quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Mortes em Ceuta revelam gestão imperialista das fronteiras

Os corpos na cerca de Ceuta são o resultado calculado de uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca entre Estados e em mão de obra descartável para o capital.

Principais pontos

  • A condição de ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos.
  • As mortes em Ceuta e Melilla são o custo contabilizado dessa logística de exploração.
  • A extrema direita converte a ansiedade social em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais.
  • Essa retórica fragmenta a classe trabalhadora, impedindo a solidariedade entre nativos e migrantes.

A gestão imperialista das fronteiras e a superexploração migrante: o que Ceuta ensina à classe trabalhadora

Por Walter Azevedo

Os corpos na cerca de Ceuta não são acidente. São o resultado calculado de uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca entre Estados e em mão de obra descartável para o capital. Em junho de 2022, ao menos 23 migrantes morreram tentando cruzar a fronteira de Melilla, enclave espanhol irmão de Ceuta no norte da África. Meses antes, em maio de 2021, cerca de 8 mil pessoas forçaram passagem em Ceuta num único dia. A resposta europeia foi dupla: repressão violenta e devolução sumária. A imagem desses corpos ecoa a repressão contra migrantes venezuelanos na fronteira norte do Brasil, onde a mesma lógica de gestão se repete. A contradição, porém, é mais profunda do que a brutalidade das imagens.

A cerca não é só arame: a fronteira como dispositivo de gestão da força de trabalho

A barreira física que separa Marrocos dos enclaves espanhóis opera como instrumento de mediação de interesses de classe. O capital europeu precisa de trabalho barato, mas também de segmentação e precarização. A condição de ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos. Nos campos de cultivo intensivo, na construção civil e nos serviços de cuidado, a presença de migrantes sem status legal funciona como rebaixador salarial. A Espanha, porta de entrada da União Europeia, tornou-se guardiã dessa ordenação. As mortes em Ceuta e Melilla são o custo contabilizado dessa logística de exploração.

Como escreveu Ruy Mauro Marini, a superexploração compensa a transferência de valor; no caso migrante, ela se manifesta na negação de direitos e na exposição à morte. Essa arquitetura de subordinação não é exclusiva das fronteiras externas. No Brasil, o acordo tarifário recente com os EUA repõe a mesma lógica de dependência, como analisamos aqui. A gestão imperialista das fronteiras articula-se com a gestão financeira da dívida e com a política de juros altos, que transferem renda do trabalho ao capital financeiro. A totalidade não admite fragmentação.

O medo como matéria-prima da extrema direita

A extrema direita não é um desvio moral; é uma força política que instrumenta o medo do migrante para consolidar projetos de classe. Ela converte a ansiedade social gerada pela crise do emprego e da moradia em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais: a financeirização, a especulação imobiliária, a precarização. O medo da “invasão” legitima políticas de exceção, o fortalecimento do aparato repressivo, a privatização de serviços e a redução de direitos trabalhistas. Essa retórica fragmenta a classe trabalhadora, impedindo a solidariedade entre nativos e migrantes. Enquanto isso, o capital se beneficia da divisão. O espetáculo de sofrimento na fronteira serve para justificar a repressão interna contra trabalhadores organizados.

O que está em disputa na fronteira não é apenas a circulação de pessoas, mas a correlação de forças entre trabalho e capital. A classe do capital opera em duas frentes: no Norte, precisa de mão de obra barata para setores intensivos; no Sul, precisa manter reservas de força de trabalho que pressionem os salários para baixo. A gestão imperialista das fronteiras garante ambos os movimentos: permite a entrada seletiva de trabalhadores vulneráveis e criminaliza a migração irregular para manter a ameaça permanente de deportação. As mortes em Ceuta são o sintoma brutal dessa mediação. A extrema direita amplia esse mecanismo ao transformar a morte em propaganda, o corpo migrante em ameaça existencial. No Brasil, a mesma tática aparece nas eleições, com o medo do “outro” mobilizado para vencer disputas, como discutimos nos limites da via eleitoral aqui.

Da gestão imperialista à práxis da classe trabalhadora

A superação dessa lógica não virá de apelos humanitários abstratos, mas de organização política. A classe trabalhadora precisa reconhecer no migrante um igual, parte da mesma classe global. A solidariedade internacional não é gesto moral; é necessidade estratégica para romper a chantagem da fronteira. Os sindicatos devem organizar migrantes, independentemente de status legal. Os movimentos populares precisam denunciar a cumplicidade dos Estados com a lógica do capital. A luta pela liberdade de circulação integra a luta contra a superexploração. Do mesmo modo que a dívida pública transfere renda do trabalho ao capital financeiro, como analisamos aqui, a gestão das fronteiras transfere a vida dos trabalhadores migrantes aos interesses das grandes corporações.

Que os corpos em Ceuta não sejam apenas contabilizados. Que se tornem ponto de partida para a organização. A classe trabalhadora brasileira, inserida na periferia do sistema, tem um papel: recusar a lógica da escassez e da fronteira. Construir, desde já, redes de solidariedade com trabalhadores migrantes que chegam ao país — venezuelanos, haitianos, bolivianos. Exigir políticas que garantam direitos, não muros. E compreender que a luta contra a gestão imperialista das fronteiras é a mesma luta contra o acordo tarifário subordinado, contra a dívida pública, contra a jornada exaustiva. A totalidade exige práxis.

Fontes citadas

  • Caminando Fronteras. Monitoramento do direito à vida na fronteira ocidental euro-africana (2022).
  • El País. Cobertura da tragédia na cerca de Melilla, junho de 2022.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: Subdesenvolvimento e revolução.

Perguntas Frequentes

O que as mortes em Ceuta revelam sobre a gestão de fronteiras?

Revelam uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca e mão de obra descartável, operando como dispositivo de mediação de interesses de classe do capital europeu.

Como a condição de ilegalidade afeta o trabalhador migrante?

A ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos, atuando como rebaixador salarial em setores como cultivo intensivo, construção civil e serviços de cuidado.

Qual é o papel da extrema direita na instrumentalização do medo?

A extrema direita converte a ansiedade social gerada pela crise do emprego e da moradia em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais como financeirização e especulação imobiliária.

Por que a retórica anti-imigrante fragmenta a classe trabalhadora?

Ela impede a solidariedade entre nativos e migrantes, direcionando o medo para o trabalhador migrante em vez das causas estruturais, enquanto o capital se beneficia da divisão.

Qual é a relação entre a superexploração migrante e a teoria de Ruy Mauro Marini?

Como escreveu Marini, a superexploração compensa a transferência de valor; no caso migrante, ela se manifesta na negação de direitos e na exposição à morte.

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