sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Crise europeia: juventude entre antiausteridade e ultradireita

A crise que atravessa o continente europeu expõe a falência de um modelo de acumulação que já não oferece horizonte para as maiorias, e é exatamente nesse vazio que a reação encontra solo fértil.

Principais pontos

  • A austeridade é uma decisão de classe: socializar os prejuízos dos bancos e dos rentistas, enquanto se privatizam os lucros.
  • A juventude europeia viu o futuro ser confiscado por políticas de arrocho, aluguéis impagáveis e contratos precários.
  • A ultradireita oferece uma saída falsa: transformar a indignação em bode expiatório, sem tocar na raiz do problema.
  • A democracia liberal não passa de uma casca vazia quando o capital financeirizado se sente ameaçado.

Crise de hegemonia europeia: a juventude entre a revolta antiausteridade e a armadilha da ultradireita

Por Walter Azevedo

As ruas de Paris, Atenas e Lisboa voltaram a ser palco de uma juventude que bloqueia universidades, ocupa prédios vazios e enfrenta a polícia. Não se trata de um surto passageiro: é a resposta concreta de uma geração que viu o futuro ser confiscado por políticas de arrocho, aluguéis impagáveis e contratos precários. Enquanto isso, a mesma juventude observa, perplexa, o crescimento de partidos da ultradireita — da França à Alemanha — que prometem devolver a dignidade perdida. O paradoxo é apenas aparente. A crise que atravessa o continente europeu expõe a falência de um modelo de acumulação que já não oferece horizonte para as maiorias, e é exatamente nesse vazio que a reação encontra solo fértil.

Na França, a candidatura de Marine Le Pen alcançou 41,5% dos votos no segundo turno presidencial de 2022, a maior marca da ultradireita na Quinta República. Na Espanha, o desemprego entre jovens segue acima de 27%. Na Alemanha, a AfD elegeu prefeitos pela primeira vez e se tornou a segunda força em várias regiões. Esses números não são abstrações estatísticas: são o retrato de uma juventude sem perspectiva, espremida entre o desemprego estrutural e a chantagem permanente do capital financeirizado.

A austeridade como política de classe

Ao contrário do que repete a imprensa do establishment, a austeridade não é um remédio amargo, mas necessário. É uma decisão de classe: socializar os prejuízos dos bancos e dos rentistas, enquanto se privatizam os lucros. A dívida pública europeia — resgatada com trilhões de euros após a crise de 2008 — serviu para blindar o sistema financeiro, e a conta foi repassada aos trabalhadores sob a forma de cortes na saúde, na educação e nas aposentadorias. A juventude sente isso na pele: o diploma não garante emprego, o aluguel consome metade do salário, a aposentadoria vira miragem. Aqui no Brasil, a mesma lógica opera quando aceitamos o fiscalismo como freio aos investimentos sociais. O ajuste fiscal é a chantagem do rentista contra as maiorias trabalhadoras, e a juventude europeia compreendeu essa equação.

O capital financeirizado não tolera qualquer projeto de soberania popular. Quando a Grécia, em 2015, ousou votar contra o memorando de austeridade, a troica respondeu com um golpe branco: fechou bancos, impôs controle de capitais e humilhou um governo eleito. A lição foi didática: ou vocês aceitam o arrocho, ou inviabilizamos seu país. A juventude que saiu às ruas carrega essa memória — sabe que a democracia liberal não passa de uma casca vazia quando o capital financeirizado se sente ameaçado.

O canto de sereia da ultradireita

Diante da revolta que não encontra direção, a ultradireita oferece uma saída falsa: transformar a indignação em ódio contra imigrantes, minorias e sindicatos, enquanto mantém intactos os interesses do grande capital. É uma operação clássica de desvio de consciência de classe. Em vez de apontar para os bancos e os fundos de investimento, a ultradireita aponta para o estrangeiro, para a mulher, para o jovem negro ou muçulmano. A desinformação é a arma eleitoral da classe do capital, e ela se replica em cada pleito europeu com a mesma eficiência com que opera no Brasil.

Não é coincidência que os partidos da ultradireita europeia recebam financiamento de setores do empresariado e da banca. Eles servem como válvula de escape: canalizam a revolta para bodes expiatórios e, no poder, aplicam as mesmas políticas de arrocho que prometiam combater. A retórica antissistema esconde uma submissão total ao sistema do capital. O autoritarismo que criminaliza imigrantes é a face repressiva do neoliberalismo, e a juventude precisa reconhecer essa armadilha antes que seja tarde.

A esquerda precisa reconstruir a ponte com a juventude

Condenar a ultradireita não basta. A juventude europeia não se tornou conservadora por convicção: tornou-se ressentida porque a esquerda institucional aceitou, durante décadas, o receituário do arrocho como inevitável. O vazio de projeto é o terreno onde cresce o ódio. A tarefa da classe trabalhadora organizada é oferecer uma alternativa concreta: taxação progressiva dos rentistas, controle social dos bancos, moradia digna, trabalho com direitos e soberania popular sobre o orçamento. Isso exige organização política para além dos parlamentos.

Ao contrário do que pregam os gestores do possível, a crise europeia não é um problema de falta de recursos. É uma crise de hegemonia: o bloco dominante já não consegue governar como antes, e as massas recusam-se a continuar pagando a conta. Esse é o momento de disputar consciência. A revolta que incendeia as ruas de Paris e Atenas carrega um potencial revolucionário — mas só se transforma em força política se encontrar direção de classe. Sem organização, a revolta vira ressentimento; com organização, vira projeto.

O socialismo não é uma utopia remota. É a resposta material à pergunta que a juventude europeia faz todos os dias: quem paga pela crise? O capital financeirizado ou as maiorias trabalhadoras? A história já deu essa resposta mais de uma vez. Cabe a nós, na Europa e na periferia do sistema, construir a unidade internacionalista que transforme a revolta em poder popular.

Fontes consultadas

  • Resultado do segundo turno das eleições presidenciais francesas de 2022 — Ministério do Interior da França.
  • Dados de desemprego juvenil na zona do euro — Eurostat, 2023.
  • Cobertura jornalística sobre protestos juvenis e crise habitacional em Lisboa, Paris e Atenas — imprensa europeia, 2023–2025.

Perguntas Frequentes

Por que a juventude europeia está protestando contra a austeridade?

Porque viu o futuro confiscado por políticas de arrocho, aluguéis impagáveis e contratos precários, com desemprego estrutural e cortes na saúde, educação e aposentadorias.

Qual é a relação entre a crise do capitalismo e o avanço da ultradireita?

A falência do modelo de acumulação não oferece horizonte para as maiorias, criando um vazio em que a ultradireita encontra solo fértil ao prometer devolver dignidade perdida com saídas falsas.

O que a crise europeia revela sobre a democracia liberal?

Revela que a democracia liberal não passa de uma casca vazia quando o capital financeirizado se sente ameaçado, como no golpe branco imposto à Grécia em 2015.

Como a experiência europeia se conecta com o Brasil?

A mesma lógica de fiscalismo e ajuste fiscal como chantagem do rentista contra as maiorias trabalhadoras impede investimentos sociais e sabota a soberania popular.

Qual é a alternativa apontada pelo texto para a juventude?

A necessidade de uma alternativa socialista que enfrente a chantagem do capital financeirizado e devolva horizonte concreto para as maiorias trabalhadoras.

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