sexta-feira, 5 de junho de 2026

Nossas Memórias Atiradas pela Janela: Política e Esquecimento

Memória e Luta de Classes: Quando Apagar o Passado é uma Estratégia de Poder

Por Walter Azevedo

Em março de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou o fechamento do Instituto Nacional de Arquivos e Registros — reduzindo seu orçamento em mais de 70% e demitindo centenas de servidores responsáveis por preservar a memória pública do país. Não foi um acidente burocrático. Foi um gesto político. Enquanto isso, no Brasil, bibliotecas comunitárias somem, museus periféricos fecham por falta de verba e a história dos trabalhadores segue sendo contada — quando é contada — pelas páginas que a classe do capital autoriza. Nossas memórias estão sendo atiradas pela janela. E essa janela dá para um precipício.

O que se apaga não é o passado — é a consciência

A memória coletiva não é um arquivo sentimental. É uma arma. Quem controla o que se lembra controla o que se imagina como possível. Quando a classe trabalhadora perde acesso à sua própria história — às greves que conquistaram direitos, às lutas que derrubaram ditaduras, às resistências que custaram sangue — ela perde também a capacidade de reconhecer sua força. Não por acaso, os primeiros atos de qualquer projeto autoritário passam pela queima de livros, pela demissão de professores e pelo esvaziamento das instituições de memória. Isso não é metáfora: é método.

No Brasil, vivemos uma contradição aguda. De um lado, um governo que acena para os movimentos sociais e anuncia investimentos em cultura. Do outro, o Orçamento de 2025 destinou ao Ministério da Cultura menos de 0,1% do total — enquanto o serviço da dívida pública consumiu mais de 45% de tudo que o Estado arrecadou. O que não entra no orçamento não existe. E o que não existe não se lembra.

A economia política do esquecimento

Não se trata de descaso ou incompetência. O esvaziamento da memória popular obedece a uma lógica precisa. Quando nossa classe desconhece as conquistas históricas arrancadas com luta — a CLT, o direito à greve, a reforma agrária como horizonte, a soberania sobre o petróleo — ela tende a receber cada vitória como concessão generosa do Estado ou do mercado, e cada derrota como fatalidade inevitável. A dependência ideológica é o complemento perfeito da dependência econômica. Theotônio dos Santos já demonstrava que a subordinação das formações sociais periféricas não opera apenas pelo fluxo de capitais — opera também pelo controle da produção de sentido.

Nesse quadro, o trabalho precário e a vida comprimida ganham outra dimensão: trabalhador exausto não tem tempo para estudar, organizar-se ou lembrar. A precarização não é só econômica — é cognitiva e histórica. Ela fabrica um presente eterno onde o passado foi roubado e o futuro parece impossível.

"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua própria escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado." — Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte

Memória, território e projeto nacional

A questão da memória se articula diretamente com o debate sobre soberania. Quando se privatiza a narrativa histórica — entregando-a às grandes plataformas digitais, ao entretenimento de massas produzido pelo Norte Global ou ao revisionismo financiado por institutos liberais —, o que se perde não é apenas cultura: é a capacidade de construir um projeto nacional-popular enraizado nas lutas reais de nosso povo. Não por acaso, privatizar Petrobras e Banco do Brasil anda de mãos dadas com privatizar a memória: ambas as operações retiram da classe trabalhadora instrumentos estratégicos de disputa.

A luta pela memória é, portanto, parte da luta pela hegemonia. Não a hegemonia como dominação, mas como direção intelectual e moral de um projeto coletivo. Nossa classe precisa recuperar a sua história não para ficar presa nela, mas para reconhecer, nela, os traços do que é capaz de fazer.

O que fazemos com essa janela aberta

A suprassunção desse quadro não vem de lamentos — vem de organização. Há frentes concretas em que a classe trabalhadora pode e deve atuar:

  • Pressionar por políticas públicas de memória com orçamento real — não simbólico — nas três esferas de governo;
  • Valorizar e fortalecer os espaços autônomos de memória popular: arquivos sindicais, acervos de movimentos sociais, bibliotecas comunitárias;
  • Incorporar a formação histórica nos processos de organização política — nos sindicatos, nos partidos, nos coletivos de base;
  • Disputar as plataformas digitais com narrativas que recuperem a história de nossa classe — não como nostalgia, mas como consciência estratégica.

Como argumento em Como Vencer na Grande Política, a consciência de classe não nasce espontaneamente da experiência imediata da exploração. Ela é construída — e a memória coletiva é um dos seus materiais fundamentais. Sem ela, cada geração começa do zero, reinventando rodas que já foram inventadas e pagando preços que já foram pagos.

Precisamos lembrar para não recomeçar sempre do início. Precisamos lembrar para saber que a dispersão não é nosso destino — e que projetos coletivos, enraizados na história real de nossa gente, são a única resposta à janela que a classe do capital insiste em manter aberta. Nossa tarefa é fechar essa janela por dentro — e guardar o que é nosso.

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