domingo, 15 de maio de 2011

Aldo e Vaccarezza os novos ruralóides e o golpe da reforma do Código Florestal

13 de maio de 2011



Da Via Campesina

MST.org.br


Veja abaixo os pontos diferentes entre o texto de acordo apresentado ao deputado federal Paulo Teixeira, líder do PT na Câmara, e a emenda 186, escrita no "corredor" pelo relator do projeto de mudanças na Código Florestal Aldo Rebelo e o deputado Cândido Vaccarezza.

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1. Definição de Área Consolidada (o desmatamento já feito) - central em todo o debate de anistia e recomposição. Era proposta pelo governo apenas para agricultura familiar, os dois deputados ampliaram para todos os grandes proprietários. Além disso, abre uma brecha para consolidar as áreas agrícolas que estão ilegais hoje;

2. Areas de Várzeas- o texto do governo condicionava a utilização delas à proibição de novos desmatamentos, na emenda foi liberado totalmente a utilização dessas áreas que são extremamente sensíveis nos biomas de facil alteração;

3. Culturas de vazantes (arroz, por exemplo)- o texto do governo deixou para trabalhar isso em decreto da Presidenta, a emenda retornou para o texto e liberou para todas as propriedades;

4. Represas de hidrelétricas- no texto do acordo tinha ligado as faixas de APP ao licenciamento, mas colocando limites mínimos, na emenda, o mínimo fica o máximo, além de tirar algumas burocracias;

5. Demais Areas de preservação permanentes, as APPs- o acordo colocou veredas e mangues, a emenda retirou;

6.Pantanal
- a emenda dos dois deputados liberava qualquer atividade do agronegócio em todo o Pantanal;

7.Reserva Legal-
no texto do acordo ficaram isentos de recompor RL os agricultores familiares e os imóveis que até 2008 tinham quatro módulos, na emenda dos deputados fica liberado de recomposição todas as propriedades até quatro módulos.

Além disso, o texto do acordo tinha uma trava que impedia mexer na reserva legal em caso de desmembramento. Esses dois pontos deixam claro que o real interesse é regularizar os grandes, que vão desmembrar suas propriedades; e assim derrubam na pratica as areas de reserva atuais de 80% para bioma da amazonia e 35% para o cerrado.  Com a liberação total até quatro módulos, uma fazenda na Amazônia até 400 hectares pode desmatar tudo. Fica fácil o fazendeiro desmembrar 1.200 hectares em três imóveis e derrubar tudo o que hoje está preservado.

8.Utilização de outras areas como compensação- O texto do acordo permite que a compensação de reserva legal no bioma seja feito apenas por arrendamento em outras áreas, o texto da emenda dos deputados libera a compra, o que criará uma gigantesca pressão sobre as terras dos camponeses que hoje estão preservando, em outras áreas.  Assim, os fazendeiros compram suas terras e depois averbam, dizendo que estão preservando o que já estava ali, e desmatam nas áreas que quiserem.

9.Computo-soma  da APP e Reserva Legal: no texto do acordo só poderia fazer o computo de APP e RL quem tivesse as áreas conservadas, na emenda ele libera para todo mundo, inclusive aqueles que têm área totalmente devastada;

10. Áreas desmatadas antes da MP do FHC- o texto do acordo diz que o proprietário terá que comprovar que estava legal na época, a emenda passa a obrigação de comprovar para o Estado;

11.Controle do desmatamento- a emenda dos dois deputados retirou toda a parte que leva o processo para o Ministério Público e que impede os condenados de acessarem recurso público;

12.   Plantações industriais (eucalipto e pinus, por exemplo) - A emenda dos deputados manteve a incorporação da silvicultura como atividade agrícola na política agrícola brasileira, o que o texto do acordo não tinha.
 


--  EngaJarte-blog

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Política de Cultura Democrática e Sistema ECAD - Deus e o Diabo na Terra do Sol

O mais relevante é que o projeto de política cultural conduzido pelo Governo Lula na gestão Juca Ferreira no Minc, onde formulou-se uma nova lei de direito autoral que foi fartamente discutido com a sociedade, ganhou as eleições.

Ganhou o continuísmo, venceram os que construíram a reforma da lei com vistas a democratização da cultura e dos direitos autorais.

Agora não se sabe da onde, os interesses privados da indústria do direito autoral, encastelados no ECAD, tomaram o controle da política do Ministério da Cultura.

Lembremos que o ECAD é uma instituição privada, e era fiscalizada pelo Conselho Nacional de Direito Autoral, o qual foi extinto pelo Fernando Collor, assim o ECAD não tem fiscalização, e manter isto assim é esta uma das principais bandeiras da Ministra Ana de Hollanda.

O ECAD é dominado pela Abramus, que tem por filiadas as multinacionais Warner, Universal, EMI – o que explica a defesa de interesses internacionais pelo ECAD. Abramus é dirigida por Roberto Melo, que criou outra associação apenas para combater a reforma do direito autoral, o Comitê Nacional de Cultura e Direitos Autorais. Em 2010 ele apoiou Serra (PSDB) nas eleições presidenciais com ampla possibilidade de assumir o MinC num eventual governo tucano.

O conservadorismo político, seus partidos e seus vínculos com a grande indústria áudio-visual são claros, nem podíamos esperar algo diferente, acontece que eles perderam a eleição no voto, foi vitoriosa a proposta progressista e democratizante de continuidade, mas miraculosamente os interesses do sistema ECAD acabaram por tomar o controle do MINC.

É um absurdo político.

Claro que nos lembramos da importante reunião com os artistas com Dilma na campanha eleitoral, onde a estrela foi Xico Buarque, agora em nome de um apoio pontual jogar fora anos de acumulação progressista no governo Lula, e sua interlocução com amplas camadas sociais, para satisfazer meia dúzia de multinacionais e duas dúzias de artistas consagrados, é um movimento político de alto risco, e contrário ao espírito da última vitória eleitoral.

Mesmo se o foco fosse somente o mercado, para ter um mercado amplo e produtivo, com expansão da produção cultural, geração de empregos e riqueza, o caminho não será a da super concentração capitalista dos benefícios em meia dúzia de empresas, mormente gigantes multinacionais.

O caminho é o da massificação do acesso e da produção cultural, a popularização, a criação de oportunidades para artistas individuais ou em grupos com poucos recursos iniciarem-se e prosperarem, é a micro empresa cultural, que ainda hoje é esmagada pelo sistema do ECAD+Multinacionais+Meios de comunicação super concentrados.


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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Paraísos Fiscais, o Coração do Capitalismo, suas Mafias e sua Tirania

Histórias das ilhas sem lei

Bancos de fachada, que movimentam fortunas em cubículos. Operações fechadas em caçadas. Repressão a dissidentes. Assim funcionam os paraísos fiscais

Por Nicholas Shaxson* | Tradução: Daniela Frabasile

Em 2009, eu encontrei uma ex-alta funcionária de banco, Beth Krall, para explorar a questão que estava me incomodando: como os banqueiros que abrigam os gângsters ricos e políticos corruptos justificam o que fazem? Nós nos conhecemos em um domingo em Washington. Ele tinha deixado o banco privado e se juntado ao setor não governamental. Vestida em um notável casaco branco e preto, ainda parecia muito uma financista internacional estilosa. Com 47 anos e quase 24 anos em negócios bancários, Krall (nome fictício) ainda estava se acertando com seu passado.

p>O último posto de Krall num paraíso fiscal fora em Bahamas, um arquipélago com 300 mil habitantes que foi importante "centro offshore" desde a época de ouro do crime organizado norte-americano. Alguns meses antes, um profissional nas ilhas Cayman avisou-me para ter cuidado com minha segurança pessoal, se eu fosse "fazer todas as perguntas" sobre Bahamas. Krall disse que não tinha certeza sobre o que aconteceria a ela se voltasse, já que estava quebrando parcialmente o código de silêncio dos banqueiros privados. "Eu não quero que me ponham sapatos de concreto", ela me disse sem sorrir. Uma das razões para o medo era algo que a irritava desde o princípio: muitas das pessoas com quem tratava eram membros poderosos da sociedade em seus países.

Krall iniciou-se na atividade bancária logo após a universidade, e trabalhou em diversos bancos antes de se mudar para o Cititrust no Bahamas, onde ela fazia avaliações e contabilidade para os fundos de investimentos.

A partir desse ponto, Krall se recusou a nomear seu empregador. Ela se tornou gerente de relações com clientes com o setor de private banking de uma conhecida instituição em Bahamas. Eles trabalhavam com o que é eufemisticamente conhecido como "bancos dirigidos" (managed banks), ou "bancos-couraça" (shell banks), uma especialidade dos paraísos ficais. Sua atividade real é desenvolvida longe de sua sede, para que possam escapar da supervisão das autoridades.

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 levaram os Estados Unidos a legislar contra os "bancos-couraça". Agora, um banco no Bahamas deve manter lá dois diretores e apresentar seus livros e registros, para operar. "Isso significa que uma instituição, instalada talvez num quarto ou suíte de um prédio, onde trabalham duas pessoas, pode ser considerado um banco agora", diz Krall. Ela me passou o site de uma companhia com base em Bahamas onde se podia perceber exatamente isso: a aparência de um banco verdadeiro – incluindo dois diretores e um local para guardar os registros. Tal configuração torna o "banco" quase comuns, mas continua a manter as autoridades à margem.

Krall mudou-se para um grande banco europeu, novamente como gerente de relações com clientes – de fato, como alguém que encontra clientes ricos e os mantém felizes. Em busca de negócios, dirigia-se frequentemente para América Latina. "Nos formulários de imigração, você deveria escrever que estava viajando por prazer, enquanto sua bagagem estava cheia de roupas de trabalho e avaliações de portfólio, ou materiais de promoção e apresentações explicando as vantagens de depositar dinheiro em Bahamas". O nome do cliente não aparecia no portfólio: na verdade, o banco nem o registraria na conta. Às vezes, era enervante passar pelos aeroportos, mas ela nunca foi questionada.

Apesar do crescimento de suas dúvidas, Krall acabou trabalhando para uma agência de um private bank suíco em Bahamas. Era um banco comum, e foi o único onde ela realmente viu uma pasta cheia de dinheiro. "Meu banco nunca teve um cliente que entrasse pela porta", conta ela. "Os gerentes iam, com os clientes, a grandes viagens de caça, ou para o balé em Budapeste. Era onde tudo acontecia".

Seus colegas eram aclamados por antigos círculos aristocáticos europeus. Enquanto Krall era perfeita em seu trabalho e tinha relações profissionais próximas com os maiores advogados, gerentes e outros, uma lacuna permanecia aberta. "Eles iam a festas com a realeza, com embaixadores", diz ela. "Eu não estava no círculo".

Naquele momento, as leis de Bahamas estavam sendo um pouco reforçadas, seguindo uma débil regulação global, e ela foi deslocada no banco, para trabalhar como supervisora. Nessa época, banqueiros que atuavam em paraísos fiscais fizeram uma grande apresentação de suas regras sobre como avaliar clientes, a fim de manter distância do dinheiro "ruim". Os depositantes teriam que fornecer uma cópia certificada do passaporte, por exemplo, e declarar a origem do dinheiro. As jurisdições como as de Bahamas e das ilhas Cayman colocaram tais requerimentos em seus estatutos, e os bancos empregaram oficiais de confiança como Krall para reforçar isso. Pelo menos, era a teoria. Mas existem muitas maneiras de contornar essas restrições.

Krall deveria verificar movimentos suspeitos nas contas – e existiam muitos. Ela ergueu muitas bandeiras vermelhas. "Eles [os gerentes] diziam que eram comissões". Seriam subornos? Comissões sobre o quê? "Eu voltava, e nunca tinha respostas". Uma empresa da Suíça que tinha uma relação com o banco de Krall não dispunha quase nada em seu website, exceto algumas fotos de uma bonita fonte em Genebra. "As bobagens que eles nos traziam eram inacreditáveis. De forma alguma um administrador deveria aceitar isso. Você não tinha ideia de quem eram os fundadores, que recursos estavam sendo depositados ou de onde vinham. Eu fiz forte objeção, mas o banco os aceitou".

Há algo nas ilhas que constrange os dissidentes. Em uma ilha-"aquário", você não pode se esconder. A capacidade de manter um consenso estabelecido e de sufocar encrenqueiros faz com que uma ilha seja especialmente acolhedora para finançasoffshore. Isso garantia aos aos financiadores internacionais que os estabelecimentos locais eram de confiança e não deixariam que políticas democráticas intervissem nos negócios.

John Christensen, antigo conselheiro da ilha de Jersey, que se tornou um dissidente, conta ter deparado com atitudes de extrema direita, quando ele voltou à sua ilha nativa em 1986, após trabalhar no exterior como economista do desenvolvimento. Foi o ano em que se deu o "Big Bang" da desregulação fiscal de Londres, e ele encontrou o paraíso fiscal em crescimento espetacular. Velhas casas, lojas de turistas e mercados na bela capital de Jersey, St. Helier, estavam sendo derrubados e substituídos por bancos, edifícios comerciais, estacionamentos e wine bars. Foi a uma agência de empregos e lhe disseram que poderia encontrar o emprego que quisesse. No dia seguinte, recebeu três ofertas. No trabalho, logo ficou ciente de práticas como reinvoicing, na qual parceiros de uma transação fechavam um preço e registravam oficialmente outro, a fim de transferir secretamente o dinheiro para fora das fronteiras.

Quando a entrada rios de dinheiro em Jersey tornou-se uma tendência clara, Jonh expressou seu mal-estar sobre as origens dos recursos, em parte provenientes da África, mas suas observações foram desprezadas.

A concentração de atitudes extremistas em Jersey era auto-reforçada, como Christensen explica. "A maioria das pessoas de esquerda, como eu, se foi", disse ele. "Quase todos os meus amigos de escola deixaram Jersey para ir à universidade, e quase nenhum voltou. Eu não posso dizer quão sombrio pareceu". Ele quase saiu de Jersey, mas o pesquisador acadêmico Mark Hampton, que estava montando um quadro para entender os paraísos fiscais, o convenceu de quanto era importante entender o sistema de dentro. "Eu fui encoberto", disse Christensen, "não para limpar a barra de indivíduos ou empresas, mas porque não era capaz de entender – assim como nenhum dos acadêmicos com quem conversei podia. Não havia literatura útil para isso".

Jersey é povoada de redes secretas de elite, tipicamente ligadas ao setor financeiro. Após ser nomeado conselheiro financeiro em 1987, Christensen descobriu que muitas pessoas que o procuravam queriam que ele se juntasse à sua loja maçônica, e o cumprimentavam com o sinal secreto. "A atitude deles é muito parecido com a de uma turma de garotos: ou você é um de nós, ou está contra nós", continuou ele. "Isso significa que eles podem confiar que você fará a coisa certa sem que digam – um significado traiçoeiro da palavra 'confiança'".

Elites não-submetidas a controle são sempre irresponsáveis, eu senti o gosto da governança bolorenta de Jersey no primeiro dia de uma visita em março de 2009. O Jersey Evening Post, jornal local, publicou na primeira página uma manchete que dizia "Estados em carnificina", em referência à Assembleia do Estado, o parlamento de Jersey. "A Assembleia pareceu-se a um pátio de escola ontem, com linguagem suja e insultos pessoais trocados", dizia o artigo. O Senador Stuart Syvret, um político popular, apesar de controverso, queixou-se na assembléia que o ministro da Saúde estava sussurando em seu ouvido".

Syvret, segundo o jornal, levantou-se e disse: "Sinto muito por interromper o ministro. Mas à minha direita, o Senador Perchard, está dizendo em minha orelha 'Você está cheio de merda, por que se merdas, seu bastardo?" O Senador Perchard respondeu: "eu nego totalmente. Estou cheio das alegações desse homem". A BBC, que estava transmitindo a reunião ao vivo, teve que se desculpar pela linguagem.

Syvret tem sido uma vítima regular dos esforços para suprimir os dissidentes. "Qualquer figura contra o establishment aqui está marcada" diz Syvret. "Há um clima de medo. Qualquer um que se atreva a discordar é contrário a Jersey, um inimigo da ilha. Você é um traidor, desleal. Há toda uma conduta stalinista". Algumas semanas após a minha visita, oito policiais prenderam Syvret e o mantiveram detido por sete horas, enquanto saqueavam sua casa e arquivos pessoais, incluindo seu computador.

Em outubro de 2009, acusado de vazar um relatório policial sobre a conduta de uma enfermeira, Syvret foi para Londres e pediu asilo na Câmara dos Comuns, dizendo que não teria um julgamento justo em Jersey. Um membro do parlamento britânico, John Hemming, um liberal democrata, abrigou-o em seu apartamento, declarando que "nós não permitiremos que ele seja extraditado, para ser processado em uma corte que não obedece as normas judiciais". Quando Syvret voltou, em março de 2010, para concorrer às eleições, foi detido no aeroporto. "Essa é uma sociedade sem Estado de direito, governada por uma oligarquia", disse Syvret: "É um Estado de partido único, e tem sido assim há séculos".

Na linda costa de Jersey, eu me encontrei com John Heys, um guia turístico do mundialmente famoso zoológico Durrell, e seu amigo Maurice Merhet, um pintor aposentado e criador de porcos. Os dois se tinham manifestado – em cartas ao Jersey Evening Post e em outros foruns — e classificados, publica e regularmente, como traidores. Os dois descreveram o mesmo clima que Syvret havia pintado: o medo de serem demitidos de um emprego, de nunca chegarem a lugar nenhum, de serem colocados na lista negra.

Heys mostrou-me o e-mail que um ministro enviara como resposta a um dissidente, seu amigo, que apontara, em uma mensagem de Natal atrevida, as enormes quantias depositadas em Jersey, em meio à pobreza mundial. O ministro respondeu: "Olá, traidor, Por favor evite me mandar seu lixo não solicitado… Estou surpreso por você ainda ter decidido viver nessa ilha 'paraíso fiscal'… Se é tão ruim assim, porque você não parte para viver em outro lugar … Boa viagem, eu diria… mas talvez não por que você tem uma vida muito boa aqui, sem dúvida talvez financiado por bancos e sua hipoteca… É verdade que minha família vive em Jersey há muitas gerações e eu tenho muito orgulho disse, mas ouvir traidores idiotas como você me deixa furioso. Eu não teria a ousadia de te desejar feliz Natal, na realidade eu espero que você continue vivendo sua existência miserável em seu mundo de traição".

Em uma noite em 1996, perto do fim de seu período em Jersey, Christensen abriu os livros para um repórter do Wall Street Journal, que estava investigando uma alegada fraude envolvendo investidores norte-americanos e um banco suíço. A história, intitulada "Risco offshore: ilha de Jersey já não é um paraíso para os investidores", foi matéria de capa vários meses depois. A indústria financeira e os políticos de Jersey entraram em espasmo. Essa foi uma das únicas vezes que o setor financeiro da ilha, supostamente limpo e bem regulamentado, foi contestado em um jornal sério. O final do artigo citava um antigo funcionário público. Todos em Jersey tinham certeza de que era Christensen. Ele sabia que, ao falar com o jornalista, tinha efetivamente se demitido.

As instituições financeiras podem tirar vantagens da insularidade, timidez e miopia moral, mas o ethos do establishment de Jersey deriva, enfim, dos paraísos fiscais e seus controladores – não de alguma idiossincrasia dailha. A repressão offshore pode acontecer também em grandes jurisdições. Rudolf Elmer, um banqueiro suíço que trabalhou em bancos em diversos paraísos fiscais antes de denunciar fatos da corrupção que presenciou, sentiu a mesma pressão na Suíça, um país com oito milhões de habitantes.

Nicholas Shaxson, escritor e jornalista, é autor de Treasure Islands: Tax Havens and the Men who Stole the World ["Ilhas do Tesouro: Paraísos Fiscais e os Homens que Roubaram o Mundo"], ainda sem edição em português. Este texto é um extrato de seu livro



Walter -- EngaJarte-blog

terça-feira, 10 de maio de 2011

A mercadologia da drogadição lícita e ilícita e seu uso político

Drogas: muito além da hipocrisia

09/05/2011 Posted in: Outraspalavras

Como políticas oficiais proíbem algumas substâncias, mas estimulam consumo irresponsável de centenas. Por que é preciso fazer exatamente o contrário

Por Henrique Carneiro*

Uma política sobre drogas deve abranger os três circuitos de circulação das substâncias psicoativas existentes na sociedade contemporânea: o das substâncias ilícitas, o das lícitas de uso recreacional e o das lícitas de uso terapêutico.

A divisão estrita entre estes três campos é recente e sempre vem se alterando. O álcool já foi remédio, tornou-se droga proibida e voltou a ser substância de uso lícito controlado. Outras, como os derivados da Cannabis, que por milênios fizeram parte de inúmeras farmacopéias, foram objeto de uma proscrição oficial no século 20, a ponto de a ONU querer "erradicar" essa planta – assim como outras, tais como a coca e a papoula, produtora de ópio. Hoje, entretanto, a Cannabis tem uso medicinal reconhecido em muitos estados norte-americanos e em outros países.

Qual a fronteira conceitual estrita que separa essas drogas? LSD, DMT1 ou MDMA2 não possuem usos terapêuticos? O que é recreacional e o que é terapêutico? Esse último campo deve estar submetido apenas a monopólios de especialistas ou deve também abranger um amplo uso de técnicas de auto-cura?

Pretendo, neste texto, defender um regime mais "equalizador" em relação aos três tipos de substâncias mencionadas. Ao mesmo tempo que antiproibicionista, ele deve ser mais severo no que diz respeito à interdição da publicidade e à facilidade do acesso. Como "substâncias essenciais"3 as drogas psicoativas não devem estar ligadas a emprendimentos que estimulem continuamente o consumo os lucros crescentes que decorrem dao interesse privado. Defendo assim, a criação de um "fundo social" constituído com o faturamento de um mercado legalizado e estatizado de produção de drogas psicoativas em geral — tanto as hoje ilícitas como as legais.

* * *

A indústria farmacêutica, no seu conjunto, concentra alguns dos maiores grupos empresariais do planeta. Hiperconcentrada, hiperlucrativa e em acelerado crescimento nas últimas décadas (faturou 773 bilhões de dólares em 20084). Estreitamente vinculada ao setor de produção de sementes transgênicas e agrotóxicos, esta indústria fundiu-se com a de alimentos por meio de várias compras e fusões empresariais. O ramo do tabaco também está imbricado com o setor alimentar e farmacêutico.

A última ameaça global pandêmica da gripe suína representou um crescimento ainda mais explosivo da indústria farmacêutica que já era um dos mais expansivos e poderosos.

Assim como ocorre com outros mercados, ele se reveste de uma hipertrofia excessiva nos países centrais e de uma carência enorme nos países periféricos.

A África tem apenas 1% do mercado farmacêutico, embora tenha epidemias como a da Aids que necessitariam enormemente de medicamentos. Desde o início do século 21, a África do Sul ameaçou desafiar o regime de patentes que impedia a venda barata de produtos monopolizados por grandes laboratórios e começar a produzir genéricos num laboratório indiano. A patente do retroviral stavudine pertence a universidade de Yale (e rende 90% dos royalties dessa universidade, várias centenas de milhões de dólares), mas ela a cedeu em exclusividade para o laboratório Squibb (BMS), que após uma grande disputa ofereceu o medicamento a um preço menor para os africanos mas sem quebrar o seu monopólio.

Esse monopólio de patentes como direito de propriedade intelectual representa uma forma de exclusivismo na circulação do conhecimento e é um dos pilares da forma atual de funcionamento do comércio internacional que favorece a acumulação de capital em detrimento dos interesses sociais da maioria da humanidade.

É possível quebrar monopólios de patentes (cuja duração é de vinte anos), em casos como uma epidemia ou a segurança nacional, mas mesmo na recente pandemia da gripe H1N1 não se colocou em causa a quebra da patente do Tamiflu. Os medicamentos continuam a ser produtos caríssimos e sua obtenção não está incluída nos planos de saúde.

Sabe-se que ao menos 1/4 de todos os remédios da indústria farmacêutica derivam de saberes fitoterápicos de povos tradicionais, que identificaram a maior parte das plantas medicinais e alimentares5. Os povos do mundo, entretanto, não recebem royalties e nem tampouco nunca lhes ocorreu monopolizar esse saber de forma implacável como faz a indústria farmacêutica.

Plantas de cultivo milenar, como canábis, coca e papoula
são proibidas. Mas libera-se propaganda abusiva de
psicoativos que provocam muito mais acidentes e mortes

Dentre o conjunto dos medicamentos (que totalizam em média cerca de 15% dos orçamentos de saúde nos países centrais), destacam-se os chamados de psicoativos, que são os indicados para os estados de humor, como promoção da alegria e combate à tristeza; para os problemas mentais, como ansiedade ou falta de concentração; para o aumento do desempenho intelectual ou físico; para a tranquilização, sedação e analgesia; para a excitação sexual, etc.

Existem, portanto, três circuitos de circulação de drogas psicoativas na sociedade. O dassubstâncias ilícitas compõe um mercado paralelo e clandestino, cujo volume é calculado em torno de 400 bilhões de dólares, alimentado basicamente dos derivados de algumas das plantas mais tradicionais da história da humanidade: a coca, a canábis e a papoula. Cada vez mais cresce também um número de centenas de moléculas sintéticas novas que vêm sendo desenvolvidas nos últimos anos em laboratórios clandestinos. O montante do faturamento e as consequências sociais em geral associadas a essas drogas – como a violência e alto índice de aprisionamento – decorrem não do efeito específico das substâncias mas, sobretudo, da sua condição de ilegalidade.

O circuito das substâncias lícitas de uso recreacional, como o tabaco, as bebidas alcoólicas e cafeínicas, é regido pela legalidade, trazendo assim problemas relacionados ao uso abusivo ou excessivo e seus efeitos sociais – mas não uma violência intrínseca. É um mercado poderoso, de grandes multinacionais associadas à indústria da alimentação, mas também conhece micro-produtores domésticos ou artesanais. Todas estas substâncias já foram objeto de perseguição e tentativas de proibição. No caso do álcool, provocaram os problemas ligados à chamada "lei seca" que vigorou de 1920 a 1933 nos Estados Unidos.

O circuito que mais notável nas últimas décadas, entretanto, foi das substâncias da indústria psicofarmacêutica, chamados de remédios psicolépticos, psicoanalépticos e psicodislépticos. Desenvolvido especialmente a partir do segundo pós-guerra, é o mais rentável e o que mais tem crescido. É o de circulação mais volumosa, com maior número de consumidores e faturamento. Seus grandes fundamentos são o sistema de patentes, o monopólio médico da prescrição, um mercado publicitário dirigido para quem toma a droga mas também corruptor de quem a ministra (laboratórios que convencem médicos a receitarem os seus produtos). Sua outra contrapartida indispensável é a proibição concomitante do uso de diversas plantas psicoativas de uso tradicional – como a canábis, a papoula e a coca. As funções psicoterapêuticas que estas têm em medicinas tradicionais, passaram a ser substituídas por pílulas farmacêuticas.

* * *

O mercado das substâncias psicoativas controla os mais eficientes instrumentos na luta contra o sofrimento e a busca da alegria. As drogas – não importa se fluoxetina, álcool ou maconha – oferecem a amenização da dor e a intensificação do prazer. Por isso são usadas. E de fato cumprem a promessa – cada uma com suas limitações e preço. Se existem há milênios, é porque não enganam a humanidade: trazem aquilo que nelas é buscado.

Num tempo de aumento de tensões e de sofrimentos psíquicos diversos e complexos, estão disponíveis centenas de moléculas puras, para os mais diversos efeitos. A indústria farmacêutica busca ampliar seu monopólio, substituindo usos de plantas tradicionais por fármacos patenteados, e colonizando cada vez mais a vida cotidiana, oferecendo novos "remédios" para as mais diferentes esferas comportamentais.

O maior número de usuários e dependentes de drogas na sociedade contemporânea são os consumidores de produtos da indústria farmacêutica. As drogas de farmácia também têm usos variados, que podem ser benéficos ou nocivos, equilibrados ou abusivos. Uma parte dos consumidores faz uso abusivo. Cerca de um terço das intoxicações que ocorrem no país, por exemplo, são devidas a drogas da indústria farmacêutica, numa proporção muito maior do que as que ocorrem por causa do uso abusivo de substâncias ilícitas.

Artigo do jornalista Ruy Castro, na Folha de S.Paulo (28/12/09)6, lembrou, a propósito da morte da atriz Brittany Murphy, que muitos outros artistas sofreram, assim como ela, assim como ela, do uso excessivo de remédios legais que os levaram a morte. Foram citados Carmem Miranda, Marilyn Monroe, Judy Garland, Elvis Presley e Michael Jakson.

Só no Brasil, há mais de 32 mil rótulos de medicamentos, com variações de 12 mil substâncias (a OMS considera como realmente necessários 300 itens), vendidos em mais de 54 mil farmácias (uma para cada três mil habitantes, o dobro da recomendação da OMS)7

Uma parte cada vez maior destas drogas são substâncias psicoativas. Entre as principais estão os antidepressivos, as anfetaminas, os benzodiazepínicos, e muitos outros mais. Em 2008 e 2009 o segundo medicamento mais vendido no Brasil foi o benzodiazepínico Rivotril8.

A dependência de remédios, uma forma de consumo compulsivo às vezes chamada popularmente de "hipocondria" é uma característica marcante da relação das pessoas com as drogas. Por serem, por vezes, receitadas por um médico, são chamadas de "remédios", mas o seu resultado é exatamente o mesmo de qualquer outro consumo compulsivo, podendo levar à efeitos daninhos para o organismo e à dependência e tolerância.

Para ampliar vendas, indústria alia-se a concepções
que enxergam estados mentais como "doenças"
– e só poderiam ser tratados, portanto, com "remédios"

Queixas de mal-estares vagos em pronto-atendimentos são medicadas comumente com benzodiazepínicos, especialmente se as pacientes forem mulheres e donas-de-casa. O uso de moderadores de apetite não só para diminuição de peso mas como estimulante também se propaga, ao ponto do Brasil ser um dos maiores mercados mundiais.

Também é comum o uso de certos produtos farmacêuticos para finalidades distintas das indicadas, devido a seus efeitos colaterais. Xaropes para tosse com codeína, remédios para dor de cabeça como Optalidon, medicamentos para mal de Parkinson como Artane ou mesmo de analgésicos são empregados como drogas para combater dores mais psíquicas do que propriamente orgânicas.

O uso de doses inapropriadas de drogas comuns pode ser extremamente perigoso, é o caso de overdoses da própria aspirina, que um estudo recente de Karen M. Starko apontou poder ser responsável por parte dos mortos na época da epidemia da gripe espanhola, em 19189. Durante a epidemia da gripe suína, chegou a se proibir a veiculação de publicidade de antifebris, para não haver indução à medicação excessiva, desnecessária e muitas vezes perigosa.

Muito além do simples e indefinível efeito farmacológico objetivo, todo remédio também é uma representação que se auto-reforça por meio do efeito-placebo inerente à todo medicamento. O que se vende com o mercado de drogas são modos de produção da subjetividade. Assim o fazem os usuários que as inserem em contextos sociais, cerimoniais e até rituais. Também assim o consideram as agências publicitárias que, ao promoverem álcool, tabaco ou remédios, vendem estados de espírito, modelos de felicidade da alma, humor em pílulas. Mais do que venderem, exacerbam, pois, conforme a hipnótica cantilena publicitária, só há requinte com um cigarro na mão, só há festa com cerveja e decotes generosos, só há felicidade plena com o sono, a ansiedade e a tristeza geridos por meio de doses de pílulas ou elixires.

Por isso os orçamentos administrativos e de marketing das indústrias farmacêuticas são muito maiores que os de pesquisa. Estes sempre são interrompidos após o lançamento do fármaco no mercado, não havendo acompanhamento exaustivo de seus efeitos previstos e colaterais de longo prazo nas populações usuárias. A própria técnica publicitária nasce, desde o final do século XIX, fortemente ligada à venda de medicamentos, tônicos, fortificantes, etc., vendendo estilos de vida mais do que os produtos em si. Até hoje, o setor da venda de drogas (seja álcool, tabaco ou remédios) representa uma das maiores fatias do mercado publicitário internacional e brasileiro.

* * *

De toda a indústria farmacêutica, o setor das drogas psicoativas é não só uma das mais lucrativas como a que teve influência cultural mais significativa. O que pouco se percebe é que paralelamente à emergência de um proibicionismo de certas drogas ocorreu uma exacerbação na compulsão ao consumo de fármacos industriais (assim como também o de alimentos e outras mercadorias).

Os anti-psicóticos, soníferos, tranquilizantes, ansiolíticos e anti-depressivos despontaram desde os anos 1950 como carros-chefes não só da indústria, como de estilos de vida. O uso de pílulas tornou-se um hábito considerado normal, não só como suplementos vitamínicos ou fortificantes mas como reguladores mentais, moduladores psíquicos, capazes de alterar o humor, o sono, a tensão e a motivação.

Junto a cada um dos novos fármacos se construiu uma entidade nosológica nova, para a qual cada medicamento seria o específico terapêutico. O erro central dessa visão psicofarmacêutica é considerar o sintoma (por exemplo, a depressão) como a doença. Ao invés de oferecer uma interpretação do seu sofrimento e de suas causas, uma "narrativa" que lhe desse sentido, como diz David Healy, passou a se oferecer (vender, melhor dizendo) uma pílula miraculosa. Este médico e professor de Medicina Psicológica fez uma análise da emergência da depressão como um quadro clínico e nosológico desde os anos de 1950 – e da concomitante ascensão dos medicamentos antidepressivos como mercadorias de alta lucratividade numa das indústrias que mais floresceu desde o segundo pós-guerra. O livro em que relatou suas observações, The Antidepressant Era (1997), é obra importante para compreender os múltiplos significados dessa era de novas drogas e novas políticas sobre drogas, que abrangem não apenas o universo médico strito sensu, mas também a vida cotidiana cada vez mais medicalizada e farmacologizada.

Postura não-infantil exige encarar papel das drogas
em todas as culturas, incentivando usos adequados
e desestimulando compulsão e irresponsabilidade

 A partir dos anos 1950, a grande inovação – além dos barbitúricos, para sedação – foram remédios contra a depressão, tais como imipramina, lançada em 1957 sob o nome de Tofranil. Veio a seguir a amitriptilina, lançada em 1961. Nem sequer o escândalo da talidomida, lançada como sedativo e tranquilizante, em 1957, e responsável por mais de seis mil casos de má-formação fetal em grávidas que o usaram, desestimulou o crescente mercado do consolo e do apaziguamento psíquico.

Nos anos 80 e 90 a fluoxetina, sob o nome de Prozac, tornou-se um dos medicamento psicoativos a vender muitos bilhões de dólares e foi o emblema de uma época em que a indústria farmacêutica criava uma nova cultura de dependência de drogas – ao mesmo tempo que se desencadeava uma guerra sem quartel contra algumas drogas ilícitas, muitas delas plantas de usos tradicionais milenares.

Recentemente, a própria suposta eficácia dos anti-depressivos foi questionada, pois nem todos os estudos realizados são publicados. Mesmo entre os publicados, a diferença entre o efeito dos placebos comparado ao efeito dos fármacos é muito pequena, nos casos majoritários de depressões leves10.

Ainda assim, o uso (inclusive infantil) de psicoativos como antidepressivos aumentou vertiginosamente, estendendo-se a um conjunto infinito de condutas a serem supostamente corrigidas pelo medicamento. De enurese noturna até hiperatividade, de insônia a ansiedade, de "pânico social" à "síndrome do pânico", dentre os tantos novos rótulos que surgem para configurar supostos quadros nosográficos. A OMS profetiza que, em algumas décadas, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo, o que por si já é revelador da situação de insustentabilidade que vive o sistema econômico capitalista. Recentemente surgiu até mesmo uma versão veterinária do Prozac para cães.

O uso de drogas na sociedade cresce sobretudo por meio dos remédios legais, cuja publicidade incita a um consumo fetichizado e hipocondríaco, na busca de panaceias químicas para mal-estares sociais e psicológicos.

Uma política realmente democrática em relação às drogas psicoativas seria aquela que legalizasse todas, submetendo-as a um mesmo regime, não importa se remédios sintéticos ou derivados de plantas tradicionais. Ao mesmo tempo, tal política deveria ampliar a severidade dos controles, distintos para cada substância. Toda publicidade em veículos de mídia destinados ao público em geral deveria ser proibida. A fiscalização e punição para consumos irresponsáveis – ao volante, por exemplo – de álcool ou outras drogas, deveria ser rígida.

Outra medida necessária seria a estatização da grande produção e do grande comércio. Ela evitaria que corporações gananciosas dominassem o mercado e garantiria que todos os lucros desse comércio fossem direcionados para fins sociais – inclusive para programas de desabituação para os consumidores problemáticos que necessitassem. Além de uma política em favor dos genéricos e da quebra das patentes farmacêuticas, o Estado deveria garantir a fabricação de todos os fármacos indispensáveis, oferecendo-os ao menor preço possível e aplicando os lucros obtidos no interesse social. Um amplo programa de pesquisa, com financiamento e destinação pública, poderia assim estimular também o desenvolvimento de novos fármacos.

Legalização e controle público afastariam
crime organizado e criariam fundo público para
financiar Saúde – inclusive atendimento aos dependentes

Tais diretrizes deveriam se aplicar tanto aos remédios fisiológicos quanto aos três grupos de substâncias psicoativas consideradas nestes estudo: as da indústria farmacêutica; as recreativas lícitas, como álcool e tabaco; e as hoje consideradas ilícitas. A legalização da maconha, da cocaína e de todas as drogas, sob controle estatal do grande atacado e produção afastaria o atrativo para o crime organizado, permitiria maior monitoramento dos usos problemáticos e encaminhamento dos necessitados a tratamentos. Financiados pela própria renda gerada na venda legal, seriam oferecidos no serviço público de saúde.

Por que não criar-se um Fundo Social – resultado não apenas de impostos, mas do controle econômico estatal da grande produção e circulação de drogas, remédios, bebidas e cigarros? O conjunto do faturamento obtido poderia servir para custear o orçamento de Saúde Pública.

Um leque imenso de iniciativas individuais, familiares, comunitárias e microempresariais poderia ser não só mantido, mas estimulado, no campo do cultivo e da produção dessas substâncias. Produtores de bebidas como vinhos, cervejas ou aguardentes, cultivadores de fumos de qualidade ou canabicultores deveriam ser estimulados com apoio creditício e fiscal.

O conjunto das drogas legalizadas acabaria com os efeitos nefastos do chamado "narcotráfico", encerraria a "guerra contra as drogas", libertaria os prisioneiros dessa guerra: em torno de metade da população carcerária tanto nos EUA como no Brasil. Seria interrompido o crescimento vertiginoso do encarceramento por drogas, principal fonte de lucros para o sistema penal privado norte-americano e mecanismo de repressão social e racial contra os pobres e os afrodescendentes no Brasil. Reduziriam-se os danos sociais dos usos problemáticos de drogas. Seriam potencializados os usos positivos, tanto terapêuticos como recreacionais.

Os fármacos em geral, e os psicofármacos em particular, oferecem um florescente futuro. Inúmeras novas moléculas poderão ser inventadas, além dos usos diversos que já se podem fazer das substâncias existentes. Isso amplia um repertório que serve a fins terapêuticos, lúdicos, recreacionais, devocionais, de reflexão filosófica, de autoconhecimento e de regulação humoral (os timolépticos). Infelizmente, também pode ser usado de formas autodestrutivas, excessivas, abusivas e descontroladas. Uma cultura da autonomia responsável supõe o uso consciente do potencial de todos os fármacos, que são, como os alimentos, produtos da cultura material que ingerimos para finalidades úteis ao nosso corpo.

Usar as "tecnologias de si" de forma construtiva significa por um lado acabar com a "guerra contra as drogas" e o proibicionismo demonizante de certas substâncias. Mas, por outro, significa recusar os efeitos alienantes de uma cultura publicitária que faz da saúde um negócio e da necessidade das drogas um mercado oligopólico global.

1Dimetrilptamina, princípio ativo do ayahusca, utilizado nos rituais do Santo Daime. Mais informações na Wikipedia

2 Metilenodioximetanfetamina, também conhecida como ecstasy. Verbete na Wikipedia

3 Expressão adotada por Richard Rudgley para denominar as drogas psicoativas emEssential substances. A cultural history of intoxicants in society (N. York, Kondansha, 1993).

4 Cf. IMS Health, 2009.

5Michael J. Balick e Paul Alan Cox, Plants, People, and Culture. The Science of Ethnobotany, N. York, Scientifican American Library, 1997,p.25.

6 Ruy Castro, "Vale das bolinhas", FSP, 28/12/2009, p.2.

7Jomar Morais, "Viciados em remédios", Superinteressante, nº 185, fevereiro de 2003, p.44.

8 Segundo IMS Health, o primeiro é uma pílula anticoncepcional.

9"Aspirina pode ter tido um papel na epidemia de gripe de 1918", Nicholas Bakalar (New York Times), in Folha de S.Paulo, 13/10/2009.

10"Effectiveness of antidepressants: an evidence myth constructed from a thousand randomized trials?", John P. A. Ioannides, in Philosophy, Ethics, and Humanities in Medicine, 3:14, 27 de maio de 2008.

Como políticas oficiais proíbem algumas substâncias, mas estimulam consumo irresponsável de centenas. Por que é preciso fazer exatamente o contrário

Por Henrique Carneiro*

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Henrique Carneiro é historiador, bacharel, mestre e doutor em História Social pela USP. Professor na cadeira de História Moderna no Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo), é também pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP). Publicou seis livros e diversos artigos para jornais e revistas acadêmicas (ver aqui). Sua linha de pesquisa atual aborda a história da alimentação, das drogas e das bebidas alcoólicas.



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domingo, 8 de maio de 2011

Corrupção nos países ricos, a degradação estrutural do sistema

A onda global de crimes corporativos

 Jeffrey D. Sachs, do Project Syndicate - O Estado de S.Paulo

O mundo está se afogando em fraudes corporativas e o problema parece ser mais grave nos países mais ricos, aqueles que supostamente contam com um "governo responsável". Os governos dos países pobres, provavelmente, aceitam mais subornos e cometem mais crimes, mas é nos países ricos - anfitriões das empresas multinacionais - que as infrações de maiores proporções são observadas. O dinheiro move montanhas e está corrompendo políticos em todo o mundo.

É difícil que haja um dia em que não venha à tona um novo caso de práticas administrativas questionáveis ou ilegais. Ao longo da última década, todas as firmas de Wall Street pagaram multas significativas por causa de algum episódio de fraude contábil, negociatas, fraude com valores mobiliários, operações fraudulentas de investimento e até apropriação indébita por parte de diretores executivos.

Uma grande quadrilha que promovia transações valendo-se de informações privilegiadas está sob julgamento em Nova York e a investigação implicou alguns dos principais nomes do mundo financeiro. Isso ocorre após o pagamento de uma série de multas aplicadas aos maiores bancos de investimento dos Estados Unidos como punição por várias violações relacionadas à negociação de valores mobiliários.

No entanto, o que mais se vê é a impunidade. Dois anos após a maior crise financeira de todos os tempos, abastecida pelo comportamento inescrupuloso apresentado pelos maiores bancos de Wall Street, nem um único comandante de uma instituição financeira foi preso.

Quando as empresas são multadas em decorrência de práticas ilegais, o preço é pago pelos seus acionistas e não por seus diretores executivos. As multas nunca passam de uma pequena fração do lucro obtido de maneira questionável e, para Wall Street, a implicação disso é que a corrupção se mostra consistentemente lucrativa. Mesmo nos dias de hoje, o lobby dos bancos demonstra pouquíssima consideração pelos políticos e pelas autoridades reguladoras.

A corrupção é lucrativa também no âmbito da política americana. O atual governador da Flórida, Rick Scott, foi diretor executivo de uma grande empresa de saúde chamada Columbia/HCA. A empresa foi acusada de fraudar o governo por meio do superfaturamento de reembolsos e acabou se declarando culpada de 14 delitos graves, pagando por eles uma multa de US$ 1,7 bilhão.

A investigação do FBI obrigou Scott a deixar o cargo. Mas, uma década depois de a empresa assumir a culpa, Scott está de volta, dessa vez apresentando-se como político republicano defensor do "livre mercado".

Quando o presidente Barack Obama precisou de alguém capaz de ajudar no resgate da indústria automobilística americana, ele se voltou para Steven Rattner, conhecida figura de Wall Street, apesar de saber que ele era investigado por oferecer propinas a funcionários do governo. Depois de concluir seu trabalho para a Casa Branca, Rattner concordou em pagar uma multa de alguns milhões de dólares e, com isso, encerrar o caso.

Mas que motivo teríamos para nos ater apenas aos governadores e conselheiros presidenciais? O ex-vice-presidente Dick Cheney chegou à Casa Branca depois de trabalhar como diretor executivo da Halliburton.

Durante o período em que Cheney esteve à frente da empresa, a Halliburton envolveu-se na oferta de propinas ilegais a funcionários do governo nigeriano, conseguindo com isso o acesso às reservas de petróleo do país - cujo valor é estimado em bilhões de dólares.

Quando o governo da Nigéria acusou a Halliburton de suborno, a empresa preferiu chegar a um acordo fora dos tribunais, pagando uma multa de US$ 35 milhões. É claro que Cheney não sofreu nenhum tipo de consequência. A notícia quase não encontrou espaço na mídia americana.

Impunidade. A impunidade tornou-se um fenômeno generalizado - com efeito, a maioria dos crimes corporativos ocorre sem chamar atenção. Os poucos casos que são notados costumam acabar em algum tipo de repreensão formal e a empresa - leia-se, os acionistas - recebe uma modesta multa.

No alto escalão dessas empresas, os verdadeiros culpados não têm com o que se preocupar. Mesmo quando as companhias recebem multas consideráveis, seus diretores executivos permanecem no cargo. Os acionistas, de tão numerosos, veem-se em uma situação de impotência diante dos administradores.

A explosão da corrupção - nos EUA, na Europa, na China, Índia, África, Brasil e outros países - traz um conjunto de perguntas desafiadoras a respeito de suas causas e de como ela poderia ser controlada agora que atingiu proporções epidêmicas.

A corrupção corporativa fugiu ao controle por dois motivos principais.Primeiro, as grandes empresas são agora multinacionais, enquanto os governos permanecem presos ao âmbito nacional. As grandes corporações contam com tamanho poder financeiro que os governos têm medo de enfrentá-las.

Segundo, as empresas são as principais financiadoras das campanhas políticas em países como os EUA, onde os próprios políticos, muitas vezes, estão entre os sócios delas, sendo, no mínimo, discretamente beneficiados pelos lucros corporativos. Cerca de metade dos congressistas americanos é composta por milionários e muitos deles mantêm laços com empresas antes mesmo de chegarem ao Congresso.

Como resultado, os políticos, com frequência, ignoram as situações em que o comportamento corporativo ultrapassa os limites. Mesmo que os congressistas tentassem fazer cumprir a lei, as empresas têm exércitos de advogados que tentam antecipar sua próxima jogada. O resultado é uma cultura da impunidade, com base na expectativa - amplamente confirmada - de que o crime compensa.

Levando-se em consideração a proximidade entre o dinheiro, o poder e a lei, o combate ao crime corporativo será uma luta árdua. Felizmente, o alcance e a rapidez das redes de troca de informações dos tempos atuais podem atuar como uma espécie de desinfetante ou como um fator de dissuasão.

A corrupção prospera nas sombras, mas, hoje em dia, um volume cada vez maior de informações vem à luz por meio de e-mails e de blogs, além do Facebook, do Twitter e de outras redes sociais.

Precisaremos também de um novo tipo de político, na vanguarda de um outro tipo de campanha, que tenha como base a mídia online gratuita em lugar da mídia paga. Quando os políticos puderem se emancipar das doações corporativas, eles recuperarão sua capacidade de controlar os abusos corporativos.

Além disso, precisaremos iluminar os cantos mais sombrios das finanças internacionais, em especial lugares como as Ilhas Cayman e os bancos suíços mais suspeitos. Os casos de evasão fiscal, oferta de subornos, remessa ilegal de fundos, propinas e outras transações passam por essas contas. A riqueza, o poder e a ilegalidade possibilitados por esse sistema oculto têm agora dimensões tão vastas que chegam a ameaçar a legitimidade da economia global, especialmente no momento em que a desigualdade de renda e os déficits orçamentários atingem níveis sem precedentes, graças à incapacidade política - e, em alguns casos, até mesmo operacional - dos governos de obrigar os mais ricos a pagar impostos.

Assim, da próxima vez em que souber de um escândalo de corrupção na África ou em alguma outra região empobrecida, pergunte-se onde a fraude se originou e quem seriam os corruptores responsáveis. Os EUA e os demais países "avançados" não deveriam apontar o dedo acusador para os países mais pobres, pois os responsáveis pelos problemas costumam ser as mais poderosas empresas multinacionais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PROFESSOR DE ECONOMIA DA UNIVERSIDADE COLUMBIA, DIRETOR DO EARTH INSTITUTE E CONSELHEIRO 
ESPECIAL DO SECRETÁRIO-GERAL DA ONU PARA AS METAS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110508/not_imp716387,0.php



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O fim um ciclo em que a velha mídia foi soberana

Dia após dia, episódio após episódio, vem se confirmando o cenário que traçamos aqui desde meados do ano passado: o suicídio do PSDB apostando as fichas em José Serra; a reestruturação partidária pós-eleições; o novo papel de Aécio Neves no cenário político; o pacto espúrio de Serra com a velha mídia, destruindo a oposição e a reputação dos jornais; os riscos para a liberdade de opinião, caso ele fosse eleito; a perda gradativa de influência da velha mídia.
O provável anúncio da saída de Aécio Neves  marca oficialmente o fim do PSDB e da aliança com a velha mídia carioca-paulista que lhe forneceu a hegemonia política de 1994 a 2002 e a hegemonia sobre a oposição no período posterior.
Daqui para frente, o outrora glorioso PSDB, que em outros tempos encarnou a esperança de racionalidade administrativa, de não-sectarismo, será reduzido a uma reedição do velho PRP (Partido Republicano Paulista), encastelado em São Paulo e comandado por um político – Geraldo Alckmin – sem expressão nacional.

Fim de um período odioso

Restarão os ecos da mais odiosa campanha política da moderna história brasileira – um processo que se iniciou cinco anos atrás, com o uso intensivo da injúria, o exercício recorrente do assassinato de reputações, conseguindo suplantar em baixaria e falta de escrúpulos até a campanha de Fernando Collor em 1989.
As quarenta capas de Veja – culminando com a que aparece chutando o presidente – entrarão para a história do anti-jornalismo nacional. Os ataques de parajornalistas a jornalistas, patrocinados por Serra e admitidos por Roberto Civita, marcarão a categoria por décadas, como símbolo do período mais abjeto de uma história que começa gloriosa, com a campanha das diretas, e se encerra melancólica, exibindo um  esgoto a céu aberto.
Levará anos para que o rancor seja extirpado da comunidade dos jornalistas, diluindo o envenenamento geral que tomou conta da classe.
A verdadeira história desse desastre ainda levará algum tempo para ser contada, o pacto com diretores da velha mídia, a noite de São Bartolomeu, para afastar os dissidentes, os assassinatos de reputação de jornalistas e políticos, adversários e até aliados, bancados diretamente por Serra, a tentativa de criar dossiês contra Aécio, da mesma maneira que utilizou contra Roseana, Tasso e Paulo Renato.

O general que traiu seu exército

Do cenário político desaparecerá também o DEM, com seus militantes distribuindo-se pelo PMDB e pelo PV.
Encerra-se a carreira de Freire, Jungman, Itagiba, Guerra, Álvaro Dias, Virgilio, Heráclito, Bornhausen, do meu amigo Vellozo Lucas, de Márcio Fortes e tantos outros que apostaram suas fichas em uma liderança destrambelhada e egocêntrica, atuando à sombra das conspirações subterrâneas.
Em todo esse período, Serra pensou apenas nele. Sua campanha foi montada para blindá-lo e à família das informações que virão à tona com o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr e da exposição de suas ligações com Daniel Dantas.
Todos os dias, obsessivamente, preocupou-se em vitimizar a filha e a ele, para que qualquer investigação futura sobre seus negócios possa ser rebatida com o argumento de perseguição política.
A interrupção da entrevista à CNT expôs de maneira didática essa estratégia que vinha sendo cantada há tempos aqui, para explicar uma campanha eleitoral sem pé nem cabeça. Seu argumento para Márcia Peltier foi: ocorreu um desrespeito aos direitos individuais da minha filha; o resto é desculpa para esconder o crime principal.
Para salvar a pele, não vacilou em destruir a oposição, em tentar destruir a estabilidade política, em liquidar com a carreira de seus seguidores mais fiéis.
Mesmo depois que todas as pesquisas qualitativas falavam na perda de votos com o denuncismo exacerbado, mesmo com o clima político tornando-se irrespirável, prosseguiu nessa aventura insana, afundando os aliados a cada nova pesquisa e a cada nova denúncia.
Com isso, expôs de tal maneira a filha, que não será mais possível varrer suas estripulias para debaixo do tapete.

A marcha da história

Os episódios dos últimos dias me lembram a lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim. Dejetos, lixo, figuras soturnas, almas penadas, todos sendo varridos pela água abundante e revitalizadora da marcha da história.
Dia após dia, mês após mês, quem tem sensibilidade analítica percebia movimentos tectônicos irresistíveis da história.
Primeiro, o desabrochar de uma nova sociedade de consumo de massas, a ascensão dos novos brasileiros ao mercado de consumo e ao mercado político, o Bolsa Família com seu cartão eletrônico, libertando os eleitores dos currais controlados por coronéis regionais.
Depois, a construção gradativa de uma nova sociedade civil, organizando-se em torno de conselhos municipais, estaduais, ONGs, pontos de cultura, associações, sindicatos, conselhos de secretários, pela periferia e pela Internet, sepultando o velho modelo autárquico de governar sem conversar.
Mesmo debaixo do tiroteio cerrado, a nova opinião pública florescia através da blogosfera.
Foi de extremo simbolismo o episódio com o deputado do interior do Rio Grande do Sul, integrante do baixo clero, que resolveu enfrentar a poderosa Rede Globo.
Durante dias, jornalistas vociferantes investiram contra UM deputado inexpressivo, para puni-lo pelo atrevimento de enfrentar os deuses do Olimpo. Matérias no Jornal Nacional, reportagens em O Globo, ataques pela CBN, parecia o exército dos Estados Unidos se valendo das mais poderosas armas de destruição contra um pequeno povoado perdido.
E o gauchão, dando de ombros: meus eleitores não ligam para essa imprensa. Nem me lembro do seu nome. Mas seu desprezo pela força da velha mídia, sem nenhuma presunção de heroísmo, de fazer história, ainda será reconhecido como o momento mais simbólico dessa nova era.

Os novos tempos

A Rede Record ganhou musculatura, a Bandeirantes nunca teve alinhamento automático com a Globo, a ex-Manchete parece querer erguer-se da irrelevância.
De jornal nacional, com tiragem e influência distribuídas por todos os estados, a Folha foi se tornando mais e mais um jornal paulista, assim como o Estadão. A influência da velha mídia se viu reduzida à rede Globo e à CBN. A Abril se debate, faz das tripas coração para esconder a queda de tiragem da Veja.
A blogosfera foi se organizando de maneira espontânea, para enfrentar a barreira de desinformação, fazendo o contraponto à velha mídia não apenas entre leitores bem informados como também junto à imprensa fora do eixo Rio-São Paulo. O fim do controle das verbas publicitárias pela grande mídia, gradativamente passou a revitalizar a mídia do interior. Em temas nacionais, deixou de existir seu alinhamento automático com a velha mídia.
Em breve, mudanças na Lei Geral das Comunicações abrirão espaço para novos grupos entrarem, impondo finalmente a modernização e o arejamento ao derradeiro setor anacrônico de um país que clama pela modernização.

As ameaças à liberdade de opinião

Dia desses, me perguntaram no Twitter qual a probabilidade da imprensa ser calada pelo próximo governo. Disse que era de 25% - o percentual de votos de Serra. Espero, agora, que caia abaixo dos 20% e que seja ultrapassado pela umidade relativa do ar, para que um vento refrescante e revitalizador venha aliviar a política brasileira e o clima de São Paulo.
 
Por: Nassif


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sábado, 7 de maio de 2011

Depois da Quebra do Sistema Financeiro do Primeiro Mundo, FMI Começa Enchergar outras Possibilidades

The IMF's change of heart

The International Monetary Fund has realised that a nation's economic well-being depends on social equality and justice [O Fundo Monetário Internacional se deu conta de que o bem-estar econômico de uma nação depende de igualdade e justiça social]

Joseph E Stiglitz, 07 May 2011 15:14

do Project Syndicate, na Al Jazeera

O encontro anual de primavera do Fundo Monetário Internacional foi notável ao marcar uma tentativa do FMI de se distanciar de suas próprias doutrinas de longo prazo sobre controle de capitais e flexibilização do mercado de trabalho. Parece que um novo FMI tem gradualmente, e cautelosamente, emergido sob a liderança de Dominique Strauss-Kahn.

Cerca de 13 anos antes, no encontro do FMI em Hong Kong, em 1997, o fundo tinha tentado emendar sua carta para ganhar mais poder para empurrar países à liberalização do mercado de capitais. O momento não poderia ter sido pior: a crise do Sudeste da Ásia estava em gestação — uma crise que foi resultado principalmente da liberalização do mercado de capitais naquela região que, dado o alto índice de poupança, era desnecessária.

As mudanças tinham sido defendidas pelos mercados financeiros ocidentais — e pelos ministros das finanças ocidentais que serviam lealmente aos mercados. A desregulamentação financeira nos Estados Unidos foi uma causa primária da crise que irrompeu em 2008, e a liberalização financeira e do mercado de capitais em outros lugares ajudou a espalhar o trauma "made in USA" por todo o mundo.

A crise demonstrou que mercados livres e sem restrições não são eficientes, nem estáveis. Eles também não fazem um bom trabalho no ajuste dos preços (vejam a bolha do mercado imobiliário), inclusive das taxas de câmbio (que na verdade são o preço de uma moeda em relação a outras).

Emerging markets, concerned countries

A Islândia demonstrou que responder à crise impondo controle de capitais poderia ajudar pequenos países a gerenciar o seu impacto. E o "quantitative easing" (QEII) do Banco Central dos Estados Unidos [através do qual o BC americano compra papéis do Tesouro, inundando o mundo de dólares] tornou o descarte da ideologia dos mercados sem restrições inevitável: o dinheiro vai para onde os mercados acreditam que o retorno será maior. Com os mercados emergentes em boom, e os Estados Unidos e a Europa em dificuldades, estava claro que muito da nova liquidez criada encontraria o caminho dos mercados emergentes. Isso era especialmente verdadeiro considerando que os dutos do crédito nos Estados Unidos estavam entupidos, com vários bancos regionais e comunitários ainda em posição precária.

A inundação de dinheiro nos mercados emergentes [ver a valorização do real no Brasil] significa que mesmo os ministros das finanças e governantes dos bancos centrais — que se opõem ideologicamente à intervenção — acreditam que não tem escolha. Na verdade, um país depois do outro tem escolhido intervir para evitar que o valor de suas moedas dispare.

Agora o FMI abençoou tais intervenções — mas, numa concessão aos que ainda não estão convencidos, sugere que isso só deve ser feito como último recurso. Ao contrário, deveríamos aprender com a crise que os mercados financeiros precisam de regulamentação, e que os fluxos de capitais através de fronteiras são particularmente perigosos. Tais regras deveriam ser uma peça-chave de qualquer sistema para garantir a estabilidade financeira; recorrer [ao controle de capitais] apenas em último caso é uma receita para contínua instabilidade.

Existe um grande número de ferramentas disponíveis para o gerenciamento do fluxo de capitais e seria melhor que os países usassem um menu delas. Mesmo que não sejam completamente eficazes, são tipicamente muito melhor que nada.

Mas uma mudança ainda mais importante é a conexão que o FMI finalmente desenhou entre desigualdade e instabilidade. A crise foi largamente o resultado das tentativas dos Estados Unidos de dar impulso a uma economia enfraquecida por desigualdade crescente, através de uma taxa de juros baixa e do relaxamento da regulamentação [permitindo que os norte-americanos se afundassem em dívidas, parte delas feita com o refinanciamento de imóveis. O gajo refinanciava a casa, pegava dinheiro do banco e pagava a faculdade dos filhos, comprava um carro novo e assim por diante] — o que resultou em muita gente emprestando além de sua capacidade de pagar. Serão anos para desfazer as consequências deste endividamento excessivo. Mas, como outro estudo do FMI nos lembra, não é um novo padrão.

Unemployment, rising class-divide

A crise também colocou em teste outros dogmas de longo prazo que culpam a rigidez do mercado de trabalho pelo desemprego, já que países com salários mais flexíveis, como os Estados Unidos, se deram muito pior que países do norte europeu, inclusive a Alemanha. Na verdade, quando os salários enfraquecem, os trabalhadores terão ainda mais dificuldades para pagar o que devem, e os problemas no mercado imobiliário serão ainda piores. O consumo continuará represado e uma recuperação forte e sustentável não poderá ser bancada com outra bolha baseada em dívidas.

Os Estados Unidos são tão desiguais quanto eram antes da Grande Recessão e a crise, gerenciada da forma como foi, aumentou ainda mais a desigualdade de renda, tornando a recuperação ainda mais difícil. Os Estados Unidos estão a caminho de criar sua própria versão da malaise de estilo japonês [baixíssima taxa de crescimento desde os anos 90].

Mas existem formas de escapar deste dilema: reforçar o poder coletivo de barganha [dos trabalhadores], reestruturar dívidas imobiliárias, usar cenouras e porretes para forçar os bancos a retomar os empréstimos, reeestruturar a cobrança de impostos e os gastos públicos para estimular a economia agora através de investimentos de longo prazo, e implementar políticas sociais para garantir oportunidade para todos. Do jeito que está, com quase um quarto da renda e 40% da riqueza dos Estados Unidos indo para o 1% do topo, os Estados Unidos são agora ainda menos uma "terra de oportunidades" que a "velha" Europa.

Para progressistas, esses fatos abismais já são parte de uma litania de frustrações e ultraje justificado. O que é novo é que o FMI aderiu ao coro. Quando Strauss-Kahn concluiu seu discurso na Brookins Institution pouco antes do recente encontro do Fundo, disse: "No fim das contas, emprego e igualdade são tijolos da estabilidade econômica e da prosperidade, da estabilidade política e da paz.  Este é coração do mandato do FMI. Precisa ser colocado no coração da agenda política".

Strauss-Kahn está se provando um líder sagaz do FMI. Podemos apenas esperar que os governos e os mercados financeiros ouçam as palavras dele.

Joseph E. Stiglitz is a professor at Columbia University, a Nobel laureate in Economics, and the author of Freefall: Free Markets and the Sinking of the Global Economy. He is also a former Senior Vice President and Chief Economist of the World Bank.



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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Governo Lula Dilma - Brasil é classificado como 10º país de maior responsabilidade fiscal no mundo

Ora, ora! Vejam só / Coluna / Brasil S/A - Antônio Machado

Índice da Universidade de Stanford põe Brasil como o 10º de maior responsabilidade fiscal no mundo

Em mais um de seus relatórios regionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elogia o corte de gasto público de R$ 50,7 bilhões promovido pelo governo Dilma Rousseff, mas faltou enfatizar que a decisão foi necessária não por razões de solvência fiscal e, sim, para prevenir risco de superaquecimento da demanda e sua sequelas sobre a inflação e o desempenho das contas externas do país.

Tais coisas têm de ficar "bem explicadinhas", como dizia um velho bordão humorístico, porque, no Brasil, formou-se a ideia de que os governos promovem "gastança", ameaçando a estabilidade das contas públicas. Não é isso. Há alguns anos elas estão supercomportadas.

O que há a criticar, como temos destacado aqui, são a qualidade do gasto e seu crescimento em ritmo superior ao do Produto Interno Bruto (PIB) – a origem dos juros bizarros no Brasil e, desde 2010, o fermento da inflação, ao se misturar com o choque agrícola.

Problemas fiscais, tanto de endividamento público excessivo como de déficits orçamentários recordes desde a 2ª Guerra, afligem os países desenvolvidos, como EUA, Japão e a Zona do Euro, à exceção da Alemanha, Holanda, o bloco da Escandinávia e talvez a França.

As economias emergentes se livraram desses males desde as últimas grandes crises dos anos de 1990, começando pela da Ásia. E também um punhado de países avançados, que enfrentaram crises cambiais ou fiscais e saíram delas com ajustes duradouros e, sobretudo, sólida governança fiscal, permitindo a supervisão externa pelo Congresso, entidades de pesquisas, pela sociedade em geral, enfim.

Tais resultados estão explicitados num índice inédito criado por alunos dos cursos avançados de política pública e internacional da Universidade de Stanford, de Palo Alto, Califórnia, sob supervisão do ex-chefe da Controladoria-geral dos EUA David Walker, e também líder da Comeback America Initiative, uma coalizão pela reforma da economia americana, especialmente as contas fiscais. O Brasil está muito bem nesta avaliação, comparado à situação de outros países.

Chamado de Índice de Responsabilidade Fiscal Soberana – SFRI, na sigla em inglês –, o indicador, segundo Walker, compara a aptidão fiscal de 34 países – todos os da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e os BRICs, menos Rússia, Suíça, Turquia e Republica Checa, excluídos por razões metodológicas.

A amostra inclui, assim, todos os países avançados e os maiores emergentes. É um estudo pioneiro. Até então não havia metodologia para consolidar dívida, déficit e governança fiscal por país a fim de armar um ranking dos mais responsáveis e sólidos a longo prazo.

EUA na rabeira, o 28º
Em resumo, o país com a melhor situação fiscal neste conjunto dos 34 analisados pelo estudo, é a Austrália. O pior, a Grécia. Brasil é o 10º neste ranking de responsabilidade fiscal – acima do Canadá (11º), Holanda (14º), França (23º), Alemanha (25º) e EUA (28º).

Japão, sem surpresa, com dívida acima do dobro do PIB, é o 32º. A rabeira dos EUA também não espanta. É coerente com a queda livre do dólar em todo o mundo. Mas o Brasil muito melhor que Alemanha é duro de engolir. Só que é isso mesmo. O estudo usou dados oficiais do Fundo Monetário Internacional. E foi escrutinado por medalhões, como o economista John Taylor, reverenciado nos bancos centrais.

Espaço para dever mais
O índice de Stanford resulta de três outros: o espaço, trajetória e governança, todos relacionados à área fiscal. Espaço é a dívida adicional que um país pode teoricamente emitir antes que uma crise fiscal seja iminente. Trajetória estima o número de anos até que o país atinja a capacidade máxima de se endividar. Governança fiscal é uma medida baseada na força das instituições do governo, além de sua transparência e responsabilidade para com a sociedade.

Por tais conceitos, o Brasil poderia emitir dívida de até 102,3% do PIB, sendo hoje de 56% em termos brutos, a medida comparável. Mas, como adverte o estudo, espaço fiscal é uma estimativa, não um número acabado. "Ninguém pode prever exatamente que espaço um país dispõe antes que experimente uma crise fiscal", diz.

Governança só razoável
Ainda assim, o indicativo é aceitável. O tempo teórico até o teto do endividamento foi projetado em 39 anos, o que se compara com 16 anos para EUA, cinco no Japão e 40 na Austrália. Já a governança é só razoável. De 0 a 100, o Brasil colheu 56,9 pontos, contra 65,9 da Austrália, mas muito acima dos EUA (46), que empatam com a falida Grécia (45 pontos). Para um país que quase ontem, em 2002, foi ao FMI pedir retaguarda financeira, este resultado é excepcional.

Estado de Minas 04/05/2011

Walter --  EngaJarte-blog

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Assassinato com Ocultação de Cadáver, um País em Declínio

Países fortes e mesmo impérios tradicionalmente procuram seguir os procedimentos, leis e acordos internacionais, pois isto organiza o sistema, e como potência eles são naturalmente os primeiros beneficiados do Sistema Internacional.
O que vemos nas ações dos EUA e OTAN hoje é o abandono do sistema de regras e o uso da força bruta, um valetudo mesmo.
Isto mostra uma situação de fraqueza e fragilidade, estrutural e moral, de quem não tem mais o que perder e vai para o tudo ou nada.
Países fortes fazem suas extripulias legais sim, mas de forma encoberta, secreta, sempre mantendo a fleugma, o que os EUA decidiram é largar mão de sua imagem e pisar as leis do sistema que eles mesmos ajudaram a construir.
O episódio do assassinato com ocultação do cadáver foi a primeira ação da campanha de reeleição do Barak Hussein.
A coisa terminou como começou.
Segundo o FBI americano não existe qualquer evidência da ligação entre Osama e o ataque das Torres Gêmeas(9/11), as acusações contra ele são por explodir duas embaixadas na África, coisa muito mais simples do que o atentado em Nova Yorque.
Mas agora está finalizada a questão, também sem nenhuma evidência da existência do Bin Laden ou de seu assassinato.
Mas as declarações do Obama não são suficientes?
Elas são tão confiáveis quanto as declarações do Bush de que o Iraque era uma ameaça para o mundo por suas armas de destruição em massa, ou a declaração reiterada de que os EUA não tiveram nada que ver com o golpe de 1964 contra o governo constitucional do Brasil, já fartamente desmentido por documentos de que dois anos antes o presidente Kennedy já havia autorizado a conspiração para uma mudança de regime no Brasil.
Estimo que a fragilidade estrutural dos EUA está ligada com o pico do petróleo e seu sistema financeiro desregulado e políticamente poderoso, é a consolidação do modelo Reagan, a extrema direita dos EUA conseguiram uma regressão social com a super concentração de rendas, o cimento social do país está ruindo, e é neste momento que os dirigentes vão para a agressão pura, interna e externa.
O interessante hoje é ver como funcionam as entranhas do sistema americano, pois Bin Laden foi o grande cabo eleitoral do republicano Bush (o pequeno) na sua reeleição, agora um presidente democrata, Barak Hussein utiliza-se do mesmo expediente, do mesmo personagem, novamente apresentando como reais, eventos sem nenhuma evidência, tudo na base da conversa mole.
E a imprensa?
Esta deixa de lado sua função social de questionar e trazer informações, comporta-se como correia de transmição da propaganda militar e política do país dominante, tanto lá como aqui.


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Política não é só eleição, é história e é debate no dia-a-dia

RedaçãoConversa AfiadaDilma, desmascare o Serra. O Serra não tem escrúpulos
 Publicado em 10/10/2010  

Redação Conversa Afiada

A eleição não é para Madre Superiora

O programa do Serra no horário eleitoral deste sábado terminou com uma senhora paulistíssima, com jeitão de "amiga" da D. Ruth, a folhear um jornal e insinuar que a Dilma é responsável por tudo o que se atribui à Erenice.

A "amiga" da D. Ruth, portanto, substituiu a denúncia do aborto do programa da manhã.

Das duas, uma.

Ou as pesquisas de qualidade mostraram que o aborto era um tiro no pé.

Ou ele considera que o mal à Dilma já está feito.

Ele fixou a imagem de santarrão e, ela, de criminosa, cúmplice das aborteiras mais inescrupulosas.

O PiG (*) desta manhã de domingo – tanto a Folha (**) quanto o Estadão – anunciam que, nos debates, ele será o "Serrinha é do bem".

Será o Serrinha santarrão, Tartufo, nas entradas ao vivo no horário eleitoral.

Mas, na hora de o trator passar por cima da cabeça da mãe, o Serra estará em off: virá no fim do horário eleitoral, colado ao programa da Dilma, ou, rotineiramente, o PiG (*) usará o trator por ele.

O PiG (*) se dedica, por ele mesmo, a desconstruir  a Dilma.

E a Veja a procurar companheiras de cela da Dilma.

O Conversa Afiada diz isso porque recebeu a informação de que a Veja procurou uma companheira da Dilma de cela.

Só que ela mandou a Veja procurar a Dilma.

Na Veja que está nas bancas, vê-se que ela foi atrás de uma companheira da Dilma, a Tupamara.

Mas deu com os burros n'água, porque o desmentido à reportagem saiu antes de a Veja chegar às bancas.

Mas, a Veja ainda achará o torturador da Dilma, como a Folha (**) achou que o homem trabalhava para os órgãos de repressão e fazia a campana da Dilma.

É uma divisão de trabalho.

O PiG (*) faz o trabalho sujo e o Serra faz o trabalho limpo.

Essa estratégia é a de quem está numa situação de vida ou morte.

Serra dá as últimas braçadas de um afogado.

Ele fará QUALQUER COISA !

Ele não tem escrúpulos !

No dia 1º. de novembro ele vai ser líder de um partido minoritário, que definha a cada eleição: a UDN de São Paulo.

Ele tem que passar o trator agora.

E a Dilma tem que tirar as luvas.

Tem que responder aos ataques.

A campanha "economicista" já colou.

O Lula pendurou o FHC no pescoço do Serra.

Só que a guerra mudou de trincheira.

Foi para o aborto e a Erenice.

Para a destruição de caráter.

E o Serra, aí, é impune.

Ele pode fazer qualquer coisa, porque o PiG (*) lhe dá refugio, o protege.

Uma primeira providência da Dilma seria, por exemplo, afastar as vozes do Bom Senso, os Moderados e Bem-Pensantes.

O Palocci, por exemplo, que quer ganhar a eleição e continuar a escrever para o Globo.

Ganhar sem sujar as mãos.

O Cardozo, por exemplo.

Ele quer ganhar a eleição sem brigar com ninguém, ir para o Supremo com o apoio do PiG (*), e ser convidado para jantar com o Daniel Dantas.

Esse é o pessoal "bonzinho" da Dilma.

Que faz qualquer negócio para sair nas páginas amarelas da Veja, dar uma entrevista à urubóloga Miriam Leitão na GloboNews.

Tem que fazer como a Marilena Chauí: não falar mais com o PiG (*).

Não fosse o precedente do Golpe do Ali Kamel em 2006,  seria até uma boa ideia não ir ao debate da Globo.

Clique aqui para ler "O primeiro Golpe já houve, falta o segundo".

O único púlpito da Dilma é o horário eleitoral.

E, nele, a Dilma tem que desmascarar o Serra, como recomendam o Mino e o Mauricio Dias na Carta Capital que está nas bancas.

Sobre Valores, e Ética, por exemplo.

Basta pedir à Monica Bérgamo para contar a história do filho que o Fernando Henrique – que bom pai ! – levou quinze anos para reconhecer.

Sobre o aborto.

Ir ao site "Amigos do Presidente Lula" e mostrar que o Serra foi o único Ministro da Saúde que assinou portaria para realizar a aborto no âmbito do SUS.

Sobre "eu não mudo de idéia", sou "coerente".

Ir ao Conversa Afiada e exibir no horário eleitoral o vídeo em que ele diz ao Boris Casoy que cumprirá o mandato de prefeito e, se não cumprir, que ninguém nunca mais vote nele.

Pegar no Conversa Afiada o documento com o timbre da Folha (**) em que ele diz que vai cumprir o mandato de prefeito até o fim.

A Dilma quebrou o sigilo da filha do Serra, coitadinha.

É só mostrar a reportagem do Leandro Fortes na Carta Capital: a filha do Serra e a irmã do Dantas quebraram 30 milhões de sigilos, numa empresinha que elas tinham.

Por falar nisso, Dilma.

Sem que o Cardozo e o Palocci saibam,  detona a filha do Serra e a irmã do Dantas.

Exiba o documento do Governo da Florida que registra a empresa delas em Miami (em Miami !, Dilma, onde se localiza a maior lavanderia do mundo, depois do Banestado).

Quem trouxe a família para a campanha foi ele.

A mulher dele, tão simpática, especialmente de óculos de moldura vermelha.

Foi ela quem disse na Baixada Fluminense que você matava criancinhas.

Sobre a "democracia" e a defesa intransigente da "liberdade de imprensa", mostre como ele agride jornalistas,  especialmente jornalistas mulheres.

Como o Serra agasalhou um terreno que a Globo invadia há onze anos e transformou numa escola técnica para formar quadros para a Globo.

(O Palocci vai ficar nervosíssimo se você fizer isso !)

Reproduza o diálogo dele com o Heródoto Barbero, no Roda Morta, da TV Cultura, sobre pedágio.

E conte que, por causa disso, o Heródoto foi devidamente defenestrado.

Mostre os documentos que a Namaria publicou sobre as assinaturas da Veja, da Folha (**) e do Estadão que ele comprou com o dinheiro do povo de São Paulo para distribuir às escolas.

Essa é a "imprensa livre" dele.

Serra vendeu o Brasil.

Contratar alguém com a voz grave do Celso Freitas e ler, um por um, o nome das empresas que ele vendeu com o FHC.

Ao lado, o logo da empresa.

Uma por uma.

E a frase do Delfim: eles venderam tudo e aumentaram a dívida.

Qualquer dona de casa entende isso.

Sobre o "me formei" economista, que ele diz no programa dele.

Cadê o diploma dele, Dilma ?

Faça o que a Dra. Cureau não fez: exija o diploma dele.

No Brasil, ele não pode dizer à Justiça Eleitoral – mostre a foto – que é economista, porque ele não tem diploma válido em território nacional.

Ele mente, Dilma.

Mostre o decreto dos genéricos.

Foi o Ministro da Saúde Jamil Haddad quem assinou e, não ele, que se atribui o título de "melhor Ministro da Saúde".

(Quem disse isso foi o amigão dele, o Ministro serrista Nelson Jobim, o da babá eletrônica para agradar o Gilmar Dantas (**).)

Melhor Ministro da Saúde, quem ?

Não foi na gestão dele que compraram ambulâncias super-faturadas ?

Cadê o Barjas Negri, Dilma ?

O Abel, coitado, morreu, mas o Negri poderia dar um depoimento sobre as ambulâncias …

Peça àquele mesmo locutor para ler os votos do Serra contra o trabalhador na Constituinte.

Só votou contra o trabalhador.

O Conversa Afiada já publicou isso e o Artur Henrique da CUT sabe onde achar.

Vá atrás do passado dele.

Que história é essa de aparecer numa foto ao lado do Jango ?

Ele fugiu, Dilma.

E diz em off: eu enfrentei os militares e a Dilma, cadê a Dilma ?

Diga que enquanto ele fugia você era torturada.

Dilma, como é que um presidente da UNE – que comia criancinhas – vai ao comício do grande comedor de criancinhas – o Jango -, foge para o Chile do comededor de criancinhas, o Salvador Allende, casa com uma Allende, e depois, aparece nos Estados Unidos para "dar aula" ?

Que história é essa ?

Pergunta ao Gabeira se ele pode entrar nos Estados Unidos.

Por que o Serra entrou e ficou lá numa nice ?

Vamos falar da Erenice, Dilma.

Fala do Engavetador Geral da República.

Do projeto Sivam.

Da pasta rosa.

Da compra da re-eleição.

Da privataria, como diz o Elio Gaspari.

Mostra aquele exemplar da Carta Capital que transcreve os diálogos do Fernando Henrique com o André Lara Resende: "vamos usar a bomba atômica".

Do Mendonção com o Ricardo Sérgio de Oliveira: "isso vai dar m …".

Aquele momento Péricles de Atenas do Governo FHC.

Mostra aquelas fotos do Serra com o martelo dos leilões da privatização, a beijar a Helena de Tróia.

Pede ao Nassif para resumir o livro dele "Cabeças de Planilha".

Ele conta como o FHC fixou o Real na entrada do Plano, e beneficiou o André e os clientes dele.

(O André jamais processou o Nassif.)

Pede ao Malan para contar que o Serra boicotou o Plano Real e tentou derrubar o Malan.

Dilma, você já percebeu – está no Estadão de hoje, na página 2 – que o Malan defende o FHC, mas não apóia o Serra ?

Por que será, hein ?

Vamos falar do Ricardo Sergio, Dilma ?

Ele foi o chefe da campanha do FHC e do Serra.

Pergunta ao Benjamin Steinbruch quem é o Ricardo Sergio.

Pergunta à família do Antonio Ermírio de Moraes.

E o Preciado ?

Lembra do Preciado ?

Aquele da privatização do Banespa e da Ilha do Urubu, que o Emiliano José e o Leandro Fortes descreveram tão bem.

Quem entende muito de Preciado é o Fernando Rodrigues, da Folha (**).

É só mandar buscar as reportagens dele, quando o rabo da Folha (**) ainda não estava preso.

O Amaury Ribeiro preferiu esperar as eleições para lançar o livro dele.

Mas, o Conversa Afiada já divulgou o prefacio do livro do Amaury, o que provocou um "alopramento" generalizado na campanha do Serra.

Clique aqui para ler esse prefacio, que o Conversa Afiada re-publicou, a pedidos.

Ali há informações preciosas (sem trocadilho).

Dilma, como é que um homem público, que passou a vida toda com salário de parlamentar, governador e "professor" comprou aquela casinha em que vive ?

A casa é dele, Dilma ?

Está no Imposto de Renda ? Por quanto ?

Se ele vier de "mensalão", devolva com "mensalão tucano de Minas", Eduardo Azeredo e o "valerioduto" cheio de dinheiro do Dantas (o Palocci e o Cardozo não podem ouvir falar nisso).

Dilma, você já ouviu falar no Flavio Bierrembach ?

O Flavio é um homem honrado.

Ele era candidato a deputado com o Serra e acusou o Serra de ladrão.

O Serra foi para cima dele.

Por azar, a ação caiu na mão do Juiz Walter Maierovitch.

Maierovitch chamou o Bierrembach às falas: que história é essa de chamar alguém de ladrão, sem provas ?

O Bierrembach pediu "exceção da verdade" – ou seja, quero provar o que digo.

Maierovitch imediatamente deu ao Bierrembach o direito de provar o que dizia.

Dilma, sabe o que o Serra fez ?

Engavetou a ação.

Chama o Bierrembach para contar essa história.

Chama o Maierovitch – e só ligar para a Mara, secretária do Mino, na Carta Capital, que a Mara acha o Maierovitch rapidinho.

E põe uma claquete assim: "O Serra não deixou a Justiça provar que ele não é ladrão".

Querer ganhar eleição do Serra com o IBGE não basta.

Ele faz e diz QUALQUER COISA !

Dilma, e o telefonema do Serra para o Gilmar Dantas (***) ?

Mostra aquela foto dele no auditório e o voto do Gilmar no dia seguinte.

Esses dois, Dilma, fazem qualquer coisa.

E trate de ganhar a eleição com bastante folga.

Porque essa urna eletrônica sem o papelzinho do Brizola é um convite à fraude.

E se for para o tapetão, o Marco Aurélio de Mello está lá e o Gilmar fica na reserva.

Um perigo !

Sobre o massacre do PiG (*) contra a Petrobrás, para impedir que você use a Petrobrás na campanha.

Dilma, você conhece a história do John Kerry ?

O John Kerry combateu no Vietnã e foi condecorado TRÊS VÊZES.

Ele tem a "Purple Heart", a medalha de que os americanos mais se orgulham.

Ele dirigia missões de destreza e rapidez, nuns barquinhos, os Swifts, com poucos companheiros a bordo.

Uma espécie de SWAT.

Em diferentes ações, Kerry foi ferido, matou um vietcong que o tinha atacado e salvou a vida de subordinados.

Ele foi candidato à Presidência contra o Bush, na segunda vez.

Bush fazia nos debates o "Bushinho paz e amor".

Bush era "do bem".

Como "Serra é do bem".

Mas, por trás, veio o trator – cheio de grana.

Criou-se um grupo auto-intitulado de "Veteranos dos Swift em Busca da Verdade".

Eles produziram um documentário – com dinheiro de quem, Dilma ? – para demonstrar que Kerry não podia ser presidente.

Porque ele mentiu sobre o seu papel no Vietnã.

Que ele não merecia nenhuma daquelas medalhas.

Era um líder inepto.

E, no fundo, no fundo, um covarde.

Os "amigos do presidente Serra" compraram horário nas televisões do interior para exibir o documentário.

(Lá não tem horário eleitoral gratuito.)

Como Kerry tinha dito, ao sentar praça, que era contra a Guerra do Vietnã, ele foi estigmatizado pelos "Veteranos dos Swift": um Traidor da Pátria, um Vendilhão da Pátria.

Veja bem, Dilma, TRÊS medalhas por bravura !

E passou a campanha sem poder invocar seu passado heróico.

O Serra é assim também: capaz de tudo.

O bye-bye Serra forever não se dará mais com a Economia.

Não basta pendurar o FHC no pescoço do Serra.

O Serra levou o jogo para o campo dele – a vala negra.

O da calhordice, como diz o Ciro, um especialista na alma do Serra.

Neste momento, essa história de não "baixar o nível" só funcionaria em  eleição para Madre Superiora.

Paulo Henrique Amorim

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da "ditabranda"; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de "bom caráter", porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que avacalha o Presidente Lula por causa de um  comercial de TV; que publica artigo sórdido de ex-militante do PT; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.



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