sexta-feira, 5 de junho de 2026

Minha Casa Minha Vida: Conquista Popular ou Armadilha do Mercado?

Moradia e Contradição: O Minha Casa Minha Vida entre o Direito e o Mercado

Por Walter Azevedo

529 vagas abertas em São Gonçalo. Visitas domiciliares em Uberlândia para conferência de dados. Crédito ampliado para até R$ 50 mil no Reforma Casa Brasil. Notícias que parecem boas — e em certa medida são — mas que, tomadas isoladamente, ocultam mais do que revelam. O programa Minha Casa Minha Vida voltou ao centro do debate público, com pressões por reformulação de regras e critérios de acesso. É hora de olhar além da superfície.

A Moradia como Mercadoria — e como Direito

Não há como tratar o MCMV sem colocar no centro uma contradição estrutural: a moradia é, ao mesmo tempo, um direito constitucional da classe trabalhadora e uma mercadoria lucrativa para o capital imobiliário e financeiro. Essa tensão não é acidental — ela é a própria forma como nossa formação social organiza o espaço urbano. O solo, a construção, o crédito hipotecário: tudo isso é território de valorização do capital, e qualquer política pública que adentre esse campo negocia, a cada passo, com interesses que não são os da maioria.

Quando o governo Lula relançou o MCMV em 2023, havia uma promessa de ruptura com a lógica mais perversa do programa original: priorizar a faixa 1, que atende famílias com renda de até R$ 2.640, onde o subsídio é maior e o mercado tem menos apetite. Os números de contratações cresceram, e isso tem peso real na vida de milhões de trabalhadores. Mas o debate sobre "reformulação de regras" aponta para tensões que não desapareceram — e que dizem muito sobre quem manda no programa.

Por Dentro da Contradição: Quem Lucra com a Casa do Trabalhador

O capital financeirizado encontrou no MCMV um mecanismo precioso: o Estado subsidia a demanda, garante o crédito e reduz o risco, enquanto construtoras e incorporadoras ficam com a margem. É o socialismo para os ricos — o risco é socializado, o lucro é privatizado. Não por acaso, as grandes empresas do setor imobiliário estiveram entre as maiores beneficiárias do programa desde 2009. A pressão por ampliar faixas de renda e aumentar o teto de crédito pode ser lida também como pressão do setor para ampliar o mercado, não necessariamente para ampliar o direito.

Isso não significa que toda ampliação seja ilegítima — a expansão do Reforma Casa Brasil e a inclusão de novas faixas podem alcançar famílias que antes ficavam de fora. O ponto é: sob qual lógica essa expansão se dá? Quem define os critérios, os territórios prioritários, os tipos de habitação? Se a resposta for o mercado, o programa avança na aparência e recua na essência. Se a resposta for o Estado orientado por um projeto nacional-popular, a história é outra. Como analisamos em Privatizar Petrobras e Banco do Brasil?, a disputa pelo controle do Estado é sempre a disputa central — e o MCMV não escapa dessa regra.

Déficit Habitacional e Projeto de Classe

O Brasil carrega um déficit habitacional que supera 8 milhões de moradias, concentrado nas faixas de menor renda. Esse número não é fatalidade natural — é resultado histórico de décadas de urbanização subordinada aos interesses do capital imobiliário, de expulsão das classes populares para as periferias, de financeirização do solo urbano. Resolver esse déficit exigiria subordinar o uso do solo a um planejamento nacional orientado pelas necessidades da maioria — algo que colide frontalmente com os interesses da oligarquia rentista e do capital internacional.

É aqui que o MCMV encontra seus limites estruturais. Um programa de habitação dentro de um Estado que ainda não rompeu com a dependência financeira, que negocia cada real de política social com o mercado de títulos, está permanentemente ameaçado de ser capturado. Não é moralismo dizer isso — é análise concreta de uma situação concreta. A luta pela moradia é, portanto, inseparável da luta por soberania e por um projeto nacional que coloque o trabalho acima do rentismo.

O Que Fazer com Essa Consciência

Nossa classe não pode se contentar em ser beneficiária passiva de programas que dependem da boa vontade de governos e da tolerância do mercado. A moradia precisa ser organicamente incorporada à agenda política da classe trabalhadora — nos sindicatos, nos movimentos populares, nos partidos que expressam os interesses do trabalho. Isso significa:

  • Pressionar para que a faixa 1 do MCMV seja absolutamente prioritária, com metas fiscalizadas e transparência total;
  • Defender a função social da propriedade urbana como princípio inegociável na disputa pelo espaço das cidades;
  • Exigir que o crédito público habitacional não sirva de instrumento de valorização para o capital imobiliário privado;
  • Conectar a luta por moradia à luta por soberania nacional — porque um Estado dependente não tem autonomia para fazer política habitacional de verdade.

Como argumentamos em Da Dispersão à Soberania, o espontaneísmo das demandas parciais não basta. É preciso projeto. A casa do trabalhador não pode ser um favor do mercado — tem que ser conquista organizada da nossa classe. Esse é o passo que transforma uma política pública em instrumento de poder popular.

A ampliação de vagas em São Gonçalo e o crédito reforçado em Uberlândia são reais e têm valor. Mas a pergunta que não podemos deixar de fazer é: quem controla esse processo? Enquanto a resposta não for inequivocamente a classe trabalhadora organizada, o programa seguirá sendo campo de disputa — e nossa obrigação é estar nesse campo, com análise, com organização e com projeto.

EUA: Bilionários Pedem Guerra e Lucram com a Morte

```html

Lucro de Guerra: Como o Capital Financeirizado Transforma Conflito em Acumulação

Por Walter Azevedo

Enquanto diplomatas negociam cessar-fogo e populações contam seus mortos, um grupo seleto de bilionários norte-americanos registra trimestres recordes. Não é coincidência. Em 2024, as cinco maiores empresas do complexo militar-industrial dos EUA — Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, Boeing Defense e L3Harris — acumularam receitas superiores a 230 bilhões de dólares. No mesmo período, os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio intensificaram-se. A pergunta que o noticiário mainstream evita fazer é simples: para quem a guerra é negócio?

O Que Aparece na Superfície

A narrativa dominante apresenta os conflitos militares em curso como disputas entre nações, choques de valores ou defesa da "ordem internacional". Os grandes veículos de comunicação enquadram cada escalada bélica como resposta humanitária, imperativo de segurança ou obrigação aliada. O Congresso norte-americano aprova pacotes de ajuda militar medidos em dezenas de bilhões, e os comentaristas debatem estratégia geopolítica como se os interesses econômicos concretos fossem irrelevantes para a decisão. Essa é a aparência — funcional, legitimadora e cuidadosamente construída para que nossa classe não perceba quem paga a conta e quem embolsa o lucro.

O que escapa ao enquadramento midiático é que os principais lobbistas por mais verbas militares no Congresso dos EUA são, simultaneamente, os maiores acionistas das empresas que fabricam as armas financiadas por essas verbas. O ciclo é quase elegante em sua brutalidade: o Estado contrata, a indústria produz, os bilionários lucram, os trabalhadores — dos dois lados dos conflitos — morrem.

A Contradição que o Noticiário Não Narra

Lenin, ao analisar o imperialismo como fase superior do desenvolvimento do grande capital, identificou com precisão o mecanismo que observamos hoje: a fusão entre capital bancário e capital industrial cria uma oligarquia financeira que subordina o Estado às suas necessidades de expansão e acumulação. O que ele chamou de "exportação de capital" encontra hoje uma de suas formas mais rentáveis na exportação de armamentos financiada pelo próprio orçamento público. É o contribuinte estadunidense — majoritariamente trabalhador — que subsidia o lucro privado dos acionistas da Lockheed.

Não se trata de conspiracionismo. Trata-se de relações de produção concretas. Os chamados "defense contractors" investem centenas de milhões de dólares anualmente em contribuições de campanha e lobbying no Congresso. Em troca, recebem contratos que multiplicam esse investimento por dez, por vinte, por cem. A guerra, nesse arranjo, não é fracasso da diplomacia — é produto deliberado de uma determinada correlação de forças no interior do próprio Estado imperial.

Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini nos ensinaram que a dependência não é apenas econômica — é também militar e tecnológica. Países como o Brasil, pressionados a adquirir equipamentos bélicos compatíveis com os padrões da OTAN, transferem riqueza nacional para esse mesmo complexo industrial. Quando debatemos a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, estamos tocando em uma das faces do mesmo processo: a subordinação dos recursos estratégicos nacionais à lógica do capital financeirizado que tem em Wall Street — e nos seus braços militares — seu centro nervoso.

Quem Ganha, Quem Paga

Os números são didáticos. Entre 2022 e 2024, o valor de mercado das principais empresas do setor de defesa dos EUA cresceu entre 40% e 80%. Os CEOs dessas corporações receberam bônus recordes. Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas estimou que o custo da reconstrução da Ucrânia já ultrapassa 500 bilhões de dólares — dinheiro que, em grande medida, voltará aos mesmos grupos que lucraram com a destruição. É a acumulação em ciclo fechado: destroem e reconstroem, cobram duas vezes.

Do outro lado da equação, os trabalhadores norte-americanos veem seus serviços públicos sistematicamente sucateados. Saúde, educação, infraestrutura urbana — tudo subordinado ao que o Estado imperial chama de "necessidades de segurança nacional". Nossa classe, aqui e lá, financia com impostos e com sangue a expansão de fortunas que jamais verá.

O Que Isso Significa Para Nós

A análise que desenvolvemos em Da Dispersão à Soberania é pertinente aqui: sem projeto político organizado e consciência de classe, nossa resposta aos movimentos do imperialismo será sempre reativa e fragmentada. Não basta denunciar — é preciso construir alternativas concretas de soberania nacional que rompam os laços de dependência que nos amarram a essa lógica bélica.

No Brasil, isso significa defender com clareza as empresas estratégicas nacionais, recusar a subordinação tecnológica e militar aos interesses do capital do Norte, e fortalecer projetos de integração regional que ampliem nossa margem de manobra. Significa também compreender que paz não é ausência de conflito — é resultado de uma correlação de forças que hoje está desfavorável para os de baixo, e que só muda com organização política consequente.

A guerra que os bilionários pedem não começa nos campos de batalha. Começa nos conselhos de administração, nos lobbies do Congresso, nas mesas dos fundos de investimento. Termina — quando termina — nos cemitérios dos trabalhadores. Nossa tarefa é organizar a consciência de que esse ciclo tem endereço, tem nome, tem classe. E que pode — e deve — ser interrompido.

Para aprofundar

  • Lenin, V.I. — O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (1916)
  • Marini, Ruy Mauro — Dialética da Dependência (1973)
  • Azevedo, Walter — Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas, Appris, 2023
  • Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) — SIPRI Yearbook 2024: Armaments, Disarmament and International Security
```