quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Autogestão popular como resposta à omissão do poder público

Quando o poder público se omite estruturalmente, a classe trabalhadora se vê obrigada a produzir, com as próprias mãos, aquilo que deveria ser direito garantido — a autogestão popular é essa resposta objetiva a uma política deliberada de abandono.

Principais pontos

  • A geografia da desigualdade se desenha a partir de escolhas políticas mediadas por interesses de classe.
  • O Censo 2022 do IBGE contou 16,6 milhões de brasileiros morando em favelas e comunidades urbanas.
  • As filas por cestas básicas, os mutirões de limpeza após enchentes e os coletivos de construção de casas não são iniciativas pontuais de solidariedade.
  • A autogestão deixa de ser mera assistência e se transforma em práxis política.

Autogestão popular e a geografia da desigualdade: o abandono como projeto de classe

Por Walter Azevedo

A frase que abre este texto não saiu de um relatório de política pública. Saiu de uma cozinha comunitária na zona sul de São Paulo, entre panelas quentes e marmitas organizadas em fila: “o apoio aqui é nós entre nós mesmos”. Quem a pronunciou, uma trabalhadora que há meses coordena um mutirão de alimentação no seu bairro, não estava fazendo poesia. Estava descrevendo, com a precisão de quem vive a contradição na pele, a única rede de proteção que restou onde o Estado escolheu não chegar.

O Censo 2022 do IBGE contou 16,6 milhões de brasileiros morando em favelas e comunidades urbanas. Esse número não é acidente. Ele é o retrato de um processo histórico de expropriação territorial e segregação planejada. Nas periferias, a ausência de saneamento, transporte, creche e segurança não é uma falha de gestão — é um método. A frase da cozinha comunitária, portanto, condensa uma verdade dura: quando o poder público se omite estruturalmente, a classe trabalhadora se vê obrigada a produzir, com as próprias mãos, aquilo que deveria ser direito garantido.

A omissão não é falha: é método de gestão territorial

Partir do concreto exige enxergar a totalidade. Não há “descaso” neutro quando se decide, ano após ano, destinar trilhões de reais ao pagamento de juros da dívida pública e congelar o gasto social. A geografia da desigualdade se desenha a partir de escolhas políticas mediadas por interesses de classe. O Estado brasileiro, historicamente capturado pelo capital financeirizado e por suas frações rentistas, trata o território popular como ralo por onde escorre a sobra do orçamento. O restante vira emenda, obra parada, promessa eleitoral.

Essa lógica aparece com nitidez no arcabouço fiscal aprovado em 2023. Ao limitar o investimento público, ele garante superávit primário para os credores da dívida e empurra para os bairros periféricos a conta do ajuste. As filas por cestas básicas, os mutirões de limpeza após enchentes e os coletivos de construção de casas não são iniciativas pontuais de solidariedade. São respostas objetivas a uma política deliberada de abandono, que joga sobre os ombros dos mais pobres o custo da reprodução do capital.

Autogestão popular: da necessidade imediata à práxis de classe

A frase “o apoio aqui é nós entre nós mesmos” tem uma dimensão dialética pouco percebida. No primeiro momento, ela expressa a urgência de sobreviver: a fome não espera reunião ministerial. No segundo, porém, revela uma tomada de consciência. Quem organiza uma cozinha comunitária percebe que o poder público não falhará sozinho — ele falha porque prioriza outro projeto de sociedade. A autogestão, assim, deixa de ser mera assistência e se transforma em práxis política.

Lenin, em seus estudos sobre a organização do trabalho, já apontava que a cooperação é a escola onde a classe aprende a dirigir a produção e a vida social. Não se trata de romantizar o mutirão. A autogestão popular carrega uma potência teimosa: ela desloca o eixo da subordinação para a autonomia. Ao decidir coletivamente quantas marmitas produzir, quem cozinhar, onde comprar e como distribuir, trabalhadores sem vínculo empregatício exercitam o que o capital chama de “ineficiência” e a luta popular chama de embrião do poder.

A geografia da desigualdade é um projeto de classe

Há um interesse de classe na manutenção da segregação territorial. A valorização imobiliária nas áreas centrais depende da expulsão sistemática de moradores das periferias. O racismo ambiental não é discurso: é tecnologia de gestão do espaço. Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, ao analisarem a dependência latino-americana, mostraram que a superexploração da força de trabalho se sustenta também pela precarização do território. Quando o trabalhador gasta quatro horas diárias no transporte, mora em área de risco e não tem creche pública, ele aceita salários menores e jornadas mais longas. A geografia da desigualdade, portanto, barateia a mão de obra e encarece a vida — em favor de uma minoria que lucra com aluguel, transporte privado e serviços caros.

“O apoio aqui é nós entre nós mesmos” é, ao mesmo tempo, grito de socorro e declaração de guerra.

O livro Como Vencer na Grande Política, que escrevi para sistematizar essas mediações, insiste num ponto simples: a luta pelo poder começa na vida cotidiana. Cada cozinha comunitária, cada biblioteca popular, cada ocupação cultural é uma trincheira onde se disputa consciência de classe. Mas a autogestão, sozinha, não destrói a estrutura que a tornou necessária. Ela precisa se articular a um projeto nacional-popular que confronte a hegemonia do capital financeiro e devolva ao povo o controle do fundo público.

Do apoio entre nós ao poder de decidir: tarefas organizativas

O desafio estratégico é garantir que o “nós entre nós mesmos” não se torne apenas uma solução pobre para um problema rico. A autogestão popular deve se conectar às lutas por Tarifa Zero, por moradia digna, pelo fim da escala 6x1 e por um novo modelo de financiamento do Estado. Como mostramos na análise do Grito dos Excluídos, as pautas locais só ganham força quando articuladas a uma leitura de totalidade da conjuntura. A luta das cuidadoras, examinada em outro post recente, revela exatamente essa costura entre trabalho invisível, território e ausência de política pública.

Não há atalhos. A classe trabalhadora precisa ocupar os espaços de decisão — conselhos, assembleias, sindicatos, comitês de bairro — e disputar o orçamento público. Onde o Estado não chega, a autogestão mostra o caminho; mas é preciso transformar esse caminho em pressão organizada para mudar as prioridades do Estado. A consciência de que “somos nós por nós mesmos” deve se converter em projeto de soberania popular, em mobilização permanente, em construção de hegemonia.

Perguntas Frequentes

O que significa autogestão popular?

Autogestão popular é a organização coletiva da própria classe trabalhadora para suprir necessidades básicas não atendidas pelo Estado. No contexto do texto, nasce da urgência de sobreviver, mas evolui para uma tomada de consciência política sobre o abandono estrutural do poder público.

Como a omissão do poder público se relaciona com a geografia da desigualdade?

A omissão não é neutra: é método de gestão territorial. O Estado prioriza interesses de classe específicos ao limitar investimentos sociais e destinar recursos a credores da dívida, desenhando uma geografia onde favelas e periferias concentram ausência de serviços e infraestrutura.

Qual o papel das cozinhas comunitárias nesse contexto?

Cozinhas comunitárias são respostas objetivas à fome e à ausência de políticas públicas. A frase 'o apoio aqui é nós entre nós mesmos' expressa a única rede de proteção que restou onde o Estado escolheu não chegar, funcionando como escola de práxis política e organização popular.

Sobre o que fala o texto sobre o arcabouço fiscal de 2023?

O texto aponta que o arcabouço fiscal aprovado em 2023 limita o investimento público, garante superávit primário para credores da dívida e empurra para os bairros periféricos a conta do ajuste, reforçando a lógica de abandono deliberado das áreas populares.

Qual a relação entre autogestão e práxis política?

A autogestão inicialmente atende a necessidades imediatas de sobrevivência, mas quem organiza mutirões e cozinhas comunitárias percebe que o poder público falha porque prioriza outro projeto de sociedade. Assim, a autogestão se transforma em práxis política consciente de classe.

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