A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos. Não se trata de uma crise moral, mas de uma estratégia de classe.

Principais pontos
- A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos.
- Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões — cerca de um quarto de todo o gasto discricionário da União.
- A PEC 32, ao extinguir a estabilidade de servidores e abrir as portas para a terceirização total, transforma o próprio Estado em espaço de acumulação privada.
- A deslegitimação da política não é efeito colateral da crise, mas uma mediação deliberada da classe do capital financeirizado para desarmar a resistência popular.
Erosão institucional: a ofensiva que desmoraliza a política para impor retrocessos
Por Walter Azevedo
A cena se repete nos terminais de ônibus, nas filas do posto de saúde, nos comentários das redes: a política virou sinônimo de corrupção, o Congresso um balcão de negócios, o funcionalismo um peso morto. Enquanto a classe trabalhadora sofre a carestia, o discurso de que "nenhum político presta" ganha tração — e não por acaso. A desmoralização da esfera pública é hoje o terreno fértil onde a ofensiva neoliberal planta seus ajustes e retrocessos. Precisamos nomear essa operação com a exatidão da dialética: não se trata de uma crise moral, mas de uma estratégia de classe.
Um orçamento sequestrado pela lógica rentista
O orçamento público é o espelho mais fiel dessa guerra silenciosa. Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões — cerca de um quarto de todo o gasto discricionário da União. Os ministérios da Saúde e da Educação viram suas verbas de custeio encolher enquanto a máquina pública é tomada por indicações políticas sem critério técnico. O resultado não é invisível: concursos congelados, postos de saúde sem insumos, universidades com laboratórios sucateados. Cria-se deliberadamente a imagem de um Estado ineficiente para justificar, em seguida, a sua privatização ou o corte de direitos. Esse movimento foi exposto com precisão quando denunciamos como as isenções fiscais revelam o caráter de classe do Estado e a luta pela verdade e justiça social (leia aqui).
A PEC 32, que tramita sob o rótulo de "modernização administrativa", é o exemplo acabado dessa engenharia. Ao extinguir a estabilidade de servidores, abrir as portas para a terceirização total e submeter o funcionalismo a avaliações de desempenho definidas por critérios de mercado, ela não apenas precariza o trabalho — ela transforma o próprio Estado em espaço de acumulação privada. O discurso que a acompanha é sempre o mesmo: "o Brasil gasta muito com servidor", "o serviço público é uma fábrica de privilégios". A mentira repetida mil vezes vira senso comum.
A mediação de classe por trás da fumaça
Aqui está o nó que o senso comum não enxerga: a deslegitimação da política não é efeito colateral da crise. Trata-se de uma mediação deliberada da classe do capital financeirizado para desarmar a resistência popular. Quando o trabalhador desempregado conclui que "votar não muda nada", ele abandona a luta institucional e deixa o terreno livre para as oligarquias. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, a hegemonia se constrói não apenas pela força, mas pela produção de um imaginário que naturaliza a subordinação. Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, na tradição da teoria da dependência, mostraram como as burguesias periféricas se associam ao imperialismo para manter privilégios internos. A desmoralização do Estado nacional é funcional a essa associação: sem soberania, sem política pública forte, o país se torna presa fácil para o capital estrangeiro.
Os ataques à Petrobras, ao SUS, à educação pública não são obra de "maus gestores" — são o programa de uma fração de classe que lucra com a destruição do comum. O mesmo movimento se vê na ascensão de um discurso antipolítica nas redes, financiado por think tanks liberais e plataformas digitais. A cada escândalo de corrupção envolvendo um político fisiológico, o algoritmo amplifica o "são todos iguais". Mas a corrupção da velha política não é o oposto do neoliberalismo: é sua porta de entrada. O fisiologismo desmoraliza o parlamento para que as reformas do capital passem sem debate público.
Reconstruir a política como práxis coletiva
Diante desse cerco, a resposta não é o cinismo nem a apatia. É a reconstrução da política popular desde baixo, como mostram as experiências de autogestão que já retratamos neste blog (leia aqui). Quando moradores de periferias organizam cozinhas solidárias, mutirões de limpeza ou hortas comunitárias, eles não estão apenas tapando buracos do Estado ausente — estão ensaiando outra forma de poder. A práxis não é um conceito abstrato: é a ação coletiva que transforma as condições materiais.
A tarefa estratégica da classe trabalhadora é dupla: defender as instituições públicas que ainda servem à maioria (SUS, escolas, universidades) e, ao mesmo tempo, construir organismos próprios de decisão — conselhos populares, comitês de bairro, sindicatos combativos. Não se trata de eleger "bons políticos" dentro da ordem vigente, mas de mudar a correlação de forças que define quais políticas são possíveis. A mobilização do Grito dos Excluídos mostrou que é possível unificar pautas locais e conjuntura nacional (leia aqui). A erosão institucional não será revertida por apelos morais à "boa gestão". Exige um projeto nacional-popular que enfrente a dominação rentista e reconstrua a soberania sobre o orçamento, o território e o tempo da vida. O próximo ciclo eleitoral não pode ser tratado como um jogo de escolhas individuais. Precisa ser um campo de disputa programática, onde a classe trabalhadora apresente suas próprias bandeiras: tributação progressiva, fim das emendas secretas, revogação do arcabouço fiscal, soberania sobre os recursos naturais. Só assim a política deixará de ser o balcão de negócios da elite para se tornar o que sempre deveria ter sido: a ferramenta da nossa emancipação.
Para aprofundar a leitura
- MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
- LENIN, Vladimir. O Estado e a Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2017.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
- SANTOS, Theotônio dos. Teoria da Dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
Perguntas Frequentes
O que é erosão institucional?
É o processo de desmoralização da esfera pública — política, Congresso e funcionalismo — que, segundo o texto, não é uma crise moral, mas uma estratégia de classe para desarmar a resistência popular e impor ajustes neoliberais.
Como as emendas parlamentares impositivas afetam o orçamento público?
Em 2026, as emendas parlamentares impositivas ultrapassam R$ 50 bilhões, cerca de um quarto do gasto discricionário da União, reduzindo verbas de custeio de ministérios como Saúde e Educação e criando a imagem de um Estado ineficiente.
O que é a PEC 32 e quais seus impactos?
A PEC 32 é uma proposta de "modernização administrativa" que extingue a estabilidade de servidores, abre espaço para a terceirização total e submete o funcionalismo a critérios de mercado, precarizando o trabalho e transformando o Estado em espaço de acumulação privada.
Por que a deslegitimação da política favorece o neoliberalismo?
Quando o trabalhador conclui que "votar não muda nada", ele abandona a luta institucional e deixa o terreno livre para as oligarquias, permitindo que a classe do capital financeirizado imponha ajustes e retrocessos sem resistência.
Qual o papel da mídia na desmoralização do serviço público?
O discurso que repete frases como "o Brasil gasta muito com servidor" e "o serviço público é uma fábrica de privilégios" cria o senso comum necessário para justificar privatizações e cortes de direitos, segundo a análise do autor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário