Desenvolvimento Desigual e a Suprassunção Indígena: O Papel dos Povos Originários na Construção da BR-277
Por Walter Azevedo

A rodovia BR-277, espinha dorsal do escoamento agrícola e industrial do Paraná, não é apenas um feito de engenharia. É um monumento à contradição. Seus 900 quilômetros entre Foz do Iguaçu e Paranaguá exibem a aparência do "progresso", mas a essência, revelada pelo método dialético, expõe outra base: a exploração, o deslocamento e o sangue de milhares de indígenas, especialmente Kaingang e Guarani. A narrativa hegemônica os trata como "entrave" ou "vítimas passivas", mas a realidade das classes sociais em luta mostra que foram força de trabalho, expropriados e sujeitos de resistência. É preciso suprassumir essa visão rasa e compreender seu papel na totalidade da nossa formação social dependente.
A Aparência do "Progresso" e a Essência da Expropriação
A BR-277 foi pavimentada e ampliada durante a ditadura empresarial-militar (1964-1985), no auge do "milagre econômico". Na aparência, era a locomotiva do desenvolvimento: escoaria soja, madeira e indústria ao Porto de Paranaguá. A ideologia dominante vendia um estado moderno rompendo o atraso. Mas a essência era a expansão da classe do capital, articulada ao imperialismo, exigindo novas fronteiras agrícolas e integração subordinada ao mercado mundial.
Para o asfalto avançar, foi necessário "limpar" a área — expulsar comunidades indígenas de seus territórios ancestrais, sob a justificativa de falta de "utilidade econômica". O traçado da rodovia, especialmente em Guarapuava e Palmas, foi planejado para fatiar terras indígenas, facilitando grilagem por madeireiras e latifúndios. Não foi acidente, mas política de Estado para a expansão do capital. O SPI e depois a Funai atuaram como correia de transmissão, realocando comunidades para áreas inférteis enquanto o progresso passava ao largo.
A Contradição Viva: Trabalho Forçado e Resistência Organizada
A dialética não se encerra na vitimização. A classe trabalhadora indígena não foi passiva. Há registros de centenas de Kaingang recrutados (sob coação ou falsas promessas) para trabalho braçal nos canteiros nas décadas de 1960 e 1970. Cortaram mata, quebraram pedra e abriram caminho para o "progresso" que os destruía. É a mais cruel contradição: o oprimido constrói os instrumentos da própria opressão.
Essa força de trabalho se converteu em consciência política. A luta pela demarcação de terras no Paraná, nos anos 1980 e 1990, teve na BR-277 um símbolo central. Ocupações da rodovia para bloquear tráfego e denunciar violência não são "vandalismo", como classifica o discurso liberal. São atos de práxis, onde a consciência de classe se materializa em ação direta, tensionando o Estado e o capital em seu ponto sensível: a circulação da mercadoria.
A Totalidade em Movimento: Soberania, Dependência e o Projeto Nacional-Popular
O que a BR-277 ensina sobre o Brasil de hoje? Força a olhar para a totalidade da nossa formação social. Não há soberania nacional sem enfrentar a questão indígena. O agronegócio que escoa pela 277 é herdeiro da expropriação original. A "paz social" imposta pelo capital é a calma do cemitério, interrompida pelas retomadas de terra.
Ignorar o papel indígena na construção material do país é um erro de análise fragmentada. A rodovia é mediação entre exploração do trabalho e realização do lucro. Os povos originários, como força de trabalho expropriada e sujeito político, são parte indissociável dessa mediação. Sua luta pela terra é, objetivamente, uma luta contra a dependência estrutural do país. É uma batalha por qual projeto de sociedade: um para poucos, que atropela aldeias, ou um para muitos, que reconhece a dívida civilizatória.
Suprassumir o Passado, Construir o Futuro
É preciso superar a visão paternalista. Não se trata de "ajudar" os indígenas, mas de reconhecer que a emancipação da classe trabalhadora passa pela justiça territorial e histórica com eles. A BR-277 é uma ferida aberta no Paraná. A suprassunção desse capítulo não virá com placas de homenagem, mas com devolução de terras, reparação econômica e inclusão da cosmovisão indígena no horizonte político.
A luta de classes exige que a esquerda organize a resistência nos territórios, aldeias e cidades. Devemos negar a negação. O capital negou o direito à terra para construir sua rodovia. Nossa tarefa histórica é negar esse capital, retomando o controle sobre os meios de produção e o território. A BR-277 não precisa ser destruída, mas seu significado invertido: de corredor de exportação para o exterior, pode tornar-se eixo de integração de um Brasil soberano, onde os povos originários sejam condutores do próprio destino.
Nota: Este artigo foi inspirado nas reflexões do autor sobre a obra "Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas" (Appris, 2023), que analisa a luta de classes na totalidade da formação social brasileira.
Referências e Fontes:
- TOMMASINO, Kimiye; MOTA, Lucio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva. Novas Contribuições aos Estudos dos Kaingang. Eduem, 2004.
- CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos Índios no Brasil. Companhia das Letras, 1992.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
- Relatório da CPI da Funai e do Incra (1988) - Capítulo sobre o Paraná.
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