segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Herz, 20 Anos Depois: Legado e Luta de Classes na Comunicação

Silêncio e Memória: O Legado de Daniel Herz, 20 Anos Depois

Por Walter Azevedo

Em 7 de junho de 2004, um tiro calou a voz de Daniel Herz, jornalista e militante da comunicação democrática. Vinte anos depois, o silêncio ainda ecoa nas redações, concessões de rádio e TV e algoritmos. A data passa despercebida na grande mídia — ironia trágica para quem denunciou os donos da opinião pública. Para nossa classe, revisitar sua luta é compreender como a comunicação se tornou campo de batalha central na disputa por hegemonia.

A Aparência: O Crime que a Mídia Engoliu

O assassinato de Daniel Herz, em 2004, chocou o meio jornalístico e foi arquivado como “latrocínio”. Dois suspeitos presos, nenhum mandante. A superficialidade das investigações e a omissão das entidades de classe produziram o esquecimento. O que a versão oficial não explica é o contexto de quem era Daniel: diretor da ABI, secretário de Comunicação do PT no Rio, coordenou a campanha pela regulamentação do artigo 221 da Constituição, que prevê complementaridade entre sistemas privado, público e estatal de radiodifusão. Enfrentava abertamente grupos como Globo e Sistema Liberal de Comunicação, interessados no oligopólio.

A Essência: Por Que Matam um Comunicador?

Para entender o silêncio em torno do caso, é preciso ir além da aparência de crime comum. O assassinato de um militante da comunicação é um ataque político à produção de consciência de classe. Nos anos 2000, a luta pela democratização da imprensa era ferramenta de disputa de hegemonia entre o projeto popular e a classe do capital, que sempre dominou os meios de produção simbólica no Brasil.

A comunicação é a mediação central da luta de classes. Quem controla a informação controla a interpretação da realidade. O capital financeirizado — que hoje domina veículos, plataformas e redes sociais — precisa que a classe trabalhadora enxergue o mundo de forma fragmentada. Um comunicador que denuncia o monopólio e propõe quebrá-lo é um inimigo a ser eliminado — não pela bala, se possível, mas pelo esquecimento, criminalização ou cooptação.

Os fatores em jogo

O caso Herz expõe uma contradição: enquanto debatemos regulação de plataformas nos anos 2020, a estrutura de propriedade dos meios permanece a mesma desde a ditadura. Concessões de rádio e TV, que deveriam ser renovadas a cada 15 anos, continuam nas mãos de políticos e empresários como patrimônio pessoal.

Entre 2004 e 2024, a concentração midiática aumentou: o Brasil tem uma das dez maiores do mundo, com 90% dos veículos controlados por cinco famílias ou grupos. Nenhuma grande reforma foi aprovada. O projeto de lei da Mídia Democrática (PL 4.888/2020), que retoma pontos da luta de Herz, está engavetado no Congresso.

Síntese e Superação: A Comunicação como Ferramenta de Classe

A morte de Herz não é apenas um crime sem solução. É sintoma de um sistema que precisa do silêncio para se reproduzir. Mas a classe trabalhadora deve extrair uma lição estratégica: a comunicação não é acessório — ela é a luta política em sua forma mais imediata.

Movimentos sociais, sindicatos e partidos populares passaram a investir em mídias próprias: rádios comunitárias, canais de YouTube, podcasts. Mas ainda estamos longe de construir uma hegemonia comunicacional que dispute com os monopólios. O capital financeirizado domina algoritmos e usa desinformação como arma de guerra híbrida.

É preciso retomar a agenda de Herz com radicalidade: lutar pela regulamentação constitucional da comunicação; exigir renovação de concessões com critérios democráticos; organizar a classe para ser ativa na produção e difusão de sua narrativa. Não se trata de “dar voz” — trata-se de construir nova correlação de forças, onde a informação sirva à práxis emancipadora, não à reprodução do capital.

Reflexão estratégica

Vinte anos são tempo suficiente para o esquecimento vencer. Mas a memória de Daniel Herz é ferramenta de luta. Seu assassinato não resolvido denuncia que o monopólio da informação se sustenta não apenas por leis, mas pela eliminação física dos que o enfrentam. Honrar sua memória exige que cada militante, jornalista popular e comunicador de base retome a democratização da mídia como eixo central da disputa hegemônica.

Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, “o poder de classe se consolida, antes de tudo, no âmbito da consciência. E a consciência se forja na luta pela interpretação do real”. Que Daniel Herz nos lembre disso todos os dias.

Referências e fontes:

  • Associação Brasileira de Imprensa (ABI). “Nota de Repúdio pelo Esquecimento do Caso Daniel Herz”, 2024.
  • Reporters Without Borders. “Media Ownership Monitor – Brazil”, 2024.
  • Projeto de Lei 4.888/2020 – Lei da Mídia Democrática (texto e tramitação em www.camara.leg.br).
  • Herz, Daniel. “A Comunicação Democrática e o Direito do Povo à Informação”, in: Cadernos da ABI, 2003.

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