Austeridade de classe: o Estado corta para quem? A geometria variável dos sacrifícios
Por Walter Azevedo“O Estado moderno, porém, não passa de um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia.” Karl Marx e Friedrich Engels
Um mantra ecoa no poder e nas manchetes: é preciso ajustar contas, cortar gastos, apertar os cintos. A frase parece verdade universal e inquestionável. O problema é que a geometria desse cinto é profundamente seletiva. A pergunta que nossos governantes raramente respondem é: de quem se exige o aperto? Pois é sobre a essência de classe dos cortes que precisamos conversar hoje.

O orçamento como campo de batalha: quem paga a conta?
No Brasil de 2025, o discurso da austeridade fiscal atualiza um velho programa de dominação. Por trás do véu da neutralidade, desenha-se um projeto de classe. Quando o governo anuncia o bloqueio de bilhões em verbas discricionárias, o primeiro alvo são as políticas sociais. A saúde perde leitos, a educação vê obras paralisadas, a assistência corta auxílios. Morrem pacientes no SUS, enquanto o Estado paga religiosamente o serviço da dívida pública.
Os dados são implacáveis. Em 2024, o Brasil destinou cerca de 43% do orçamento federal a juros e amortizações da dívida, enquanto saúde e educação não somaram 12%. Não é acaso, é escolha política deliberada. As forças do capital financeirizado exercem hegemonia sobre o Estado. O “mercado reage”, e o governo recua. É a ditadura do curto prazo financeiro sobre as necessidades históricas da maioria. A austeridade revela-se como política de classe para transferir renda dos pobres aos ricos, do trabalho ao capital.
O caminho da servidão fiscal ou a construção da soberania?
Se o diagnóstico é de classe, a saída precisa ser igualmente de classe. Não há conciliação entre capital e trabalho, ela é miragem. A disjuntiva é: ou nos curvamos à austeridade, aceitando o desmonte estatal para o capital financeiro, ou rompemos essa subordinação. O primeiro caminho leva à servidão fiscal eterna, com soberania entregue a agências de rating. O segundo exige coragem política, organização popular e prioridades claras.
É preciso romper com o mito de que o Estado é entidade sem dono. Como analisei em “Como Vencer na Grande Política”, o Estado é campo de disputa entre classes. Para vencer, a classe trabalhadora precisa impor seus interesses: defender orçamento que priorize saúde, educação, ciência e infraestrutura; taxar grandes fortunas e lucros; reindustrializar o país com base em projeto nacional-popular que quebre a dependência imperialista, como discutimos em Soberania nacional e tarifaço.
Organizar para romper: a política como instrumento de classe
A superação desse ciclo não virá de um “iluminado”, mas da organização da classe trabalhadora em todos os níveis. Precisamos nos organizar em sindicatos, movimentos sociais e partidos comprometidos com a causa popular. A luta contra os cortes é política, no parlamento, nas ruas e na consciência de cada trabalhador. A pergunta de um dirigente sindical deve ser: “quem vai pagar a conta?”.
Precisamos disputar a comunicação. O discurso da austeridade é hegemônico porque não há contra-discurso forte. A luta pela regulação das plataformas, como em Big Techs e desinformação, é central. A desinformação naturaliza a desigualdade. Só com informação qualificada e organização nos moveremos da passividade à ação. A história é uma arena que construímos com nossa luta.
O que você pode fazer agora?
- Discutir a pauta: Leve o tema do orçamento para suas rodas de conversa. Pergunte: por que temos dinheiro para juros, mas não para um hospital?
- Apoiar campanhas: Participe de iniciativas que pautam a defesa do serviço público e a taxação dos super-ricos.
- Se informar e informar: Compartilhe artigos que desnudam a falsa neutralidade da economia. A informação é a primeira trincheira da consciência de classe.
Referências e leituras complementares
- Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência.
- Santos, Theotônio dos. A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas.
- Azevedo, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
- Dados do orçamento público federal (2024/2025) — Portal da Transparência e estudos do IFI (Instituição Fiscal Independente do Senado).
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