sábado, 4 de julho de 2026

Pejotização e uberização do trabalho: superexploração travestida de liberdade

Superexploração e falsa autonomia: a pejotização como senha do capital flexível

Por Walter Azevedo

Você abre o celular e, em minutos, um motorista está a caminho. O entregador chega de bicicleta, mochila térmica nas costas, sorriso cansado. Do outro lado, o profissional que redige contratos, projeta sites ou organiza eventos — também opera como empresa, um CNPJ que respira e trabalha. Aparentemente, dois mundos distintos, mas a essência é a mesma: a velha exploração do trabalho, travestida de autonomia, vestida com a roupagem moderna do aplicativo e do contrato de prestação de serviços.

O que chamamos de pejotização e uberização não são fenômenos paralelos. São faces da mesma moeda cunhada pela classe do capital em sua ofensiva contra os direitos conquistados pela classe trabalhadora.

A liberdade que aprisiona

No discurso dominante, ser PJ é sinônimo de ser "dono do próprio nariz". O entregador é um "parceiro" que "escolhe" horários. O profissional contratado como PJ não tem chefe, tem clientes. A retórica do empreendedorismo promete autonomia e realização.

Mas a análise dialética nos obriga a perguntar: quem ganha? A resposta é direta: o capital. Ao transformar o trabalhador em empresa, a classe do capital transfere custos e riscos da atividade produtiva. O motorista arca com combustível, manutenção, seguro, plano de saúde, dias de chuva e meses de baixa demanda. O PJ contrata equipamento, paga impostos e, quando adoece, não tem licença remunerada.

O capital elimina encargos trabalhistas — férias, 13º salário, FGTS, descanso semanal, jornada limitada. O lucro aumenta, o risco desaparece. A liberdade do trabalhador se revela como a liberdade de ser explorado sem proteção do Estado.

Dados do IBGE mostram que, no quarto trimestre de 2024, a informalidade atingiu 39,5% da população ocupada, cerca de 40 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. A pejotização é um dos motores desse exército de reserva.

A superexploração como regra

Para compreender esse fenômeno, recorremos à categoria teórica de Ruy Mauro Marini: a superexploração da força de trabalho. Diferente da exploração clássica, a superexploração ocorre quando o trabalhador não recebe nem o suficiente para repor sua força de trabalho em condições normais.

O entregador que trabalha 12 horas por dia, sem renda mínima, exposto à violência e ao desgaste físico, não está apenas sendo explorado: sua força de trabalho é consumida abaixo do valor de reposição. O profissional PJ que não tira férias, trabalha doente e não acumula para a aposentadoria está na mesma condição.

O capital financeirizado de plataformas como Uber, iFood e Amazon não seria tão lucrativo sem essa massa de trabalhadores descartáveis. A riqueza dos acionistas é construída sobre a espinha curvada de quem entrega comida na chuva e na madrugada.

Há ironia nesse processo: o discurso da inovação tecnológica, que deveria liberar a humanidade do trabalho repetitivo, está reconstruindo formas de exploração que acreditávamos superadas. É um retrocesso histórico disfarçado de futuro.

Organização e resistência: o único caminho

A essência da luta de classes não mudou. Se a pejotização e a uberização são formas contemporâneas de precarização, a resposta precisa ser igualmente contemporânea em táticas, sem perder a estratégia histórica.

Primeiro, compreender que a organização política e sindical é a única ferramenta capaz de inverter a correlação de forças. Já existem movimentos importantes, como a greve dos entregadores de 2020, que parou o iFood em várias capitais. Essas experiências precisam ser ampliadas e fortalecidas.

Em segundo lugar, é preciso pautar a regulação estatal. Não se trata de "matar a inovação", mas de garantir que ela sirva ao povo, não ao lucro de alguns. A PEC que estabelece vínculo empregatício para trabalhadores de plataformas digitais, em tramitação no Congresso, é uma batalha central.

Por fim, a luta contra a precarização é também luta ideológica. Precisamos desmontar os mitos do empreendedorismo e da meritocracia, que são armas do capital para nos convencer de que a exploração é liberdade. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia do capital se mantém pela difusão de ideias que fragmentam nossa classe.

Olhar para o horizonte

Estamos diante de uma encruzilhada histórica: de um lado, a consolidação de um mercado de trabalho precário e inseguro; do outro, a possibilidade de construir uma nova correlação de forças, colocando a tecnologia a serviço do trabalho digno.

A superexploração não é um destino inevitável. É uma escolha política do capital, que precisa ser enfrentada com organização, consciência de classe e projeto estratégico. Nossa tarefa é mostrar que, por trás do véu colorido dos aplicativos, o que está em jogo é a velha luta entre capital e trabalho.

Que possamos transformar essa consciência em ação organizada.


Referências e fontes consultadas:

  • IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – 4º trimestre de 2024. Disponível em: ibge.gov.br.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência (1973). Edição brasileira: Editora Expressão Popular, 2022.
  • Antunes, Ricardo. Uberização e a nova morfologia do trabalho. In: Revista Margem Esquerda, n. 34, 2020.
  • Azevedo, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

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