segunda-feira, 24 de junho de 2013

Dilma pode pegar o limão, fazer uma limonada e investir ainda mais no setor público.

 

Exatamente aquilo que seus opositores não fizeram quando eram governo e que, até agora, não queriam que ela fizesse...

Ivo Pugnaloni

Na ultima quinta, um empresário ideologicamente de direita com quem temos negócios me disse que "corremos o risco de Dilma se fortalecer ainda mais, pois se for mesmo viva como parece ser, pode aproveitar esse limão e fazer uma limonada".

Segundo ele, os protestos podem ser usados por ela como uma procuração para "queimar ainda mais dinheiro" em programas sociais e infraestrutura e menos no pagamento de juros maiores, para reduzir a inflação e aumentar a consistência da economia.

Depois de criticar o programa "Bolsa Família" e chamar "vagabundos" seus beneficiários, meu normalmente equivocado amigo disse que "deve ter gente do governo controlando a confusão". Prova disso seria não existirem ainda cartazes "Fora Dilma" porque, segundo ele, muitos ali estão corrompidos pela "Bolsa Esmola".

Em negócios, não se discute política, mas não pude deixar de concordar com meu colega.

De fato, é sintomático que, apesar do esforço dos âncoras por horas a fio, na TV, ao vivo, tentando virar o movimento contra Dilma, a presidenta após a onda de protestos, surge com mais poder ainda se quiser fazer mais obras até no último ano de mandato.

"Agora, - lamentou - , Dilma pode alegar urgência e pedir ao congresso mudança na lei 8666/93 que impede o inicio de novas obras seis meses antes e seis meses depois das eleições". Afinal, segundo ele, se a cada dois anos ocorrem eleições, o país deixa de trabalhar um ano para cada dois anos que trabalha...

Por outro lado, alegrando-se e vendo o "lado bom da coisa", ele disse que contando agora com a força das ruas, Dilma poderá exigir mais trabalho dos "aliados" que, nos ministérios, criam desgastes políticos para o governo e despesas enormes para o orçamento e para a sociedade.

Como exemplo ele citou o que aconteceu com as eólicas do Nordeste que foram concluídas sem que as linhas de transmissão estivessem prontas.

Eu tive que concordar, citando ainda o escândalo que é o fato das termoelétricas passarem a trabalhar dia e noite, custando 60 mil reais por minuto, elevando as tarifas da COPEL em inéditos 14%, devido ao mito de que "não podemos mais fazer hidroelétricas porque os índios não deixam".

Quando se sabe que não é nada disso, mas sim que a FUNAI não permite que os empresários desenvolvam negociações justas com os indígenas para cumprir o que diz a Constituição sobre sua participação nos seus resultados desses empreendimentos, alegando "falta de lei para realizar as oitivas dos indígenas".

Tal como no setor elétrico, se Dilma exigir mais empenho de seus ministros e transmitir ao vivo suas reuniões com os governadores, vários outros gargalos poderão ser solucionados, simplificando e agilizando as transformações que o povo já está cansado de esperar.

Nos casos da saúde, da educação, da infraestrutura as coisas também podem andar mais rápido agora, com a urgência imposta pelo "grito rouco das ruas".

Além disso, no congresso, as conhecidas manobras de obstrução da "base aliada" e da oposição para obterem mais cargos e mais emendas em troca da aprovação de projetos estruturantes, pode estar com dias contados se Dilma passar a transmitir esses encontros...

Democracia direta: se TV Brasil virar Big Brother Político", Dilma pode sair mais forte

Para amanhã Dilma convocou uma reunião de emergência de governadores e prefeitos das capitais. Ela disse que ouviu a voz das ruas e que vai usar essa voz como argumento claro para todos eles para assinar um pacto para fazer Brasil avançar, mais rápido, rumo à qualidade dos serviços públicos.

Dilma sabe que muita gente que acordou agora para a política não tem ideia de que tal como acontece com a Polícia Militar que é comandada pelos governadores e não por ela, também não é o governo federal que, pela Constituição, deve elaborar projetos de hospitais, de escolas, de bondes, de metrôs ou de trens, pois essa obrigação é dos estados e municípios.

Nesse pacto, se Dilma colocar a TV Brasil para comandar uma rede nacional que  transmita ao vivo suas reuniões, a Presidenta  vai poder mostrar que são os prefeitos e os governadores quem devem apresentar projetos para o governo federal investir mais em saúde, em educação, rodovias, etc.

Através de um verdadeiro "Big Brother" da administração pública, Dilma poderá marcar prazos de entrega desses projetos pelos governos estaduais e prefeituras, deixando claro para a população quem está ou não falhando.

Se prefeitos e governadores, não apresentarem projetos viáveis, ela, Dilma, vai poder mostrar "ao vivo" nessas reuniões do "pacto" que ela não pode intervir nem tem como destinar recursos em qualquer área.

Se Dilma aproveitar a onda de protestos para dar mais transparência ao governo federal, usando mais as redes sociais como facebbok, twitter e principalmente da TV Brasil, ( que aliás, tem bom sinal e bom conteúdo em quase todas as capitais, mas nenhuma publicidade de que já está funcionando, sendo quase "clandestina") podemos assistir até quem sabe, mais um passo rumo a um tipo de "Democracia Direta".

Resposta correta à crise de legitimidade dos poderes constituídos que estamos assistindo.

 

Fazer corpo mole para ganhar eleições: um jogo que pode acabar

É fora de dúvida que alguns governadores e prefeitos eleitos por partidos contrários ao governo Dilma, fazem exatamente isso, deixam de apresentar projetos, pois para eles, eleitoralmente, "quanto pior, melhor".

Ou apresentam projetos "furados", com erros conceituais, para provocar atrasos e ir empurrando com a barriga, evitando que as obras comecem, e que ela, Dilma, cresça ainda mais nas pesquisas.

É por isso que volta e meia escutamos aqui e ali,  que alguns prefeitos e governadores "perderam recursos federais", por deixarem de apresentar projetos. Tivemos dois casos recentes, aqui no Paraná.

De quebra, Dilma ainda disse que "vai passar o rodo" de novo, institucionalizando e tornando permanente o combate constante à corrupção.

Ou seja: quem contava com uma multidão inconsciente para propor o "impechmant" da Dilma, como fez com Collor, pode se enganar, desta vez.

A maior parte da multidão, em seu inconsciente coletivo,  sabe que nunca antes viveu com mais dinheiro no bolso, com mais recursos para poupar e investir do que nos últimos dez anos.

E que Dilma, de longe, é muito melhor e mais confiável para eles do que todos aqueles que a antecederam e que claramente, tentam manipular os protestos, sonhando em voltar ao Planalto.

CNBB e OAB querem um milhão de assinaturas pela reforma política. Será que "Dilma pode estar por trás disso" também?

Apesar dos resultados de uma inédita pesquisa eleitoral feita entre os manifestantes pela Folha de São Paulo, que favoreceu Joaquim Barbosa, a Dilma com sua firmeza diante do vandalismo, pode ainda ter ganhado milhões de votos junto à classe média, que não gosta desse tipo de coisa.

Amanhã também, OAB e CNBB se reunirão para deflagrar uma campanha pela reforma política que promete reunir um milhão de assinaturas a favor da reforma política e isso pode ser o maior saldo das manifestações.

A reforma política, ao acabar com as "doações bilionárias" aos chefes dos partidos do governo e da oposição, pode acabar com o controle de ferro que esses personagens exercem na vida dos partidos e dos eleitores.

E se Dilma quiser passar à História do Brasil como uma grande presidenta, pode entrar de cabeça nessa campanha.

E como militante política que é, pode ir para as ruas também, não só sendo a primeira a assinar esse abaixo-assinado, mas indo junto com a multidão, levá-lo ao Congresso para sua aprovação.

"Ou não", como pontifica sempre o iluminado músico patrício, Caetano Veloso.

 


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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Acordo Secreto EUA - EU, dá Fim aos Estados Nacionais

URGENTE: IMPEDIR O ACORDO SECRETO ENTRE EUROPA E ESTADOS UNIDOS!

Jean-Luc Mélenchon (ex-Ministro francês, ex-Senador, Deputado da UE e fundador do Partido de Esquerda)

Por Jean-Luc Mélenchon, do "Parti de Gauche", França, sob o título original "Vertige du moment, des faits et des mots". Excerto traduzido e comentado pelo "pessoal da Vila Vudu" e postado no blog "Redecastorphoto"

(Entreouvido na «Vila Vudu»: Esse é o quadro planetário em que entra o Brasil - 2013-2014 – estridentemente silenciado em TODOS os jornais e televisões privadas brasileiras. A violenta campanha da tucanaria da privataria associada aos veículos da imprensa-empresa contra a reeleição da presidenta Dilma também se inscreve nesse quadro planetário. E, nesse quadro, sim, toda a tucanaria da privataria e seus veículos associados farão QUALQUER COISA pra eleger QUALQUER CANDIDATO SEU, mesmo que seja candidato raspa-de-tacho, keném o panaca do Aécim, sub-do-sub da irmã (porque não conseguiram candidato melhor).

Faço aqui, para vocês, um relato do essencial, depois de Estrasburgo[reunião da Comissão Europeia, nos dias 21-23/5/2013]. Trata-se, sobretudo, do sinal de partida para o grande negócio deste novo século na Europa: a anexação, pelos EUA, de nossas democracias europeias já fracassadas. São as primeiras negociações com vista à constituição de um livre mercado único, transatlântico, desregulado. Anos e anos de sinais de alerta não serviram de nada. O espesso tapete midiático-político abafou os ruídos do bote que dão, contra a Europa, os trusts ianques. Agora, depois de anos de discreta preparação, a coisa começa a andar.

A partir de uma simples declaração de Obama, aprovada por Merkel, depois de uma visita tão solene quanto apenas formal dos androides Van Rompuy e Barroso, a máquina começa a rodar. A Comissão Europeia vai-se autoatribuir o direito de representante para negociar. A negociação começa em julho. Hollande está entre os ausentes premiados. Quanto a Ayrault… Sabe-se lá! E os jornais e televisões, ditos «meios de comunicação»? QUEM?!

Divido essas notas em duas partes: uma apresenta, resumidamente, o conteúdo do Tratado; a outra analisa o contexto das forças políticas em relação ao mesmo tema.

Convido enfaticamente meus leitores a apropriar-se do problema. Para tanto, comecemos por conhecer os fatos. Este [texto] postado visa a ajudar nessa tarefa. Mas há também o livro editado por nós, que vocês encontram aí, na coluna à esquerda [1] neste blog. Seja como for, esse negócio sobrecarregará nossa atividade política nos próximos meses e, sem dúvida, durante anos.

Não é possível combater, sem formar opinião esclarecida sobre a questão.

É preciso, pois, começar imediatamente um trabalho de educação popular de massa, para que muitos entendam do que, de fato, se trata. Espero que nosso partido chegue ao poder a tempo de fazer gorar esse plano. Foi o que aconteceu na América do Sul. A chegada ao poder de amigos nossos conseguiu mandar para o lixo a ALCA, tratado equivalente a esse [EUA-UE], no último momento. Seja como for, é preciso começar a trabalhar ativa e imediatamente.
 (…)

UMA VELHA CONSPIRAÇÃO MERCANTIL

O «prato de resistência» dessa sessão foi a votação de uma Resolução sobre o mandato da Comissão Europeia na negociação que se inicia para a construção de um grande mercado único entre os EUA e a União Europeia [UE].

Em 2009, editei uma brochura que circulou muito, sobre tudo isso. Alertei sobre os perigos desse Grande Mercado Transatlântico que se trama já há dez anos pelas costas dos eleitores e dos povos. Um total silêncio nos jornais e televisões, e uma prudente omertà dos partidos que participam desde o início dessa discussão, conseguiram ocultar completamente dez anos de discussões preliminares.

Esse vasto projeto de liberalização das trocas comerciais e dos investimentos está sendo agora acelerado – aceleração espetacular – sem que nenhum eleitor europeu tenha votado coisa alguma. Não por acaso.

Nenhum partido candidato ao governo de nenhum país europeu jamais incluiu essa discussão em suas respectivas plataformas eleitorais – nem, como se sabe, os socialistas franceses à François Hollande.

No início do ano, denunciei que Obama estava relançando o mesmo projeto , movimento imediatamente aprovado por Merkel. Os arcanos da União Europeia debatem, portanto, em segredo, um mandato para eles mesmos, que receberão dos 27 ministros do Comércio à Comissão Europeia, no próximo dia 14 de junho.

As negociações começaram este ano, no verão! A existência desse projeto para autorizar esses negociadores e a negociação está bem demonstrada e comprovada, com data de 13 de março, na página Web do «Conselho da União Europeia», no documento de número 7396/13. Mas é documento secreto! Na página, lê-se «não acessível». Dado que vários tratados dão à Comissão Europeia competência exclusiva para legislar sobre matéria comercial, o Parlamento Europeu não tem poder algum para limitar esse mandato. Mas, de fato, a coisa nem existe oficialmente. Os deputados europeus estão proibidos de LER os documentos. O Parlamento Europeu pode, no máximo, manifestar-se em geral sobre essa negociação, via uma «resolução», exatamente como vota, quase sempre, questões sobre as quais os deputados nada podem decidir. Assim se devem interpretar as resoluções votadas em Strasbourg dia 23 de maio, sobre as quais escrevi em meu blog europeu.

Graças ao jornal "L'Humanité", esse projeto de mandato secreto – que só foi distribuído em inglês – pôde afinal ser conhecido, esta [última] semana. A matéria está em: "Exclusif. Humanite.fr publie les bases de travail pour l'accord de libre-échange transatlantique".  

Nenhum veículo da imprensa-empresa dominante, até agora, deu qualquer atenção à amplidão da negociação que se anuncia. No máximo, fala-se de um debate aberto há dez anos, sobre o lugar do audiovisual e a exceção cultural que há no acordo. Mas o mandato secreto que está para ser votado secretamente na Comissão Europeia prova e comprova que todo o conjunto da economia e todos os serviços públicos em toda a Europa estão às vésperas de enfrentar nova onda de liberalizações [e a correspondente privataria], caso esse acordo seja assinado.

O que faz François Hollande nessa hora? Nada! No máximo, «informa-se» passivamente sobre o que Barack Obama e Angela Merkel decidam. Na reunião dos dias 7-8 de fevereiro, o Conselho Europeu declarou-se, literalmente, com o aval de Hollande, que não disse palavra, «a favor de um acordo comercial global entre a União Europeia e os EUA».

E desde 13 de fevereiro, sempre sem que Hollande dissesse coisa alguma, é em Washington que o nome do novo acordo foi selado por Barack Obama com Barroso e Van Rompuy. Por baixo da mesa!

O projeto se chamará «Acordo de Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento», do qual só se fala sob uma sigla secreta, em globalês, «TTIP» (Transatlantic Trade and Investment Partnership). Obama e os dois dirigentes não eleitos da União Europeia definiram o objetivo do acordo: «acelerar a liberalização do comércio e do investimento». Nesses termos, a autoridade para negociar em nome de todos os países europeus será entregue à Comissão Europeia, definitivamente, dia 14 de junho próximo, pelo Conselho de Ministros do Comércio. «Legalizado» o negócio, e com o mandato para negociar outorgado à Comissão Europeia, as negociações finais poderão acontecer à margem da reunião do G8, dia 17 de junho, como propôs o britânico David Cameron. E Hollande... mudo. Não disse uma palavra sobre nada disso, ele, que representará a França na reunião do G8.

Tudo isso anda muito depressa. Tudo poderia passar completamente despercebido, como sempre, e os veículos da imprensa-empresa continuariam na tarefa de tudo esconder. Mas os amigos da cultura europeia reagiram.

Já comentei a catástrofe que esse acordo atrairá para o mundo do cinema europeu. O pessoal reagiu com firmeza. Até agora, o cinema europeu é o único setor que já se manifestou. As atividades do cinema europeu são efetivamente protegidas na Europa por mecanismos de incentivo público, mas também por leis de difusão, como as quotas obrigatórias para canções em francês, ou a obrigação de exibir número mínimo de filmes franceses. Do ponto de vista da liberalização do comércio, como pretende o acordo, todas essas leis de proteção ao cinema francês são obstáculos a serem eliminados. Mas, na verdade, todos os setores de atividade serão atingidos.

De início, houve os que usaram a batalha pela «exceção cultural» para mascarar a aceitação do resto do texto; para usá-lo como árvore que oculta a floresta das liberalizações&privatarias. A lei secreta preparada pela Comissão Europeia fixa, como objetivo, a constituição de um «mercado transatlântico integrado». Visa à «liberação do comércio de bens e de serviços e de investimentos, com especial atenção à supressão de barreiras regulamentadoras inúteis». Exige que o acordo seja «muito ambicioso, indo além dos compromissos de liberalização da OMC». Vocês entenderam bem? [2]

Consideremos a coisa mais de perto. Essa operação de neoliberalização geral tem vários aspectos. Começa pela «supressão total dos direitos de alfândega» sobre produtos industriais e agrícolas. Só no item «tarifas», o acordo já é prejudicial aos europeus. Segundo os números da Comissão Europeia, a taxa média de direitos de alfândega é de 5,2% na União Europeia e de 3,5% nos EUA. Significa que, se as taxas caírem a zero, os EUA levam vantagem superior a 40%, na concorrência com a União Europeia. Essas vantagens para produtos fabricados nos EUA será ainda maior por causa da fraqueza do dólar em relação ao euro. Assim, só considerado o item quantitativo, o acordo será verdadeira máquina de exportação de empresas e postos de trabalho. O que agravará o desemprego na Europa. Até a Comissão Europeia reconhece, meio envergonhadamente, no estudo de impacto que encomendou, que o tratado provocará «queda importante» da atividade econômica e do emprego no setor metalúrgico. No setor metalúrgico?!

Há, em seguida, o aspecto não tarifário do acordo. Não só a produção sofrerá, mas haverá impacto também sobre o conteúdo das leis nacionais europeias. O projeto fala de «reduzir o peso dos custos resultantes de diferenças na regulamentação» . Propõe «buscar novos meios para impedir que as barreiras não tarifárias [quer dizer: as leis] limitem a capacidade das empresas europeias e norte-americanas para inovar e competir em melhores condições nos mercados mundiais». Barroso explicou que «80% dos ganhos que se espera obter do Acordo virão da redução do peso das muitas leis e da burocracia». Significa que os androides da Comissão Europeia veem nesse acordo a chance de avançar ainda mais, em relação ao que já temos hoje, na desregulação. O que os incomoda é «o peso» da lei.

Para liberalizar o acesso aos mercados, a União Europeia e os EUA terão de impor suas leis em todos os setores, porque qualquer norma «protecionista» (que não seja de proteção da indústria e do agrobusinessnorte-americanos) é considerada obstáculo ao livre comércio. Ora bolas! Diferente do que dizem a Comissão Europeia e seus papagaios de repetição liberais e sociais-democratas no Parlamento Europeu, os EUA e a Europa não têm «normas de rigor análogo em matéria de emprego e proteção ao meio ambiente». A verdade é que os EUA fogem hoje de todos os enquadramentos do direito internacional em matéria ecológica, social e cultural. Não assinaram várias convenções importantes da OIT sobre direitos do trabalho. Não aplicam o «Protocolo de Quioto» contra o aquecimento global. Recusaram a convenção pela biodiversidade. E recusaram também as convenções da UNESCO sobre diversidade cultural. Todos esses documentos foram subscritos por países europeus. A regra praticamente geral, que se aplica praticamente sempre, é que leis norte-americanas nesses assuntos são mais frouxas que as leis europeias.

Um mercado comum com os EUA à frente, e desregulamentado, puxará cada vez para mais baixo toda a Europa. Se se precisar de exemplo do espírito dos conglomerados norte-americanos, um bom exemplo vem de Bangladesh. Os conglomerados europeus acertaram-se para discutir normas que, segundo eles, impediriam que se repetisse o horror que se viu em Bangladesh. Os conglomerados ianques não querem nem ouvir falar em discutir coisa alguma. Regulações? Nem pensar. Considerem-se, portanto, todos, bem avisados. (...)

E a agricultura! Aí, o horror é total. O acordo exporia os europeus a deixar entrar o pior que é produzido pelo agronegócio norte-americano: carne com hormônios, aves lavadas com cloro, organismos geneticamente modificados, animais alimentados com farelo animal contaminado. E, isso, sem falar que os EUA têm o mais falho sistema de traçabilidade do planeta. Não conhecem, sequer, «indicações geográficas protegidas». Para eles, apelações como Bourgogne ou Champagne são substantivos genéricos, cujo uso deve ser livre. É o que basta para poderem vender vinho «Champagne» produzido na Califórnia. E por aí vai. Vai agradar muito à ministra da Universidade, de Hollande: fala inglês e beberica Bordeaux do Tennessee!

E TEM TAMBEM, E CLARO, A PRIVATARIA!

Mas não acabou. O projeto de acordo traz outras más notícias. Lê-se ali que a negociação tratará também da «política de concorrência, incluindo dispositivos sobre concentrações, fusões e falências». E os que esperavam que os serviços públicos seriam protegidos, lá está, bem claro, que «o acordo abrangerá os monopólios públicos, empresas públicas e empresas de direito específico ou exclusivo». O acordo visa, ainda, à «abertura dos mercados públicos em todos os níveis: administrativo, nacional, regional e local». Estão tontos ?! Pois o delírio continua.

O acordo diz, claramente, que lutará contra o impacto negativo de barreiras como «critérios de localização». É quase inacreditável. Por exemplo: será «ilegal» criar circuitos locais, curtos, de autoabastecimento de coletividades locais.

Como já se adivinha, o aspecto financeiro é o principal, no espírito dos promotores do TTIP. Cobre tudo, em matéria de investimento e finanças. Em matéria de investimentos, o acordo visa a alcançar «o mais alto nível de liberalização existente nos acordos de livre troca». Medidas específicas de «proteção aos investidores» serão negociadas, incluindo «um regime de conciliação dos contenciosos entre os Estados e os investidores».

Por trás dessas fórmulas obscuras, trata-se de dotar os investidores de direitos especiais e de procedimentos preferenciais supranacionais, pondo-os em posição superior às leis e aos direitos dos Estados. É a mesma lógica que se viu no «Acordo Multilateral sobre Investimentos», AMI, que os EUA tentaram impor em 1998 [3] e que foi abandonado sob pressão de mobilizações populares e porque a França o rejeitou declaradamente. [4]O acordo que Jospin espantou para longe, volta agora pela janela. E, agora, François Hollande está de acordo!

Mais uma boa notícia para a grande finança: o projeto favorece uma «liberalização total dos pagamentos correntes e das movimentações de capitais». É um maná para as praças financeiras anglo-saxônicas menos regulamentadas e mais especulativas. Os gigantes norte-americanos do crédito hipotecário poderão, assim, vender seus papéis podres na Europa, nas mesmas condições sob as quais os vendem nos EUA. Que benfeitores!

Como já expliquei, acordo desse tipo com os EUA seria erro geopolítico histórico. Ao longo dos últimos 10 anos, o Império viu todos os seus esforços de liberalização do comércio mundial serem sistematicamente bloqueados na Organização Mundial do Comércio, OMC, pela resistência crescente dos países do Sul. Então, o Império lança olhos para a Europa.

A Europa produz 50% da produção mundial. Aqui, portanto, os EUA tentam reconstituir sua dominação, que hoje cai aos pedaços na competição contra a China. Trata-se para eles, simplesmente, de impor a lei norte-americana a todo o mundo. [5] O projeto em construção na Comissão Europeia não faz segredo do que está fazendo: diz que as regras comuns a serem fixadas para Europa e EUA deverão «contribuir para o desenvolvimento de regras mundiais». Em resumo, é acordo que amadureceu ao mesmo tempo que a teoria do «choque de civilizações», teoria da qual é a tradução geopolítica.

TEMOS DE FAZER GORAR O GRANDE MERCADO TRANSATLÂNTICO

O Parlamento Europeu, até agora, decidiu que a Comissão Europeia é representante europeia para inventar o tal «Grande Mercado Transatlântico». Que fique bem claro: o texto elaborado pelo Parlamento Europeu não tem qualquer valor de lei, ou normativo. É o projeto de uma resolução. Examinemos o contexto político em que estamos, porque é fator decisivo para o que proponho adiante.

Os sociais-democratas capitularam. Não. Eles estão eufóricos, entusiasmadíssimos. O relator acaba de declarar que conta com esse grande mercado para «reindustrializar a Europa»! É de dar vergonha! Na sequência, repete o discurso confuso desse tipo de político: «traçar linhas vermelhas», «negociar com firmeza» e o blá-blá-blá de sempre. Consternador. O presidente da Comissão de Comércio é socialista. E festeja que as negociações estejam começando. Diz que não é necessário abandonar a discussão de alguns aspectos, como o aspecto cultural do acordo. Resumindo: para ele, está ótimo! Não fosse a intervenção do socialista francês Henri Weber, os socialistas já estariam falando como perfeitos sociais-democratas! O que mais me espanta é que, para eles, o acordo é perfeito. O tal grande mercado só traria benefícios. Sequer uma suspeita, uma, que fosse, ante a propaganda da Comissária, que garante crescimento de 2%, a partir do momento em que inventarem o tal grande mercado. E desconfiar, aí, é absolutamente necessário. Se somássemos todos os «crescimentos» que nos prometem em cada acordo que assinam, a França já teria crescido duas Chinas!

Aqui, o acanalhamento dos sociais-democratas corresponde mais ou menos ao que se vê em todos os partidos nacionais. Os socialistas franceses são inexistentes. Já não têm influência nem sobre os próprios deputados. É resultado que tem tudo a ver com a grande variação de posições dentro da política europeia. Mas tem muito a ver, também, com a evidência de que estão presos sob dupla pressão. De um lado, há os deputados alemães, que dominam o grupo social-democrata. E cada vez mais atuam em coordenação absoluta e permanente com deputados alemães de outros grupos políticos. De outro lado, são pressionados pelo «Eliseu», interessado em firmar e avalisar qualquer acordo com o governo alemão. Há inúmeros sinais desse arranjo. Não há outra explicação possível para o voto inacreditável dos sociais-democratas contra a proposta de que o Parlamento Europeu debatesse a ajuda alimentar para povos europeus. Todos se lembram que a discussão foi suspensa, de fato, pelo governo alemão. No caso da negociação transatlântica, os alemães não estão muito preocupados. Os alemães não estão em concorrência direta contra os EUA nos setores vitais de sua economia.

Em termos gerais, eis o que vai acontecer. A social-democracia europeia não perderá o sono, passados os primeiros instantes de choque. Já abraçaram o acordo. O Partido Socialista francês vai concentrar-se exclusivamente em excluir do projeto o domínio do audiovisual. Se conseguirem alguma coisa, apresentarão qualquer coisa como enorme vitória; e todo o resto do projeto do Grande Mercado Atlântico será aceito. Todas as marionetes da [rua] Solferino [sede do Partido Socialista] tocarão trombeta sobre o assunto, para que todos engulam o tratado. A justa reivindicação de exceção cultural, será usada como cortina de fumaça.

Para os Socialistas, pior seria se se tivesse discutido a exceção cultural desde o início: seriam obrigados a combater todo o projeto de acordo, o que facilitaria a nossa vida. Seja como for, a luta dos que se opõem ao tratado UE-EUA contará com o apoio de vozes prestigiadas do campo cultural. Eles falarão sem parar enquanto durar a negociação. E nós também falaremos. Não há dúvidas de que, em pouco tempo, com a discussão posta na rua, os agricultores e as associaçãoes de saúde pública também entrarão no debate – porque todos esses rapidamente entenderão que também estão ameaçados.

Verdade é que toda a civilização europeia como a conhecemos foi construída sobre intervenções do Estado. E o que acontecerá quando os cidadãos, afinal, perceberem que a questão chave de todos os debates no Parlamento Europeu e na Comissão Europeia é sempre, e só, a Defesa e as grandes indústrias fabricantes de armas e armamento?

«Grande Mercado Transatlãntico» é a anexação da Europa pelos EUA. Que bandalheira! Nada restará de algum ideal europeu, com esse grande mercado. Nosso presente estará destruído e nosso futuro, em impasse. Que Europa restará, se já não se puder buscar harmonizar salários, ou impostos, e nenhuma cooperação for sequer pensável? A «livre concorrência» atropela todos esses projetos. Se os projetos europeus insistirem em não morrer, choverão sanções sobre eles... A prova desse funcionamento de coerção vê-se já no Canadá, já processado em bilhões de dólares por «entraves» que o país teria criado à «livre concorrência». Esse tratado de livre comércio transatlântico comandado pelos EUA decretará, se aprovado, a dissolução da União Europeia, que se liquefará no mercado único dos EUA.

Nós, os partidos de esquerda da Europa do Sul, sabemos que a palavra radical e o programa radical não vivem, um sem o outro. É hora de todas as táticas e estratégias de pressão, discussão e manifestações sem parar.

Nossos amigos da América do Sul conseguiram fazer gorar a ALCA, projeto semelhante pilotado pelos EUA. Temos de ter a mesma meta, sem descanso: fazer gorar o «Grande Mercado Transatlântico»!


NOTAS DOS TRADUTORES

[1]  Le grand marché transatlantique, Bruno Leprince Ed., Paris, 2012.
[2] A recente eleição do diplomata brasileiro Roberto Azevedo para dirigir a OMC, o qual tomará posse em setembro, muito mais do que indicar que "o mundo se curva ao Brasil potência" – como escreveram alguns mal-informados metidos a nacionalistas informadíssimos – indica, isso sim, que há grande número de países que se opõem ao TTIP e que se reuniram em torno do candidato que manifestava a posição desses países. Ali, esse grupo venceu com larga margem de votos. De fato, o que se vê hoje é gigantesca, planetária, queda-de-braço entre "o capitalismo versão ocidental, gerido por estado capitalista, e o capitalismo gerido por estado comunista (chinês)" (ver especialmente as p. 10-11, item 18, do texto do acordo que está em discussão, publicado por L'Humanité(em inglês). O Brasil está no meio desses dois blocos, tentando uma via própria, especialíssima, pacífica, negociada (Santo Darcy Ribeiro, nos ajude! Valha-nos São Chávez!) E os BRICS, além de muitos países «pequenos» ou «pobres» da OMC veem no Brasil hoje governado por nossos governos Lula-Dilma uma possibilidade de resistir a esse movimento de assalto pelas corporações norte-americanas. Isso também estará em disputa nas próximas eleições presidenciais no Brasil. Dificilmente se poderia pensar em eleição mais crucialmente importante para os dois lados: para os neoliberais da privataria e tucanaria udenista golpista (que tentam voltar ao poder no Brasil, para fazer reverter os avanços democráticos que o Brasil alcançou, e realinhar o Brasil, de cima a baixo, à banqueirada de Wall Street) e para os brasileiros que elegemos os governos Lula-Dilma (que precisamos preservar os avanços democráticos já conquistados, por pequenos que ainda sejam, mas, de fato, a qualquer preço e custe o que custar. E que, pelo visto, teremos de fazê-lo sem discurso político consistente e sem partido que preste).
[3]  Sobre esse AMI, ver em: "AMI – ACORDO MULTILATERAL DE INVESTIMENTO".
[4] "Para a obtenção de empréstimos internacionais do FMI e do BID, o governo FHC aceitou algumas regras que tinham sido propostas no "Acordo Multilateral de Investimentos" (AMI) mesmo ainda não aprovadas. O governo de FHC se comprometeu a não utilizar qualquer tipo de controle sobre investimentos, remessas de lucros e dividendos e o movimento de capitais. Garantiu a não adoção de qualquer política industrial ou comercial restritiva ao capital estrangeiro. Prometeu, também, a automática elevação da taxa interna de juros, em caso de perda de reservas ou aumento da inflação, e permitiu que o FMI tivesse o controle informal das nossas políticas monetária e fiscal". (Associação dos Engenheiros da Petrobrás, em: "DIPLAPIDAÇÃO DA SOBERANIA".
[5]  Gosto de chamar esse acordo de "a nova OTAN" – disse Andras Simonyi, embaixador da Hungria na "Organização do Tratado do Atlântico Norte", OTAN (L'Humanité, loc. cit.)."

FONTE: escrito por Jean-Luc Mélenchon, do "Parti de Gauche", França, sob o título original "Vertige du moment, des faits et des mots". Excerto traduzido e comentado pelo "pessoal da Vila Vudu" e postado no blog "Redecastorphoto" 

sábado, 18 de maio de 2013

Perspectivas Energéticas Mundiais - Fósseis e Nucleares

 Combustíveis fósseis e nuclear – a perspectiva da oferta




por Dr. Werner Zittel, Dipl.-Ing. Jan Zerhusen,
Dipl.-Ing. Martin Zerta, Ludwig-Bölkow [*]




SUMÁRIO EXECUTIVO

Desde 1998, quando os geólogos do petróleo Colin Campbell e Jean Laherrère publicaram um artigo amplamente discutido, "O fim do petróleo barato" na revista Scientific American, o conceito de pico petrolífero (peak oil) e o estado presente do esgotamento de petróleo constituem parte de qualquer análise séria do futuro potencial de oferta do petróleo. Contudo, recentemente várias publicações sugerem que o petróleo ainda está disponível em abundância que não é necessária grande preocupação acerca do futuro potencial da oferta de petróleo.

Tal como em anos anteriores, a Agência Internacional de Energia (IEA) no seu mais recente [relatório] World Energy Outlook 2012 (WEO 2012) projecta uma ascensão global da procura e oferta de petróleo nas próximas décadas. A IEA assevera explicitamente que no futuro previsível – 2035 e além – nenhumas restrições geológicas ou técnicas impedirão uma oferta de petróleo em crescimento contínuo. Os media reflectiram esta informação enfatizando a probabilidade de um excesso global de petróleo e gás disparado pelas novas tecnologias de produção nos EUA, enquanto ignoraram possível restrições geológicas à oferta.

Em contraste com as projecções avançadas pela IEA, em 2008 o Energy Watch Group (EWG) havia publicado um relatório sobre a futura oferta mundial de petróleo apresentando um cenário em que projectava um declínio significativo da oferta global nas próximas décadas até 2030. A intenção deste novo relatório é actualizar estas descobertas através da análise dos desenvolvimentos que tiveram lugar nos últimos cinco anos e, dessa forma, chegar a um entendimento melhorado das condições que determinam a oferta de petróleo presente e futura.

Além disso, a intenção deste estudo em ampliar a perspectiva do estudo original através da incorporação do cenário petrolífero no cenário global para todos os combustíveis fósseis e nuclear, com a inclusão do gás natural e a actualização do cenário da oferta de carvão feito pelo EWG em 2006 bem como o cenário da oferta de urânio do EWG feito em 2007.

Em suma, este relatório dá uma visão geral resumida sobre a futura disponibilidade de combustíveis fósseis e nuclear com ênfase nas questões críticas.

Petróleo

- Dados empíricos mostram que a produção mundial de petróleo não tem mais aumentado e que entrou num planalto (plateau) desde cerca de 2005. A produção de petróleo convencional já está em ligeiro declínio desde cerca de 2008. A chegada ao pico do petróleo convencional agora também é aceite pela Agência Internacional de Energia. Os esforços presentes e futuros por parte da indústria petrolífera são destinados a manter este planalto tão longo tempo quanto possível enquanto ao mesmo tempo tem de lutar com o crescente declínio da produção em campos antigos. Está a tornar-se cada vez mais difícil compensar esta redução com o desenvolvimento de novos campos, os quais estão a ficar mais difíceis de descobrir, mais pequenos e são de qualidade mais pobre.


- Os aumentos recentes da produção não convencional de petróleo e gás nos EUA são devidos a um certo número de condições específicas, tais como uma indústria e infraestrutura de petróleo e gás altamente desenvolvidas, consideráveis recursos de petróleo e gás não convencional em áreas de prospecção com densidades populacionais muito baixas, certos incentivos financeiros a companhias cotadas [em bolsa] e isenções de restrições ambientais para a indústria do petróleo e do gás (Energy Policy Act 2005). Mas o mais importante foram os altos preços do petróleo e do gás alcançados em 2006. Isto levou ao rápido desenvolvimento dos poucos pontos promissores de gás de xisto (shale gas) e de light tight oil enquanto o declínio da produção de petróleo e gás convencionais continua a progredir.


- O cenário de projecções no WEO 2012 da Agência Internacional de Energia declarando que cerca de 2020-2025 a produção de petróleo e gás não convencional fará os EUA independentes de importações repousam (1) na suposição de que a procura declina consideravelmente e (2) na especulação de que enormes recursos possíveis serão transformados em reservas provadas e a seguir serão postos a produzir. Este último ponto, em particular, não está de modo algum assegurado. Há uma alta probabilidade de a produção de light tight oil nos EUA virá a atingir o pico entre 2015 e 2017, seguido por um declínio agudo. A produção de light tight oil provavelmente revelar-se-á uma bolha, perdurando apenas cerca de 10 anos.


- Novos desenvolvimentos de campos em "áreas de fronteira" estão a desapontar e retardam-se muito atrás das esperanças que despertaram há cinco ou dez anos atrás:


A Região do Cáspio (Casaquistão, Azerbaijão) actualmente está a produzir 3 milhões de barris/dia, muito menos do que as expectativas destacadas pela US-EIA em 2000. Naquele tempo pensava-se que a produção na região do Cáspio poderia rivalizar com países do Médio Oriente em 2015-2020. O mais prometedor novo desenvolvimento desde 2000, Azeri-Chirac-Gunashli, já ultrapassou o pico e toda a região está agora em declínio. Só o dispendioso e atrasado desenvolvimento do Casaquistão pode promover um aumento de produção naquela região.



A produção de petróleo em áreas de águas profundas no Golfo do México, África Ocidental e Leste do Brasil está muito atrás das previsões de dez anos atrás em cada uma das áreas. O Golfo do México já ultrapassou o pico de produção; o mesmo é verdadeiro para Angola. A estagnação da produção de petróleo no Brasil posicionava-se nos 2 milhões de barris/dia no fim de 2012. Isto está muito aquém do cronograma original da Petrobrás e coloca enormes problemas financeiros para a companhia estatal. Em contraste com expectativas anteriores, as importações de gasolina do Brasil cresceram ao longo dos últimos anos.



As areias betuminosas (Tar Sands) no Canadá e o petróleo extra pesado (Extra Heavy Oil) na Venezuela aumentaram as reservas globais em várias centenas de gigabarris. Contudo, o crescimento da produção destes recursos está muito aquém dos objectivos publicados cinco anos atrás. A produção de petróleo bruto sintético e de betume no Canadá monta a 1,8 milhão de barris/dia, ao passo que projecções em 2007 sugeriam um nível de produção de aproximadamente o dobro disso (3,5 milhões de b/d). A produção de petróleo extra pesado na Venezuela ainda permanece em 600 mil b/d – semelhante à do ano 2000.



A Arábia Saudita, dez anos atrás ainda visa como o mais importante produtor de petróleo do futuro que elevaria sua produção de 12-14 milhões de b/d e manteria aquela taxa até 2033, luta com taxas de declínio agudas de até 8 por cento em campos antigos. Embora a Arábia Saudita esteja a relatar enormes reservas de petróleo a perdurarem por muitas décadas, evidências empíricas lançam dúvidas sobre a fiabilidade destes dados.
- O declínio da produção europeia de petróleo já fora previsto em 2001 pela ASPO. A produção está agora abaixo dos 3 milhões de b/d, um declínio de 60 por cento desde o pico em 2000 e próxima do número previsto pela ASPO. Em 2004, quando o declínio em curso deveria ter sido óbvio para todo observador neutro, a Agência Internacional de Energia ainda previa uma taxa de produção de 4,8 milhões de b/d em 2010.



Por outro lado, algumas outras regiões apresentaram produção mais alta do que o previsto há vários anos atrás:



A China ainda aumentou a sua produção para 4 milhões de b/d, enquanto o EWG e a IEA esperavam um declínio para 3,3-3,5 milhões b/d. O declínio da produção de campos antigos foi mais do que compensado pelos novos desenvolvimentos offshore.



Em 2008, o EWG esperava o pico da produção russa em torno de 2010. Agora parece que o planalto da produção está a chegar a um fim e 2012 é provavelmente o ano de pico.



Os principais produtores do Médio Oriente ainda aumentaram a sua produção para um volume conjunto de 25,8 milhões de b/d em 2011, o qual está próximo dos 26,5 milhões b/d projectados no WEO 2002.
- Ainda mais importante, o desenvolvimento de recursos em light tight oil nos EUA reverteu o declínio da produção estado-unidnese, o qual em consequência tem estado a ascender outra vez desde 2010. Este aumento de produção nos EUA não era esperado e tem alimentado especulações de que os EUA tornar-se-ão o principal produtor de óleo mundial em 2020 com 11,1 milhões b/d. Isto exigiria uma duplicação da actual produção de petróleo bruto.


- De acordo com a nossa análise, é bastante provável que em 2030 a produção mundial de petróleo terá declinado 40 por cento em comparação com a de 2012. Os números abaixo mostram o cenário actualizado da produção mundial de petróleo de 1940 a 2030.


- O consumo de petróleo nos países da OCDE já ultrapassou o pico – em favor de países não-OCDE que ainda podiam aumentar o seu consumo, enquanto a produção mundial de petróleo permanecia quase estagnada.


Produção mundial de petróleo segundo o presente estudo; a comparação com alguns outros estudos também é apresentada.




Gás natural

Este relatório contém igualmente cenários projectados para a futura oferta de gás natural. Estes são elaborados com profundidade semelhante às das projecções da oferta futura de petróleo. As descobertas importantes são:

- A produção de gás convencional está em declínio na Europa e América do Norte, os quais em conjunto representam quase 35 por cento da produção mundial de gás.


- A produção de gás não convencional, predominantemente a produção de gás de xisto, aumentou a produção estado-unidense – desde a isenção à indústria do gás das regulamentações ambientais da Lei da água potável segura (Safe Drinking Water Act, SDWA). Agora o gás de xisto tem uma fatia de 30 por cento do mercado dos EUA.


- É improvável que a produção de gás de xisto nos EUA experimente uma nova expansão significativa. Devido à dinâmica particular da produção de gás de xisto, ela declinará no momento em que novos furos não estejam a ser desenvolvidos a uma taxa adequada. O declínio da produção de gás de xisto a partir de 2015 somar-se-á ao declínio da produção de gás convencional. Em 2030 a produção de gás nos EUA provavelmente estará muito abaixo dos actuais níveis de produção.


- A produção de gás na Europa tem estado em declínio desde a viragem do século e continuará a seguir esta tendência. A produção de gás de xisto não desempenhará um papel comparável àquele dos EUA, uma vez que as condições geológicas, geográficas e industriais são muito menos favoráveis. A fim de manter o consumo de gás na Europa constante ou ascendente, serão necessárias importações de pelo menos 200 mil milhões de m3/ano adicionais.


- A Rússia, o segundo maior produtor de gás natural pouco atrás dos EUA, enfrenta uma luta entre a produção declinante de campos antigos e novos desenvolvimentos caros e consumidores de tempo no Norte da Sibéria e no offshore. A produção de gás russa atingiu um primeiro pico em 1989 quando os campos maiores ultrapassaram o pico da produção. A produção da Gazprom nunca atingiu aquele nível outra vez. Campos envelhecidos forçam a Rússia a acelerar o desenvolvimento de novos campos. Os desenvolvimentos de Shtokmanskoye no Mar de Barents e de outros campos em Yamal estão atrasados. Se os campos de gás na Península Yamal viessem a ser desenvolvidos a tempo, eles teriam produzido 310-360 mil milhões de metros cúbicos em 2030 segundo a Gazprom. Mas mesmo isto não será suficiente para compensar o declínio dos campos antigos actuais.


- O consumo interno na Rússia e a procura crescente da Ásia aplicará uma pressão crescente nos volumes disponíveis para exportar da Eurásia para a Europa nos próximos anos.


- Espera-se que o Irão e o Qatar, no Médio Oriente, alimentem a ascensão da procura de gás natural liquefeito ao longo das próximas décadas. Embora estes países tenham grandes reservas, é altamente provável que as reservas relatadas sejam exageradas.

A figura seguinte mostra o cenário com as projecções da oferta de gás até 2030. [1]


Oferta mundial de gás natural segundo o presente estudo; a projecção do WEO 2012 pela Agência Internacional de Energia também é mostrada.




Carvão

O carvão ainda é encarado amplamente como um recurso abundante. Contudo, internacionalmente o carvão está disponível só a partir de poucos países tendo grandes capacidades de exportação. Isto assinala um risco de oferta que é realmente maior do que parece à primeira vista.

- Os EUA ultrapassaram o pico de produção de carvão betuminoso 25 anos atrás.


- A China está a relatar as segundas maiores reservas; no entanto, ela deixou há poucos anos de ser um dos maiores exportadores de carvão para ser o maior importador, comparável em volume ao Japão.


- A Índia está os possuidores das maiores reservas, mas as suas importações de carvão também estão em aumento devido à baixa qualidade das reservas internas de carvão que contém até 70 por cento de cinzas.


- Só cerca de 10-15 por cento da produção mundial de carvão é comerciada por via marítima. Os volumes de comércio mais do que duplicaram ao longo da última década. Esta procura predominantemente em ascensão foi atendida por dois países: a Austrália, o maior exportador do mundo de carvão coque para a produção de aço, e a Indonésia, o maior exportador do mundo de carvão vapor para a produção de energia. Os volumes futuros do comércio mundial de carvão dependerão predominantemente destes dois países.


- A qualidade do carvão extraído diminuirá gradualmente.


- Espera-se que a produção de carvão atinja o pico dentro da próxima década.




Produção mundial de carvão de acordo com o cenário actualizado.




Urânio

A produção mundial de urânio já atingiu o pico cerca de 1980. O recente aumento da produção deve-se à mineração mais extensa no Cazaquistão. A dimensão dos recursos relatados remanescentes seria suficiente para alimentar o número actual de reactores nucleares durante várias décadas. Contudo, a concentração do minério nos novos projectos de mineração em África declinou para abaixo dos 0,02 por cento, o que por sua vez levanta o problema do esforço necessário para extrair incluindo a energia necessária. Em consequência, a maior parte dos novos projectos estão atrasados ao passo que a produção das antigas minas está a declinar. Portanto, de acordo com a nossa análise, é alto o risco de um fosso na oferta de urânio para reactores nucleares dentro da presente década.


Oferta mundial de minério de urânio




Conclusão

Os números abaixo mostram o cenário de oferta para todos os combustíveis fósseis e o nuclear. A oferta de combustíveis é medida em unidades de energia (1 Mtoe = 1 milhão de toneladas de petróleo equivalente).

Segundo o nosso estudo, a produção de carvão e gás atingirá os seus respectivos picos de produção cerca de 2020. O pico combinado de todos os combustíveis fósseis ocorrerá uns poucos anos antes do pico do carvão e do gás e quase certamente coincidirá com o início do declínio da produção de petróleo.

Portanto, o declínio da produção de petróleo – o qual espera-se que comece em breve – levará a uma ascensão do fosso da energia o qual tornar-se-á demasiado grande para ser colmatado pelo gás natural e/ou carvão. Substituir petróleo por outros combustíveis fósseis também não será possível no caso de a produção de gás e carvão continuarem a crescer à taxa actual. Além disso, uma nova ascensão da produção de gás e carvão logo esgotará estes recursos de um modo semelhante ao petróleo.

A contribuição energética de combustíveis nucleares é demasiado baixa para que possa ter qualquer influência significativa a nível global, embora isto possa ser diferente para alguns países. Além disso, tal como com os combustíveis fosseis, as minas fáceis e baratas estão a ser esgotadas na produção de urânio e, em consequência, o esforço e o custo de produção aumentarão continuamente.


Cenário da oferta mundial de combustíveis fósseis e de urânio




A oferta total mundial de combustíveis fósseis está próxima do pico, conduzida pelo pico da produção petrolífera. A produção de petróleo em declínio nos próximos anos criará um fosso crescente que os demais combustíveis fósseis não poderão compensar.

(...)

Uma característica típica da corrida ao ouro no passado era que histórias de êxito real eram acompanhadas por muitos rumores e exageros. Isto criava uma atmosfera em que o pensamento racional não tinha oportunidade de alcançar a percepção pública. Na maior parte dos casos estes rumores não eram propalados pelos pesquisadores de ouro que tinham êxito (estes mantinham seus segredos para si mesmos) mas por comerciantes de equipamentos que faziam grandes lucros independentemente dos êxitos reais dos pesquisadores de ouro.

Nem o entusiasmo acerca das enormes reservas no Mar Cáspio no ano 2000 ("... as reservas podiam rivalizar com as da Arábia Saudita"), nem as descobertas no mar profundo no Golfo do México ou no offshore de Angola, nem as areias betuminosas em Alberta (ver a reportagem de capa da publicação "Oildorado" da ExxonMobil em 2003), nem a corrida do ano passado a desenvolvimentos no gás de xisto nos EUA ou notícias recentes de gás de xisto na Austrália podem afastar o facto de que a era do combustíveis fósseis baratos e abundantes estão a chegar ao fim. Estas novas fronteiras, antes, criam mais problemas do que são soluções para os problemas que pretendem resolver.

Mas isto é também uma boa mensagem porque a mudança climática [2] força-nos a entrar em acção de acordo com as mesmas linhas, reduzindo nomeadamente o consumo de combustíveis fósseis. Portanto, devemos enfrentar estes desafios e começar a desenvolver com seriedade estratégias de transição rumo a uma oferta de energia sustentável. Quanto mais tentarmos atrasar essa transição perseguindo soluções beco sem saída que pretendem prolongar a situação actual ( business as usual), mais enfrentamos o risco de nos despenharmos num abismo com graves perturbações na economia, na política e na sociedade.



Março/2013

[*] Do Energy Watch Group, Ludwig-Boelkow-Foundation, Reiner-Lemoine-Foundation



NT
[1] Além do gás de xisto também há outros não convencionais, tais como os hidratos metânicos, as reservas Árcticas (ainda não quantificadas mas que se sabe existirem), a produção de biometano a partir de resíduos, etc. Há peritos que consideram as reservas de gás natural do mundo suficientes para mais de 500 anos de consumo aos níveis actuais.
[2] Ver resistir.info/climatologia/impostura_global.html
O texto integral do relatório do Energy Watch Group, com 178 pgs., encontra-se em www.energywatchgroup.org/fileadmin/global/pdf/EWG-update2013_long_18_03_2013.pdf



Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .















08/Mai/13








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EngaJarte-blog

sábado, 9 de março de 2013

O maior legado de Hugo Chávez é uma histórica revolução democrática

 

 

Por Breno Altman, no Operamundi

Tantos simpatizantes quanto críticos do falecido presidente venezuelano, em sua maioria, tendem a destacar os feitos sociais como a principal herança de seu governo. Afinal, são inegáveis os avanços conquistados nesses últimos catorze anos, impulsionados por uma liderança que transferiu a receita petroleira, antes apoderada por grupos privados, para um vasto pacote de serviços públicos e iniciativas distributivistas.

A Venezuela apresenta a sociedade com melhor repartição de renda da América do Sul, de acordo com o índice Gini, além do maior salário mínimo regional, atestado pela Organização Mundial do Trabalho.  Registra, na última década, o mais acelerado padrão de crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do subcontinente, segundo relatório das Nações Unidas. Foi declarada território livre de analfabetismo pela Unesco, em 2006. Não é pouca coisa. Esses resultados foram consequência da universalização de direitos sociais, sob o comando do Estado, em um processo financiado pela progressiva nacionalização dos recursos minerais, especialmente dos hidrocarbonetos, que antes abasteciam as arcas de oligarcas venezuelanos e estrangeiros.

Provavelmente nada disso, contudo, teria sido possível se Hugo Chávez não tivesse colocado como a primeira e mais importante tarefa a mudança radical do sistema político. Estudioso da experiência chilena de Salvador Allende, o presidente socialista derrubado por um golpe militar em 1973, o mandatário venezuelano sempre afirmou que não se fazem reformas estruturais com as velhas instituições forjadas pelas elites.

Talvez uma estratégia de mudanças sem rupturas pudesse prescindir de transformação política mais ampla. O programa de Chávez, porém, tinha outras características, apontando para medidas de choque contra os monopólios privados, os latifúndios e o imperialismo. Seu discurso assumiria, com o passar do tempo, declarada perspectiva anticapitalista, enfeixado sob o conceito de "socialismo do século XXI".

Não foi à toa que, amparado por instável maioria parlamentar, sua batalha inaugural foi pela convocação de uma Assembleia Constituinte que refundasse o Estado, dotando-o de mecanismos democráticos que ampliassem a participação das camadas populares e reduzissem a influência dos antigos grupos que, até então, partilhavam o poder entre si. O radicalismo da pauta política, nos primórdios da gestão do falecido dirigente, era o destacamento avançado de uma agenda que ainda apontava para reformas econômicas bastantes moderadas.

O novo marco constitucional, que fundava a Quinta República, trouxe no seu bojo instrumentos democráticos inéditos. Além de instituir mecanismos plebiscitários, de caráter impositivo, que poderiam ser convocados tanto pelo parlamento e o governo quanto por iniciativa de cidadãos, a Constituição também adotou a possibilidade de referendos revogatórios de todos os mandatos, inclusive o presidencial, desde que estivesse cumprida metade do termo e ao menos 20% dos eleitores subscrevessem a convocação.

O próprio Chávez enfrentou votação dessa natureza, em 2004, na qual manteve seu mandato por larga maioria. Muitos governadores, prefeitos e deputados não tiveram a mesma sorte e foram afastados. O objetivo dessas medidas, entre tantas outras, não era eliminar a democracia representativa, herdada do liberalismo, mas reinseri-la em um cenário no qual as formas de participação direta da cidadania ocupassem o centro das decisões.

Vários capítulos constitucionais versam sobre essa centralidade, ampliando os espaços de soberania popular em todas as esferas do Estado. Chávez recorreu às urnas, através de eleições ou consultas, para cada um de seus passos estratégicos. Foram catorze processos eleitorais gerais desde 1998, sempre com a presença de observadores internacionais das mais distintas correntes. O ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, chegou a citar o sistema eleitoral venezuelano como "o mais aperfeiçoado do mundo".

A expansão contínua da democracia participativa, em detrimento da estrutura de representação, minou o peso do empresariado, dos meios comerciais de comunicação e das casamatas mais retrogadas do aparelho estatal, especialmente no sistema judiciário. Provocou o ódio do tradicionalismo, mas deu a Chávez base popular para integrar o conjunto das instituições à transformação política em curso.

Recentes avanços
Nos últimos anos, novas empreitadas foram consolidando esse projeto. A mais relevante talvez seja a criação e o desenvolvimento do chamado poder comunal. Trata-se de pequenas áreas geográficas, distritos ou bairros, que funcionam como instituições políticas, mas também podem organizar seus próprios serviços públicos, constituir empresas para diferentes atividades e receber financiamento direto do governo nacional. Busca-se, assim, horizontalizar o Estado e esvaziar os estamentos burocráticos ainda controlados ou corrompidos pelos antigos senhores.

Ao contrário de outras experiências de identidade socialista, a ampliação da democracia direta não foi acompanhada pela redução de liberdades, mesmo daqueles setores que participaram do golpe de Estado em 2002. Nenhum partido político foi fechado ou proibido. Nenhum jornal ou revista deixou de circular por ação do governo. Praticamente todas as concessões de rádio e televisão foram mantidas, com a exceção da RCTV, que violou seguidamente as normas legais, mas pode continuar sua transmissão como canal a cabo.

O que ocorreu foi uma multiplicação dos veículos impressos e eletrônicos, particulares e públicos, afetando o controle que a mídia tradicional detinha sobre a informação social e a disputa de valores, mas permitindo que novas vozes passassem a ser escutadas pelo país.

O presidente Hugo Chávez também enfrentou com prioridade a questão militar, particularmente após a intentona para derrubá-lo do governo. Afirmava que não repetiria, nessa seara, o erro de Allende. Sua frase preferida: "nossa revolução é pacífica, mas armada".

Tratou de promover oficiais leais ao processo revolucionário, alterando programas de formação e doutrinas que significassem a defesa do antigo regime, trazendo as forças armadas para um papel ativo na construção política e econômica do projeto bolivariano. A consolidação de sua hegemonia entre as distintas estruturas de segurança, assim o compreendia, era a salvaguarda indispensável para que não fosse abortado o nascimento das novas instituições e do modelo de nação que defendia.

Esse processo levou a uma profunda politização, com a batalha de ideias assumindo todos os espaços públicos, à direita e à esquerda. Inúmeros movimentos e organizações foram criados. O próprio Partido Socialista Unificado da Venezuela, principal agremiação governista, nasce desse ambiente incentivado pela radicalização democrática.

O presidente Chávez, por fim, somou seu ativismo pedagógico às mudanças institucionais, com um viés lincolniano. Não compreendia o papel do chefe de Estado como um árbitro acima das classes ou um gestor de interesses supostamente comuns a todos, mas como um líder escolhido pela maioria do povo para representar determinado projeto de nação e forjar a mobilização necessária para vencer seus adversários.

Por essas e outras, nada é tão importante no legado de Hugo Chávez Frias como a revolução política que comandou. Ao contrário do que propala parte da mídia, e levando a cabo o que para outros não passa de mera retórica, a essência da experiência chavista está na radicalização da democracia.


terça-feira, 5 de março de 2013

O crescimento 10 anos depois.

Por João Sicsú, na revista CartaCapital:

Foi pífio o crescimento econômico durante o período que o presidente Fernando Henrique Cardoso governou o Brasil (1995-2002). Em média, durante oito anos, a economia cresceu 2,3% ao ano. A economia não podia crescer. A valorização do salário mínimo era modesta. O crédito era um privilégio das altas classes de renda, dos ricos e das grandes empresas. O investimento público era cadente e as estatais, que restaram após as privatizações, tinham planos de investimentos limitados.



Fonte: SCN/IBGE

No primeiro mandato do presidente Lula (2003-2006), a economia iniciou um processo de recuperação. Cresceu, em média, 3,5% ao ano. Este primeiro aumento do PIB foi impulsionado pelo início da política de valorização do salário mínimo e pela ampliação do crédito para as famílias e as empresas.

No segundo mandato (2007-2010), além dos elementos que já estavam em curso, a política de investimentos públicos e das estatais, que estimulou o investimento privado, foi o elemento-chave. Por exemplo, a Petrobras aumentou seus investimentos de forma significativa e houve os lançamentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Minha Casa, Minha Vida. Em média, a economia passou a crescer 4,6% ao ano, apesar da aguda crise financeira americana que atingiu o Brasil em 2009.

A presidenta Dilma Rousseff enfrentou problemas nos dois primeiros anos de seu governo. Em 2011, houve pressões inflacionárias que impuseram ao governo a necessidade de desacelerar o crescimento. Mas, principalmente, a economia brasileira mostrou que existiam gargalos de infraestrutura e que o ritmo de 2010 (crescimento de 7,5%) não era sustentável. Houve desaceleração conduzida pelo governo de 2010 para 2011.



SCN/IBGE, Censo/IBGE, PNAD/IBGE, CCN/FGV

Em 2012, o desempenho piorou: a economia iniciou o ano ainda com o freio de mão puxado. E a crise europeia chegou e contaminou o cenário, gerando no Brasil e no mundo expectativas empresariais de apreensão e receio em relação ao futuro. Sob estas condições, a economia atravessou o ano. Um ano em que o governo e empresários não realizaram planos de investimentos que pudessem garantir um crescimento satisfatório.

A presidenta adotou medidas estruturantes da economia que podem garantir a retomada do crescimento. As tarifas de energia elétrica foram reduzidas, os bancos públicos entraram na concorrência via redução de taxas de juros e as desonerações fiscais implementadas aumentaram a capacidade de investimento do setor privado empresarial. E, além disso, o Banco Central se tornou muito mais "inteligente": não utiliza a taxa de juros como remédio único (e em doses cavalares) para manter a estabilidade monetária. Mas a lição já foi aprendida: o elemento-chave do crescimento é o investimento público e das estatais.

O crescimento médio durante o governo Dilma (1,8%) fez o sinal vermelho da economia piscar. Os últimos dois anos de governos do PT fizeram a economia desviar da série de bons resultados dos governos Lula.

Apesar do modestíssimo crescimento durante o primeiro biênio de Dilma, a taxa de desemprego se manteve baixa, os rendimentos dos trabalhadores continuaram aumentando e a renda per capita cresceu em relação ao período dos governos do presidente Lula. A conclusão é que os percalços da economia não contaminaram a trajetória social benigna do decênio petista no governo federal.
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

A "gastança" pública 10 anos depois.

 
Em 2009, o PSDB soltou uma nota em que afirmava: "o Palácio do Planalto promove uma gastança…". Em qualquer dicionário, gastança significa excesso de gastos, desperdício. A afirmação feita na nota somente tem utilidade midiática, mas não é útil para a produção de análises e discussões sérias em torno da temática das finanças públicas brasileiras.
A dívida pública deixada para o presidente Lula era superior a 60% do PIB. O déficit público nominal era de 4,4% do PIB. Esses são os números referentes a dezembro de 2002, o último mês de Fernando Henrique Cardoso na presidência.
Gasto social total per capita
De forma ideal, a administração das contas públicas deve sempre buscar a redução de dívidas e déficits. Deve-se buscar contas públicas mais sólidas. A motivação para a busca desta solidez não está no campo da moral, da ética, da religião ou do saber popular que diz "não se deve gastar mais do que se ganha".
A motivação está no aprendizado da Economia. Aprendemos que o orçamento é um instrumento de combate ao desaquecimento econômico, ao desemprego e à falta de infraestrutura. Contudo, o orçamento somente poderá ser utilizado para cumprir estas funções se houver capacidade de gasto. E, para tanto, é necessário solidez e robustez orçamentárias.
A ideia é simples: folgas orçamentárias devem ser alcançadas para que possam ser utilizadas quando a economia estiver prestes a provocar problemas sociais, tais como o desemprego e a redução de bem-estar. Portanto, a solidez das contas públicas não é um fim em si mesma, mas sim um meio para a manutenção do crescimento econômico, do pleno emprego e do bem-estar.
A contabilidade fiscal feita pela equipe econômica do governo do presidente Lula mostrou como essas ideias podem ser postas em prática. Houve melhora substancial das contas públicas que resultaram da boa administração durante o processo de aceleração das taxas de crescimento. O presidente Lula entregou à presidenta Dilma uma dívida que representava 39,2% do PIB. Ao final de 2012, a dívida foi reduzida ainda mais: 35,1% do PIB. O presidente Lula entregou para a sucessora um orçamento com déficit de 2,5% do PIB. Ao final de 2012, este número foi mantido.
Foi essa administração fiscal exitosa que deu ao presidente Lula autoridade política e solidez orçamentária para enfrentar a crise de 2009, evitando que tivéssemos uma profunda recessão e uma elevação drástica do desemprego. No ano de 2009, a relação dívida/PIB aumentou para 42,1% e o déficit público nominal foi elevado de 2% para 3,3% do PIB. Em compensação, naquele ano de crise, foram criados mais de 1,7 milhão de empregos formais e o desemprego subiu apenas de 7,9%, em 2008, para 8,1%, em 2009.
Dívida líquida do setor público
Dívida líquida do setor público
Em paralelo à consolidação fiscal, os governos dos presidentes Lula e Dilma promoveram ampliação dos gastos na área social. A área social engloba: educação, previdência, seguro desemprego, saúde, assistência social etc. O investimento social per capita cresceu 32% em termos reais entre 1995 e 2002. De 2003 a 2010, cresceu mais que 70%. Cabe ser destacado que mesmo diante da fase mais aguda da crise financeira internacional de 2008-9 os investimentos sociais não foram contidos – a partir de 2009, houve inclusive uma injeção adicional de recursos nessa área.
Os números não são refutáveis. São estatísticas oficiais organizadas por milhares de técnicos competentes. O Estado brasileiro está consolidado em termos de responsabilidade com a geração de estatísticas. No Brasil, não há maquiagem ou ocultação de dados. Portanto, temos elementos para fazer análises consistentes das finanças públicas que dispensam a utilização de termos midiáticos jogados ao ar: gastança! Nos últimos dez anos não houve gastança, houve organização fiscal. Houve também aumento significativo de gastos na área social. Essa é a radiográfica precisa dos números.

A distribuição da renda dez anos depois

O índice de Gini foi reduzido. Este índice mede a distribuição da renda e varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade e quanto mais próximo de zero, maior a igualdade. O Gini brasileiro caiu de 0,585, em 1995, para 0,501, em 2011. Contudo, este é um número que ainda está distante dos índices de países tais como França (0,308) ou Suécia (0,244).
Fonte: IBGE
No início dos anos 1960, o Brasil possuía um Gini inferior a 0,5. Entretanto, os governos militares (1964-1985) adotaram um modelo de crescimento econômico com concentração de renda. O Gini subiu. Em meados dos anos 1990, com a queda da inflação, o índice de Gini sofreu uma redução.
O índice de Gini é calculado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE. Mais de 96% das rendas declaradas na Pnad correspondem às remunerações do trabalho e às transferências públicas. Sendo assim, a desigualdade medida pelo Gini/Pnad não é adequada para revelar a distribuição da renda entre trabalhadores, de um lado, e empresários, banqueiros, latifundiários, proprietários de imóveis alugados e proprietários de títulos públicos e privados, de outro. O índice de Gini não revela a participação das rendas do trabalho e do capital como proporção do Produto Interno Bruto (o PIB, que é o valor de todos os serviços e bens que são produzidos).
Além do Gini, é preciso analisar a distribuição funcional da renda: capital versus trabalho. O processo de desconcentração da renda que está em curso no Brasil vai além da redução do índice de Gini. Ocorre, principalmente, devido ao aumento da participação dos salários como proporção do PIB.
Fonte: IBGE
Houve uma trajetória de queda da razão salários/PIB de 1995 até 2003, quando caiu a um piso de 46,23% (incluindo as contribuições sociais dos trabalhadores e excluindo a remuneração de autônomos). A partir de então, houve uma inflexão na trajetória, que se tornou ascendente. O último dado divulgado pelo IBGE é de 2009. Neste ano, a participação dos salários alcançou 51,4% do PIB superando a melhor marca do período 1995-2003, que foi 49,16%.
São variadas as causas do movimento positivo de aumento da participação dos salários no PIB. O rendimento médio do trabalhador teve um aumento real significativo entre 2003 e 2012. Houve um vigoroso aumento real do salário mínimo nos últimos dez anos. E houve redução dos juros pagos pelo governo aos proprietários de títulos públicos e redução dos juros cobrados das famílias pelos bancos.
O índice de Gini/Pnad e a participação percentual das remunerações dos trabalhadores no PIB são medidas complementares. Ambas representam dimensões da desigualdade e do desenvolvimento socioeconômico do país. As duas medidas mostram que o desenvolvimento socioeconômico brasileiro está em trajetória benigna desde 2003-4. Elas mostram também que no período anterior (1995-2003) as rendas do trabalho perdiam espaço no PIB para as rendas do capital.
A recuperação do poder de compra dos salários foi o principal pilar da constituição de um imenso mercado de consumo de massas que foi constituído no Brasil nos últimos anos. Foi a formação desse mercado que possibilitou ao Brasil sair apenas com pequenos arranhões da crise de 2008-9. O desenvolvimento econômico e social brasileiro depende, portanto, do aprofundamento do processo distributivo em curso. Não existirá desenvolvimento sem desconcentração de renda.
João Sicsú, Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do IPEA entre 2007 e 2011. 
 
 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

"Há interesses políticos em desvalorizar a Petrobrás", diz consultor

 

 

"Existe um interesse político, de quem já quis privatizar a Petrobras, de diminuir os investimentos na empresa e assim, enfraquecê-la, mas há também uma vontade de quem quer comprar ações mais baratas. Sempre vão ter aqueles que vão acreditar nesse discurso, de que a Petrobras tá indo mal, e vender seus papéis".

A análise, na contramão de tudo o que vem sendo falado com relação à estatal brasileira do petróleo, é do engenheiro Ivo Pugnaloni, investidor na empresa e consultor da Enercons para o setor de energia.

A empresa fechou o ano de 2012 com lucro de R$ 21,18 bilhões, o menor dos últimos oito anos. Com isto, os investidores, que viram os dividendos serem reduzidos em 3%. Se não bastasse, a própria presidente, Graça Foster, em entrevista admitiu que o ano de 2013 ainda será de dificuldades. Tudo junto fez com que as ações da estatal atingissem, na terça-feira (5) o seu menor patamar desde 2005, fechando o pregão em queda de mais de 8,29%. Nesta quarta-feira (6) a queda continuou: 2,65%.

Processo de desvalorizar a empresa

Nada disto, porém, assusta Pugnaloni. Para ele, o corte de dividendos servirá para melhorar a capitalização da Petrobrás.

"A empresa tem uma demanda de investimento muito grande para os próximos anos, tanto para o fornecimento de gás, por exemplo, que em momentos de insegurança energética como o que aconteceu agora pode ser fundamental, mas também para o desenvolvimento de energias renováveis, de exploração do pré-sal. A importância da Petrobras para o Brasil é inegável", lembra o especialista.

Para ele, o desespero dos acionistas é exagerado e desnecessário, pois o processo atual, de corte no lucro dos acionistas para aumentar a capitalização, é natural e importante para a Petrobras. Pugnaloni detecta um movimento para tentar diminuir o valor e a imagem da estatal e assim, lucrar na compra das ações a preços mais baixos.

Importância indiscutível

A importância da Petrobras na economia brasileira, segundo o engenheiro, é fundamental. "A Petrobras é tudo, por isso que, para quem não pensa no Brasil, ela precisa 'ser destruída'. Não só na questão energética, que a sua presença é indiscutível, mas também na produção de tecnologia, projetos, energia e pesquisa, não tem como discutir", destaca.

O especialista aproveitou ainda para criticar a Aneel, por atrasar a liberação de obras de infra-estrutura energética, como a construção de novas hidrelétricas. "Se a gente depender deles, não construiremos nada. Mais um motivo para apoiarmos a capitalização da Petrobras", conclui.



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