O relatório econômico detalha a sangria: US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano, expressão cifrada de um cerco que dura décadas, desenhado para asfixiar uma experiência de soberania que o imperialismo nunca tolerou.

Principais pontos
- O bloqueio econômico, comercial e financeiro não é retaliação pontual; é estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações.
- A dominação imperialista se desdobra em três frentes articuladas: financeira, comercial e tecnológica.
- A resistência cubana não é apenas resposta defensiva; é práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva.
- Cada dólar que deixa de circular em Cuba é um dólar que reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.
Bloqueio e soberania: os US$ 8 bilhões de perdas e a resistência cubana como trincheira da classe trabalhadora
Por Walter Azevedo
A mais recente votação na Assembleia Geral das Nações Unidas voltou a expor o isolamento da Casa Branca diante da rejeição mundial ao bloqueio contra Cuba. Enquanto a diplomacia contabiliza votos, um relatório econômico detalha a sangria: US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano. O número não é abstração contábil; é a expressão cifrada de um cerco que dura décadas, desenhado para asfixiar uma experiência de soberania que o imperialismo nunca tolerou. Precisamos desmontar os mecanismos por trás dessa cifra, porque a dominação imperialista é pedagógica: ensina, no corpo de um povo, o custo de romper com a subordinação.
Ao mesmo tempo, a resistência cubana não é apenas resposta defensiva; é práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva. Nosso olhar deve captar a dialética entre o bloqueio e a construção de um projeto nacional-popular que, mesmo sob cerco, mantém viva a possibilidade de alternativa à ordem do capital. Quem se recusa a enxergar essa totalidade repete o erro de tratar a economia cubana como caso isolado, quando ela é laboratório de lutas que envolvem a classe trabalhadora de todo o continente.
O bloqueio como mecanismo de dominação imperialista
O bloqueio econômico, comercial e financeiro não é retaliação pontual; é estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações, cada uma adicionando novas camadas de punição extraterritorial. O relatório dos US$ 8 bilhões anuais revela como o capital financeirizado utiliza sua posição dominante no sistema monetário internacional para estrangular qualquer formação social que tente escapar da dependência. Cada dólar que deixa de circular em Cuba é um dólar que reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.
Essa dominação se desdobra em três frentes articuladas. A financeira: bancos e instituições que negociam com Cuba são ameaçados de sanções, o que corta linhas de crédito, encarece importações e impede investimentos produtivos. A comercial: a proibição de exportar para o mercado estadunidense fecha um dos maiores mercados consumidores do mundo, enquanto a perseguição a navios e seguradoras eleva custos logísticos. A tecnológica: o embargo impede acesso a equipamentos médicos, componentes industriais e softwares essenciais, condenando a ilha a uma obsolescência planejada. Essas frentes formam uma mediação completa da dependência, similar à lógica que o arcabouço fiscal brasileiro aplica internamente, blindando a sangria rentista contra as necessidades populares.
“O imperialismo é a fase monopolista do capital, na qual a partilha do mundo entre as grandes potências assume a forma de luta pela redivisão do globo.” — V. I. Lênin, Imperialismo, fase superior do capitalismo
O dado de US$ 8 bilhões, lido isoladamente, parece apenas prejuízo econômico. Mas o prejuízo é instrumento: produz escassez de alimentos, medicamentos e combustível, que alimenta a insatisfação interna, instrumentalizada por setores da extrema direita para pressionar por restauração da ordem subordinada. A crise gerada pelo bloqueio não é efeito colateral indesejado; é o objetivo estratégico de derrubar a experiência cubana por dentro, sem invasão militar direta.
Superexploração e soberania: a dialética da resistência
Diante desse cerco, Cuba não é apenas vítima. A ilha responde com organização social que prioriza a universalidade de direitos, mesmo sob penúria artificial. A cada obstáculo imposto pelo imperialismo, o povo cubano reinventa formas de produção, distribuição e solidariedade que mantêm a soberania como princípio inegociável. A consciência de classe ali não é abstração teórica; é o cotidiano da luta por sobreviver sem aceitar a recolonização. Essa resistência é a negação prática da tese imperialista de que a subordinação é inevitável.
Mas essa resistência tem custos elevados, pagos diariamente pela classe trabalhadora cubana. O racionamento, as filas, a migração forçada de jovens em busca de trabalho: tudo isso é resultado direto do bloqueio, não de alegada ineficiência interna, como insiste a propaganda do capital. Aqui a dialética se torna dura: a soberania exige sacrifícios que, sem solidariedade internacional ativa, podem corroer as bases políticas do projeto. É nesse ponto que a esquerda do continente tem tarefa concreta: romper o isolamento imposto a Cuba e transformar a denúncia em ação material.
A superexploração da força de trabalho cubana, sob o cerco, funciona como espelho invertido da superexploração que o capital impõe nas periferias. Enquanto no Brasil e na América Latina os trabalhadores sofrem arrocho salarial e perda de direitos para alimentar a remessa de lucros ao centro, em Cuba o povo sustenta uma economia de resistência que compensa, com trabalho coletivo, a ausência de divisas bloqueadas. São duas faces da mesma luta de classes global: de um lado, a dependência como sangria; de outro, a dependência combatida com organização popular.
Solidariedade, única via de superação
Os US$ 8 bilhões de perdas não serão recuperados por apelos morais à Casa Branca. Nenhum governo estadunidense, de qualquer partido, abrirá mão do bloqueio enquanto Cuba representar ameaça simbólica e material ao domínio imperialista. A superação exige ação coletiva organizada: pressão diplomática dos países do Sul, comércio em moedas próprias, transferência de tecnologia médica e agroecológica, brigadas de solidariedade, denúncia ativa nos sindicatos e movimentos sociais. A esquerda brasileira, em particular, tem dívida histórica com a resistência cubana e precisa atuar para que o Estado brasileiro condene o bloqueio com consequências práticas, não apenas votos na ONU.
Referências para aprofundar a luta
- MARX, Karl. O capital. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- LÊNIN, V. I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
- AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.
Perguntas Frequentes
Quanto Cuba perde anualmente com o bloqueio econômico?
Segundo o relatório citado no texto, Cuba sofre US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano. Esse valor expressa o custo do cerco econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos desde 1962.
Quais são as principais frentes do bloqueio contra Cuba?
O texto identifica três frentes articuladas: a financeira, com ameaças de sanções a bancos e corte de crédito; a comercial, com proibição de exportar para o mercado estadunidense; e a tecnológica, com embargo a equipamentos médicos e softwares essenciais.
O bloqueio a Cuba é uma retaliação pontual?
Não. O autor afirma que o bloqueio é uma estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações dos Estados Unidos, cada uma adicionando novas camadas de punição extraterritorial.
Como o bloqueio se relaciona com a dominação imperialista?
O bloqueio utiliza a posição dominante no sistema monetário internacional para estrangular qualquer formação social que tente escapar da dependência. Cada dólar que deixa de circular em Cuba reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.
Qual é o papel da resistência cubana diante do bloqueio?
A resistência cubana é apresentada como práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva, mantendo viva a possibilidade de alternativa à ordem do capital mesmo sob cerco permanente.






