sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Bloqueio e soberania: US$ 8 bilhões em perdas e a resistência cubana

O relatório econômico detalha a sangria: US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano, expressão cifrada de um cerco que dura décadas, desenhado para asfixiar uma experiência de soberania que o imperialismo nunca tolerou.

Principais pontos

  • O bloqueio econômico, comercial e financeiro não é retaliação pontual; é estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações.
  • A dominação imperialista se desdobra em três frentes articuladas: financeira, comercial e tecnológica.
  • A resistência cubana não é apenas resposta defensiva; é práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva.
  • Cada dólar que deixa de circular em Cuba é um dólar que reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.

Bloqueio e soberania: os US$ 8 bilhões de perdas e a resistência cubana como trincheira da classe trabalhadora

Por Walter Azevedo

A mais recente votação na Assembleia Geral das Nações Unidas voltou a expor o isolamento da Casa Branca diante da rejeição mundial ao bloqueio contra Cuba. Enquanto a diplomacia contabiliza votos, um relatório econômico detalha a sangria: US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano. O número não é abstração contábil; é a expressão cifrada de um cerco que dura décadas, desenhado para asfixiar uma experiência de soberania que o imperialismo nunca tolerou. Precisamos desmontar os mecanismos por trás dessa cifra, porque a dominação imperialista é pedagógica: ensina, no corpo de um povo, o custo de romper com a subordinação.

Ao mesmo tempo, a resistência cubana não é apenas resposta defensiva; é práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva. Nosso olhar deve captar a dialética entre o bloqueio e a construção de um projeto nacional-popular que, mesmo sob cerco, mantém viva a possibilidade de alternativa à ordem do capital. Quem se recusa a enxergar essa totalidade repete o erro de tratar a economia cubana como caso isolado, quando ela é laboratório de lutas que envolvem a classe trabalhadora de todo o continente.

O bloqueio como mecanismo de dominação imperialista

O bloqueio econômico, comercial e financeiro não é retaliação pontual; é estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações, cada uma adicionando novas camadas de punição extraterritorial. O relatório dos US$ 8 bilhões anuais revela como o capital financeirizado utiliza sua posição dominante no sistema monetário internacional para estrangular qualquer formação social que tente escapar da dependência. Cada dólar que deixa de circular em Cuba é um dólar que reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.

Essa dominação se desdobra em três frentes articuladas. A financeira: bancos e instituições que negociam com Cuba são ameaçados de sanções, o que corta linhas de crédito, encarece importações e impede investimentos produtivos. A comercial: a proibição de exportar para o mercado estadunidense fecha um dos maiores mercados consumidores do mundo, enquanto a perseguição a navios e seguradoras eleva custos logísticos. A tecnológica: o embargo impede acesso a equipamentos médicos, componentes industriais e softwares essenciais, condenando a ilha a uma obsolescência planejada. Essas frentes formam uma mediação completa da dependência, similar à lógica que o arcabouço fiscal brasileiro aplica internamente, blindando a sangria rentista contra as necessidades populares.

“O imperialismo é a fase monopolista do capital, na qual a partilha do mundo entre as grandes potências assume a forma de luta pela redivisão do globo.” — V. I. Lênin, Imperialismo, fase superior do capitalismo

O dado de US$ 8 bilhões, lido isoladamente, parece apenas prejuízo econômico. Mas o prejuízo é instrumento: produz escassez de alimentos, medicamentos e combustível, que alimenta a insatisfação interna, instrumentalizada por setores da extrema direita para pressionar por restauração da ordem subordinada. A crise gerada pelo bloqueio não é efeito colateral indesejado; é o objetivo estratégico de derrubar a experiência cubana por dentro, sem invasão militar direta.

Superexploração e soberania: a dialética da resistência

Diante desse cerco, Cuba não é apenas vítima. A ilha responde com organização social que prioriza a universalidade de direitos, mesmo sob penúria artificial. A cada obstáculo imposto pelo imperialismo, o povo cubano reinventa formas de produção, distribuição e solidariedade que mantêm a soberania como princípio inegociável. A consciência de classe ali não é abstração teórica; é o cotidiano da luta por sobreviver sem aceitar a recolonização. Essa resistência é a negação prática da tese imperialista de que a subordinação é inevitável.

Mas essa resistência tem custos elevados, pagos diariamente pela classe trabalhadora cubana. O racionamento, as filas, a migração forçada de jovens em busca de trabalho: tudo isso é resultado direto do bloqueio, não de alegada ineficiência interna, como insiste a propaganda do capital. Aqui a dialética se torna dura: a soberania exige sacrifícios que, sem solidariedade internacional ativa, podem corroer as bases políticas do projeto. É nesse ponto que a esquerda do continente tem tarefa concreta: romper o isolamento imposto a Cuba e transformar a denúncia em ação material.

A superexploração da força de trabalho cubana, sob o cerco, funciona como espelho invertido da superexploração que o capital impõe nas periferias. Enquanto no Brasil e na América Latina os trabalhadores sofrem arrocho salarial e perda de direitos para alimentar a remessa de lucros ao centro, em Cuba o povo sustenta uma economia de resistência que compensa, com trabalho coletivo, a ausência de divisas bloqueadas. São duas faces da mesma luta de classes global: de um lado, a dependência como sangria; de outro, a dependência combatida com organização popular.

Solidariedade, única via de superação

Os US$ 8 bilhões de perdas não serão recuperados por apelos morais à Casa Branca. Nenhum governo estadunidense, de qualquer partido, abrirá mão do bloqueio enquanto Cuba representar ameaça simbólica e material ao domínio imperialista. A superação exige ação coletiva organizada: pressão diplomática dos países do Sul, comércio em moedas próprias, transferência de tecnologia médica e agroecológica, brigadas de solidariedade, denúncia ativa nos sindicatos e movimentos sociais. A esquerda brasileira, em particular, tem dívida histórica com a resistência cubana e precisa atuar para que o Estado brasileiro condene o bloqueio com consequências práticas, não apenas votos na ONU.

Referências para aprofundar a luta

  • MARX, Karl. O capital. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • LÊNIN, V. I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Curitiba: Appris, 2023.

Perguntas Frequentes

Quanto Cuba perde anualmente com o bloqueio econômico?

Segundo o relatório citado no texto, Cuba sofre US$ 8 bilhões em perdas apenas no último ano. Esse valor expressa o custo do cerco econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos desde 1962.

Quais são as principais frentes do bloqueio contra Cuba?

O texto identifica três frentes articuladas: a financeira, com ameaças de sanções a bancos e corte de crédito; a comercial, com proibição de exportar para o mercado estadunidense; e a tecnológica, com embargo a equipamentos médicos e softwares essenciais.

O bloqueio a Cuba é uma retaliação pontual?

Não. O autor afirma que o bloqueio é uma estrutura permanente de coerção, imposta desde 1962 e ampliada por sucessivas administrações dos Estados Unidos, cada uma adicionando novas camadas de punição extraterritorial.

Como o bloqueio se relaciona com a dominação imperialista?

O bloqueio utiliza a posição dominante no sistema monetário internacional para estrangular qualquer formação social que tente escapar da dependência. Cada dólar que deixa de circular em Cuba reforça a hierarquia imperial do sistema do capital.

Qual é o papel da resistência cubana diante do bloqueio?

A resistência cubana é apresentada como práxis acumulada, consciência forjada na escassez imposta e na organização coletiva, mantendo viva a possibilidade de alternativa à ordem do capital mesmo sob cerco permanente.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Mortes em Ceuta revelam gestão imperialista das fronteiras

Os corpos na cerca de Ceuta são o resultado calculado de uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca entre Estados e em mão de obra descartável para o capital.

Principais pontos

  • A condição de ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos.
  • As mortes em Ceuta e Melilla são o custo contabilizado dessa logística de exploração.
  • A extrema direita converte a ansiedade social em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais.
  • Essa retórica fragmenta a classe trabalhadora, impedindo a solidariedade entre nativos e migrantes.

A gestão imperialista das fronteiras e a superexploração migrante: o que Ceuta ensina à classe trabalhadora

Por Walter Azevedo

Os corpos na cerca de Ceuta não são acidente. São o resultado calculado de uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca entre Estados e em mão de obra descartável para o capital. Em junho de 2022, ao menos 23 migrantes morreram tentando cruzar a fronteira de Melilla, enclave espanhol irmão de Ceuta no norte da África. Meses antes, em maio de 2021, cerca de 8 mil pessoas forçaram passagem em Ceuta num único dia. A resposta europeia foi dupla: repressão violenta e devolução sumária. A imagem desses corpos ecoa a repressão contra migrantes venezuelanos na fronteira norte do Brasil, onde a mesma lógica de gestão se repete. A contradição, porém, é mais profunda do que a brutalidade das imagens.

A cerca não é só arame: a fronteira como dispositivo de gestão da força de trabalho

A barreira física que separa Marrocos dos enclaves espanhóis opera como instrumento de mediação de interesses de classe. O capital europeu precisa de trabalho barato, mas também de segmentação e precarização. A condição de ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos. Nos campos de cultivo intensivo, na construção civil e nos serviços de cuidado, a presença de migrantes sem status legal funciona como rebaixador salarial. A Espanha, porta de entrada da União Europeia, tornou-se guardiã dessa ordenação. As mortes em Ceuta e Melilla são o custo contabilizado dessa logística de exploração.

Como escreveu Ruy Mauro Marini, a superexploração compensa a transferência de valor; no caso migrante, ela se manifesta na negação de direitos e na exposição à morte. Essa arquitetura de subordinação não é exclusiva das fronteiras externas. No Brasil, o acordo tarifário recente com os EUA repõe a mesma lógica de dependência, como analisamos aqui. A gestão imperialista das fronteiras articula-se com a gestão financeira da dívida e com a política de juros altos, que transferem renda do trabalho ao capital financeiro. A totalidade não admite fragmentação.

O medo como matéria-prima da extrema direita

A extrema direita não é um desvio moral; é uma força política que instrumenta o medo do migrante para consolidar projetos de classe. Ela converte a ansiedade social gerada pela crise do emprego e da moradia em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais: a financeirização, a especulação imobiliária, a precarização. O medo da “invasão” legitima políticas de exceção, o fortalecimento do aparato repressivo, a privatização de serviços e a redução de direitos trabalhistas. Essa retórica fragmenta a classe trabalhadora, impedindo a solidariedade entre nativos e migrantes. Enquanto isso, o capital se beneficia da divisão. O espetáculo de sofrimento na fronteira serve para justificar a repressão interna contra trabalhadores organizados.

O que está em disputa na fronteira não é apenas a circulação de pessoas, mas a correlação de forças entre trabalho e capital. A classe do capital opera em duas frentes: no Norte, precisa de mão de obra barata para setores intensivos; no Sul, precisa manter reservas de força de trabalho que pressionem os salários para baixo. A gestão imperialista das fronteiras garante ambos os movimentos: permite a entrada seletiva de trabalhadores vulneráveis e criminaliza a migração irregular para manter a ameaça permanente de deportação. As mortes em Ceuta são o sintoma brutal dessa mediação. A extrema direita amplia esse mecanismo ao transformar a morte em propaganda, o corpo migrante em ameaça existencial. No Brasil, a mesma tática aparece nas eleições, com o medo do “outro” mobilizado para vencer disputas, como discutimos nos limites da via eleitoral aqui.

Da gestão imperialista à práxis da classe trabalhadora

A superação dessa lógica não virá de apelos humanitários abstratos, mas de organização política. A classe trabalhadora precisa reconhecer no migrante um igual, parte da mesma classe global. A solidariedade internacional não é gesto moral; é necessidade estratégica para romper a chantagem da fronteira. Os sindicatos devem organizar migrantes, independentemente de status legal. Os movimentos populares precisam denunciar a cumplicidade dos Estados com a lógica do capital. A luta pela liberdade de circulação integra a luta contra a superexploração. Do mesmo modo que a dívida pública transfere renda do trabalho ao capital financeiro, como analisamos aqui, a gestão das fronteiras transfere a vida dos trabalhadores migrantes aos interesses das grandes corporações.

Que os corpos em Ceuta não sejam apenas contabilizados. Que se tornem ponto de partida para a organização. A classe trabalhadora brasileira, inserida na periferia do sistema, tem um papel: recusar a lógica da escassez e da fronteira. Construir, desde já, redes de solidariedade com trabalhadores migrantes que chegam ao país — venezuelanos, haitianos, bolivianos. Exigir políticas que garantam direitos, não muros. E compreender que a luta contra a gestão imperialista das fronteiras é a mesma luta contra o acordo tarifário subordinado, contra a dívida pública, contra a jornada exaustiva. A totalidade exige práxis.

Fontes citadas

  • Caminando Fronteras. Monitoramento do direito à vida na fronteira ocidental euro-africana (2022).
  • El País. Cobertura da tragédia na cerca de Melilla, junho de 2022.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: Subdesenvolvimento e revolução.

Perguntas Frequentes

O que as mortes em Ceuta revelam sobre a gestão de fronteiras?

Revelam uma engenharia política que transforma o desespero humano em moeda de troca e mão de obra descartável, operando como dispositivo de mediação de interesses de classe do capital europeu.

Como a condição de ilegalidade afeta o trabalhador migrante?

A ilegalidade rebaixa o custo da mão de obra e impede qualquer exigência de direitos, atuando como rebaixador salarial em setores como cultivo intensivo, construção civil e serviços de cuidado.

Qual é o papel da extrema direita na instrumentalização do medo?

A extrema direita converte a ansiedade social gerada pela crise do emprego e da moradia em ódio direcionado ao trabalhador migrante, desviando a atenção das causas estruturais como financeirização e especulação imobiliária.

Por que a retórica anti-imigrante fragmenta a classe trabalhadora?

Ela impede a solidariedade entre nativos e migrantes, direcionando o medo para o trabalhador migrante em vez das causas estruturais, enquanto o capital se beneficia da divisão.

Qual é a relação entre a superexploração migrante e a teoria de Ruy Mauro Marini?

Como escreveu Marini, a superexploração compensa a transferência de valor; no caso migrante, ela se manifesta na negação de direitos e na exposição à morte.

Punitivismo seletivo: classes populares, movimentos sociais e voto feminino

O encarceramento em massa é vendido como solução técnica para uma crise que é, antes de tudo, social; o voto feminino, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro, permanece subutilizado como força de transformação do sistema de justiça criminal.

Principais pontos

  • O Brasil abriga a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas privadas de liberdade; a maioria é negra, jovem e trabalhadora.
  • O número de mulheres presas cresceu mais de 600% em duas décadas — um retrato da seletividade que pune a pobreza e protege os rentistas da violência estatal.
  • A seletividade penal não é acidente: prende-se o pequeno varejista do tráfico, o furto famélico, o porte de droga para consumo; os crimes de colarinho branco seguem impunes.
  • O punitivismo não é um erro moral de legisladores desavisados; é uma política de classe que extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios e terceirização de serviços penitenciários.

Punitivismo seletivo: a guerra não declarada às classes populares e o voto feminino como trincheira

Por Walter Azevedo

As campanhas eleitorais se acercam e, com elas, a velha cantilena da segurança pública como moeda de troca. A bancada da bala cresce, o discurso do medo se espalha e o encarceramento em massa é vendido como solução técnica para uma crise que é, antes de tudo, social. O dado que escancara essa lógica: o Brasil abriga a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas privadas de liberdade. A maioria é negra, jovem e trabalhadora. O número de mulheres presas cresceu mais de 600% em duas décadas — um retrato da seletividade que pune a pobreza e protege os rentistas da violência estatal.

Enquanto isso, o voto feminino, que representa mais da metade do eleitorado brasileiro, permanece subutilizado como força de transformação do sistema de justiça criminal. A contradição é flagrante: as mulheres são as principais vítimas indiretas do punitivismo — mães de presos, chefes de família abandonadas pelo Estado, alvos da criminalização do aborto —, mas as forças que disputam seu voto raramente enfrentam a raiz de classe dessa engrenagem.

O cárcere como gestão da miséria: o fenômeno por trás da cortina

A guerra às drogas, importada dos manuais repressivos do Norte, serve como pretexto para a ocupação militarizada das periferias. A seletividade penal não é acidente: prende-se o pequeno varejista do tráfico, o furto famélico, o porte de droga para consumo. Os crimes de colarinho branco, a sonegação bilionária e os desvios do fundo público seguem impunes ou resolvidos em acordos que devolvem migalhas. A judicialização da política, que já analisamos neste espaço, não é o único braço desse projeto. A prisão funciona como uma fábrica de condutas subalternas: disciplina a força de trabalho excedente, remove os indesejáveis do território urbano e alimenta a narrativa do medo que legitima a expansão do aparato repressivo.

Quem lucra com a vingança estatal? A anatomia de classe do punitivismo

O punitivismo não é um erro moral de legisladores desavisados; é uma política de classe. O capital financeirizado extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios, terceirização de serviços penitenciários e venda de equipamentos de segurança. A lógica da dependência impõe que o Brasil replique as políticas penais racistas do império. Os gerentes locais dessa ordem — a fração rentista da burguesia e seus operadores no Judiciário e no Congresso — lucram com a atmosfera de caos permanente, que justifica cortes de direitos e o desvio do orçamento público das políticas sociais para a repressão. A caça ao PCC patrocinada pela Casa Branca, que expusemos recentemente, é a expressão mais acabada dessa articulação interimperialista que criminaliza movimentos sociais e constrange a esquerda.

Alternativas que brotam do chão: a práxis dos movimentos sociais

Mas a história não termina na engrenagem. Os territórios periféricos vêm construindo, na contramão do Estado punitivo, outras formas de responsabilização e cuidado. A justiça restaurativa, aplicada por coletivos e núcleos comunitários, devolve o conflito à comunidade, em vez de entregá-lo à máquina do encarceramento. As audiências de custódia, quando efetivas, impedem a prisão provisória arbitrária e a tortura. A descriminalização do porte de drogas, defendida por movimentos como a Frente pelo Desencarceramento, reduz o principal vetor do hiperencarceramento. Redes de mães, como as Mães de Maio, transformam a dor em organização política, exigindo verdade e justiça fora da lógica da vingança estatal. Essas experiências permanecem marginais enquanto a correlação de forças não for alterada.

O voto feminino como trincheira de ruptura

Nesse cenário, o voto feminino emerge como força estratégica da classe trabalhadora. As mulheres compõem a maioria do eleitorado e são as mais atingidas pela crise do encarceramento: sustentam famílias de presos, percorrem longas distâncias para visitas vexatórias, sofrem com a violência doméstica que o Estado não combate e com a criminalização do aborto que as condena à clandestinidade. Ao eleger candidaturas comprometidas com a desmilitarização das polícias, com a descriminalização das drogas e com a justiça restaurativa, o voto feminino pressiona a superfície da política para que as alternativas dos movimentos sociais entrem na agenda institucional. Não se trata de esperar que o parlamento salve a classe trabalhadora, mas de usar todas as trincheiras — a rua, o sindicato, o voto — para deslocar a hegemonia do punitivismo, como já apontamos na luta de classes na campanha de Lula.

A tarefa histórica é clara: avançar da denúncia à construção de um projeto nacional-popular que inverta a lógica do encarceramento. O voto feminino, articulado à organização comunitária, é um passo nessa direção. Não há neutralidade possível: ou se fortalece o aparato repressivo que gerencia a pobreza, ou se constrói uma sociabilidade baseada no cuidado e na responsabilização coletiva. A classe trabalhadora, em sua maioria feminina, tem a palavra — e as mãos.

Referências

  • Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), dados de 2023.
  • Rede de Justiça Criminal. Alternativas ao encarceramento: experiências e desafios. 2023.
  • Tribunal Superior Eleitoral. Eleitorado feminino nas eleições de 2022: 52% do total.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Vozes, 1973.
  • Documento do movimento Mães de Maio. Disponível em: [link].

Perguntas Frequentes

O que é punitivismo seletivo e como ele afeta as classes populares no Brasil?

É a lógica que criminaliza preferencialmente a pobreza, prendendo pequenos varejistas do tráfico, furtos famélicos e porte de drogas para consumo, enquanto crimes de colarinho branco permanecem impunes. A maioria da população carcerária brasileira é negra, jovem e trabalhadora.

Quais são as alternativas construídas por movimentos sociais ao punitivismo?

O texto aponta que o voto feminino, representando mais da metade do eleitorado, é uma força subutilizada para transformar o sistema de justiça criminal. Os movimentos sociais enfrentam a raiz de classe da engrenagem punitiva, em vez de aceitar a narrativa do medo e a expansão do aparato repressivo.

Por que o voto feminino é importante no combate ao punitivismo?

As mulheres são as principais vítimas indiretas do punitivismo — mães de presos, chefes de família abandonadas pelo Estado, alvos da criminalização do aborto. Seu voto, porém, raramente é disputado por forças que enfrentam a raiz de classe dessa engrenagem.

Quem lucra economicamente com o encarceramento em massa?

O capital financeirizado extrai renda de contratos bilionários para construção de presídios, terceirização de serviços penitenciários e venda de equipamentos de segurança. A fração rentista da burguesia e seus operadores no Judiciário e Congresso lucram com a atmosfera de caos permanente.

Qual é a relação entre a guerra às drogas e a seletividade penal?

A guerra às drogas serve como pretexto para a ocupação militarizada das periferias. A prisão funciona como fábrica de condutas subalternas: disciplina a força de trabalho excedente, remove os indesejáveis do território urbano e legitima a expansão do aparato repressivo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Arcabouço fiscal: blindagem jurídica garante sangria rentista

O arcabouço fiscal não é apenas uma regra contábil, mas uma arquitetura jurídica que entrega o orçamento público aos credores financeiros, sob o pretexto de organizar as contas.

Principais pontos

  • O arcabouço fiscal limita despesas primárias a 70% da variação real da receita, mas deixa os juros da dívida fora de qualquer limite.
  • Com força de lei complementar, o regime fiscal só pode ser alterado por outra lei complementar, funcionando como camisa de força para governos que priorizem os de baixo.
  • A blindagem jurídica esconde um projeto de classe que sequestra o orçamento público sob o disfarce de 'responsabilidade fiscal'.
  • O mecanismo aumenta a parcela destinada aos credores, fazendo a classe trabalhadora pagar duas vezes: com arrocho dos serviços públicos e tributos sobre o consumo.

A jaula fiscal e o direito do rentista: o arcabouço como blindagem jurídica da sangria

Por Walter Azevedo

No plenário do Congresso, a aprovação do novo arcabouço fiscal transcorreu com a pressa de quem silencia o alarme de incêndio. Enquanto a Faria Lima comemorava e o noticiário econômico repetia o mantra da "responsabilidade", o Tesouro Nacional já programava novos leilões de títulos para honrar compromissos que não passam por nenhuma votação popular. O arcabouço não é apenas uma regra contábil. É uma arquitetura jurídica que entrega o orçamento público aos credores financeiros, sob o pretexto de organizar as contas. Nossa classe precisa enxergar o que se esconde por trás dessa fachada de neutralidade técnica.

O novo regime fiscal: uma armadilha com aparência de racionalidade

O arcabouço aprovado estabelece que as despesas primárias só podem crescer 70% da variação real da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% ao ano. Os investimentos públicos ficam engessados, mas os juros da dívida seguem fora de qualquer limite. Essa assimetria não nasceu por acaso. Ela reproduz a lógica de uma formação social dependente, na qual a prioridade do Estado é remunerar a classe rentista antes de financiar escola, hospital ou transporte. A conta é simples: menos recursos para o povo, mais sobra para o andar de cima. Quem acompanha a história do teto de gastos, aprovado em 2016, reconhece o mesmo roteiro: primeiro congelam-se os direitos, depois abre-se a porteira para o rentismo. A diferença é que agora a blindagem ficou ainda mais sofisticada.

A blindagem jurídica como mediação de classe

O regime fiscal tem força de lei complementar. Só outra lei complementar pode alterá-lo. Em um parlamento dominado pela bancada do agronegócio, das armas e do mercado financeiro, essa blindagem funciona como uma camisa de força para qualquer governo que ouse priorizar os de baixo. A constituição, que deveria ser um escudo, vira uma gaiola que protege os de cima. A mediação jurídica é a forma que a classe do capital encontrou para naturalizar a extração de riqueza: o texto legal parece neutro, mas carrega uma correlação de forças brutalmente desigual. Discutimos lógica parecida no Acordo tarifário Brasil-EUA, quando a subordinação veio disfarçada de negociação. Aqui, o disfarce é outro: a "responsabilidade fiscal" esconde um projeto de classe que sequestra o orçamento público.

A sangria rentista: o coração do mecanismo

Quando o Estado limita os gastos sociais, mas libera os juros, ele organiza uma transferência sistemática do trabalho para o capital financeirizado. O arcabouço, assim como o antigo teto de gastos, não reduz a dívida: aumenta a parcela destinada aos credores. A classe trabalhadora paga duas vezes — com o arrocho dos serviços públicos e com os tributos que incidem sobre o consumo. O orçamento federal vira um duto que conecta a senzala à casa-grande, para lembrar a metáfora de nossa formação social. Nenhuma assembleia popular delibera sobre essa sangria; ela é decidida nos gabinetes do Banco Central e nos contratos de dívida. Para entender a mecânica dessa transferência, vale reler nossa análise sobre Dívida pública e juros altos. Enquanto o salário mínimo é debatido em centavos, os juros reais brasileiros seguem entre os mais altos do mundo — uma escolha política, não uma fatalidade econômica.

Soberania popular: a vítima silenciosa

A soberania não é abstração. Ela se materializa na capacidade de a população decidir onde alocar os recursos que produz. Cada cidadão que depende do SUS, da escola pública ou da aposentadoria sente a asfixia quando o orçamento é capturado pelo rentismo. O arcabouço fecha as portas para um projeto nacional-popular, ao impedir investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia, e ao dificultar a ampliação de direitos. A luta pela soberania exige desmontar essa blindagem jurídica e realizar uma auditoria popular da dívida. Como alertamos no post sobre Esquerda na América Latina: limites da via eleitoral, as instituições não bastam quando os interesses do povo ficam de fora da sala de decisão. A soberania, aqui, significa retomar o controle sobre o orçamento, não apenas sobre o voto.

Organizar para romper a jaula

Não há saída individual. A correlação de forças que aprovou o arcabouço só será revertida com organização política da classe trabalhadora. Exigir uma auditoria cidadã da dívida, lutar por uma lei de responsabilidade fiscal que priorize os direitos sociais e construir um projeto nacional-popular com soberania real são tarefas urgentes. Em Como Vencer na Grande Política, sustento que a consciência de classe não nasce da indignação moral, mas da compreensão de que a exploração tem nome, endereço e instrumentos jurídicos. O arcabouço é um desses instrumentos. Rompê-lo não é gesto contábil: é ato de soberania. A classe trabalhadora já demonstrou, em outras batalhas, que não aceita ser tratada como variável de ajuste. Esta luta é também uma luta pela memória: a cada geração, a oligarquia tenta reescrever as regras do jogo a seu favor. Cabe a nós não aceitar o jogo.

Referências:

  • Lei Complementar nº 200/2023 — institui o regime fiscal sustentável.
  • AZEVEDO, Walter. Como Vencer na Grande Política: Classes Sociais e suas Lutas. Appris, 2023.
  • Auditoria Cidadã da Dívida — análises sobre o gasto com juros e a blindagem constitucional.

Perguntas Frequentes

O que é o novo arcabouço fiscal?

É um regime aprovado pelo Congresso que limita o crescimento das despesas primárias a 70% da variação real da receita, com piso de 0,6% e teto de 2,5% ao ano, deixando os juros da dívida fora de qualquer limite.

Como o arcabouço fiscal representa uma blindagem jurídica?

Por ter força de lei complementar, o arcabouço só pode ser alterado por outra lei complementar, o que, em um parlamento dominado por bancadas do agronegócio, armas e mercado financeiro, funciona como uma camisa de força para governos que priorizem os de baixo.

Por que o texto chama a sangria de 'rentista'?

Porque o Estado limita gastos sociais mas libera os juros, organizando uma transferência sistemática do trabalho para o capital financeirizado, sem reduzir a dívida e aumentando a parcela destinada aos credores.

Qual é a relação entre o arcabouço fiscal e a soberania popular?

O arcabouço asfixia a soberania popular ao retirar do debate democrático as prioridades orçamentárias, entregando o orçamento público aos credores financeiros sem nenhuma votação popular sobre esses compromissos.

O arcabouço fiscal reduz a dívida pública?

Segundo o texto, não. Assim como o antigo teto de gastos, o arcabouço não reduz a dívida, mas aumenta a parcela destinada aos credores, fazendo a classe trabalhadora pagar duas vezes pelo arrocho e pelos tributos.

Judicialização da política: contradições do Estado e estratégia da esquerda

A judicialização da política é uma solução ilusória que esvazia o debate público, desmobiliza a participação popular e mascara as verdadeiras correlações de forças, revelando as profundas contradições de um Estado que opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.

Principais pontos

  • A transferência de decisões políticas para o Judiciário esvazia o debate público e desmobiliza a participação popular.
  • O Judiciário, sob aparência de neutralidade, opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.
  • A forma jurídica não é neutra, mas mediação das relações materiais de produção, sujeita a pressões de classe e interesses econômicos dominantes.
  • Há uma sobrerrepresentação de grandes corporações e do setor financeiro nos tribunais superiores, em contraste com a sub-representação das pautas populares.

Formalismo Legal e Contradições do Estado: A Urgência de uma Estratégia para Nossa Classe

Por Walter Azevedo

Recentemente, assistimos a uma série de impasses políticos que, invariavelmente, encontram seu desfecho ou paralisia nas instâncias judiciais. A disputa em torno do chamado “Marco Temporal” para demarcação de terras indígenas é um exemplo eloquente. O que deveria ser um debate fundamentalmente político, expressão da soberania nacional e da reparação histórica de povos originários, é remetido à última palavra do Supremo Tribunal Federal. Esse fenômeno não é um desvio pontual; revela uma das mais profundas contradições de nossa formação social: a crescente judicialização da política e o caráter estrutural de um Estado que, sob aparência de neutralidade, opera como arena privilegiada dos interesses da classe do capital.

A Miragem da Imparcialidade e a Paralisia Democrática

A judicialização da política manifesta-se como uma espécie de "solução" para impasses que a via legislativa ou executiva não consegue resolver, ou não tem interesse em enfrentar. No entanto, essa "solução" é uma miragem. Ao transferir decisões de alto teor político para o Judiciário, esvaziamos o debate público, desmobilizamos a participação popular e mascaramos as verdadeiras correlações de forças por trás de cada processo. Vemos uma oligarquia política e econômica que, ao invés de construir consenso ou enfrentar o confronto democrático, prefere buscar a chancela judicial para legitimar seus projetos, muitas vezes antinacionais e antipopulares. Este mecanismo tem sido um entrave à concretização de um projeto nacional-popular, subordinando as demandas de nossa classe trabalhadora a interpretações jurídicas que raramente questionam a ordem estabelecida.

Este não é um problema novo. Desde a redemocratização, observamos uma tendência de empoderamento do Judiciário, que se apresenta como guardião da Constituição e da ordem. Contudo, como nos ensina a dialética, a forma jurídica, longe de ser neutra, é mediação das relações materiais de produção. O Judiciário, com sua estrutura e seus membros, não está imune às pressões de classe, aos interesses de grupos econômicos e às influências ideológicas dominantes. Não podemos esquecer que a maior parte das ações que chegam ao STF com relevância política têm, em suas origens, disputas envolvendo grandes corporações, latifúndios, ou a defesa de privilégios que beneficiam diretamente a classe dominante. Dados da Fundação Getúlio Vargas mostram que empresas de grande porte e o setor financeiro estão sobrerrepresentados como partes em processos que ascendem aos tribunais superiores, em contraste com a sub-representação das pautas populares.

O Judiciário como Arena da Luta de Classes

Para compreendermos o que está por trás da superfície, é crucial desvelar o caráter do Estado brasileiro e sua relação com a judicialização. Nosso Estado, inserido em uma formação social de dependência estrutural, como analisado por Ruy Mauro Marini e Theotônio dos Santos, é um Estado que serve aos interesses do capital financeirizado e do imperialismo, mesmo quando ostenta discursos de soberania. A pauta do "Marco Temporal" ilustra isso perfeitamente: ela opõe a garantia dos direitos originários dos povos indígenas — que significa a manutenção de vastas áreas de terras para preservação ambiental e reprodução de modos de vida comunitários — aos interesses do agronegócio exportador e da mineração, pilares da nossa subordinação econômica. O Judiciário, ao arbitrar essa disputa, não atua em um vácuo, mas dentro de uma institucionalidade moldada historicamente para proteger a propriedade privada e a acumulação de capital.

Essa dinâmica não se restringe a grandes temas. Ela se manifesta no cotidiano, na criminalização dos movimentos sociais, na repressão a greves e ocupações, na morosidade em julgar crimes de colarinho branco e na agilidade em punir a pobreza. A luta de classes não se dá apenas nas fábricas ou nas ruas, mas também nos gabinetes dos tribunais, onde se decidem os limites da ação popular e se valida a expropriação de direitos. Em "Como Vencer na Grande Política", argumentamos que a teoria é ferramenta de luta e que a compreensão da natureza do Estado é o primeiro passo para a formulação de uma estratégia eficaz. Ignorar o caráter de classe do Judiciário é armar o inimigo com nossa própria ingenuidade.

Construindo a Hegemonia Popular: Para Além da Judicialização

Diante desse cenário, a esquerda precisa urgentemente de uma estratégia que vá além da mera contestação jurídica ou da esperança em decisões favoráveis. É preciso reconhecer que a via judicial, embora por vezes necessária como tática de contenção, não é o caminho para a construção de um projeto nacional-popular e anticapitalista. A verdadeira superação reside na organização, na politização e na mobilização da classe trabalhadora e de seus aliados. Nossa luta deve ser por construir uma nova correlação de forças na sociedade, capaz de impor seus interesses no legislativo, no executivo e, por extensão, influenciar o próprio caráter do Estado.

Perguntas Frequentes

O que é a judicialização da política?

É a transferência de decisões de alto teor político para as instâncias judiciais, funcionando como uma aparente solução para impasses que o Legislativo e o Executivo não resolvem. Na prática, esvazia o debate democrático e desmobiliza a participação popular.

Por que a judicialização da política é um problema para a esquerda?

Porque mascarar as correlações de forças e subordinar demandas populares a interpretações jurídicas que raramente questionam a ordem estabelecida impede a construção de um projeto nacional-popular e a efetiva concretização dos interesses da classe trabalhadora.

O Judiciário brasileiro é neutro nas disputas políticas?

Não. O texto argumenta que o Judiciário não está imune às pressões de classe, aos interesses de grupos econômicos e às influências ideológicas dominantes, sendo a forma jurídica uma mediação das relações materiais de produção.

Quais são as contradições do Estado brasileiro destacadas no texto?

O Estado brasileiro opera sob aparência de neutralidade, mas funciona como arena privilegiada dos interesses da classe do capital. Dados citados mostram sobrerrepresentação de grandes corporações e do setor financeiro em processos nos tribunais superiores.

Qual é a urgência de uma estratégia para a esquerda diante da judicialização?

A esquerda precisa denunciar a miragem da imparcialidade judicial e reverter a paralisia democrática, resgatando o debate público e a participação popular para que demandas da classe trabalhadora não fiquem subordinadas a interpretações jurídicas que preservam privilégios.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Caça ao PCC: autorização da Casa Branca é luta interimperialista e criminaliza a esquerda

A autorização da Casa Branca para atuar contra supostas redes do PCC esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

Principais pontos

  • A caça ao PCC serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente.
  • A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta.
  • O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.
  • A anatomia é a mesma da Operação Condor, apenas o rótulo muda: agora, em vez de 'subversivos', são 'membros do PCC'.

Interimperialismo e criminalização: a caça ao PCC como arma contra a esquerda e a resposta soberana

Por Walter Azevedo

A Casa Branca autorizou, nos últimos dias, a atuação direta de agências norte-americanas contra supostas redes do Primeiro Comando da Capital em território brasileiro. O pretexto oficial é o combate ao tráfico internacional. A máscara é fina: esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva deliberada para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026.

A máscara da “caça ao PCC” e a disputa interimperialista

Não é a primeira vez que o combate ao crime organizado serve de biombo para a projeção do poder norte-americano no continente. A Doutrina Monroe, a Aliança para o Progresso e a Operação Condor ensinam que a política de segurança hemisférica sempre buscou subordinar os Estados latino-americanos ao comando de Washington. Com o aprofundamento da crise do modo de produção e a ascensão de novos polos de acumulação, a disputa entre frações do capital transnacional se acirra. A China amplia investimentos em infraestrutura e tecnologia na região; o capital financeirizado sediado nos EUA responde com militarização e sanções seletivas.

Ao transformar o PCC em alvo prioritário, a Casa Branca cria precedentes para intervenções unilaterais e constrange o Estado brasileiro a adotar protocolos que ferem a soberania nacional. A lógica é a mesma descrita por Lênin em Imperialismo, fase superior do capital: a exportação de capitais e a partilha do mundo entre trustes exigem instrumentos políticos e militares de contenção. Aqui, a classe dominante interna — dependente e associada — aplaude a chegada das agências estrangeiras, pois vê nelas um aliado para reprimir as camadas populares que ameaçam a ordem.

Criminalização dos movimentos populares e constrangimento eleitoral

A categoria “organização criminosa” perdeu seus contornos jurídicos e virou um saco de gatos onde cabem cooperativas de reciclagem, associações de moradores, coletivos de luta por moradia e até centros de formação política. Quando a lista de sanções da Casa Branca inclui nomes de lideranças comunitárias, pastores de rua e advogados populares, não estamos diante de um erro de alvo, mas de uma tática deliberada. O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.

Lembremos que a Operação Condor, nas décadas de 1970 e 1980, utilizou a cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda, acusados de “subversão”. A anatomia é a mesma, apenas o rótulo muda: agora, em vez de “subversivos”, são “membros do PCC”. A imprensa concentrada, controlada por meia dúzia de famílias rentistas, reproduz a narrativa do “narcoterrorismo” sem questionar a origem dos dados nem os interesses por trás. Enquanto entidades comunitárias recebem a pecha de “narcoterroristas”, grupos paramilitares de extrema direita e milícias que controlam territórios no Rio de Janeiro jamais receberam a mesma classificação por Washington. A seletividade revela a função política da lista.

Para a nossa classe, o recado é claro: qualquer organização que ouse questionar a financeirização, a especulação imobiliária ou a superexploração será marcada como cúmplice do crime. Não é por acaso que as sanções atingem territórios periféricos onde a esquerda constrói bases. A mensagem subliminar é a de que quem defende reforma agrária, teto de juros ou redução da jornada é aliado do tráfico. Essa associação espúria constrange dirigentes partidários e sindicais, empurrando a esquerda institucional para a defensiva e esvaziando a autonomia das bases.

Soberania como trincheira: tática de resistência

Diante dessa ofensiva, a defesa da soberania nacional deixa de ser um bordão abstrato e se torna condição material para a luta de classes. Precisamos rejeitar qualquer acordo que autorize a atuação direta de agências estrangeiras em nosso território, exigir que toda cooperação passe pelo crivo do Congresso e pelos tratados internacionais, e denunciar o uso político das listas de sanções. A subordinação financeira que drena nossa riqueza para o capital rentista se expressa também na esfera policial: quem aceita a ingerência econômica aceita a ingerência repressiva.

Nossa tática de resistência soberana passa por três eixos:

  • Desmascarar a narrativa: mostrar que a “caça ao PCC” é uma cortina de fumaça para a militarização da América do Sul e para o constrangimento da esquerda. Cada sanção deve ser exposta como ato de agressão econômica e política.
  • Fortalecer a organização de base: multiplicar comitês de defesa da soberania nos bairros, sindicatos e universidades, articulando as lutas por moradia, trabalho e educação com a denúncia da ingerência imperialista.
  • Pressionar o Estado brasileiro: a classe trabalhadora deve exigir que o governo não se curve a Washington, rejeitando a inclusão de entidades populares em listas estrangeiras e cobrando reciprocidade diplomática.

Como já insisti em Como Vencer na Grande Política, a soberania não é um valor abstrato: ela é a capacidade de um povo definir os rumos da sua formação social. Sem soberania, não há projeto nacional-popular. E sem organização de classe, não há soberania. A luta contra a criminalização dos movimentos populares é a mesma luta contra o capital financeirizado e sua face bélica.

“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” — Karl Marx, Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores

A autorização da Casa Branca não é um episódio isolado. Ela se insere na ofensiva interimperialista para recolonizar a América Latina e esmagar qualquer experiência de resistência. Nossa resposta não pode ser apenas jurídica ou eleitoral: tem que ser política, de massas e internacionalista. Que as eleições de 2026 não nos distraiam da trincheira principal: a defesa intransigente da soberania, hoje ameaçada pela Casa Branca e por seus capatazes locais. Sigamos em luta. A história não espera.

Perguntas Frequentes

O que a autorização da Casa Branca contra o PCC realmente esconde?

Esconde uma disputa interimperialista pelo controle da América do Sul e uma ofensiva para criminalizar movimentos populares que disputam hegemonia no ciclo eleitoral de 2026, conforme aponta o texto.

Como a caça ao PCC pode criminalizar movimentos populares?

A categoria 'organização criminosa' perdeu contornos jurídicos e passou a incluir cooperativas de reciclagem, associações de moradores e coletivos de luta, transformando lideranças comunitárias e advogados populares em alvos deliberados.

Qual é o paralelo histórico citado no texto?

O texto compara a atual ofensiva à Operação Condor, que nas décadas de 1970 e 1980 usou cooperação policial sob hegemonia dos EUA para perseguir sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda acusados de 'subversão'.

Por que a esquerda é alvo dessa ofensiva?

O objetivo é duplo: deslegitimar a esquerda perante a opinião pública e abrir caminho para processos judiciais que inviabilizem candidaturas progressistas em 2026.

Qual tática de resistência soberana o texto aponta?

O texto não detalha uma tática explícita no trecho analisado, mas aponta a necessidade de reconhecer a máscara da caça ao PCC como instrumento de subordinação e de responder com resistência à intervenção unilateral que fere a soberania nacional.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Luta de classes na campanha de Lula: passado esconde rendição

O contraste entre a evocação do passado de lutas e as alianças atuais de Lula com o capital financeiro e o agronegócio não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

Principais pontos

  • A memória das lutas históricas, isolada da prática presente, torna-se fetiche e instrumento de desmobilização.
  • A campanha sela acordos com o alto comando do capital, incluindo partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade.
  • A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros acima de 13% ao ano e orçamento sequestrado pelo serviço da dívida.
  • A soberania nacional é trocada por acordos comerciais como o tarifário com os EUA, que aprofundam a subordinação estrutural ao imperialismo.

O passado como escudo e a rendição presente: a disputa de classes na campanha de Lula

Por Walter Azevedo

Nos comícios de 2026, as telas exibem metalúrgicos em greve no ABC, assembleias lotadas, embates contra a repressão. Lula sobe ao palco e evoca a coragem daqueles tempos, arrancando aplausos. Poucos metros abaixo, sentam-se representantes do sistema financeiro, do agronegócio e de grupos que ontem apoiaram o esfacelamento da CLT. Esse contraste não é mera diplomacia eleitoral; é a expressão viva da luta de classes que perpassa a campanha.

O espetáculo da memória

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das lutas históricas. Documentários, vídeos com imagens das greves de 1978-1980, discursos que remetem à criação do PT. Essa evocação tem função mobilizadora: reacender a identidade de classe dos trabalhadores. Mas a memória, isolada da prática presente, torna-se fetiche. Não basta lembrar que já fomos explorados e lutamos; é preciso ver o que se faz hoje com as mãos que antes empunhavam bandeiras.

A nostalgia é um véu poderoso. Ela oferece um passado heroico como consolo diante de um presente de derrotas simbólicas e materiais. Enquanto as telas mostram operários de macacão, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem a manutenção do arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos. A memória vira instrumento de desmobilização: se já lutamos, por que lutar de novo?

A rendição ao capital financeiro

O contraste é brutal. Enquanto os comícios exaltam o passado de combatividade, a campanha sela acordos com o alto comando do capital. A composição de alianças inclui partidos que apoiaram o golpe e hoje barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida não rompe com a lógica rentista: juros que ultrapassam 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida — como analisamos em nossa crítica à dívida pública — e a manutenção das metas fiscais impostas pelo mercado. Quase metade dos trabalhadores brasileiros permanece na informalidade, sem proteção social, enquanto o capital financeiro drena recursos do Estado.

Isso não é apenas realismo eleitoral; é capitulação diante da classe do capital e do imperialismo. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que reforçam a dependência, como o acordo tarifário com os EUA, que aprofunda a subordinação estrutural. A campanha opera dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece, sem ousar desafiá-los.

A disputa de classes desnudada

A evocação do passado serve, nesse contexto, como escudo ideológico. Ela oculta o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio. Há um cálculo político: mobilizar a base para garantir votos, mas também sinalizar previsibilidade ao mercado para garantir financiamento e espaço na mídia. Resultado: um discurso duplo que desarma a classe trabalhadora, fazendo-a crer que a luta pelo passado garante o futuro, enquanto as estruturas de exploração permanecem intactas.

Os fatores em jogo são claros. De um lado, a pressão do capital financeirizado por juros altos e cortes em direitos sociais. De outro, a aliança com setores que jamais aceitaram a participação popular no orçamento. A correlação de forças pende para o capital, e a campanha se adapta a essa geometria. A contradição é totalizante: a mesma figura que evoca greves históricas negocia com quem as combateu. A mediação necessária — a organização autônoma dos trabalhadores — é empurrada para segundo plano.

Organizar para superar

A saída não está em rejeitar a memória, mas em submetê-la à crítica da práxis. O passado de lutas só tem sentido se orientar a ação presente rumo à superação da ordem vigente. Isso exige organização política independente, construção de um projeto nacional-popular que enfrente a dependência e a sangria financeira, e não se contente com gestos simbólicos. Como escrevi em Como Vencer na Grande Política, as classes sociais se enfrentam no terreno da política concreta; a consciência de classe se forja na luta, não na contemplação do passado.

Precisamos retomar as bandeiras históricas sem aceitar a capitulação: reforma agrária, auditoria da dívida, soberania tecnológica e redução da jornada de trabalho, como apontamos em nossa análise sobre a jornada. A classe trabalhadora não pode se contentar com a memória como fetiche; é preciso transformar a lembrança em programa de luta.

Referências

Perguntas Frequentes

Como a evocação do passado de lutas esconde a capitulação presente?

A campanha de Lula investe na reconstrução da memória das greves e da criação do PT para reacender a identidade de classe, mas essa memória isolada da prática presente torna-se fetiche. Enquanto as telas mostram operários em luta, os acordos de bastidores costuram alianças com partidos que defendem o arrocho fiscal e a privatização de serviços públicos.

Quais alianças revelam a rendição de Lula ao capital financeiro?

A campanha sela acordos com partidos que apoiaram o golpe e barganham cargos em troca de governabilidade. A política econômica prometida mantém juros acima de 13% ao ano, um orçamento sequestrado pelo serviço da dívida e metas fiscais impostas pelo mercado, sem romper com a lógica rentista.

Qual é o papel da memória na campanha de Lula?

A memória das greves de 1978-1980 e da criação do PT tem função mobilizadora, mas isolada da prática presente torna-se fetiche. A nostalgia oferece um passado heroico como consolo diante de derrotas simbólicas e materiais, transformando a memória em instrumento de desmobilização da classe trabalhadora.

Como o acordo tarifário com os EUA aprofunda a subordinação?

O acordo tarifário com os EUA reforça a dependência estrutural do Brasil. A soberania nacional, bandeira histórica, é trocada por acordos comerciais que aprofundam a subordinação ao imperialismo, operando dentro dos limites que o capital financeirizado estabelece.

O que a disputa de classes na campanha de Lula evidencia?

A disputa de classes fica evidente no contraste entre os comícios que exaltam o passado de combatividade e as alianças com o sistema financeiro e o agronegócio. A evocação do passado serve como escudo ideológico para ocultar o alinhamento presente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio.

Democracia mais antiga dos EUA e a punição imperialista ao Haiti

A punição ao Haiti nasce de uma necessidade estrutural: disciplinar o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder, expondo a contradição entre a retórica da democracia mais antiga dos EUA e a prática imperialista.

Principais pontos

  • O Haiti, primeiro país a abolir a escravidão e a conquistar independência por meio de uma revolução social vitoriosa, segue pagando pelo crime de ter virado a mesa no jogo colonial.
  • Em 1825, a França impôs à jovem república uma indenização de 150 milhões de francos-ouro apenas para reconhecer a soberania que os canaviais queimados já haviam imposto.
  • A ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934 reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro.
  • Castigar o Haiti não é vingança de senhores saudosos; é expressão da luta de classes em escala internacional.
  • O capital financeirizado precisa de periferias disciplinadas, e o Haiti — nascido de uma revolução social — é a negação viva da ordem que o Norte pretende impor.

Dialética da punição: a “democracia mais antiga” contra a memória da revolução haitiana

Por Walter Azevedo

Enquanto Washington celebra o rótulo de democracia mais antiga do mundo, aviões fretados decolam de aeroportos da Flórida levando haitianos algemados de volta ao caos que o próprio poder imperial ajudou a criar. Não se trata de exceção, mas de método. O Haiti, primeiro país a abolir a escravidão e a conquistar independência por meio de uma revolução social vitoriosa, segue pagando pelo crime de ter virado a mesa no jogo colonial. A punição não nasce de rancor moral, e sim de uma necessidade estrutural: disciplinar o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder.

Em 1825, a França impôs à jovem república uma indenização de 150 milhões de francos-ouro apenas para reconhecer a soberania que os canaviais queimados já haviam imposto. Convertida aos valores atuais, a cifra se aproxima de 21 bilhões de dólares. Esse foi o preço cobrado pela liberdade, pago em suor, fome e dependência por gerações. A retórica da democracia exportada encontra aqui seu limite exato: liberdade para o capital circular, punição para quem ousa romper a ordem do trabalho subordinado.

A farsa democrática e o castigo à insubordinação

Washington insiste que espalha instituições livres pelo mundo. Basta mirar o Haiti para medir o fosso entre o discurso e a prática. Após 1804, nenhuma potência colonial estendeu a mão. Ao contrário: isolaram o país, impuseram embargos e ameaçaram recolonização. A ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934 reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro. O golpe de 2004 contra Jean-Bertrand Aristide, articulado com fundações do establishment ianque, repetiu o ciclo de asfixia e recolonização branda.

Os mecanismos de castigo mudam de roupa, jamais de essência:

  • Endividamento público induzido para submeter o erário à banca privada;
  • Ocupações militares que desorganizam as forças populares e criminalizam a resistência;
  • Deportações em massa que criminalizam a migração e lançam trabalhadores de volta à miséria;
  • Ajuda externa condicionada à desregulamentação, à abertura comercial e à privatização de serviços.

Cada item esconde uma transferência de riqueza do trabalho haitiano para o capital financeirizado. A dívida pública e os juros altos não são abstrações contábeis; são o instrumento cotidiano dessa sangria.

A luta de classes como chave de leitura

Castigar o Haiti não é vingança de senhores saudosos. É expressão da luta de classes em escala internacional. O capital financeirizado precisa de periferias disciplinadas, e o Haiti — nascido de uma revolução social — é a negação viva da ordem que o Norte global impõe. Ruy Mauro Marini, ao analisar a superexploração da força de trabalho na periferia, mostrou como as burguesias dependentes compensam a perda de mais-valia transferindo-a para o centro. No Haiti, essa superexploração atinge níveis extremos: remessas de migrantes sustentam o que o Estado não entrega, enquanto a elite local, associada ao capital externo, lucra com a desgraça e atua como testa de ferro do imperialismo.

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

Marx descreve com precisão o terreno em que as massas haitianas resistem hoje. Não lutam apenas contra gangues armadas, mas contra uma arquitetura de dívida, despossessão e criminalização. Cada deportação é um ato de guerra social contra a memória de 1804. A subordinação estrutural que se negocia em acordos tarifários segue a mesma lógica: manter a periferia de joelhos para que o centro respire.

Memória como trincheira estratégica

A memória da revolução haitiana é a chave de leitura que a “democracia mais antiga” tenta apagar. C.L.R. James, em Os Jacobinos Negros, demonstrou que a luta em São Domingos foi o laboratório da revolução atlântica, antecipando a abolição em quase um século. Ex-escravizados derrotaram três impérios — o francês, o inglês e o espanhol. Essa experiência foi deliberadamente banida dos currículos e da mídia porque ensina que emancipação real exige ruptura com a propriedade privada dos meios de produção. Não por acaso, Washington prefere celebrar fundadores escravistas a lembrar Toussaint L’Ouverture.

A síntese dialética é esta: a hipocrisia democrática dos EUA é funcional à dominação de classe. A retórica de liberdade esconde transferências de valor e violência imperial. No Haiti, o passado revolucionário é um espelho que a burguesia do Norte não quer encarar. Nossa tarefa, como classe trabalhadora, é romper o silêncio. Incorporar a experiência haitiana ao programa nacional-popular latino-americano, conectar as lutas contra deportação e endividamento e construir solidariedade concreta com as organizações de base haitianas que mantêm viva a chama de 1804. A esquerda latino-americana só avança quando assume o fardo dessa memória.

A luta de classes não é um jogo de palavras. É disputa pelo sentido da história. O Haiti prova que a liberdade não se negocia; conquista-se. E que a punição imperialista só termina quando os trabalhadores dos países dominantes se recusam a ser cúmplices e os trabalhadores da periferia tomam o poder. A memória é uma trincheira. Leiamos James, estudemos Marini, relembremos Dessalines. E avancemos.

Perguntas Frequentes

Por que os EUA punem o Haiti apesar da retórica democrática?

A punição nasce de necessidade estrutural: o Haiti é o único território das Américas onde os escravizados tomaram o poder, e disciplinar esse exemplo expõe a contradição entre a democracia exportada e a ordem imperial.

Qual foi o preço cobrado pela independência do Haiti?

Em 1825, a França impôs indenização de 150 milhões de francos-ouro só para reconhecer a soberania haitiana. Convertida, a cifra se aproxima de 21 bilhões de dólares, paga com suor, fome e dependência por gerações.

Como a ocupação militar dos EUA afetou o Haiti?

De 1915 a 1934, a ocupação reescreveu a Constituição haitiana para abrir terras e minérios ao capital estrangeiro, desorganizando forças populares e criminalizando a resistência.

O que o Haiti representa para a luta de classes internacional?

O Haiti é a negação viva da ordem que o capital financeirizado precisa impor. Castigá-lo é expressão da luta de classes em escala internacional, buscando periferias disciplinadas.

Quais mecanismos de castigo são usados contra o Haiti?

Endividamento público induzido, ocupações militares, deportações em massa e ajuda externa condicionada à desregulamentação e privatização, cada item transferindo riqueza do trabalho haitiano ao capital financeirizado.