sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Grécia arde enquanto a democracia européia está de joelhos

A crise grega é analisada por Bruno Lima Rocha, cientista político, docente de comunicação e pesquisador da Unisinos, vinculado ao Grupo Cepos, do PPG em Comunicação da Unisinos e por Fábio López López, economista.

Eis o artigo.

O dia 29 de junho de 2011 implica numa amarga derrota para a idéia de democracia européia em geral e, particularmente, deixa a Grécia de joelhos diante do Fundo Monetário Internacional (FMI), este operando como cabeça de ponte dos agentes do sistema financeiro a comprometer a banca oficial na Europa unificada. Apesar da cultura política grega ter alto nível de violência e conflito, o que se viu ultrapassa um quebra-quebra de manifestantes revoltados. O espanto calamitoso de um governo de centro-esquerda (do PASOK) eleito (mais um dentre tantos) para frear a "crise" e que termina servindo como aríete dos financistas contra os direitos das maiorias, significando para seus eleitores algo dramático, tal como uma punhalada pelas costas, uma traição profunda. Grécia, Espanha e Portugal acordam assustadas do sonho de prosperidade europeu, bancado pelo euro, Alemanha e França e retornam para o sul do mundo, de onde em tese teriam saído há mais de trinta anos.

No Velho Mundo, a chamada crise das sub-primes, ou como dizem os manifestantes do 15-M espanhol, "a estafa com nome de crise", retoma o conceito do Sul da Europa, ou Semi-periferia. Há algo em comum entre Espanha, Portugal e Grécia, além de terem sido os últimos países europeus a realizar a transição para a democracia representativa e haver recebido volumosos fundos da União Européia. Estes três Estados perderam qualquer capacidade de decisão soberana sobre seus próprios recursos e destinos, condicionando assim as vontades das maiorias democraticamente exercidas a um jogo de faz de conta. Governo que entra governo que sai, e a partir dos convênios e pacotes firmados junto ao FMI, restaria pouquíssima margem de manobra para os novos executivos e os blocos parlamentares de sustentação.

Como sempre ocorre, a noção de ordem previamente estabelecida, mesmo sendo fantasiosa, dá um sentido tranqüilizante para a maioria. Mas, a bem da verdade, "em economia a maioria sempre se equivoca". A frase não é nossa, é simplesmente de John Kenneth Galbraith, economista muito citado e cujo pensamento pouco se encontra nas publicações especializadas. Tal citação está na coluna da respeitada economista Amparo Estrada, no jornal espanhol de centro-esquerda Publico.es. Enfim, não se trata necessariamente de uma publicação de economia política crítica e muito menos autogestionária. É apenas mais um esforço contra a maré de desinformação sistemática oriunda da fábrica de sentidos (ou mentiras) da besta financeira. Porque o que houve na economia européia não foi o excesso de gasto público como garantia de um patamar mínimo do Estado de Bem-Estar Social, co-existindo num mundo de Globalização Capitalista sob pressão dos países do G-20 (liderados pela China). A diferença da estafa dos fundos de investimento e a bolha imobiliária dos EUA, na Europa foi o sistema financeiro formal que entrou na jogatina. A contaminação de bancos de correntistas e varejo, levou aos líderes europeus a convocar uma política de "salva bancos", retirando dos tesouros nacionais e aumentando o endividamento público como garantia de que os maiores bancos não quebrassem. Como o sistema financeiro de moeda única é subordinado ao Banco Central Europeu, este executa acordos supra-nacionais, forçando "políticas de austeridade" como garantia de pagamento das dívidas dos Estados, mantendo assim o fluxo de dinheiro público para o sistema financeiro. Como se diz na gíria dos críticos da direita financeira (ideologicamente vinculada ao mundo das finanças e especulação sem lastro), "a besta está cada vez mais faminta".

Ao contrário do apregoado pelos arautos do sistema, e repetido em laudas sem fim nas redações e faculdades de economia, o problema de fundo não reside na redução dos gastos públicos e sim na luta por tornar-se dono de sua capacidade de endividamento. Como nos explica o economista de linha crítica keynesiana, Vincenç Navarro (http://www.vnavarro.org/), no neoliberalismo o Estado não é um problema e sim a solução, como fonte quase inesgotável de financiamento e rolagem de dívida. É exatamente o termo de subordinação, sujeição coletiva, que foi recém votado na Grécia (no Parlamento, fabricando salsichas como se diz na gíria do meio) e antes esteve na Islândia e fora rejeitado. Tem uma diferença. Na "terra do frio", a população foi a plebiscito e decidiu-se por não pagar as dívidas com o sistema financeiro lá operando e que chegara ao ponto absurdo de gerar moeda. Os gregos refizeram a ágora democrática a base de pau e pedra enquanto os parlamentares, mais uma vez, traíam a representação soberana dos cidadãos. Na Islândia a ameaça da besta se cumpriu. Os bancos europeus retaliaram e fizeram uma gritaria, afirmando que o capitalismo corria risco sistêmico. Na verdade, dura e crua, é que são os maiores bancos da Europa os causadores da crise, os beneficiados da estafa e os grandes interessados na aceitação dos "pacotes de austeridade", garantindo assim que a taxação destes Estados sobre seu povo seja a garantia de pagamento da dívida para com os próprios bancos.

A Grécia é o típico exemplo de um governo títere, assessorado por um lobo a tomar conta do galinheiro. Explicamos. No governo anterior do Partido Conservador (ND), o Ministério da Economia teve como "consultores" aos executivos do Goldman Sachs, a mesma empresa de fundos de risco que produzira enormes rombos no caixa dos EUA, além de emplacar o último secretário do Tesouro de Bush Jr, Henry Paulson, ex-executivo da Goldman Sachs e um dos campeões mundiais em recebimento de "bônus de produtividade!". O Estado grego, de tão bem assessorado que foi, maquiou seus balanços (tal e como o golpe da empresa Enron, a primeira grande estafa na era dos papéis podres) e aumentou sua dívida para além do acordo europeu (60% de endividamento e 3% de déficit público). O buraco sem fim foi alargado nas obras para as Olimpíadas de 2004 e, simultaneamente, em operações criminosas de swap cambial, cuja aleatoriedade era nenhuma e o Banco Central grego acabava pagando mais do que podia aos apostadores da roleta digital. A dívida crescera em exorbitância. Agora, que não tem mais como rolá-la, o Banco Central Europeu (BCE) oferece o beijo de vampiro através do FMI, o mesmo que instaurara o absurdo corralito ao final do governo De la Rúa, resultando na rebelião piquetera, no cacelorazo e sua derrubada através de uma pueblada aos gritos do lema: "que se vayan todos!".

Estes dados – irrefutáveis – justificam a tese que da subordinação coletiva, onde os Estados Nacionais adotam tais políticas que beneficiam os bancos e porque aceitam ser "assessorados" por banqueiros. Os Estados Soberanos deixaram de ser soberanos, por conta do seu nível de endividamento, implicando na perda ainda maior da já pouca soberania popular através do voto e outros mecanismos de democracia indireta. Eles são dependentes do crédito dos banqueiros, que usam tal poder para impor políticas aos Estados. Basta imaginar a condição de chantagem que um grande conglomerado pode fazer ao dizer... "não compro mais seus títulos para rolagem da divida soberana!" Isso ocorreu em sucessivos ataques contra moedas de países-alvo, desde o Efeito Tequila (1994 e 1995), passando pela crise da Rússia (1998, 1999) e agora após a quebra de 2008. Atualmente os bancos agora são sócios do Estado, fenômeno este já antes verificado nas monarquias absolutistas e em Cidades-Estado como Veneza e Florença.

Qualquer semelhança com a rebelião grega não é nenhuma coincidência. De forma quase ininterrupta, os gregos estão nas ruas desde outubro de 2008. Na ocasião, o assassinato pela polícia de um jovem libertário em uma manifestação noturna, acendeu a chama em uma juventude marcada pela alta qualificação nos estudos formais e quase nenhuma perspectiva de emprego e independência financeira. Ao longo de 2010, após o ataque planejado contra a moeda grega, ato este que ocorrera em fevereiro de 2010 em uma reunião informal de mega especuladores (big shots) das finanças em escala mundial, somou-se à rebelião de juventude marcada por aspectos de contracultura anti-autoritária, o esforço organizativo dos sindicatos daquele país. O resultado são greves gerais contínuas e a não legitimidade do governo do Pasok (centro-esquerda, da mesma linha do PSOE espanhol) que tenta empurrar o acordo com o FMI goela abaixo através de maioria parlamentar conseguida no acordo com a extrema direita. 

Na Espanha, a partir de 15 de maio do corrente ano, uma parcela significativa da juventude espanhola (até 30 anos de idade), convoca acampamentos nas praças, boicotando a política oficial e não participando das eleições municipais. Neste pleito, surge o típico paradoxo da democracia representativa. O Partido Popular (misto de pós-franquismo com neoliberalismo selvagem, co-representado pelo grupo midiático Intereconomía) tem uma vitória arrebatadora, galvanizando o voto de protesto contra as vacilações de José Luiz Zapatero (PSOE) e sua demora, tanto em tomar medidas contra a estafa bancária (repito, chamada de "crise" pelos supostos especialistas), como em diminuir la fiesta, a farra dos gastos públicos, aumentando a política de pão e circo, através do consumo cultural de massa, o futebol enriquecido e o lazer de larga escala.

A fraude com nome de "crise", seus mecanismo de desinformação

É hora de chamar os economistas neoliberais (tanto os da escola austríaca como os tributários de Chicago) para a peleia intelectual, desembainhando as adagas e duelando. Qualquer economista político de mediana capacidade desmente estas premissas pseudo-científicas, que nada mais são do que modelos doutrinários pré-concebidos. Tanto a leitura do já citado espanhol Vincenç Navarro, como do professor da PUC-SP, Ladislau Dowbor (http://www.dowbor.org/) em seus excelentes ensaios "A crise financeira sem mistérios" e "Manifesto por uma Democracia Econômica", bastam para compreender os mecanismos da estafa que a mídia "especializada" (como The Economist, ou Intereconomía da Espanha) batizara de "crise", como para interpretar as formas de discurso que busca re-legitimar os pactos entre Estados através dos interesses de bancos e fundos de investimento.

Vale observar mais uma vez o fenômeno da desinformação estrutural, implicando nos sentidos massificados pela mídia corporativa e a favor da globalização transnacional capitalista. Mesmo não sendo cientificamente comprovado, reconhecemos que o termo crise é o mais evidente, e que não fica tão nítida para o leitor, sobre o que se sustenta a tese de q na verdade não existe uma crise. A média das pessoas está convencida de que a "crise" existe e simplesmente afirmar que isso é uma invenção de alguns agentes manipuladores, parece insuficiente. Reconhecemos, é necessário algo que justifique ou explique isso, alguma evidencia. Este conceito da "fraude com nome de crise" pode ser afirmado a partir do postulado de que é impossível haver equívoco entre agentes com experiência e forte posição de mercado, quando estes mesmos agentes são detentores de informação perfeita. Estes são os causadores das fraudes em escala global, cuja conta que não fecha e é comprometedora de todo o sistema financeiro, termina por afogar os caixas nacionais, ou supra-nacionais, como é  o caso da Europa unificada. Estes são os causadores da "crise", os mega especuladores, os fraudadores, cujas posições iniciais terminam por gerar o comportamento de manada nos demais especuladores e agentes com menor poder de barganha.

A desfaçatez é tamanha que o próximo presidente do Banco Central Europeu já traz consigo a marca da direita financeira. O italiano Mario Draghi, que irá assumir no início de 2012, é um operador das privatizações de estatais italianas, incluindo o muito conhecido no Brasil imbróglio da Telecom Italia – que tem conseqüências na disputa de controle pela Brasil Telecom contra o Citigroup, tendo como fiel da balança e voto de minerva na composição acionária a ninguém menos do que o Opportunity na figura de Daniel Dantas. Além disso, Draghi é simplesmente um ex-alto executivo da Goldman Sachs, empresa de fundos de investimento de risco cujo DNA está contém uma das maiores fraudes em papéis e ativos da história mundial, cujo operador principal fora Henry Paulson. Esta é outra evidência para expormos a tese de dependência dos Estados ao setor financeiro privado ou para-estatal. O poder desses agentes é tanto que eles escolheram o presidente do BC europeu.

A Europa do Sul é a América Latina de ontem?

A situação de Portugal, Espanha e Grécia é pior que a dos países da América Latina sob alguns aspectos. O fato destes países não terem a senhoriagem do dinheiro, não poderem desvalorizar seu câmbio, apenas aprofundará o sofrimento desses povos. Num momento como esse, um país que manda em sua moeda pode recorrer a uma desvalorização. Assim, com essa desvalorização, se redefinem os preços dentro do país e compensa a ineficiência produtiva deste. Deste modo, em um momento de queda de demanda (família, governos – central e sub-nacionais – e empresários param de gastar e investir) a demanda externa pode amenizar a situação. É preciso recordar que, para estes países, a adoção do euro foi dolorosa, pois os cidadãos sentiram a perda no realinhamento dos preços – sendo tudo arredondado para cima, menos os salários. Muito parecido com os primeiros anos da adoção do Plano Real no Brasil, quando saímos da estagflação (estagnação econômica com inflação galopante), para a estagnação com a economia estável. Em suma, fizeram um pobre grego usar uma moeda do nível da Alemanha, cabendo a esta última pagar a maior parte da conta da Europa inteira.

Não apenas estes países estão enrascados, a Itália, por exemplo, logo entra no mesmo problema. Isto pode gerar efeitos de aprofundamento do problema, chegando ao conjunto da União Européia, comprometendo, por motivos de interdependência, uma grande parcela da economia mundial. Nunca é demais lembrar que o mecanismo de concentração e empobrecimento, além de matar pessoas, depois de muito tempo, pode chegar inclusive a atingir uma parte dos próprios bancos. A solução Keynesiana de "gastem e se endividem com juros baixos", já foi aplicada. E agora restam poucos instrumentos para recuperar a saúde da economia.   

Nesta situação desesperadora, com a Europa à beira de um ataque de nervos, é onde verificamos os reais limites da democracia representativa e da unificação através de mercados, como não condizentes com as promessas tanto de Bem-Estar Social como de exercício soberano da vontade das maiorias. Os governos de Portugal, Espanha e Grécia estão diante de um túnel do tempo, retrocedendo ao período em que na América Latina, o FMI ditava as regras e o Poder Executivo de nossos países operava como títere deste organismo multilateral.

Mas, como sempre, há esperança e esta vem de baixo. A democracia se reinventa nas praças das maiores cidades espanholas e nas ruas da Grécia.
A crise grega é analisada por Bruno Lima Rocha, cientista político, docente de comunicação e pesquisador da Unisinos, vinculado ao Grupo Cepos, do PPG em Comunicação da Unisinos e por Fábio López López, economista.

Eis o artigo.

O dia 29 de junho de 2011 implica numa amarga derrota para a idéia de democracia européia em geral e, particularmente, deixa a Grécia de joelhos diante do Fundo Monetário Internacional (FMI), este operando como cabeça de ponte dos agentes do sistema financeiro a comprometer a banca oficial na Europa unificada. Apesar da cultura política grega ter alto nível de violência e conflito, o que se viu ultrapassa um quebra-quebra de manifestantes revoltados. O espanto calamitoso de um governo de centro-esquerda (do PASOK) eleito (mais um dentre tantos) para frear a "crise" e que termina servindo como aríete dos financistas contra os direitos das maiorias, significando para seus eleitores algo dramático, tal como uma punhalada pelas costas, uma traição profunda. Grécia, Espanha e Portugal acordam assustadas do sonho de prosperidade europeu, bancado pelo euro, Alemanha e França e retornam para o sul do mundo, de onde em tese teriam saído há mais de trinta anos.

No Velho Mundo, a chamada crise das sub-primes, ou como dizem os manifestantes do 15-M espanhol, "a estafa com nome de crise", retoma o conceito do Sul da Europa, ou Semi-periferia. Há algo em comum entre Espanha, Portugal e Grécia, além de terem sido os últimos países europeus a realizar a transição para a democracia representativa e haver recebido volumosos fundos da União Européia. Estes três Estados perderam qualquer capacidade de decisão soberana sobre seus próprios recursos e destinos, condicionando assim as vontades das maiorias democraticamente exercidas a um jogo de faz de conta. Governo que entra governo que sai, e a partir dos convênios e pacotes firmados junto ao FMI, restaria pouquíssima margem de manobra para os novos executivos e os blocos parlamentares de sustentação.

Como sempre ocorre, a noção de ordem previamente estabelecida, mesmo sendo fantasiosa, dá um sentido tranqüilizante para a maioria. Mas, a bem da verdade, "em economia a maioria sempre se equivoca". A frase não é nossa, é simplesmente de John Kenneth Galbraith, economista muito citado e cujo pensamento pouco se encontra nas publicações especializadas. Tal citação está na coluna da respeitada economista Amparo Estrada, no jornal espanhol de centro-esquerda Publico.es. Enfim, não se trata necessariamente de uma publicação de economia política crítica e muito menos autogestionária. É apenas mais um esforço contra a maré de desinformação sistemática oriunda da fábrica de sentidos (ou mentiras) da besta financeira. Porque o que houve na economia européia não foi o excesso de gasto público como garantia de um patamar mínimo do Estado de Bem-Estar Social, co-existindo num mundo de Globalização Capitalista sob pressão dos países do G-20 (liderados pela China). A diferença da estafa dos fundos de investimento e a bolha imobiliária dos EUA, na Europa foi o sistema financeiro formal que entrou na jogatina. A contaminação de bancos de correntistas e varejo, levou aos líderes europeus a convocar uma política de "salva bancos", retirando dos tesouros nacionais e aumentando o endividamento público como garantia de que os maiores bancos não quebrassem. Como o sistema financeiro de moeda única é subordinado ao Banco Central Europeu, este executa acordos supra-nacionais, forçando "políticas de austeridade" como garantia de pagamento das dívidas dos Estados, mantendo assim o fluxo de dinheiro público para o sistema financeiro. Como se diz na gíria dos críticos da direita financeira (ideologicamente vinculada ao mundo das finanças e especulação sem lastro), "a besta está cada vez mais faminta".

Ao contrário do apregoado pelos arautos do sistema, e repetido em laudas sem fim nas redações e faculdades de economia, o problema de fundo não reside na redução dos gastos públicos e sim na luta por tornar-se dono de sua capacidade de endividamento. Como nos explica o economista de linha crítica keynesiana, Vincenç Navarro (http://www.vnavarro.org/), no neoliberalismo o Estado não é um problema e sim a solução, como fonte quase inesgotável de financiamento e rolagem de dívida. É exatamente o termo de subordinação, sujeição coletiva, que foi recém votado na Grécia (no Parlamento, fabricando salsichas como se diz na gíria do meio) e antes esteve na Islândia e fora rejeitado. Tem uma diferença. Na "terra do frio", a população foi a plebiscito e decidiu-se por não pagar as dívidas com o sistema financeiro lá operando e que chegara ao ponto absurdo de gerar moeda. Os gregos refizeram a ágora democrática a base de pau e pedra enquanto os parlamentares, mais uma vez, traíam a representação soberana dos cidadãos. Na Islândia a ameaça da besta se cumpriu. Os bancos europeus retaliaram e fizeram uma gritaria, afirmando que o capitalismo corria risco sistêmico. Na verdade, dura e crua, é que são os maiores bancos da Europa os causadores da crise, os beneficiados da estafa e os grandes interessados na aceitação dos "pacotes de austeridade", garantindo assim que a taxação destes Estados sobre seu povo seja a garantia de pagamento da dívida para com os próprios bancos.

A Grécia é o típico exemplo de um governo títere, assessorado por um lobo a tomar conta do galinheiro. Explicamos. No governo anterior do Partido Conservador (ND), o Ministério da Economia teve como "consultores" aos executivos do Goldman Sachs, a mesma empresa de fundos de risco que produzira enormes rombos no caixa dos EUA, além de emplacar o último secretário do Tesouro de Bush Jr, Henry Paulson, ex-executivo da Goldman Sachs e um dos campeões mundiais em recebimento de "bônus de produtividade!". O Estado grego, de tão bem assessorado que foi, maquiou seus balanços (tal e como o golpe da empresa Enron, a primeira grande estafa na era dos papéis podres) e aumentou sua dívida para além do acordo europeu (60% de endividamento e 3% de déficit público). O buraco sem fim foi alargado nas obras para as Olimpíadas de 2004 e, simultaneamente, em operações criminosas de swap cambial, cuja aleatoriedade era nenhuma e o Banco Central grego acabava pagando mais do que podia aos apostadores da roleta digital. A dívida crescera em exorbitância. Agora, que não tem mais como rolá-la, o Banco Central Europeu (BCE) oferece o beijo de vampiro através do FMI, o mesmo que instaurara o absurdo corralito ao final do governo De la Rúa, resultando na rebelião piquetera, no cacelorazo e sua derrubada através de uma pueblada aos gritos do lema: "que se vayan todos!".

Estes dados – irrefutáveis – justificam a tese que da subordinação coletiva, onde os Estados Nacionais adotam tais políticas que beneficiam os bancos e porque aceitam ser "assessorados" por banqueiros. Os Estados Soberanos deixaram de ser soberanos, por conta do seu nível de endividamento, implicando na perda ainda maior da já pouca soberania popular através do voto e outros mecanismos de democracia indireta. Eles são dependentes do crédito dos banqueiros, que usam tal poder para impor políticas aos Estados. Basta imaginar a condição de chantagem que um grande conglomerado pode fazer ao dizer... "não compro mais seus títulos para rolagem da divida soberana!" Isso ocorreu em sucessivos ataques contra moedas de países-alvo, desde o Efeito Tequila (1994 e 1995), passando pela crise da Rússia (1998, 1999) e agora após a quebra de 2008. Atualmente os bancos agora são sócios do Estado, fenômeno este já antes verificado nas monarquias absolutistas e em Cidades-Estado como Veneza e Florença.

Qualquer semelhança com a rebelião grega não é nenhuma coincidência. De forma quase ininterrupta, os gregos estão nas ruas desde outubro de 2008. Na ocasião, o assassinato pela polícia de um jovem libertário em uma manifestação noturna, acendeu a chama em uma juventude marcada pela alta qualificação nos estudos formais e quase nenhuma perspectiva de emprego e independência financeira. Ao longo de 2010, após o ataque planejado contra a moeda grega, ato este que ocorrera em fevereiro de 2010 em uma reunião informal de mega especuladores (big shots) das finanças em escala mundial, somou-se à rebelião de juventude marcada por aspectos de contracultura anti-autoritária, o esforço organizativo dos sindicatos daquele país. O resultado são greves gerais contínuas e a não legitimidade do governo do Pasok (centro-esquerda, da mesma linha do PSOE espanhol) que tenta empurrar o acordo com o FMI goela abaixo através de maioria parlamentar conseguida no acordo com a extrema direita. 

Na Espanha, a partir de 15 de maio do corrente ano, uma parcela significativa da juventude espanhola (até 30 anos de idade), convoca acampamentos nas praças, boicotando a política oficial e não participando das eleições municipais. Neste pleito, surge o típico paradoxo da democracia representativa. O Partido Popular (misto de pós-franquismo com neoliberalismo selvagem, co-representado pelo grupo midiático Intereconomía) tem uma vitória arrebatadora, galvanizando o voto de protesto contra as vacilações de José Luiz Zapatero (PSOE) e sua demora, tanto em tomar medidas contra a estafa bancária (repito, chamada de "crise" pelos supostos especialistas), como em diminuir la fiesta, a farra dos gastos públicos, aumentando a política de pão e circo, através do consumo cultural de massa, o futebol enriquecido e o lazer de larga escala.

A fraude com nome de "crise", seus mecanismo de desinformação

É hora de chamar os economistas neoliberais (tanto os da escola austríaca como os tributários de Chicago) para a peleia intelectual, desembainhando as adagas e duelando. Qualquer economista político de mediana capacidade desmente estas premissas pseudo-científicas, que nada mais são do que modelos doutrinários pré-concebidos. Tanto a leitura do já citado espanhol Vincenç Navarro, como do professor da PUC-SP, Ladislau Dowbor (http://www.dowbor.org/) em seus excelentes ensaios "A crise financeira sem mistérios" e "Manifesto por uma Democracia Econômica", bastam para compreender os mecanismos da estafa que a mídia "especializada" (como The Economist, ou Intereconomía da Espanha) batizara de "crise", como para interpretar as formas de discurso que busca re-legitimar os pactos entre Estados através dos interesses de bancos e fundos de investimento.

Vale observar mais uma vez o fenômeno da desinformação estrutural, implicando nos sentidos massificados pela mídia corporativa e a favor da globalização transnacional capitalista. Mesmo não sendo cientificamente comprovado, reconhecemos que o termo crise é o mais evidente, e que não fica tão nítida para o leitor, sobre o que se sustenta a tese de q na verdade não existe uma crise. A média das pessoas está convencida de que a "crise" existe e simplesmente afirmar que isso é uma invenção de alguns agentes manipuladores, parece insuficiente. Reconhecemos, é necessário algo que justifique ou explique isso, alguma evidencia. Este conceito da "fraude com nome de crise" pode ser afirmado a partir do postulado de que é impossível haver equívoco entre agentes com experiência e forte posição de mercado, quando estes mesmos agentes são detentores de informação perfeita. Estes são os causadores das fraudes em escala global, cuja conta que não fecha e é comprometedora de todo o sistema financeiro, termina por afogar os caixas nacionais, ou supra-nacionais, como é  o caso da Europa unificada. Estes são os causadores da "crise", os mega especuladores, os fraudadores, cujas posições iniciais terminam por gerar o comportamento de manada nos demais especuladores e agentes com menor poder de barganha.

A desfaçatez é tamanha que o próximo presidente do Banco Central Europeu já traz consigo a marca da direita financeira. O italiano Mario Draghi, que irá assumir no início de 2012, é um operador das privatizações de estatais italianas, incluindo o muito conhecido no Brasil imbróglio da Telecom Italia – que tem conseqüências na disputa de controle pela Brasil Telecom contra o Citigroup, tendo como fiel da balança e voto de minerva na composição acionária a ninguém menos do que o Opportunity na figura de Daniel Dantas. Além disso, Draghi é simplesmente um ex-alto executivo da Goldman Sachs, empresa de fundos de investimento de risco cujo DNA está contém uma das maiores fraudes em papéis e ativos da história mundial, cujo operador principal fora Henry Paulson. Esta é outra evidência para expormos a tese de dependência dos Estados ao setor financeiro privado ou para-estatal. O poder desses agentes é tanto que eles escolheram o presidente do BC europeu.

A Europa do Sul é a América Latina de ontem?

A situação de Portugal, Espanha e Grécia é pior que a dos países da América Latina sob alguns aspectos. O fato destes países não terem a senhoriagem do dinheiro, não poderem desvalorizar seu câmbio, apenas aprofundará o sofrimento desses povos. Num momento como esse, um país que manda em sua moeda pode recorrer a uma desvalorização. Assim, com essa desvalorização, se redefinem os preços dentro do país e compensa a ineficiência produtiva deste. Deste modo, em um momento de queda de demanda (família, governos – central e sub-nacionais – e empresários param de gastar e investir) a demanda externa pode amenizar a situação. É preciso recordar que, para estes países, a adoção do euro foi dolorosa, pois os cidadãos sentiram a perda no realinhamento dos preços – sendo tudo arredondado para cima, menos os salários. Muito parecido com os primeiros anos da adoção do Plano Real no Brasil, quando saímos da estagflação (estagnação econômica com inflação galopante), para a estagnação com a economia estável. Em suma, fizeram um pobre grego usar uma moeda do nível da Alemanha, cabendo a esta última pagar a maior parte da conta da Europa inteira.

Não apenas estes países estão enrascados, a Itália, por exemplo, logo entra no mesmo problema. Isto pode gerar efeitos de aprofundamento do problema, chegando ao conjunto da União Européia, comprometendo, por motivos de interdependência, uma grande parcela da economia mundial. Nunca é demais lembrar que o mecanismo de concentração e empobrecimento, além de matar pessoas, depois de muito tempo, pode chegar inclusive a atingir uma parte dos próprios bancos. A solução Keynesiana de "gastem e se endividem com juros baixos", já foi aplicada. E agora restam poucos instrumentos para recuperar a saúde da economia.   

Nesta situação desesperadora, com a Europa à beira de um ataque de nervos, é onde verificamos os reais limites da democracia representativa e da unificação através de mercados, como não condizentes com as promessas tanto de Bem-Estar Social como de exercício soberano da vontade das maiorias. Os governos de Portugal, Espanha e Grécia estão diante de um túnel do tempo, retrocedendo ao período em que na América Latina, o FMI ditava as regras e o Poder Executivo de nossos países operava como títere deste organismo multilateral.

Mas, como sempre, há esperança e esta vem de baixo. A democracia se reinventa nas praças das maiores cidades espanholas e nas ruas da Grécia.


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segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Essência do Sistema!

A análise do Sistema Econômico e Político Global, pelo aspecto da hegemonia dos EUA mais Europa, precisa ser visto pela sua ideologia dominante e pelos elementos concretos de sua ação, assim vejamos:
A partir da elaboração de um eminente formulador - Wladimir Pomar - "Um dos problemas da ultra-esquerda é que continua não distinguindo neoliberalismo de liberalismo.  É verdade que ambas são políticas oriundas do capitalismo, do mesmo modo que o democratismo burguês.  No entanto, do mesmo modo que o liberalismo foi a política de superação do democratismo burguês, o neoliberalismo é a política de superação do liberalismo.  O democratismo burguês marcou a revolução burguesa, prometendo liberdade, fraternidade e igualdade para todos, enquanto o liberalismo, que o sucedeu, fincou pé na liberdade de compra e venda da força de trabalho pelo capital, na fraternidade da paz social, mesmo que com o auxílio das baionetas, e na igualdade formal das oportunidades, mesmo que a igualdade formal do sufrágio universal tivesse que ser conquistado nas barricadas.  De qualquer modo, o liberalismo marcou o período de consolidação do capitalismo, no qual todos os seus ramos gozavam de liberdade, fraternidade e igualdade na concorrência do mercado."
O Liberalismo constitui-se em uma ideologia, aliás, bem tradicional, agora o Neoliberalismo nem isto alcança, não passa de um embuste, é um agregado pragmático de ações visando a concentração de poder e riqueza sem limites, sem ponderações, sem idealismo construtivo. E o resultado de sua implantação é a desagregação acelerada de países e sociedades.
Os pressupostos do ideário liberal podem ser notados, por exemplo, operando no STF brasileiro, uma instituição de perfil conservador mas também de tendência liberal, e ao mesmo tempo em que julga constitucional a lei Maria da Penha, garante uma avançada interpretação de igualdade de direitos a homossexuais e ademais libera as manifestações e desinterdita o debate sobre drogas. Por outro lado o STF também anula grandes investigações contra a alta burguesia nacional como Satiagraha e Castelo de Areia, e por fim normatiza que não é cabível o uso de algemas para crimes de colarinho branco, isto deixa claro o que é liberalismo nos costumes e liberalismo de mercado elitista. Os dois convivem e é esta a organização social proposta pela corte.
As questões estão imbricadas mas também hierarquizadas, e a excelência da análise política sempre estará determinada pela capacidade em visualizar um sistema com seus inter-relacionamentos e valorações.
O sistema é global, e todo um grupo de grandes diretrizes do mercadismo e estão sendo implantados em cada um dos países do mundo, inclusive e fortemente no Brasil, citamos os elementos essenciais destas diretrizes:
- Respeito absoluto a propriedade e aos contratos, por cima de sua função social
- Reforço e respeito ao sistema de patentes e direitos autorais
- Garantia total a dívidas e acordos financeiros, independente da equanimidade e da justiça
- Liberdade de fluxos de capitais, financeirização aprofundada, concentração primária de benefícios no sistema financeiro, desregulamentação bancária.
- Proteção e garantia a investimentos estrangeiros, inclusive por sobre as leis do país
- Deslocalização e desnacionalização de capitais, transnacionalização de empresas,
- Dissolução da propriedade empresarial no mercado de ações
- Manutenção do sistema de paraísos fiscais e isenções tributárias para as corporações
- Acordos supranacionais de regulação do comércio internacional com foco liberalizante
- Consolidação de Bancos Centrais totalmente independentes como o BC-Europeu,  ou independentes e "privatizados" como o FED dos EUA
- Controle da emissão de moeda via dívida governamental e endividamento público acentuado.
- Democracia representativa, com abolição de qualquer espaço de democracia direta e definição de financiamento totalmente privado de campanhas.
- Abolição do conceito de setores estratégicos ou exclusivos de propriedade públicos
- Privatização completa de serviços públicos, desmonte do estado de bem estar social
- Liberdade corporativa de imprensa, mídia privada e interconectada
- Controle da internet e da expressão pública
- Totalidade da produção agropecuária baseada em trangênicos patenteados
- Medicina focada na doença e mediada pela tecnologia, cada vez mais cara e não preventiva
- Educação privada e endividamento acentuado para os cursandos de universidades
- Desmonte do sindicalismo, alienação e desmobilização social.
- Regulação, controle e tributação das emissões de carbono, pois toda a atividade humana ou econômica gera carbono, o resultado político disto é que quem regula a emissão de CO2 controla tudo, todo o ciclo econômico e social e a própria vida.
- Erradicação do pleno emprego, rebaixamento de benefícios sociais, uniformização global de custos salariais e mobilidade de mão de obra.
- Tributação regressiva, com os assalariados pagando proporcionalmente mais impostos
- Ação governamental restrita e com ênfase na proteção concessão de privilégios a setores privados e a estatização de prejuízos
- Instituição de agências reguladoras independentes e seqüestradas pelo mercado e auto-regulamentação de setores econômicos
- Liberdade de cartel e monopólio privados, fusões e consolidações empresariais.
 
O maior segmento destas diretrizes são tradicionalmente liberais, as mais recentes são de perfil mais neoliberal.
A lógica do conjunto é o de afastar dos governos nacionais, da vontade democrática da população e dos sistemas legais a gestão e controle do processo econômico. Passando pela  eliminação das próprias salvaguardas liberais contra as deformações do mercado como o cartel.
Condiciona-se a lógica política com o aprofundamento do déficit democrático e o rebaixamento dos estados nacionais, com a resultante da consolidação da supremacia das corporações privadas transnacionais.
Todas e cada uma destas diretrizes têm sido introduzidas em nosso país, e tem-se avançado no seu aprofundamento, estamos perdendo, piorando e regredindo na maior parte delas, o governo Lula não fez mais que diminuir a velocidade em alguns pontos, em outros até aumentou.
Além do mais o sistema mundial é perigoso e agressivo, e quando centro hegemônico do capitalismo, "EUA e o consórcio Europeu", não conseguem a conversão das elites locais como ocorreu no Brasil na era Collor e FHC, parte-se para o ataque direto com ação em processos eleitorais como no México, até formas mais incisiva como as "revoluções coloridas" na Ucrânia, o apoio e reconhecimento a golpes de estado (Honduras), desencadeamento de guerras civis e a desagregação de países como na Iugoslávia, a ação militar em suporte a facções como no Afeganistão e agora na Líbia, ou a invasão direta como no Iraque. Este processo agressivo de expansão vem desde a Guerra Fria, e aprofundou-se depois da dissolução da URSS, agora é pau puro.
Assim que o Iraque foi conquistado iniciou-se a implantação sistemática de todas as diretrizes do sistema, a mesma coisa planeja-se para a Líbia, assim como na Grécia onde a economia foi colapsada em uma articulação construída pelo próprio sistema, a neoliberalização grega será aprofundada em prejuízo da soberania do país.
Recordemos que o modelo de capitalismo segregacionista e aristocrático foi dominante até a Segunda Guerra Mundial, e foi levado ao extremo pelo capitalismo nazi-fascista europeu e o império monárquico japonês, mas foram derrotados, quem se impôs foi a estratégia do capitalismo liberal. Mas o racismo ainda perdura e faz parte do sistema econômico e social da maior parte do mundo e do nosso país.
Mas o hoje segregacionismo não está no centro dos elementos estruturais do sistema. O capitalismo liberal avança com liberdade de costumes e igualdade de cidadania, mantendo-se o regime de propriedade e concentração de rendas e poder.
O lugar do segregacionismo, do racismo, da discriminação, o ataque a questões de costumes, também são dados culturais, enraizados no sistema de classes histórico e usados pesadamente no jogo político, haja vista a última eleição presidencial.
Olhando com perspectiva, e tendo a II Guerra Mundial como ponto de inflexão, visualizemos como era a sociedade brasileira em 1950. De lá para cá as questões de gênero, raça, etnia e costumes tiveram um avanço notável, agora o sistema concentrador do mercado amainou? Pelo contrário, aprofundou-se, sofisticou e entrelaçou-se em um emaranhado do tamanho do mundo.
O caminho político está no reforço da ênfase dos setores democrática populares e dos nacional-desenvolvimentistas no entendimento e confrontação dos princípios condutores da estratégia liberal/neoliberal, que são muito reais e objetivos, e que levam a desnacionalização da riqueza e do poder, a estagnação e regressão social, a destruição da natureza e a liquidação de perspectivas desenvolvimentistas e emancipadoras do país.
Por WK

domingo, 3 de julho de 2011

A Inconstitucionalidade dos Pedágios e os Direitos Fundamentais

Direito fundamental de ir e vir

Do Blog ContextoLivre
 

Entre os diversos trabalhos apresentados, um deles causou polêmica entre os participantes. "A Inconstitucionalidade dos Pedágios", desenvolvido pela aluna do 9º semestre de Direito da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) Márcia dos Santos Silva chocou, impressionou e orientou os presentes.
A jovem de 22 anos apresentou o "Direito fundamental de ir e vir" nas estradas do Brasil. Ela, que mora em Pelotas, conta que, para vir a Rio Grande apresentar seu trabalho no congresso, não pagou pedágio e, na volta, faria o mesmo. Causando surpresa nos participantes, ela fundamentou seus atos durante a apresentação.
Márcia explica que na Constituição Federal de 1988, Título II, dos "Direitos e Garantias Fundamentais", o artigo 5 diz o seguinte: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade" E no inciso XV do artigo: "é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens". A jovem acrescenta que "o direito de ir e vir é cláusula pétrea na Constituição Federal, o que significa dizer que não é possível violar esse direito.
E ainda que todo o brasileiro tem livre acesso em todo o território nacional. O que também quer dizer que o pedágio vai contra a constituição".
Segundo Márcia, as estradas não são vendáveis. E o que acontece é que concessionárias de pedágios realiza contratos com o governo Estadual de investir no melhoramento dessas rodovias e cobram o pedágio para ressarcir os gastos.
No entanto, no valor da gasolina é incluído o imposto de Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico (Cide), e parte dele é destinado às estradas. "No momento que abasteço meu carro, estou pagando o pedágio. Não é necessário eu pagar novamente. Só quero exercer meu direito, a estrada é um bem público e não é justo eu pagar por um bem que já é meu também", enfatiza.
A estudante explicou maneiras e mostrou um vídeo que ensinava a passar nos pedágio sem precisar pagar. "Ou você pode passar atrás de algum carro que tenha parado. Ou ainda passa direto. A cancela, que barra os carros é de plástico, não quebra, e quando o carro passa por ali ela abre. Não tem perigo algum e não arranha o carro", conta ela, que diz fazer isso sempre que viaja. Após a apresentação, questionamentos não faltaram.
Quem assistia ficava curioso em saber se o ato não estaria infringindo alguma lei, se poderia gerar multa, ou ainda se quem fizesse isso não estaria destruindo o patrimônio alheio.
As respostas foram claras. Segundo Márcia, juridicamente não há lei que permita a utilização de pedágios em estradas brasileiras. Quanto a ser um patrimônio alheio, o fato, explica ela, é que o pedágio e a cancela estão no meio do caminho onde os carros precisam passar e, até então, ela nunca viu cancelas ou pedágios ficarem danificados.
Márcia também conta que uma vez foi parada pela Polícia Rodoviária, e um guarda disse que iria acompanhá-la para pagar o pedágio. "Eu perguntei ao policial se ele prestava algum serviço para a concessionária ou ao Estado. Afinal, um policial rodoviário trabalha para o Estado ou para o governo Federal e deve cuidar da segurança nas estradas. Já a empresa de pedágios, é privada, ou seja, não tem nada a ver uma coisa com a outra", acrescenta.
Ela defende ainda que os preços são iguais para pessoas de baixa renda, que possuem carros menores, e para quem tem um poder aquisitivo maior e automóveis melhores, alegando que muita gente não possui condições para gastar tanto com pedágios. Ela garante também que o Estado está negando um direito da sociedade. "Não há o que defender ou explicar. A constituição é clara quando diz que todos nós temos o direito de ir e vir em todas as estradas do território nacional", conclui. A estudante apresentou o trabalho de conclusão de curso e formou-se em agosto de 2008. Ela não sabia que área do Direito pretende seguir, mas garante que vai continuar trabalhando e defendendo a causa dos pedágios.

Aúdio encontrado no Blog do Mutirão

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Los banqueros se preparan para violar a Grecia: los socialdemócratas votan por el suicidio nacional

 

Michael Hudson CounterPunch

 

Traducido del inglés para Rebelión por Germán Leyens

La lucha por el futuro de Europa se está librando en Atenas y otras ciudades griegas que se resisten a las exigencias financieras que son la versión en el Siglo XXI de un ataque militar directo. Sin duda, la amenaza de supremacía de los bancos no es el tipo de política asesina de la economía que proporcione oportunidades para mostrar heroísmo en la batalla armada. Las políticas financieras destructivas se parecen más a un ejercicio en la banalidad del mal, en este caso las conjeturas favorables a los acreedores del Banco Central Europeo (BCE), la UE y el FMI (incitado por el Tesoro de EE.UU.).

Como señaló Vladimir Putin hace algunos años, las reformas neoliberales colocadas en manos de Boris Yeltsin por los Harvard Boys en los años noventa, llevaron a que Rusia sufriera tasas de natalidad más bajas, esperanza de vida más corta y emigración –la mayor reducción del crecimiento de la población desde la Segunda Guerra Mundial. La huída de capitales es otra consecuencia de la austeridad financiera. La "solución" al problema de la deuda de Grecia propuesta por el BCE es por lo tanto contraproducente. Solo sirve para que el BCE gane tiempo para apoderarse de más deuda del gobierno griego, dejando que todos los contribuyentes de la UE paguen la cuenta. Para evitar ese traspaso de las pérdidas de los bancos a los contribuyentes, Angela Merkel en Alemania ha insistido en que los dueños privados de bonos deben absorber parte de la pérdida que resulta de sus malas inversiones.

Los banqueros tratan de obtener una ganancia inesperada utilizando el martillo de la deuda para lograr lo que hacía la guerra en el pasado. Exigen la privatización de activos públicos (a crédito, con deducción tributaria para los intereses de manera que quede más flujo de efectivo para pagar a los banqueros). Esta transferencia de tierras, servicios públicos e intereses como botín financiero y tributo a las economías acreedoras es lo que hace que la austeridad financiera se parezca a la guerra en su efecto.

Sócrates dijo que la ignorancia debe ser la raíz de todo mal, porque nadie se propone deliberadamente ser malo. Pero la "medicina" económica de llevar a los deudores a la pobreza y de forzar la venta de su dominio público se ha convertido en una sabiduría socialmente aceptada enseñada en las actuales escuelas de gestión. Se pensaría que después de cincuenta años de programas de austeridad y de ventas de privatización para pagar malas deudas, el mundo habría aprendido bastante sobre las causas y las consecuencias.

La profesión bancaria decide deliberadamente ser ignorante. La "Buena práctica aceptada" está apoyada por Premios Nobel de Economía para suministrar un manto de negabilidad plausible cuando los mercados son "inesperadamente" vaciados y la nueva inversión disminuye como resultado de economías que se desangran en lo financiero al estilo medieval, mientras la riqueza es absorbida por la punta de la pirámide económica.

A mi amigo David Kelley le gusta citar el comentario sarcástico de Molly Ivins: "Es difícil convencer a la gente de que la estás matando por su propio bien". El intento de la UE de hacerlo no tuvo éxito en Islandia. Como los islandeses, los manifestantes griegos están hasta la coronilla de docta ignorancia neoliberal de que la austeridad, el desempleo y los mercados en contracción son el camino hacia la prosperidad, no a más pobreza. Por lo tanto hay que preguntar ¿qué motiva a los bancos centrales a promover a administradores con estrechez de miras, que siguen las órdenes y la lógica de un sistema que impone innecesarios sufrimientos y desperdicio, todo para continuar con la banal obsesión de que los bancos no deben perder dinero?

Hay que concluir que los nuevos planificadores centrales de la UE (¿No es lo que Hayek dijo que era el Camino a la Servidumbre?) actúan como guerreros de clase al exigir que todas las pérdidas sean sufridas por las economías al imponer la deflación de la deuda y al permitir que los acreedores se apoderen de activos. Como si esto no empeorara el problema. Esta línea dura del BCE está respaldada por el secretario del Tesoro de EE.UU., Geithner, evidentemente a fin de que las instituciones estadounidenses no pierdan sus apuestas en juegos de derivados que han emprendido.

Es una repetición de la intervención de Geithner para impedir el alivio de la deuda irlandesa. El resultado es que entramos en un territorio absurdo en el cual el BCE y el Tesoro insisten en "renegociación voluntaria" sobre la base de que algún banco puede haber tomado un riesgo del tipo AIG al ofrecer seguro contra default o apuesta a que pueda hacerlo perder tanto dinero que sería necesario otro rescate. Es como si el juego financiero fuera económicamente necesario, no parte de Las Vegas. ¿Por qué les iba a importar un dracma a los griegos? Es un problema regulatorio entre bancos europeos. Pero para soslayarlo, el BCE dice a Grecia que venda sus derechos de agua y de alcantarillado, puertos, islas y otra infraestructura.

Esto vira hacia el teatro financiero del absurdo. Por cierto, algunos intereses especiales siempre se benefician del absurdo sistémico, por banal que sea. Los mercados financieros siempre se han basado en que Grecia terminará por hacer default. Sólo es cuestión de cuándo. Los bancos están aprovechando el tiempo para apoderarse de todo lo que pueden y pasar las pérdidas al BCE, la UE y el FMI, instituciones "públicas" que tienen más influencia que los acreedores privados. Por lo tanto los banqueros se convierten en patrocinadores de lo absurdo y de la economía chatarra lanzada tan irreflexivamente por los ejecutores, porristas por la banalidad del mal. No importa realmente si sus nombres son Trichet, Geithner o Papandreu. Solo son bultos emparentados sobre el calamar vampiro de las demandas de los acreedores.

Las multitudes griegas que se manifiestan frente al Parlamento en la Plaza Syntagma están suministrando su contraparte a la "primavera árabe". Pero en realidad, ¿qué pueden hacer, a falta de violencia, mientras la policía y los militares se ponen de parte del gobierno que por su parte se pone de parte de los acreedores extranjeros?

La táctica más efectiva es pedir un referendo nacional sobre si se aceptan los términos de austeridad, aumentos de impuestos, recortes de los gastos públicos y privatizaciones del BCE. Es como el presidente de Islandia impidió que la dirigencia socialdemócrata de su país comprometiera la economía a pagos ruinosos (e innecesarios desde el punto de vista legal) ante las exigencias del Partido Laborista de Gordon Brown y de los holandeses para Icesave e incluso los rescates de Kaupthing.

La única base legal para exigir el pago del rescate por la UE de bancos franceses y alemanes -y la exigencia del secretario del Tesoro de EE.UU., Tim Geithner, de que las deudas deben ser sacrosantas, no las vidas de los ciudadanos– es la aceptación y aquiescencia pública de una política semejante. De otra manera la imposición de la deuda podría tratarse simplemente como un acto de guerra financiera.

Las economías nacionales tienen derecho a defenderse contra una agresión semejante. Los dirigentes populares pueden insistir en que, a falta de un referendo, se proponen elegir un programa político comprometido con la anulación directa de la deuda. El derecho internacional prohíbe que las naciones traten a sus propios ciudadanos de un modo diferente a los extranjeros, de modo que todas las deudas en categorías específicas deberían anularse para crear una Tabula Rasa. (La Reforma Monetaria Alemana de 1947 impuesta por las Potencias Aliadas fue la Tabula Rasa más exitosa de los tiempos modernos. Liberar a la economía de la deuda [incluidas las reparaciones a Grecia por el descalabro de la Segunda Guerra Mundial] se convirtió en la base del milagro económico alemán.)

No se trata de la primera propuesta semejante para Grecia. Hacia finales del Siglo III a.de C., los reyes de Esparta, Agis y Cleómenes, presionaron por la cancelación de una deuda, cómo lo hizo Nabis después de ellos. Plutarco cuenta la historia, y también explica el trágico defecto de esa política. Propietarios absentistas que habían pedido prestado para comprar bienes raíces respaldaron la cancelación de la deuda, obteniendo un inmenso beneficio.

Sería mucho más el caso en la actualidad que en el pasado, cuando la gran masa de la deuda es deuda hipotecaria. Imaginad lo que una cancelación de la deuda haría a los Donald Trump de la economía –habiendo adquirido propiedad con crédito con un mínimo de inversión propia, ¡debiendo repentinamente nada a los bancos! El objetivo de una reforma financiera-fiscal debería ser liberar la economía de gastos fijos financieros que son tecnológicamente innecesarios. Para evitar hacer un regalo a los propietarios absentistas, una cancelación de la deuda tendría que combinarse con un impuesto a la renta económica. El sector público recibiría el valor de arrendamiento de la tierra como su base fiscal.

Sucede que éste era el objetivo básico de los economistas del libre mercado del Siglo XIX: gravar la tierra y la naturaleza –y los monopolios naturales– en lugar de gravar el trabajo y los bienes capitales. El objetivo era mantener para el público lo que crean la naturaleza y la infraestructura pública. Hace un siglo se creía que los monopolios como los que ahora tienen en la mira los privatizadores deberían ser operados por el sector público; o, si se dejaban en manos públicas, sus precios serían regulados para mantenerlos en línea con los costes reales de producción. En los casos en los que propietarios privados ya habían tomado posesión de la tierra, las minas o los monopolios, el ingreso de la renta de esos privilegios de propiedad sería totalmente gravado. Esto incluye el privilegio financiero del que gozan los bancos en la creación de crédito.

El camino para reducir costes es reducir los "malos" impuestos que aumentan el precio de producción, sobre todo los impuestos sobre la mano de obra y el capital, los impuestos a la venta y los impuestos al valor agregado. Al contrario, los impuestos a la renta recaudan el "almuerzo gratuito" de la economía, y por lo tanto dejan menos disponibilidad para comprometerla con los bancos para ser capitalizada en servicio de la deuda en préstamos más elevados. Al transferir la carga tributaria griega de la mano de obra a la propiedad se reduciría el precio de de suministro de mano de obra, y también el precio de la vivienda que está aumentadndo debido a los créditos bancarios.

Un cambio del impuesto sobre la tierra fue la propuesta primordial de reforma de los siglos XVIII y XIX, de los fisiócratas y de Adam Smith hasta John Stuart Mill y los reformadores de la Era Progresista de EE.UU. El objetivo era liberar los mercados de las rentas hereditarias de la aristocracia terrateniente originadas en la conquista vikinga medieval. Esto liberó las economías del feudalismo, y mantuvo a raya los precios en relación con los costes de producción socialmente necesarios.

Todo gobierno tiene el derecho de cobrar impuestos, mientras lo haga uniformemente a los propietarios del interior así como a los propietarios extranjeros. Fuera de re-nacionalizar la tierra y la infraestructura la imposición completa de su renta económica (pagos de acceso para lugares cuyo valor es creado por la naturaleza o por mejoras públicas) devolvería a las autoridades griegas lo que los acreedores tratan de agarrar.

Esta clásica amenaza de los reformadores del Siglo XIX es la respuesta que los griegos pueden dar al Banco Central Europeo. Pueden recordar al resto del mundo que fue, después de todo, el ideal de los mercados libres como fue expresado desde Adam Smith a John Stuart Mill en Inglaterra, y que fue la base de los gastos públicos, las agencias reguladoras y la política tributaria de EE.UU. durante su período de ascenso.

Cuán extraño (y triste) es que el propio Partido Socialista que gobierna en Grecia, cuyo líder dirige la Segunda Internacional, haya rechazado este programa centenario de reformas. No es comunismo. No es ni siquiera inherentemente revolucionario, o por lo menos no lo era cuando se formuló. Es socialismo del tipo reformista en el que culminaron dos siglos de economía política clásica.

Pero es el tipo de mercados libres contra el que lucha el BCE, respaldado por las estridentes exhortaciones del secretario del Tesoro Geithner de EE.UU. Obama no dice nada, deja en manos de burócratas de Wall Street la fijación de la política económica nacional. ¿Está mal? ¿O es solo pasivo e indiferente? ¿Representaría una gran diferencia para el resultado final?

Resumiendo, los objetivos de la agresión financiera extranjera son los mismos que en la conquista militar: la tierra y el dominio público. Pero las naciones tienen derecho a gravar el rendimiento de la renta además del rendimiento de la inversión de capital. Contrariamente a las demandas de la UE de "devaluación interna" (recortes de salarios) como medio para reducir el precio de la mano de obra griega para hacerla más competitiva, la reducción de los niveles de vida no es el camino a seguir. Reduce la productividad de la mano de obra mientras erosiona el mercado interior, llevando a una espiral en deterioro de contracción económica.

La necesidad de un referendo popular

Todo gobierno tiene derecho y por cierto la obligación política de proteger su prosperidad y subsistencia a fin de mantener a su población dentro del país en lugar de conducirla a emigrar o a una posición de dependencia financiera de rentistas. En el corazón de la democracia económica está el principio de que ninguna nación soberana tiene la obligación de renunciar a su dominio público o a sus impuestos, y por ello a su prosperidad económica y su subsistencia futura, ante los extranjeros o en cualquier caso a una clase financiera interior. Por eso Islandia votó "no" en el referendo de la deuda. Su economía se está recuperando.

Irlanda votó "sí" y ahora enfrenta una nueva gran emigración comparable con la que sobrevino después de las emigraciones impulsadas por la pobreza y la hambruna de mediados del Siglo XIX. Si Grecia no fija un límite, será una victoria de la agresión financiera y fiscal que le impondrá la esclavitud por deudas.

Las finanzas se han convertido en el modo de guerra preferido del Siglo XXI. Su objetivo es apropiarse de la tierra y la infraestructura pública para sus propias elites del poder. El logro de este objetivo por medios financieros, imponiendo la esclavitud por deudas a poblaciones sometidas, evita el sacrificio de vidas de la potencia agresora, pero solo mientras los países deudores sometidos acepten voluntariamente su carga. Si no hay referendo, la economía nacional no se puede responsabilizar de pagar las deudas debidas incluso a acreedores "preferidos": el FMI y el BCE. Activos que se privatizan por insistencia de bancos extranjeros pueden ser re-nacionalizados. Y exactamente igual que las naciones atacadas militarmente pueden entablar un proceso legal, Grecia puede presentar una demanda por la devastación causada por la austeridad, los empleos perdidos, la producción perdida, la población perdida, la fuga de capitales.

La economía griega no recibirá los fondos de un "rescate" del BCE. Los bancos recibirán el dinero. Les gustaría darle vuelco y volver a prestárselo de nuevo a los compradores de la tierra, los monopolios y otras propiedades que dicen que Grecia debe privatizar. Los ingresos que cobren (indudablemente aumentando las tarifas al hacerlo, para cubrir el interés y otorgarse los usuales aumentos de salarios sobre propiedad privatizada) se pagarán como intereses. ¿No es como un tributo militar?

Margaret Thatcher solía decir "No hay alternativa". Pero evidentemente existe. Grecia puede optar por no participar en este despilfarro de activos y de privilegio económico para los acreedores.

¿Qué dicen los colegas de Papandreu de la Internacional Socialista sobre los actuales acontecimientos en Grecia? Supongo que es evidente que la antigua Internacional Socialista está muerta, dado el hecho que Papandreu es, después de todo, su jefe. Lo que pasa hoy por socialismo es diametralmente opuesto de las reformas promovidas bajo su nombre hace un siglo, en la era anterior a la Primera Guerra Mundial. Los partidos socialdemócratas y laboristas europeos de la actualidad han encabezado el camino de la privatización, de la financiarización de sus economías bajo condiciones que han bloqueado el crecimiento de los niveles de vida. El resultado promete ser un realineamiento político internacional.

La austeridad económica no puede garantizar las demandas de los acreedores

El jueves por la tarde el Dow, que había bajado 230 puntos, dio un salto al cierre para perder "solo" 60 puntos, por los rumores de que Grecia había aceptado el plan de austeridad del FMI. ¿Pero qué es Grecia? ¿Es solo el gabinete? Ciertamente no todo el Parlamento. ¿Habrá una votación parlamentaria opuesta al interés público, que acepte austeridad y privatización?

Solo un referendo puede comprometer al gobierno griego a pagar nuevas deudas impuestas bajo la austeridad. Solo un referendo puede impedir que propiedad que está privatizada se re-nacionalice. Una transferencia semejante no es legítima según ideas comúnmente aceptadas de democracia política y económica. Y en todo caso, un impuesto sobre la renta puede recuperar para la economía griega lo que los agresores financieros tratan de agarrar.

La historia está llena de ejemplos instructivos. Oligarquías locales en la región invitaron a Roma a atacar Esparta, y derrocó a los reyes y a su sucesor Nabis (quien puede haber sido real). La secuela es que Roma dirigió un imperio oligárquico, utilizando la violencia en el interior para asesinar a reformadores democráticos como los hermanos Gracchi después de 133 A. de C., arrojando a la república a un siglo de guerra civil. Los intereses acreedores terminaron por estar en control total, y su propio egoísmo banal arrojó a la mitad occidental del Imperio Romano a una Edad Oscura económica y social.

Esperemos que esta vez el resultado sea mejor. Ciertamente habrá luchas, pero más en la esfera financiera y fiscal que en la abiertamente militar. En última instancia la lucha sólo se puede ganar si se comprenden la corrosiva dinámica de la "magia del interés compuesto" y la necesidad social de subordinar los intereses de los acreedores a los de la economía "real" en general. Pero para lograr esto, la propia teoría económica tiene que sacarse de su actual banalidad posclásica "neoliberal".

Michael Hudson es ex economista de Wall Street, distinguido profesor investigador de la Universidad de Missouri, en Kansas City, y autor de numerosos libros, entre ellos: "Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire" (nueva edición, Pluto Press, 2002) y "Trade, Development and Foreign Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy". Puede contactarse con él en: mh@michael-hudson.com

Fuente: http://www.counterpunch.org/hudson06242011.html

 

domingo, 26 de junho de 2011

Vientos de revolución en Islândia

De Atilio Boron


Alrededor del año 2000 el gobierno conservador de Islandia impulsó un radical programa de restructuración económica neoliberal dando comienzo a una apertura comercial indiscriminada y un amplio y acelerado proceso de privatizaciones y desregulaciones. En el sector financiero esto fue particularmente acentuado: los tres principales bancos de Islandia, el Glitnir, el Landsbanki y el Kaupthing, hasta entonces pequeñas entidades públicas –téngase en cuenta que la población total del país es de unos 330.000 habitantes- fueron privatizados, al paso que la legislación regulatoria de las ... (clic abajo en Más información)
finanzas y los bancos y las auditorías gubernamentales sobre el sistema financiero fueron considerablemente relajadas. Tal como lo afirma el narrador del excelente documental Inside Job, lo ocurrido en Islandia fue casi con seguridad el "más puro experimento jamás ensayado en materia de desregulación financiera." [1]
Insertos de lleno en la dinámica especulativa del casino financiero mundial estos tres pequeños bancos que nunca habían operado fuera de Islandia obtuvieron préstamos –endeudándose, naturalmente- por valor de unos 120.000 millones de dólares, una cifra entre casi diez veces superior al producto bruto islandés. El resultado fue la conformación de una gigantesca burbuja que infló los precios de las acciones diez veces por encima de su valor anterior mientras que los inmuebles aumentaban casi al triple. Coherentes con este tipo de operaciones los bancos aconsejaban a sus clientes transferir sus depósitos a los nuevos instrumentos bursátiles ahora disponibles, para beneficiarse del auge de los negocios especulativos con inversiones realizadas en aquellas regiones del capitalismo globalizado donde hubiera mejores perspectivas de rentabilidad. Todo este disparate se llevó a cabo sin provocar la menor inquietud de las autoridades reguladoras islandesas. No sólo eso: una de las tres mayores firmas de auditoría contable del mundo, la estadounidense KPMG (que emplea a 138.000 profesionales para atender sus negocios en más de 150 países) auditó a los bancos islandeses y sus proyectos de inversión sin que sus sagaces expertos detectaran la menor irregularidad en sus operaciones, pese a un desorbitado endeudamiento que no sólo superaba los activos de los bancos sino varias veces el producto bruto de la isla. Peor aún, tan tardíamente como en Febrero del 2007, las calificadoras de crédito norteamericanas les otorgaron a esos bancos, ya abiertamente involucrados en operaciones especulativas a escala global, la máxima calificación posible: AAA. Una vez más se confirma que todo el entramado de instituciones financieras globales, comenzando por el FMI y el Banco Mundial y siguiendo con los bancos de inversión, las calificadoras de créditos, y las consultoras y auditoras internacionales, amparadas por las diversas agencias reguladoras nacionales no es otra cosa que una siniestra conspiración mediante la cual un grupo de ladrones y estafadores al servicio del capital -absolutamente inmorales y dispuestos a cometer cualquier crimen- planifica, organiza y ejecuta el despojo de los trabajadores a escala mundial.

Interesado en recoger las enseñanzas que se derivan del caso islandés, en enero de este año el sitio web  www.nosimibici.com publicaba una nota sin firma en la cual saludaba los acontecimientos que estaban teniendo lugar en esa isla y hacía una prolija enumeración de los hechos principales ocurridos desde el momento en que se produjo el desplome de la economía islandesa.[2] La crónica incluía los siguientes ítems, algunos de los cuales hemos ampliado añadiendo nuevos antecedentes:
  • A finales de 2008, los efectos de la crisis son devastadores. En octubre se nacionaliza Landsbanki, principal banco del país. El gobierno británico congela todos los activos de su subsidiaria IceSave, con 300.000 clientes británicos y 910 millones de euros invertidos por administraciones locales y entidades públicas del Reino Unido. A Landsbanki le seguirán los otros dos bancos principales, el Kaupthing el Glitnir. Sus principales clientes están en ese país y en Holanda, clientes a los que los gobiernos de esos dos países tienen que reembolsar sus ahorros por un monto de 3.700 millones de euros apelando a fondos públicos. A esta altura de los acontecimientos el conjunto de las deudas bancarias de Islandia equivale a unas diez veces su PIB. Por otro lado, la moneda se desploma y la bolsa suspende su actividad tras un hundimiento del 76%. El país está en bancarrota.
  • El gobierno solicita oficialmente ayuda al Fondo Monetario Internacional, que aprueba un préstamo de 2.100 millones de dólares, completado por otros 2.500 millones que aportan algunos países nórdicos.
  • Las protestas ciudadanas frente al parlamento en Reykjavik van en aumento. El 23 de enero de 2009 se convocan elecciones anticipadas y tres días después, los cacerolazos y las protestas desencadenan la dimisión del Primer Ministro, el conservador Geir H. Haarden, y de todo su gobierno.  
  • El 25 de abril se celebran elecciones generales de las que emerge un gobierno de coalición formado por la Alianza Social-demócrata y el Movimiento de Izquierda Verde, encabezado por la nueva Primera Ministra  Jóhanna Sigurdardóttir.
  • A lo largo del 2009 continúa la pésima situación económica del país y el año cierra con una caída del PIB del 7%.
  • ·         Mediante una ley ampliamente discutida en el parlamento se propone la devolución de la deuda a Gran Bretaña y Holanda mediante el pago de 3.500 millones de euros, suma que deberían pagar todos las familias islandesas mensualmente durante los próximos 15 años al 5,5% de interés. La gente se vuelve a echar a la calle y solicita someter la ley a referéndum. En un gesto sin precedentes, en enero de 2010, el Presidente, Ólafur Ragnar Grímsson, se niega a promulgarla y anuncia que llamará a una consulta popular. Tal como lo recuerda en un reportaje el periodista islandés Kristinn R. Ólafsson (corresponsal en España de Radio Nacional de Islandia)  Grímsson es un ex político comunista que ya lleva ya 14 años como Presidente de la República. Esta situación fue la que originó la convocatoria del referéndum, para que los islandeses decidieran sobre la aprobación del acuerdo. La consulta popular tuvo lugar en Marzo de 2010 y el acuerdo IceSave resultó rechazado por el 93% de los votantes.[3]
  • En represalia, el FMI congela las ayudas económicas a Islandia esperando que se resuelva favorablemente la devolución de su deuda.
  • A todo esto, el gobierno ha iniciado una investigación para dirimir jurídicamente las responsabilidades de la crisis. Comienzan las detenciones de varios banqueros y altos ejecutivos. La Interpol dicta una orden internacional de arresto contra el ex-Presidente del Kaupthing, Sigurdur Einarsson. Según el ya mencionado Ólafsson hay unos 160 imputados y algunos se encuentran en prisión preventiva. ..
  • En este contexto de crisis, se eligió una asamblea constituyente el pasado mes de Noviembre para redactar una nueva constitución que recoja las lecciones aprendidas de la crisis y que sustituya a la actual, una copia de la constitución danesa. Para ello, se recurrió directamente al pueblo soberano. Se eligieron 25 ciudadanos sin filiación política de los 522 que se han presentado a las candidaturas, para lo cual sólo era necesario ser mayor de edad y tener el apoyo de 30 personas. La asamblea constitucional tendría que haber comenzado sus labores en febrero de 2011.
  • Sin embargo, la iniciativa se frustró pese a que el 27 de noviembre pasado fueron elegidos los 25 miembros del formalmente llamado Parlamento Constituyente Asesor. Pero tras los comicios, del cual participó sólo el 36,7% del electorado, tres de los candidatos que no fueron elegidos denunciaron irregularidades en la votación. El Tribunal Supremo, la más alta instancia judicial islandesa, con mayoría de jueces conservadores, los cuales habían sido nombrados por el anterior gobierno, decidió que la votación era nula por estas irregularidades. La solución a esta situación va a otorgarla finalmente el Parlamento, que será quien nombre a estos 25 elegidos, pero ahora no como miembros de un Parlamento Constituyente, sino de un Consejo Constituyente.[4]
  • Y para terminar, otra medida "revolucionaria" del parlamento islandés: la Iniciativa Islandesa Moderna para Medios de Comunicación, un proyecto de ley que pretende crear un marco jurídico destinado a la protección de la libertad de información y de expresión. Se pretende hacer del país un refugio seguro para el periodismo de investigación y la libertad de información donde se protejan fuentes, periodistas y proveedores de Internet que alojen información periodística. En suma, el infierno para EEUU y el paraíso para Wikileaks.
  • Por último, en Abril de este año se convocó a un nuevo referendo para resolver la cuestión de la deuda con el Reino Unido y Holanda, centrada en las operaciones de IceSave. Pese a la intensa campaña del gobierno para que la población aceptara el pago de la deuda algo más de un 60 por ciento de la población mantuvo su negativa y, por lo tanto, la propuesta oficial fue rechazada. [5]

Como bien anotan los compañeros de nosinmibici, la historia de la revuelta islandesa puede resumirse así:  sublevación popular, derrocamiento de un gobierno conservador, nacionalización de la banca, referéndum para que el pueblo decida sobre las decisiones económicas trascendentales, procesamiento y eventual encarcelación de responsables de la crisis, reescritura de la constitución por los ciudadanos y un proyecto de blindaje de la libertad de información y de expresión. Y se preguntan: "¿Se nos ha hablado de esto en los medios de comunicación europeos? ¿Se ha comentado en las repugnantes tertulias radiofónicas de politicastros de medio pelo y mercenarios de la desinformación? ¿Se han visto imágenes de los hechos por la TV? Claro que no."  El temor, el pánico, es el contagio. Por eso la revolución islandesa, aunque tal vez podría objetarse el uso de aquel término, ha dado un ejemplo, un muy mal ejemplo, que debe ser silenciado, acallado, ignorado. Y la "prensa libre", en Europa y en todo el mundo, ocultó maliciosamente lo ocurrido. Pero  será en vano. Ya en estos últimos días se habla de que en Grecia el acorralado gobierno de ese país parece resignado a convocar a un referendo popular para decidir si se aceptan o no las condiciones del "salvataje" impuestas por el FMI y su ventrílocuo europeo, el Banco Central Europeo. La denodada lucha del pueblo griego y siete u ocho huelgas generales acabaron con la reticencia oficial.  No pasará mucho tiempo antes que otros pueblos exijan lo mismo. España parece haber recogido el testimonio islandés al denunciar la falsa democracia que oprime, explota y margina a la gran mayoría de su propia población. Una escandalosa plutocracia, en realidad, no una democracia. Estamos viviendo un tiempo nuevo y la revolución, que parecía si no definitivamente descartada por lo menos más lejana que antes, parece hoy más próxima que nunca. La historia, una vez más, hizo trizas todos los esquematismos.


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sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo

Pretendia escrever um texto de avaliação sobre as Marchas da Liberdade em todo Brasil quando vi este artigo na rede ["A esquerda fora do eixo, publicado dia 17 de Junho de 2011 no site Passa a Palavra com assinatura coletiva http://passapalavra.info/?p=41221] sintomático da perplexidade de certos setores da esquerda tradicional com as mudanças e crise do capitalismo fordista e as novas dinâmicas de resistência e criação dentro do chamado capitalismo cognitivo (pós-fordista, da informação ou cultural).

Crise e desestruturação que tem como horizonte a universalização dos meios de produção e infra-estrutura pública instalada, a constituição de novos circuitos e mercados e a emergência de uma intelectualidade de massa (não mais o "proletariado", mas o cognitariado) com a possibilidade da apropriação tecnológica por diferentes grupo (software livre, códigos abertos, cultura digital).

Crise e paradoxo onde o próprio crescimento gera e multiplica precariedade, mas também novas dinâmicas e modelos.

O capitalismo da "abundância" produz crise ao entrar no horizonte da gratuidade/compartilhamento/colaboração com uma mutação da própria idéia de "propriedade" (ver a crise do Direito Autoral).

O texto percebe as mudanças, estruturais, mas não consegue ir além nas conseqüências e funciona como uma caricatura que busca demonizar as novas dinâmicas sociais e culturais pós-fordistas e despotencializar a cultura digital, o midiativismo e as estratégias de apropriação tecnológicas das redes, inclusive a apropriação de ferramentas como o Facebook, twitter e outras para causas e objetivos próprios, como fizeram os árabes e os espanhóis, hackeando as novas corporações pós-fordistas.

Falta ao texto (além de diagnósticos equivocados sobre a "nova classe dominante") um arsenal teórico minimamente a altura das mutações, crises e impasses do próprio capitalismo.

Há uma frase sintomática neste artigo que me chamou atenção e que esclarece em muito sobre "quem" fala e de "onde" fala sob a assinatura anônima/coletiva:

Diz: "é praticamente impossível para um observador desatento ou viciado nas velhas estruturas identificar e combater o novo sujeito formado por este coletivo (ou rede).", referindo-se ao Circuito Fora do Eixo a quem os autores atribuem _ numa teoria "conspiratória" que não esconde uma envergonhada admiração_ praticamente tudo o que está acontecendo de mais interessante na cena do ativismo brasileiro!

A frase explicita o medo diante das novas dinâmicas que estão sendo inventadas e experimentadas "fora do eixo" da esquerda clássica, criando experiências e conceitos que explodem o arsenal de teorias maniqueístas fordistas de uma esquerda pautada pelo capitalismo do século XX, incapaz de enxergar as "revoluções do capitalismo", dentro "do" capitalismo e que vem sendo discutidas pelo menos desde maio de 68 ou logo depois quando, por exemplo, os teóricos-ativistas Gilles Deleuze e Félix Guattari lançaram o extraordinário manifesto "O Anti-Édipo ou Capitalismo e Esquizofrenia", de 1972. Ou que ignora as análises sobre as mutações do capitalismo tematizadas por um teórico comunista como Antonio Negri, nos livros "Império" e "Multidão", dois clássicos contemporâneos.

A frase dá bem a dimensão desse medo e incompreensão do novo e aponta a própria incapacidade de ver dos autores do artigo.

O observador "viciado nas velhas estruturas" é exatamente "quem fala" neste texto, que também se entrega, medroso e preocupado, com a perda do seu próprio protagonismo. Perda de toda uma esquerda fordista que funciona hoje como a "vanguarda da retaguarda" mais conservadora até que muitas dinâmicas do próprio mercado!

Entre os problemas mais gritantes destaco:

1.O texto não consegue configurar que os movimentos e articulações, ainda que incipientes, das marchas das liberdades em todo Brasil não são "a nova classe dominante", mas a emergência de um movimento transversal, "movimento de movimentos", com dinâmica própria e singular em cada território, com uma pauta heterogênea, aberta e em construção, sem "central única" ou "comando" dos "iluminados", que se auto-organiza e cujos "fins" não foram dados a priori!

2. Não se trata de uma "nova classe média liberal", nem "nova classe dominante", "despolitizada", mas de um arranjo transversal que junta e agrega o chamado precariado urbano, a nova força de transformação no capitalismo contemporâneo.

3. Ou seja, movimentos como os das marchas (e tantos outros) ou o Circuito Fora do Eixo são a base de um novo ativismo contemporâneo, a da emergência do precariado cognitivo, ou cultural, ou seja, da explosão e da percepção que o sistema trabalhista fordista e previdenciário clássicos não dão mais contas da dinâmica de ocupações 'livres' (mesmo que frágeis e sem segurança) no capitalismo da informação. E que essa precariedade e autonomia não significa apenas "vitimizar" e "assujeitar" é uma potência para novos arranjos, alianças e lutas.

4. O Circuito Fora do Eixo é, no meu entender, um dos mais potentes laboratórios de experimentações das novas dinâmicas do trabalho e das subjetividades. Que tem como base: autonomia, liberdade e um novo "comunismo" (construção de Comum, comunidade, caixas coletivos, moedas coletivas, redes integradas, economia viva e mercados solidários).

Estão FORA do eixo/fetiche da esquerda por trabalhadores assujeitados na relação patrão/empregado! Mas tem enorme potência para articularem não apenas a classe média urbana, mas se articularem com os pobres e precários das periferias e favelas, ao se conectarem com outras redes como a da CUFA e outras, que junta os jovens negros e pobres para outras marchas como a do Direito a Moradia, em preparação. Além de outras articulações sem medo de "aparelhamentos" seja das corporações, dos partidos, ou do Estado. Sem demonizar as relações com os mercados, mas inventando e pautando, "criando" outros mercados, fora da lógica fordista do assujeitamento.

5. Ou seja, o Fora do Eixo entendeu que o modelo na produção cultural é o modelo de funcionamento do próprio capitalismo.

Não mais o capitalismo fordista da "carteira assinada" mas o dos zilhões de free-lancers, autônomos, diplomados sem empregos, sub-empregados, camelôs, favelados, contratados temporários, designes, artistas, atores, técnicos, que ou "vendem" sua força livre de trabalho com atividades flutuantes temporárias, ou se ORGANIZAM e INVENTAM o próprio emprego/ocupação e novos circuitos, como tem feito de forma incrivelmente bem sucedida o Circuito Fora do Eixo, resignificando e potencializando o imaginário de jovens no Brasil inteiro.

Uma esquerda pós-fordista que está dando certo, que inventa estratégias de Mídia, que inventa "mercados" solidários, contrariando os anunciadores do apocalipse.

6. A ideia de que, para se ter "direitos", é preciso se "assujeitar" em uma relação de patrão/empregado, de "assalariamento", é uma ideia francamente conservadora. O precariado cognitivo, os jovens precários das economias da cultura estão reinventando as relações de trabalho; os desafios são enormes, a economia pós-Google não é fordista, não é melhor nem pior que as velhas corporações, mas abre para outras dinâmicas e estratégias de luta, EM DISPUTA!

Não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial!!! Como faz o texto na sua argumentação redutora e tendenciosa.

Não é só o capitalismo financeiro que funciona em fluxo e em rede, veloz e dinâmico. As novas lutas e resistências passam por essas mesmas estratégias.

O Fora do Eixo está apontando para as novas formas de lutas, novas estratégias e ferramentas, que inclui inclusive PAUTAR AS POLITICA PUBLICAS, PAUTAR o Parlamento, PAUTAR A MIDIA, Pautar a Globo, como as marchas conseguiram fazer! Ser bem sucedido ai, onde muitos fracassaram, é o que parece imperdoável!

Há um enorme ressentimento no texto, mal disfarçado, diante de tanta potência, lida pela chave mesquinha da "luta por poder", "captalização de prestígio", da "nova classe dominante". O objetivo infelizmente parece ser o de desqualificar, rotular e "neutralizar" os que são os novos aliados de uma radicalização do processo democrático no Brasil, que estão inovando na linguagem e nas estratégias. "Perigo" que ameaça a jovem/velha esquerda, que perde protagonismo em todas as esferas, incapaz de dialogar com esse novo e complexo cenário, com todos os seus riscos. Experimentar = se expor aos riscos.

7. Como dizem os ativistas italianos: "Odeia a Mídia? Torne-se Mídia". A velha esquerda foi incapaz de fazer frente as velhas corporações, perdeu para a mídia de massas, conseguiu pautar algumas politicas públicas, mas está francamente perdida no capitalismo dos fluxos e das redes. Não sabe como resistir, nem inovar, nem experimentar, nem ousar. Está tristemente na retaguarda do próprio mercado!!!

8. O artigo parece ter como horizonte a luta por cartórios do século XIX!!! Com estratégias e palavras de ordem abstratas, um "anticapitalismo" vago que perdeu o sentido. Pois as novas lutas são em FLUXO, são modulações, não são MOLDES PRE-FABRICADOS, não são sequer anti-capitalistas, no sentido estrito, pois estão hackeando o capitalismo, se apropriando de suas estratégias para resignificar o COMUNISMO das redes, no sentido mais radical de um comunismo DENTRO do próprio capitalismo, esquizofrenia do sistema que produz hoje um horizonte do COMUM, que temos que construir e pelo que temos que lutar.

9. É preciso dizer ainda que "não existe UM outro mundo", não existe "fora do capitalismo" (como diz Guattari e Negri) só existe esse mundo aqui, em processo, mutante, imanência radical, e é deste mundo aqui (um rio que vem de longe…) que iremos inventar outros tantos mundos, no plural.

10. O Fora do Eixo, nas suas práticas de criação de comum e comunidades (que o texto detecta mas distorce) e politização do cotidiano, não é o "inimigo" a combater, estão forjando as novas armas para os movimentos em fluxo, então criando redes, fazendo midiativismo, estão relendo e re-inventando, de forma empírica e genial, dinâmicas e processos decisivos dos embates políticos: situacionismo, Maio de 68, experiências de Seatle, hackerativismo, cultura livre, estão na deriva e na luta. A "geração em rede" não mascara nenhum tipo de "conteúdo político oculto e perigoso" que precisa ser desmascarado, ela é o novo conteúdo e linguagem política, ela encarna as novas lutas e está inventando futuros alternativos. (IB)

Publicado no SITE http://www.trezentos.blog.br/?p=6056#comments



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