Petro questiona resultados do primeiro turno na Colômbia: Quando a democracia formal não é suficiente
Por Walter Azevedo

O barulho das urnas e o silêncio estrutural
O presidente Gustavo Petro fez o que qualquer militante político minimamente afinado com a realidade faria: questionou publicamente os resultados do primeiro turno, apontando irregularidades e denunciando o "golpe midiático-judicial". Antes que os arautos da democracia liberal recitem seu mantra sobre "aceitar os resultados", precisamos perguntar: que democracia é essa que condena a dúvida como crime e trata a denúncia como heresia? Não estamos falando de um líder autoritário inconformado com a derrota, mas de um presidente que enfrenta um Congresso hostil, um judiciário capturado e uma mídia que transforma cada passo de seu governo em espetáculo de horror.
O jogo está marcado? O que está por trás da fumaça
A contradição é nítida e se desdobra em dois planos. De um lado, o processo eleitoral colombiano é formalmente exemplar: urnas eletrônicas, observação internacional, prazos legais. Do outro, a luta de classes nunca tira férias eleitorais. Enquanto Petro tenta implementar reformas estruturais — agrária, trabalhista, previdenciária — a velha oligarquia articula nos bastidores para manter o controle do Estado. O empresariado, latifundiários e forças armadas veem no governo Petro uma ameaça real a privilégios centenários. O questionamento não é birra: é a tentativa de expor que a democracia colombiana funciona para manter o poder onde sempre esteve. A ironia histórica é cruel: a mesma burguesia que aplaude o "Estado de Direito" quando protege seus lucros o rasga quando seus interesses são ameaçados.
Quem ganha com a instabilidade? Quem perde com a transparência? O capital financeirizado, que não se importa com bandeiras partidárias desde que os lucros dos bancos sejam garantidos. A velha mídia colombiana, que tratou guerrilheiros como terroristas e empresários como estadistas. O imperialismo norte-americano, que prefere uma Colômbia "estável", mesmo que essa estabilidade seja a da exclusão e violência.
A dialética entre o imediato e o profundo
O que vemos na superfície é um presidente contestando o resultado de uma eleição regional. Na essência, o que está em jogo é o projeto de poder popular na Colômbia. Petro não é um governante qualquer: ele encarna uma tentativa histórica de romper com o domínio das classes dominantes, sustentado por décadas de violência paramilitar e subordinação aos Estados Unidos. Questionar a lisura do processo é recusar-se a aceitar que a democracia se reduza a um procedimento de quatro em quatro anos.
A Colômbia vive o que chamamos de democracia restrita: instituições funcionam dentro de limites impostos pelo poder econômico. Os meios de comunicação não informam, formam — deformam. O Judiciário não julga, persegue. O parlamento não legisla, obstrui. Cada denúncia de Petro não é um ataque à democracia, mas à farsa democrática que sempre governou o país.
Lições para nossa luta: o que isso nos ensina no Brasil
A situação colombiana é um espelho para nós. Quando Lula foi eleito em 2022, vimos um Judiciário que agiu rapidamente para condenar adversários políticos? Uma mídia que concedeu espaço para propostas populares? Ou vimos o mesmo roteiro: manobras jurídicas, narrativa de crise e um parlamento conservador que impede avanços estruturais? A diferença é que aqui, por enquanto, a direita prefere atuar dentro das regras — mas as regras foram feitas para nos manter fora do poder.
O caso colombiano explicita uma verdade desconfortável: a classe do capital nunca aceitará uma derrota eleitoral que ameace seus interesses. Se não conseguir vencer nas urnas, tentará nos tribunais, no parlamento, na mídia ou, se necessário, nas ruas — com violência e desestabilização. O governo Petro luta para sobreviver em um ambiente hostil, e a contestação dos resultados é parte dessa luta.
O que fazer? Organizar a desconfiança
A saída não é abandonar a disputa institucional, mas entendê-la como campo de batalha e não como templo sagrado. Precisamos construir o que chamo de democracia substantiva: controle popular sobre as instituições, participação direta das massas organizadas, conselhos populares que fiscalizem cada etapa do processo. A classe trabalhadora não pode delegar sua luta apenas a representantes — precisa ocupar as ruas, sindicatos, movimentos sociais e as urnas, com a consciência de que a verdadeira transformação virá da organização coletiva e da capacidade de impor derrotas à burguesia.
O questionamento de Petro é legítimo não porque ele tenha razão em cada denúncia, mas porque representa a recusa em aceitar que o jogo político seja definido por quem controla o dinheiro, os canhões e as manchetes. A lição para a esquerda brasileira é clara: não podemos cair na armadilha do "institucionalismo ingênuo". Elas também são uma ferramenta valiosa para construir projetos populares, mas precisam vir acompanhadas de práxis organizativa e luta de massas.
O destino da Colômbia nos afeta diretamente. A América Latina é um laboratório de experiências populares e contra-revolucionárias. O que acontece em Bogotá ecoa em Brasília, Buenos Aires, Lima. Apoiar a resistência do governo Petro não é solidariedade abstrata: é entender que nossa luta é uma só, unida pela mesma contradição fundamental.
Para seguir em frente
A conjuntura colombiana exige um olhar dialético: enxergar o imediato (a contestação dos resultados), desvelar a essência (a luta de classes) e apontar a superação (a organização popular para além das eleições). Não basta torcer por Petro. Precisamos aprender com seus acertos e limites. A construção de um projeto nacional-popular na América Latina passa por essa compreensão.
E você, leitor, o que acha desse cenário? Como articular a solidariedade internacionalista com a luta no Brasil? Deixe seus comentários. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a teoria é um guia para a ação — e a ação exige análise, organização e coragem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário