Esquerda na América Latina: os limites da via eleitoral e a resistência das elites
Por Walter Azevedo

Há poucos anos, a América Latina viveu uma primavera progressista. Governos de esquerda e centro-esquerda chegaram ao poder no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia e México prometendo enfrentar a desigualdade histórica e retomar a soberania nacional. O balanço, no entanto, é amargo. A onda azul varreu o continente e, onde a esquerda se manteve, governa sob constante cerco. O que explica essa fragilidade das maiorias eleitas? A resposta não está na qualidade dos programas ou na virtude dos líderes, mas na natureza da correlação de forças que o jogo eleitoral não altera sozinho.
O palco e os bastidores
As eleições são o momento de maior visibilidade da luta de classes, mas também a arena onde as elites econômicas aceitam perder uma batalha para não perder a guerra. A via eleitoral não transfere o poder real: decisões sobre investimento, preços, juros e câmbio continuam nas mãos de quem detém os meios de produção e o sistema financeiro. O Congresso é palco, mas os roteiros são escritos nos conselhos de administração e nas salas fechadas dos bancos.
Tomemos o Chile. Em 2021, Gabriel Boric venceu com discurso de transformação radical. Dois anos depois, enfrenta rejeição maior que a da direita. As classes dominantes chilenas, articuladas com o capital internacional, impuseram derrota no plebiscito constitucional e inviabilizaram reformas estruturais. A mesma dinâmica se repetiu no Brasil: Lula venceu em 2022, mas governa sob fogo cerrado de um Congresso hegemonizado pelo centrão e pelo agronegócio, que impõem austeridade fiscal e transferência de renda ao capital financeiro. A via eleitoral é necessária, mas insuficiente.
A resistência das elites: recuo tático, ofensiva estratégica
A burguesia latino-americana aprendeu a lição de 2003-2015. Durante aquele ciclo, a esquerda governou com preços das commodities nas alturas, distribuindo renda sem confrontar o capital. Quando a crise global de 2008 e a queda dos preços das matérias-primas apertaram o cerco, as elites reagiram não com golpe militar clássico, mas com estrangulamento fiscal, judicialização da política e ofensiva ideológica. O impeachment de Dilma Rousseff em 2016 é o exemplo mais acabado: a burguesia não precisou de tanques, apenas de interpretação criativa da lei e parlamento dócil.
Esse processo revela uma verdade dura: a via eleitoral, sem organização popular permanente e controle sobre meios de produção e comunicação, é uma prisão dourada. A esquerda ganha o governo, mas não o poder. As elites mantêm controle sobre a economia real e a narrativa midiática, criando governos que administram a crise do capitalismo dependente, incapazes de romper com a subordinação estrutural aos EUA e ao sistema financeiro internacional.
O gargalo da estratégia: institucionalismo sem poder popular
O problema central não é a disputa eleitoral, mas o abandono da construção de poder popular como eixo estratégico. Partidos de esquerda se profissionalizaram a ponto de confundir conquista de cargos com transformação social. Sem organização nos bairros, locais de trabalho e movimentos sociais, a práxis transformadora reduz-se a administrar o capitalismo com rosto humano. Quando a crise aperta, a máquina estatal, capturada pelas oligarquias, engole o governante de esquerda.
Segundo a CEPAL, a taxa de pobreza na América Latina recuou durante o boom das commodities, mas voltou a subir depois de 2015, atingindo 32% da população em 2023. A concentração de renda do 1% mais rico continua entre as mais altas do mundo. A reforma agrária não avançou em nenhum país na última década. A dependência tecnológica e financeira se aprofundou. A esquerda mitiga a miséria com programas de transferência de renda, mas não enfrenta causas estruturais por confrontar o capital financeirizado e o imperialismo.
Para além do Estado: rearticular o poder da classe trabalhadora
A saída não é abandonar a disputa eleitoral, mas rebaixá-la a uma tática dentro de estratégia maior. O centro da luta deve ser a reorganização da classe trabalhadora como sujeito político autônomo, capaz de impor demandas independentemente de quem ocupa o palácio. Isso implica retomar a construção de sindicatos combativos, movimentos populares de base, conselhos populares e formas de democracia direta que existam antes, durante e depois dos governos de esquerda.
O exemplo do MST no Brasil é paradigmático: quando o governo Lula recuou na reforma agrária, o movimento pressionou e manteve viva a pauta. A Venezuela bolivariana ensina que a ruptura só é possível quando o povo está organizado em conselhos. O limite da via eleitoral não é convite ao derrotismo, mas chamado à radicalização da democracia. Precisamos de menos institucionalismo e mais poder popular, menos foco no palácio e mais organização nas bases, menos ilusão no Estado burguês e mais construção de contra-poder.
A resistência das elites é feroz, mas a história não está escrita. As contradições do capitalismo dependente se aprofundam, e a crise climática, a financeirização e o aumento da desigualdade criam condições objetivas para nova onda de lutas. Cabe à esquerda aprender com erros do passado e construir a organização necessária para transformar a correlação de forças não apenas nas urnas, mas nas ruas, nos campos e nas fábricas. A próxima primavera, se vier, será construída com mais consciência e menos ilusão.
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