Geopolítica do Comércio e a Contradição Turquia-Israel: Aparência e Essência de uma Relação Perigosa
Por Walter Azevedo

No último mês de abril, fomos surpreendidos por uma escalada verbal entre Turquia e Israel que elevou o risco de um confronto direto na região. Enquanto isso, o governo Trump redirecionava sua ofensiva comercial contra a Rússia mirando Ancara, e o Irã anunciava que bombardearia bases dos EUA no Oriente Médio se atacado. Aparentemente, são fatos dispersos. Mas, para nossa classe, o que importa é enxergar o fio da meada que une esses eventos: a dinâmica contraditória do capitalismo dependente e o papel dos Estados periféricos no tabuleiro imperialista. O comércio entre Turquia e Israel nos últimos dez anos é um case perfeito para desmontarmos essa aparência e alcançarmos a essência do jogo geopolítico.
O Imediato: Números que Enganam
Entre 2015 e 2025, o comércio bilateral entre Turquia e Israel oscilou entre US$ 4 e US$ 7 bilhões anuais, com a Turquia se consolidando como um dos principais fornecedores de aço, cimento e produtos químicos para o Estado sionista. A exportação turca de ferro e aço para Israel cresceu 380% no período, segundo dados da UN Comtrade. Do lado israelense, houve um aumento na venda de tecnologia agrícola e equipamentos de defesa para a Turquia. À primeira vista, trata-se de uma “relação comercial pragmática” entre dois países que compartilham interesses econômicos, apesar das divergências políticas — a narrativa oficial dos meios de comunicação hegemônicos.
No entanto, é ingênuo ou desonesto parar por aí. A aparente racionalidade do mercado esconde a subordinação da Turquia ao capital financeirizado global, que opera através de Israel como posto avançado do imperialismo norte-americano no Oriente Médio. Enquanto Ancara discursa sobre a causa palestina e tensiona com Tel Aviv no plano retórico, as engrenagens do comércio continuam girando. Por quê?
Essência Dialética: Contradições do Capital Dependente
A Turquia, sob o governo de Recep Tayyip Erdogan, vive uma contradição clássica de um país que tentou construir uma burguesia nacional autônoma, mas permaneceu preso às amarras do sistema financeiro internacional. A economia turca é fortemente dependente de importação de energia — cerca de 70% do petróleo consumido vem do exterior, e Israel, controla rotas estratégicas de gás do Mediterrâneo Oriental.
Para entender o que está em jogo, precisamos lembrar de Ruy Mauro Marini: a dependência não é um acidente, mas uma estrutura que se reproduz através de relações de superexploração da força de trabalho e transferência de valor para os centros imperialistas. No caso turco, o comércio com Israel é uma válvula de escape para a crise de realização do capital da burguesia turca, que precisa exportar seus produtos para manter seus lucros e, ao mesmo tempo, importar tecnologia militar para reprimir a classe trabalhadora curda e controlar a instabilidade social interna.
A prisão de ativistas de uma flotilha que tentava furar o bloqueio a Gaza em outubro de 2025 — 137 pessoas deportadas por Israel — e a escalada verbal recente não são atos isolados. Elas são a ponta do iceberg de uma correlação de forças que se desloca. Enquanto Trump ameaça a Turquia por sua aproximação com a Rússia (e com o eixo eurasiano liderado pela China), o governo turco mostra os dentes a Israel para tentar barganhar uma melhor posição nas negociações com o Ocidente. Trata-se de uma dança de interesses entre burguesias periféricas, que não altera a raiz do problema: a dominação imperialista.
Nietzsche nos ensinou: “O que não me mata, me fortalece.” Mas, na política real, o que não nos mata nos mantém na corda bamba. A Turquia capitalista não está fortalecida; ela está encurralada entre a necessidade de acumular e a necessidade de sobreviver como Estado nacional.
A Superação Possível: Lições para Nossa Luta
O que aprendemos com esse caso concreto? Primeiro, que nenhuma relação comercial entre países periféricos será “neutra” enquanto houver um imperialismo dominante e uma divisão internacional do trabalho desigual. A Turquia, a despeito de seu nacionalismo discursivo, continua sendo um elo fraco na corrente do capital global.
Em segundo lugar, a soberania nacional real só existe quando a classe trabalhadora organizada disputa o Estado e rompe com as amarras do capital financeirizado. Enquanto a burguesia turca negociar com Israel os termos da exploração, será o povo trabalhador turco quem pagará a conta — na forma de inflação, desemprego e repressão política.
Precisamos extrair a lição estratégica: a luta contra o imperialismo não se faz com pragmatismo de mercado, mas com organização política e construção de um projeto nacional-popular que articule os interesses das classes exploradas do Sul Global. O comércio Turquia-Israel é um espelho que reflete nossa própria realidade na periferia do capitalismo: a falsa promessa de desenvolvimento via integração subordinada.
Nossa tarefa é construir uma práxis que transforme essa aparência de relações econômicas pacíficas em consciência de classe e ação transformadora. O caminho não passa por torcer por um lado ou outro na briga entre burguesias rivais — passa por organizar nossa classe para disputar a direção do processo histórico.
Que este exemplo sirva como um alerta: a geopolítica não é um jogo de xadrez entre “amigos” e “inimigos”. Ela é a expressão mais violenta da luta de classes em escala global.
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