O Grito dos Excluídos é a exposição aberta de uma contradição que o cotidiano tenta esconder: a voz que grita nas ruas é a classe trabalhadora, cansada de esperar. Suas pautas locais expressam uma única estrutura de classe, nacional e internacional.

Principais pontos
- Cada demanda do Grito não é um fragmento isolado de sofrimento; é mediação de um processo contínuo de expropriação.
- A falta de saneamento básico expressa a prioridade orçamentária dada ao serviço da dívida, não à vida.
- A diversidade de rostos no Grito não dissolve a unidade de posição na produção da riqueza: explorados por quem vive da renda, do juro e da terra.
- O Estado brasileiro foi arquitetado para transferir renda dos trabalhadores para o capital financeirizado.
Grito dos Excluídos: mediação da luta de classes e a disputa pela soberania popular
Por Walter Azevedo
Nas ruas de centenas de periferias brasileiras, o Grito dos Excluídos voltou a ecoar neste setembro. Não se trata de um ritual anual de denúncia; trata-se da exposição aberta de uma contradição que o cotidiano tenta esconder sob carpetes de avenidas e promessas de retomada econômica. Enquanto o noticiário celebra números de crescimento, ainda há quem não tenha água tratada, moradia digna ou creche para os filhos. A voz que grita nas ruas é a nossa classe, cansada de esperar.
Nascido em 1995, o Grito articula, há três décadas, a fala de quem a ordem do capital insiste em silenciar. As pautas são locais — a reintegração de posse ameaçada, o ônibus que não passa, o posto de saúde fechado, o território quilombola invadido. Porém, a estrutura que as produz é nacional e internacional. Nossa tarefa é desvelar essa totalidade, sem a qual o grito se transforma em lamento sem direção.
A superfície e a raiz: a pauta local como expressão da totalidade
Cada demanda apresentada no Grito não é um fragmento isolado de sofrimento; é mediação de um processo contínuo de expropriação. A falta de saneamento básico no bairro da periferia expressa a prioridade orçamentária dada ao serviço da dívida, não à vida. O despejo de famílias de um edifício ocupado no centro revela a especulação imobiliária que transforma moradia em ativo financeiro, não em direito. A precarização do transporte público escancara a lógica rentista que sangra o fundo público para engordar contratos de concessão.
Como já analisamos na superexploração das cuidadoras, o capital trata necessidades humanas como custo a ser cortado. Cada creche fechada é um subsídio a mais para o rentista. Cada moradia precarizada é um terreno valorizado para a especulação. O Grito dos Excluídos, ao reunir essas pautas dispersas, cumpre uma função teórica essencial: mostra que a soma das dores locais aponta para uma única estrutura de classe.
"A história de todas as sociedades até os nossos dias é a história da luta de classes."
A frase de Marx, citada à exaustão, ganha concretude quando vemos a diversidade de rostos no Grito: sem-teto, sem-terra, quilombolas, trabalhadores informais, mulheres chefes de família. A diversidade aparente não dissolve a unidade de posição na produção da riqueza — explorados por quem vive da renda, do juro e da terra.
A asfixia do fundo público e o papel do Estado
Algumas análises tratam a escassez de recursos para políticas públicas como erro de gestão. Nada mais distante da verdade. O Estado brasileiro, em sua formação social dependente, foi arquitetado para transferir renda dos trabalhadores para o capital financeirizado. O arcabouço fiscal é a blindagem jurídica dessa sangria: congela despesas primárias enquanto os juros da dívida pública não conhecem teto. A cada ano, centenas de bilhões de reais saem dos hospitais, escolas e creches para engordar aplicações de uma minoria rentista.
As pautas do Grito confrontam essa lógica de subordinação que articula o orçamento nacional aos interesses do capital internacional. A prioridade dada ao agronegócio exportador, à mineração e à especulação fundiária responde às exigências de uma economia dependente, subordinada ao imperialismo. A mesma lógica que empurra migrantes para a morte em Ceuta mantém cortadores de cana em condições análogas à escravidão no interior do Brasil. Não há separação entre o sofrimento local e a gestão imperialista das fronteiras e dos mercados.
O Estado não é neutro nem benevolente. Ele opera como mediador da luta de classes, ora reprimindo, ora ofertando migalhas para desmobilizar. O Grito dos Excluídos, ao ocupar as ruas em setembro, tensiona essa mediação e expõe a natureza de classe do aparelho estatal.
Organização como mediação: do grito à hegemonia
A indignação nas ruas é necessária, mas insuficiente. A consciência de classe não nasce apenas da dor; nasce da capacidade de enxergar, em cada derrota local, a estrutura que a produz, e de transformar essa leitura em ação coordenada. O Grito dos Excluídos precisa superar a espontaneidade e se converter em força política articulada nos territórios. Sem organização, o grito vira catarse; com organização, vira projeto.
O caminho passa pela construção de um projeto nacional-popular que dispute hegemonia, que aponte para a soberania nacional e para a desvinculação do orçamento público do rentismo. Isso exige comitês de base nos bairros, núcleos sindicais reorganizados, articulação entre movimentos urbanos e rurais. Exige, sobretudo, a compreensão de que a disputa não se resolve apenas em setembro, mas no cotidiano da luta por creche, ônibus e moradia.
Que o Grito deste setembro não termine na avenida. Que ele desdobre em organização permanente nos territórios, em mutirões de solidariedade, em assembleias populares. A classe do capital tem medo do silêncio tanto quanto do grito; teme mais ainda o grito que vira programa, o programa que vira poder popular.
Leituras que iluminam este percurso: O Capital, de Marx; Dialética da dependência, de Ruy Mauro Marini; e Como Vencer na Grande Política, de Walter Azevedo (Appris, 2023).
Perguntas Frequentes
O que é o Grito dos Excluídos?
É uma articulação nascida em 1995 que reúne, há três décadas, a fala de quem a ordem do capital insiste em silenciar: sem-teto, sem-terra, quilombolas, trabalhadores informais e mulheres chefes de família.
Como as pautas locais se conectam à conjuntura nacional?
Cada demanda local é mediação de um processo contínuo de expropriação. A falta de saneamento expressa a prioridade dada à dívida; o despejo revela a especulação imobiliária; a precarização do transporte escancara a lógica rentista.
Qual o papel do Estado na escassez de recursos para políticas públicas?
A escassez não é erro de gestão. O Estado brasileiro, em sua formação social dependente, foi arquitetado para transferir renda dos trabalhadores para o capital financeirizado.
Como o Grito dos Excluídos expressa a luta de classes?
Ao reunir pautas dispersas, o Grito mostra que a soma das dores locais aponta para uma única estrutura de classe: explorados por quem vive da renda, do juro e da terra.
Qual a frase de Marx citada no contexto do Grito?
“A história de todas as sociedades até os nossos dias é a história da luta de classes.” A frase ganha concretude na diversidade de rostos presentes no Grito, unidos pela posição de explorados.
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