Alienação e Controle: A Fifa como Braço da Geopolítica Colonialista no Futebol
Por Walter Azevedo

O anúncio da próxima Copa do Mundo de Clubes, um torneio inchado com 32 equipes, a ser sediado nos Estados Unidos em 2025, não é apenas mais uma decisão comercial da Fifa. É a expressão mais recente de um fenômeno histórico: o uso do futebol como instrumento de dominação geopolítica. Enquanto a bola rola e a emoção nos toma, uma estrutura de poder silenciosa, burocrática e profundamente colonialista dita as regras do jogo — dentro e fora dos gramados. Para nós, da classe trabalhadora que vive o futebol como paixão e identidade, desvendar essa engrenagem é o primeiro passo para retomarmos o controle do nosso próprio lazer e da nossa cultura.
O Apito Inicial: A Herança Colonial no Esporte Bretão
Olhemos para a superfície: a Fifa se apresenta como a “casa do futebol”, uma entidade neutra e global. Mas sua estrutura de poder revela uma geografia política bem definida. Criada em 1904 por federações europeias, a entidade sempre reproduziu as hierarquias do capitalismo central. A Europa, berço do futebol moderno e do colonialismo, detém até hoje o controle das principais decisões, dos cargos executivos e da fatia do leão dos lucros. Quando a Fifa decidiu que a Copa do Mundo de 2022 seria no Catar, não foi um gesto de inclusão, mas a consolidação de um acordo entre o capital financeiro europeu e a monarquia absolutista do Golfo, mediado pela exploração de milhões de trabalhadores migrantes em condições análogas à escravidão. A modernização dos estádios ocultou a continuidade de uma lógica colonial de exploração de corpos e territórios periféricos.
A Essência da Contradição: Quem Manda, Quem Joga e Quem Paga
Por trás da aparência de espetáculo universal, reside uma contradição fundamental. O futebol é, em sua origem, uma criação das massas trabalhadoras inglesas, um jogo de resistência e comunidade. Porém, a Fifa e suas federações continentais agem como verdadeiras corporações transnacionais, operando sob a lógica do capital financeirizado. Vejamos os dados concretos:
- Transferências de jogadores: Segundo a Fifa, em 2023, o mercado global de transferências movimentou mais de 7 bilhões de dólares. Deste total, os clubes europeus (Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha) foram responsáveis por 70% dos gastos. Eles atuam como centros de “garimpagem” de talentos, sugando jovens promessas da África, América Latina e Ásia — um claro extrativismo de cérebros esportivos, similar ao que o imperialismo faz com recursos naturais.
- Calendário inchado: A criação de novas competições, como a Copa do Mundo de Clubes expandida e a Liga das Nações, não visa o desenvolvimento do esporte, mas a maximização de receitas com direitos de transmissão e patrocínios para a entidade e seus parceiros do Norte Global. Clubes brasileiros e africanos, por exemplo, são obrigados a se submeter a um calendário que exaure seus atletas para alimentar a máquina de lucros europeia.
Nesse ponto, é preciso fazer uma análise que enxergue o jogo de forças completo. A Fifa não é um mero fantoche, mas um mediador ativo. Ela impõe um modelo de gestão, uma regulamentação de transferências e um calendário que beneficia a acumulação de capital nos países centrais, enquanto condena as ligas periféricas a um papel de celeiro de matéria-prima viva. É o que o sociólogo Theotônio dos Santos chamaria de “dependência estrutural” aplicada ao esporte. Nossa Seleção Brasileira, por exemplo, é frequentemente desfalcada em jogos oficiais para que seus craves “poupem esforços” para seus clubes europeus, revelando uma subordinação explícita da nossa soberania esportiva aos interesses do capital internacional.
A Suprassunção Possível: Organização como Resistência Cultural
Diante desse quadro, o fatalismo é o maior aliado da dominação. Precisamos, enquanto classe trabalhadora e enquanto nação, romper com a passividade diante do espetáculo. A luta não é contra o futebol, mas contra a sua apropriação privada e imperialista. Assim como lutamos contra a precarização do trabalho (como discutimos em nosso texto sobre trabalho precário no Brasil) e pela memória de nossas lutas (como em “Nossas Memórias Atiradas pela Janela”), precisamos também disputar o significado do futebol. A questão é de organização política e soberania popular.
Não se trata de torcer menos, mas de entender mais. Precisamos exigir:
- Transparência nos contratos da CBF com a Fifa;
- Fim do calendário predatório que desvaloriza o futebol local;
- Fortalecimento de ligas nacionais como espaço de desenvolvimento de talentos e de geração de renda para a economia do país;
- Apoio a movimentos de torcedores que lutam por clubes geridos democraticamente, como associações civis, e não como empresas S.A. subordinadas ao capital especulativo.
A apropriação do amanhã, tema que tocamos em “Futuro, Filosofia e Disputa”, passa também por resgatar o futebol como expressão da nossa cultura, da nossa rebeldia e da nossa capacidade de criar laços de solidariedade. A Fifa e a geopolítica colonialista tentam nos tornar meros consumidores de um produto global. Nosso desafio é nos reconhecermos como sujeitos políticos, capazes de reinventar o jogo, dentro e fora de campo, a partir dos interesses da nossa classe. Que o apito final não seja o do conformismo, mas o do início de uma nova partida.
Referências e fontes:
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
- FIFA. Global Transfer Report 2023. Disponível em: fifa.com.
- DAMO, Arlei Sander. Futebol e Identidade Social: Uma Leitura Antropológica das Relações de Poder. Editora da UFRGS, 2011.
- SANTOS, Theotônio dos. Imperialismo e Dependência. Civilização Brasileira, 2000.
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