Aceitar o fiscalismo é sabotar as maiorias trabalhadora porque a política econômica materializa a correlação de forças, transferindo renda da classe trabalhadora para o capital rentista.

Principais pontos
- O arcabouço fiscal impõe um teto ao crescimento real da despesa, enforcando o investimento público e ameaçando programas sociais.
- A 'chantagem do mercado' é a ameaça permanente de fuga de capitais, desvalorização cambial, rebaixamento de nota e ataque especulativo.
- Cada real pago em juros é transferência direta de renda da classe trabalhadora para os detentores de títulos.
- A opção pelo fiscalismo é uma escolha de classe, não uma fatalidade técnica.
A chantagem do rentista e a base endividada: por que o fiscalismo sabota as maiorias trabalhadoras
Por Walter Azevedo
O governo Lula completou mais um ciclo sob a sombra do arcabouço fiscal. Enquanto o Ministério da Fazenda celebra o cumprimento de metas e o mercado aplaude cada corte de gasto, milhões de trabalhadoras e trabalhadores enfrentam o sufoco das dívidas no cartão de crédito, no consignado e no cheque especial. A contradição é gritante: a base social que elegeu Lula é exatamente a que mais paga a conta do ajuste. Este texto mergulha nessa dialética perversa para mostrar por que aceitar o fiscalismo é sabotar as maiorias.
O fenômeno: ajuste fiscal e endividamento recorde
A leitura da conjuntura revela um governo encurralado. De um lado, a pressão do capital financeirizado — agências de classificação, bancos, fundos de investimento — exige superávit primário, corte de despesas discricionárias e juros altos para remunerar a dívida pública. De outro, a realidade concreta das famílias: endividamento em níveis históricos, inadimplência crescente e poder de compra corroído pela inflação de alimentos. O arcabouço fiscal, aprovado em 2023, impõe um teto ao crescimento real da despesa: 70% da variação da receita. Isso significa que, se a arrecadação desacelera, o investimento público é enforcado, e programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular e o próprio reajuste do salário mínimo ficam ameaçados.
A mediação: chantagem e hegemonia do rentismo
Por trás da chantagem está a hegemonia do capital rentista. O Estado brasileiro é capturado por uma oligarquia financeira que lucra com a dívida. Cada real pago em juros é transferência direta de renda da classe trabalhadora para os detentores de títulos. A "chantagem do mercado" não é metáfora: é a ameaça permanente de fuga de capitais, desvalorização cambial, rebaixamento de nota e ataque especulativo. O governo Lula, por sua natureza conciliatória, tenta agradar a dois senhores. Mas, como ensina a dialética, a contradição não se resolve com discursos. A base social endividada exige expansão de gastos, proteção social e crédito barato. O rentista exige exatamente o contrário. A opção pelo fiscalismo é uma escolha de classe, não uma fatalidade técnica. Como escrevi em "Como Vencer na Grande Política", a política econômica nunca é neutra: ela materializa a correlação de forças.
Essa investida do capital não é isolada. Ela se conecta à mesma lógica que criminaliza a imprensa militante e deporta imigrantes — processos que analisamos em Deportação como arma do neoliberalismo autoritário na América Latina. O neoliberalismo, em todas as frentes, busca impor a disciplina do mercado sobre as maiorias.
A síntese: sabotar as maiorias é sabotar o próprio governo
Ao ceder ao fiscalismo, Lula sabota sua base. A classe trabalhadora, endividada e precarizada, não vê melhora material. A frustração abre espaço para a extrema direita, que canaliza o descontentamento para o moralismo e o ódio. A cada corte em saúde e educação, o governo perde legitimidade. A "governabilidade" comprada no mercado custa a governabilidade real nas ruas. A mediação necessária é a organização política. Sem pressão popular organizada, o governo continuará oscilando. A classe trabalhadora precisa impor uma agenda de soberania nacional: auditoria da dívida, taxação das grandes fortunas, controle de capitais e fim da independência do Banco Central.
Disputar a narrativa é parte dessa luta. Assim como discutimos em Gerador de temas: como furar o bloqueio algorítmico da classe do capital, furar o bloqueio ideológico é condição para construir hegemonia popular.
A tarefa agora
A tarefa é dupla: de um lado, denunciar a chantagem do rentismo como forma de luta de classes; de outro, construir força social para exigir a ruptura com o fiscalismo. Só a consciência de classe em movimento pode transformar a correlação de forças. Não se trata de pedir licença ao mercado, mas de organizar os de baixo para impor outro projeto de país.
Para seguir na luta
- Walter Azevedo, Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas (Appris, 2023)
- Walter Azevedo, Engajarte: uma poesia na mão para fazer a revolução
- Leia também: Desmascarar fake news bolsonarista
Perguntas Frequentes
Por que o fiscalismo sabota as maiorias trabalhadoras no governo Lula?
O fiscalismo impõe corte de gastos e juros altos, transferindo renda da classe trabalhadora para o capital rentista. Isso ameaça programas sociais e o reajuste do salário mínimo, sufocando exatamente a base que elegeu o governo.
O que é a 'chantagem do mercado' citada no texto?
É a ameaça permanente de fuga de capitais, desvalorização cambial, rebaixamento de nota de crédito e ataque especulativo, usada pelo capital financeirizado para impor superávit primário, corte de despesas e juros altos.
Como o arcabouço fiscal afeta programas sociais como Minha Casa Minha Vida?
O arcabouço limita o crescimento real da despesa a 70% da variação da receita. Se a arrecadação desacelera, o investimento público é enforcado e programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular e o reajuste do salário mínimo ficam ameaçados.
O fiscalismo é uma fatalidade técnica ou uma escolha política?
Segundo o texto, é uma escolha de classe. A política econômica nunca é neutra: ela materializa a correlação de forças. Ceder ao fiscalismo significa optar pelo capital rentista em detrimento da base social endividada.
Qual é a contradição central apontada no texto sobre o governo Lula?
A base social que elegeu Lula é a que mais paga a conta do ajuste fiscal, enfrentando dívidas no cartão de crédito, consignado e cheque especial, enquanto o Ministério da Fazenda celebra o cumprimento de metas e o mercado aplaude cada corte de gasto.
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