terça-feira, 15 de setembro de 2026

Soberania em disputa: capital nacional, imperialismo e a luta de classes em 2026

A soberania não é um dado fixo, mas um campo de disputa entre o capital nacional e o imperialismo em 2026, expressa por indicadores como a taxa Selic de 14,25% ao ano e a dívida pública bruta acima de R$ 8 trilhões.

Principais pontos

  • A soberania é disputada por projetos antagônicos: capital financeirizado internacional e capital nacional, e não apenas defendida contra um inimigo externo.
  • A taxa Selic de 14,25% ao ano materializa um pacto que beneficia bancos e fundos, transferindo renda da classe trabalhadora para o topo da pirâmide.
  • Em 2026, a disputa se intensifica com acordos de livre comércio e pressão por desnacionalização de setores estratégicos como energia, comunicação e transportes.
  • O imperialismo se internaliza por frações do capital nacional associadas ao rentismo, não chegando apenas como invasor estrangeiro.

Soberania em disputa: capital nacional, imperialismo e a luta de classes em 2026

Por Walter Azevedo

Uma cientista política chamou a atenção para um ponto que escapa ao senso comum: a soberania não é um dado fixo, mas um campo de disputa. A frase ganha corpo quando olhamos para os números que sustentam a política econômica. A taxa Selic permanece em 14,25% ao ano. A dívida pública bruta ultrapassa R$ 8 trilhões. Esses não são indicadores neutros. Expressam uma relação de forças entre classes e nações, onde a soberania se decide todos os dias.

A superfície da soberania e o jogo de forças

No discurso oficial, soberania aparece como defesa do território, das leis, das riquezas naturais. Mas por trás dessa casca jurídica opera uma luta de classes. O capital financeirizado internacional exige abertura comercial, juros altos e garantias jurídicas para extrair renda. O capital nacional, em suas frações produtivas, reivindica proteção cambial e crédito subsidiado, mas raramente rompe com a subordinação estrutural. A cientista política percebeu que a soberania é disputada por esses projetos antagônicos, e não apenas defendida contra um inimigo externo.

Em 2026, essa disputa se intensifica. Acordos de livre comércio voltam à mesa. A pressão por desnacionalização de setores estratégicos — energia, comunicação, transportes — cresce sob o argumento da eficiência. O exemplo do bloqueio econômico contra Cuba, que já analisamos aqui, mostra como o imperialismo combina sanções, coerção financeira e desestabilização política para impor sua vontade. Nada disso é acidente. É método.

As mediações: capital financeirizado e frações nacionais

A soberania não se joga apenas entre países. Ela se desdobra dentro da formação social brasileira. O imperialismo não chega de fora como um invasor estrangeiro; ele se internaliza por meio de frações do capital nacional associadas ao rentismo. Os juros de 14,25% ao ano não são uma fatalidade técnica. São a materialização de um pacto que beneficia bancos, fundos de investimento e grandes proprietários de títulos públicos, enquanto transfere renda da classe trabalhadora para o topo da pirâmide.

Essa disputa se trava em pelo menos três planos:

  • O plano monetário: a taxa de juros como mecanismo de transferência de renda da classe trabalhadora para o capital financeiro.
  • O plano comercial: a pressão por acordos que eliminam salvaguardas à indústria nacional e à agricultura familiar.
  • O plano jurídico-institucional: a blindagem de tratados de proteção a investimentos que limitam a capacidade do Estado de implementar políticas públicas.

A declaração da cientista política abre caminho para essa leitura quando aponta que soberania nacional não coincide com soberania popular. O capital nacional, em sua fração industrial, pode defender a bandeira da soberania para negociar proteção tarifária, mas não hesita em associar-se ao capital estrangeiro quando isso aumenta seus lucros. A classe trabalhadora, por sua vez, só tem a ganhar com uma soberania que subordine o capital financeirizado ao controle social.

Dependência, imperialismo e a prática da classe trabalhadora

A leitura de Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini permanece atual: a economia brasileira se integra ao mercado mundial de forma subordinada, exportando commodities e importando tecnologia, capital e bens de alto valor agregado. A dependência não é uma herança do passado. É uma relação social reproduzida cotidianamente pela política econômica. Nesse quadro, a soberania que interessa à classe trabalhadora é aquela que garante soberania alimentar, energética, tecnológica e monetária. Não se trata de nacionalismo burguês, que troca de mãos sem alterar a estrutura de classes.

As lutas populares de 2025 e 2026 — das cuidadoras que enfrentam a superexploração, como mostramos aqui, aos movimentos que se levantam no Grito dos Excluídos — ensinam que a soberania se constrói na prática. Greves, ocupações de terra, luta por tarifa zero, resistência à privatização: são trincheiras onde a classe trabalhadora disputa o conteúdo da soberania. Cada vitória parcial fortalece a correlação de forças contra o imperialismo e o rentismo.

A tarefa de 2026 não é escolher entre frações do capital que disputam a bandeira da soberania. É construir um projeto nacional-popular que expresse os interesses da maioria. Esse projeto exige organização independente, consciência de classe e uma estratégia de hegemonia que articule as lutas imediatas à transformação estrutural. Sem isso, a soberania seguirá sendo a retórica com que o capital veste seus próprios interesses.

Para aprofundar

  • Banco Central do Brasil — Série histórica da taxa Selic.
  • Theotônio dos Santos — Teoria da Dependência: balanço e perspectivas.
  • Ruy Mauro Marini — Dialética da Dependência.

Perguntas Frequentes

O que significa dizer que a soberania é um campo de disputa?

Significa que a soberania não é um dado fixo ou apenas uma defesa contra inimigos externos, mas sim um espaço de confronto entre projetos antagônicos, como o capital financeirizado internacional e frações do capital nacional, disputado cotidianamente por meio de políticas econômicas e institucionais.

Como a taxa Selic de 14,25% ao ano se relaciona com a soberania?

A Selic elevada não é uma fatalidade técnica, mas a materialização de um pacto que beneficia bancos, fundos de investimento e grandes proprietários de títulos públicos, transferindo renda da classe trabalhadora para o topo da pirâmide e limitando a autonomia do Estado.

Quais são os principais planos em que a disputa pela soberania se trava?

A disputa se trava em três planos: o monetário, com a taxa de juros como mecanismo de transferência de renda; o comercial, com pressão por acordos que eliminam salvaguardas à indústria nacional; e o jurídico-institucional, com a blindagem de tratados de proteção a investimentos.

Como o imperialismo se internaliza na formação social brasileira?

O imperialismo não chega apenas como invasor estrangeiro; ele se internaliza por meio de frações do capital nacional associadas ao rentismo, que defendem juros altos, garantias jurídicas para extração de renda e abertura comercial, subordinando o país estruturalmente.

Por que a disputa pela soberania se intensifica em 2026?

Em 2026, a disputa se intensifica porque acordos de livre comércio voltam à mesa e cresce a pressão por desnacionalização de setores estratégicos, sob o argumento da eficiência, enquanto o imperialismo combina sanções, coerção financeira e desestabilização política.

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