O encarceramento em massa é vendido como solução técnica para uma crise que é, antes de tudo, social; o voto feminino, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro, permanece subutilizado como força de transformação do sistema de justiça criminal.

Principais pontos
- O Brasil abriga a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas privadas de liberdade; a maioria é negra, jovem e trabalhadora.
- O número de mulheres presas cresceu mais de 600% em duas décadas — um retrato da seletividade que pune a pobreza e protege os rentistas da violência estatal.
- A seletividade penal não é acidente: prende-se o pequeno varejista do tráfico, o furto famélico, o porte de droga para consumo; os crimes de colarinho branco seguem impunes.
- O punitivismo não é um erro moral de legisladores desavisados; é uma política de classe que extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios e terceirização de serviços penitenciários.
Punitivismo seletivo: a guerra não declarada às classes populares e o voto feminino como trincheira
Por Walter Azevedo
As campanhas eleitorais se acercam e, com elas, a velha cantilena da segurança pública como moeda de troca. A bancada da bala cresce, o discurso do medo se espalha e o encarceramento em massa é vendido como solução técnica para uma crise que é, antes de tudo, social. O dado que escancara essa lógica: o Brasil abriga a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas privadas de liberdade. A maioria é negra, jovem e trabalhadora. O número de mulheres presas cresceu mais de 600% em duas décadas — um retrato da seletividade que pune a pobreza e protege os rentistas da violência estatal.
Enquanto isso, o voto feminino, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro, permanece subutilizado como força de transformação do sistema de justiça criminal. A contradição é flagrante: as mulheres são as principais vítimas indiretas do punitivismo — mães de presos, chefes de família abandonadas pelo Estado, alvos da criminalização do aborto —, mas as forças que disputam seu voto raramente enfrentam a raiz de classe dessa engrenagem.
O cárcere como gestão da miséria: o fenômeno por trás da cortina
A guerra às drogas, importada dos manuais repressivos do Norte, serve como pretexto para a ocupação militarizada das periferias. A seletividade penal não é acidente: prende-se o pequeno varejista do tráfico, o furto famélico, o porte de droga para consumo. Os crimes de colarinho branco, a sonegação bilionária e os desvios do fundo público seguem impunes ou resolvidos em acordos que devolvem migalhas. A judicialização da política, que já analisamos neste espaço, não é o único braço desse projeto. A prisão funciona como uma fábrica de condutas subalternas: disciplina a força de trabalho excedente, remove os indesejáveis do território urbano e alimenta a narrativa do medo que legitima a expansão do aparato repressivo.
Quem lucra com a vingança estatal? A anatomia de classe do punitivismo
O punitivismo não é um erro moral de legisladores desavisados; é uma política de classe. O capital financeirizado extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios, terceirização de serviços penitenciários e venda de equipamentos de segurança. A lógica da dependência impõe que o Brasil replique as políticas penais racistas do império. Os gerentes locais dessa ordem — a fração rentista da burguesia e seus operadores no Judiciário e no Congresso — lucram com a atmosfera de caos permanente, que justifica cortes de direitos e o desvio do orçamento público das políticas sociais para a repressão. A caça ao PCC patrocinada pela Casa Branca, que expusemos recentemente, é a expressão mais acabada dessa articulação interimperialista que criminaliza movimentos sociais e constrange a esquerda.
Alternativas que brotam do chão: a práxis dos movimentos sociais
Mas a história não termina na engrenagem. Os territórios periféricos vêm construindo, na contramão do Estado punitivo, outras formas de responsabilização e cuidado. A justiça restaurativa, aplicada por coletivos e núcleos comunitários, devolve o conflito à comunidade, em vez de entregá-lo à máquina do encarceramento. As audiências de custódia, quando efetivas, impedem a prisão provisória arbitrária e a tortura. A descriminalização do porte de drogas, defendida por movimentos como a Frente pelo Desencarceramento, reduz o principal vetor do hiperencarceramento. Redes de mães, como as Mães de Maio, transformam a dor em organização política, exigindo verdade e justiça fora da lógica da vingança estatal. Essas experiências permanecem marginais enquanto a correlação de forças não for alterada.
O voto feminino como trincheira de ruptura
Nesse cenário, o voto feminino emerge como força estratégica da classe trabalhadora. As mulheres compõem a maioria do eleitorado e são as mais atingidas pela crise do encarceramento: sustentam famílias de presos, percorrem longas distâncias para visitas vexatórias, sofrem com a violência doméstica que o Estado não combate e com a criminalização do aborto que as condena à clandestinidade. Ao eleger candidaturas comprometidas com a desmilitarização das polícias, com a descriminalização das drogas e com a justiça restaurativa, o voto feminino pressiona a superfície da política para que as alternativas dos movimentos sociais entrem na agenda institucional. Não se trata de esperar que o parlamento salve a classe trabalhadora, mas de usar todas as trincheiras — a rua, o sindicato, o voto — para deslocar a hegemonia do punitivismo, como já apontamos na luta de classes na campanha de Lula.
A tarefa histórica é clara: avançar da denúncia à construção de um projeto nacional-popular que inverta a lógica do encarceramento. O voto feminino, articulado à organização comunitária, é um passo nessa direção. Não há neutralidade possível: ou se fortalece o aparato repressivo que gerencia a pobreza, ou se constrói uma sociabilidade baseada no cuidado e na responsabilização coletiva. A classe trabalhadora, em sua maioria feminina, tem a palavra — e as mãos.
Referências
- Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), dados de 2023.
- Rede de Justiça Criminal. Alternativas ao encarceramento: experiências e desafios. 2023.
- Tribunal Superior Eleitoral. Eleitorado feminino nas eleições de 2022: 52% do total.
- Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Vozes, 1973.
- Documento do movimento Mães de Maio. Disponível em: [link].
Perguntas Frequentes
O que é punitivismo seletivo e como ele afeta as classes populares no Brasil?
É a lógica que criminaliza preferencialmente a pobreza, prendendo pequenos varejistas do tráfico, furtos famélicos e porte de drogas para consumo, enquanto crimes de colarinho branco permanecem impunes. A maioria da população carcerária brasileira é negra, jovem e trabalhadora.
Quais são as alternativas construídas por movimentos sociais ao punitivismo?
O texto aponta que o voto feminino, representando mais da metade do eleitorado, é uma força subutilizada para transformar o sistema de justiça criminal. Os movimentos sociais enfrentam a raiz de classe da engrenagem punitiva, em vez de aceitar a narrativa do medo e a expansão do aparato repressivo.
Por que o voto feminino é importante no combate ao punitivismo?
As mulheres são as principais vítimas indiretas do punitivismo — mães de presos, chefes de família abandonadas pelo Estado, alvos da criminalização do aborto. Seu voto, porém, raramente é disputado por forças que enfrentam a raiz de classe dessa engrenagem.
Quem lucra economicamente com o encarceramento em massa?
O capital financeirizado extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios, terceirização de serviços penitenciários e venda de equipamentos de segurança. A fração rentista da burguesia e seus operadores no Judiciário e Congresso lucram com a atmosfera de caos permanente.
Qual é a relação entre a guerra às drogas e a seletividade penal?
A guerra às drogas serve como pretexto para a ocupação militarizada das periferias. A prisão funciona como fábrica de condutas subalternas: disciplina a força de trabalho excedente, remove os indesejáveis do território urbano e legitima a expansão do aparato repressivo.








