sexta-feira, 5 de junho de 2026

Futuro, Filosofia e Disputa: Apropriação do Amanhã e Luta de Classes

Futuro e Práxis: A Disputa pela História que Ainda não Aconteceu

Por Walter Azevedo

Em meio à enxurrada de notícias sobre cortes orçamentários, reformas que retiram direitos e a precarização que se aprofunda, raramente paramos para perguntar: que futuro está sendo gestado neste exato momento? Não o futuro distante da ficção científica, mas o amanhã concreto que nasce das decisões tomadas hoje nos ministérios, nas assembleias legislativas e nas salas de reunião dos conselhos de administração. O futuro não é um vazio à nossa frente, esperando passivamente para ser preenchido. Ele é, como ensina a dialética, uma contradição em movimento — disputado palmo a palmo entre projetos de classe antagônicos.

Aparência: o futuro como mercadoria

A ideologia dominante trata o futuro como um produto. Vende-se "futuro" em cursos de coaching, em promessas de startups, em discursos de "inovação disruptiva". O empresário promete que, se você se adaptar, seu futuro será próspero. O mercado financeiro especula com contratos futuros. Transformamos a própria temporalidade em uma mercadoria fetichizada. Basta olhar para o discurso dos economistas ortodoxos: "sacrifícios hoje para colher no futuro". Quem sacrifica? Nossa classe. Quem colhe? A mesma minoria que já concentra a riqueza produzida pelo nosso trabalho. O futuro vendido pela propaganda neoliberal é uma promessa que nunca se realiza — um horizonte que sempre recua conforme avançamos.

Essência: o futuro como campo de batalha

Por trás da aparência de um futuro neutro, inevitável ou técnico, esconde-se a disputa mais fundamental da política: a luta para determinar qual classe social imprimirá sua marca nos próximos capítulos da história. O filósofo alemão Walter Benjamin já nos alertava: o passado não espera ser encontrado, ele é disputado. O mesmo vale para o futuro. Cada avanço do capital financeirizado sobre direitos conquistados — como vimos na recente tentativa de privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil — é uma manobra para trancar o futuro dentro dos limites do lucro privado.

O economista Theotônio dos Santos, ao estudar a dependência latino-americana, demonstrou como o subdesenvolvimento não é uma etapa atrasada, mas uma função estrutural do capitalismo global. O futuro que nos oferecem como "desenvolvimento" é, para países como o Brasil, a perpetuação da condição de exportadores de commodities e importadores de tecnologia. Cada acordo comercial desfavorável, cada renúncia à soberania nacional, cada entrega do patrimônio público empurra nossa classe para um futuro de mais subordinação.

A filosofia do futuro: idealismo versus materialismo

A filosofia idealista concebe o futuro como uma ideia a ser realizada — a "pátria do ser", na expressão de Hegel, onde o espírito se reconcilia consigo mesmo. Já o materialismo histórico nos ensina que o futuro é produzido materialmente pelas relações sociais de produção. Não se trata de imaginar um mundo melhor, mas de identificar as contradições reais que, ao se desenvolverem, podem abrir caminho para uma nova forma de organização social.

Em 2023, a Taxa Selic brasileira atingiu 13,75% ao ano, enquanto a inflação ficou em torno de 5%. Essa diferença, aparentemente técnica, é uma brutal transferência de renda da nossa classe para o capital financeiro. Cada ponto percentual de juros real significa bilhões de reais que deixam de financiar saúde, educação e infraestrutura — e que poderiam criar um outro futuro possível. O futuro não é abstrato: ele tem preço, e estamos pagando caro por um que não nos pertence.

Disputar o futuro é disputar o presente

A esquerda cometeu um erro estratégico ao abandonar a reflexão sobre o futuro para os "futurólogos" de mercado. Precisamos resgatar a utopia concreta, na expressão de Ernst Bloch — não o sonho vazio, mas a projeção das possibilidades reais inscritas nas contradições do presente. A luta contra a destruição das memórias de nossa classe e a resistência à compressão de nossa vida pelo trabalho precário são formas de disputar o futuro. Cada greve vitoriosa, cada ocupação de terra, cada projeto popular aprovado em uma câmara municipal é um tijolo colocado na construção de um horizonte diferente.

Organizar a esperança

A frase de Lênin ecoa com força renovada: "Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário." Disputar o futuro exige mais do que indignação. Exige organização política, acúmulo de forças, elaboração de um projeto de nação soberana e socialmente justa. Precisamos responder à pergunta que a crise do capitalismo não cessa de colocar: que tipo de sociedade queremos construir quando as velhas promessas do neoliberalismo se revelarem de vez como a farsa que sempre foram?

O futuro não virá por si mesmo. Ou nossa classe organizada o constrói, ou a classe do capital continuará a nos vender um futuro que nunca chega. A escolha é nossa — e o momento de fazê-la é agora.


Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito de História (Teses), 1940.
  • BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança, 1954.
  • SANTOS, Theotônio dos. A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas, 2000.
  • Dados da Taxa Selic e inflação: Banco Central do Brasil, Relatório Focus, 2023.

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