sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Interpretar a virada do segundo turno: correlação de forças e lições organizativas

A virada do segundo turno se explica pela correlação de forças entre classes e pelo esforço paciente de militantes que transformaram a reta final numa batalha de consciência — foi essa mobilização que deslocou os números.

Principais pontos

  • A virada do segundo turno é a expressão visível de uma disputa desigual entre a classe do capital e a classe trabalhadora, decidida pela organização territorial e presença cotidiana.
  • Em 2022, a candidatura da classe trabalhadora saltou de 57,2 milhões para 60,3 milhões de votos entre os turnos, puxando setores abandonados pelo voto útil da esquerda liberal.
  • A superfície eleitoral esconde o poder de veto do rentista sobre o orçamento, garantido pelo Congresso eleito, que exige organizar a classe para não entregar o mandato.
  • A política de massas só existe quando os milhões se movem; a abstenção e o voto envergonhado são instrumentos silenciosos do capital para esvaziar a soberania popular.
  • As lições organizativas da virada não podem ser arquivadas até a próxima eleição — exigem organização territorial, escuta real e disputa do senso comum das massas.

Correlação de forças e a virada do segundo turno: quando a rua se torna método

Por Walter Azevedo

A eleição se encerra, mas a política continua. O segundo turno que acaba de fazer tremer as certezas dos institutos de pesquisa não se explica por erros de cálculo nem por reviravoltas de última hora. Explica-se pela correlação de forças entre classes — e pelo esforço paciente de milhares de militantes que transformaram a reta final numa batalha de consciência. Foi essa mobilização que deslocou os números: em 2022, a candidatura da classe trabalhadora saltou de 57,2 milhões para 60,3 milhões de votos entre os dois turnos, puxando para as urnas setores que o voto útil da esquerda liberal abandonara. Não foi milagre. Foi método.

A virada como síntese da luta de classes

A virada não nasce do acaso. Ela é a expressão visível de uma disputa desigual que se trava no subterrâneo da formação social. De um lado, a classe do capital dispõe de igrejas, aplicativos, latifúndios e a máquina do Estado. De outro, a classe trabalhadora dispõe de sua própria organização: comitês, sindicatos, movimentos, coletivos. Quando essa organização decide disputar o senso comum das massas — e não apenas administrar a campanha — a correlação de forças se altera. Como mostramos na análise sobre a ressignificação da camisa verde-amarela, a disputa pela hegemonia passa pelo símbolo, pelo afeto e pela rua.

O que se esconde atrás da superfície eleitoral

A superfície eleitoral esconde uma luta muito mais dura. O Congresso eleito segue expressando a aliança do capital financeirizado com o agronegócio e a bancada da violência. O mesmo processo que garantiu a vitória no Executivo manteve intacto o poder de veto do rentista sobre o orçamento público. Por isso, interpretar a virada como um cheque em branco seria entregar a vitória de bandeja. A tarefa imediata não é “dialogar” com os golpistas de sempre nem agradar o mercado: é organizar a classe para não entregar o mandato. Como alertamos em outro momento, a desmobilização seria a rendição.

“A política começa onde existem milhões de homens.” — Lênin

Essa frase não é um enfeite retórico. A virada do segundo turno foi a demonstração prática de que a política de massas só existe quando os milhões se movem. A abstenção, o voto envergonhado e a indiferença são os instrumentos silenciosos do capital para esvaziar a soberania popular. Reverter esse cenário exige mais do que propaganda: exige organização territorial, presença cotidiana e escuta real das dores da classe trabalhadora.

Lições organizativas para não repetir o ciclo

A virada deixa lições que não podem ser arquivadas até a próxima eleição. Elas precisam se converter em tática permanente.

  • O voto útil não é dado; é construído por mediações concretas: porta em porta, ato de rua, mutirão, cultura popular.
  • A periferia decide quando enxerga sua vida material na disputa — não quando recebe santinhos, mas quando o comitê oferece escuta e projeto.
  • A disputa de hegemonia se vence no algoritmo, mas se sustenta no território: o trabalho de base é a vacina contra a mentira organizada da ultradireita.
  • A vitória eleitoral sem organização popular vira refém do parlamento; o mandato só se mantém de pé se houver movimento nas ruas.

Essas lições dialogam diretamente com a crítica que fazemos ao fiscalismo e ao ‘tesouraço’. Não adianta vencer a eleição se a cidade — primeiro território onde a classe trabalhadora sente o corte — continuar entregue aos interesses do capital. A virada precisa ser traduzida em poder popular nos bairros, nas filas do SUS, nos terminais de ônibus, nas ocupações.

Construir hegemonia para além da urna

A classe do capital já entendeu: perdeu a eleição, mas não perdeu o poder. Por isso avança no Congresso, nos tribunais e na imprensa para estrangular o mandato popular. A classe trabalhadora precisa responder com a única força que tem: a sua organização. Isso significa transformar os comitês eleitorais em núcleos de formação política, espaços de acompanhamento das políticas públicas e trincheiras contra o ajuste fiscal que ameaça salários, SUS e Previdência.

A virada do segundo turno mostrou que é possível reverter a correlação de forças quando a mobilização deixa de ser sazonal e se torna método. O próximo capítulo será escrito nas ruas, nos territórios e nas disputas cotidianas — não nos gabinetes. Nossa classe não pode se furtar a essa tarefa. A história não absolve os que se omitem, mas ensina os que se organizam.

Referências

  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
  • LÊNIN, Vladimir. Que fazer? Problemas de organização do movimento social-democrata russo.
  • MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo.
  • SANTOS, Theotônio dos. Teoria da Dependência: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Perguntas Frequentes

O que explica a virada do segundo turno segundo o texto?

A virada é resultado da correlação de forças entre classes: a mobilização de comitês, sindicatos e coletivos que disputou o senso comum das massas e deslocou os números eleitorais, não de erros de pesquisa.

Quantos votos a candidatura da classe trabalhadora ganhou entre os turnos em 2022?

Em 2022, a candidatura da classe trabalhadora saltou de 57,2 milhões para 60,3 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno, incorporando setores abandonados pelo voto útil da esquerda liberal.

Qual é o principal instrumento do capital para esvaziar a soberania popular?

A abstenção, o voto envergonhado e a indiferença são os instrumentos silenciosos do capital, que esvaziam a soberania popular e precisam ser revertidos com organização territorial e presença cotidiana.

O que o texto alerta sobre o Congresso eleito?

O Congresso eleito segue expressando a aliança do capital financeirizado com o agronegócio e a bancada da violência, mantendo intacto o poder de veto do rentista sobre o orçamento público.

Quais lições organizativas a virada deixa para a esquerda?

A virada ensina que é preciso organizar a classe para não entregar o mandato, com organização territorial, escuta real das dores da classe trabalhadora e disputa da hegemonia por símbolos, afetos e rua.

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