segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Luta de classes na campanha de Lula: passado esconde rendição

O contraste entre a evocação do passado de lutas e as alianças atuais de Lula com o capital financeiro e o agronegócio não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

Principais pontos

  • A memória das lutas históricas, isolada da prática presente, torna-se fetiche e instrumento de desmobilização.
  • A campanha sela acordos com o alto comando do capital, incluindo partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade.
  • A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros acima de 13% ao ano e orçamento sequestrado pelo serviço da dívida.
  • A soberania nacional é trocada por acordos comerciais como o tarifário com os EUA, que aprofundam a subordinação estrutural ao imperialismo.

O passado como escudo e a rendição presente: a disputa de classes na campanha de Lula

Por Walter Azevedo

Nos comícios de 2026, as telas exibem metalúrgicos em greve no ABC, assembleias lotadas, embates contra a repressão. Lula sobe ao palco e evoca a coragem daqueles tempos, arrancando aplausos. Poucos metros abaixo, sentam-se representantes do sistema financeiro, do agronegócio e de grupos que ontem apoiaram o esfacelamento da CLT. Esse contraste não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

O espetáculo da memória

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das lutas históricas. Documentários, vídeos com imagens das greves de 1978-1980, discursos que remetem à criação do PT. Essa evocação tem função mobilizadora: reacender a identidade de classe dos trabalhadores. Mas a memória, isolada da prática presente, torna-se fetiche. Não basta lembrar que já fomos explorados e lutamos; é preciso ver o que se faz hoje com as mãos que antes empunhavam bandeiras.

A nostalgia é um véu poderoso. Ela oferece um passado heroico como consolo diante de um presente de derrotas simbólicas e materiais. Enquanto as telas mostram operários de macacão, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem a manutenção do arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos. A memória vira instrumento de desmobilização: se já lutamos, por que lutar de novo?

A rendição ao capital financeiro

O contraste é brutal. Enquanto os comícios exaltam o passado de combatividade, a campanha sela acordos com o alto comando do capital. A composição de alianças inclui partidos que apoiaram o golpe e hoje barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros que ultrapassam 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida — como analisamos em nossa crítica à dívida pública — e a manutenção das metas fiscais impostas pelo mercado. Quase metade dos trabalhadores brasileiros permanece na informalidade, sem proteção social, enquanto o capital financeiro drena recursos do Estado.

Isso não é apenas realismo eleitoral; é capitulação diante da classe do capital e do imperialismo. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que reforçam a dependência, como o acordo tarifário com os EUA, que aprofunda a subordinação estrutural. A campanha opera dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece, sem ousar desafiá-los.

A disputa de classes desnudada

A evocação do passado serve, nesse contexto, como escudo ideológico. Ela oculta o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio. Há um cálculo político: mobilizar a base para garantir votos, mas também sinalizar previsibilidade ao mercado para garantir financiamento e espaço na mídia. Resultado: um discurso duplo que desarma a classe trabalhadora, fazendo-a crer que a luta pelo passado garante o futuro, enquanto as estruturas de exploração permanecem intactas.

Os fatores em jogo são claros. De um lado, a pressão do capital financeirizado por juros altos e cortes em direitos sociais. De outro, a aliança com setores que jamais aceitaram a participação popular no orçamento. A correlação de forças pende para o capital, e a campanha se adapta a essa geometria. A contradição é totalizante: a mesma figura que evoca greves históricas negocia com quem as combateu. A mediação necessária — a organização autônoma dos trabalhadores — é empurrada para segundo plano.

Organizar para superar

A saída não está em rejeitar a memória, mas em submetê-la à crítica da práxis. O passado de lutas só tem sentido se orientar a ação presente rumo à superação da ordem vigente. Isso exige organização política independente, construção de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a sangria financeira, e não se contente com gestos simbólicos. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, as classes sociais se enfrentam no terreno da política concreta; a consciência de classe se forja na luta, não na contemplação do passado.

Precisamos retomar as bandeiras históricas sem aceitar a capitulação: reforma agrária, auditoria da dívida, soberania tecnológica e redução da jornada de trabalho, como apontamos em nossa análise sobre a jornada. A classe trabalhadora não pode se contentar com a memória como fetiche; é preciso transformar a lembrança em programa de luta.

Referências

Perguntas Frequentes

Como a evocação do passado de lutas esconde a capitulação presente?

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das greves e da criação do PT para reacender a identidade de classe, mas essa memória isolada da prática presente torna-se fetiche. Enquanto as telas mostram operários em luta, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem o arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos.

Quais alianças revelam a rendição de Lula ao capital financeiro?

A campanha sela acordos com partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida mantém juros acima de 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida e metas fiscais impostas pelo mercado, sem romper com a lógica rentista.

Qual é o papel da memória na campanha de Lula?

A memória das greves de 1978-1980 e da criação do PT tem função mobilizadora, mas isolada da prática presente torna-se fetiche. A nostalgia oferece um passado heroico como consolo diante de derrotas simbólicas e materiais, transformando a memória em instrumento de desmobilização da classe trabalhadora.

Como o acordo tarifário com os EUA aprofunda a subordinação?

O acordo tarifário com os EUA reforça a dependência estrutural do Brasil. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que aprofundam a subordinação ao imperialismo, operando dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece.

O que a disputa de classes na campanha de Lula evidencia?

A disputa de classes fica evidente no contraste entre os comícios que exaltam o passado de combatividade e as alianças com o sistema financeiro e o agronegócio. A evocação do passado serve como escudo ideológico para ocultar o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio.

Democracia mais antiga dos EUA e a punição imperialista ao Haiti

A punição ao Haiti nasce de uma necessidade estrutural: disciplinar o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder, expondo a contradição entre a retórica da democracia mais antiga dos EUA e a prática imperialista.

Principais pontos

  • O Haiti, primeiro país a abolir a escravidão e a conquistar independência por meio de uma revolução social vitoriosa, segue pagando pelo crime de ter virado a mesa no jogo colonial.
  • Em 1825, a França impôs à jovem república uma indenização de 150 milhões de francos-ouro apenas para reconhecer a soberania que os canaviais queimados já haviam imposto.
  • A ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934 reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro.
  • Castigar o Haiti não é vingança de senhores saudosos; é expressão da luta de classes em escala internacional.
  • O capital financeirizado precisa de periferias disciplinadas, e o Haiti — nascido de uma revolução social — é a negação viva da ordem que o Norte pretende impor.

Dialética da punição: a “democracia mais antiga” contra a memória da revolução haitiana

Por Walter Azevedo

Enquanto Washington celebra o rótulo de democracia mais antiga do mundo, aviões fretados decolam de aeroportos da Flórida levando haitianos algemados de volta ao caos que o próprio poder imperial ajudou a criar. Não se trata de exceção, mas de método. O Haiti, primeiro país a abolir a escravidão e a conquistar independência por meio de uma revolução social vitoriosa, segue pagando pelo crime de ter virado a mesa no jogo colonial. A punição não nasce de rancor moral, e sim de uma necessidade estrutural: disciplinar o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder.

Em 1825, a França impôs à jovem república uma indenização de 150 milhões de francos-ouro apenas para reconhecer a soberania que os canaviais queimados já haviam imposto. Convertida aos valores atuais, a cifra se aproxima de 21 bilhões de dólares. Esse foi o preço cobrado pela liberdade, pago em suor, fome e dependência por gerações. A retórica da democracia exportada encontra aqui seu limite exato: liberdade para o capital circular, punição para quem ousa romper a ordem do trabalho subordinado.

A farsa democrática e o castigo à insubordinação

Washington insiste que espalha instituições livres pelo mundo. Basta mirar o Haiti para medir o fosso entre o discurso e a prática. Após 1804, nenhuma potência colonial estendeu a mão. Ao contrário: isolaram o país, impuseram embargos e ameaçaram recolonização. A ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934 reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro. O golpe de 2004 contra Jean-Bertrand Aristide, articulado com fundações do establishment ianque, repetiu o ciclo de asfixia e recolonização branda.

Os mecanismos de castigo mudam de roupa, jamais de essência:

  • Endividamento público induzido para submeter o erário à banca privada;
  • Ocupações militares que desorganizam as forças populares e criminalizam a resistência;
  • Deportações em massa que criminalizam a migração e lançam trabalhadores de volta à miséria;
  • Ajuda externa condicionada à desregulamentação, à abertura comercial e à privatização de serviços.

Cada item esconde uma transferência de riqueza do trabalho haitiano para o capital financeirizado. A dívida pública e os juros altos não são abstrações contábeis; são o instrumento cotidiano dessa sangria.

A luta de classes como chave de leitura

Castigar o Haiti não é vingança de senhores saudosos. É expressão da luta de classes em escala internacional. O capital financeirizado precisa de periferias disciplinadas, e o Haiti — nascido de uma revolução social — é a negação viva da ordem que o Norte global impõe. Ruy Mauro Marini, ao analisar a superexploração da força de trabalho na periferia, mostrou como as burguesias dependentes compensam a perda de mais-valia transferindo-a para o centro. No Haiti, essa superexploração atinge níveis extremos: remessas de migrantes sustentam o que o Estado não entrega, enquanto a elite local, associada ao capital externo, lucra com a desgraça e atua como testa de ferro do imperialismo.

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

Marx descreve com precisão o terreno em que as massas haitianas resistem hoje. Não lutam apenas contra gangues armadas, mas contra uma arquitetura de dívida, despossessão e criminalização. Cada deportação é um ato de guerra social contra a memória de 1804. A subordinação estrutural que se negocia em acordos tarifários segue a mesma lógica: manter a periferia de joelhos para que o centro respire.

Memória como trincheira estratégica

A memória da revolução haitiana é a chave de leitura que a “democracia mais antiga” tenta apagar. C.L.R. James, em Os Jacobinos Negros, demonstrou que a luta em São Domingos foi o laboratório da revolução atlântica, antecipando a abolição em quase um século. Ex-escravizados derrotaram três impérios — o francês, o inglês e o espanhol. Essa experiência foi deliberadamente banida dos currículos e da mídia porque ensina que emancipação real exige ruptura com a propriedade privada dos meios de produção. Não por acaso, Washington prefere celebrar fundadores escravistas a lembrar Toussaint L’Ouverture.

A síntese dialética é esta: a hipocrisia democrática dos EUA é funcional à dominação de classe. A retórica de liberdade esconde transferências de valor e violência imperial. No Haiti, o passado revolucionário é um espelho que a burguesia do Norte não quer encarar. Nossa tarefa, como classe trabalhadora, é romper o silêncio. Incorporar a experiência haitiana ao programa nacional-popular latino-americano, conectar as lutas contra deportação e endividamento e construir solidariedade concreta com as organizações de base haitianas que mantêm viva a chama de 1804. A esquerda latino-americana só avança quando assume o fardo dessa memória.

A luta de classes não é um jogo de palavras. É disputa pelo sentido da história. O Haiti prova que a liberdade não se negocia; conquista-se. E que a punição imperialista só termina quando os trabalhadores dos países dominantes se recusam a ser cúmplices e os trabalhadores da periferia tomam o poder. A memória é uma trincheira. Leiamos James, estudemos Marini, relembremos Dessalines. E avancemos.

Perguntas Frequentes

Por que os EUA punem o Haiti apesar da retórica democrática?

A punição nasce de necessidade estrutural: o Haiti é o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder, e disciplinar esse exemplo expõe a contradição entre a democracia exportada e a ordem imperial.

Qual foi o preço cobrado pela independência do Haiti?

Em 1825, a França impôs indenização de 150 milhões de francos-ouro só para reconhecer a soberania haitiana. Convertida, a cifra se aproxima de 21 bilhões de dólares, paga com suor, fome e dependência por gerações.

Como a ocupação militar dos EUA afetou o Haiti?

De 1915 a 1934, a ocupação reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro, desorganizando forças populares e criminalizando a resistência.

O que o Haiti representa para a luta de classes internacional?

O Haiti é a negação viva da ordem que o capital financeirizado precisa impor. Castigá-lo é expressão da luta de classes em escala internacional, buscando periferias disciplinadas.

Quais mecanismos de castigo são usados contra o Haiti?

Endividamento público induzido, ocupações militares, deportações em massa e ajuda externa condicionada à desregulamentação e privatização, cada item transferindo riqueza do trabalho haitiano ao capital financeirizado.