quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Fiscalismo sabota maiorias trabalhadoras: a chantagem do rentista

Aceitar o fiscalismo é sabotar as maiorias trabalhadora porque a política econômica materializa a correlação de forças, transferindo renda da classe trabalhadora para o capital rentista.

Principais pontos

  • O arcabouço fiscal impõe um teto ao crescimento real da despesa, enforcando o investimento público e ameaçando programas sociais.
  • A 'chantagem do mercado' é a ameaça permanente de fuga de capitais, desvalorização cambial, rebaixamento de nota e ataque especulativo.
  • Cada real pago em juros é transferência direta de renda da classe trabalhadora para os detentores de títulos.
  • A opção pelo fiscalismo é uma escolha de classe, não uma fatalidade técnica.

A chantagem do rentista e a base endividada: por que o fiscalismo sabota as maiorias trabalhadoras

Por Walter Azevedo

O governo Lula completou mais um ciclo sob a sombra do arcabouço fiscal. Enquanto o Ministério da Fazenda celebra o cumprimento de metas e o mercado aplaude cada corte de gasto, milhões de trabalhadoras e trabalhadores enfrentam o sufoco das dívidas no cartão de crédito, no consignado e no cheque especial. A contradição é gritante: a base social que elegeu Lula é exatamente a que mais paga a conta do ajuste. Este texto mergulha nessa dialética perversa para mostrar por que aceitar o fiscalismo é sabotar as maiorias.

O fenômeno: ajuste fiscal e endividamento recorde

A leitura da conjuntura revela um governo encurralado. De um lado, a pressão do capital financeirizado — agências de classificação, bancos, fundos de investimento — exige superávit primário, corte de despesas discricionárias e juros altos para remunerar a dívida pública. De outro, a realidade concreta das famílias: endividamento em níveis históricos, inadimplência crescente e poder de compra corroído pela inflação de alimentos. O arcabouço fiscal, aprovado em 2023, impõe um teto ao crescimento real da despesa: 70% da variação da receita. Isso significa que, se a arrecadação desacelera, o investimento público é enforcado, e programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular e o próprio reajuste do salário mínimo ficam ameaçados.

A mediação: chantagem e hegemonia do rentismo

Por trás da chantagem está a hegemonia do capital rentista. O Estado brasileiro é capturado por uma oligarquia financeira que lucra com a dívida. Cada real pago em juros é transferência direta de renda da classe trabalhadora para os detentores de títulos. A "chantagem do mercado" não é metáfora: é a ameaça permanente de fuga de capitais, desvalorização cambial, rebaixamento de nota e ataque especulativo. O governo Lula, por sua natureza conciliatória, tenta agradar a dois senhores. Mas, como ensina a dialética, a contradição não se resolve com discursos. A base social endividada exige expansão de gastos, proteção social e crédito barato. O rentista exige exatamente o contrário. A opção pelo fiscalismo é uma escolha de classe, não uma fatalidade técnica. Como escrevi em "Como Vencer na Grande Política", a política econômica nunca é neutra: ela materializa a correlação de forças.

Essa investida do capital não é isolada. Ela se conecta à mesma lógica que criminaliza a imprensa militante e deporta imigrantes — processos que analisamos em Deportação como arma do neoliberalismo autoritário na América Latina. O neoliberalismo, em todas as frentes, busca impor a disciplina do mercado sobre as maiorias.

A síntese: sabotar as maiorias é sabotar o próprio governo

Ao ceder ao fiscalismo, Lula sabota sua base. A classe trabalhadora, endividada e precarizada, não vê melhora material. A frustração abre espaço para a extrema direita, que canaliza o descontentamento para o moralismo e o ódio. A cada corte em saúde e educação, o governo perde legitimidade. A "governabilidade" comprada no mercado custa a governabilidade real nas ruas. A mediação necessária é a organização política. Sem pressão popular organizada, o governo continuará oscilando. A classe trabalhadora precisa impor uma agenda de soberania nacional: auditoria da dívida, taxação das grandes fortunas, controle de capitais e fim da independência do Banco Central.

Disputar a narrativa é parte dessa luta. Assim como discutimos em Gerador de temas: como furar o bloqueio algorítmico da classe do capital, furar o bloqueio ideológico é condição para construir hegemonia popular.

A tarefa agora

A tarefa é dupla: de um lado, denunciar a chantagem do rentismo como forma de luta de classes; de outro, construir força social para exigir a ruptura com o fiscalismo. Só a consciência de classe em movimento pode transformar a correlação de forças. Não se trata de pedir licença ao mercado, mas de organizar os de baixo para impor outro projeto de país.

Para seguir na luta

Perguntas Frequentes

Por que o fiscalismo sabota as maiorias trabalhadoras no governo Lula?

O fiscalismo impõe corte de gastos e juros altos, transferindo renda da classe trabalhadora para o capital rentista. Isso ameaça programas sociais e o reajuste do salário mínimo, sufocando exatamente a base que elegeu o governo.

O que é a 'chantagem do mercado' citada no texto?

É a ameaça permanente de fuga de capitais, desvalorização cambial, rebaixamento de nota de crédito e ataque especulativo, usada pelo capital financeirizado para impor superávit primário, corte de despesas e juros altos.

Como o arcabouço fiscal afeta programas sociais como Minha Casa Minha Vida?

O arcabouço limita o crescimento real da despesa a 70% da variação da receita. Se a arrecadação desacelera, o investimento público é enforcado e programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular e o reajuste do salário mínimo ficam ameaçados.

O fiscalismo é uma fatalidade técnica ou uma escolha política?

Segundo o texto, é uma escolha de classe. A política econômica nunca é neutra: ela materializa a correlação de forças. Ceder ao fiscalismo significa optar pelo capital rentista em detrimento da base social endividada.

Qual é a contradição central apontada no texto sobre o governo Lula?

A base social que elegeu Lula é a que mais paga a conta do ajuste fiscal, enfrentando dívidas no cartão de crédito, consignado e cheque especial, enquanto o Ministério da Fazenda celebra o cumprimento de metas e o mercado aplaude cada corte de gasto.

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