista e da subordinação ao capital financeirizado.
- As comunidades eclesiais de base nasceram da escuta atenta aos pobres, da leitura coletiva do Evangelho e do método ver-julgar-agir.
- A Teologia da Libertação compreendeu que a opção preferencial pelos pobres não é caridade, mas práxis transformadora.
- A tradição progressista não organiza o povo para votar em salvadores de púlpito; organiza a consciência crítica sobre as relações sociais.
A Instrumentalização da Fé Católica: Disputa Eleitoral e a Tradição da Teologia da Libertação
Por Walter Azevedo
Observamos, nas últimas disputas eleitorais, um movimento que transforma missas, romarias e novenas em palanques. A extrema direita avança sobre a fé católica popular como quem invade uma terra sem defesa. Distribui santinhos à porta das igrejas, filma “orações” em horário eleitoral e insere candidatos em celebrações como se fossem peregrinos devotos. Não se trata de devoção autêntica: é apropriação calculada de um patrimônio simbólico da nossa formação social. O objetivo é claro — converter uma religiosidade enraizada no cotidiano do povo em voto de rebanho. A classe do capital, em sua fração mais autoritária, sabe que a consciência se disputa também no território do sagrado.
A Raiz Material da Instrumentalização
Por trás da encenação religiosa opera uma lógica de classe sem rodeios. O candidato que ergue o terço defende, quase sempre, as mesmas pautas da contrarreforma trabalhista, da desproteção social e da subordinação ao capital financeirizado. A fé vira verniz moral para esconder a pilhagem. Utilizam-se de mentiras fabricadas como arma eleitoral, repetidas em grupos de mensagens até virarem “verdade” para quem já perdeu o vínculo com a organização comunitária. A mediação tecnológica cumpre papel novo no velho método de dominação: o púlpito físico é substituído pelo curral digital. Enquanto isso, a mesma direita que beija crucifixos patrocina a criminalização de movimentos sociais e a
violência contra povos originários — como vimos na aliança entre bolsonarismo e agronegócio. Há uma contradição gritante entre o gesto religioso encenado e a prática material de quem o encena. A totalidade revela: a fé instrumentalizada serve para manter a classe trabalhadora de joelhos diante do altar, enquanto lhe roubam o chão para plantar, o salário digno e o direito à cidade.
A Tradição que Brota dos De Baixo
Existe, porém, uma outra linhagem cristã no Brasil, forjada na dor e na luta das periferias. As comunidades eclesiais de base nasceram da escuta atenta aos pobres, da leitura coletiva do Evangelho e do método ver-julgar-agir. A Teologia da Libertação compreendeu que a fé sem obras de justiça social é letra morta — e que a opção preferencial pelos pobres não é caridade, mas práxis transformadora. Dom Hélder Câmara resumiu o dilema com precisão conhecida:
Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de subversivo.Essa tradição progressista confronta diretamente a cooptação eleitoral. Não organiza o povo para votar em salvadores de púlpito; organiza a consciência crítica sobre as relações.
Segundo o Censo de 2010, 64,6% da população brasileira se declarava católica. Ainda que o percentual tenha caído, trata-se de uma base social imensa, disputada palmo a palmo. A extrema direita percebeu que, sem hegemonia nesse campo, seu projeto de subordinação nacional fica frágil. Por isso investe em sacerdotes midiáticos, em discursos de “valores” que ocultam a defesa intransigente dos interesses do capital. Nossa tarefa não é combater a fé, mas disputar seu sentido. O Evangelho que alimentou as lutas contra a ditadura, que formou militantes sindicais e que sustentou ocupações de terra tem muito mais afinidade com os pobres organizados do que com os ricos de joelhos.
Organizar a Fé, Organizar a Luta
A instrumentalização eleitoral da fé católica não se enfrenta apenas com denúncias. Ela se supera com a reconstrução de espaços comunitários onde a espiritualidade e a consciência de classe caminhem juntas. Precisamos retomar o trabalho de base nas periferias, nas roças, nas quebradas urbanas — não para fazer campanha, mas para fazer organização. As comunidades eclesiais de base mostraram que é possível unir mística e luta, Bíblia e enxada, oração e assembleia popular. Aí reside uma força que o capital não consegue comprar nem silenciar.
Não se trata de reduzir a fé a um instrumento eleitoral de sinal trocado. Seria repetir o erro do adversário, invertendo apenas o rótulo. Trata-se de reconhecer que a disputa pela fé é uma disputa de hegemonia, uma batalha da correlação de forças na sociedade. Quem controla o sentido do sagrado controla parte importante da formação da consciência. Por isso, a classe trabalhadora precisa ocupar esse terreno com a mesma seriedade com que ocupa fábricas, escolas e ruas. A fé que brota do sofrimento concreto, quando desperta para a causa do sofrimento, torna-se força material.
O próximo período eleitoral exige de nós uma posição nítida. Não basta denunciar a hipocrisia dos fariseus de plantão. É preciso construir, nas bases, uma alternativa que devolva ao povo a propriedade de sua própria fé. Isso passa pela formação política permanente, pela aliança com setores progressistas das igrejas e pela recusa em aceitar que a cruz seja usada como chancela da exploração. Há mais de cinquenta anos, as comunidades de base provaram que a fé cristã pode ser fermento de revolução social, não cimento da ordem. Retomemos esse legado. Organizemos a esperança como quem organiza a classe.
Referências
- BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. São Paulo: Record, 1981.
- GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação: perspectivas. Petrópolis: Vozes, 1970.
- CÂMARA, Dom Hélder. Depoimentos e escritos sobre a opção pelos pobres.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política. Curitiba: Appris, 2023.
Perguntas Frequentes
Como a extrema direita instrumentaliza a fé católica nas eleições?
Ela transforma missas, romarias e novenas em palanques, distribui santinhos à porta das igrejas, filma orações em horário eleitoral e insere candidatos em celebrações como se fossem peregrinos devotos. O objetivo é converter a religiosidade enraizada no cotidiano do povo em voto de rebanho.
Qual é a contradição entre o gesto religioso da extrema direita e sua prática material?
O candidato que ergue o terço defende as mesmas pautas da contrarreforma trabalhista, da desproteção social e da subordinação ao capital financeirizado. A fé vira verniz moral para esconder a pilhagem, enquanto a mesma direita patrocina a criminalização de movimentos sociais e a violência contra povos originários.
O que são as comunidades eclesiais de base e qual sua origem?
As comunidades eclesiais de base nasceram da escuta atenta aos pobres, da leitura coletiva do Evangelho e do método ver-julgar-agir. Foram forjadas na dor e na luta das periferias, organizando a consciência crítica sobre as relações sociais em vez de promover salvadores de púlpito.
Qual é a posição da Teologia da Libertação sobre a opção pelos pobres?
A Teologia da Libertação compreendeu que a fé sem obras de justiça social é letra morta e que a opção preferencial pelos pobres não é caridade, mas práxis transformadora. Essa tradição progressista confronta diretamente a cooptação eleitoral da fé.
Qual frase de Dom Hélder Câmara resume o dilema da fé instrumentalizada?
Dom Hélder Câmara resumiu o dilema com precisão: 'Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de subversivo.' A frase sintetiza o conflito entre caridade despolitizada e justiça social estrutural.






