sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Jornada Bora Lula: força popular, esquerda e desafios trabalhistas

A jornada Bora Lula é um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, expressando a capilaridade dos movimentos populares e da esquerda, contrastando com a agenda da direita de desmonte, arrocho e criminalização, e revelando os desafios da mediação para a classe trabalhadora.

Principais pontos

  • A jornada Bora Lula desloca o eixo da disputa do estúdio de televisão para o território real das periferias nordestinas.
  • A presença massiva nas ruas desmente a tese conservadora de que a esquerda perdeu raiz social.
  • A agenda da direita segue ancorada em desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos sociais.
  • O problema da esquerda nunca foi a ausência de base, mas a mediação para transformar energia militante em projeto de poder sem neutralizar o programa.

Hegemonia em marcha: a jornada Bora Lula e a disputa pela consciência de classe

Por Walter Azevedo

As estradas do semiárido nordestino voltaram a ver filas de militantes, carros de som e bandeiras vermelhas atravessando municípios onde a presença do Estado se reduz a viatura e título de eleitor. A jornada Bora Lula recolocou a esquerda em movimento, ocupando praças, ginásios e feiras livres. Não se trata de romaria eleitoral, nem de simples adesão a uma candidatura. Trata-se de um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, daquilo que a classe trabalhadora constrói quando se reconhece como sujeito político e não como massa de manobra.

O concreto da rua como termômetro da luta de classes

A jornada Bora Lula expressa algo que as pesquisas de opinião não captam: a capilaridade dos movimentos populares, dos sindicatos, das pastorais, dos núcleos de juventude e dos diretórios partidários que se lançam às estradas. Cada ato reúne não apenas militantes orgânicos, mas trabalhadores informais, aposentados, feirantes, professores da rede pública e lideranças comunitárias. Quatro em cada dez ocupados no Brasil vivem na informalidade, sem proteção trabalhista estável, e é nessa base precarizada que a direita tenta fincar seu curral. A jornada, ao percorrer as periferias de Juazeiro do Norte, Campina Grande e Caruaru, desloca o eixo da disputa do estúdio de televisão para o território real.

A presença massiva nas ruas desmente a tese conservadora de que a esquerda perdeu raiz social. Ao contrário, revela que há reserva organizativa acumulada em décadas de luta sindical, estudantil e comunitária. O problema nunca foi a ausência de base. O problema tem sido a mediação: como transformar energia militante em projeto de poder, sem dissolvê-la em alianças que neutralizam o programa.

O que a direita esconde por trás do discurso de ordem

Enquanto a esquerda ocupa as estradas, a agenda da direita segue ancorada em três vetores: desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos sociais. O discurso moralizante contra a corrupção funciona como cortina de fumaça para privatizações, teto de gastos e captura do orçamento pelo capital financeirizado. Não é acaso que as mesmas forças que promovem o curral digital sejam as que financiam campanhas de desinformação contra lideranças populares. A rede de aplicativos de mensagem reproduz o coronelismo em nova roupagem: o cabo eleitoral agora é algoritmo, e a compra de voto troca o dinheiro vivo pelo engajamento forjado.

Por trás da retórica de pátria e família, opera uma fração de classe que não hesita em entregar o patrimônio nacional ao capital estrangeiro. A burguesia compradora mantém o país subordinado à divisão internacional do trabalho, exportando commodities baratas e importando tecnologia cara. Essa agenda exige uma classe trabalhadora desorganizada, fragmentada e convencida de que não há alternativa. Por isso o ataque à organização sindical e a demonização da política de rua não são acessórios: são condição para a hegemonia do capital sobre o trabalho.

Desafios da classe trabalhadora nas eleições

A disputa eleitoral impõe mediações que não podem ser subestimadas. A classe trabalhadora precisa enfrentar pelo menos três desafios objetivos:

  • Financiamento privado e tempo de propaganda: a máquina do capital compra rádio, televisão e impulsionamento digital em escala industrial. A esquerda depende de militância voluntária e de redes comunitárias.
  • Fragmentação programática: partidos que se autodenominam de esquerda disputam entre si o mesmo eleitorado, sem unidade em torno de um projeto nacional-popular soberano.
  • Violência política seletiva: lideranças de movimentos sociais, sindicalistas e ativistas de periferia sofrem ameaças, perseguição judicial e, em alguns estados, execução sumária com anuência de milícias.

O Bora Lula ensaia uma resposta a esses desafios: desloca a campanha do marketing para a presença física, da personalidade para a pedagogia coletiva. Mas a resposta só se completa se a jornada não terminar em comício. Precisa se converter em organização permanente, em conselhos populares, em núcleos de base capazes de disputar o orçamento municipal, a taxação dos super-ricos e a soberania energética e tecnológica.

Organização, projeto e superação

Não há eleição capaz de resolver a contradição entre capital e trabalho sem um sujeito político que a enfrente fora das urnas. A jornada Bora Lula é demonstração de força, não ainda demonstração de hegemonia. Hegemonia se constrói quando a classe trabalhadora formula, a partir de suas dores concretas, um projeto de sociedade que disputa o senso comum — nas escolas, nas igrejas, nos bairros, nos aplicativos. A poesia de Engajarte lembra que “a mão que ergue a bandeira é a mesma que planta o pão”. Essa dialética entre a rua e a roça, entre o sindicato e o território, entre a urna e a greve, é a única capaz de deslocar a correlação de forças.

A tarefa imediata é transformar a mobilização em organização, e a organização em programa. O voto é uma trincheira, não o front definitivo. A classe do capital continuará apostando na fragmentação e no desânimo. Cabe à classe trabalhadora responder com unidade de ação, consciência de classe e projeto nacional-popular. A jornada mostrou que há massa social disponível. Falta a direção política que unifique as caravanas em um só movimento histórico.

Para seguir o fio: a análise dialoga com Como Vencer na Grande Política (Appris, 2023), com os poemas de Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução e com a tradição dependentista de Theotônio dos Santos.

Perguntas Frequentes

O que a jornada Bora Lula representa para a esquerda?

A jornada representa um ensaio concreto de disputa da correlação de forças, com militantes, sindicatos e comunidades ocupando ruas e feiras no semiárido nordestino, evidenciando a capilaridade dos movimentos populares que as pesquisas não captam.

Como a direita tenta se aproveitar da precarização do trabalho?

Com quatro em cada dez ocupados na informalidade, a direita tenta fincar seu curral nessa base precarizada, usando discurso moralizante e desinformação digital para ocultar desmonte do serviço público, arrocho salarial e criminalização dos movimentos.

Qual é o principal desafio da esquerda segundo o texto?

O principal desafio é a mediação: como transformar a energia militante acumulada em projeto de poder, evitando alianças que neutralizem o programa e dissolvam a força organizativa em acordos sem raiz social.

O que a direita esconde por trás do discurso de ordem?

Esconde uma fração de classe que promove privatizações, teto de gastos e captura do orçamento pelo capital financeirizado, enquanto financia desinformação contra lideranças populares e entrega o patrimônio nacional ao capital estrangeiro.

Por que as pesquisas de opinião não captam a força da esquerda?

Porque não medem a capilaridade dos movimentos populares, sindicatos, pastorais e juventude que se lançam às estradas. A presença massiva nas ruas revela uma reserva organizativa real acumulada em décadas de luta social.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Gaza sob os escombros do imperialismo: limpeza étnica e crise do capital

Gaza é a radiografia brutal de uma barbárie em curso que revela a podridão mais profunda do sistema; não se trata de um conflito local, mas de uma implacável estratégia de limpeza étnica perpetrada sob o olhar complacente das grandes potências globais.

Principais pontos

  • As imagens que chegam de Gaza são a radiografia brutal de uma barbárie em curso, uma ferida aberta no corpo da humanidade.
  • Estamos diante de uma implacável estratégia de limpeza étnica, perpetrada sob o olhar complacente, e muitas vezes ativo, das grandes potências globais.
  • A destruição sistemática de vidas e infraestrutura em Gaza é o resultado de um projeto político consciente que visa a reorganização compulsória de uma região estratégica para o capital financeirizado global.
  • O escandaloso silêncio das potências ocidentais é uma arma, um atestado de impunidade que permite a escalada da violência.

Gaza e a Anatomia do Imperialismo: Limpeza Étnica, Crise do Capital e a Urgência da Solidariedade

Por Walter Azevedo

As imagens que chegam de Gaza não são meras notícias; são a radiografia brutal de uma barbárie em curso, uma ferida aberta no corpo da humanidade que revela a podridão mais profunda do sistema. Vemos famílias inteiras aniquiladas, hospitais transformados em ruínas, centenas de milhares de pessoas deslocadas, sem lar, sem esperança aparente. Não se trata de um conflito local, de uma disputa territorial banal. Estamos diante de uma implacável estratégia de limpeza étnica, perpetrada sob o olhar complacente, e muitas vezes ativo, das grandes potências globais. Este não é um evento isolado, mas uma expressão cabal das contradições insolúveis da classe do capital em sua fase imperialista.

A Necropolítica do Capital Financeirizado

O que testemunhamos em Gaza é a manifestação mais cruel da necropolítica em ação. A destruição sistemática de vidas e infraestrutura, a negação de direitos básicos e a asfixia econômica não são acidentes de percurso. São o resultado de um projeto político consciente que visa a reorganização compulsória de uma região estratégica para os interesses do capital financeirizado global e seus satélites regionais. O chamado "conflito" é, na verdade, uma operação de extermínio que serve para manter a hegemonia de determinadas frações da classe do capital, realocando forças e recursos em meio à crescente disputa interimperialista que sacode o Oriente Médio, como já apontamos ao discutir o petrodólar em colapso e as disputas por lá.

A superfície do evento nos mostra tanques e bombas, mas a análise dialética nos obriga a ir além. Por trás dos escombros, pulsam interesses bilionários na reconfiguração geopolítica da região, no controle de rotas energéticas e comerciais, e na perpetuação de um modelo de dependência que subordina nações e povos aos ditames dos centros imperialistas. A violência em Gaza é um lembrete vívido da tese de Ruy Mauro Marini sobre a superexploração: o valor da vida humana é rebaixado ao limite, tornando-se descartável em nome da acumulação e do lucro. A classe trabalhadora palestina, em sua condição de povo colonizado e superexplorado, é o alvo final dessa lógica predatória.

O Silêncio Cúmplice e a Fratura da Consciência

É impossível ignorar o escandaloso silêncio, quando não o apoio explícito, de diversas potências ocidentais. Enquanto o massacre se desenrola, os discursos sobre "democracia" e "direitos humanos" soam vazios, revelando a hipocrisia de um sistema que só reconhece a humanidade de quem lhe convém. Esse silêncio é uma arma, um atestado de impunidade que permite a escalada da violência. As resoluções da ONU são ignoradas, os apelos humanitários, sufocados. Estamos falando de um cenário onde, em pouco mais de seis meses, mais de 35 mil vidas foram ceifadas, incluindo mais de 15 mil crianças, segundo dados de agências internacionais, além da destruição de 70% das casas e infraestruturas em Gaza. A brutalidade dos números expõe a verdadeira face de uma oligarquia global que pauta a "ordem" a seu bel-prazer.

Este cenário de barbárie nos força a refletir sobre a formação social brasileira e o papel da nossa própria burguesia. Como podemos lutar pela soberania nacional e contra a burguesia compradora se somos indiferentes à negação da soberania e da vida de um povo em outro continente? A mediação entre o global e o local é inegável: a mesma lógica que esmaga Gaza é a que tenta sufocar nossos projetos nacionais-populares, a que privatiza nossos bens e explora nossa força de trabalho. Nietzsche nos alertou para o perigo da anestesia moral, e é justamente essa anestesia que o capital tenta impor para que não enxerguemos a totalidade da luta.

O grito de Gaza não é estrangeiro. Ele reverbera nas ruas de nossas periferias, nas terras roubadas dos povos originários, nos salários achatados dos trabalhadores. A poesia que engaja não se cala diante da desumanidade; ela denuncia, ela inspira a práxis, ela convoca à ação para que a revolução não seja apenas um verso, mas a vida que se faz em coletivo.

A Tarefa da Solidariedade Internacionalista e a Consciência de Classe

A superação desta crise exige uma profunda e organizada solidariedade internacionalista da classe trabalhadora. Não se trata de uma caridade vazia, mas do reconhecimento de que a luta em Gaza é um front na batalha global contra a exploração e o imperialismo. Nossas ações, por menores que pareçam, somam-se à correlação de forças global. Precisamos denunciar incansavelmente, pressionar nossos governos e empresas cúmplices, organizar boicotes, manifestações e debates que elevem a consciência de classe sobre a real natureza do que ocorre. A questão palestina não é um problema religioso ou étnico; é um problema de classes sociais, de exploração, de domínio imperialista.

A lição de Lenin sobre a importância da teoria como guia para a ação é mais atual do que nunca. Não podemos nos contentar com a indignação passageira; precisamos de análise profunda, de um projeto político que aponte para a construção de um mundo onde a dignidade humana esteja acima do lucro. A organização política da classe trabalhadora, em escala local e global, é a única força capaz de romper com essa lógica de barbárie. É hora de transformar a dor em luta, e a solidariedade em ação concreta. A vitória em Gaza, e em todas as frentes de batalha contra a opressão, é a vitória da nossa classe, a vitória da humanidade que se recusa a morrer sob os escombros do imperialismo.

Perguntas Frequentes

O que está acontecendo em Gaza segundo o texto?

O texto afirma que Gaza vive uma implacável estratégia de limpeza étnica, com destruição sistemática de vidas e infraestrutura, famílias aniquiladas, hospitais em ruínas e centenas de milhares de deslocados, sob o olhar complacente das grandes potências globais.

Como o texto relaciona a violência em Gaza à crise do capital?

A violência é apresentada como expressão das contradições insolúveis do capital em fase imperialista. Trata-se de um projeto político que serve para manter a hegemonia de frações da classe do capital, realocando forças e recursos na disputa interimperialista pelo Oriente Médio.

Por que o silêncio das potências ocidentais é considerado cúmplice?

O silêncio, quando não o apoio explícito, das potências ocidentais é descrito como uma arma e um atestado de impunidade que permite a escalada da violência. Os discursos sobre democracia e direitos humanos soam vazios diante do massacre.

O que é necropolítica no contexto do texto?

Necropolítica é a manifestação mais cruel do poder que decide quem pode viver e quem deve morrer. Em Gaza, ela se expressa na destruição sistemática de vidas, na negação de direitos básicos e na asfixia econômica como projeto político consciente.

Qual é a tarefa da solidariedade internacionalista apontada pelo autor?

O autor aponta a necessidade de romper com o silêncio cúmplice e reconhecer a violência em Gaza como uma ferida aberta no corpo da humanidade, exigindo solidariedade ativa diante da limpeza étnica e da barbárie perpetrada pelo capital imperialista.