sexta-feira, 5 de junho de 2026

EUA: Bilionários Pedem Guerra e Lucram com a Morte

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Lucro de Guerra: Como o Capital Financeirizado Transforma Conflito em Acumulação

Por Walter Azevedo

Enquanto diplomatas negociam cessar-fogo e populações contam seus mortos, um grupo seleto de bilionários norte-americanos registra trimestres recordes. Não é coincidência. Em 2024, as cinco maiores empresas do complexo militar-industrial dos EUA — Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, Boeing Defense e L3Harris — acumularam receitas superiores a 230 bilhões de dólares. No mesmo período, os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio intensificaram-se. A pergunta que o noticiário mainstream evita fazer é simples: para quem a guerra é negócio?

O Que Aparece na Superfície

A narrativa dominante apresenta os conflitos militares em curso como disputas entre nações, choques de valores ou defesa da "ordem internacional". Os grandes veículos de comunicação enquadram cada escalada bélica como resposta humanitária, imperativo de segurança ou obrigação aliada. O Congresso norte-americano aprova pacotes de ajuda militar medidos em dezenas de bilhões, e os comentaristas debatem estratégia geopolítica como se os interesses econômicos concretos fossem irrelevantes para a decisão. Essa é a aparência — funcional, legitimadora e cuidadosamente construída para que nossa classe não perceba quem paga a conta e quem embolsa o lucro.

O que escapa ao enquadramento midiático é que os principais lobbistas por mais verbas militares no Congresso dos EUA são, simultaneamente, os maiores acionistas das empresas que fabricam as armas financiadas por essas verbas. O ciclo é quase elegante em sua brutalidade: o Estado contrata, a indústria produz, os bilionários lucram, os trabalhadores — dos dois lados dos conflitos — morrem.

A Contradição que o Noticiário Não Narra

Lenin, ao analisar o imperialismo como fase superior do desenvolvimento do grande capital, identificou com precisão o mecanismo que observamos hoje: a fusão entre capital bancário e capital industrial cria uma oligarquia financeira que subordina o Estado às suas necessidades de expansão e acumulação. O que ele chamou de "exportação de capital" encontra hoje uma de suas formas mais rentáveis na exportação de armamentos financiada pelo próprio orçamento público. É o contribuinte estadunidense — majoritariamente trabalhador — que subsidia o lucro privado dos acionistas da Lockheed.

Não se trata de conspiracionismo. Trata-se de relações de produção concretas. Os chamados "defense contractors" investem centenas de milhões de dólares anualmente em contribuições de campanha e lobbying no Congresso. Em troca, recebem contratos que multiplicam esse investimento por dez, por vinte, por cem. A guerra, nesse arranjo, não é fracasso da diplomacia — é produto deliberado de uma determinada correlação de forças no interior do próprio Estado imperial.

Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini nos ensinaram que a dependência não é apenas econômica — é também militar e tecnológica. Países como o Brasil, pressionados a adquirir equipamentos bélicos compatíveis com os padrões da OTAN, transferem riqueza nacional para esse mesmo complexo industrial. Quando debatemos a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, estamos tocando em uma das faces do mesmo processo: a subordinação dos recursos estratégicos nacionais à lógica do capital financeirizado que tem em Wall Street — e nos seus braços militares — seu centro nervoso.

Quem Ganha, Quem Paga

Os números são didáticos. Entre 2022 e 2024, o valor de mercado das principais empresas do setor de defesa dos EUA cresceu entre 40% e 80%. Os CEOs dessas corporações receberam bônus recordes. Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas estimou que o custo da reconstrução da Ucrânia já ultrapassa 500 bilhões de dólares — dinheiro que, em grande medida, voltará aos mesmos grupos que lucraram com a destruição. É a acumulação em ciclo fechado: destroem e reconstroem, cobram duas vezes.

Do outro lado da equação, os trabalhadores norte-americanos veem seus serviços públicos sistematicamente sucateados. Saúde, educação, infraestrutura urbana — tudo subordinado ao que o Estado imperial chama de "necessidades de segurança nacional". Nossa classe, aqui e lá, financia com impostos e com sangue a expansão de fortunas que jamais verá.

O Que Isso Significa Para Nós

A análise que desenvolvemos em Da Dispersão à Soberania é pertinente aqui: sem projeto político organizado e consciência de classe, nossa resposta aos movimentos do imperialismo será sempre reativa e fragmentada. Não basta denunciar — é preciso construir alternativas concretas de soberania nacional que rompam os laços de dependência que nos amarram a essa lógica bélica.

No Brasil, isso significa defender com clareza as empresas estratégicas nacionais, recusar a subordinação tecnológica e militar aos interesses do capital do Norte, e fortalecer projetos de integração regional que ampliem nossa margem de manobra. Significa também compreender que paz não é ausência de conflito — é resultado de uma correlação de forças que hoje está desfavorável para os de baixo, e que só muda com organização política consequente.

A guerra que os bilionários pedem não começa nos campos de batalha. Começa nos conselhos de administração, nos lobbies do Congresso, nas mesas dos fundos de investimento. Termina — quando termina — nos cemitérios dos trabalhadores. Nossa tarefa é organizar a consciência de que esse ciclo tem endereço, tem nome, tem classe. E que pode — e deve — ser interrompido.

Para aprofundar

  • Lenin, V.I. — O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (1916)
  • Marini, Ruy Mauro — Dialética da Dependência (1973)
  • Azevedo, Walter — Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas, Appris, 2023
  • Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) — SIPRI Yearbook 2024: Armaments, Disarmament and International Security
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