quarta-feira, 1 de julho de 2026

Big Techs e desinformação: ameaça sistêmica às eleições alertam em Recife

A hegemonia digital ameaça a soberania popular: nas eleições de 2026, o voto não decide tudo

Por Walter Azevedo

No Recife, um fórum de comunicação reuniu especialistas para alertar sobre o óbvio que insistem em esconder: as big techs, comandadas por uma oligarquia bilionária do Norte global, estão transformando o processo eleitoral brasileiro em um grande cassino de desinformação. Enquanto a mídia tradicional se perde em debates sobre qual candidato "venceu" o debate nas redes, o verdadeiro jogo se desenrola nos algoritmos que decidem o que você vê, quando vê e como vê. A liberdade de expressão, esse conceito sagrado para a classe do capital, virou um biombo para a maior máquina de manipulação de massas que a história já conheceu. Mas a pergunta que ninguém quer fazer é: quem lucra com isso?

A superfície do problema: desinformação e tecnocracia

A manchete parece simples: debatedores alertam que big techs ameaçam eleições. Notícia velha, diriam os cínicos. Mas o que se esconde por trás da aparência? O fenômeno imediato é o tsunami de notícias falsas, vídeos manipulados e perfis-fantasma que agem como formigas numa colônia organizada. Estima-se que, nas eleições de 2022, mais de 80% dos brasileiros foram expostos a algum conteúdo falso sobre o processo eleitoral — e a estrutura para 2026 é infinitamente mais sofisticada. As plataformas não são meros canais neutros; são arquitetas ativas do que vemos. Quando o algoritmo privilegia o conteúdo da extrema direita, não se trata de um erro técnico, mas de uma decisão política. E a decisão, como sempre, serve a um projeto de poder.

A essência da contradição: capital financeiro e controle da hegemonia

Precisamos ir além da superfície. Não se trata apenas de "desinformação". Trata-se de uma guerra de classes travada no campo da comunicação. As big techs — Google, Meta, X (ex-Twitter), TikTok, Amazon — são, acima de tudo, braços do capital financeirizado internacional. Elas lucram bilhões com a atenção humana e vendem essa atenção para a classe do capital. A desinformação não é um defeito; é uma funcionalidade. Quanto mais polarização, mais engajamento; quanto mais engajamento, mais dados; quanto mais dados, mais controle. E quem controla a informação controla a correlação de forças, como discutimos em nosso artigo sobre big techs e hegemonia.

O nó górdio está na soberania nacional. Enquanto as decisões sobre o que é ou não desinformação forem tomadas em Vale do Silício, a democracia brasileira será um simulacro. Quando um bilionário californiano decide que um candidato progressista é "perigoso" e outro é "confiável", estamos diante de uma intervenção imperialista direta, ainda que digital. E não se enganem: o capital não quer o caos pelo caos. O capital quer um Estado que lhe seja favorável, que privatize seus serviços públicos como a água e a energia, que fragmente a classe trabalhadora e que impeça qualquer projeto de soberania popular. A desinformação é a ferramenta para construir o consenso em torno do entreguismo, como vimos no debate sobre a burguesia compradora e a dependência imperialista.

A superação possível: organização, regulação e projeto popular

Mas não podemos cair no derrotismo. A luta pela regulação das big techs não é um debate técnico; é uma disputa política de primeira ordem. O Projeto de Lei 2630/2020, o chamado PL das Fake News, foi enterrado no Congresso pela pressão das próprias big techs e de seus lacaios na política nacional. Isso nos mostra que a luta não se ganha apenas na lei, mas na correlação de forças. Precisamos de três movimentos simultâneos:

  • Regulação democrática das plataformas: transparência nos algoritmos, responsabilização civil e criminal das empresas por danos eleitorais, proibição de publicidade segmentada politicamente.
  • Fortalecimento da comunicação pública e popular: financiamento de mídias comunitárias, sindicais e alternativas que não se submetam ao algoritmo do lucro.
  • Organização da classe trabalhadora no campo digital: formação política sobre como essas ferramentas funcionam e como podemos usá-las contra o capital, sem nos iludirmos com elas.

O fórum no Recife acertou ao colocar o dedo na ferida. Mas faltou dizer que a saída não é pedir regulação, é construir força social para impor a regulação. As big techs não vão se autorregular — isso é uma ficção infantil. Elas precisam ser enfrentadas por um movimento político organizado que una sindicatos, movimentos sociais, partidos progressistas e a juventude que já sente na pele o peso da alienação digital.

Conclusão: a próxima batalha é nossa

Em 2026, a disputa não será apenas entre candidatos. Será entre dois projetos de país: um que quer um Brasil soberano, com trabalhadores organizados e comunicação livre; e outro que quer um Brasil colônia digital, onde a classe do capital decide o que é real e o que é mentira. A desinformação é a arma deles. A nossa arma é a consciência de classe, a organização política e a construção de alternativas concretas. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a luta não se dá no vazio, mas na totalidade das relações sociais. E a totalidade, hoje, inclui a batalha pelo controle da informação.

Que saiamos do Recife não apenas com alertas nos ouvidos, mas com tarefas nas mãos.

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Fontes e referências:

  • Fórum de Comunicação do Recife — debates sobre desinformação e eleições (2026).
  • MARTINS, Helena. Comunicação e luta de classes. São Paulo: Expressão Popular, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • Relatório "Democracia Sob Ataque" — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 2024.