segunda-feira, 29 de junho de 2026

Big techs e hegemonia: quem controla a informação controla a correlação de forças

Monopólio da fala: quem controla o algoritmo, controla a correlação de forças

Por Walter Azevedo

Na última quarta-feira, a Meta suspendeu mais de duas mil contas de movimentos populares na América Latina sob justificativa genérica de "coordenação de influência oculta". O argumento seria técnico, se não fosse seletivo: nenhuma operação similar ocorreu contra redes bolsonaristas ou canais que lucram com desinformação golpista. O debate não é sobre "moderação de conteúdo", mas sobre a disputa objetiva de quem pode falar, para quem e em que termos na esfera pública digital. O algoritmo não é neutro: é a mediação concreta entre a infraestrutura da plataforma e o campo de batalha ideológico.

Os donos do território digital

Google, Meta, Apple, Amazon e Microsoft controlam mais de 70% do tráfego global de dados e quase toda a infraestrutura de nuvem. Elas são agentes políticos do capital financeirizado, não prestadoras de serviço. Cada mudança no algoritmo do Instagram ou YouTube ajusta a correlação de forças. Um movimento sindical que depende de alcance orgânico para mobilizar uma greve pode ter sua visibilidade cortada da noite para o dia. Já um think tank financiado por fundações estadunidenses compra impulsionamento massivo sem questionamento. A assimetria não é técnica, é de classe.

Essas plataformas são territórios privados, não praças públicas. A circulação da informação é regulada por contratos unilaterais. Quando a Meta decide que um conteúdo sobre reforma agrária na Colômbia viola diretrizes, não só remove um post: determina quais narrativas podem existir. Esse poder, antes dos jornais de papel controlados por oligarquias nacionais, hoje está concentrado em mãos estrangeiras, a serviço do capital imperialista.

Da aparência de liberdade à essência do controle

Na aparência, temos uma "praça digital" onde todos falam. Na essência, há uma estrutura de mediação que define quem alcança audiência e quem fala ao vazio. A tese do "livre mercado de ideias" sempre foi uma farsa liberal, hoje operacionalizada por algoritmos que silenciam vozes dissonantes sem usar "censura". Um perfil que denuncia exploração do trabalho no agro brasileiro é sombreado; outro que defende o agronegócio é impulsionado. Não há conspiração: há a lógica do capital.

"A burguesia não precisa proibir diretamente a fala do oprimido: basta tornar economicamente inviável sua amplificação. E ela faz isso com maestria."

O Digital News Report 2025 indica que 83% do tráfego de notícias políticas em países do Sul Global passa por plataformas estadunidenses. No Brasil, mais de 60% dos acessos a conteúdos de esquerda dependem exclusivamente do alcance orgânico em Instagram e WhatsApp. Nossa capacidade de comunicação está hipotecada à boa vontade de CEOs que lucram com publicidade e extração de dados. Dependência tecnológica se torna dependência política.

Regulação, soberania e organização popular

É preciso politizar o debate sobre regulação. O PL 2630, no Congresso brasileiro, tenta enfrentar o problema, mas sua tramitação foi atrasada por big techs e setores do centrão que lucram com desinformação. A burguesia compradora brasileira, como vimos no debate sobre o tarifaço, não rompe a subordinação imperialista; beneficia-se do controle estrangeiro sobre a comunicação.

A saída passa por três frentes:

  • Regulação antimonopolista: quebrar o oligopólio das big techs com regras de interoperabilidade, transparência algorítmica e responsabilidade sobre desinformação política.
  • Fortalecimento de plataformas soberanas: investimento público em alternativas digitais com código aberto e governança democrática, controladas por Estados ou cooperativas.
  • Organização comunicacional da classe trabalhadora: construir redes próprias — blogs, canais de sindicatos, jornais de base — que não dependam exclusivamente do alcance privado.

A luta de classes também é comunicacional

Não há hegemonia sem controle sobre os meios de produção da informação. A classe do capital investiu bilhões em jornais, rádios, TVs e big techs. Nossa classe precisa aprender a mesma lição. A vitória de Gustavo Petro na Colômbia enfrentou guerra midiática violenta, como mostramos na análise sobre questionamentos ao primeiro turno, e a comunicação popular foi essencial para furar o bloqueio.

A superação dessa contradição virá da organização política que transforme a luta comunicacional em parte do projeto de soberania nacional. Precisamos construir uma esquerda que entenda que o algoritmo não é destino — é campo de batalha. Quem não ocupa, perde.

Controlar a informação é controlar as condições materiais em que a consciência de classe se forma ou se deforma. E essa luta — pela verdade, pela narrativa, pela memória — é tão importante quanto a luta pelo salário, pelo teto ou pela terra. Afinal, qual revolução venceu sem conquistar o direito de contar sua própria história?

Referências e fontes:
- ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
- FONSECA, Francisco. Mídia, Poder e Democracia. São Paulo: Editora Unesp, 2022.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023. (capítulo 4 – "A batalha comunicacional como frente de luta de classes")
- Reuters Institute for the Study of Journalism. Digital News Report 2025. Universidade de Oxford, 2025.

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