O contraste entre a evocação do passado de lutas e as alianças atuais de Lula com o capital financeiro e o agronegócio não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

Principais pontos
- A memória das lutas históricas, isolada da prática presente, torna-se fetiche e instrumento de desmobilização.
- A campanha sela acordos com o alto comando do capital, incluindo partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade.
- A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros acima de 13% ao ano e orçamento sequestrado pelo serviço da dívida.
- A soberania nacional é trocada por acordos comerciais como o tarifário com os EUA, que aprofundam a subordinação estrutural ao imperialismo.
O passado como escudo e a rendição presente: a disputa de classes na campanha de Lula
Por Walter Azevedo
Nos comícios de 2026, as telas exibem metalúrgicos em greve no ABC, assembleias lotadas, embates contra a repressão. Lula sobe ao palco e evoca a coragem daqueles tempos, arrancando aplausos. Poucos metros abaixo, sentam-se representantes do sistema financeiro, do agronegócio e de grupos que ontem apoiaram o esfacelamento da CLT. Esse contraste não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.
O espetáculo da memória
A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das lutas históricas. Documentários, vídeos com imagens das greves de 1978-1980, discursos que remetem à criação do PT. Essa evocação tem função mobilizadora: reacender a identidade de classe dos trabalhadores. Mas a memória, isolada da prática presente, torna-se fetiche. Não basta lembrar que já fomos explorados e lutamos; é preciso ver o que se faz hoje com as mãos que antes empunhavam bandeiras.
A nostalgia é um véu poderoso. Ela oferece um passado heroico como consolo diante de um presente de derrotas simbólicas e materiais. Enquanto as telas mostram operários de macacão, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem a manutenção do arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos. A memória vira instrumento de desmobilização: se já lutamos, por que lutar de novo?
A rendição ao capital financeiro
O contraste é brutal. Enquanto os comícios exaltam o passado de combatividade, a campanha sela acordos com o alto comando do capital. A composição de alianças inclui partidos que apoiaram o golpe e hoje barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros que ultrapassam 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida — como analisamos em nossa crítica à dívida pública — e a manutenção das metas fiscais impostas pelo mercado. Quase metade dos trabalhadores brasileiros permanece na informalidade, sem proteção social, enquanto o capital financeiro drena recursos do Estado.
Isso não é apenas realismo eleitoral; é capitulação diante da classe do capital e do imperialismo. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que reforçam a dependência, como o acordo tarifário com os EUA, que aprofunda a subordinação estrutural. A campanha opera dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece, sem ousar desafiá-los.
A disputa de classes desnudada
A evocação do passado serve, nesse contexto, como escudo ideológico. Ela oculta o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio. Há um cálculo político: mobilizar a base para garantir votos, mas também sinalizar previsibilidade ao mercado para garantir financiamento e espaço na mídia. Resultado: um discurso duplo que desarma a classe trabalhadora, fazendo-a crer que a luta pelo passado garante o futuro, enquanto as estruturas de exploração permanecem intactas.
Os fatores em jogo são claros. De um lado, a pressão do capital financeirizado por juros altos e cortes em direitos sociais. De outro, a aliança com setores que jamais aceitaram a participação popular no orçamento. A correlação de forças pende para o capital, e a campanha se adapta a essa geometria. A contradição é totalizante: a mesma figura que evoca greves históricas negocia com quem as combateu. A mediação necessária — a organização autônoma dos trabalhadores — é empurrada para segundo plano.
Organizar para superar
A saída não está em rejeitar a memória, mas em submetê-la à crítica da práxis. O passado de lutas só tem sentido se orientar a ação presente rumo à superação da ordem vigente. Isso exige organização política independente, construção de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a sangria financeira, e não se contente com gestos simbólicos. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, as classes sociais se enfrentam no terreno da política concreta; a consciência de classe se forja na luta, não na contemplação do passado.
Precisamos retomar as bandeiras históricas sem aceitar a capitulação: reforma agrária, auditoria da dívida, soberania tecnológica e redução da jornada de trabalho, como apontamos em nossa análise sobre a jornada. A classe trabalhadora não pode se contentar com a memória como fetiche; é preciso transformar a lembrança em programa de luta.
Referências
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
- AZEVEDO, Walter. Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução.
- Dívida pública e juros altos: transferência de renda do trabalho ao capital financeiro.
- Acordo tarifário Brasil-EUA: subordinação estrutural ou brecha para soberania?.
Perguntas Frequentes
Como a evocação do passado de lutas esconde a capitulação presente?
A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das greves e da criação do PT para reacender a identidade de classe, mas essa memória isolada da prática presente torna-se fetiche. Enquanto as telas mostram operários em luta, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem o arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos.
Quais alianças revelam a rendição de Lula ao capital financeiro?
A campanha sela acordos com partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida mantém juros acima de 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida e metas fiscais impostas pelo mercado, sem romper com a lógica rentista.
Qual é o papel da memória na campanha de Lula?
A memória das greves de 1978-1980 e da criação do PT tem função mobilizadora, mas isolada da prática presente torna-se fetiche. A nostalgia oferece um passado heroico como consolo diante de derrotas simbólicas e materiais, transformando a memória em instrumento de desmobilização da classe trabalhadora.
Como o acordo tarifário com os EUA aprofunda a subordinação?
O acordo tarifário com os EUA reforça a dependência estrutural do Brasil. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que aprofundam a subordinação ao imperialismo, operando dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece.
O que a disputa de classes na campanha de Lula evidencia?
A disputa de classes fica evidente no contraste entre os comícios que exaltam o passado de combatividade e as alianças com o sistema financeiro e o agronegócio. A evocação do passado serve como escudo ideológico para ocultar o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio.
