A disputa pela camisa verde-amarela é disputa de hegemonia no terreno mais capilar do mundo contemporâneo — o algoritmo. Recuperá-la é devolver ao povo um símbolo que sempre foi seu.

Principais pontos
- A extrema direita operou uma captura simbólica da camisa da seleção entre 2013 e 2018, transformando o verde-amarelo em uniforme de vandalismo autoritário.
- O senso comum é a cidadela onde se decide, silenciosamente, quem manda; a camisa verde-amarela é um significante em disputa que condensa o nacional-popular.
- O algoritmo não é neutro: ele privilegia conteúdos que geram engajamento rápido, como raiva, medo e espetáculo.
- A luta de classes não se trava apenas nos salários e nas greves, mas também na produção de sentido que orienta as massas.
Ressignificar a camisa verde-amarela: hegemonia, algoritmo e a luta pelo senso comum das massas
Por Walter Azevedo
Desde que a camisa amarela da seleção virou uniforme de milícia digital, a classe trabalhadora brasileira carrega um incômodo simbólico. Há poucas semanas, a cena se repetiu nas arquibancadas virtuais: de um lado, perfis bolsonaristas tentando reivindicar a camisa como propriedade do ódio; de outro, militantes, artistas e torcedores comuns postando a mesma peça com mensagens de soberania, democracia e justiça social. O embate ultrapassou o território do futebol e invadiu o feed de cada trabalhador. Não se trata de vaidade ou nostalgia: é disputa de hegemonia no terreno mais capilar do mundo contemporâneo — o algoritmo.
O símbolo sequestrado
A extrema direita, com método e financiamento, operou uma captura simbólica da camisa da seleção. Entre 2013 e 2018, aproveitou a frustração popular com a crise econômica para transformar o verde-amarelo em uniforme de vandalismo autoritário. Ferramentas digitais foram essenciais: grupos de WhatsApp, perfis falsos e impulsionamento pago difundiram a associação entre a camisa e um nacionalismo excludente, xenófobo e antipopular. A mídia hegemônica, por conivência ou estupidez, amplificou o enquadramento. Assim, um patrimônio afetivo de mais de um século foi reduzido a bandeira de uma fração da classe dominante — aquela que explora, rouba e mantém privilégios. Essa operação não é diferente da que a extrema direita tenta com a fé católica, como já analisamos em outro texto sobre a cooptação religiosa para fins eleitorais. O que está em jogo é o sequestro de símbolos profundamente enraizados no povo.
Hegemonia e senso comum
Antonio Gramsci ensinou que a dominação de uma classe se sustenta não apenas pela força, mas pela direção moral e intelectual da sociedade. O senso comum — esse amálgama de noções herdadas, crenças e afetos — é a cidadela onde se decide, silenciosamente, quem manda. A camisa verde-amarela, nesse sentido, é um significante em disputa: ela condensa o nacional-popular, a ideia de povo e pátria. Quando a extrema direita a sequestra, ela não apenas veste seus seguidores; ela coloniza um pedaço da alma popular. Recuperá-la é devolver ao povo um símbolo que sempre foi seu. A luta de classes não se trava apenas nos salários e nas greves, mas também na produção de sentido que orienta as massas. Sem essa dimensão, a transformação estrutural torna-se impossível, pois o consentimento ativo das maiorias é condição para qualquer projeto emancipatório.
O algoritmo como arena da luta de classes
A disputa pela camisa não acontece em praças abstratas, mas nas plataformas. O algoritmo não é neutro: ele privilegia conteúdos que geram engajamento rápido, como raiva, medo e espetáculo. A direita entendeu isso e produziu toneladas de memes, vídeos curtos e discursos de ódio. A esquerda, por muito tempo, respondeu com argumentos longos e teóricos — ineficazes nesse ambiente. Entretanto, nos últimos anos, movimentos e coletivos lançaram campanhas criativas para ressignificar a camisa: vídeos de trabalhadores vestindo o uniforme enquanto falam de salário digno, imagens de atletas apoiando causas sociais, e a hashtag #CamisaParaTodos. Um exemplo concreto: após a posse de Lula em 2023, milhares de apoiadores usaram a camisa da seleção com a faixa presidencial, rompendo o monopólio bolsonarista. Essas ações mostram que é possível disputar o senso comum dentro do algoritmo, desde que se fale a língua da plataforma sem abrir mão do conteúdo de classe. Esse esforço se conecta com a crítica ao fiscalismo e ao ajuste que ataca os trabalhadores, pois a defesa da soberania nacional é inseparável da luta contra a subordinação rentista.
O que aprendemos com essa disputa
A batalha pela camisa ensina três lições estratégicas. Primeiro, não abandonar símbolos ao adversário: a esquerda historicamente perdeu terreno ao rejeitar a pátria como valor, deixando-a para a extrema direita. Segundo, ocupar as plataformas não é futilidade — é necessidade, pois é onde a classe trabalhadora consome informação e forma opinião. Terceiro, a disputa simbólica só tem eficácia se estiver ligada a lutas concretas: a ressignificação da camisa ganha corpo quando acompanhada da luta por emprego, comida e soberania. O símbolo não substitui a organização, mas a potencializa. A hegemonia, como categoria gramsciana, nunca se constrói no vazio: ela exige mediação com a vida real das massas, com suas dores e esperanças. Por isso, cada post, cada vídeo, cada gesto de vestir a camisa deve ser um ato político consciente, não mera reação estética.
Conclusão: da ressignificação à organização
A camisa verde-amarela pode voltar a ser o que sempre foi: um manto popular, carregado de história e de futuro. Para isso, é necessário que cada ato nas redes esteja conectado a um projeto político de emancipação. A classe trabalhadora precisa disputar cada espaço simbólico com a mesma seriedade com que disputa salários e direitos. Convidamos cada leitor a vestir a camisa e, junto com ela, a consciência de classe. Não é sobre torcer, é sobre transformar. O caminho passa pela organização nos territórios, nos sindicatos e nas plataformas, unificando a luta cultural com a luta material. A disputa pelo senso comum é longa, mas cada símbolo reconquistado é um passo na construção de uma nova hegemonia popular.
Referências
- GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
- Relato sobre a campanha #CamisaParaTodos, em portais independentes de mídia alternativa.
Perguntas Frequentes
Como a extrema direita sequestrou a camisa da seleção brasileira?
Aproveitou a frustração popular com a crise econômica entre 2013 e 2018 e usou grupos de WhatsApp, perfis falsos e impulsionamento pago para associar a camisa a um nacionalismo excludente, xenófobo e antipopular.
O que Gramsci explica sobre a disputa de símbolos populares?
Gramsci ensina que a dominação de uma classe se sustenta pela direção moral e intelectual da sociedade. O senso comum é a cidadela onde se decide silenciosamente quem manda, e símbolos como a camisa condensam o nacional-popular.
Por que o algoritmo é central nessa disputa de hegemonia?
O algoritmo não é neutro: ele privilegia conteúdos que geram engajamento rápido, como raiva, medo e espetáculo. A direita entendeu isso e produziu toneladas de memes, vídeos curtos e discursos de ódio.
O que significa ressignificar a camisa verde-amarela?
Significa devolver ao povo um símbolo que sempre foi seu, desfazendo a associação com o ódio e reivindicando a camisa com mensagens de soberania, democracia e justiça social.
Qual a relação entre luta de classes e produção de sentido?
A luta de classes não se trava apenas nos salários e nas greves, mas também na produção de sentido que orienta as massas. Sem essa dimensão, a transformação estrutural torna-se impossível.
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