terça-feira, 10 de maio de 2011

A mercadologia da drogadição lícita e ilícita e seu uso político

Drogas: muito além da hipocrisia

09/05/2011 Posted in: Outraspalavras

Como políticas oficiais proíbem algumas substâncias, mas estimulam consumo irresponsável de centenas. Por que é preciso fazer exatamente o contrário

Por Henrique Carneiro*

Uma política sobre drogas deve abranger os três circuitos de circulação das substâncias psicoativas existentes na sociedade contemporânea: o das substâncias ilícitas, o das lícitas de uso recreacional e o das lícitas de uso terapêutico.

A divisão estrita entre estes três campos é recente e sempre vem se alterando. O álcool já foi remédio, tornou-se droga proibida e voltou a ser substância de uso lícito controlado. Outras, como os derivados da Cannabis, que por milênios fizeram parte de inúmeras farmacopéias, foram objeto de uma proscrição oficial no século 20, a ponto de a ONU querer "erradicar" essa planta – assim como outras, tais como a coca e a papoula, produtora de ópio. Hoje, entretanto, a Cannabis tem uso medicinal reconhecido em muitos estados norte-americanos e em outros países.

Qual a fronteira conceitual estrita que separa essas drogas? LSD, DMT1 ou MDMA2 não possuem usos terapêuticos? O que é recreacional e o que é terapêutico? Esse último campo deve estar submetido apenas a monopólios de especialistas ou deve também abranger um amplo uso de técnicas de auto-cura?

Pretendo, neste texto, defender um regime mais "equalizador" em relação aos três tipos de substâncias mencionadas. Ao mesmo tempo que antiproibicionista, ele deve ser mais severo no que diz respeito à interdição da publicidade e à facilidade do acesso. Como "substâncias essenciais"3 as drogas psicoativas não devem estar ligadas a emprendimentos que estimulem continuamente o consumo os lucros crescentes que decorrem dao interesse privado. Defendo assim, a criação de um "fundo social" constituído com o faturamento de um mercado legalizado e estatizado de produção de drogas psicoativas em geral — tanto as hoje ilícitas como as legais.

* * *

A indústria farmacêutica, no seu conjunto, concentra alguns dos maiores grupos empresariais do planeta. Hiperconcentrada, hiperlucrativa e em acelerado crescimento nas últimas décadas (faturou 773 bilhões de dólares em 20084). Estreitamente vinculada ao setor de produção de sementes transgênicas e agrotóxicos, esta indústria fundiu-se com a de alimentos por meio de várias compras e fusões empresariais. O ramo do tabaco também está imbricado com o setor alimentar e farmacêutico.

A última ameaça global pandêmica da gripe suína representou um crescimento ainda mais explosivo da indústria farmacêutica que já era um dos mais expansivos e poderosos.

Assim como ocorre com outros mercados, ele se reveste de uma hipertrofia excessiva nos países centrais e de uma carência enorme nos países periféricos.

A África tem apenas 1% do mercado farmacêutico, embora tenha epidemias como a da Aids que necessitariam enormemente de medicamentos. Desde o início do século 21, a África do Sul ameaçou desafiar o regime de patentes que impedia a venda barata de produtos monopolizados por grandes laboratórios e começar a produzir genéricos num laboratório indiano. A patente do retroviral stavudine pertence a universidade de Yale (e rende 90% dos royalties dessa universidade, várias centenas de milhões de dólares), mas ela a cedeu em exclusividade para o laboratório Squibb (BMS), que após uma grande disputa ofereceu o medicamento a um preço menor para os africanos mas sem quebrar o seu monopólio.

Esse monopólio de patentes como direito de propriedade intelectual representa uma forma de exclusivismo na circulação do conhecimento e é um dos pilares da forma atual de funcionamento do comércio internacional que favorece a acumulação de capital em detrimento dos interesses sociais da maioria da humanidade.

É possível quebrar monopólios de patentes (cuja duração é de vinte anos), em casos como uma epidemia ou a segurança nacional, mas mesmo na recente pandemia da gripe H1N1 não se colocou em causa a quebra da patente do Tamiflu. Os medicamentos continuam a ser produtos caríssimos e sua obtenção não está incluída nos planos de saúde.

Sabe-se que ao menos 1/4 de todos os remédios da indústria farmacêutica derivam de saberes fitoterápicos de povos tradicionais, que identificaram a maior parte das plantas medicinais e alimentares5. Os povos do mundo, entretanto, não recebem royalties e nem tampouco nunca lhes ocorreu monopolizar esse saber de forma implacável como faz a indústria farmacêutica.

Plantas de cultivo milenar, como canábis, coca e papoula
são proibidas. Mas libera-se propaganda abusiva de
psicoativos que provocam muito mais acidentes e mortes

Dentre o conjunto dos medicamentos (que totalizam em média cerca de 15% dos orçamentos de saúde nos países centrais), destacam-se os chamados de psicoativos, que são os indicados para os estados de humor, como promoção da alegria e combate à tristeza; para os problemas mentais, como ansiedade ou falta de concentração; para o aumento do desempenho intelectual ou físico; para a tranquilização, sedação e analgesia; para a excitação sexual, etc.

Existem, portanto, três circuitos de circulação de drogas psicoativas na sociedade. O dassubstâncias ilícitas compõe um mercado paralelo e clandestino, cujo volume é calculado em torno de 400 bilhões de dólares, alimentado basicamente dos derivados de algumas das plantas mais tradicionais da história da humanidade: a coca, a canábis e a papoula. Cada vez mais cresce também um número de centenas de moléculas sintéticas novas que vêm sendo desenvolvidas nos últimos anos em laboratórios clandestinos. O montante do faturamento e as consequências sociais em geral associadas a essas drogas – como a violência e alto índice de aprisionamento – decorrem não do efeito específico das substâncias mas, sobretudo, da sua condição de ilegalidade.

O circuito das substâncias lícitas de uso recreacional, como o tabaco, as bebidas alcoólicas e cafeínicas, é regido pela legalidade, trazendo assim problemas relacionados ao uso abusivo ou excessivo e seus efeitos sociais – mas não uma violência intrínseca. É um mercado poderoso, de grandes multinacionais associadas à indústria da alimentação, mas também conhece micro-produtores domésticos ou artesanais. Todas estas substâncias já foram objeto de perseguição e tentativas de proibição. No caso do álcool, provocaram os problemas ligados à chamada "lei seca" que vigorou de 1920 a 1933 nos Estados Unidos.

O circuito que mais notável nas últimas décadas, entretanto, foi das substâncias da indústria psicofarmacêutica, chamados de remédios psicolépticos, psicoanalépticos e psicodislépticos. Desenvolvido especialmente a partir do segundo pós-guerra, é o mais rentável e o que mais tem crescido. É o de circulação mais volumosa, com maior número de consumidores e faturamento. Seus grandes fundamentos são o sistema de patentes, o monopólio médico da prescrição, um mercado publicitário dirigido para quem toma a droga mas também corruptor de quem a ministra (laboratórios que convencem médicos a receitarem os seus produtos). Sua outra contrapartida indispensável é a proibição concomitante do uso de diversas plantas psicoativas de uso tradicional – como a canábis, a papoula e a coca. As funções psicoterapêuticas que estas têm em medicinas tradicionais, passaram a ser substituídas por pílulas farmacêuticas.

* * *

O mercado das substâncias psicoativas controla os mais eficientes instrumentos na luta contra o sofrimento e a busca da alegria. As drogas – não importa se fluoxetina, álcool ou maconha – oferecem a amenização da dor e a intensificação do prazer. Por isso são usadas. E de fato cumprem a promessa – cada uma com suas limitações e preço. Se existem há milênios, é porque não enganam a humanidade: trazem aquilo que nelas é buscado.

Num tempo de aumento de tensões e de sofrimentos psíquicos diversos e complexos, estão disponíveis centenas de moléculas puras, para os mais diversos efeitos. A indústria farmacêutica busca ampliar seu monopólio, substituindo usos de plantas tradicionais por fármacos patenteados, e colonizando cada vez mais a vida cotidiana, oferecendo novos "remédios" para as mais diferentes esferas comportamentais.

O maior número de usuários e dependentes de drogas na sociedade contemporânea são os consumidores de produtos da indústria farmacêutica. As drogas de farmácia também têm usos variados, que podem ser benéficos ou nocivos, equilibrados ou abusivos. Uma parte dos consumidores faz uso abusivo. Cerca de um terço das intoxicações que ocorrem no país, por exemplo, são devidas a drogas da indústria farmacêutica, numa proporção muito maior do que as que ocorrem por causa do uso abusivo de substâncias ilícitas.

Artigo do jornalista Ruy Castro, na Folha de S.Paulo (28/12/09)6, lembrou, a propósito da morte da atriz Brittany Murphy, que muitos outros artistas sofreram, assim como ela, assim como ela, do uso excessivo de remédios legais que os levaram a morte. Foram citados Carmem Miranda, Marilyn Monroe, Judy Garland, Elvis Presley e Michael Jakson.

Só no Brasil, há mais de 32 mil rótulos de medicamentos, com variações de 12 mil substâncias (a OMS considera como realmente necessários 300 itens), vendidos em mais de 54 mil farmácias (uma para cada três mil habitantes, o dobro da recomendação da OMS)7

Uma parte cada vez maior destas drogas são substâncias psicoativas. Entre as principais estão os antidepressivos, as anfetaminas, os benzodiazepínicos, e muitos outros mais. Em 2008 e 2009 o segundo medicamento mais vendido no Brasil foi o benzodiazepínico Rivotril8.

A dependência de remédios, uma forma de consumo compulsivo às vezes chamada popularmente de "hipocondria" é uma característica marcante da relação das pessoas com as drogas. Por serem, por vezes, receitadas por um médico, são chamadas de "remédios", mas o seu resultado é exatamente o mesmo de qualquer outro consumo compulsivo, podendo levar à efeitos daninhos para o organismo e à dependência e tolerância.

Para ampliar vendas, indústria alia-se a concepções
que enxergam estados mentais como "doenças"
– e só poderiam ser tratados, portanto, com "remédios"

Queixas de mal-estares vagos em pronto-atendimentos são medicadas comumente com benzodiazepínicos, especialmente se as pacientes forem mulheres e donas-de-casa. O uso de moderadores de apetite não só para diminuição de peso mas como estimulante também se propaga, ao ponto do Brasil ser um dos maiores mercados mundiais.

Também é comum o uso de certos produtos farmacêuticos para finalidades distintas das indicadas, devido a seus efeitos colaterais. Xaropes para tosse com codeína, remédios para dor de cabeça como Optalidon, medicamentos para mal de Parkinson como Artane ou mesmo de analgésicos são empregados como drogas para combater dores mais psíquicas do que propriamente orgânicas.

O uso de doses inapropriadas de drogas comuns pode ser extremamente perigoso, é o caso de overdoses da própria aspirina, que um estudo recente de Karen M. Starko apontou poder ser responsável por parte dos mortos na época da epidemia da gripe espanhola, em 19189. Durante a epidemia da gripe suína, chegou a se proibir a veiculação de publicidade de antifebris, para não haver indução à medicação excessiva, desnecessária e muitas vezes perigosa.

Muito além do simples e indefinível efeito farmacológico objetivo, todo remédio também é uma representação que se auto-reforça por meio do efeito-placebo inerente à todo medicamento. O que se vende com o mercado de drogas são modos de produção da subjetividade. Assim o fazem os usuários que as inserem em contextos sociais, cerimoniais e até rituais. Também assim o consideram as agências publicitárias que, ao promoverem álcool, tabaco ou remédios, vendem estados de espírito, modelos de felicidade da alma, humor em pílulas. Mais do que venderem, exacerbam, pois, conforme a hipnótica cantilena publicitária, só há requinte com um cigarro na mão, só há festa com cerveja e decotes generosos, só há felicidade plena com o sono, a ansiedade e a tristeza geridos por meio de doses de pílulas ou elixires.

Por isso os orçamentos administrativos e de marketing das indústrias farmacêuticas são muito maiores que os de pesquisa. Estes sempre são interrompidos após o lançamento do fármaco no mercado, não havendo acompanhamento exaustivo de seus efeitos previstos e colaterais de longo prazo nas populações usuárias. A própria técnica publicitária nasce, desde o final do século XIX, fortemente ligada à venda de medicamentos, tônicos, fortificantes, etc., vendendo estilos de vida mais do que os produtos em si. Até hoje, o setor da venda de drogas (seja álcool, tabaco ou remédios) representa uma das maiores fatias do mercado publicitário internacional e brasileiro.

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De toda a indústria farmacêutica, o setor das drogas psicoativas é não só uma das mais lucrativas como a que teve influência cultural mais significativa. O que pouco se percebe é que paralelamente à emergência de um proibicionismo de certas drogas ocorreu uma exacerbação na compulsão ao consumo de fármacos industriais (assim como também o de alimentos e outras mercadorias).

Os anti-psicóticos, soníferos, tranquilizantes, ansiolíticos e anti-depressivos despontaram desde os anos 1950 como carros-chefes não só da indústria, como de estilos de vida. O uso de pílulas tornou-se um hábito considerado normal, não só como suplementos vitamínicos ou fortificantes mas como reguladores mentais, moduladores psíquicos, capazes de alterar o humor, o sono, a tensão e a motivação.

Junto a cada um dos novos fármacos se construiu uma entidade nosológica nova, para a qual cada medicamento seria o específico terapêutico. O erro central dessa visão psicofarmacêutica é considerar o sintoma (por exemplo, a depressão) como a doença. Ao invés de oferecer uma interpretação do seu sofrimento e de suas causas, uma "narrativa" que lhe desse sentido, como diz David Healy, passou a se oferecer (vender, melhor dizendo) uma pílula miraculosa. Este médico e professor de Medicina Psicológica fez uma análise da emergência da depressão como um quadro clínico e nosológico desde os anos de 1950 – e da concomitante ascensão dos medicamentos antidepressivos como mercadorias de alta lucratividade numa das indústrias que mais floresceu desde o segundo pós-guerra. O livro em que relatou suas observações, The Antidepressant Era (1997), é obra importante para compreender os múltiplos significados dessa era de novas drogas e novas políticas sobre drogas, que abrangem não apenas o universo médico strito sensu, mas também a vida cotidiana cada vez mais medicalizada e farmacologizada.

Postura não-infantil exige encarar papel das drogas
em todas as culturas, incentivando usos adequados
e desestimulando compulsão e irresponsabilidade

 A partir dos anos 1950, a grande inovação – além dos barbitúricos, para sedação – foram remédios contra a depressão, tais como imipramina, lançada em 1957 sob o nome de Tofranil. Veio a seguir a amitriptilina, lançada em 1961. Nem sequer o escândalo da talidomida, lançada como sedativo e tranquilizante, em 1957, e responsável por mais de seis mil casos de má-formação fetal em grávidas que o usaram, desestimulou o crescente mercado do consolo e do apaziguamento psíquico.

Nos anos 80 e 90 a fluoxetina, sob o nome de Prozac, tornou-se um dos medicamento psicoativos a vender muitos bilhões de dólares e foi o emblema de uma época em que a indústria farmacêutica criava uma nova cultura de dependência de drogas – ao mesmo tempo que se desencadeava uma guerra sem quartel contra algumas drogas ilícitas, muitas delas plantas de usos tradicionais milenares.

Recentemente, a própria suposta eficácia dos anti-depressivos foi questionada, pois nem todos os estudos realizados são publicados. Mesmo entre os publicados, a diferença entre o efeito dos placebos comparado ao efeito dos fármacos é muito pequena, nos casos majoritários de depressões leves10.

Ainda assim, o uso (inclusive infantil) de psicoativos como antidepressivos aumentou vertiginosamente, estendendo-se a um conjunto infinito de condutas a serem supostamente corrigidas pelo medicamento. De enurese noturna até hiperatividade, de insônia a ansiedade, de "pânico social" à "síndrome do pânico", dentre os tantos novos rótulos que surgem para configurar supostos quadros nosográficos. A OMS profetiza que, em algumas décadas, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo, o que por si já é revelador da situação de insustentabilidade que vive o sistema econômico capitalista. Recentemente surgiu até mesmo uma versão veterinária do Prozac para cães.

O uso de drogas na sociedade cresce sobretudo por meio dos remédios legais, cuja publicidade incita a um consumo fetichizado e hipocondríaco, na busca de panaceias químicas para mal-estares sociais e psicológicos.

Uma política realmente democrática em relação às drogas psicoativas seria aquela que legalizasse todas, submetendo-as a um mesmo regime, não importa se remédios sintéticos ou derivados de plantas tradicionais. Ao mesmo tempo, tal política deveria ampliar a severidade dos controles, distintos para cada substância. Toda publicidade em veículos de mídia destinados ao público em geral deveria ser proibida. A fiscalização e punição para consumos irresponsáveis – ao volante, por exemplo – de álcool ou outras drogas, deveria ser rígida.

Outra medida necessária seria a estatização da grande produção e do grande comércio. Ela evitaria que corporações gananciosas dominassem o mercado e garantiria que todos os lucros desse comércio fossem direcionados para fins sociais – inclusive para programas de desabituação para os consumidores problemáticos que necessitassem. Além de uma política em favor dos genéricos e da quebra das patentes farmacêuticas, o Estado deveria garantir a fabricação de todos os fármacos indispensáveis, oferecendo-os ao menor preço possível e aplicando os lucros obtidos no interesse social. Um amplo programa de pesquisa, com financiamento e destinação pública, poderia assim estimular também o desenvolvimento de novos fármacos.

Legalização e controle público afastariam
crime organizado e criariam fundo público para
financiar Saúde – inclusive atendimento aos dependentes

Tais diretrizes deveriam se aplicar tanto aos remédios fisiológicos quanto aos três grupos de substâncias psicoativas consideradas nestes estudo: as da indústria farmacêutica; as recreativas lícitas, como álcool e tabaco; e as hoje consideradas ilícitas. A legalização da maconha, da cocaína e de todas as drogas, sob controle estatal do grande atacado e produção afastaria o atrativo para o crime organizado, permitiria maior monitoramento dos usos problemáticos e encaminhamento dos necessitados a tratamentos. Financiados pela própria renda gerada na venda legal, seriam oferecidos no serviço público de saúde.

Por que não criar-se um Fundo Social – resultado não apenas de impostos, mas do controle econômico estatal da grande produção e circulação de drogas, remédios, bebidas e cigarros? O conjunto do faturamento obtido poderia servir para custear o orçamento de Saúde Pública.

Um leque imenso de iniciativas individuais, familiares, comunitárias e microempresariais poderia ser não só mantido, mas estimulado, no campo do cultivo e da produção dessas substâncias. Produtores de bebidas como vinhos, cervejas ou aguardentes, cultivadores de fumos de qualidade ou canabicultores deveriam ser estimulados com apoio creditício e fiscal.

O conjunto das drogas legalizadas acabaria com os efeitos nefastos do chamado "narcotráfico", encerraria a "guerra contra as drogas", libertaria os prisioneiros dessa guerra: em torno de metade da população carcerária tanto nos EUA como no Brasil. Seria interrompido o crescimento vertiginoso do encarceramento por drogas, principal fonte de lucros para o sistema penal privado norte-americano e mecanismo de repressão social e racial contra os pobres e os afrodescendentes no Brasil. Reduziriam-se os danos sociais dos usos problemáticos de drogas. Seriam potencializados os usos positivos, tanto terapêuticos como recreacionais.

Os fármacos em geral, e os psicofármacos em particular, oferecem um florescente futuro. Inúmeras novas moléculas poderão ser inventadas, além dos usos diversos que já se podem fazer das substâncias existentes. Isso amplia um repertório que serve a fins terapêuticos, lúdicos, recreacionais, devocionais, de reflexão filosófica, de autoconhecimento e de regulação humoral (os timolépticos). Infelizmente, também pode ser usado de formas autodestrutivas, excessivas, abusivas e descontroladas. Uma cultura da autonomia responsável supõe o uso consciente do potencial de todos os fármacos, que são, como os alimentos, produtos da cultura material que ingerimos para finalidades úteis ao nosso corpo.

Usar as "tecnologias de si" de forma construtiva significa por um lado acabar com a "guerra contra as drogas" e o proibicionismo demonizante de certas substâncias. Mas, por outro, significa recusar os efeitos alienantes de uma cultura publicitária que faz da saúde um negócio e da necessidade das drogas um mercado oligopólico global.

1Dimetrilptamina, princípio ativo do ayahusca, utilizado nos rituais do Santo Daime. Mais informações na Wikipedia

2 Metilenodioximetanfetamina, também conhecida como ecstasy. Verbete na Wikipedia

3 Expressão adotada por Richard Rudgley para denominar as drogas psicoativas emEssential substances. A cultural history of intoxicants in society (N. York, Kondansha, 1993).

4 Cf. IMS Health, 2009.

5Michael J. Balick e Paul Alan Cox, Plants, People, and Culture. The Science of Ethnobotany, N. York, Scientifican American Library, 1997,p.25.

6 Ruy Castro, "Vale das bolinhas", FSP, 28/12/2009, p.2.

7Jomar Morais, "Viciados em remédios", Superinteressante, nº 185, fevereiro de 2003, p.44.

8 Segundo IMS Health, o primeiro é uma pílula anticoncepcional.

9"Aspirina pode ter tido um papel na epidemia de gripe de 1918", Nicholas Bakalar (New York Times), in Folha de S.Paulo, 13/10/2009.

10"Effectiveness of antidepressants: an evidence myth constructed from a thousand randomized trials?", John P. A. Ioannides, in Philosophy, Ethics, and Humanities in Medicine, 3:14, 27 de maio de 2008.

Como políticas oficiais proíbem algumas substâncias, mas estimulam consumo irresponsável de centenas. Por que é preciso fazer exatamente o contrário

Por Henrique Carneiro*

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Henrique Carneiro é historiador, bacharel, mestre e doutor em História Social pela USP. Professor na cadeira de História Moderna no Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo), é também pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP). Publicou seis livros e diversos artigos para jornais e revistas acadêmicas (ver aqui). Sua linha de pesquisa atual aborda a história da alimentação, das drogas e das bebidas alcoólicas.



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domingo, 8 de maio de 2011

Corrupção nos países ricos, a degradação estrutural do sistema

A onda global de crimes corporativos

 Jeffrey D. Sachs, do Project Syndicate - O Estado de S.Paulo

O mundo está se afogando em fraudes corporativas e o problema parece ser mais grave nos países mais ricos, aqueles que supostamente contam com um "governo responsável". Os governos dos países pobres, provavelmente, aceitam mais subornos e cometem mais crimes, mas é nos países ricos - anfitriões das empresas multinacionais - que as infrações de maiores proporções são observadas. O dinheiro move montanhas e está corrompendo políticos em todo o mundo.

É difícil que haja um dia em que não venha à tona um novo caso de práticas administrativas questionáveis ou ilegais. Ao longo da última década, todas as firmas de Wall Street pagaram multas significativas por causa de algum episódio de fraude contábil, negociatas, fraude com valores mobiliários, operações fraudulentas de investimento e até apropriação indébita por parte de diretores executivos.

Uma grande quadrilha que promovia transações valendo-se de informações privilegiadas está sob julgamento em Nova York e a investigação implicou alguns dos principais nomes do mundo financeiro. Isso ocorre após o pagamento de uma série de multas aplicadas aos maiores bancos de investimento dos Estados Unidos como punição por várias violações relacionadas à negociação de valores mobiliários.

No entanto, o que mais se vê é a impunidade. Dois anos após a maior crise financeira de todos os tempos, abastecida pelo comportamento inescrupuloso apresentado pelos maiores bancos de Wall Street, nem um único comandante de uma instituição financeira foi preso.

Quando as empresas são multadas em decorrência de práticas ilegais, o preço é pago pelos seus acionistas e não por seus diretores executivos. As multas nunca passam de uma pequena fração do lucro obtido de maneira questionável e, para Wall Street, a implicação disso é que a corrupção se mostra consistentemente lucrativa. Mesmo nos dias de hoje, o lobby dos bancos demonstra pouquíssima consideração pelos políticos e pelas autoridades reguladoras.

A corrupção é lucrativa também no âmbito da política americana. O atual governador da Flórida, Rick Scott, foi diretor executivo de uma grande empresa de saúde chamada Columbia/HCA. A empresa foi acusada de fraudar o governo por meio do superfaturamento de reembolsos e acabou se declarando culpada de 14 delitos graves, pagando por eles uma multa de US$ 1,7 bilhão.

A investigação do FBI obrigou Scott a deixar o cargo. Mas, uma década depois de a empresa assumir a culpa, Scott está de volta, dessa vez apresentando-se como político republicano defensor do "livre mercado".

Quando o presidente Barack Obama precisou de alguém capaz de ajudar no resgate da indústria automobilística americana, ele se voltou para Steven Rattner, conhecida figura de Wall Street, apesar de saber que ele era investigado por oferecer propinas a funcionários do governo. Depois de concluir seu trabalho para a Casa Branca, Rattner concordou em pagar uma multa de alguns milhões de dólares e, com isso, encerrar o caso.

Mas que motivo teríamos para nos ater apenas aos governadores e conselheiros presidenciais? O ex-vice-presidente Dick Cheney chegou à Casa Branca depois de trabalhar como diretor executivo da Halliburton.

Durante o período em que Cheney esteve à frente da empresa, a Halliburton envolveu-se na oferta de propinas ilegais a funcionários do governo nigeriano, conseguindo com isso o acesso às reservas de petróleo do país - cujo valor é estimado em bilhões de dólares.

Quando o governo da Nigéria acusou a Halliburton de suborno, a empresa preferiu chegar a um acordo fora dos tribunais, pagando uma multa de US$ 35 milhões. É claro que Cheney não sofreu nenhum tipo de consequência. A notícia quase não encontrou espaço na mídia americana.

Impunidade. A impunidade tornou-se um fenômeno generalizado - com efeito, a maioria dos crimes corporativos ocorre sem chamar atenção. Os poucos casos que são notados costumam acabar em algum tipo de repreensão formal e a empresa - leia-se, os acionistas - recebe uma modesta multa.

No alto escalão dessas empresas, os verdadeiros culpados não têm com o que se preocupar. Mesmo quando as companhias recebem multas consideráveis, seus diretores executivos permanecem no cargo. Os acionistas, de tão numerosos, veem-se em uma situação de impotência diante dos administradores.

A explosão da corrupção - nos EUA, na Europa, na China, Índia, África, Brasil e outros países - traz um conjunto de perguntas desafiadoras a respeito de suas causas e de como ela poderia ser controlada agora que atingiu proporções epidêmicas.

A corrupção corporativa fugiu ao controle por dois motivos principais.Primeiro, as grandes empresas são agora multinacionais, enquanto os governos permanecem presos ao âmbito nacional. As grandes corporações contam com tamanho poder financeiro que os governos têm medo de enfrentá-las.

Segundo, as empresas são as principais financiadoras das campanhas políticas em países como os EUA, onde os próprios políticos, muitas vezes, estão entre os sócios delas, sendo, no mínimo, discretamente beneficiados pelos lucros corporativos. Cerca de metade dos congressistas americanos é composta por milionários e muitos deles mantêm laços com empresas antes mesmo de chegarem ao Congresso.

Como resultado, os políticos, com frequência, ignoram as situações em que o comportamento corporativo ultrapassa os limites. Mesmo que os congressistas tentassem fazer cumprir a lei, as empresas têm exércitos de advogados que tentam antecipar sua próxima jogada. O resultado é uma cultura da impunidade, com base na expectativa - amplamente confirmada - de que o crime compensa.

Levando-se em consideração a proximidade entre o dinheiro, o poder e a lei, o combate ao crime corporativo será uma luta árdua. Felizmente, o alcance e a rapidez das redes de troca de informações dos tempos atuais podem atuar como uma espécie de desinfetante ou como um fator de dissuasão.

A corrupção prospera nas sombras, mas, hoje em dia, um volume cada vez maior de informações vem à luz por meio de e-mails e de blogs, além do Facebook, do Twitter e de outras redes sociais.

Precisaremos também de um novo tipo de político, na vanguarda de um outro tipo de campanha, que tenha como base a mídia online gratuita em lugar da mídia paga. Quando os políticos puderem se emancipar das doações corporativas, eles recuperarão sua capacidade de controlar os abusos corporativos.

Além disso, precisaremos iluminar os cantos mais sombrios das finanças internacionais, em especial lugares como as Ilhas Cayman e os bancos suíços mais suspeitos. Os casos de evasão fiscal, oferta de subornos, remessa ilegal de fundos, propinas e outras transações passam por essas contas. A riqueza, o poder e a ilegalidade possibilitados por esse sistema oculto têm agora dimensões tão vastas que chegam a ameaçar a legitimidade da economia global, especialmente no momento em que a desigualdade de renda e os déficits orçamentários atingem níveis sem precedentes, graças à incapacidade política - e, em alguns casos, até mesmo operacional - dos governos de obrigar os mais ricos a pagar impostos.

Assim, da próxima vez em que souber de um escândalo de corrupção na África ou em alguma outra região empobrecida, pergunte-se onde a fraude se originou e quem seriam os corruptores responsáveis. Os EUA e os demais países "avançados" não deveriam apontar o dedo acusador para os países mais pobres, pois os responsáveis pelos problemas costumam ser as mais poderosas empresas multinacionais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PROFESSOR DE ECONOMIA DA UNIVERSIDADE COLUMBIA, DIRETOR DO EARTH INSTITUTE E CONSELHEIRO 
ESPECIAL DO SECRETÁRIO-GERAL DA ONU PARA AS METAS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110508/not_imp716387,0.php



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O fim um ciclo em que a velha mídia foi soberana

Dia após dia, episódio após episódio, vem se confirmando o cenário que traçamos aqui desde meados do ano passado: o suicídio do PSDB apostando as fichas em José Serra; a reestruturação partidária pós-eleições; o novo papel de Aécio Neves no cenário político; o pacto espúrio de Serra com a velha mídia, destruindo a oposição e a reputação dos jornais; os riscos para a liberdade de opinião, caso ele fosse eleito; a perda gradativa de influência da velha mídia.
O provável anúncio da saída de Aécio Neves  marca oficialmente o fim do PSDB e da aliança com a velha mídia carioca-paulista que lhe forneceu a hegemonia política de 1994 a 2002 e a hegemonia sobre a oposição no período posterior.
Daqui para frente, o outrora glorioso PSDB, que em outros tempos encarnou a esperança de racionalidade administrativa, de não-sectarismo, será reduzido a uma reedição do velho PRP (Partido Republicano Paulista), encastelado em São Paulo e comandado por um político – Geraldo Alckmin – sem expressão nacional.

Fim de um período odioso

Restarão os ecos da mais odiosa campanha política da moderna história brasileira – um processo que se iniciou cinco anos atrás, com o uso intensivo da injúria, o exercício recorrente do assassinato de reputações, conseguindo suplantar em baixaria e falta de escrúpulos até a campanha de Fernando Collor em 1989.
As quarenta capas de Veja – culminando com a que aparece chutando o presidente – entrarão para a história do anti-jornalismo nacional. Os ataques de parajornalistas a jornalistas, patrocinados por Serra e admitidos por Roberto Civita, marcarão a categoria por décadas, como símbolo do período mais abjeto de uma história que começa gloriosa, com a campanha das diretas, e se encerra melancólica, exibindo um  esgoto a céu aberto.
Levará anos para que o rancor seja extirpado da comunidade dos jornalistas, diluindo o envenenamento geral que tomou conta da classe.
A verdadeira história desse desastre ainda levará algum tempo para ser contada, o pacto com diretores da velha mídia, a noite de São Bartolomeu, para afastar os dissidentes, os assassinatos de reputação de jornalistas e políticos, adversários e até aliados, bancados diretamente por Serra, a tentativa de criar dossiês contra Aécio, da mesma maneira que utilizou contra Roseana, Tasso e Paulo Renato.

O general que traiu seu exército

Do cenário político desaparecerá também o DEM, com seus militantes distribuindo-se pelo PMDB e pelo PV.
Encerra-se a carreira de Freire, Jungman, Itagiba, Guerra, Álvaro Dias, Virgilio, Heráclito, Bornhausen, do meu amigo Vellozo Lucas, de Márcio Fortes e tantos outros que apostaram suas fichas em uma liderança destrambelhada e egocêntrica, atuando à sombra das conspirações subterrâneas.
Em todo esse período, Serra pensou apenas nele. Sua campanha foi montada para blindá-lo e à família das informações que virão à tona com o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr e da exposição de suas ligações com Daniel Dantas.
Todos os dias, obsessivamente, preocupou-se em vitimizar a filha e a ele, para que qualquer investigação futura sobre seus negócios possa ser rebatida com o argumento de perseguição política.
A interrupção da entrevista à CNT expôs de maneira didática essa estratégia que vinha sendo cantada há tempos aqui, para explicar uma campanha eleitoral sem pé nem cabeça. Seu argumento para Márcia Peltier foi: ocorreu um desrespeito aos direitos individuais da minha filha; o resto é desculpa para esconder o crime principal.
Para salvar a pele, não vacilou em destruir a oposição, em tentar destruir a estabilidade política, em liquidar com a carreira de seus seguidores mais fiéis.
Mesmo depois que todas as pesquisas qualitativas falavam na perda de votos com o denuncismo exacerbado, mesmo com o clima político tornando-se irrespirável, prosseguiu nessa aventura insana, afundando os aliados a cada nova pesquisa e a cada nova denúncia.
Com isso, expôs de tal maneira a filha, que não será mais possível varrer suas estripulias para debaixo do tapete.

A marcha da história

Os episódios dos últimos dias me lembram a lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim. Dejetos, lixo, figuras soturnas, almas penadas, todos sendo varridos pela água abundante e revitalizadora da marcha da história.
Dia após dia, mês após mês, quem tem sensibilidade analítica percebia movimentos tectônicos irresistíveis da história.
Primeiro, o desabrochar de uma nova sociedade de consumo de massas, a ascensão dos novos brasileiros ao mercado de consumo e ao mercado político, o Bolsa Família com seu cartão eletrônico, libertando os eleitores dos currais controlados por coronéis regionais.
Depois, a construção gradativa de uma nova sociedade civil, organizando-se em torno de conselhos municipais, estaduais, ONGs, pontos de cultura, associações, sindicatos, conselhos de secretários, pela periferia e pela Internet, sepultando o velho modelo autárquico de governar sem conversar.
Mesmo debaixo do tiroteio cerrado, a nova opinião pública florescia através da blogosfera.
Foi de extremo simbolismo o episódio com o deputado do interior do Rio Grande do Sul, integrante do baixo clero, que resolveu enfrentar a poderosa Rede Globo.
Durante dias, jornalistas vociferantes investiram contra UM deputado inexpressivo, para puni-lo pelo atrevimento de enfrentar os deuses do Olimpo. Matérias no Jornal Nacional, reportagens em O Globo, ataques pela CBN, parecia o exército dos Estados Unidos se valendo das mais poderosas armas de destruição contra um pequeno povoado perdido.
E o gauchão, dando de ombros: meus eleitores não ligam para essa imprensa. Nem me lembro do seu nome. Mas seu desprezo pela força da velha mídia, sem nenhuma presunção de heroísmo, de fazer história, ainda será reconhecido como o momento mais simbólico dessa nova era.

Os novos tempos

A Rede Record ganhou musculatura, a Bandeirantes nunca teve alinhamento automático com a Globo, a ex-Manchete parece querer erguer-se da irrelevância.
De jornal nacional, com tiragem e influência distribuídas por todos os estados, a Folha foi se tornando mais e mais um jornal paulista, assim como o Estadão. A influência da velha mídia se viu reduzida à rede Globo e à CBN. A Abril se debate, faz das tripas coração para esconder a queda de tiragem da Veja.
A blogosfera foi se organizando de maneira espontânea, para enfrentar a barreira de desinformação, fazendo o contraponto à velha mídia não apenas entre leitores bem informados como também junto à imprensa fora do eixo Rio-São Paulo. O fim do controle das verbas publicitárias pela grande mídia, gradativamente passou a revitalizar a mídia do interior. Em temas nacionais, deixou de existir seu alinhamento automático com a velha mídia.
Em breve, mudanças na Lei Geral das Comunicações abrirão espaço para novos grupos entrarem, impondo finalmente a modernização e o arejamento ao derradeiro setor anacrônico de um país que clama pela modernização.

As ameaças à liberdade de opinião

Dia desses, me perguntaram no Twitter qual a probabilidade da imprensa ser calada pelo próximo governo. Disse que era de 25% - o percentual de votos de Serra. Espero, agora, que caia abaixo dos 20% e que seja ultrapassado pela umidade relativa do ar, para que um vento refrescante e revitalizador venha aliviar a política brasileira e o clima de São Paulo.
 
Por: Nassif


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sábado, 7 de maio de 2011

Depois da Quebra do Sistema Financeiro do Primeiro Mundo, FMI Começa Enchergar outras Possibilidades

The IMF's change of heart

The International Monetary Fund has realised that a nation's economic well-being depends on social equality and justice [O Fundo Monetário Internacional se deu conta de que o bem-estar econômico de uma nação depende de igualdade e justiça social]

Joseph E Stiglitz, 07 May 2011 15:14

do Project Syndicate, na Al Jazeera

O encontro anual de primavera do Fundo Monetário Internacional foi notável ao marcar uma tentativa do FMI de se distanciar de suas próprias doutrinas de longo prazo sobre controle de capitais e flexibilização do mercado de trabalho. Parece que um novo FMI tem gradualmente, e cautelosamente, emergido sob a liderança de Dominique Strauss-Kahn.

Cerca de 13 anos antes, no encontro do FMI em Hong Kong, em 1997, o fundo tinha tentado emendar sua carta para ganhar mais poder para empurrar países à liberalização do mercado de capitais. O momento não poderia ter sido pior: a crise do Sudeste da Ásia estava em gestação — uma crise que foi resultado principalmente da liberalização do mercado de capitais naquela região que, dado o alto índice de poupança, era desnecessária.

As mudanças tinham sido defendidas pelos mercados financeiros ocidentais — e pelos ministros das finanças ocidentais que serviam lealmente aos mercados. A desregulamentação financeira nos Estados Unidos foi uma causa primária da crise que irrompeu em 2008, e a liberalização financeira e do mercado de capitais em outros lugares ajudou a espalhar o trauma "made in USA" por todo o mundo.

A crise demonstrou que mercados livres e sem restrições não são eficientes, nem estáveis. Eles também não fazem um bom trabalho no ajuste dos preços (vejam a bolha do mercado imobiliário), inclusive das taxas de câmbio (que na verdade são o preço de uma moeda em relação a outras).

Emerging markets, concerned countries

A Islândia demonstrou que responder à crise impondo controle de capitais poderia ajudar pequenos países a gerenciar o seu impacto. E o "quantitative easing" (QEII) do Banco Central dos Estados Unidos [através do qual o BC americano compra papéis do Tesouro, inundando o mundo de dólares] tornou o descarte da ideologia dos mercados sem restrições inevitável: o dinheiro vai para onde os mercados acreditam que o retorno será maior. Com os mercados emergentes em boom, e os Estados Unidos e a Europa em dificuldades, estava claro que muito da nova liquidez criada encontraria o caminho dos mercados emergentes. Isso era especialmente verdadeiro considerando que os dutos do crédito nos Estados Unidos estavam entupidos, com vários bancos regionais e comunitários ainda em posição precária.

A inundação de dinheiro nos mercados emergentes [ver a valorização do real no Brasil] significa que mesmo os ministros das finanças e governantes dos bancos centrais — que se opõem ideologicamente à intervenção — acreditam que não tem escolha. Na verdade, um país depois do outro tem escolhido intervir para evitar que o valor de suas moedas dispare.

Agora o FMI abençoou tais intervenções — mas, numa concessão aos que ainda não estão convencidos, sugere que isso só deve ser feito como último recurso. Ao contrário, deveríamos aprender com a crise que os mercados financeiros precisam de regulamentação, e que os fluxos de capitais através de fronteiras são particularmente perigosos. Tais regras deveriam ser uma peça-chave de qualquer sistema para garantir a estabilidade financeira; recorrer [ao controle de capitais] apenas em último caso é uma receita para contínua instabilidade.

Existe um grande número de ferramentas disponíveis para o gerenciamento do fluxo de capitais e seria melhor que os países usassem um menu delas. Mesmo que não sejam completamente eficazes, são tipicamente muito melhor que nada.

Mas uma mudança ainda mais importante é a conexão que o FMI finalmente desenhou entre desigualdade e instabilidade. A crise foi largamente o resultado das tentativas dos Estados Unidos de dar impulso a uma economia enfraquecida por desigualdade crescente, através de uma taxa de juros baixa e do relaxamento da regulamentação [permitindo que os norte-americanos se afundassem em dívidas, parte delas feita com o refinanciamento de imóveis. O gajo refinanciava a casa, pegava dinheiro do banco e pagava a faculdade dos filhos, comprava um carro novo e assim por diante] — o que resultou em muita gente emprestando além de sua capacidade de pagar. Serão anos para desfazer as consequências deste endividamento excessivo. Mas, como outro estudo do FMI nos lembra, não é um novo padrão.

Unemployment, rising class-divide

A crise também colocou em teste outros dogmas de longo prazo que culpam a rigidez do mercado de trabalho pelo desemprego, já que países com salários mais flexíveis, como os Estados Unidos, se deram muito pior que países do norte europeu, inclusive a Alemanha. Na verdade, quando os salários enfraquecem, os trabalhadores terão ainda mais dificuldades para pagar o que devem, e os problemas no mercado imobiliário serão ainda piores. O consumo continuará represado e uma recuperação forte e sustentável não poderá ser bancada com outra bolha baseada em dívidas.

Os Estados Unidos são tão desiguais quanto eram antes da Grande Recessão e a crise, gerenciada da forma como foi, aumentou ainda mais a desigualdade de renda, tornando a recuperação ainda mais difícil. Os Estados Unidos estão a caminho de criar sua própria versão da malaise de estilo japonês [baixíssima taxa de crescimento desde os anos 90].

Mas existem formas de escapar deste dilema: reforçar o poder coletivo de barganha [dos trabalhadores], reestruturar dívidas imobiliárias, usar cenouras e porretes para forçar os bancos a retomar os empréstimos, reeestruturar a cobrança de impostos e os gastos públicos para estimular a economia agora através de investimentos de longo prazo, e implementar políticas sociais para garantir oportunidade para todos. Do jeito que está, com quase um quarto da renda e 40% da riqueza dos Estados Unidos indo para o 1% do topo, os Estados Unidos são agora ainda menos uma "terra de oportunidades" que a "velha" Europa.

Para progressistas, esses fatos abismais já são parte de uma litania de frustrações e ultraje justificado. O que é novo é que o FMI aderiu ao coro. Quando Strauss-Kahn concluiu seu discurso na Brookins Institution pouco antes do recente encontro do Fundo, disse: "No fim das contas, emprego e igualdade são tijolos da estabilidade econômica e da prosperidade, da estabilidade política e da paz.  Este é coração do mandato do FMI. Precisa ser colocado no coração da agenda política".

Strauss-Kahn está se provando um líder sagaz do FMI. Podemos apenas esperar que os governos e os mercados financeiros ouçam as palavras dele.

Joseph E. Stiglitz is a professor at Columbia University, a Nobel laureate in Economics, and the author of Freefall: Free Markets and the Sinking of the Global Economy. He is also a former Senior Vice President and Chief Economist of the World Bank.



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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Governo Lula Dilma - Brasil é classificado como 10º país de maior responsabilidade fiscal no mundo

Ora, ora! Vejam só / Coluna / Brasil S/A - Antônio Machado

Índice da Universidade de Stanford põe Brasil como o 10º de maior responsabilidade fiscal no mundo

Em mais um de seus relatórios regionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elogia o corte de gasto público de R$ 50,7 bilhões promovido pelo governo Dilma Rousseff, mas faltou enfatizar que a decisão foi necessária não por razões de solvência fiscal e, sim, para prevenir risco de superaquecimento da demanda e sua sequelas sobre a inflação e o desempenho das contas externas do país.

Tais coisas têm de ficar "bem explicadinhas", como dizia um velho bordão humorístico, porque, no Brasil, formou-se a ideia de que os governos promovem "gastança", ameaçando a estabilidade das contas públicas. Não é isso. Há alguns anos elas estão supercomportadas.

O que há a criticar, como temos destacado aqui, são a qualidade do gasto e seu crescimento em ritmo superior ao do Produto Interno Bruto (PIB) – a origem dos juros bizarros no Brasil e, desde 2010, o fermento da inflação, ao se misturar com o choque agrícola.

Problemas fiscais, tanto de endividamento público excessivo como de déficits orçamentários recordes desde a 2ª Guerra, afligem os países desenvolvidos, como EUA, Japão e a Zona do Euro, à exceção da Alemanha, Holanda, o bloco da Escandinávia e talvez a França.

As economias emergentes se livraram desses males desde as últimas grandes crises dos anos de 1990, começando pela da Ásia. E também um punhado de países avançados, que enfrentaram crises cambiais ou fiscais e saíram delas com ajustes duradouros e, sobretudo, sólida governança fiscal, permitindo a supervisão externa pelo Congresso, entidades de pesquisas, pela sociedade em geral, enfim.

Tais resultados estão explicitados num índice inédito criado por alunos dos cursos avançados de política pública e internacional da Universidade de Stanford, de Palo Alto, Califórnia, sob supervisão do ex-chefe da Controladoria-geral dos EUA David Walker, e também líder da Comeback America Initiative, uma coalizão pela reforma da economia americana, especialmente as contas fiscais. O Brasil está muito bem nesta avaliação, comparado à situação de outros países.

Chamado de Índice de Responsabilidade Fiscal Soberana – SFRI, na sigla em inglês –, o indicador, segundo Walker, compara a aptidão fiscal de 34 países – todos os da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e os BRICs, menos Rússia, Suíça, Turquia e Republica Checa, excluídos por razões metodológicas.

A amostra inclui, assim, todos os países avançados e os maiores emergentes. É um estudo pioneiro. Até então não havia metodologia para consolidar dívida, déficit e governança fiscal por país a fim de armar um ranking dos mais responsáveis e sólidos a longo prazo.

EUA na rabeira, o 28º
Em resumo, o país com a melhor situação fiscal neste conjunto dos 34 analisados pelo estudo, é a Austrália. O pior, a Grécia. Brasil é o 10º neste ranking de responsabilidade fiscal – acima do Canadá (11º), Holanda (14º), França (23º), Alemanha (25º) e EUA (28º).

Japão, sem surpresa, com dívida acima do dobro do PIB, é o 32º. A rabeira dos EUA também não espanta. É coerente com a queda livre do dólar em todo o mundo. Mas o Brasil muito melhor que Alemanha é duro de engolir. Só que é isso mesmo. O estudo usou dados oficiais do Fundo Monetário Internacional. E foi escrutinado por medalhões, como o economista John Taylor, reverenciado nos bancos centrais.

Espaço para dever mais
O índice de Stanford resulta de três outros: o espaço, trajetória e governança, todos relacionados à área fiscal. Espaço é a dívida adicional que um país pode teoricamente emitir antes que uma crise fiscal seja iminente. Trajetória estima o número de anos até que o país atinja a capacidade máxima de se endividar. Governança fiscal é uma medida baseada na força das instituições do governo, além de sua transparência e responsabilidade para com a sociedade.

Por tais conceitos, o Brasil poderia emitir dívida de até 102,3% do PIB, sendo hoje de 56% em termos brutos, a medida comparável. Mas, como adverte o estudo, espaço fiscal é uma estimativa, não um número acabado. "Ninguém pode prever exatamente que espaço um país dispõe antes que experimente uma crise fiscal", diz.

Governança só razoável
Ainda assim, o indicativo é aceitável. O tempo teórico até o teto do endividamento foi projetado em 39 anos, o que se compara com 16 anos para EUA, cinco no Japão e 40 na Austrália. Já a governança é só razoável. De 0 a 100, o Brasil colheu 56,9 pontos, contra 65,9 da Austrália, mas muito acima dos EUA (46), que empatam com a falida Grécia (45 pontos). Para um país que quase ontem, em 2002, foi ao FMI pedir retaguarda financeira, este resultado é excepcional.

Estado de Minas 04/05/2011

Walter --  EngaJarte-blog

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Assassinato com Ocultação de Cadáver, um País em Declínio

Países fortes e mesmo impérios tradicionalmente procuram seguir os procedimentos, leis e acordos internacionais, pois isto organiza o sistema, e como potência eles são naturalmente os primeiros beneficiados do Sistema Internacional.
O que vemos nas ações dos EUA e OTAN hoje é o abandono do sistema de regras e o uso da força bruta, um valetudo mesmo.
Isto mostra uma situação de fraqueza e fragilidade, estrutural e moral, de quem não tem mais o que perder e vai para o tudo ou nada.
Países fortes fazem suas extripulias legais sim, mas de forma encoberta, secreta, sempre mantendo a fleugma, o que os EUA decidiram é largar mão de sua imagem e pisar as leis do sistema que eles mesmos ajudaram a construir.
O episódio do assassinato com ocultação do cadáver foi a primeira ação da campanha de reeleição do Barak Hussein.
A coisa terminou como começou.
Segundo o FBI americano não existe qualquer evidência da ligação entre Osama e o ataque das Torres Gêmeas(9/11), as acusações contra ele são por explodir duas embaixadas na África, coisa muito mais simples do que o atentado em Nova Yorque.
Mas agora está finalizada a questão, também sem nenhuma evidência da existência do Bin Laden ou de seu assassinato.
Mas as declarações do Obama não são suficientes?
Elas são tão confiáveis quanto as declarações do Bush de que o Iraque era uma ameaça para o mundo por suas armas de destruição em massa, ou a declaração reiterada de que os EUA não tiveram nada que ver com o golpe de 1964 contra o governo constitucional do Brasil, já fartamente desmentido por documentos de que dois anos antes o presidente Kennedy já havia autorizado a conspiração para uma mudança de regime no Brasil.
Estimo que a fragilidade estrutural dos EUA está ligada com o pico do petróleo e seu sistema financeiro desregulado e políticamente poderoso, é a consolidação do modelo Reagan, a extrema direita dos EUA conseguiram uma regressão social com a super concentração de rendas, o cimento social do país está ruindo, e é neste momento que os dirigentes vão para a agressão pura, interna e externa.
O interessante hoje é ver como funcionam as entranhas do sistema americano, pois Bin Laden foi o grande cabo eleitoral do republicano Bush (o pequeno) na sua reeleição, agora um presidente democrata, Barak Hussein utiliza-se do mesmo expediente, do mesmo personagem, novamente apresentando como reais, eventos sem nenhuma evidência, tudo na base da conversa mole.
E a imprensa?
Esta deixa de lado sua função social de questionar e trazer informações, comporta-se como correia de transmição da propaganda militar e política do país dominante, tanto lá como aqui.


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Política não é só eleição, é história e é debate no dia-a-dia

RedaçãoConversa AfiadaDilma, desmascare o Serra. O Serra não tem escrúpulos
 Publicado em 10/10/2010  

Redação Conversa Afiada

A eleição não é para Madre Superiora

O programa do Serra no horário eleitoral deste sábado terminou com uma senhora paulistíssima, com jeitão de "amiga" da D. Ruth, a folhear um jornal e insinuar que a Dilma é responsável por tudo o que se atribui à Erenice.

A "amiga" da D. Ruth, portanto, substituiu a denúncia do aborto do programa da manhã.

Das duas, uma.

Ou as pesquisas de qualidade mostraram que o aborto era um tiro no pé.

Ou ele considera que o mal à Dilma já está feito.

Ele fixou a imagem de santarrão e, ela, de criminosa, cúmplice das aborteiras mais inescrupulosas.

O PiG (*) desta manhã de domingo – tanto a Folha (**) quanto o Estadão – anunciam que, nos debates, ele será o "Serrinha é do bem".

Será o Serrinha santarrão, Tartufo, nas entradas ao vivo no horário eleitoral.

Mas, na hora de o trator passar por cima da cabeça da mãe, o Serra estará em off: virá no fim do horário eleitoral, colado ao programa da Dilma, ou, rotineiramente, o PiG (*) usará o trator por ele.

O PiG (*) se dedica, por ele mesmo, a desconstruir  a Dilma.

E a Veja a procurar companheiras de cela da Dilma.

O Conversa Afiada diz isso porque recebeu a informação de que a Veja procurou uma companheira da Dilma de cela.

Só que ela mandou a Veja procurar a Dilma.

Na Veja que está nas bancas, vê-se que ela foi atrás de uma companheira da Dilma, a Tupamara.

Mas deu com os burros n'água, porque o desmentido à reportagem saiu antes de a Veja chegar às bancas.

Mas, a Veja ainda achará o torturador da Dilma, como a Folha (**) achou que o homem trabalhava para os órgãos de repressão e fazia a campana da Dilma.

É uma divisão de trabalho.

O PiG (*) faz o trabalho sujo e o Serra faz o trabalho limpo.

Essa estratégia é a de quem está numa situação de vida ou morte.

Serra dá as últimas braçadas de um afogado.

Ele fará QUALQUER COISA !

Ele não tem escrúpulos !

No dia 1º. de novembro ele vai ser líder de um partido minoritário, que definha a cada eleição: a UDN de São Paulo.

Ele tem que passar o trator agora.

E a Dilma tem que tirar as luvas.

Tem que responder aos ataques.

A campanha "economicista" já colou.

O Lula pendurou o FHC no pescoço do Serra.

Só que a guerra mudou de trincheira.

Foi para o aborto e a Erenice.

Para a destruição de caráter.

E o Serra, aí, é impune.

Ele pode fazer qualquer coisa, porque o PiG (*) lhe dá refugio, o protege.

Uma primeira providência da Dilma seria, por exemplo, afastar as vozes do Bom Senso, os Moderados e Bem-Pensantes.

O Palocci, por exemplo, que quer ganhar a eleição e continuar a escrever para o Globo.

Ganhar sem sujar as mãos.

O Cardozo, por exemplo.

Ele quer ganhar a eleição sem brigar com ninguém, ir para o Supremo com o apoio do PiG (*), e ser convidado para jantar com o Daniel Dantas.

Esse é o pessoal "bonzinho" da Dilma.

Que faz qualquer negócio para sair nas páginas amarelas da Veja, dar uma entrevista à urubóloga Miriam Leitão na GloboNews.

Tem que fazer como a Marilena Chauí: não falar mais com o PiG (*).

Não fosse o precedente do Golpe do Ali Kamel em 2006,  seria até uma boa ideia não ir ao debate da Globo.

Clique aqui para ler "O primeiro Golpe já houve, falta o segundo".

O único púlpito da Dilma é o horário eleitoral.

E, nele, a Dilma tem que desmascarar o Serra, como recomendam o Mino e o Mauricio Dias na Carta Capital que está nas bancas.

Sobre Valores, e Ética, por exemplo.

Basta pedir à Monica Bérgamo para contar a história do filho que o Fernando Henrique – que bom pai ! – levou quinze anos para reconhecer.

Sobre o aborto.

Ir ao site "Amigos do Presidente Lula" e mostrar que o Serra foi o único Ministro da Saúde que assinou portaria para realizar a aborto no âmbito do SUS.

Sobre "eu não mudo de idéia", sou "coerente".

Ir ao Conversa Afiada e exibir no horário eleitoral o vídeo em que ele diz ao Boris Casoy que cumprirá o mandato de prefeito e, se não cumprir, que ninguém nunca mais vote nele.

Pegar no Conversa Afiada o documento com o timbre da Folha (**) em que ele diz que vai cumprir o mandato de prefeito até o fim.

A Dilma quebrou o sigilo da filha do Serra, coitadinha.

É só mostrar a reportagem do Leandro Fortes na Carta Capital: a filha do Serra e a irmã do Dantas quebraram 30 milhões de sigilos, numa empresinha que elas tinham.

Por falar nisso, Dilma.

Sem que o Cardozo e o Palocci saibam,  detona a filha do Serra e a irmã do Dantas.

Exiba o documento do Governo da Florida que registra a empresa delas em Miami (em Miami !, Dilma, onde se localiza a maior lavanderia do mundo, depois do Banestado).

Quem trouxe a família para a campanha foi ele.

A mulher dele, tão simpática, especialmente de óculos de moldura vermelha.

Foi ela quem disse na Baixada Fluminense que você matava criancinhas.

Sobre a "democracia" e a defesa intransigente da "liberdade de imprensa", mostre como ele agride jornalistas,  especialmente jornalistas mulheres.

Como o Serra agasalhou um terreno que a Globo invadia há onze anos e transformou numa escola técnica para formar quadros para a Globo.

(O Palocci vai ficar nervosíssimo se você fizer isso !)

Reproduza o diálogo dele com o Heródoto Barbero, no Roda Morta, da TV Cultura, sobre pedágio.

E conte que, por causa disso, o Heródoto foi devidamente defenestrado.

Mostre os documentos que a Namaria publicou sobre as assinaturas da Veja, da Folha (**) e do Estadão que ele comprou com o dinheiro do povo de São Paulo para distribuir às escolas.

Essa é a "imprensa livre" dele.

Serra vendeu o Brasil.

Contratar alguém com a voz grave do Celso Freitas e ler, um por um, o nome das empresas que ele vendeu com o FHC.

Ao lado, o logo da empresa.

Uma por uma.

E a frase do Delfim: eles venderam tudo e aumentaram a dívida.

Qualquer dona de casa entende isso.

Sobre o "me formei" economista, que ele diz no programa dele.

Cadê o diploma dele, Dilma ?

Faça o que a Dra. Cureau não fez: exija o diploma dele.

No Brasil, ele não pode dizer à Justiça Eleitoral – mostre a foto – que é economista, porque ele não tem diploma válido em território nacional.

Ele mente, Dilma.

Mostre o decreto dos genéricos.

Foi o Ministro da Saúde Jamil Haddad quem assinou e, não ele, que se atribui o título de "melhor Ministro da Saúde".

(Quem disse isso foi o amigão dele, o Ministro serrista Nelson Jobim, o da babá eletrônica para agradar o Gilmar Dantas (**).)

Melhor Ministro da Saúde, quem ?

Não foi na gestão dele que compraram ambulâncias super-faturadas ?

Cadê o Barjas Negri, Dilma ?

O Abel, coitado, morreu, mas o Negri poderia dar um depoimento sobre as ambulâncias …

Peça àquele mesmo locutor para ler os votos do Serra contra o trabalhador na Constituinte.

Só votou contra o trabalhador.

O Conversa Afiada já publicou isso e o Artur Henrique da CUT sabe onde achar.

Vá atrás do passado dele.

Que história é essa de aparecer numa foto ao lado do Jango ?

Ele fugiu, Dilma.

E diz em off: eu enfrentei os militares e a Dilma, cadê a Dilma ?

Diga que enquanto ele fugia você era torturada.

Dilma, como é que um presidente da UNE – que comia criancinhas – vai ao comício do grande comedor de criancinhas – o Jango -, foge para o Chile do comededor de criancinhas, o Salvador Allende, casa com uma Allende, e depois, aparece nos Estados Unidos para "dar aula" ?

Que história é essa ?

Pergunta ao Gabeira se ele pode entrar nos Estados Unidos.

Por que o Serra entrou e ficou lá numa nice ?

Vamos falar da Erenice, Dilma.

Fala do Engavetador Geral da República.

Do projeto Sivam.

Da pasta rosa.

Da compra da re-eleição.

Da privataria, como diz o Elio Gaspari.

Mostra aquele exemplar da Carta Capital que transcreve os diálogos do Fernando Henrique com o André Lara Resende: "vamos usar a bomba atômica".

Do Mendonção com o Ricardo Sérgio de Oliveira: "isso vai dar m …".

Aquele momento Péricles de Atenas do Governo FHC.

Mostra aquelas fotos do Serra com o martelo dos leilões da privatização, a beijar a Helena de Tróia.

Pede ao Nassif para resumir o livro dele "Cabeças de Planilha".

Ele conta como o FHC fixou o Real na entrada do Plano, e beneficiou o André e os clientes dele.

(O André jamais processou o Nassif.)

Pede ao Malan para contar que o Serra boicotou o Plano Real e tentou derrubar o Malan.

Dilma, você já percebeu – está no Estadão de hoje, na página 2 – que o Malan defende o FHC, mas não apóia o Serra ?

Por que será, hein ?

Vamos falar do Ricardo Sergio, Dilma ?

Ele foi o chefe da campanha do FHC e do Serra.

Pergunta ao Benjamin Steinbruch quem é o Ricardo Sergio.

Pergunta à família do Antonio Ermírio de Moraes.

E o Preciado ?

Lembra do Preciado ?

Aquele da privatização do Banespa e da Ilha do Urubu, que o Emiliano José e o Leandro Fortes descreveram tão bem.

Quem entende muito de Preciado é o Fernando Rodrigues, da Folha (**).

É só mandar buscar as reportagens dele, quando o rabo da Folha (**) ainda não estava preso.

O Amaury Ribeiro preferiu esperar as eleições para lançar o livro dele.

Mas, o Conversa Afiada já divulgou o prefacio do livro do Amaury, o que provocou um "alopramento" generalizado na campanha do Serra.

Clique aqui para ler esse prefacio, que o Conversa Afiada re-publicou, a pedidos.

Ali há informações preciosas (sem trocadilho).

Dilma, como é que um homem público, que passou a vida toda com salário de parlamentar, governador e "professor" comprou aquela casinha em que vive ?

A casa é dele, Dilma ?

Está no Imposto de Renda ? Por quanto ?

Se ele vier de "mensalão", devolva com "mensalão tucano de Minas", Eduardo Azeredo e o "valerioduto" cheio de dinheiro do Dantas (o Palocci e o Cardozo não podem ouvir falar nisso).

Dilma, você já ouviu falar no Flavio Bierrembach ?

O Flavio é um homem honrado.

Ele era candidato a deputado com o Serra e acusou o Serra de ladrão.

O Serra foi para cima dele.

Por azar, a ação caiu na mão do Juiz Walter Maierovitch.

Maierovitch chamou o Bierrembach às falas: que história é essa de chamar alguém de ladrão, sem provas ?

O Bierrembach pediu "exceção da verdade" – ou seja, quero provar o que digo.

Maierovitch imediatamente deu ao Bierrembach o direito de provar o que dizia.

Dilma, sabe o que o Serra fez ?

Engavetou a ação.

Chama o Bierrembach para contar essa história.

Chama o Maierovitch – e só ligar para a Mara, secretária do Mino, na Carta Capital, que a Mara acha o Maierovitch rapidinho.

E põe uma claquete assim: "O Serra não deixou a Justiça provar que ele não é ladrão".

Querer ganhar eleição do Serra com o IBGE não basta.

Ele faz e diz QUALQUER COISA !

Dilma, e o telefonema do Serra para o Gilmar Dantas (***) ?

Mostra aquela foto dele no auditório e o voto do Gilmar no dia seguinte.

Esses dois, Dilma, fazem qualquer coisa.

E trate de ganhar a eleição com bastante folga.

Porque essa urna eletrônica sem o papelzinho do Brizola é um convite à fraude.

E se for para o tapetão, o Marco Aurélio de Mello está lá e o Gilmar fica na reserva.

Um perigo !

Sobre o massacre do PiG (*) contra a Petrobrás, para impedir que você use a Petrobrás na campanha.

Dilma, você conhece a história do John Kerry ?

O John Kerry combateu no Vietnã e foi condecorado TRÊS VÊZES.

Ele tem a "Purple Heart", a medalha de que os americanos mais se orgulham.

Ele dirigia missões de destreza e rapidez, nuns barquinhos, os Swifts, com poucos companheiros a bordo.

Uma espécie de SWAT.

Em diferentes ações, Kerry foi ferido, matou um vietcong que o tinha atacado e salvou a vida de subordinados.

Ele foi candidato à Presidência contra o Bush, na segunda vez.

Bush fazia nos debates o "Bushinho paz e amor".

Bush era "do bem".

Como "Serra é do bem".

Mas, por trás, veio o trator – cheio de grana.

Criou-se um grupo auto-intitulado de "Veteranos dos Swift em Busca da Verdade".

Eles produziram um documentário – com dinheiro de quem, Dilma ? – para demonstrar que Kerry não podia ser presidente.

Porque ele mentiu sobre o seu papel no Vietnã.

Que ele não merecia nenhuma daquelas medalhas.

Era um líder inepto.

E, no fundo, no fundo, um covarde.

Os "amigos do presidente Serra" compraram horário nas televisões do interior para exibir o documentário.

(Lá não tem horário eleitoral gratuito.)

Como Kerry tinha dito, ao sentar praça, que era contra a Guerra do Vietnã, ele foi estigmatizado pelos "Veteranos dos Swift": um Traidor da Pátria, um Vendilhão da Pátria.

Veja bem, Dilma, TRÊS medalhas por bravura !

E passou a campanha sem poder invocar seu passado heróico.

O Serra é assim também: capaz de tudo.

O bye-bye Serra forever não se dará mais com a Economia.

Não basta pendurar o FHC no pescoço do Serra.

O Serra levou o jogo para o campo dele – a vala negra.

O da calhordice, como diz o Ciro, um especialista na alma do Serra.

Neste momento, essa história de não "baixar o nível" só funcionaria em  eleição para Madre Superiora.

Paulo Henrique Amorim

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da "ditabranda"; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de "bom caráter", porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que avacalha o Presidente Lula por causa de um  comercial de TV; que publica artigo sórdido de ex-militante do PT; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.



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quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Câmbio "Ótimo" para o Desenvolvimento do Brasil

Do Valor

Estudo calcula câmbio 'ótimo' para o desenvolvimento do país em R$ 2,90

Sergio Lamucci | De São Paulo
04/05/2011

O câmbio brasileiro deveria estar hoje na casa de R$ 2,90 para atingir a taxa "ótima" real de longo prazo, definida como aquela que induz à alocação de recursos para os setores de maior produtividade da economia e leva ao desenvolvimento econômico, segundo estudo dos economistas André Nassif, do BNDES e da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carmem Feijó, da UFF, e Eliane Araújo, da Universidade Estadual de Maringá. O modelo desenvolvido pelos três indica que, no período de 1999 a 2010, os termos de troca (a relação entre preços de exportação e importação) e o diferencial entre os juros internos e externos são as variáveis mais importantes para explicar a tendência de sobrevalorização da taxa de câmbio.

Os resultados do estudo mostram duas conclusões básicas: "Primeiro, a moeda brasileira ficou persistentemente sobrevalorizada por quase todo o período analisado; segundo, a taxa 'ótima' real de longo prazo foi atingida em 2004", ressaltam os economistas. Em março de 2011, quando a cotação média do dólar ficou em R$ 1,659, a taxa nominal deveria estar em R$ 2,91 para voltar ao nível "ótimo". 

Segundo Nassif, o índice de taxa real de câmbio de março deste ano aponta uma valorização de 79% em relação ao nível "ótimo" que teria sido atingido em 2004 - ano em que, diz ele, a economia brasileira registrou uma combinação dos melhores indicadores macroeconômicos do período analisado. Nassif ressalta falar em caráter pessoal, e não em nome do banco.

No artigo, os economistas adotam uma "abordagem estruturalista-keynesiana" para verificar quais fatores definem a taxa real de câmbio. Para Nassif, a tendência de longo prazo é mais bem explicada não apenas por forças estruturais, mas também por políticas de curto prazo. Desse modo, no modelo entram tanto fatores estruturais, como os termos de troca e o PIB per capita em dólares, como aspectos de curto prazo, caso do diferencial de juros básicos brasileiros e americanos e volume de reservas internacionais.

Os resultados evidenciam que a tendência de sobrevalorização pelos termos de troca, que têm melhorado significativamente por causa da trajetória de alta dos preços de commodities, produtos com grande peso na pauta de exportações brasileiras, e pelo elevado diferencial de juros.

O problema do real forte é que ele pode comprometer o desenvolvimento, segundo Nassif, citando estudos recentes que apontam também a importância de alguma depreciação do câmbio. Num artigo de 2008, Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, mostra evidência empírica de que a sobrevalorização prejudica o crescimento, mas também que uma desvalorização do câmbio o beneficia. Nassif observa ainda que John Williamson, conhecido como pai do "Consenso de Washington", sugere que a melhor política para maximizar o crescimento "parece ser uma pequena desvalorização".

Depois de desenvolver o modelo sobre os determinantes do câmbio de longo prazo e de chegar a um índice de sobrevalorização do real, os economistas buscam a taxa de câmbio "ótima". Essa taxa, segundo os autores, é a capaz de "realocar os recursos produtivos em direção aos setores de maior produtividade", evitando os riscos de desindustrialização precoce e levando ao desenvolvimento.

Para chegar a ela, o primeiro passo foi buscar um período entre 1999 e 2010 em que o país registrou uma combinação favorável de indicadores macroeconômicos, como crescimento forte do PIB e solidez das contas externas. Para os autores, isso ocorreu em 2004, quando a economia cresceu 5,7% e houve superávit de 1,6% do PIB da conta corrente (resultado das transações comerciais, de serviços e rendas com o exterior). "Além disso, naquele ano a taxa estava algo como 5% desvalorizada em relação à tendência real do longo prazo, o que vai ao encontro da recomendação recente como melhor política para maximizar o crescimento, como a feita por Williamson."

Em 2004, o índice real de longo prazo apontava para um número quase 80% acima do registrado em março deste ano. Ele ressalta que a taxa "ótima" não se confunde com taxas de câmbio reais de equilíbrio, como as calculadas com base na paridade do poder de compra ou que levam em conta algum ano-base como referência.

Mas R$ 2,91 não é uma taxa muito desvalorizada? Para ele, um ponto é que recentemente se perdeu a referência no Brasil de qual seria uma taxa mais adequada. O Goldman Sachs, exemplifica ele, trabalha com um número de R$ 2,70. Esse números é uma estimativa mensal da taxa de equilíbrio nominal contra o dólar, que leva em conta termos de troca, diferenciais de ganhos de produtividade e a diferença entre a inflação interna e externa, como explica Alberto Ramos, co-diretor para a América Latina do banco.

Nassif diz que a taxa "ótima" não deve ser buscada num curto espaço de tempo. Ele acredita que as autoridades precisam, primeiro, atuar para impedir a tendência de sobrevalorização do câmbio e, depois, ter uma meta para a taxa "ótima", ainda que não explicitamente, no médio e longo prazo.

Para isso, ele considera importante uma combinação de medidas. Primeiro, continuar com a acumulação de reservas, ainda que o Brasil tenha limitações fiscais para isso, dado o custo por causa da diferença entre juros externos e internos. Também é importante adotar políticas industriais e tecnológicas que contribuam para neutralizar o impacto da melhora dos termos de troca provocada pela disparada das commodities.

Ele defende ainda a flexibilização do regime de metas, com um prazo mais longo para o cumprimento do alvo - de 18 meses, por exemplo, e não mais no ano-calendário, o que pode ajudar a abrir espaço para uma redução dos juros. "Fazer ajuste fiscal, com despesas correntes crescendo menos que o PIB, é importante, mas não é suficiente para reduzir os juros, como defendem alguns economistas ortodoxos, que falam como se houvesse um descontrole das contas públicas." Por fim, ele acha que o Brasil pode ter de adotar controles de capitais mais rígidos, como a quarentena, para deter o fluxo de recursos estrangeiros.

A íntegra do trabalho, em inglês, pode ser acessada no seguinte link:www.valoronline.com.br/pdf/paper-may-2011.pdf 



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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Os Falcões do PT

"A eleição de Falcão não é um fato isolado nem pequeno. Sua presidência fecha um ciclo do petismo. E inicia uma ação das mais arrojadas: conquistar São Paulo e fechar o cerco sobre o PSDB paulista (algo similar ocorre em Minas Gerais). O lulismo avança a passos largos sobre o país", escreve Rudá Ricci, sociólogo, em artigo publicado no seu blog De esquerda em esquerda, 01-05-2011.

Segundo ele, "caminhamos para um modelo político de baixa competição pública. O que exige um falcão para dar conta do recado. O tempo das pombas petistas acabou".

Eis o artigo.

1. O fim de um ciclo

Rui Falcão foi conduzido à presidência nacional do Partido dos Trabalhadores na mesma reunião em que 80% da direção nacional deste partido decidiram acolher o pedido de refiliação de Delúbio Soares. Esta reunião não foi um mero ato administrativo. Foi a consolidação de uma trajetória partidária que exterminou a via de construção de um partido de massas, com forte controle da base militante sobre a estrutura burocrática e até mesmo sobre parlamentares e governantes eleitos. O PT nasceu sob este signo autonomista, uma cultura política que rejeitava o centralismo do processo decisório o que, por tabela, refutava o centralismo democrático, o neologismo do velho comunismo para definir prazos e controles para discussões internas e a adoção da linha justa que aproximava o partido de uma estrutura militarizada.

Rui Falcão foi, desde sempre, a negação desta via autonomista. Desde sempre representou o estilo áspero e anguloso, matemático e certeiro. Sua trajetória pessoal ilustra o caminho do poder daqueles que não nasceram no petismo pela ação de massas, mas pela burocracia e que, em determinado momento, perceberam que a via da estabilidade da profissionalização dos dirigentes desta estirpe era o parlamento.

Em outras palavras, o PT é hoje dirigido majoritariamente por parlamentares. Parlamentares que desconhecem a lógica das ruas e que raramente subordinam seu mandato aos desejos e orientações dos apoiadores regionais ou lutas sociais.

O PT parlamentarista é a expressão de uma casta partidária que se orienta pelo esquadrinhamento de espaços de atuação nos territórios. Uma convivência que se alimenta de muitos dos critérios que os parlamentos brasileiros adotam para definir tamanho e disposição dos gabinetes a partir de prestígios pessoais, força de voto no interior da casa parlamentar, representação partidária e posicionamento na hierarquia das Mesas Diretoras.

Nada que se relacione efetivamente à dinâmica social que deveria orientar os mandatos.

O PT, assim, se aproxima do partido de vanguarda da mitologia da esquerda do século XX. Vanguarda que também pode ser compreendida como formação de uma elite política, profissional, apartada dos afazeres cotidianos dos militantes sem poder.

Antes da ascensão destes expoentes da elite partidária, nascida do controle pessoal (ou de pequenos agrupamentos internos que nem sempre se confundiram com correntes de pensamento, embora se utilizassem desta forma de organização para a disputa interna), o partido era dirigido majoritariamente por lideranças sociais provadas nas ruas. Eram, portanto, conhecidos e reconhecidos pela militância partidária, mas também por uma miríade de lideranças sociais locais e também por jornalistas e imprensa que repetidamente estampavam suas fotos em manifestações, em assembléias, em greves, em passeatas e comícios. Eram figuras públicas como Lula, Jacó Bittar, Marina Silva, Chico Mendes, Benedita da Silva, lideranças carismáticas e excelentes oradores, quase sempre portadores de uma invejável capacidade intuitiva que desconcertavam seus oponentes como um drible ilógico de um jogador de futebol. Mesmo os intelectuais petistas daquele período não eram os formuladores de gabinete que se dispunham a criar fórmulas inacessíveis sobre temas herméticos e afetos aos membros da vanguarda partidária. Eram intelectuais que quase sempre se alinhavam às lutas sociais, destrinchando as inovações e aprofundando possibilidades a partir do que as mobilizações populares descortinavam. Foi assim que Paulo Freire, Marilena Chauí, Eder Sader, Alfredo Wagner, Maria Victória Benevides, Francisco Weffort, Zander Navarro e tantos outros foram reconhecidos como "companheiros de lutas" e não como intelectuais orgânicos que orientavam uma nova cultura.

Por estas e por outras que o PT era um partido diferenciado no espectro partidário. Era o outdsider que incomodava a todos, incluindo os partidos de esquerda tradicionais que chegavam a sugerir que se tratava de uma conspiração do regime militar para debelar a liderança comunista e efetivamente de esquerda. Quantos de nós ouvimos, por tantas vezes, que grandes empresas financiavam lideranças operárias petistas que seriam, segundo esta interpretação, uma expressão da aristocracia operária brasileira?

Lula, neste sentido, sempre foi uma incógnita. Combativo e conservador, afável e autoritário, pragmático mas sempre envolvido com a lógica partidária, Lula parecia a expressão do neocorporativismo que foi se instalando no Brasil. Um líder de massas que se enveredou pelas arenas de negociação de políticas públicas. Alguns críticos pouco sofisticados logo tascaram a carcomida tese da "República Sindical". Aliás, são quase sempre os mesmos que apenas trocam o adjetivo para provocar qualquer articulação mais a esquerda. Um duplo erro (de narração e teoria) já que o espírito republicano é plural e não grupal.

2. Uma elite para trabalhadores

No campo de análise dos pessimistas conservadores, a Teoria das Elites projetou-se desde o início do século XX. Possivelmente o mais polêmico e sintético dos autores desta vertente teórica foi o italiano Gaetano Mosca. Há duas contribuições de Mosca que sustentam certo fatalismo sobre toda organização política: a de que sempre haverá uma classe política organizada que se impõe sobre uma maioria (esta foi a sua principal tese no início de sua obra) e a de que os dirigentes políticos (ministros e parlamentares) são ligados por redes de reciprocidade a ponto de conduzirem sua vida política alheios ao interesse público.

Com efeito, as redes de reciprocidade ou lealdades parlamentares são a tônica da vida parlamentar quando o controle social sobre a política formal é tênue. Um lusco-fusco faz do jogo entre representantes uma relação de cartas marcadas onde a busca de apoios e defesa de interesses corporativos raramente gera um real confronto entre líderes. O confronto de idéias fica restrito às ações espetaculares, a partir da defesa da reserva de mercado eleitoral.

Pareto, outro italiano também membro desta vertente analítica conservadora, sugeriu que a elite política não se define por critério moral, mas pela eficiência, ou seja, pela capacidade de executar uma tarefa ou atividade específica. Interessante como esta observação se aproxima da leitura de Lênin sobre a necessidade de profissionais políticos, sempre acima das massas operárias alienadas, que conduza as tarefas revolucionárias com eficiência de tipo empresarial. A velha e boa descontaminação racional, não afetada pelas paixões da rua e do cotidiano. O partido eficiente é movido por uma vanguarda eficiente e dura, racional e objetiva. O que dá razão ao alemão Robert Michels para quem tal lógica afasta as lideranças partidárias progressivamente das massas que procuram representar.

A direção parlamentar do PT caminha celeremente para esta autonomia de juízo dos dirigentes, expressa nas decisões recentes da sua direção nacional. Como dizia Michels: o amálgama entre vida partidária e vida particular introduz o tema da gratidão. Daí a defesa quase unânime dos pares para absolvição daquele que as ruas condenaram. "Não existe pena perpétua no nosso partido", dirá algum dos pares que se arroga o direito de verter uma sentença como se fora um juiz togado. Na primeira fase do PT, as decisões deste porte eram prerrogativa da base filiada, como ocorreu na decisão sobre a ida ou não ao Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves ou a decisão de assinar a Constituição de 1988.

Pela esquerda, o tema da formação das elites partidárias também foi objeto de reflexão. A começar pelo próprio Lênin, que em seu último artigo ("Vale quanto Pesa", que é possível acessar na internet em espanhol, cujo título é "Mas vale poco y bueno") ataca duramente o burocratismo partidário e chega a fazer mea culpa a respeito do equívoco em confundir Estado-Governo-Partido. O líder bolchevique alinhava as críticas ao excesso de formalismo e a garantia de unidade a partir da cúpula partidária (e não dos acordos forjados no debate interno).
Mais adiante, Trotsky, já no exílio mexicano, escreve uma série de estudos críticos ao burocratismo da era Stálin.

Sua obra "A Revolução Traída" procurou teorizar sobre o tema. A partir daí, o tema do burocratismo passou a ser aprofundado pelos trotskistas como um segmento (não uma classe social específica) que possui lógica e interesses próprios. Para Trotsky, a nomenklatura ganha um estatuto político definitivo com a ascensão do fascismo (o que lhe sugere a criação de uma nova articulação internacional dos comunistas, a IV Internacional).

Outro autor do campo marxista que se debruçou sobre o papel da burocracia partidária foi Charles Bettelheim, economista e historiador francês, maoísta e integrante da Nova Esquerda Francesa. Para este autor, na URSS teria emergido uma formação social capitalista de tipo novo, na qual a burocracia teria se constituído numa classe dominante. Tese que seguia a mesma crítica formulada por Tony Cliff, que em seu livro "Capitalismo de Estado na Rússia" sugeriu que o controle da produção estaria todo nas mãos da burocracia partidária, o que excluía qualquer participação efetiva da classe operária do processo de decisão político e do Estado que se configurou após a revolução socialista e que teria como principal orientação ser expressão real do comando dos operários.

Os sovietes, cuja tradução é conselhos populares, estariam, assim, banidos do processo decisório do Estado soviético, uma contradição em termos. Cliff introduziu, a partir de suas análises, o conceito de "Capitalismo de Estado", onde a burocracia partidária substitui o papel do empresariado capitalista.

Ainda que ligeiramente, este balanço ilustra o quanto o tema da politização específica da burocracia partidária exigiu reflexão dos pensadores conservadores e revolucionários de esquerda. Para todo espectro ideológico que o analisou, a burocracia partidária gera tensões internas que cindem o sistema de representação original. De atividade-meio amplia seus espaços de controle a ponto de se tornar atividade-fim, a cúpula política que se auto-representa, cortando o nó górdio que teoricamente sustenta toda estrutura de representação.

As lideranças partidárias de origem burocrática ascendem ao poder pelo temor que impõem, pelo controle e pelos segredos internos que administram. Daí desprezarem todas formas de controle social externo à estrutura burocrática e todos mecanismos de transparência pública.

Rui Falcão, como expressão desta ascensão e transmutação do petismo, não poderia fugir à regra. O novo presidente do PT é refém desta história que se repetiu por diversas vezes na trajetória de algumas experiências de esquerda.

3. De Falcão e Falcões

Não havia como fugir da analogia. Um grupo de formuladores ultra-conservadores da Era Reagan e que ressurgem no governo Bush foi denominado de falcões por atacarem as "pombas", ou os defensores do multilateralismo. Alguns autores sustentam que o ideólogo desta elite estatal conservadora foi Leo Strauss, para quem é necessário rechaçar toda manifestação de relativismo e pragmatismo. Strauss sugeria, ainda, que para enfrentar a crise moral norte-americana era necessário retomar o mito da Nação que se traduz pelo ataque aos inimigos externos. Donald Rumsfedl e Condoleezza Rice foram dois expoentes desta doutrina que sugeria o domínio mundial norte-americano pelo convencimento ou uso da força bélica. Além da política externa, os falcões construíram uma lógica política baseada na intenção de limitar ainda mais o sistema partidário dos EUA, fortemente enraizado num Estado de partido único, ancorado em altos gastos governamentais (uma inflexão dos falcões da Era Reagan para a Era Bush).

O PT tem seus falcões. Lembremos que Rui Falcão já presidiu o partido em 1994, momento da guinada do petismo na segunda campanha eleitoral de Lula à Presidência da República. Naquele momento, as lideranças sociais até então base moral e participante das formulações estratégicas e programáticas do petismo foram alijadas. O "consenso progressivo" de construção das políticas petistas foi substituído pelo pragmatismo da burocracia partidária, que passou a escolher os formuladores do programa que passariam pelo crivo do marketing eleitoral e a leitura atenta dos falcões.

Lembremos que Rui Falcão foi Secretário de Governo de Marta Suplicy. Sua secretaria acolhia a coordenadoria do orçamento participativo (nas mãos da corrente Democracia Socialista) e a coordenadoria que articulava conselhos de gestão pública (como saúde, assistência social, direitos da criança e adolescente). Esta última coordenadoria ficou nas mãos de expoentes da igreja católica progressista. Os recursos que as duas coordenadorias receberam foram parcos, mas a situação era de penúria em relação á coordenadoria dos conselhos.

Lembremos que quando presidente do PT do município de São Paulo, durante a gestão Luiza Erundina, Falcão liderou uma forte pressão sobre o governo petista. Erundina tinha derrotado a corrente majoritária petista, naquele momento liderada em São Paulo por José Dirceu que tinha, por seu turno, Rui como seu falcão na estrutura burocrática. A relação entre partido e governo petista foi tensa até o final. Não houve trégua. Erundina chegou a montar uma assessoria especial – uma espécie de secretaria adjunta – no interior da Secretaria de Administração Regional, composta por dirigentes indicados pelas quatro principais correntes internas do PT para auxiliar na administração política deste conflito permanente. Eu tive a honra de ser um dos integrantes desta assessoria-secretaria adjunta. E senti diariamente o peso da mão de ferro de Rui Falcão. Um político obstinado, metálico. Possivelmente mantêm na memória as lições de dureza e disciplina férrea de seu período de "partidão" e de combate à ditadura militar.

Lembremos que Rui Falcão conhece José Dirceu desde o período em que o ex-ministro era estudante da PUC-SP e Falcão militava no PCB. E que se aproximaram quando da constituição da Dissidência Comunista de São Paulo, formada por José Roberto Arantes, Antonio Benetazzo, Jeová Assis, Fernando Ruivo e Rui Falcão.
A eleição de Rui Falcão como presidente nacional do PT parece não ter agradado a Presidente Dilma Rousseff. Mas recebeu o aval final de Lula. Falcão foi eleito a partir de um acordo com as correntes internas do partido: Construindo um Novo Brasil (CNB, oriunda da famosa Articulação dos 113), PT de Lutas e de Massa e Novos Rumos. As três somam 56% dos postos do diretório nacional do partido. Falcão é integrante da corrente Novos Rumos o que, teoricamente, dificultaria seus passos para alcançar a direção do partido, já que a corrente majoritária é a CNB. Mas a lógica da burocracia partidária é fundada, como vimos, na gratidão entre pares. O nome até então definido pela CNB para presidir o partido era o do ex-ministro Humberto Costa.

A eleição de Falcão não é um fato isolado nem pequeno. Sua presidência fecha um ciclo do petismo. E inicia uma ação das mais arrojadas: conquistar São Paulo e fechar o cerco sobre o PSDB paulista (algo similar ocorre em Minas Gerais). O lulismo avança a passos largos sobre o país.

Caminhamos para um modelo político de baixa competição pública. O que exige um falcão para dar conta do recado.

O tempo das pombas petistas acabou.



Walter -- EngaJarte-blog

Comunista recém arrependido, Roberto Freire, ameça processar Blogueiros Paranaenses

Reproduzimos artigo sugerido pelo blogueiro Cleverson Lima
Ex-comunista ameaçou processar o publicitário Edson Rimonatto e a Jornalista Thea Tavares (do Blog Lado B, aqui de Curitba), caso eles continuassem a divulgar que o PP$ e Roberto Freire são acusados de envolvimento com o Mensalão do DEM"

O "ex-comunista" e nômade político Roberto Freire (PPS), botou todas as suas manguinhas truculentas de fora hoje, quando ameaçou pelo Twitter processar internautas por reproduzirem matéria sobre acusações feitas a ele e ao seu partido de envolvimento no escândalo do Mensalão do DEM. As denúncias teriam vindo à tona por meio de depoimento arrolado nas investigações do escândalo. Freire e o PPS são acusados pela diretora comercial da Uni Repro Serviços Tecnológicos Ltda, Nerci Soares Bussamra, de praticar chantagem e pedir propina para manter um contrato de R$ 19 milhões com a Secretaria de Saúde, comandada pelo deputado Augusto Carvalho, filiado ao partido. Confira a informação completa em postagem anterior!

Em represália, no TT, Roberto Freire deixou a veia totalitária falar mais alto e esbravejou: "Você sabia: Justiça admite processo por crime cometido na internet. Caluniar é crime, já processei uma caluniadora que se retratou"; "Vou escolher aqueles que melhor representam os caluniadores lulodilmistas como exemplo, @erimonatto Você e sua mulher se apresentam?".

O piadista de plantão no TT e abafador de casos contra tubarões de direita, senador Roberto Requião (PMDB), não perdoou e entrou na conversa: "É bullying com o Roberto Freire" .

A ameaça agitou a noite de sábado e causou indignação nas timelines pelo Brasil à fora. Requião mais uma vez resolveu dividir os holofotes para preservar alguém (que fim deu a repercussão da blitz do Aécio mesmo?) e declarou sobre o colega congressista – colega também pela afinidade e semelhança no traquejo político: "Freire está aprendendo agora o que é assédio e impunidade dos acusadores. Conheceu ? Ao Freire o direito de resposta" . Diante dessa troca de métodos entre Bob Rex e Bob Freire, salvem-se os gravadores da imprensa! Como diria Raul Seixas, repetidamente na voz de Zé Geraldo: "Quanto mais conheço os ditadores mais eu amo meu cachorro".