Dialética do Confronto: “Forçação de Barra” dos EUA e a Hora da Verdade para a Soberania Nacional
Por Walter Azevedo

A fala do secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, sobre a “forçação de barra” dos Estados Unidos ao ameaçar sanções contra bancos brasileiros não é apenas um alerta diplomático. É a superfície visível de um conflito de classes que se aprofunda na periferia do capitalismo. Vivemos um momento em que a velha subordinação cordial aos centros imperialistas já não funciona como antigamente. O que fazer quando o “parceiro comercial” decide nos tratar como colônia?
O Bruto da Aparência Imediata
Dias atrás, Durigan afirmou que o governo brasileiro vê com “tranquilidade” as movimentações estadunidenses, mas o tom de seu discurso denunciava o contrário. Ele falou em “forçação de barra” para justificar a ameaça de sanções contra instituições financeiras nacionais que mantenham relações com países considerados “adversários” dos EUA, como a China e a Rússia. O pano de fundo é a guerra fiscal e tecnológica entre as duas potências, e o Brasil, mais uma vez, é empurrado para a trincheira. É como se Washington dissesse: “Se vocês fizerem negócios com quem eu não gosto, pagam o preço”. A aparência imediata desse fenômeno é a de um desentendimento comercial, uma negociação tensa. Mas a essência é bem mais profunda, pois revela a natureza do imperialismo na era do capital financeirizado: a chantagem permanente.
A Essência da Relação Dependente
O alerta de Durigan precisa ser lido não como um ato de fraqueza, mas como a expressão de uma contradição histórica que o Brasil ainda não foi capaz de suprassumir. A dependência de nossa formação social ao capital estrangeiro, em especial ao capital financeiro estadunidense, nos coloca numa posição de fragilidade estrutural. Nossos bancos, mesmo sendo grandes, operam num sistema financeiro global controlado pelo dólar e regulado por Washington. A ameaça de sanções não é um acaso: é a ferramenta clássica do imperialismo para reafirmar sua hegemonia.
Ao analisarmos a conjuntura, percebemos que o movimento de Durigan visa, na verdade, ganhar tempo e espaço de manobra. Ele tenta dialogar com um setor da burguesia brasileira — o capital bancário e financeiro — que historicamente preferiu a subordinação a um projeto de soberania nacional. Esse setor tem seus lucros lastreados no sistema global, e não no desenvolvimento das forças produtivas internas. Por isso, a “forçação de barra” americana encontra ouvidos atentos entre nossos rentistas. O alerta, portanto, é um grito de alerta para a nossa classe: o capital não tem pátria? Tem, sim — a pátria do capital financeiro é o imperialismo e sua lógica de guerra comercial.
“O império do capital financeiro não aceita neutralidade. Ou você se submete às suas regras ou sofre as sanções. O Brasil precisa escolher: será colônia ou nação?”
A Superação Possível na Luta de Classes
Esse episódio nos coloca diante de uma encruzilhada política que nossa classe não pode ignorar. A reação de Durigan, ainda que necessária no curto prazo, é insuficiente. Precisamos de um projeto político que rompa com o ciclo de dependência. Não se trata de um isolacionismo ingênuo, mas de uma reorientação estratégica: fortalecer os laços com o Sul Global — com a China, a Rússia, a África do Sul e tantos outros — e, sobretudo, construir uma base econômica nacional robusta.
A ameaça de sanção revela o esgotamento do projeto de nação subalterna. A classe trabalhadora brasileira, ao contrário da burguesia financeira, tem muito a ganhar com a soberania. Precisamos de um sistema financeiro que sirva ao desenvolvimento, e não à fuga de capitais. Precisamos de um Estado que regule e controle os fluxos financeiros, impedindo que a chantagem externa se transforme em lei interna. A experiência de outros países, como a Rússia e a China, mostra que é possível construir mecanismos de defesa — como sistemas de pagamento alternativos e reservas cambiais estratégicas. A luta é dura, e a correlação de forças é desfavorável, mas não há outro caminho.
Uma Chamada à Ação Coletiva
O alerta de Durigan não pode ser uma nota de rodapé na imprensa. Ele deve se transformar em um debate político nas bases da classe trabalhadora. Se os bancos brasileiros forem sancionados, quem pagará a conta? Não serão os bilionários do sistema financeiro, mas sim o povo que depende do crédito, do salário e da moeda. A saída é a organização política para forçar um projeto nacional-popular que priorize a soberania sobre o lucro. Não há “forçação de barra” que resista a um povo organizado e consciente de que sua emancipação passa pela ruptura com a dependência imperialista.
A hora é de aprofundar a consciência de classe. Precisamos de quadros políticos que entendam a dialética desse confronto e estejam prontos para agir. A luta por um Brasil soberano é a luta de toda a classe trabalhadora. Não podemos terceirizar nossa história para as decisões de Washington.
Referências e Fontes
- Declaração de Dario Durigan: reportagens de 2026 sobre a fala do secretário executivo do Ministério da Fazenda sobre sanções americanas.
- Obras de Ruy Mauro Marini sobre a teoria da dependência e a dialética do capitalismo dependente.
- “Como Vencer na Grande Política”, de Walter Azevedo (Appris, 2023), especialmente o capítulo sobre a luta de classes na periferia do capitalismo.
- Análise de conjuntura sobre a guerra comercial EUA-China e seus impactos na América Latina (disponível em veículos como Brasil de Fato e Outras Palavras, 2025-2026).
- Blog EngajArte: Daniel Herz, 20 Anos Depois: Legado e Luta de Classes na Comunicação e Fifa e a Geopolítica Colonialista do Futebol.
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