sexta-feira, 26 de junho de 2026

Soberania nacional e tarifaço: a burguesia compradora e a dependência imperialista

Soberania nacional e tarifaço: a burguesia compradora e a dependência imperialista

Por Walter Azevedo

A recente escalada protecionista dos Estados Unidos, com o anúncio de novas tarifas sobre produtos industrializados de diversos países, reacendeu um debate que nossa classe insiste em jogar para debaixo do tapete: o que é, afinal, a soberania de uma nação periférica como o Brasil? Enquanto a grande mídia trata o assunto como mais um round das “guerras comerciais” entre potências, nós precisamos ir além da superfície para enxergar a verdadeira natureza dessa disputa e, mais importante, o papel que a nossa própria burguesia desempenha nesse jogo de cartas marcadas.

Ao contrário do que muitos pensam, a crise atual não é fruto de um mero desentendimento entre sócios do clube global. Ela revela uma contradição fundamental do capitalismo em sua fase imperialista: a necessidade incessante de expandir mercados e extrair mais-valia colide com os limites territoriais e políticos dos Estados nacionais. Mas, para o Brasil, o problema é mais profundo. Não estamos diante de uma briga entre iguais. Nosso lugar na divisão internacional do trabalho nos condena a ser o quintal onde as potências colhem matéria-prima barata e despejam seus produtos de alto valor agregado, muitas vezes com o apoio ativo de setores da nossa própria elite.

A natureza da nossa burguesia: compradora, não nacional

Para entender o entrave, precisamos superar a aparência de que existe uma “burguesia nacional” interessada no desenvolvimento autônomo do país. Autores como Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini já nos alertaram: a burguesia brasileira, em sua fração dominante, é uma burguesia compradora. Seu negócio não é produzir riqueza a partir da inovação e da soberania, mas sim intermediar a subordinação do nosso mercado aos interesses do capital financeirizado internacional. Ela lucra com a desvalorização do nosso trabalho, com a abertura comercial incondicional e com a drenagem de recursos para o exterior. O “tarifaço” americano, portanto, não é uma ameaça homogênea: para a indústria nacional que tenta competir, é um golpe; para a fração compradora que vive de importar e revender, é um detalhe, ou até uma oportunidade de pressionar por mais desregulamentação.

O resultado dessa aliança espúria é a crônica desindustrialização que vivemos. Não precisamos de números oficiais para sentir no bolso: o preço dos bens de consumo dispara enquanto nossa capacidade de gerar empregos de qualidade definha. Cada vez que uma montadora fecha uma fábrica ou que um parque tecnológico é desativado, não estamos apenas perdendo empregos — estamos perdendo a possibilidade de construir uma nação que decida seu próprio destino. A soberania nacional, nesse contexto, não é uma palavra vazia de estadista; é a condição material para que o povo brasileiro tenha futuro.

A totalidade do jogo: quem perde e quem ganha?

Ao olharmos para a conjuntura, precisamos conectar os pontos. Enquanto o governo brasileiro tenta costurar acordos bilaterais e o Itamaraty busca uma saída diplomática, o capital financeiro internacional movimenta seus tentáculos. O que está em jogo não é apenas a taxa de câmbio ou a balança comercial, mas a correlação de forças entre classes e nações. Cada medida protecionista dos Estados Unidos é um lembrete de que o imperialismo não é uma ideologia, mas uma relação de poder concreta, que se impõe pela força das armas, das finanças e das leis do mercado.

Não se engane: a “guerra comercial” é a forma que a crise estrutural do capitalismo encontra para redistribuir os prejuízos. E, nessa dança, o Brasil — com sua infraestrutura sucateada, sua dívida pública crescente e sua elite entreguista — é o parceiro que sempre paga a conta. Enquanto a classe trabalhadora europeia ou americana ainda mantém certos direitos conquistados em décadas de luta, a nossa força de trabalho é superexplorada, sem rede de proteção, exatamente como analisamos no caso da pejotização e da uberização. É a mesma lógica de dependência, agora escancarada no plano das relações entre Estados.

Mediações e luta: para além do imediato

O caminho da superação não está em pedir “mais mercado” ou “menos Estado”, como querem os liberais. Tampouco se resolve com um nacionalismo ufanista que ignore a luta de classes interna. Precisamos de uma mediação política que articule a defesa da soberania com a construção de um projeto popular. Isso significa, concretamente, lutar por um Estado que rompa com a subordinação financeira, que invista em ciência e tecnologia, que proteja o trabalho e que enfrente de frente os interesses da burguesia compradora.

Não é uma tarefa para amanhã, mas é a única perspectiva que nos tira da inércia. Como escrevemos em "Como Vencer na Grande Política", a transformação da realidade exige que a teoria se converta em práxis organizada. Não basta denunciar o imperialismo em abstrato; precisamos construir a força política capaz de disputar a hegemonia dentro da nossa própria sociedade.

O tarifaço americano não é um desastre natural. É uma consequência lógica da nossa posição de dependência. Mas essa posição não é imutável. A história nos mostra que as nações que quebraram o ciclo da subordinação — como a China, em seu processo revolucionário — o fizeram porque combinaram desenvolvimento interno com ruptura política. Nós, brasileiros, temos todas as condições materiais para fazer o mesmo: recursos naturais, território, um povo lutador e uma classe trabalhadora que, mesmo golpeada, não se entrega. O que nos falta é a consciência de que a soberania não se negocia: se constrói.

Referências e fontes

  • Walter Azevedo, Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023).
  • Ruy Mauro Marini, Dialética da Dependência (1973).
  • Theotônio dos Santos, Imperialismo e Dependência (1978).
  • Dados do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) e do IBGE sobre desindustrialização e balança comercial brasileira.

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