terça-feira, 14 de julho de 2026

Esquerda na América Latina: limites da via eleitoral e resistência das elites

Esquerda na América Latina: os limites da via eleitoral e a resistência das elites

Por Walter Azevedo

Há poucos anos, a América Latina viveu uma primavera progressista. Governos de esquerda e centro-esquerda chegaram ao poder no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia e México prometendo enfrentar a desigualdade histórica e retomar a soberania nacional. O balanço, no entanto, é amargo. A onda azul varreu o continente e, onde a esquerda se manteve, governa sob constante cerco. O que explica essa fragilidade das maiorias eleitas? A resposta não está na qualidade dos programas ou na virtude dos líderes, mas na natureza da correlação de forças que o jogo eleitoral não altera sozinho.

O palco e os bastidores

As eleições são o momento de maior visibilidade da luta de classes, mas também a arena onde as elites econômicas aceitam perder uma batalha para não perder a guerra. A via eleitoral não transfere o poder real: decisões sobre investimento, preços, juros e câmbio continuam nas mãos de quem detém os meios de produção e o sistema financeiro. O Congresso é palco, mas os roteiros são escritos nos conselhos de administração e nas salas fechadas dos bancos.

Tomemos o Chile. Em 2021, Gabriel Boric venceu com discurso de transformação radical. Dois anos depois, enfrenta rejeição maior que a da direita. As classes dominantes chilenas, articuladas com o capital internacional, impuseram derrota no plebiscito constitucional e inviabilizaram reformas estruturais. A mesma dinâmica se repetiu no Brasil: Lula venceu em 2022, mas governa sob fogo cerrado de um Congresso hegemonizado pelo centrão e pelo agronegócio, que impõem austeridade fiscal e transferência de renda ao capital financeiro. A via eleitoral é necessária, mas insuficiente.

A resistência das elites: recuo tático, ofensiva estratégica

A burguesia latino-americana aprendeu a lição de 2003-2015. Durante aquele ciclo, a esquerda governou com preços das commodities nas alturas, distribuindo renda sem confrontar o capital. Quando a crise global de 2008 e a queda dos preços das matérias-primas apertaram o cerco, as elites reagiram não com golpe militar clássico, mas com estrangulamento fiscal, judicialização da política e ofensiva ideológica. O impeachment de Dilma Rousseff em 2016 é o exemplo mais acabado: a burguesia não precisou de tanques, apenas de interpretação criativa da lei e parlamento dócil.

Esse processo revela uma verdade dura: a via eleitoral, sem organização popular permanente e controle sobre meios de produção e comunicação, é uma prisão dourada. A esquerda ganha o governo, mas não o poder. As elites mantêm controle sobre a economia real e a narrativa midiática, criando governos que administram a crise do capitalismo dependente, incapazes de romper com a subordinação estrutural aos EUA e ao sistema financeiro internacional.

O gargalo da estratégia: institucionalismo sem poder popular

O problema central não é a disputa eleitoral, mas o abandono da construção de poder popular como eixo estratégico. Partidos de esquerda se profissionalizaram a ponto de confundir conquista de cargos com transformação social. Sem organização nos bairros, locais de trabalho e movimentos sociais, a práxis transformadora reduz-se a administrar o capitalismo com rosto humano. Quando a crise aperta, a máquina estatal, capturada pelas oligarquias, engole o governante de esquerda.

Segundo a CEPAL, a taxa de pobreza na América Latina recuou durante o boom das commodities, mas voltou a subir depois de 2015, atingindo 32% da população em 2023. A concentração de renda do 1% mais rico continua entre as mais altas do mundo. A reforma agrária não avançou em nenhum país na última década. A dependência tecnológica e financeira se aprofundou. A esquerda mitiga a miséria com programas de transferência de renda, mas não enfrenta causas estruturais por confrontar o capital financeirizado e o imperialismo.

Para além do Estado: rearticular o poder da classe trabalhadora

A saída não é abandonar a disputa eleitoral, mas rebaixá-la a uma tática dentro de estratégia maior. O centro da luta deve ser a reorganização da classe trabalhadora como sujeito político autônomo, capaz de impor demandas independentemente de quem ocupa o palácio. Isso implica retomar a construção de sindicatos combativos, movimentos populares de base, conselhos populares e formas de democracia direta que existam antes, durante e depois dos governos de esquerda.

O exemplo do MST no Brasil é paradigmático: quando o governo Lula recuou na reforma agrária, o movimento pressionou e manteve viva a pauta. A Venezuela bolivariana ensina que a ruptura só é possível quando o povo está organizado em conselhos. O limite da via eleitoral não é convite ao derrotismo, mas chamado à radicalização da democracia. Precisamos de menos institucionalismo e mais poder popular, menos foco no palácio e mais organização nas bases, menos ilusão no Estado burguês e mais construção de contra-poder.

A resistência das elites é feroz, mas a história não está escrita. As contradições do capitalismo dependente se aprofundam, e a crise climática, a financeirização e o aumento da desigualdade criam condições objetivas para nova onda de lutas. Cabe à esquerda aprender com erros do passado e construir a organização necessária para transformar a correlação de forças não apenas nas urnas, mas nas ruas, nos campos e nas fábricas. A próxima primavera, se vier, será construída com mais consciência e menos ilusão.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Habitação e especulação: por que o déficit habitacional é estrutural no Brasil

Da casa ao ativo financeiro: como a especulação imobiliária fabrica o déficit habitacional

Por Walter Azevedo

Em qualquer cidade brasileira, uma contradição salta aos olhos: prédios vazios e terrenos baldios convivem com famílias em cortiços, aluguéis que consomem metade do salário e falta de moradia. O déficit habitacional não é um acidente de percurso, corrigível com algumas unidades do Minha Casa, Minha Vida. Ele é estrutural, orgânico ao modo como nossa sociedade organiza o espaço urbano. Para compreendê-lo, é preciso abandonar a lente da "falta de planejamento" e adotar a da luta de classes no chão da cidade.

O fenômeno concreto: o drama cotidiano da moradia

Milhões de brasileiros vivem em condições precárias, dividindo cortiços, construindo barracos em áreas de risco ou empilhando-se em periferias distantes. O aluguel, nas capitais, supera frequentemente o gasto com alimentação. Enquanto isso, o mercado imobiliário ostenta lançamentos de luxo e estúdios vendidos como "investimento". A máquina de produzir miséria habitacional funciona em marcha lenta para os pobres e em velocidade máxima para o capital.

Este não é um problema técnico. O Brasil não é pobre: somos uma das maiores economias do mundo. Falta não são tijolos ou cimento, mas uma organização social que coloque a moradia como direito, e não como mercadoria subordinada ao lucro. Aqui reside o nó da questão.

Por trás da superfície: os interesses que comandam o solo urbano

O que explica estoques imensos de imóveis vazios e terrenos ociosos em áreas centrais, apesar do déficit de milhões de moradias? A resposta não está na "ineficiência do mercado", mas na sua lógica íntima. A terra urbana é um monopólio natural. Quem a detém decide seu uso e preço. No capitalismo financeirizado, a terra tornou-se ativo financeiro, reserva de valor, objeto de especulação.

É mais lucrativo manter um terreno vazio no centro, aguardando valorização futura com obras públicas, do que construir habitação popular. É mais rentável erguer um prédio de luxo com 20 unidades do que 200 moradias populares. Onde o lucro é menor, o capital não vai. A moradia para a classe trabalhadora, sem subsídio estatal ou organização popular, oferece margens inferiores à especulação e ao mercado de alto padrão.

Este mecanismo não é natural. O capital imobiliário e financeiro capturou o Estado, moldando legislação, zoneamento e política fiscal. O solo urbano virou um cassino. A mesma lógica que vimos na dívida pública transferindo renda do trabalho ao capital se reproduz: o direito à cidade é leiloado ao maior lance.

Mediações históricas e o padrão de dependência

A financeirização da moradia não é exclusiva do Brasil, mas ganha contornos de nossa formação dependente. Em países centrais, o Estado de bem-estar construiu parques habitacionais públicos. Aqui, a urbanização acelerada expulsou pobres para periferias desassistidas, combinando especulação privada com omissão estatal. Programas habitacionais serviram mais para aquecer o setor da construção civil do que para resolver o problema.

O Minha Casa, Minha Vida é exemplo clássico dessa contradição. Criou milhões de unidades, mas muitas vezes em locais distantes, repetindo a periferização. Sua lógica de mercado engordou lucros de construtoras e bancos, sem atacar o monopólio fundiário. Hoje, fundos imobiliários e aluguéis de curta temporada (como Airbnb) retiram unidades do mercado permanente, transformando lares em mercadorias financeiras. Este padrão é funcional ao capital financeirizado: a drenagem de recursos para o rentismo encontra no solo urbano mais um canal fértil, assim como a privatização da Corsan no Rio Grande do Sul transferiu a água para o controle privado.

A superação possível: reforma urbana e ação coletiva

A saída não está em "mais mercado" ou políticas paliativas. Superar o déficit exige enfrentar o monopólio da terra urbana. Isso significa reforma urbana que submeta a propriedade à função social, conforme prevê nossa Constituição. Implica taxar terra ociosa, desapropriar imóveis abandonados, fortalecer a construção pública direta, regular o aluguel e criar financiamento não capturado pelo capital financeiro.

Não é utopia, mas projetos na ordem do dia de lutas urbanas mundiais. A chave é política. A reforma não será dada pelo Estado burguês; ele é parte do problema. Ela avançará se imposta pela organização e luta da classe trabalhadora e dos movimentos populares. Precisamos quebrar o poder dos monopólios imobiliários e colocar o direito à cidade no centro do projeto nacional.

A moradia é síntese de contradições entre capital e trabalho, necessidade humana e lógica do lucro. Resolvê-la aponta para a superação do sistema. Cada ocupação organizada, cada lei de função social aprovada, cada debate sobre aluguel e direito ao centro é uma batalha nessa guerra de posição. A casa não é mercadoria. É chão para a vida, para os filhos, para o descanso. E esse chão precisa ser conquistado.

Referências e fontes para aprofundamento

  • Fundação João Pinheiro. Déficit Habitacional no Brasil (séries históricas).
  • MARICATO, Ermínia. O impasse da política urbana no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2011.
  • ROLNIK, Raquel. Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.
  • O debate sobre a captura do Minha Casa, Minha Vida pelo capital imobiliário (diversos artigos acadêmicos e reportagens investigativas sobre o tema).

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Dívida pública e juros altos: transferência de renda do trabalho ao capital financeiro

Dívida pública e juros altos: a transferência do suor da classe trabalhadora para o rentista improdutivo

Por Walter Azevedo

Enquanto o governo discute se corta verba da saúde, da educação ou das universidades federais, uma lógica silenciosa drena os recursos do fundo público para o bolso de quem já tem muito. O debate sobre o novo arcabouço fiscal e a meta de inflação esconde a raiz do problema: o orçamento público brasileiro é uma máquina de transferir renda do trabalho para o capital financeirizado. E o instrumento central dessa engrenagem é a dívida pública. Quer entender por que falta dinheiro para o SUS e sobra para pagar juros estratosféricos? É preciso virar a lupa para a superfície e enxergar as contradições reais da nossa formação social dependente.

O cofre que sangra para os rentistas

O fenômeno é concreto e brutal. Todo ano, o governo federal gasta centenas de bilhões de reais com o pagamento de juros e serviços da dívida pública. Esse valor supera, de longe, os investimentos em educação, saúde e infraestrutura somados. A sobra para o trabalhador é migalha, enquanto a fatia do bolo reservada aos bancos, fundos de investimento e grandes rentistas é generosa e garantida por lei. Essa não é uma falha técnica de gestão. É uma escolha política que reflete a correlação de forças na sociedade brasileira: o capital financeiro, na sua forma mais parasitária, capturou o Estado e o transformou no seu principal cliente e fiador.

O Banco Central, com sua autonomia formal, atua como o zelador desse pacto. Ao determinar a taxa básica de juros (Selic) em patamares reais entre os mais altos do planeta, ele não apenas encarece o crédito para todos — empresas e famílias — como também engorda artificialmente a dívida pública. Afinal, uma parte significativa dos títulos do Tesouro está indexada à Selic: quanto maior o juro, maior o custo mensal da dívida, maior o superávit primário necessário para pagá-la. E quem cobre a conta? A classe trabalhadora, com seus impostos regressivos, e o povo, com a deterioração dos serviços públicos.

“A dívida pública não é um problema econômico; é uma ferramenta de dominação de classe que, sob a capa da técnica orçamentária, mantém a subordinação do Brasil ao sistema financeiro global.”

Os bastidores: lógica da financeirização e entrega da soberania

Aprofundando a análise, o que está por trás desse mecanismo é a própria natureza do capital financeirizado em uma economia periférica. O sistema da dívida pública se articula com a superexploração da força de trabalho e com a dependência estrutural do Brasil. Para atrair capitais estrangeiros e segurar a inflação do consumo, o governo premia o capital portátil com juros altos. O resultado é um círculo vicioso: a dívida cresce, o serviço da dívida engole o orçamento, e o ajuste fiscal recai sobre o gasto social.

Os defensores dessa política repetem o mantra da “austeridade”: é preciso pagar a dívida para manter a “credibilidade”. Mas essa credibilidade interessa a quem? Aos mesmos grupos que, através do sistema financeiro, drenam o excedente econômico produzido pelo trabalho no Brasil. Enquanto isso, a classe do capital nacional, em grande parte associada ao capital internacional, não pressiona por uma ruptura. Prefere lucrar com a ciranda financeira a investir na produção real e na geração de emprego digno. A soberania nacional é trocada por uma âncora cambial dependente e por um status de colônia financeira moderna.

Para onde ir: luta política e controle do fundo público

Há saída, mas ela não virá da tecnocracia do mercado. A superação dessa armadilha fiscal exige uma ofensiva política da classe trabalhadora e das forças populares em três frentes inseparáveis. Primeiro, é preciso aprofundar a desindexação da economia, retirando a âncora dos juros altos e do superávit primário como dogma. A taxa Selic precisa cair, e o Banco Central precisa servir a um projeto de desenvolvimento, e não aos interesses dos rentistas.

  • Mudança na política de juros: Reduzir a Selic de forma significativa e imediata, desmontando o mecanismo que transfere renda ao capital financeirizado.
  • Reestruturação da dívida pública: Alongar prazos e reduzir juros, com forte controle do Estado sobre o sistema financeiro. Os bancos públicos devem liderar essa agenda.
  • Tributação dos super-ricos e do capital: Impostos sobre grandes fortunas, dividendos e lucros do setor financeiro para financiar o Estado social e não o Estado rentista.

Não se trata de uma visão moralista contra os bancos, mas de uma análise sobre quem paga a conta e quem embolsa o lucro. A luta contra a dívida pública predatória é, no fundo, a luta por um projeto nacional-popular que coloque a vida acima da rentabilidade. É a disputa pelo fundo público: ele servirá para garantir saúde, educação e salário, ou para alimentar a ciranda financeira? A resposta está nas ruas, na organização sindical e na consciência de classe.

Como escrevi em “Como Vencer na Grande Política”: “A política não se faz com boa vontade, mas com correlação de forças”. Se a classe trabalhadora não pautar o debate, os juros continuarão altos e o orçamento será sempre o fiador da miséria.

Referências e fontes:

O post se baseia em dados públicos do Banco Central, do Tesouro Nacional e do Orçamento Geral da União. Para um aprofundamento teórico sobre o tema, recomenda-se a leitura de:

  • Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado — para entender a subordinação histórica do capital nacional.
  • A Crise do Estado Desenvolvimentista, de Theotônio dos Santos — para pensar a dependência financeira.
  • Como Vencer na Grande Política, de Walter Azevedo (Appris, 2023) — para a análise de classes aplicada ao orçamento e ao fundo público.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Redução da jornada de trabalho: do fim da escala 6x1 à disputa pelo tempo de vida

Redução da jornada de trabalho: do fim da escala 6x1 à disputa pelo tempo de vida

Por Walter Azevedo

Um projeto de emenda constitucional que propõe o fim da escala 6x1 dorme nas gavetas do Congresso, enquanto milhões de brasileiros vendem seis dias de sua vida por semana para um único dia de descanso. Discutir a redução da jornada é entrar no centro da luta de classes no século XXI: a disputa pelo tempo da vida.

Esse debate não é novo. A classe trabalhadora sempre lutou contra a voracidade do capital. Conquistas como as oito horas diárias e o descanso semanal foram arrancadas a ferro e fogo. Hoje, com automação, inteligência artificial e plataformas digitais, a contradição se aprofunda: produz-se mais em menos tempo, mas o trabalhador não se liberta; apenas se desemprega ou se superexplora.

A escala 6x1 como expressão da superexploração

A escala 6x1 é regra em setores como comércio, serviços, telemarketing e logística. Ela materializa a lógica do capital financeirizado: extrair o máximo de mais-valor comprimindo a existência humana a um ciclo de trabalho, deslocamento e adoecimento.

Segundo o Dieese, mais de 30% dos trabalhadores formais no Brasil ultrapassam 44 horas semanais. No trabalho informal e nas plataformas digitais, a realidade é mais selvagem: o entregador trabalha 12 ou 14 horas para uma renda que mal cobre despesas. O capital não quer tempo livre; quer disponibilidade total, disfarçada de "autonomia".

A redução da jornada não é apenas pauta reformista. É necessidade estrutural diante da superexploração da força de trabalho, conceito de Ruy Mauro Marini que define o pagamento abaixo do valor da força de trabalho para compensar perdas do capital.

Tempo de vida versus tempo de lucro

A burguesia alega que reduzir a jornada inviabiliza a produção e gera desemprego. Mas a história mostra o contrário: quando a jornada caiu de 12 para 8 horas diárias no início do século XX, a produtividade aumentou, os acidentes diminuíram e o capitalista continuou lucrando.

O que está em jogo não é se a economia "aguenta" trabalhar menos. A pergunta é: quem controlará o tempo socialmente disponível? Hoje, o capital controla o tempo de 90% dos trabalhadores. A redução da jornada, com fortalecimento sindical e regulação das plataformas, aponta para a soberania do trabalhador sobre sua própria vida.

Não se trata de mendigar uma emenda ao Congresso, hegemonizado pelo capital. Trata-se de construir correlação de forças para impor essa prioridade. Uma greve geral pelo fim da escala 6x1 teria mais força que mil projetos engavetados. Essa pauta unifica o metalúrgico, o entregador, a atendente e o professor.

Avançar na organização, não na espera

Portugal viveu recentemente uma greve geral com foco na redução da jornada e regulação de plataformas — fruto de anos de organização. No Brasil, a PEC que propõe o fim da escala 6x1 é um passo, mas não será o Congresso que nos concederá direitos. Cada conquista foi fruto de luta, não de boa vontade patronal.

O tempo de vida não é mercadoria. É a matéria-prima da existência, do lazer, do afeto e da luta política. Reduzir a jornada é liberar essa matéria-prima para além da mera reprodução do capital. Essa disputa nos prepara para enfrentar questões maiores: o controle dos meios de produção e o sentido social do trabalho.

O fim da escala 6x1 não é utopia. É uma exigência concreta. Organizemo-nos para arrancá-lo.

Referências e fontes:

  • Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) — Pesquisa sobre jornada de trabalho e condições de emprego no Brasil.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência — Para o conceito de superexploração da força de trabalho.
  • Walter Azevedo. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023) — Para a análise de correlação de forças e disputa de hegemonia.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Acordo tarifário Brasil-EUA: subordinação estrutural ou brecha para soberania?

Acordo tarifário com EUA: mais subordinação ou brecha para soberania nacional?

Por Walter Azevedo

Nos últimos dias, ecoou a possibilidade de um novo acordo tarifário entre Brasil e Estados Unidos. O governo brasileiro sinaliza disposição para negociar — alívios de um lado, concessões do outro. Para o olhar imediato, parece apenas mais uma pauta técnica de comércio exterior. Mas nada na relação entre um país periférico dependente e o centro do capitalismo mundial é mera burocracia. Por trás das planilhas de alíquotas, há um jogo de forças que decide o futuro do nosso desenvolvimento.

A pergunta é direta: esse acordo representa mais um passo na subordinação histórica do Brasil ou pode se transformar em instrumento da nossa soberania nacional?

O que está sobre a mesa (e o que fica debaixo dela)

Na aparência, negocia-se redução de tarifas de importação para produtos industriais americanos em troca de acesso privilegiado de itens brasileiros ao mercado estadunidense. O discurso oficial fala em "modernização" e "competitividade". Mas o Brasil tem parque industrial fragilizado por décadas de abertura indiscriminada e juros altos. Os EUA protegem ferozmente setores estratégicos — agricultura com subsídios bilionários, indústria de defesa, tecnologia sensível. Qualquer "reciprocidade" tarifária neste terreno desigual é armadilha.

O historiador Theotônio dos Santos ensinou que a dependência não é mero "atraso" a ser superado pelo comércio, mas relação estrutural de subordinação reproduzida nas trocas desiguais. Quando abrimos nosso mercado para bens de alto valor agregado em troca de commodities e semimanufaturados, a conta nunca fecha a nosso favor. Entre 2000 e 2020, a corrente de comércio Brasil-EUA cresceu, mas o déficit brasileiro se aprofundou. Exportamos soja, minério de ferro, petróleo bruto; importamos máquinas, produtos químicos, equipamentos eletrônicos.

A dialética da brecha: onde pode haver espaço

Dito isso, seria simplismo afirmar que todo acordo é automaticamente entrega. A realidade, como ensina a dialética, é cheia de contradições. Se o governo negociar com proteção da indústria nacional e exigência de contrapartidas tecnológicas, pode extrair concessões reais. Não se trata de "abrir mão", mas de barganhar com a correlação de forças.

É aqui que entra o que Lenin chamava de "compromisso tático": usar a necessidade do imperialismo — que também precisa de mercados na região — para criar espaço de manobra. Se o acordo vier atrelado a investimentos em infraestrutura industrial, transferência de tecnologia e garantias de que setores sensíveis (saúde, defesa, energia) ficarão de fora, aí teríamos uma brecha para soberania. Do contrário, será a versão diplomática do entreguismo — o mesmo que Eduardo Bolsonaro tentou com o sistema Zelle (Eduardo Bolsonaro e o Zelle: entreguismo digital e subordinação financeira do Brasil).

O que separa uma negociação soberana de uma submissão travestida de acordo é a capacidade de impor condições e de ter uma estratégia nacional de desenvolvimento — não apenas uma pauta de exportação para agradar o agronegócio.

Quem ganha, quem perde e o papel da nossa classe

Na correlação de forças atual, os maiores interessados no acordo são setores do capital associado — agroexportadores, montadoras estrangeiras instaladas no Brasil, grandes varejistas importadores de tecnologia. Para eles, redução tarifária significa aumento de margem e acesso a insumos mais baratos. Para a classe trabalhadora, o resultado é ambíguo: se mal feito, fecha fábricas e elimina postos qualificados; se bem desenhado, pode gerar emprego. A diferença está na mobilização política.

O que o movimento sindical e popular precisa exigir está em três pontos, condições de classe:

  • Nada de redução de tarifas sem contrapartida de investimento produtivo e compromisso de manutenção de empregos;
  • Cláusulas que impeçam importação de bens que já produzimos internamente com capacidade ociosa;
  • Mecanismos de compensação para setores afetados — com fundo de desenvolvimento industrial e qualificação profissional pública.

O maior erro da esquerda brasileira tem sido reagir a cada negociação comercial com "não" automático, sem alternativas. Em 2023, viramos as costas à Aliança do Pacífico e deixamos a direita ocupar o debate sobre integração regional. Precisamos de mais que denúncia — precisamos de práxis que combine análise de classes com proposição concreta, como aprofundo em "Como Vencer na Grande Política" (Appris, 2023).

O que está em jogo não é só a tarifa — é o projeto de país

Não se trata de demonizar o comércio internacional. A soberania não é autarquia. Mas sem um projeto nacional-popular que fortaleça mercado interno, indústria e ciência e tecnologia, qualquer acordo será assimétrico. É a lição de Ruy Mauro Marini: a superexploração do trabalho na periferia não é acidente, é base do desenvolvimento capitalista central.

O governo tem oportunidade objetiva. A disputa interimperialista entre EUA e China abre janelas de negociação que não existiam há dez anos. O Brasil pode jogar com os dois lados — mas precisa ter carta própria e vontade política de não ser mero trunfo alheio.

A classe trabalhadora precisa se apropriar desse debate. Não como assunto de especialistas, mas como questão central do nosso projeto de nação. De que serve um "acordo" que aprofunda a dependência, desindustrializa o país e condena nossa juventude à uberização — como vimos no post sobre pejotização (Pejotização e uberização do trabalho: superexploração travestida de liberdade)?

O acordo tarifário com os EUA pode ser brecha para a soberania ou mais um elo da corrente. A resposta virá da nossa capacidade de pressionar, organizar e apresentar uma alternativa de classe. Isso é política. Isso é luta.

Fontes consultadas: Theotônio dos Santos, "Dependência e mudança social" (1970); Ruy Mauro Marini, "Dialética da dependência" (1973); dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC) sobre balança comercial Brasil-EUA (2000-2025); Walter Azevedo, "Como Vencer na Grande Política" (Appris, 2023).

terça-feira, 7 de julho de 2026

Eduardo Bolsonaro e o Zelle: entreguismo digital e subordinação financeira do Brasil

Entreguismo digital: a proposta de Eduardo Bolsonaro e o Zelle como servidão financeira consentida

Por Walter Azevedo

O que está por trás da defesa de um sistema de pagamentos estrangeiro?

Não é segredo que setores da nossa elite política sempre olharam para fora em busca de modelos prontos, como se a realidade brasileira precisasse ser ajustada a receitas externas. A recente sugestão de Eduardo Bolsonaro para que o Brasil adote o sistema Zelle, em detrimento do Pix, não é apenas uma opinião técnica — é a expressão de um projeto político. Por trás de um argumento que se pretende modernizador, escondem-se as velhas engrenagens da subordinação financeira. O que pareceria uma mera troca de plataforma revela, na superfície do debate, uma profunda disputa sobre quem controla o dinheiro do povo, para onde vão os dados das transações e a quem interessa ver nossa soberania financeira solapada.

O imediato e a farsa da eficiência estrangeira

O argumento imediato dos defensores do Zelle é sedutor, mas enganador: a suposta modernidade, a facilidade de uso e a integração com o sistema financeiro estadunidense. Contudo, precisamos ir além da aparência. O Pix não é um mero aplicativo; ele foi concebido como ferramenta de inclusão financeira, resultado de decisão soberana do Banco Central e do sistema financeiro nacional. Sua implementação, desde 2020, democratizou o acesso a pagamentos instantâneos, gratuitos para pessoas físicas, barateou custos e reduziu o poder dos bancos tradicionais que cobravam tarifas abusivas por cada TED ou DOC. Substituir essa estrutura por um sistema privado, estrangeiro e controlado por um consórcio de grandes bancos norte-americanos como o Zelle é, na prática, um retrocesso que entrega a chave do cofre para quem não tem compromisso nenhum com o desenvolvimento do Brasil.

A essência da proposta: quem perde, quem ganha e o que está em jogo

É aqui que a análise precisa se aprofundar. A defesa do Zelle não é um acaso nem uma opinião isolada. Ela se insere num movimento mais amplo da classe do capital financeirizado, que sempre viu no Estado brasileiro e em suas capacidades de inovação um obstáculo aos seus lucros extorsivos. Ao propor a substituição, o que se busca não é meramente a troca de uma tecnologia por outra, mas a reconfiguração das relações de poder dentro do sistema financeiro nacional. Ganham as big techs e os bancos estrangeiros, que passariam a ter acesso direto a dados sensíveis de milhões de brasileiros — dados que alimentariam seus algoritmos de crédito, suas estratégias de consumo e, não duvidemos, suas práticas de vigilância de mercado. Perde a classe trabalhadora, que veria o serviço gratuito, rápido e acessível do Pix ser gradualmente substituído por um sistema privado, sujeito a tarifas e a lógicas de lucro externas. Perde também nossa soberania nacional, ao delegar a um país imperialista o controle de parte essencial da infraestrutura financeira do país.

Não é por acaso que setores do capital financeiro e seus representantes políticos, como o próprio Eduardo Bolsonaro e seu entorno, defendem essa pauta. Eles sabem que a briga não é sobre conveniência, mas sobre hegemonia. Querem transformar o Brasil numa extensão do mercado financeiro global, onde as decisões não são tomadas pelo povo ou por suas instituições, mas pelos acionistas de Wall Street. Esse é o verdadeiro entreguismo digital: a cessão de um ativo estratégico — a plataforma de pagamentos — em troca de promessas de modernização que, na prática, aprofundam nossa dependência e subordinação.

Consequências concretas e a geopolítica dos pagamentos

Olhemos para os números: o Pix movimenta centenas de bilhões de reais todos os meses, de forma instantânea, gratuita e aberta. O Zelle, nos Estados Unidos, é operado por um consórcio de bancos e tem limitações de valores e tarifas para os usuários. Defender a adoção de um modelo mais caro e controlado por bancos é, no mínimo, ignorar os interesses da maioria da população. Além disso, há a questão geopolítica. Enquanto o Brasil construiu com o Pix um mecanismo que fortalece sua autonomia financeira, a proposta de migração para um sistema norte-americano significa alinhar nossa infraestrutura digital aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, especialmente num momento de disputas comerciais e monetárias globais. A contradição é clara: enquanto o Brasil tenta, com esforço, reduzir sua dependência tecnológica, há quem lute para atar os cabos da servidão de forma ainda mais firme.

A superação possível: soberania, organização e luta de classes

Diante desse cenário, qual deve ser a posição da classe trabalhadora? A superação não virá de palanques ou de discursos moralistas. Ela exige que entendamos o embate como parte da luta de classes na era digital. Precisamos construir um projeto político que defenda a soberania nacional sobre a infraestrutura digital, que amplie o controle público sobre os meios de pagamento e que rejeite, com firmeza, qualquer tentativa de entrega dos nossos sistemas estratégicos ao capital estrangeiro. A defesa do Pix, com suas potencialidades e seus desafios, é uma bandeira concreta de resistência à subordinação financeira. Mas não basta defender o que já temos. É preciso ir além: lutar por um sistema financeiro público, democrático, a serviço do desenvolvimento e da vida, e não do lucro dos monopólios digitais e dos bancos.

A luta contra o entreguismo financeiro de Eduardo Bolsonaro e de sua turma não é uma briga de nicho. É a briga pelo controle do nosso futuro coletivo. Cada vez que um defensor do Zelle abre a boca, revela não apenas seu projeto, mas a urgência de nos organizarmos para vencê-lo. A história não nos convida a assistir passivamente — ela nos chama a agir, com o rigor da análise e a força da unidade de classe.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

RS: quando a privatização da Corsan revela quem paga a conta das águas turvas

Águas turvas e a privatização da Corsan: quando a conta chega para quem sempre paga

Por Walter Azevedo

O noticiário recente do Rio Grande do Sul nos oferece uma imagem poderosa para compreender as engrenagens do capitalismo dependente brasileiro. As chuvas torrenciais que castigaram o estado em 2024, deixando um rastro de destruição e luto, revelaram a face mais grotesca de um processo que muitos insistem em tratar como mera "modernização administrativa". A privatização da Corsan, a companhia estadual de saneamento, não foi um acidente de percurso — foi um ato político planejado para entregar um bem essencial ao capital privado. E agora, com as águas turvas da crise climática e da gestão privada, quem paga a conta?

A aparência da "eficiência" e o desastre anunciado

Quando o governo do Rio Grande do Sul, sob a batuta de Eduardo Leite, vendeu a Corsan para o grupo equatoriano Aegea em 2022, o discurso era o de sempre: a iniciativa privada traria eficiência, investimentos e, finalmente, o fim dos esgotos a céu aberto. A promessa era de R$ 15 bilhões em investimentos até 2033. Um cheque para o futuro, sacado contra a esperança de uma população que há décadas convive com a falta de saneamento básico. No entanto, a realidade concreta, como sempre, se encarrega de desmentir a propaganda.

As enchentes de 2024 não foram uma catástrofe natural pura e simples. Foram um evento climático extremo potencializado pela crônica falta de planejamento e pela lógica do lucro que orienta a gestão privada. Bairros inteiros de Porto Alegre e do interior ficaram submersos por dias, e a Corsan, agora privada, se viu impotente para retomar o serviço. Faltaram bombas, faltaram geradores, faltou capacidade de resposta. A empresa, que havia prometido modernização, mostrou que sua prioridade não era a resiliência do sistema para a população, mas o retorno financeiro para seus acionistas. O desastre natural virou um desastre político e social, expondo a fragilidade de um serviço público entregue à lógica do mercado.

A essência da contradição: lucro privado, risco público

A análise dialética nos obriga a ir além da superfície. O que a privatização da Corsan revela não é uma "falha de gestão", mas uma contradição estrutural do capitalismo. A água, como o ar, é um bem comum, indispensável à vida e à reprodução social. Entregá-la à iniciativa privada significa subordinar a sua distribuição e tratamento à lei do valor: o que não dá lucro não é feito.

Os contratos de concessão, em geral, estabelecem metas de universalização (levar água e coleta de esgoto a 99% da população), mas deixam brechas para que as empresas priorizem as áreas mais rentáveis, os centros urbanos consolidados. As periferias, as áreas rurais e as zonas de risco (como as margens de arroios e encostas) ficam para depois. A crise climática, com seus eventos extremos cada vez mais frequentes, torna esse modelo criminoso. Quando a enchente veio, a empresa privada não tinha estoques de emergência, não tinha planos de contingência robustos e, o mais grave, não tinha interesse em investir em infraestrutura que só seria usada em situações de exceção. O custo do desastre? Socializado. O lucro da operação? Privado. Essa é a equação perversa que precisa ser desnudada.

"A água não é um produto qualquer. É a base da vida. E, numa sociedade de classes, transformar a água em mercadoria é um ato de violência contra a classe trabalhadora, que sempre pagará, com sua saúde e seu bolso, pela ganância do capital."

Quem ganha, quem perde e o que fazer?

O movimento de privatização do saneamento não é um caso isolado. Ele se insere em um processo mais amplo de espoliação dos serviços públicos, que já discutimos aqui ao falar sobre a privatização da água e da energia. É a mesma lógica que transforma a educação, a saúde e a previdência em mercadorias. O capital financeirizado, em sua fase atual, busca novos setores para se valorizar, e o saneamento, com seus fluxos de caixa estáveis e garantidos por contratos de longo prazo, é um prato cheio.

  • Quem ganha: O grupo Aegea, seus acionistas (incluindo fundos de investimento internacionais), os bancos que estruturam a operação e a parcela da classe do capital que se beneficia da drenagem do fundo público.
  • Quem perde: A classe trabalhadora gaúcha, que paga tarifas mais altas (o reajuste anual da Corsan após a privatização foi de 6,5% acima da inflação) por um serviço pior, e ainda arca com os danos sociais e ambientais das crises que o modelo privado agrava. Perde também a soberania do estado sobre um recurso estratégico.

Diante desse cenário, a saída não é clamar por uma "privatização bem feita" ou por uma "regulação estatal forte". A história demonstra que a regulação é capturada pelo capital. A única alternativa coerente com os interesses da nossa classe é a reestatização do serviço. Não se trata de um saudosismo estatizante, mas da retomada do controle público sobre um bem essencial, submetendo-o à gestão democrática, com controle social dos trabalhadores e das comunidades. Precisamos articular a luta em defesa da água como um direito humano e um bem comum com a luta contra o projeto neoliberal que tem destruído o Brasil.

Referências e dados para aprofundamento:

  • Relatório "Crise Hídrica e Saneamento no RS" – Observatório das Metrópoles (2024).
  • Dados de reajuste tarifário da Corsan após privatização – AGERGS (Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS), 2023.
  • As promessas de investimento versus a execução real nos primeiros 18 meses de gestão da Aegea no RS – Reportagem do Sul21 (março/2024).

sábado, 4 de julho de 2026

Pejotização e uberização do trabalho: superexploração travestida de liberdade

Superexploração e falsa autonomia: a pejotização como senha do capital flexível

Por Walter Azevedo

Você abre o celular e, em minutos, um motorista está a caminho. O entregador chega de bicicleta, mochila térmica nas costas, sorriso cansado. Do outro lado, o profissional que redige contratos, projeta sites ou organiza eventos — também opera como empresa, um CNPJ que respira e trabalha. Aparentemente, dois mundos distintos, mas a essência é a mesma: a velha exploração do trabalho, travestida de autonomia, vestida com a roupagem moderna do aplicativo e do contrato de prestação de serviços.

O que chamamos de pejotização e uberização não são fenômenos paralelos. São faces da mesma moeda cunhada pela classe do capital em sua ofensiva contra os direitos conquistados pela classe trabalhadora.

A liberdade que aprisiona

No discurso dominante, ser PJ é sinônimo de ser "dono do próprio nariz". O entregador é um "parceiro" que "escolhe" horários. O profissional contratado como PJ não tem chefe, tem clientes. A retórica do empreendedorismo promete autonomia e realização.

Mas a análise dialética nos obriga a perguntar: quem ganha? A resposta é direta: o capital. Ao transformar o trabalhador em empresa, a classe do capital transfere custos e riscos da atividade produtiva. O motorista arca com combustível, manutenção, seguro, plano de saúde, dias de chuva e meses de baixa demanda. O PJ contrata equipamento, paga impostos e, quando adoece, não tem licença remunerada.

O capital elimina encargos trabalhistas — férias, 13º salário, FGTS, descanso semanal, jornada limitada. O lucro aumenta, o risco desaparece. A liberdade do trabalhador se revela como a liberdade de ser explorado sem proteção do Estado.

Dados do IBGE mostram que, no quarto trimestre de 2024, a informalidade atingiu 39,5% da população ocupada, cerca de 40 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. A pejotização é um dos motores desse exército de reserva.

A superexploração como regra

Para compreender esse fenômeno, recorremos à categoria teórica de Ruy Mauro Marini: a superexploração da força de trabalho. Diferente da exploração clássica, a superexploração ocorre quando o trabalhador não recebe nem o suficiente para repor sua força de trabalho em condições normais.

O entregador que trabalha 12 horas por dia, sem renda mínima, exposto à violência e ao desgaste físico, não está apenas sendo explorado: sua força de trabalho é consumida abaixo do valor de reposição. O profissional PJ que não tira férias, trabalha doente e não acumula para a aposentadoria está na mesma condição.

O capital financeirizado de plataformas como Uber, iFood e Amazon não seria tão lucrativo sem essa massa de trabalhadores descartáveis. A riqueza dos acionistas é construída sobre a espinha curvada de quem entrega comida na chuva e na madrugada.

Há ironia nesse processo: o discurso da inovação tecnológica, que deveria liberar a humanidade do trabalho repetitivo, está reconstruindo formas de exploração que acreditávamos superadas. É um retrocesso histórico disfarçado de futuro.

Organização e resistência: o único caminho

A essência da luta de classes não mudou. Se a pejotização e a uberização são formas contemporâneas de precarização, a resposta precisa ser igualmente contemporânea em táticas, sem perder a estratégia histórica.

Primeiro, compreender que a organização política e sindical é a única ferramenta capaz de inverter a correlação de forças. Já existem movimentos importantes, como a greve dos entregadores de 2020, que parou o iFood em várias capitais. Essas experiências precisam ser ampliadas e fortalecidas.

Em segundo lugar, é preciso pautar a regulação estatal. Não se trata de "matar a inovação", mas de garantir que ela sirva ao povo, não ao lucro de alguns. A PEC que estabelece vínculo empregatício para trabalhadores de plataformas digitais, em tramitação no Congresso, é uma batalha central.

Por fim, a luta contra a precarização é também luta ideológica. Precisamos desmontar os mitos do empreendedorismo e da meritocracia, que são armas do capital para nos convencer de que a exploração é liberdade. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia do capital se mantém pela difusão de ideias que fragmentam nossa classe.

Olhar para o horizonte

Estamos diante de uma encruzilhada histórica: de um lado, a consolidação de um mercado de trabalho precário e inseguro; do outro, a possibilidade de construir uma nova correlação de forças, colocando a tecnologia a serviço do trabalho digno.

A superexploração não é um destino inevitável. É uma escolha política do capital, que precisa ser enfrentada com organização, consciência de classe e projeto estratégico. Nossa tarefa é mostrar que, por trás do véu colorido dos aplicativos, o que está em jogo é a velha luta entre capital e trabalho.

Que possamos transformar essa consciência em ação organizada.


Referências e fontes consultadas:

  • IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – 4º trimestre de 2024. Disponível em: ibge.gov.br.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência (1973). Edição brasileira: Editora Expressão Popular, 2022.
  • Antunes, Ricardo. Uberização e a nova morfologia do trabalho. In: Revista Margem Esquerda, n. 34, 2020.
  • Azevedo, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Greve geral em Portugal: quando o movimento para e o sistema treme

Greve geral em Portugal: contradições do capital financeirizado e a consciência de classe em movimento

Por Walter Azevedo

Quando as ruas de Lisboa e Porto pararam na greve geral de 2025, viu-se mais que trabalhadores exaustos: a fotografia de uma contradição que o sistema esconde atrás de relatórios de rating. Portugal, “exemplo de recuperação” pela Comissão Europeia, viu sua classe trabalhadora dizer coletivamente: basta. O fenômeno revela o que está por baixo do verniz macroeconômico.

O que moveu milhares não foi apenas o preço do aluguel, mas a consciência de que o modelo é insustentável para quem vive do trabalho. Nossa tarefa é compreender esse movimento: de onde vem, o que revela e para onde aponta.

O imediato e sua casca: o que a greve geral visibilizou

Dados oficiais contam sucesso: PIB cresceu, desemprego caiu para abaixo de 7%, superávits fiscais. Mas o cotidiano da precariedade em serviços públicos, carestia de alimentos e aluguéis impossíveis com salário mínimo de pouco mais de 800 euros testemunha outra verdade.

A greve não nasceu do acaso. Foi resposta a uma política que, em nome do equilíbrio fiscal, aprofunda a espoliação. Professores sem livros, profissionais de saúde em greves setoriais, jovens em recibos verdes. A paralisação de 2025 deu corpo visível a essa insatisfação, setor após setor, até tornar-se nacional.

A essência da crise: financeirização e dependência

Se a escassez de serviços públicos é sintoma, a doença reside na integração de Portugal ao capitalismo global. Privatizações de energia, água, banca e telecomunicações entregaram a economia a grupos estrangeiros e fundos de investimento. Trata-se de um projeto de classe: transformar serviços públicos em ativos financeiros, extraindo renda para a acumulação do capital financeirizado.

A dependência é estrutural. Como analisou Theotônio dos Santos, economias como a portuguesa ocupam posição subordinada na divisão internacional do trabalho, fornecendo mão de obra barata e mercados enquanto a soberania escapa para Bruxelas e o FMI.

A austeridade não é erro técnico, mas mecanismo de dominação. O Estado corta gastos sociais e socorre bancos. A dívida pública justifica cortes de direitos, enquanto o lucro privado segue intocado. A greve expõe essa contradição: entre capital financeiro e vida da classe trabalhadora não há conciliação.

O mesmo enredo repete-se globalmente. No Brasil, privatizações transformam água e energia em mercadorias financeiras. A espoliação dos serviços públicos é política internacional de classe, e a resistência portuguesa ecoa lutas de Lisboa ao Recife.

A consciência de classe em movimento

A greve geral não é apenas paralisação econômica: é momento pedagógico. Ao parar, a classe se reconhece como sujeito coletivo. O trabalho deixa de ser moeda de sobrevivência e vira instrumento de poder político.

A consciência não brota espontaneamente — é mediada pela luta concreta. A greve não resolveu a crise estrutural, mas deu um passo: mostrou que a classe trabalhadora portuguesa recusa ser variável de ajuste para meia dúzia de acionistas.

Esse movimento recoloca a necessidade de um programa ofensivo, articulando soberania nacional, controle social dos serviços e redistribuição. Como discutimos, austeridade ou servidão são a mesma moeda; a classe precisa de um caminho que rompa com a lógica do capital.

Para onde vamos a partir daqui?

A greve geral em Portugal é sinal na bússola histórica: a luta de classes não acabou, reconfigura-se. O capital tenta fragmentar e convencer que não há alternativa. Quando milhares param, essa narrativa se despedaça.

O próximo passo é transformar a energia em organização permanente: fortalecer sindicatos, construir frentes de base, ocupar o debate público com propostas de superação da dependência. A consciência não pode ser momento fugaz — precisa sedimentar-se em organizações que disputem o futuro.

Portugal mostrou que é possível resistir. Cabe a nós aprender e construir o dia seguinte. A classe trabalhadora não é apenas a que sofre — é a que pode parar tudo e, parando, apontar um novo horizonte.


Referências e fontes:

  • Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal — Dados sobre salário mínimo, PIB e taxas de desemprego (2024-2025).
  • European Trade Union Confederation (ETUC) — Relatório sobre greves gerais e políticas de austeridade no sul da Europa (2025).
  • Theotônio dos Santos, La teoría de la dependencia: balance y perspectivas (2000) — análise estrutural das economias periféricas.
  • Sindicato dos Professores da Zona Norte (SPZN) e Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública — comunicados e dados sobre adesão à greve geral de 2025.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Austeridade ou servidão? O que está em jogo quando o Estado corta para a classe trabalhadora

Austeridade de classe: o Estado corta para quem? A geometria variável dos sacrifícios

Por Walter Azevedo
“O Estado moderno, porém, não passa de um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia.” Karl Marx e Friedrich Engels

Um mantra ecoa no poder e nas manchetes: é preciso ajustar contas, cortar gastos, apertar os cintos. A frase parece verdade universal e inquestionável. O problema é que a geometria desse cinto é profundamente seletiva. A pergunta que nossos governantes raramente respondem é: de quem se exige o aperto? Pois é sobre a essência de classe dos cortes que precisamos conversar hoje.

O orçamento como campo de batalha: quem paga a conta?

No Brasil de 2025, o discurso da austeridade fiscal atualiza um velho programa de dominação. Por trás do véu da neutralidade, desenha-se um projeto de classe. Quando o governo anuncia o bloqueio de bilhões em verbas discricionárias, o primeiro alvo são as políticas sociais. A saúde perde leitos, a educação vê obras paralisadas, a assistência corta auxílios. Morrem pacientes no SUS, enquanto o Estado paga religiosamente o serviço da dívida pública.

Os dados são implacáveis. Em 2024, o Brasil destinou cerca de 43% do orçamento federal a juros e amortizações da dívida, enquanto saúde e educação não somaram 12%. Não é acaso, é escolha política deliberada. As forças do capital financeirizado exercem hegemonia sobre o Estado. O “mercado reage”, e o governo recua. É a ditadura do curto prazo financeiro sobre as necessidades históricas da maioria. A austeridade revela-se como política de classe para transferir renda dos pobres aos ricos, do trabalho ao capital.

O caminho da servidão fiscal ou a construção da soberania?

Se o diagnóstico é de classe, a saída precisa ser igualmente de classe. Não há conciliação entre capital e trabalho, ela é miragem. A disjuntiva é: ou nos curvamos à austeridade, aceitando o desmonte estatal para o capital financeiro, ou rompemos essa subordinação. O primeiro caminho leva à servidão fiscal eterna, com soberania entregue a agências de rating. O segundo exige coragem política, organização popular e prioridades claras.

É preciso romper com o mito de que o Estado é entidade sem dono. Como analisei em “Como Vencer na Grande Política”, o Estado é campo de disputa entre classes. Para vencer, a classe trabalhadora precisa impor seus interesses: defender orçamento que priorize saúde, educação, ciência e infraestrutura; taxar grandes fortunas e lucros; reindustrializar o país com base em projeto nacional-popular que quebre a dependência imperialista, como discutimos em Soberania nacional e tarifaço.

Organizar para romper: a política como instrumento de classe

A superação desse ciclo não virá de um “iluminado”, mas da organização da classe trabalhadora em todos os níveis. Precisamos nos organizar em sindicatos, movimentos sociais e partidos comprometidos com a causa popular. A luta contra os cortes é política, no parlamento, nas ruas e na consciência de cada trabalhador. A pergunta de um dirigente sindical deve ser: “quem vai pagar a conta?”.

Precisamos disputar a comunicação. O discurso da austeridade é hegemônico porque não há contra-discurso forte. A luta pela regulação das plataformas, como em Big Techs e desinformação, é central. A desinformação naturaliza a desigualdade. Só com informação qualificada e organização nos moveremos da passividade à ação. A história é uma arena que construímos com nossa luta.

O que você pode fazer agora?

  • Discutir a pauta: Leve o tema do orçamento para suas rodas de conversa. Pergunte: por que temos dinheiro para juros, mas não para um hospital?
  • Apoiar campanhas: Participe de iniciativas que pautam a defesa do serviço público e a taxação dos super-ricos.
  • Se informar e informar: Compartilhe artigos que desnudam a falsa neutralidade da economia. A informação é a primeira trincheira da consciência de classe.

Referências e leituras complementares

  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência.
  • Santos, Theotônio dos. A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas.
  • Azevedo, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Dados do orçamento público federal (2024/2025) — Portal da Transparência e estudos do IFI (Instituição Fiscal Independente do Senado).

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Big Techs e desinformação: ameaça sistêmica às eleições alertam em Recife

A hegemonia digital ameaça a soberania popular: nas eleições de 2026, o voto não decide tudo

Por Walter Azevedo

No Recife, um fórum de comunicação reuniu especialistas para alertar sobre o óbvio que insistem em esconder: as big techs, comandadas por uma oligarquia bilionária do Norte global, estão transformando o processo eleitoral brasileiro em um grande cassino de desinformação. Enquanto a mídia tradicional se perde em debates sobre qual candidato "venceu" o debate nas redes, o verdadeiro jogo se desenrola nos algoritmos que decidem o que você vê, quando vê e como vê. A liberdade de expressão, esse conceito sagrado para a classe do capital, virou um biombo para a maior máquina de manipulação de massas que a história já conheceu. Mas a pergunta que ninguém quer fazer é: quem lucra com isso?

A superfície do problema: desinformação e tecnocracia

A manchete parece simples: debatedores alertam que big techs ameaçam eleições. Notícia velha, diriam os cínicos. Mas o que se esconde por trás da aparência? O fenômeno imediato é o tsunami de notícias falsas, vídeos manipulados e perfis-fantasma que agem como formigas numa colônia organizada. Estima-se que, nas eleições de 2022, mais de 80% dos brasileiros foram expostos a algum conteúdo falso sobre o processo eleitoral — e a estrutura para 2026 é infinitamente mais sofisticada. As plataformas não são meros canais neutros; são arquitetas ativas do que vemos. Quando o algoritmo privilegia o conteúdo da extrema direita, não se trata de um erro técnico, mas de uma decisão política. E a decisão, como sempre, serve a um projeto de poder.

A essência da contradição: capital financeiro e controle da hegemonia

Precisamos ir além da superfície. Não se trata apenas de "desinformação". Trata-se de uma guerra de classes travada no campo da comunicação. As big techs — Google, Meta, X (ex-Twitter), TikTok, Amazon — são, acima de tudo, braços do capital financeirizado internacional. Elas lucram bilhões com a atenção humana e vendem essa atenção para a classe do capital. A desinformação não é um defeito; é uma funcionalidade. Quanto mais polarização, mais engajamento; quanto mais engajamento, mais dados; quanto mais dados, mais controle. E quem controla a informação controla a correlação de forças, como discutimos em nosso artigo sobre big techs e hegemonia.

O nó górdio está na soberania nacional. Enquanto as decisões sobre o que é ou não desinformação forem tomadas em Vale do Silício, a democracia brasileira será um simulacro. Quando um bilionário californiano decide que um candidato progressista é "perigoso" e outro é "confiável", estamos diante de uma intervenção imperialista direta, ainda que digital. E não se enganem: o capital não quer o caos pelo caos. O capital quer um Estado que lhe seja favorável, que privatize seus serviços públicos como a água e a energia, que fragmente a classe trabalhadora e que impeça qualquer projeto de soberania popular. A desinformação é a ferramenta para construir o consenso em torno do entreguismo, como vimos no debate sobre a burguesia compradora e a dependência imperialista.

A superação possível: organização, regulação e projeto popular

Mas não podemos cair no derrotismo. A luta pela regulação das big techs não é um debate técnico; é uma disputa política de primeira ordem. O Projeto de Lei 2630/2020, o chamado PL das Fake News, foi enterrado no Congresso pela pressão das próprias big techs e de seus lacaios na política nacional. Isso nos mostra que a luta não se ganha apenas na lei, mas na correlação de forças. Precisamos de três movimentos simultâneos:

  • Regulação democrática das plataformas: transparência nos algoritmos, responsabilização civil e criminal das empresas por danos eleitorais, proibição de publicidade segmentada politicamente.
  • Fortalecimento da comunicação pública e popular: financiamento de mídias comunitárias, sindicais e alternativas que não se submetam ao algoritmo do lucro.
  • Organização da classe trabalhadora no campo digital: formação política sobre como essas ferramentas funcionam e como podemos usá-las contra o capital, sem nos iludirmos com elas.

O fórum no Recife acertou ao colocar o dedo na ferida. Mas faltou dizer que a saída não é pedir regulação, é construir força social para impor a regulação. As big techs não vão se autorregular — isso é uma ficção infantil. Elas precisam ser enfrentadas por um movimento político organizado que una sindicatos, movimentos sociais, partidos progressistas e a juventude que já sente na pele o peso da alienação digital.

Conclusão: a próxima batalha é nossa

Em 2026, a disputa não será apenas entre candidatos. Será entre dois projetos de país: um que quer um Brasil soberano, com trabalhadores organizados e comunicação livre; e outro que quer um Brasil colônia digital, onde a classe do capital decide o que é real e o que é mentira. A desinformação é a arma deles. A nossa arma é a consciência de classe, a organização política e a construção de alternativas concretas. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a luta não se dá no vazio, mas na totalidade das relações sociais. E a totalidade, hoje, inclui a batalha pelo controle da informação.

Que saiamos do Recife não apenas com alertas nos ouvidos, mas com tarefas nas mãos.

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Fontes e referências:

  • Fórum de Comunicação do Recife — debates sobre desinformação e eleições (2026).
  • MARTINS, Helena. Comunicação e luta de classes. São Paulo: Expressão Popular, 2023.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • Relatório "Democracia Sob Ataque" — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 2024.