A vitória de outubro de 2022 não brotou de um acaso, tampouco de um carisma restaurado. Ela expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta.

Principais pontos
- A vitória de outubro de 2022 não brotou de um acaso, tampouco de um carisma restaurado; expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta.
- A derrocada da extrema direita, longe de ser uma simples derrota de nomes, revela o grau de instabilidade em que o próprio capital se encontra.
- Lula obteve 60.345.999 votos no segundo turno — mais de 60 milhões de brasileiras e brasileiros apostaram numa alternativa ao desmonte.
- A crise do capital manifesta-se como incapacidade do bloco dominante de impor um projeto único, duradouro e aceito pelas massas.
Crise do capital e correlação de forças: a derrocada da extrema direita não é acidente
Por Walter Azevedo
Quando Lula subiu a rampa do Planalto, a extrema direita ainda arranhava as portas dos quartéis. A posse não encerrou a disputa, como lembram os acampamentos golpistas que se arrastaram por semanas. Mas o fato de a ultradireita ter perdido o controle do Executivo — depois de quatro anos de ofensiva brutal contra os direitos sociais — exige uma leitura que vá além do registro eleitoral. A vitória de outubro de 2022 não brotou de um acaso, tampouco de um carisma restaurado. Ela expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta. E a derrocada da extrema direita, longe de ser uma simples derrota de nomes, revela o grau de instabilidade em que o próprio capital se encontra.
A derrota eleitoral da extrema direita como sintoma da crise orgânica
O bolsonarismo governou para uma fração ávida do capital: o agronegócio exportador, a finança rentista, as milícias evangélicas e o lumpesinato de farda. Esse bloco, porém, não conseguiu sustentar a coesão quando a crise econômica bateu na vida concreta da classe trabalhadora. A inflação de alimentos corroeu o salário de quem vive do trabalho. O desemprego e a informalidade mantiveram-se elevados. A gestão da pandemia escancarou a indiferença do governo diante da morte precoce. O que parecia base fiel foi se desfazendo na medida em que o medo da miséria superava o medo do outro.
Lula obteve 60.345.999 votos no segundo turno — mais de 60 milhões de brasileiras e brasileiros apostaram numa alternativa ao desmonte. Uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos separou dois projetos de sociedade. Essa margem estreita é a fotografia da correlação de forças: equilibrada, tensa, disputada palmo a palmo. O recuo da extrema direita não significou sua aniquilação, mas a perda temporária da iniciativa política. A crise do capital, nesse quadro, manifesta-se como incapacidade do bloco dominante de impor um projeto único, duradouro e aceito pelas massas.
Aqui vale a mediação da totalidade. A ultradireita não é um corpo estranho à ordem; é a válvula de escape do próprio capital quando as promessas de conciliação se esgotam. Sua ascensão em 2018 e sua posterior derrocada não são eventos isolados. São momentos da mesma crise orgânica, na qual as classes dominantes recorrem a formas autoritárias para garantir a extração de riqueza, mas encontram resistência real no território, nas periferias, nos sindicatos e nas igrejas de base. A derrota eleitoral do bolsonarismo expôs a fratura entre as frações burguesas: o capital financeirizado desconfia da aventura golpista, enquanto o agronegócio ainda aposta na intimidação.
Correlação de forças: o que pesou na virada
Não devemos reduzir a vitória de Lula a uma escolha racional de eleitores esclarecidos. A virada do segundo turno resultou do deslocamento de setores da classe média empobrecida, da juventude precarizada e de parcelas do campesinato que haviam flertado com o bolsonarismo em 2018. Esses grupos não migraram por amor ideológico a um programa socialista. Migraram porque a materialidade da crise — o preço do botijão de gás, a gasolina, o aluguel — impôs uma ruptura prática com a propaganda anticorrupção da extrema direita. Tal movimento não é espontâneo: é produto de anos de trabalho de base, de greves, de ocupações, de comunidades eclesiais que mantiveram vivo o tecido da solidariedade.
Três fatores estruturais explicam essa virada:
- O fracasso da política econômica bolsonarista em conter a carestia sem sacrificar a renda do capital, o que corroeu o apoio popular do governo.
- O crescimento das organizações populares — movimentos de luta por moradia, centrais sindicais, quilombolas, indígenas — que disputaram o senso comum nas redes e nas ruas.
- A fissura no bloco dominante, com frações burguesas pragmáticas aceitando a derrota eleitoral para conter o risco de instabilidade institucional que ameaçava seus próprios negócios.
Como escrevi em Como Vencer na Grande Política:
A luta de classes não cabe integralmente nas urnas, mas as urnas expressam, com todas as limitações do sistema representativo, a correlação de forças acumulada nos embates que as massas travaram fora delas.
A virada de outubro não nasceu no horário eleitoral; nasceu da greve dos garis, da ocupação de terras improdutivas, da resistência das cozinhas solidárias, da mobilização que impediu o golpe em gestação. O voto foi o momento terminal de um processo de acumulação de forças.
O que a crise do capital reserva para a classe trabalhadora
Se a extrema direita recuou, isso não devolveu ao capital a estabilidade perdida. Pelo contrário. A derrota bolsonarista abriu uma frente de chantagem permanente: a Faria Lima, os fundos de investimento e o rentismo passaram a exigir que o novo governo pague a conta da crise com arrocho fiscal, cortes no SUS, na Previdência e na educação. O terceiro turno é a ofensiva do capital sobre o resultado das urnas. A cada dia, a mídia econômica cobra uma “responsabilidade” que na prática significa transferir renda dos salários para os juros da dívida pública.
Referências
- MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- LENIN, Vladimir Ilitch. Imperialismo, estágio superior do capital. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
- MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: TRASPADINI, Roberta; STEDILE, João Pedro (orgs.). Ruy Mauro Marini: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
- SANTOS, Theotônio dos. Teoria da dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
- AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
Perguntas Frequentes
Por que a vitória de Lula não deve ser analisada como fato isolado?
A vitória de Lula expressou, no plano político, um reordenamento das forças em luta. Ela não brotou de acaso nem de carisma restaurado, mas da correlação de forças entre classes em um momento de crise orgânica do capital.
O que a derrocada da extrema direita revela sobre a crise do capital?
A derrocada da extrema direita revela o grau de instabilidade em que o próprio capital se encontra. A crise se manifesta como incapacidade do bloco dominante de impor um projeto único, duradouro e aceito pelas massas.
Qual foi a margem de votos que separou Lula da extrema direita?
Lula obteve 60.345.999 votos no segundo turno. Uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos separou dois projetos de sociedade, o que é a fotografia da correlação de forças: equilibrada, tensa, disputada palmo a palmo.
A derrota eleitoral da extrema direita significou sua aniquilação?
Não. O recuo da extrema direita não significou sua aniquilação, mas a perda temporária da iniciativa política. A correlação de forças permanece equilibrada e tensa, com frações burguesas divididas entre a desconfiança da aventura golpista e a aposta na intimidação.
Quais frações do capital sustentaram o bolsonarismo no governo?
O bolsonarismo governou para uma fração ávida do capital: o agronegócio exportador, a finança rentista, as milícias evangélicas e o lumpesinato de farda. Esse bloco não conseguiu sustentar a coesão quando a crise econômica bateu na vida concreta da classe trabalhadora.


